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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

ESPECIAL: DAMAGES

★★★★★★★
Título: Damages
Ano: 2007-2012
Gênero: Suspense, Drama, Crime
Classificação: 16 anos
Direção: Vários
Elenco principal: Glenn Close, Rose Byrne
País: Estados Unidos
Duração: 60 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Sobre uma recém-formada em direito contratada para trabalhar junto com uma das mais poderosas e influentes advogadas de Nova York, que vê na jovem uma oportunidade de transformá-la em sua pupila e ter a possibilidade de deixar o seu legado para alguém ambicioso o suficiente para isso. Mergulhando em jogos de intrigas pelo poder e ambição, tanto pessoais quanto de seus clientes, ambas farão de tudo para alcançar o que querem, resultando em perdas e danos irreparáveis e que nenhuma delas ousou imaginar.

O QUE TENHO A DIZER...
Nessas cinco temporadas de Damages foi possível observar de tudo, desde como um seriado consegue um sucesso praticamente imediato, sua força de persuasão e atuações incríveis, até seu declínio e a facilidade de um show de TV perder a conexão com a sua audiência tão rapidamente como conquistou. Tudo isso foram fatores importantes para perceber que, sim, ainda é complicado manter um seriado na televisão, e ao mesmo tempo que o público busca algo diferente, ele necessita de informações fáceis e clichés que os conectem a algo, o que os criadores de Damages não conseguiram muito bem ao longo dos anos.

Mas sem dúvida que Damages foi um dos melhores seriados a ter estreiado em 2007, não pela sua história que é bastante fictícia - mesmo cada uma das temporadas terem sido baseadas em importantes casos jurídicos nos Estados Unidos - mas pela forma como elas foram contadas em paralelo à trama principal, e principalmente pelas atuações e a química tensa e sincronizada das protagonistas.

Glenn Close dispensa qualquer comentário. Sempre foi e será magnífica em qualquer papel. Neste show em particular ela é fabulosamente assustadora, com uma personagem sem escrúpulos e que sofre de um narcisismo compulsivo e psicótico. Concordo que seja um desperdício de talento ver uma atriz da sua categoria trabalhando em um seriado de televisão, mas ao mesmo tempo é um imenso privilégio ter essa possibilidade.

Rose Byrne também foi uma grande surpresa e o seriado foi responsável pela sua grande estréia ao tirá-la do patamar de atriz desconhecida e colocá-la em um status de uma das novas atrizes mais requisitadas atualmente tanto na televisão quando no cinema. Australiana, já havia estrelado alguns filmes pequenos e que chamaram a atenção da mídia e da crítica, como no filme Extermínio 2 (28 Weeks Later, 2007), continuação do filme de terror dirigido por Danny Boyle em 2002, de grande sucesso e que conquistou uma legião de fãs pelo mundo. Rose atualmente atravessa por uma fase de ascenção em Hollywood depois do enorme sucesso de Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids, 2011) e pela grande aceitação que teve como Dra. Moira MacTaggert em X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class, 2011).

Durante o quinto episódio da primeira temporada, Patty Hewes (Gleen Close) diz a Ellen Parsons (Rose Byrne) para não confiar em ninguém. O seriado inteiro se desenvolve em torno deste aviso porque tudo é um segredo, ninguém é de confiança e nada é o que parece ser. Todos os elementos de um bom enredo de crime e suspense estão lá. Alguns clichés existem, mas são importantes para o desenvolvimento e o interesse de quem assiste.

A primeira temporada, baseada no escândalo da Companhia Enron, que levou centenas de pessoas à falência nos EUA, foi de enorme sucesso de crítica e público, com todos os melhores elementos que seriados de televisão como este deveriam ter. Seu episódio final foi surpreendente o bastante para que todos esperassem pela segunda temporada com grande entusiasmo. Os criadores da série não acreditavam que teria a repercurssão que teve e imediatamente o canal FX aprovou a produção da segunda e terceira temporada.

Com quase um ano e meio de atraso, a segunda temporada estreiou, sendo baseada na crise de energia na Califórnia. Os mesmos elementos de flashback e flashforward que caracterizaram o seriado voltaram à tona, apresentando um enredo novo, indefinido e que parecia surpreendente tanto quanto fora a temporada anterior. Mas conforme os episódios foram passando as coisas se mostraram muito mais confusas do que um interessante quebra-cabeças. O espectador deixou de ser uma parte ativa no desenvolvimento, e sua função de descobrir junto com os personagens os mistérios e segredos, havia sumido. A audiência ficou passiva, desafiada o tempo todo com mudanças bruscas na trama, pistas falsas inconclusivas e absurdas que não serviam para nada além de enganar sem motivo. Houve a participação de atores de forte calibre como William Hurt e Marcia Gay Harden, esta última, em um papel esquecível e que não aproveitou de seus potenciais em nenhum momento, tanto para acréscimo do seriado, quanto para o enredo, com uma personagem que tinha tudo para oferecer muito mais do que havia sido proposto. O fim foi uma resolução banal e sem continuidade ou qualquer fundamento, perdendo os elementos e características que fizeram a primeira temporada algo especial e um tanto inovadora no gênero. A desconexão e o desinteresse do público começou aí. Aos poucos as pessoas deixaram de assistir o seriado por acharem a temporada confusa e inferior.

A terceira temporada, baseado nos esquemas fraudulentos do empresário Bernie Madoff, seguiu a mesma tragetória. Sendo talvez a pior temporada, mesmo com um elenco novamente estelar que incluia a veterana e desperdiçada Lily Tomlin, que foi escalada para o papel por ter expressado a um dos criadores e roteiristas que era uma grande fã do seriado. Ao longo da temporada parecia que os roteiristas não sabiam mais o que estavam fazendo ou que direcionamento dar aos personagens, chegando até mesmo a matar um dos principais, Tom Shayes (Tate Donovan), um personagem que tinha grandes oportunidades para crescer e desempenhar outros papéis nas tramas, mas que nunca foi desenvolvido.

A audiência despencou porque o público de Damages era diferenciado, de pessoas que estão acostumadas e procuram produtos mais elaborados. Os fãs não gostaram dos rumos inferiores nos argumentos e histórias muito mal desenvolvidas. O preço dos episódios ficou muito caro (apenas o salário de Glenn Close era de aproximadamente US$200 mil/episódio, considerado alto para os padrões de canais fechados). O canal FX ficou em dúvida entre cancelar ou não o seriado porque, embora a audiência fosse ruim, o seriado era uma boa publicidade para o canal devido a suas participações em premiações importantes como Emmy e Globo de Ouro. Glenn Close chegou a ser premiada com um Globo de Ouro em 2008 e dois Emmy (um em 2008 e o outro em 2009). Rose Byrne também foi indicada algumas vezes tanto para o Emmy quanto para o Globo de Ouro. Por fim, a DirecTV demonstrou interesse em salvar o show de um fim repentino, pegando carona no poder publicitário que ele tinha. A companhia passou a produzí-lo, alegando que a audiência fiel atingia o número esperado para o canal e que o seriado ainda tinha muito a oferecer. O contrato estipulado era para a produção de mais duas temporadas de apenas 10 episódios cada, ao invés de 13, o que acabou compactando muito mais as histórias e amenizando o número de tramas paralelas dispensáveis.

A quarta temporada estreiou no canal Audience Network, sendo levemente baseado na companhia militar privada norte-americana, a Blackwater. As mudanças foram nítidas e o seriado voltou ao seu clima de mistérios e crimes envolvendo personagens de alto escalão político em um roteiro que novamente resgatou as características da primeira temporada. Diferente das duas temporadas anteriores, não houve reviravoltas enganosas ou absurdas que pudessem chamar o espectador de tolo, não havia pegadinhas, havia um enredo desconstruído e que se encaixava conforme os episódios eram apresentados, exatamente como foi na primeira temporada. A impressão que se tem é que fizeram questão de esquecer que a segunda e terceira temporada existiram, pois elas não são citadas em momento algum. Mesmo assim a audiência não subiu, e a quinta temporada foi decisiva para que o seriado colocasse um fim à épica rivalidade entre Patty Hewes e Ellen Parsons.

A temporada 2012, dessa vez baseada nos escândalos que envolveram Julian Assange, seu Wikileaks e algumas acusações de abuso sexual, fechou de forma satisfatória o ciclo das duas protagonistas, tendo íntima relação com os acontecimentos da primeira temporada. As temporadas anteriores são citadas por vários momento, seja em referências diretas ou não, mas nada muito importante ou que precise realmente ser revisto porque, além de serem desinteressantes, não acrescentam nada à conclusão da trama. Sem dúvida foi uma temporada para satisfazer o público fiel, finalmente respondendo questões que pairavam no ar há muito tempo. Os interesses de Patty e Ellen ficaram muito mais evidentes, bem como a personalidade de cada uma chegou ao limite para ambas. Por um lado temos Patty Hewes que durante as temporadas mostrou ter cada vez mais poder e influência ao ponto de ser indestrutível. Por outro temos Ellen Parsons que de uma mera protegida se transformou em uma mulher cada vez mais confiante e poderosa, que entrou no jogo com unhas e dentes para ganhar, custe o que custar.

O seriado foi concluído sem um grande conflito entre as protagonistas, tudo muito pacífico e limpo, como Ellen mesmo afirma no último episódio. Isso pode ser um pouco frustrante para quem esperava uma atitude mais impensada e impulsiva, mas por outro ponto de vista também é interessante e de alto nível por parte do roteiro que não ignorou a evolução de Ellen Parsons durante as temporadas, personagem que deixou sua impulsividade de lado ao longo do seriado, se tornou cada vez mais contida, enigmática e calculista, até sua postura e imagem ficaram mais confiantes ao longo dos anos. Enquanto isso Patty Hewes apenas a observava sem o menor esforço, vendo sua discípula amadurecer a cada novo passo, como uma criança, se gabando e prevendo cada estratégia, porque ela mesma já passou pelas mesmas experiências de Ellen.

