Translate

domingo, 12 de janeiro de 2014

APENAS PARA FÃS DO GÊNERO...

★★★★★☆☆☆☆☆
Título: Somos O Que Somos (We Are What We Are)
Ano: 2013
Gênero: Horror, Mistério, Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Jim Mickle
Elenco: Bill Sage, Ambyr Childers, Kassie Wesley DePaiva, Kelly McGillis
País: Estados Unidos
Duração: 105 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A família Parker é tradicional, e segue um ritual antigo que já existe há gerações. Eles se encontram em uma situação de risco depois que a morte de um membro da família coloca todas as responsabilidades em cima das irmãs Iris e Rose em seguir com essas tradições.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é uma versão americana do mexicano Somos Lo Que Hay (2010), e segue tipicamente um estilo de horror que não é agradável para muito espectador, um estilo fora de circuito, típicos para o público de Sundance, onde o roteiro está muito mais interessado em desenvolver a história e as situações até um clímax final por vezes chocante, e que foge de qualquer expectativa.

Tecnicamente ele tem lá suas qualidades e as atuações estão bem acima da média para um elenco desconhecido e para a história desenvolvida, mas não há como negar que seja desconfortável. Para quem assistiu Stoker (2012) e gostou, que foi outro filme de horror um tanto esquisito lançado em 2013 com Mia Wasikowska e Nicole Kidman, provavelmente também gostará deste. Mas ao contrário de Stoker, que tenta justificar a psicopatia dos personagens principais a partir de seus pontos de vista, traumas e razões que justifiquem a progressão desta doença, Somos O que Somos tenta justificar as ações dos personagens a partir de uma cultura ancestral pouco esclarecida em roteiro, o que deixa boa parte da história vaga e perdida, soando apenas algo inconsequente ao chegar no ato final.

A apresentação, toda trabalhada em filtros visuais e imagens desfocadas, numa fotografia até bonita, deixa dúvidas se será um filme de horror baseado no sobrenatural ou não, mas após a introdução as coisas ficam mais claras e um tanto óbvias até termos a certeza de que ele abordará temas antropofágicos, religiosos e até psicológicos.

Para os Parker, a religião e a crença estão em primeiro lugar, e eles seguem um diário ancestral que é repassado para as gerações seguintes, cuja responsabilidade sempre fica ao filho mais velho (aparentemente depois da matriarca, que é a responsável por todo o processo ritualístico). O diário detalha este ritual que hoje é realizado por eles de tempos em tempos, e é o que vai justificar a apresentação do filme e, inclusive, a demência que vai tomando conta de Frank, o patriarca.

A verdade é que a história é baseada na doença chamada Doença de Kuru, ou Doença de Creutzfeldt-Jakob, estudada e reportada pela primeira vez na década de 20, na Alemanha. Também se baseia na epidemia que ocorreu em Papua, na Nova Guiné, nas décadas de 50 e 60 entre pessoas que faziam parte de tribos que realizavam rituais antropofágicos. Durante os rituais de passagem, essas tribos se alimentavam do cérebro do familiar morto, e o que se sabe é que esta doença é transmitida pelos príons através da ingestão da carne contaminada, que são agentes infeccioso que não virais, nem bacterianos ou fungicos, portanto não conseguem ser combatidos, sendo letal para o indivíduo ou animal que o contrair. Por isso a ocorrência da epidemia em Papua. Posteriormente, descobriu-se uma variação moderna da doença em animais, a popularmente conhecida Doença da Vaca Louca.

Os sintomas são a perda de memória, tremores e demência, e se manifestam geralmente a partir dos 40 ou 50 anos de idade nas pessoas contaminadas, em sua maioria mulheres. No filme os personagens acreditam que esses sintomas sejam um reflexo da falta de fé e uma manifestação divina de que é o momento de ser realizado o ritual. As irmãs Iris e Rose não possuem a doença manifestada, portanto se questionam se o ritual realmente é necessário, e esse questionamento as colocarão em conflito com seu pai, que já está com a doença desenvolvida e todos os sintomas latentes, mas como ele não sabe disso, acredita que seja uma punição divina.

Foi uma sacada até interessante utilizar uma base científica e um fato histórico para dar profundidade a um filme de horror, ousado até, mas o momento da revelação de tudo isso é um momento tão breve e rápido que ele não apenas aparenta ser fictício como uma justificativa banal para quem não souber da existência da doença ou não pesquisar a veracidade das informações. A falta de uma explicação mais didática e condensada deixa a história superficial, e que a antropofagia pela antropofagia acaba sendo simplesmente para o bem do horror sanguinário da história e para justificar uma psicopatia latente. De qualquer forma, não é um filme de horror para qualquer um, mas impacta e até consegue construir uma atmosfera um tanto sombria.