A temporada conclusiva conseguiu ser surpreendente por diversas vezes, obrigando-nos a manter nossa atenção até o último episódio tal qual aconteceu na primeira temporada, balanceando as pistas e seqüências aleatórias entre conclusões simples e completamente diferentes do que a audiência poderia suspeitar, com outras mais dramáticas e inesperadas. O cliché aparece o tempo todo, mas como dito anteriormente, importantes para o desenvolvimento e a conclusão da busca e da espera de cada uma, das perdas e dos danos, e o preço que cada uma delas teve de pagar para conquistar o que queria. O diálogo final entre ambas é breve, discreto, e ao mesmo tempo um deja vu sombrio e determinista que termina em um silêncio seco e engasgado. Não foi um final aparentemente feliz, mas tenso e satisfatório.

CONCLUSÃO...
Damages pode ter tido muitas falhas, principalmente na segunda e terceira temporada, que são esquecíveis e dispensáveis, mas o seriado todo ofereceu uma qualidade cinematográfica de atuação e desenvolvimento de trama raramente vista na televisão, tal qual a química entre duas grandiosas atrizes: uma veterana que já atingiu a perfeição de sua técnica, e uma novata que conseguiu se manter à altura. Um paradoxo até que bastante interessante entre suas personagens.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

PSEUDO-FILOSOFIA...

★★★★★★
Título: Prometheus
Ano: 2012
Gênero: Ficção Científica, Drama, Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Ridley Scott
Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Logan Marshall-Green, Idris Elba, Guy Pearce
País: Estados Unidos, Reino Unido
Duração: 124 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A tripulação da nave Prometheus finalmente chega a um planeta desconhecido depois de 2 anos e meio de viagem para uma exploração intencionada a descobrir as origens da raça humana.

O QUE TENHO A DIZER...
Não é novidade para quem gosta de cinema que Ridley Scott não é mais o mesmo de antigamente. Por ser dono de três importantes títulos como Alien (1979), Blade Runner (1982) e Thelma & Louise (1991), a impressão que tenho é que o mito ficou maior do que a verdade, e esse tão falado "visionarismo" do diretor nada mais foi do que uma mera "ousadia" no tempo certo. Alien, o cult classic favorito dos amantes da ficção científica, foi um sucesso. Teve um custo de US$11 milhões na época, e arrecadou mais de US$185 milhões no mundo, sem falar de seus relançamentos em DVD e versões extendidas, remasterizadas e em alta definição no cinema ao longo dos anos e que contribuiram para o aumento desses números.

Agora, uma curiosidade é que, ao contrário do que parece, Blade Runner não foi o sucesso que a mídia reporta. Foi um filme praticamente fadado ao fracasso, que ficou conhecido apenas no circuito alternativo e demorou anos para ser assimilado pelo público mais popular, tanto que o filme original sofreu várias mudanças até chegar no formato que conhecemos. Com um custo de aproximadamente US$28 milhões, arrecadou suados US$32 milhões só nos EUA. Ou seja, o sucesso de Blade Runner é mais boato do que fato. Seu sucesso comercial foi acontecer apenas ao longo dos anos e da insistência com os constantes relançamentos em home vídeo e diferentes versões no cinema. Óbvio que isso não diminui a qualidade do filme e do seu poder de referência, mas quebra bastante o paradigma de que Ridley Scott é dono de dezenas de sucessos. Alguns poucos sucessos subsequentes, incluindo o de Thelma & Louise, só foram conquistados em cima desse falso marketing.

A última grande investida do diretor foi em Gladiador (Gladiator, 2000), novamente muito mais uma aposta de sorte do que de visionarismo, e que trouxe de volta um estilo que não deu muito certo nas mãos de outros diretores, incluindo dele mesmo, quando tentou repetir esse sucesso com Cruzada (Kingdom Of Heaven, 2005), um grande fracasso comercial.

A história de um quinto filme da série Alien surgiu como um boato ainda no começo de 2000, quando Ridley Scott e James Cameron, juntamente com Sigourney Weaver, demonstraram interesse em voltar para mais um filme da franquia. Mas enquanto o roteiro estava sendo desenvolvido, o estúdio deu sinal verde para o lançamento do terrível crossover Alien Vs. Predador (2004). Alegando que este lançamento teria repercurssão negativa para a série, James Cameron desistiu do projeto e ninguém mais voltou a falar sobre o assunto.

Em 2009, a nova onda dos reboots por conta do sucesso da série Batman, de Christopher Nolan, trouxe novas possibilidades e a Fox resolveu fazer o mesmo com a série Alien e uma pré-sequencia havia sido confirmada desde que Ridley Scott retornasse para a direção. A pré-produção sofreu diversas mudanças criativas e de desenvolvimento e no fim das contas Ridley Scott afirmou que, embora a idéia do filme tenha sido inspirada na série Alien e que a história se passe no mesmo universo, o processo criativo desenvolveu uma nova idéia, em um filme completamente diferente que se basearia na mitologia e na criação do universo.

De fato, a história até puxa algumas referências que explicam - dentre várias coisas que explicam ou deixam sem explicar - a origem da espécie humana e alienígena, mas o filme parte de um princípio completamente diferente da série Alien, e que realmente o classifica como uma história única, e não uma pré-continuação.

Prometeus é o nome de um titã da Mitologia Grega que roubou o fogo dos deuses para que os homens pudessem usar para seu progresso e civilização. Por conta disso ele foi condenado ao sofrimento, sendo amarrado em uma rocha onde todas as manhãs uma águia comeria o seu fígado, que regeneraria para ser novamente devorado no dia seguinte, e assim por toda a eternidade.

A história e a moral desenvolvida no filme segue particularmente a linha mais romântica de Prometeus, a do herói titã que se transformou em símbolo da bravura humana e do conhecimento, mas que também significou o risco de ultrapassar os limites até suas últimas consequências, já que seus esforços em incentivar o progresso e a melhoria dos homens também resultou na sua própria tragédia. Em resumo significaria o homem brincar de deus, e ao criar algo que possa favorecê-lo, também cria algo que volta-se contra ele mesmo.

Ao contrário do que parece ser, Prometeus não é um filme de horror científico tal qual é a série Alien. É muito mais um drama científico do que qualquer outra coisa. Lento e com basicamente apenas três grandes sequências de ação durante suas mais de duas horas, pode fazer muitas pessoas ficarem um pouco desapontadas ou frustradas.

A verdade é que Ridley Scott, juntamente com os roteiristas Jon Spaihts e Damon Lindelof, tentaram fazer desse filme uma obra pós-moderna de ficção científica tal qual Alien ou Blade Runner significaram em seu tempo. O uso da mitologia grega ou suméria (e até de outras culturas similares na sua construção) para justificar a busca pela origem humana, é bastante evidente, o que não caracterizaria o material como algo original, embora ele também apresente alguns poucos elementos próprios. A história também tenta afirmar que a religião que é baseada na ciência, e não o contrário, como muita gente acredita. Mas a aproximação dessas duas linhas de pensamento tão distintas e de como isso é feito chega a ser muitas vezes até subliminar, talvez para evitar polêmicas ou conflitos desnecessários. Tanto é assim que a personagem principal, a cientista Elizabeth Shaw (Noomi Rapace), se mostra uma cristã devota principalmente em uma das sequencias finais, quando ela pede perdão por ter ido tão longe, convergindo para o princípio religioso do abuso do poder dado aos homens e as duras consequências colhidas por seus atos de grandeza.

Obviamente que a grande característica do filme, e que o encaixa como um material dentro do universo proposto (ou "DNA Alien", como disse Ridley Scott), é o visual obscuro, metalizado e biomecânico resgatado do primeiro Alien, legado do diretor de arte Roger Christian e do artista plástico surrealista H. R. Giger. Os cenários grandiosos e o uso do 3D para ampliar a sensação de profundidade é o que mais tem chamado a atenção, mais do que a própria história. Isso acontece porque ela em si se mostra um tanto redundante, andando em círculos e esclarecendo quase nada. O espectador não consegue respostas para muitas das situações que são jogadas na sua frente sem qualquer relevância. Não dá pra entender muito bem qual a função de algumas determinadas coisas, como a da substância negra, que ao mesmo tempo que destrói também desenvolve (ou muta). Além disso, há um número desnecessário de atores no elenco. Muitos deles estão lá apenas para desvirtuarem propósitos ou darem falsas pistas gratuitamente, novamente sem relevância alguma para o desenvolvimento da história.

Achei essa inutilidade de personagens talvez o mais revoltante de todo o filme, pois não há como o espectador evitar de prestar atenção nesses detalhes e no fim se sentirem enganados para nada. São elementos que foram utilizados até a exaustão na série Alien e demais filmes de ação espacial, mas que hoje em dia se transformaram em clichés previsíveis e que não funcionam, gerando mais revolta do que expectativa. Não dá para entender, por exemplo, o motivo de Guy Pearce atuar como o velho Peter Weyland e aquela tenebrosa maquiagem visivelmente falsa, ou qual é exatamente a função de Charlize Theron como Meredith Vickers além de uma revelação tipicamente Guerra-Nas-Estrelas-de-ser.

A verdade é que muita gente não vai conseguir engolir muito bem essa pseudo-filosofia existencialista que o filme tenta propor. É um filme confuso, pois mesmo sua moral sendo bastante interessante e baseada em alguns fundamentos religiosos e míticos fortes, a ficção e o exagero de elementos desnecessários para forçar um clima de suspense e medo acabam não tendo a eficiência que deveriam justamente pelo excesso de intenção. Ridley Scott definitivamente tem se mostrado um diretor comum, que carrega em si apenas o peso do nome e da importância de alguns poucos títulos na história do cinema.

CONCLUSÃO...
Prometheus poderia ter sido um grande retorno e um filme tão grandioso quanto seus cenários, mas resultou num produto banal, inconclusivo, com um elenco grandioso e que muitos deles estão lá apenas para atrair público, não acrescentando qualquer coisa que seja, tanto para aqueles que esperavam algo original, quanto àqueles que assistiram como uma pré-continuação da série Alien. Uma continuação já foi anunciada, e se for seguir a tradição da série Alien, em que Aliens (continuação de 1986, dirigido por James Cameron) é considerado melhor que o original de Ridley Scott, então talvez isso não soe tão mal assim.

O AMOR E OS PRÉ-CONCEITOS...

★★★★★★★
Título: Flipped
Ano: 2010
Gênero: Comédia, Romance
Classificação: Livre
Direção: Rob Reiner
Elenco: Madeline Carroll, Callan McAuliffe, Rebecca DeMornay, Anthony Edwards, John Mahoney, Penelope Ann Miller, Aidan Quinn
País: Estados Unidos
Duração: 90 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma garota é perdidamente apaixonada por seu vizinho desde o primeiro dia em que o viu, e seu vizinho foge desesperadamente dela todas as vezes que ela aparece, até ele descobrir que ela não é exatamente tudo aquilo que ele pensava.

O QUE TENHO A DIZER...
Dirigido, escrito e produzido por Rob Reiner, famoso por títulos como Conta Comigo (Stand By Me, 1986), Harry & Sally (When Harry Meets Sally, 1989), Louca Obsessão (Misery, 1990), Questão de Honra (A Few Good Man, 1992), Meu Querido Presidente (The American President, 1995) e A História de Nós Dois (The Story Of Us, 1999). Os filmes de Reiner perderam bastante a força durante os anos, e Flipped se torna até uma grande surpresa, principalmente por vir logo em seguida do infame e exagerado Antes de Partir (The Bucket List, 2007).

A história gira em torno de dois vizinhos. Bryce (Callan McAuliffe), um garoto de 19 anos que conta como conheceu Juli (Madeline Carroll), sua vizinha, quando ainda tinham 7 anos. A narrativa começa pelo ponto de vista de como ele se sentia incomodado com as perseguições obsessivas dessa menina que em nenhum momento esconde ser apaixonada por ele. O problema é que a história também é contada pelo ponto de vista de Juli, que não o perseguia e muito menos era obsessiva, ela apenas era a vizinha apaixonada e que fazia tudo pensando em agradar.

Fala muito sobre a descoberta do primeiro amor e os sentimentos mistos que surgem com isso, mas não chega a ser tão apelativo e exagerado no açúcar como o clássico Meu Primeiro Amor (My Girl, 1991). Mas a verdade é que tudo isso nada mais é do que um pano de fundo para algo muito mais sério e que ignoramos bastante: os diferentes pontos de vista.

O roteiro nos faz calçar os sapatos de cada personagem para que possamos compreender melhor o pensamento e o comportamento de cada. Assim, pelo ponto de vista de Bryce, podemos ver em Juli uma menina chata e maluca, e pelo ponto de vista de Juli podemos ver Bryce como um menino mentiroso e covarde, mas será através da narrativa individual de cada que realmente entenderemos e saberemos como cada um é. A história não gira em torno do amor dos dois, mas do pré-julgamento e a constante mania do ser humano de nunca ir atrás dos fatos de fato, mas de sempre achar que a melhor forma de conhecer alguém é sentar em uma poltrona e criar os pré-conceitos em cima do que se vê e do que se fala, e nunca daquilo que realmente se passa, além de também mostrar a grande vergonha que sentimos quando tudo isso é percebido.

CONCLUSÃO...
Filme fácil e até bastante didático pelas narrativas serem divididas com exatidão e de forma bastante visível, mas também é extremamente sutil na hora de tratar de assuntos mais sérios por conta da falta de malícia dos personagens, tanto que muita gente pode acabar ignorando muita coisa e assistindo simplesmente como uma comédia romântica simples e comum sobre dois adolescentes. Realista, bem feito e com uma grande moral.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

SEMPRE DÓI COMO A PRIMEIRA VEZ...

★★★★★★★★
Título: Namorados Para Sempre (Blue Valentine)
Ano: 2010
Gênero: Drama, Romance
Classificação: 16 anos
Direção: Derek Ciafrance
Elenco: Michelle Williams, Ryan Gosling
País: Estados Unidos
Duração: 112 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um casal que tenta sobreviver e manter um relacionamento falido, fracassado por anos de falta de compreensão e entendimento.

O QUE TENHO A DIZER...
Já vimos a traição e suas consequências em Fim de Caso (The Enf Of The Affair, 1999) e no desesperador Infidelidade (Unfaithful, 2002); o nascimento da paixão e do amor como em Antes do Amanhecer (Befor Sunrise, 1995) e Antes do Pôr do Sol (Before Sunset, 2004); a aceitação das diferenças em 2 Dias Em Paris (2 Days In Paris, 2007); o amor e o peso da rejeição em Amantes (Two Lovers, 2008); ou até mesmo a angustiante tentativa de reconstrurir uma vida após o fim de uma relação no mais recente Lola Versus (2012). O amor, a traição, o desejo e a separação. Desde sua forma mais pura até a mais trágica ou banal possível, pelo ponto de vista cômico ou dramático. O romance já foi visto e revisto de todas as formas possíveis no cinema em uma lista indefinível, e o sofrimento nunca é novidade, mas mesmo assim dói como se fosse a primeira vez.

Nesse filme dirigido e escrito por Derek Ciafrance, a história não poderia ser diferente, e mesmo moderna, não foge daquilo tudo que já conhecemos, até mesmo porque é baseado em experiências pessoais do próprio diretor, que trabalhou no filme durante 12 anos, desde o primeiro roteiro escrito até a pós-produção e distribuição.

Namorados Para Sempre foi lançado no Brasil no final de semana do Dia Dos Namorados de 2011. Digamos que foi uma tática bastante enganosa e traiçoeira da distribuidora na tentativa de vender o filme no país, sendo divulgado como um romance típico para essa data. Com certeza fez muitos casais novos sairem engolindo seco do cinema, ou casais em situações parecidas chegarem a um fim de fato, pois está longe de ser um romance leve e seu título em português tem absolutamente nada a ver nem com a proposta e muito menos com a resolução da tragetória dos personagens Dean (Ryan Gosling) e Cindy (Michelle Williams). Com o custo de apenas US$1 milhão recebido como prêmio por seu roteiro ter ganho um concurso em 2006, acabou arrecadando mais de US$12 milhões no mundo. Chamou modestamente a atenção da mídia, e conseguiu até uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz para Michelle Williams.

Com certeza é uma grande história de amor, mas a parte romântica, bonita e muitas vezes utópica se mostra apenas como uma vaga lembrança nas memórias de um casal que, no presente, vive um drama cujos níveis de tolerância atingiram o ápice da falta de comunicação e agora caminham para a inevitável dissolução. Freud dizia que os filhos tendem a reproduzir os erros dos pais e que há uma perpetuação de ações e conseqüencias por conta disso de maneira inconsciente. Isso é notável na história quando Cindy, em uma conversa com sua avó, confessa seus desejos de que ela não seja como seus próprios pais, que vivem um casamento sem respeito e com um amor que não existe mais. Logo seguida vemos o presente dos personagens princiais, frio e despido de qualquer sentimento por parte de Cindy.

A distinção da instituição familiar entre o tempos antigo e contemporâneo fica explícito no filme neste paradoxo. Enquanto seus pais viveram juntos na tristeza e na felicidade, na doença e na saúde, na riqueza ou na pobreza até que a morte os separassem, Dean e Cindy viveram juntos por apenas 5 anos, tempo suficiente para todo o amor despertado, o companheirismo e a felicidade do início secarem e desaparecerem pelo acúmulo de problemas e da constante falta de soluções. Segundo o filme, essa bola de neve é o comodismo e a consideração diária que se transformam naturalmente em hábitos do cotidiano, a falta de paciência, de honestidade e compreensão, como se fossemos obrigados a conhecer um ao outro em sua plenitude para satisfazer desejos e vontades sem mais a necessidade do respeito, apenas do convívio e das obrigações, interrompendo o ciclo do aprendizado e do conhecimento mútuo, tornado-se algo automático e insensível, uma tortura diária que poderia ter sido evitada com pequenas atitudes, em algum momento, em alguma época.

A instituição familiar hoje em dia é considerada falida justamente pela exposição desses defeitos perpetuados e que hoje se tornaram intoleráveis e se transformaram em gritos de liberdade para muitos. Mas se essa quebra de paradigmas também será responsável pela transformação dos padrões e da reincidência dos erros dos pais pelos filhos, isso já é uma dúvida deixada pela história quando Cindy diz ter tomado esta decisão pensando em sua filha, de que ela prefere o fim ao invés de optar por vê-la crescer em um ambiente hostil.

O filme consegue ter semelhanças com as comédias românticas de Richard Linklater e Julie Delpy por seguir essa tendência realista e questionadora em diálogos e situações improvisadas, mas por um ponto de vista mais dramático e fatalista. Ryan Gosling e Michelle Williams atuam de maneira convincente como exemplos reais graças não apenas à competência dramática, mas também pelo laboratório desenvolvido pelos dois e pela direção de Derek Ciafrance.

Durante o período de filmagem, ambos alugaram uma casa na qual conviveram e viveram juntos por um mês, mantendo e se alimentando com a mesma renda que os personagens viveriam na história, agindo como se o casal fictício fosse real. Como não existia uma relação de fato entre eles, as situações de conflito naturalmente surgiam com facilidade. Ciafrance dava orientações contraditórias a cada um dos atores sem que eles soubessem, na intenção de catalisar esses conflitos. Para Williams, orientou que ela sempre tentasse manter distância e se livrar de Ryan Gosling, seja deixando o cômodo onde estivessem ou quebrando argumentos, como a fugir das situações. Para Ryan Gosling o diretor instruiu o contrário, para que ele sempre argumentasse a favor de ambos e a mantesse perto a todo custo. O diretor também chegou a dizer que houve uma situação em que ele insistiu para de Gosling entrasse no quarto onde Williams estava e insistisse que ambos fizessem sexo. Williams recusou e o expulsou do quarto, em uma atitude repreensiva e impassível tal qual sua personagem. O resultado não podia ser melhor, e essa relação difícil e desastrosa acaba soando bastante familiar com casos reais que constantemente presenciamos, ou até mesmo vivemos, sendo um choque com a realidade, nos levando a refletir sobre aquilo que almejamos, o que é a cumplicidade e o que é que acontece dentro de nós que não conseguimos impedir os mesmos erros e evitar a catarse.