CONCLUSÃO...
O final do filme chega a ser chocante e um tanto desnecessário, mas conclui a moral do título. Mas não chega a ser algo muito relevante no gênero, apenas um diferencial para satisfazer unicmanete os verdadeiros fãs do gênero.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

WOODY NA MELHOR FORMA...

★★★★★★★★★☆
Título: Blue Jasmine
Ano: 2013
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Woody Allen
Elenco: Cate Blanchett, Alec Baldwin, Sally Hawkins, Peter Sarsgaard
País: Estados Unidos
Duração: 98 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Jasmine é uma socialite que não está mais com seu marido, e embora aparente ter milhões, está sem casa e dinheiro no bolso, e agora volta a São Francisco para morar com sua irmã adotiva.

O QUE TENHO A DIZER...
Vamos encarar o fato de que eu definitivamente não sou um daqueles fãs disciplinados de Woody Allen que colecionam seus filmes desde a década de 70 e que tiram o pó da prateleira Woody Allen toda semana onde, de cima pra baixo, estão as coleções em VHS na primeira prateleira, depois as coleções de DVD, as de Blu Ray, e abaixo os livros: biografias, antologias, fotobiografias e peças teatrais. Mais abaixo, quase ao chão, as revistas de cinema, recortes de resenhas dos críticos mais honoráveis e respeitáveis, e entre uma prateleira e outra, souvenirs de pontos turísticos de Manhattan citados em seus filmes para cobrir buracos de uma ordem cronológica que ainda não foi completada.

Também vamos encarar o fato de que eu não tenho articulação suficiente para dialogar sobre seus filmes na sua forma mais psicoanalítica possível, e que também não vou levantar do sofá e esbravejar uma tese de doutorado quando alguém disser que não gostou, por exemplo, de O Escorpião de Jade (The Curse Of Jade Scorpion, 2001), ou que considera Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (You Will Meet a Tall Dark Stranger, 2010) um de seus piores filmes.

Vamos encarar também que eu nasci na década de 80, comecei a assitir filmes com 8 anos de idade e, por mais precocemente entendido que fosse aos 14, ainda era muito novo pra compreender seus filmes e personagens que sempre foram partes de suas próprias neuroses e complexidades. Talvez seja por isso que hoje aprecio os seus filmes com muito prazer, principalmente depois que ele descobriu que existe um mundo fora de Nova York, e que a esquisitice humana é presente em todos, não somente nele.

Blue Jasmine é mais um de seus filmes de uma safra pós autoconhecimento, vindo de uma temporada européia que renovou seu próprio estilo e o tornou mais acessível e agradável, saindo da autoanálise para focar em objetos que não seja ele, ou sobre ele, ou sobre o que o atormenta (embora seu estilo esteja presente o tempo todo), o que vem acontecendo com muito entusiasmo em seus títulos na última década.

O objeto de análise agora é Jasmine (Cate Blanchett), uma socialite casada com um poderoso empreendedor (Alec Baldwin) que, da noite para o dia, perdeu absolutamente todo e qualquer resquício de sua fortuna, deixando-a apenas com as roupas do corpo e com aquelas que couberam no seu conjunto de malas Louis Vuitton. Nem ao menos as jóias ela pode manter, já que precisou vender todas a preço de barganha para conseguir sobreviver temporariamente de alguma forma. Sem dinheiro ou ter onde morar, busca ajuda de sua irmã adotiva Ginger (Sally Hawkins), a qual ela sempre desprezou e teve vergonha por levar uma vida modesta e popular, sem qualquer característica considerável para poder fazer parte de seu círculo refinado ou até mesmo ser convidada para seu aniversário requintado.

Jasmine agora não tem futuro definido e não possui qualquer outro talento além de se vangloriar de viagens, pessoas que conheceu, bebidas que bebeu e supérfluos que nunca fizeram a menor diferença em sua vida além de entreter e conquistar aqueles que igualmente se importam com isso, já que toda a sua vida era mantida e alinhada pelo marido, portanto, nada da vida ela sabe, muito menos como sobreviver sozinha.