CONCLUSÃO...
Ao contrário do que pode parecer, não é uma comédia romântica e muito menos um filme para ser visto por casais que não conseguiriam manter discussões saudáveis sobre os temas abordados. Pelo contrário, é um filme denso sobre as realidades e divergências amorosas que poderiam ser reorganizadas e tratadas, mas por razões indefinidas não conseguimos.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

LOLA CONTRA O MUNDO...

★★★★★★★
Título: Lola Versus
Ano: 2012
Gênero: Comédia, Romance
Classificação: 14 anos
Direção: Daryl Wein
Elenco: Greta Gerwig, Zoe Lister Jones, Hamish Linklater, Bill Pulman, Debra Winger
País: Estados Unidos
Duração: 87 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Quantas vezes, ao terminar uma relação, achamos que será o fim do mundo? Pois parece que para Lola está sendo a primeira vez. Ela estava noiva do seu primeiro namorado, aquele que ela ainda conheceu no ensino médio. E agora, com 29 anos e três semanas antes do casamento, ele resolve desistir de tudo. É o motivo para o mundo estar contra ela.

O QUE TENHO A DIZER...
Lola (Greta Gerwig) passará por maus bocados entre momentos de euforia e outros de angústia durante todo o filme, sintomas típicos da distimia sofrida pelo fim de uma relação. Seus amigos, Alice (Zoe Lister Jones, que também assina o roteiro) e Henry (Hammish Linklater), farão de tudo para tentar apoiá-la e mostrar a situação por outras perspectivas, mas nessas horas nenhuma ajuda parece suficiente, e será passando por tudo isso que ela, enfim, encontrará sua redenção em algum momento.

Depois da sutileza de 500 Dias Com Ela (500 Days Of Summer, 2009), o público redescobriu o que é uma boa comédia romântica. Lola Versus não chega a ter um apelo tão caloroso ou um personagem que desperte tanta compaixão quanto no filme de Marc Webb, características que fizeram do filme um sucesso de crítica e público, mas segue o mesmo estilo profundo e humano do sofrimento na sua forma mais pura, e os erros e defeitos naturais que acompanham um grande amor e a superação da sua decepção. Todos nós também já tivemos os dias de Lola algum dia, e já ficamos contra tudo tanto quanto ela, e essa comédia romântica não podia ser mais sincera ao mostrar simploriamente esses sentimentos mistos que temos quando somos pegos de surpresa nessas situações. É fácil nos simpatizarmos com a personagem e sua inquietação, angústia, confusão e aquela dor que não se sente, mas sabemos que está lá, assim também como sabemos que ela irá se recuperar e tomar as melhores decisões.

É uma comédia romântica incomum e bastante fora do circuito, e por muitas vezes pode parecer desinspirada ou fora de ritmo, talvez por isso tem sido mau interpretada pelo público. A história é lenta e presenciamos o período de um ano na vida da personagem e o seu processo de recuperação, indas e vindas, recaídas e mágoas afogadas em álcool e sexo sem sentido na tentativa das dores serem esquecidas e a vida seguir normalmente. São situações bastante familiares para muitos porque são os clichés do cotidiano, e só quem já passou por isso para compreender o que se passa com Lola.

Ao contrário do que pode parecer, é um filme inspirador por várias vezes, com uma trilha sonora motivante e diálogos irreverentes. Os personagens são carismáticos e por vezes dão o tom certo da comédia sem parecerem forçados e, mesmo sem intenções, consegue ter sequências engraçadas. Não é um filme que fará a cabeça de muita gente, mas com certeza é uma reprodução bem feita da nossa tolice e perda de tempo, e de que a culpa de todas nossas condições é de ninguém além de nós mesmos.

CONCLUSÃO...
Inspirador e melhor apreciado por aqueles que já ficaram contra o mundo, justamente por saber exatamente como é que Lola está se sentindo no momento.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

TERROR SEM PRETENSÕES...

★★★★
Título: O Túnel (The Tunnel)
Ano: 2011
Gênero: Terror
Classificação: 14 anos
Direção: Carlos Ledesma
Elenco: Bel Deliá, Andy Rodoreta, Steve Davis, Luke Arnold
País: Austrália
Duração: 90 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um grupo de jornalistas resolve investigar os mistérios que envolvem o governo e os túneis de metrô abandonados no subsolo de Sydney.

O QUE TENHO A DIZER...
É o primeiro longa metragem tanto do diretor quanto dos roteiristas (que também são os produtores). Confesso que houve até uma certa coragem para realizarem esse filme, que não é muito diferente de outros do gênero. É também um tanto ousado, pois é um filme independente e que foi produzido através do Projeto 135K criado pelos próprios produtores do filme para captar fundos para a produção. A idéia do projeto era vender cada frame do filme por $1,00 (1 segundo de filme tem 25 frames, ou seja, 25 fotos). Para 90 minutos de filme seria necessário 135.000 frames vendidos, ou seja $135 mil. O comprador não estava limitado a comprar apenas 1 frame, podendo ele comprar quantos quisesse, ou até mesmo comprar o filme todo. Conseguiram apenas em torno de $38 mil, e tiveram que fazer o uso da criatividade para finalizarem e promoverem o filme com esse dinheiro, e inclusive o pôster do filme é feito com os nomes de todos os compradores que participaram do projeto. Por fim ele foi lançado em alguns cinemas locais na Austrália, através do canal Showtime australiano e também via torrent, sendo a primeira vez que um filme é distribuido legalmente via sistema peer-to-peer.

A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, 1999), Atividade Paranormal (Paranormal Activity, 2007), REC (2007), Coverfield (2008), Contatos de 4º Grau (The 4th Kind, 2009), A Casa Muda (La Casa Muda, 2010), Fenômenos Paranormais (Grave Encounters, 2011), Apollo 18 (2011), 388 Arletta Avenue (2011), O Diário Chernobil (Chernobyl Diaries, 2012), dentre alguns outros esquecíveis... Todos eles tem em comum a mesma filmagem em primeira pessoa, naquele esquema de "salvem a câmera custe o que custar" (com raras excessões), mas no fim a proposta é sempre a mesma, tentar inovar um estilo que já está cansado.

Claro que O Túnel não seria diferente, e já assisti esperando tudo que eu já conhecia de todos esses filmes anteriores, sendo que alguns ainda me assustam como se fosse a primeira vez. Não é um filme bem desenvolvido e construído em boas idéias, boas atuações ou um grande final como algum dos anteriores do gênero, mas funciona como um filme de terror dentro desse estilo "sobrevivência" e chega a ser uma mistura de Abismo do Medo (The Descent, 2005) com REC.

O filme tenta com muito esforço nos fazer acreditar que tudo é baseado em fatos reais, como a maioria desses filmes faz. Eles usam gravações de telefone, gravações de vídeos de segurança e alguns depoimentos pessoais para fortalecer essa tese, mas é óbvio que tudo é ficcional. Às vezes parece que os personagens simplesmente não ligam para o que aconteceu, mas isso é por conta do nível amador de atuação. Há também o problema das filmagens dentro dos túneis, que muitas vezes funciona, mas em outras parece que estão usando os mesmos lugares, apenas mudando os ângulos ou entulhos de lugar. Um pouco claustrofóbico pelo excesso de visão noturna nas imagens e tomadas fechadas. Mas de qualquer forma, é um tipo de filme que dá liberdade para os erros e para a falta de qualidade, salvando ele mesmo de sérias análises.

Apesar de tudo é um filme sem pretensões e até oferece alguns sustos e surpresas. Uma continuação já está em pré-produção pela mesma equipe.

CONCLUSÃO...
Se você aguentou todos os outros filmes citados acima, esse vai ser algo fácil de assistir. Não é o melhor filme do mundo, nem o pior. Também não é um filme B, se considerar o fato de que é um filme australiano de horror, um país que não tem uma presença muito sólida no gênero e é mais conhecido por produzir os piores filmes de horror na indústria, fazendo O Túnel algo até acima da média até mesmo por conta dos esforços da produção, e só por isso ele vale a pena ser assistido.

"I WANT AN iPHONE!"

★★★★★★★
Título: God Bless America
Ano: 2011
Gênero: Comédia, Ação
Classificação: 16 anos
Direção: Bobcat Goldthwait
Elenco: Joel Murray, Tara Lynne Barr, Melinda Page Hamilton
País: Estados Unidos
Duração: 105 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Frank sofre de enxaqueca e insônia, não aguenta mais seus vizinhos da casa germinada onde mora, tudo na televisão é estúpido, no seu trabalho todos só falam do que está na moda e ainda conseguiu ficar desempregado e descobrir um tumor no cérebro. Ele conhece Roxy, uma adolescente madura para sua idade, porém com pensamentos homicidas, que consegue convencê-lo a sair por aí eliminando maus elementos da sociedade, aqueles responsáveis por deixar as pessoas mais estúpidas e ignorantes.

O QUE TENHO A DIZER...
Sim, o mundo está ficando ignorante, a população está emburrecendo e somos todos nós os responsáveis por isso. Se alguém ainda tem duvida disso não vai precisar de muito pra descobrir a verdade e nem mesmo uma citação importante do Facebook para aumentar a credibilidade desse texto. É só olhar à sua volta, com muita atenção.

"As pessoas não conversam mais além de simplesmente reproduzir o que vêem na TV, lêem nas revistas de fofoca ou ouvem nas rádios", é o que Frank (Joel Murray) diz, enquanto seus colegas de trabalho assistem seu discurso assustados, como se ele estivesse louco. Logo em seguida ele é demitido, pois é assim como as coisas sempre foram com todos aqueles que questionam a ignorância e a atitude da massa. Quanto mais pessoas pensarem igual, mais fácil é das coisas serem controladas. Em outros exemplos, é a exploração do ponto fraco de um grupo, de uma sociedade, ou população, como o filme deixa bem claro. Se é uma população amedrontada, venderemos armas e serviços de segurança. Se é um grupo ignorante, daremos informações erradas. Se é uma população xenofóbica, promoveremos o nacionalismo.

Há uma parte em que o personagem Frank também diz que alguns poucos anos atrás sentíamos nojo ao ver alguém comendo carne crua em reality shows, e hoje isso não faz nem cócegas. Essa afirmação é tão interessante por resumir o ponto em que a sociedade e sua cultura chegou, porque eu lembro bem a primeira vez que vi uma pessoa comer um testículo de bode ao vivo na televisão, e lembro porque aquilo foi chocante naquela época. Hoje não é, não porque nos acostumamos, mas porque a banalidade se supera cada vez mais, fazendo muitas das coisas perderem seus sentidos e valores.

Foi interessante assistir este filme logo depois de ter assistido Confissões (Kokuhaku, 2010), pois os dois filmes se complementam muito bem de alguma forma. God Bless America é um alerta ao excesso do cultivo da ignorância, e Confissões é sobre os resultados e as conseqüencias da constante alienação e da insistência das pessoas em ignorarem os problemas. Um filme é norte-americano, o outro é japonês, apenas para se ter uma noção de que não existem barreiras ou distância que impeça problemas comuns de existirem e que dizem respeito a todos nós.

Também se assemelha bastante a filmes como Um Dia De Fúria (Falling Down, 1993), Assassinos Por Natureza (Natural Born Killers, 1994) ou até mesmo ao mais recente Tiranossauro (Tyrannosaur, 2011), mas ao contrário desses filmes, God Bless America é uma comédia de um humor negro, pois é esse tom que faz a idéia ser assimilada. O acesso da mensagem por esse caminho é sempre mais fácil e menos chocante.

O filme foi escrito e dirigo por Bob Goldthwait, que logo no começo oferece uma sequencia extremamente violenta, não poupando nem um bebê, mas tudo é feito de forma tão satírica que o choque pode até acontecer, mas a gargalhada será inevitável. É importante entender que toda essa violência do filme não passa de uma metáfora, e todos os personagens são alegóricos, represantando os elementos intolerantes e repulsivos aos quais Frank e Roxy (Tara Lynne Barr) saem à caça, limpando os lugares de doenças sociais e exemplos negativos. Compreender isso é essencial para a mensagem ser válida.

Mesmo assim o filme não foge de alguns problemas de desenvolvimento. A força narrativa e a ousadia mostrada no início vão perdendo um pouco o fôlego, mas nada disso impede o objetivo principal da história, a de criticar o consumismo vazio, a superficialidade de idéias e o excesso do inútil. Goldthwaith foi certeiro na pontuação dos fatores intolerantes, pois são comuns à maioria das pessoas. Foram citados tantos exemplos que é impossível alguém não se identificar em nenhum momento, da mesma forma como ninguém vai terminar o filme sem pensar em outros. As semelhanças do que é mostrado ou citado com a realidade é tão grande que chega a ser assustador. Sim, é assustador pensar que qualquer pessoa do mundo possa se identificar com esse filme, pois só assim para termos noção da proporção gigantesca que as coisas estão tomando, e como tudo está igual em todo lugar, e porque tudo estão tão difícil, e porque a impressão que temos é que o mundo está acabando, e porque as pessoas estão pirando, e porque ninguém consegue mudar nada.

O caos é o limite, mas não há limite para o caos. O fim é previsível porque é assim como ele tinha que ser, pois é o fim de tudo que questiona ou tenta mudar o pensamento comum. A típica situação que é trágica se não for engraçada.

CONCLUSÃO...
Excelente discussão sobre os rumos que o pensamento comum tem dado às pessoas, e a desvalorização intelectual que está atingindo níveis inaceitáveis e intolerantes. Um filme que não deve ser ignorado e deveria ser obrigatório até mesmo em currículos escolares.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A INCANSÁVEL BUSCA PELO REMORSO E A AUTO-REPARAÇÃO...

★★★★★★★★★☆
Título: Confissões (Kokuhaku)
Ano: 2010
Gênero: Drama, Suspense
Classificação: 16 anos
Direção: Tetsuya Nakashima
Elenco: Takako Matsu, Ai Hashimoto, Yukito Nishii, Kaoru Fujiwara, Yoshino Kimura,
País: Japção
Duração: 106 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
No último dia de aula antes das férias, e também o seu último dia de trabalho, a professora Yuko Moriguchi (Takako Matsu) resolve se desperdir de seus alunos dando uma aula diferente, contando a história de como sua filha de 4 anos foi assassinada por dois de seus alunos que se encontram na sala.

O QUE TENHO A DIZER...
Norte-americanos adoram um drama cliché, europeus adoram dramas realistas, e japoneses adoram o drama chocante. Eles tem essa tendência de serem visualmente exagerados, talvez como uma forma de exteriorizar sentimentos culturalmente contidos ao longo dos séculos. Os filmes de horror japoneses, por exemplo, abusam de todas as fórmulas do medo com o uso excessivo do sangue e do bizarro, mas nem por isso deixam de ser poéticos. O mesmo ocorre nesse drama com cargas psicológicas fortíssimas. O excesso de seqüencias em câmera lenta dá sutileza até mesmo quando há jorros de sangue nas cenas, dando um tom surrealista ao sofrimento, a dor e à confusão, conseguindo ser bonito até mesmo nos momentos mais brutos e chocantes por conta da fotografia apagada, numa perspectiva sempre muito horizontal e limitada, sem profundidade ou grandes perspectivas, tal qual as personagens. Mas essa sutileza e beleza não evita o clima pesado e depressivo, só alivia o impacto da violência.

Confissões é sem dúvida uma ode a todos os sentimentos e fatores negativos que transformam os humanos em seres psicóticos, obsessivos e perversos, seja em menor ou maior grau; seja da simples vontade até as duras conseqüências da realização. É um filme duro, pesado e bruto que nos mostra pontos bastante realistas que dão corda suficiente para muita reflexão do início de um efeito dominó até a sua última peça.

Leva esse título porque a história é contada por 5 pontos de vista de maneira bastante particular e honesta, como em um confessionário de fato. As narrativas (ou confissões) muitas vezes se intercalam para desenvolver a história linearmente, explicando no momento correto as razões ou motivos que cada um teve, e o espectador literalmente se transforma em um ouvinte, como se estivesse em uma mesa redonda com todos eles. Há também espaço para que as histórias individuais tomem forma e arestas para ter maior noção das razões de cada um ter pensamentos negativos da vida, e que os levaram às infelizes consequências. As imagens apenas ilustram o que muitas vezes já imaginamos conforme a história é narrada, e talvez essa função passiva do espectador não seja tão efetiva pelo filme ser falado em japonês, perdendo muito mais tempo lendo as legendas e assimiliando o que é mostrado do que simplesmente ouvir o que é contado e deixar a imaginação entrar em sintonia com as imagens, o que seria uma experiência muito mais impressionante.

O filme mostra de forma sutil que problemas e traumas pessoais se manifestam na sociedade e no convívio, do contato entre as pessoas e dos choques que essa necessidade traz ao querermos sempre responsabilizar alguém pelos nossos sofrimentos individuais. Mostra de forma clara a fixação que todos os humanos tem em comum por tudo aquilo que choca e causa sofrimento ao outro, como se isso aliviasse os nossos. O diretor, e também roteirista, Tetsuya Nakashima, mergulha por vários fatores sociopsicológicos para justificar esses comportamentos traumáticos. Ele varia desde os abusos e abandonos, do assédio moral, do sensacionalismo midiático, da intransigência jurídica, do uso abusivo do anonimato, da inconsequência das modernas redes sociais, da ignorância popular, até a vulnerabilidade das pessoas frente a todas essas armas que são utilizadas sem qualquer remorso pela personagem principal. A manipulação dos alunos feita por Moriguchi é uma crítica ao comportamento e ao pensamento limitado, e à fraqueza que os humanos demonstram ao se comportarem como uma massa, e não como indivíduos. É um filme fatalista, por isso os únicos personagens que agem e pensam diferente são exatamente aqueles que são punidos.

O maior conflito de Moriguchi, como professora e humanista, foi ter finalmente percebido que a crueldade não está apenas nos adultos, mas que ela surge naqueles que ela acreditava serem incorrompidos e inocentes, resultando em um esforço e futuro perdidos, causando a destruição de todos apenas puxando o fio da fraqueza de cada um, com o único objetivo de não apenas preencher sua perda com o remorso e o arrependimento de quem lhe inflingiu a dor, mas de ensinar que a crueldade dos humanos não leva a nada além da sua auto destruição.

CONCLUSÃO...
Um filme fantástico e impressionante do início ao fim. Uma ironia cruel e perversa da realidade e do lado sombrio do ser humano. A busca incessante da causa e da consequencia, do remorso e da auto-reparação.

sábado, 1 de setembro de 2012

ESPELHO, ESPELHO MEU, EXISTE ALGUM FILME MAIS BOBO DO QUE O MEU?

★★★★★
Título: Branca de Neve e o Caçador (Snow White And The Huntsman)
Ano: 2012
Gênero: Ação, Aventura, Fantasia
Classificação: 14 anos
Direção: Rupert Sanders
Elenco: Kristen Stuart, Charlize Theron, Chris Hemsworth
País: Estados Unidos
Duração: 127 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma versão um pouco mais adulta da história de Branca de Neve.

O QUE TENHO A DIZER...
2012 foi o ano de Branca de Neve. Em Março estreiou a versão de Tarsem Singh da princesa injustiçada, estrelando Julia Roberts como a rainha má e Lily Collins como Branca de Neve, que havia originalmente feito testes para estrelar nesta versão do conto de fadas, mas Kristen Stuart quem acabou ficando com o papel, e o filme de Rupert Sanders estreiou em Junho. Os dois filmes foram bem nos cinemas, tanto que uma continuação para Branca de Neve e o Caçador estava em planejamento, mas agora é incerto devido às peripécias amorosas de Kristen Stuart com o diretor Sanders e toda a polêmica do traído Robert Pattinson.

Embora os dois filmes obviamente contem a mesma história, os pontos de vista são diferentes. No filme de Tarsem a história é contada pelo ponto de vista da rainha, enquanto no filme de Sanders, a história (a princípio) é narrada pelo Caçador sem nome, mas que por alguma razão desconhecida essa narrativa some e nunca mais volta. Talvez tenham esquecido. Acontece.

É difícil dar um tom sério ao conto dos irmãos Grimm quando ele foi incansavelmente recontado para um público infantil. Espelho, Espelho Meu (Mirror, Mirror, 2012) conseguiu ser fiel à sua proposta, e em nenhum momento Tarsem tenta nos enganar. O filme novamente foi feito para o público infantil, é fantasioso, colorido, leve, engraçado, bobo e com figurinos e fotografias deslumbrantes. Ao contrário de Branca de Neve e o Caçador que, apesar dos esforços, não consegue ser o filme adulto e maduro que eles tanto queriam. Cenas e algumas seqüencias chegam a ser de um amadorismo até vergonhoso e os diálogos são quase sempre infantis, porém floreados com uma pompa poética shakespeariana e um sotaque meio-britânico-ou-seja-lá-o-que-for para fazer de conta que são pessoas sérias e adultas conversando ou discutindo. Isso só serve pra convencer o público adolescente e os fãs de Kristen Stuart, que no fim das contas acaba sendo (ou tendo) quase o mesmo nível intelectual.

O roteiro é assinado por 3 pessoas: John Lee Hankcock, Hossein Amini e Evan Daugherty. O primeiro escreveu e dirigiu o filme que deu o Oscar e dezenas de outros prêmios de Melhor Atriz a Sandra Bullock, Um Sonho Possível (The Blind Side, 2010); o segundo foi o consagrado escritor e diretor do excelente e oitentista Drive (2011); e o terceiro... bom, ele é desconhecido mesmo, sendo este filme seu primeiro trabalho. Obviamente os dois primeiros serviram apenas com roteiristas de apoio, corrigido e alterando erros brutais porque é impossível imaginar que, por exemplo, o mesmo roteirista de Drive tenha sido capaz de trabalhar efetivamente em um roteiro tão pobre quanto o de Branca de Neve e o Caçador.

Kristen Stuart definitivamente se esforça. É notável que ela se doa de corpo e alma para a personagem e tenta provar que ela não é uma atriz insossa e mentalmente limitada, como ela demonstrou em toda a Saga Crepúsculo. Mas mesmo assim ela não convence, e eu gostaria muito de saber em qual escola de artes ela estudou para ter aprendido que expressar felicidade, surpresa, medo ou raiva, é deixar a boca aberta. Chris Hemsworth, que faz o Caçador sem nome, é tão ruim quanto. Nada aqui é diferente do que ele fez em Thor, a diferença é que ele está mais sujo e de cabelo preto. Com todo aquele tamanho, além do personagem dele ser um monte de nada e não acrescentar absolutamente qualquer coisa à história (o que é um absurdo já que o personagem é principal), não dá pra entender porque ele usa um sotaque estranhíssimo e sempre mais apanha do que bate.

Claro que os únicos créditos do filme vai para Charlize Theron, que além de ser linda é sempre uma excelente atriz e a verdade é que vê-la como uma rainha má é o que irá atrair o público mais adulto. E o tom que ela dá à personagem fica em um meio termo entre sentirmos ódio e compaixão. Os diálogos dela também são sempre fracos, mas quem é bom de verdade consegue ser MacGayver e construir um Shopping Center com um palito e um chiclete. Os atores que fazem os anões também levam crédito, valendo lembrar que eles não são anões de verdade, o tamanho dos atores foi alterado em computação gráfica na mesma técnica que diminuiu o tamanho dos atores que representaram os hobbits na trilogia Senhor dos Anéis.

Inclusive, Senhor dos Anéis é uma grande inspiração no filme. Além de todos os elementos fantasiosos e míticos, Sanders exagera nas tomadas aéreas para deslumbrar e nas tomadas fechadas de batalha para impressionar, tal qual Peter Jackson fez à exaustão em sua trilogia, o que não causa nada além de um "oh, que legal".

Apesar de tudo, o filme não é tão ruim do que poderia ter sido, mas também não é bom quanto haviam prometido.

CONCLUSÃO...
Mais engana do que faz o que promete. Bobo e infantil, mas disfarçado de intelectual e adulto, e Charlize Theron dominando todas as cenas e segurando o filme nas costas. Claro que existem filmes piores, mas não é dessa vez que um conto de fadas poderá ser levado a sério.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

PRECISAMOS FALAR SOBRE MARTHA...

★★★★★★★
Título: Martha Marcy May Marlene
Ano: 2011
Gênero: Suspense, Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Sean Durkin
Elenco: Elizabeth Olsen, Hugh Dancy, Sarah Paulson, John Hawkes
País: Estados Unidos
Duração: 102 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Martha é uma garota estranha e ninguém sabe o que se passa com ela.

O QUE TENHO A DIZER...
Dirigido, escrito e também filme de estréia do diretor Sean Durkin, que chamou a atenção do circuito independente por contar uma história estranha de uma menina esquisita e com um passado enigmático chamada Martha, às vezes Marcy May e raramente de Marlene. O filme estreiou no Festival de Sundance, um dos mais importantes do circuito não comercial mundial, e acabou ganhando o prêmio de Melhor Direção. Foi indicado e ganhou outros prêmios que, em sua maioria, consagraram o diretor/roteirista e a atriz Elizabeth Olsen, que por sinal é irmã mais nova das gêmeas Mary-Kate e Ashley Olsen, além de também ser sua estréia como atriz. Chega a ser impressionante porque a atuação que suas irmãs gêmeas não ofereceram em todos os filmes que trabalharam, Elizabeth oferece em um único filme.

A única coisa que sabemos de Martha é que por alguma razão desconhecida ela passa a morar em um tipo de sociedade alternativa, naturista e sexista que realiza cultos espirituais e sexuais com garotas virgens. O grupo é liderado pelo enigmático Patrick (John Hawkes), e possuem uma lista de regras rígidas e outras mais adaptáveis. Cada uma das garotas acaba descobrindo sozinha sua função no grupo, mas basicamente devem servir sexualmente o líder. Elas só podem engravidar dele, e só podem ter filhos do sexo masculino. Elas dividem as mesmas roupas, os mesmos cômodos, compartilham sexo entre si, são constantemente abusadas, moral ou sexualmente. Perdem a vergonha, os pudores, o apego por bens materiais e todas as regras sociais e morais importantes na sociedade convencional, se transformando em pessoas livres que fazem o que querem, do jeito e na hora que quiserem, perdendo o senso de julgamento e adaptação. Além do comportamento machista dos homens e submisso das mulheres, regularmente o grupo também invade mansões por razões que também não são claras, e eventualmente situações mais graves e sérias podem ocorrer, como o filme deixa implícito.

Nunca sabemos como Martha foi parar lá, como ela achou o lugar, se ela foi por espontânea vontade, se foi sequestrada ou coagida, ou quais as regras de aceitação do grupo. Isso tudo é um mistério. O filme começa com sua fuga desesperada, cujas razões, a princípio, não são claras. Sem ter a quem recorrer, Martha resolve procurar sua irmã Lucy (Sarah Paulson), que imediatamente oferece ajuda. Martha passou 2 anos vivendo com o grupo e a perda de senso crítico, julgamento e adaptação são os grandes responsáveis pela dificuldade que ela tem de se inserir novamente dentro das regras éticas e convencionais de uma sociedade que ela foi convencida e condicionada a esquecer.

Esse nome tão extenso não é por acaso, ele também tem um significado importante no filme. Martha é como ela é chamada por sua irmã e cunhado, seu nome de batismo. Marcy May é como ela chamada pelas pessoas da "sociedade alternativa" em que ela foi morar. Marlene é o único nome que não é citado durante o filme todo, mas pode ser visto como uma lista de regras anotadas na parede da casa, acima do telefone, pois Marlene é o nome comum que todas as garotas devem usar ao atender o telefone, assim como os rapazes devem fazer com o nome Michael.

É um filme confuso, que em momento algum esclarece o que se passa com a personagem principal, como se o diretor/roteirista quisesse que o espectador tivesse a mesma sensação e impressão que Lucy e seu marido, Ted (Hugh Dancy), tem: a de dúvida, desconfiança e insegurança. As interpretações, principalmente de Elizabeth Olsen, chegam a ser impressionantes e bastante impactantes. É um filme do subgênero suspense dramático. O drama se desenvolve pelas dificuldades pessoais de Martha se adaptar fora do grupo e de sua família compreender seus problemas, enquanto o suspense gira em torno do mistério de seu passado e da imprevisibilidade da personagem.

Não há o que discutir sobre a direção do filme. Sean Durkin consegue de forma constante manter a distância e o desconforto, bem como nunca deixar o espectador saber de fato o que aconteceu. Tudo é dedutível, e a sensação de frustração, raiva, angústia e desespero é construído em cima da falta de informação, e são esses buracos do filme que faz quem assiste terminar no mesmo sentimento que Lucy e Ted, de impotência e desistência. A trilha sonora aparece apenas em momentos cruciais, e o som do violino distorcido chega a ser ensurdecedor de tão caótico, exatamente como deve estar o psicológico de Martha.

Não é fácil de ser digerido por causa da sua história desconstruída e lenta. É um daqueles filmes que mostram muito mais do que simples conflitos internos ou entre personagens, mas que se desenvolvem em cima de bases sólidas e exemplos realistas e não fantásticos de distúrbios psiquiátricos, como acontece com o distúrbio de personalidade em Possuídos (Bug, 2006) ou a sociopatia psicótica em Precisamos Falar Sobre O Kevin (We Need To Talk About Kevin, 2010). Por isso filmes como esse se tornam muito melhor apreciados depois do conhecimento das doenças em questão, porque aí toda a história e as condições das personagens se justificam por completo. Neste filme a história foca apenas nos gatilhos que levaram a personagem a desenvolver os delírios que caracterizam a paranóia aguda que ela desenvolve, numa confusão entre aquilo que está na sua cabeça com a realidade. Por isso a edição do filme consegue mesclar a realidade com as lembranças tão bem, pois o indivíduo paranóico não consegue dissociar a realidade do stress vivencial sofrido. Talvez a personagem principal já sofresse de predisposições para a doença e que posteriormente se agravaram com os abusos sofridos, mas essa dúvida também é uma das chaves do filme.

CONCLUSÃO...
É um filme alternativo por lidar com temas que são difíceis de serem assimilados por quem não tenha conhecimento ou interesse em esmiuçar as condições da personagem e do ambiente determinante, mas se transforma num material interessante para quem queira mais do que algo óbvio ou didático. Também é um quebra-cabeças com peças faltando e um final sem conclusão, o que pode ser bastante irritante para muitas pessoas.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

FRACO, COMUM E PREVISÍVEL...

★★
Título: Código Vermelho (State Of Emergency)
Ano: 2010
Gênero: Suspense, Terror
Classificação: 14 anos
Direção: Turney Clay
Elenco: Jay Hayden, Scott Lilly, Tori White, McKenna Jones
País: Estados Unidos
Duração: 90 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma explosão de uma indústria de produtos químicos libera uma toxina que contamina habitantes de um condado, afetando o sistema nervoso e deixando-os violentos.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme começa bem e os créditos enfatizam bastante que o filme foi produzido pelos "Irmãos Clay, bem como o roteiro foi escrito e dirigido por Turney Clay. A maneira como é apresentado é como se Turney Clay ou os "Irmãos Clay" já fossem famosos por alguma coisa, o que não são.

Depois que filmes desse estilo surgiram com tudo nos anos 2000, vários lançamentos excelentes pipocaram, como os remakes das obras de Romero, Madrugada dos Mortos (Dawn Of The Dead, 2004) e A Epidemia (The Crazies, 2010), ou a série de Danny Boyle, Extermínio (28 Days Later, 2002) e Extermínio 2 (28 Weeks Later, 2007). Levando isso em consideração, o filme poderia ter sido interessante se tivesse fugido do óbvio, o que não faz em momento algum.

É cheio de momentos clichés, e não tiveram nem preocupação em ao menos mudarem a ordem dos acontecimentos. Tudo piora quando entra uma personagem chata e metida a garota revoltada enquanto ninguém sabe se o mundo está acabando de verdade ou se vão jogar uma bomba em tudo pra conter a contaminação.

Ou seja, incoerente só pra criar clima.

CONCLUSÃO...
Ruim e fraco. Fique com os outros citados.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

NÃO COLA E NEM DECOLA...

★★★★★
Título: 2 Dias Em Nova York (2 Days In New York)
Ano: 2012
Gênero: Comédia, Romance
Classificação: 14 anos
Direção: Julie Delpy
Elenco: Julie Delpy, Chris Rock, Albert Delpy, Alexia Landeau, Alexandre Nahon
País: Alemanha, França, Bélgica
Duração: 96 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Marion agora está casada com outra pessoa, o locutor de rádio Mingus. Dessa vez, ao invés de ela ir a Paris visitar sua família, são eles quem vão para Nova York passar dois dias em sua casa. O resultado é uma confusão de línguas e informações somados ao caos de uma das maiores cidades do mundo.

O QUE TENHO A DIZER...
Que Julie Delpy tem talento, isso é inegável. A diretora, escritora, produtora, atriz e compositora já fez inúmeros filmes memoráveis, seja como atriz ou diretora. Entre eles estão os conhecidos e adorados Antes do Amanhecer (Before Sunrise, 1995) e Antes do Pôr do Sol (Before Sunset, 2004), filmes que elevaram o nível e conseguiram inovar o gênero "comédia romântica", caindo no gosto até mesmo dos mais críticos e preconceituosos sobre um estilo que é constantemente taxado por clichés, mas que recebeu um ar diferenciado com essas duas obras do diretor Richard Linklater e que, por sinal, também foi anunciada uma terceira parte prevista para 2013.

Esses dois filmes foram a grande fonta de inspiração de Delpy, mas enquanto nos filmes de Linklater as personagens construiam uma relação de confidência e companheirismo apenas em diálogos, desenvolvendo discussões fundamentalistas ou existencialistas sobre temas simples do cotidiano, em 2 Dias Em Paris, Julie Delpy resolveu contar uma história similar, mas por uma outra perspectiva: a de uma relação já construída pelos pontos de vista cômicos e dramáticos do cotidiano. As diferenças de personalidade entre a francesa Marion (Julie Delpy) e o norte-americano Jack (Adam Goldberg) era o que alimentava a relação desfuncional e exagerada que entrou em uma situação de risco quando Jack foi a França conhecer os amigos e familiares de Marion, numa dificuldade de comunicação e num choque de culturas que foi responsável para colocar a prova a relação dos dois.

2 Dias Em Nova York a situação é um pouco diferente. Alguns anos se passaram, Marion teve um filho com Jack, mas a relação terminou enquanto ela ainda estava grávida. No lugar de Jack entrou Mingus (Chris Rock). Ambos começaram a namorar e um dia resolveram morar juntos. Os dois são parecidos e tem gostos em comum, mas Mingus fica intolerante com os parentes de Marion que resolveram visitá-la em Nova York e que são os mesmos que fizeram da vida de Jack um inferno no passado, com excessão da mãe que faleceu (por sinal, uma homenagem muito bonita, já que a mãe de Marion era interpretada pela mãe de Julie Delpy, a atriz Marie Pillet, e que veio a falecer em 2009).

A grande graça de 2 Dias Em Paris, e o que faz dele uma comédia romântica tão interessante quanto os filmes de Linklater, é o ponto de vista de Marion sobre a relação e as dificuldades que as pessoas têm de aceitar umas às outras com todos seus defeitos e bagagens. Delpy mostra no primeiro filme uma realidade moderna comum, apontando críticas, defeitos e reflexões que muitas vezes faltam entre duas pessoas, mas principalmente mostrando que o grande problema é a falta de confiança e de comunicação, independente de qual ela seja, ou como ela seja feita. Já em 2 Dias Em Nova York isso não acontece e esse ponto de vista pessoal, introspectivo e reflexivo da personagem não existe mais, soltando na tela apenas um caos entre franceses e americanos sem qualquer relevância ou fundamento. Assim, o filme deixou de ser um olhar objetivo e com reflexões subjetivas sobre as relações para se tornar um filme com um teor socioantropológico que não cola e nem decola.

Dessa vez Julie Delpy divide o roteiro com Alexia Landeau, que também atua nos dois filmes no papel de sua irmã mais nova, Rose. O ponto de vista cômico e o tempo de comédia afiado que Julie Delpy criou no primeiro filme deu lugar ao exagero e a situações forçadas, e a ironia constante nos diálogos sincronizados e inteligentes deram lugar a discussões tolas e fúteis numa bagunça francesa que mais irrita do que entretém. Talvez esse caos ambiental que Delpy criou tente ser uma metáfora ao caos, a futilidade e a caretice norte-americana, mas de forma alguma essa continuação manteve as qualidades e os prazeres que o primeiro filme desperta ao assistir. Até mesmo a narrativa corrida em sincronia com imagens editadas que ilustrava o pensamento da personagem de forma ágil e acessível viraram apenas um esboço. Em Paris o roteiro desenvolve numa constância fluida pelas ruas e pontos turísticos franceses, fazendo da cidade uma personagem ativa na história, mas em Nova York as cenas são desconexas, beiram o ridículo e sempre em locações internas, apenas para intensificar a bagunça familiar, levando a cidade apenas no título.

Sem dúvida o filme falha ao dar continuidade a uma comédia romântica que Delpy conseguiu criar um diferencial e se manter à altura dos filmes de Linklater. Sem dúvida é uma continuação incomum e sem pretensões de ser superior ou inferior, mas falha ao tentar mostrar uma personagem mais madura quando suas incertezas e neuroses se mostram mais presentes do que antes, além do foco ser perdido toda vez que a família da personagem entra em cena, não acrescentando muita coisa consistente como no primeiro filme.

CONCLUSÃO...
Esta continuação se mostrou desnecessária e aquém às expectativas positivas que geraram quando foi anunciada e causará estranhamento e, talvez, frustração àqueles que conheçam o primeiro filme. E caso não conheçam, devem. E depois de conhecer, fique apenas com ele.

domingo, 26 de agosto de 2012

A CASA É MUDA, MAS RECLAMA...

★★★★
Título: A Casa Muda (La Casa Muda)
Ano: 2010
Gênero: Terror
Classificação: 14 anos
Direção: Gustavo Hernandez
Elenco: Florencia Colucci, Abel Tripaldi, Gustavo Alonso
País: Uruguai
Duração: 86 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um pai e uma filha que vão trabalhar e colocar em ordem uma casa no meio da floresta para que ela seja vendida, mas dentro da casa coisas estranhas começam a acontecer.

O QUE TENHO A DIZER...
Eu não gosto muito de clichés, mas às vezes eu gostaria que o filme fosse apenas baseado nisso do que tentar fazer algo muito mirabolante e que não dá certo. É o caso desse filme, que ao mesmo tempo que tenta fugir deles acaba caindo em outros de uma forma tão ruim que a história se torna intragável. O ponto negativo do filme já começa dizendo que é baseado em fatos verídicos, e eu não sei porque ainda insistem em tentar convencer o espectador de uma coisa que ele sabe que não é verdade.

A Casa Muda teve grande repercurssão no circuito alternativo de cinema principalmente porque foi um dos longa metragens mais baratos já produzidos, custando em torno de apenas US$6 mil, e também porque foi promovido como um filme sem corte, ou seja, realizado em uma única tomada. Mas quem ficar atento vai perceber que isso também não é verdade e que os cortes existem, mas estão muito bem disfarçados. Há quem diz que há cortes a cada 10 minutos, há quem diz que ocorre a cada 12 minutos. Independente do tempo entre uma tomada e outra, elas existem, mas o interessante é a sensação de como se realmente não tivesse. O filme acabou ganhando uma versão norte-americana inferior (se é que é possível ser mais), A Casa Silenciosa (Silent House, 2011).

Essa experiência e tentativa de realizar um filme em uma única tomada já foi feita em 1948 no filme Festim Diabólico (Rope, 1948), de Alfred Hitchcock, a diferença é que no filme de Hitchcock, baseado em uma peça teatral, o cenário é uma única sala. Festim também possui cortes disfarçados, tendo sido feito em 10 tomadas de 10 minutos cada, já que era a capacidade máxima de tempo de cada rolo de filme na época. Brian De Palma, admirador e copiador extensivo de Hitchcock, também tentou essa façanha, mas apenas nos 15 minutos iniciais do filme Olhos de Serpente (Snake Eyes, 1998), numa seqüência pra lá de ousada e coreografada, já que a câmera acompanha o ator principal (Nicholas Cage) por vários níveis de um ambiente público e movimentadíssimo. Quentin Tarantino e Scorcese também são fãs de tomadas longas, assim como todo diretor que gosta de ousar.

Filmado com uma câmera digital, essa tentativa de querer inovar o gênero de filmes de horror em primeira pessoa, embora não soe muito original, consegue dar um tom de novidade. O clima de suspense é proporcional à constância da filmagem, brincando com o medo nato do escuro e daquilo que não podemos ver, sem truques de edição ou câmera, tudo em tempo real, muito simples e funcional. As cenas são bem realizadas e dirigidas muitas vezes com precisão para as gafes não surgirem. A iluminação bastante escura acaba contribuindo bastante o clima sombrio e de observador que o espectador experimenta. O filme não consegue assustar tanto, mas deixa o clima de tensão constante.

Mas enquanto temos grandes qualidades técnicas dentro do baixo custo, há o pecado da falta de uma história adequada. Aliás, não há uma história, só existe um argumento tolo e confuso para dizer que o filme tem um roteiro. A personagem principal apenas anda e anda pela casa com um lampião elétrico, e ao invés de se preocupar com o que pode estar atrás e no escuro, ela se preocupa em observar detalhes, objetos e a procurar coisas em lugares que não caberia como, por exemplo, quando ela está procurando e chamando por seu pai enquanto verifica uma estante de livros (???).

Claro que isso pode fazer algum sentido no final, quando descobrimos que a personagem sofre um misto de síndrome de ilusão pós-traumática com um surto indefinido de amnésia e que acaba resultando em um ataque psicótico. Mas essa conclusão de soltar falsas pistas para o espectador e posteriormente justificar com alguma(s) doença(s) psiquiátrica(s) se transformou numa recorrência do cinema atual, um novo cliché, como acontece em filmes como Identidade (Identity, 2003), Possuídos (Bug, 2006), 1408 (2007), ou até mesmo Ilha do Medo (Shutter Island, 2010). Esses filmes trabalharam bem em cima dos argumentos, mas nesse filme essa conclusão é dedutiva e fica no ar, deixando quem assiste perdido em acontecimentos sem pé e nem cabeça, confuso na hora de encontrar uma explicação. É aí que digo que são nessas horas que o uso dos clichés comuns seriam bem vindos, não porque o filme seria mais fácil, mas porque ele seria mais coerente em seu propósito e menos propenso a erros.

É uma ficção que passa a deixar de convencer depois de tentar sair da trivialidade com medo de se tornar mais um filme comum do gênero. E veja só, não apenas continuou sendo mais um, como também não conseguiu impressionar tanto quanto poderia.

CONCLUSÃO...
Uma idéia interessante e dentro um argumento fraco. Como um um pão bolorento, bonito por fora, mas estragado por dentro.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

TÉCNICA NÃO TEM PREÇO...

★★★★★★★★
Título: Absentia
Ano: 2011
Gênero: Drama, Suspense, Terror
Classificação: 14 anos
Direção: Mike Flanagan
Elenco: Courtney Bell, Katie Parker, Dave Levine, Justin Gordon, Morgan Peter Brown
País: Estados Unidos
Duração: 87 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Depois de 7 anos a procura de seu marido desaparecido, com a ajuda de sua irmã recém chegada na cidade, uma mulher decide simplesmente aceitar o fato de que seu marido morreu e dar andamento na sua vida e no filho que espera. Mas sua irmã passa a se deparar com fatos que mostrarão que o desaparecimento de seu marido não é apenas um fato isolado como também é similar ao de muitas pessoas.

O QUE TENHO A DIZER...
Ainda inédito no Brasil, achei esse filme por acaso em um site (é fácil achá-lo), fiquei curioso com a sinopse e fui pesquisar a respeito no IMDb. A nota oferecida pelos avaliadores é baixa, com uma média de 5,7, mas em compensação os comentários foram bastante favoráveis e percebi que esse era mais um daqueles filmes que muitas pessoas assistem e acabam subjulgando o produto porque não oferece aquilo que esperam, porque ele não é um filme de horror como a expectativa de muitos pode achar.

Este filme faz parte dessa nova safra de filmes de um subgênero que poucas pessoas estão dando atenção, o suspense dramático ou horror dramático, filmes que abusam de um enredo dramático familiar ou pessoal, e se desenvolvem como um filme desse gênero, mas que acaba tendo reviravoltas ou conclusões com características do suspense ou terror. Uma atmosfera similar a de filmes como Os Outros (The Others, 2001), O Orfanato (El Orfanato, 2007), Os Olhos de Julia (Los Ojos de Julia, 2010), e os mais recentes O Despertar (The Awakening, 2011), e o sem título nacional definido, The Tall Man (2012). Este último filme com uma temática até bastante similar, mas ao invés de falar de adultos, fala do desaparecimento de crianças.

É um estilo que notei ser mais comum em filmes europeus e particularmente assisti mais filmes espanhóis assim, talvez porque o público norte-americano goste de coisas fáceis e definidas, porque não me lembro de ter assistido alguma produção americana desse gênero que tivesse feito sucesso, com excessão de Os Outros, mas que é um filme que nem segue muito as características que definem esse estilo. Confesso que esperava um filme insosso e tedioso, mas quando acabou me encontrei tenso, com respiração curta e ao mesmo tempo lágrimas nos olhos.

O filme é dirigido, escrito, editado e produzido pelo desconhecido Mike Flanagan, e o mesmo pode ser dito sobre os atores, também pouco conhecidos e com poucos trabalhos relevantes no currículo, mas o talento de todos é evidente. Filme independente, custou apenas a bagatela de US$70 mil, uma produção muito barata pelas qualidades que ele oferece, mesmo com alguns defeitos como imagem granulada pela baixa qualidade da câmera, mas que combinam perfeitamente com o enredo do filme. Mike Flanagan participou e ganhou diversos festivais de cinema de horror espalhados pelos EUA com este filme, o que demonstra a boa aceitação e que existe um público cansado do gênero cru e comum de suspense ou terror. As pessoas não estão mais interessadas em levar apenas sustos, elas querem uma história apreensiva e que surpreenda pelo misto de sensações.

A história tenta dar razões para o sumiço de Daniel (Morgan Peter Brown), marido de Tricia (Courtney Bell), que está desaparecido há 7 anos e sem deixar qualquer pista. O clima criado pelo diretor é de solidão, confusão e distanciamento até mesmo quando Callie (Katie Parker), a irmã mais nova, chega na cidade depois de anos viajando, para ajudar Tricia com mudanças que acontecerão por conta da sua gravidez.

As coisas começam a mudar quando Callie encontra um homem estranho em um túnel que liga o bairro à cidade, e ao voltar para dar comida ao estranho, ele desapareceu. Posteriormente a isso, objetos estranhos começam a aparecer, como em um jogo de trocas, chamando a atenção de Callie para outros fatos que vem a acontecer.

Não estragaria muitas surpresas se eu contasse mais sobre o filme, porque ele não tem grandes mistérios, mas mesmo assim acho bom mantê-los de lado por conta das surpresas dramáticas, que é o grande atrativo do filme junto com o clima de suspense mantido na expectativa que criamos frente aos acontecimentos de cada uma das personagens. As atuações são bastante convincentes e a direção consegue deixar a tensão suspensa o tempo todo, desde a forma como o roteiro e os atores são conduzidos durante o processo, realizando cenas certas nas horas certas, até o uso de diferentes estilos de filmagens em momentos adequados, em sequencias subjetivas e objetivas, câmeras livres e enquadramentos fechadas, opacos, claustrofóbicos. Mike Flanagam também abusa de diferentes lentes de filmagem, principalmente em momentos de tensão, objetivando a sensação de foco e atenção. São truques manjados, mas que quando usados de maneira correta e em momentos certos é quase imperceptível, ao mesmo tempo que consegue causar o impacto pretendido em quem assiste. Portanto, para tirar do espectador sensações e sentimentos, basta saber utilizar as técnicas. E técnica não tem preço, muito menos boas idéias.

Absentia tenta dar explicações sobrenaturais para os acontecimentos, mas ao mesmo tempo o roteiro não desvia da realidade ao dar outras breves alternativas e deduções mais plausíveis, o que dá a livre escolha a quem assiste de acreditar mais em um ponto de vista do que outro, ou apenas aceitar os dois lados.

CONCLUSÃO...
Uma das grandes surpresas que assisti esse ano e que recomento àqueles que desejam sair um pouco do óbvio e do susto encomendado. Como disse antes, o filme tem um teor muito mais dramático, e o clima de horror e suspense são criados exatamente por explorar diferentes pontos de vista dramáticos que raramente costumamos ver. Definitivamente merece ser assistido por quem quer mais do que susto gratuito e procura uma história simples, porém densa e que se desenvolve por vários lados.

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