Não há dúvidas de que ela consegue ser uma mulher encantadora, que se esforça no excesso de etiqueta, educação e classe numa exigida conveniência social para ser alguém agradável o tempo todo, o que a fez esquecer completamente até mesmo de quem ela essencialmente é. Woody consegue desmontá-la peça a peça, colocando-a em situações tão expressivas e em ambientes tão destoantes da realidade banal que ela vivia que a personagem aos poucos se torna antipática e intolerável, que mesmo com o choque de realidade sofrido ao encarar seu novo subemprego, ou o bairro simples que agora mora, e na vida de divertimentos baratos e comuns das pessoas a sua volta, ela consegue se adaptar ou remodelar suas atitudes e comportamentos, por mais que tente e se esforce. E assim a tragetória desta heroína se tranforma em uma viagem emocional densa e profunda que, apesar de tudo, consegue conquistar a compaixão do espectador e até mesmo se identificar com essa desconexão com o mundo em algum momento.

Sem dúvida o humor sarcástico e classudo do autor está presente o tempo todo para alguns momentos da risada desperta pelo constrangimento alheio, na sua clássica forma de levar a seriedade no tom absurdo e caricato sem deixar de ser pontual, mas nada disso alivia o peso que Jasmine carrega e o buraco autodestrutivo que ela cava e se joga cada vez mais por conta de situações que deixaram-na perdida, sofrendo de pânico, paranóia e de uma distimia emocional que beira a bipolaridade. Mas ela mantem-se firme na pose virtuosa e iludida de si mesma para impedir que os outros vejam os cacos dispersos que ela realmente é, sendo capaz de ficar horas falando sobre si mesma e vangloriando-se de louros do passado para continuar no apego de uma vida que ela não possui mais.

Vamos supor que, como o crítico Dave White disse (e pelo que muito de seus filmes já mostraram), Woody odeie todo mundo e que sua misantropia seja a grande responsável por essa constante autorepugnância que agora se extende a seus personagens de maneira aleatória. Por isso ele é cruel, e não poupa qualquer personagem do sofrimento, do principal ao figurante, nem que este sofrimento seja momentâneo o suficiente para ser esquecido. Mas com Jasmine o cuidado pela destruição é refinado, como se ele amasse odiá-la, fazendo de todo o filme um processo sádico e lento de amorosa vingança por uma vida fútil que ela escolheu, pois apenas para ela a felicidade é algo momentâneo e esquecível, e nenhum tapa em sua cara é o suficiente para impedi-la de, até mesmo, julgar a vida de sua irmã como algo sem graça e desinteressante, anulando-se completamente da situação que ela se encontra, o que nada mais é do que a ostentação da mentira que ela mesma contrói sobre si para acobertar a inveja e recalque de uma felicidade que ela nunca teve, nem mesmo quando acreditava ter.

Cate Blanchett realmente consegue construir uma personagem sólida e convincente dentro dos propósitos usuais do diretor, em uma postura de refinamento exagerado de alguém que, no passado, obviamente foi uma reles suburbana, uma alpinista social que conseguiu se transformar em uma mulher luxuosa e sofisticada, porém deslumbrada sem propósitos (isso fica óbvio quando seu nome verdadeiro é revelado). O filme também não deixa de ter suas críticas sociais sobre a força dos relacionamentos aparentes e os laços de conivência, interesse e conveniência que são criados entre as pessoas, além da insistência da maioria em dar valor ao que não há valor algum, da criação de mentiras e falsa imagem que criamos para sermos notados como algo relevante em uma sociedade vazia e tão caricata quanto seus personagens.

Essa diferença de comportamento social é simbolicamente nítida quando Ginger pergunta a seu marido em um quarto barato de hotel se ele contaria a um amigo que o mesmo está sendo traído, caso descobrisse. Ele categoricamente diz que sim, justificando que os amigos existem para resguardar uns aos outros. De forma irônica, aproximadamente uma hora de filme depois, Jasmine se encontra com uma amiga em um requintado café. Sua amiga sabia que Jasmine estava sendo traída há muito tempo (não apenas ela, como todos), mas ninguém nunca disse nada, pois a consideração existente dentro da sociedade que vivem é diferente, havendo o incessante desinteresse por aquilo que não tem valor material algum, e Woody pontua essas diferenças a todo momento e em diferentes situações e nuances.

Novamente é um filme em que Woody Allen pisa com maestria entre a comédia e a tragédia no seu mais clássico significado (e embora tenha uma levada cômica, o filme é uma tragédia em sua essência), em um equilíbrio técnico em roteiro e direção que ele outra vez atinge por conta de sua insistência metódica por esses dois temas que ele vem desenvolvendo nos últimos anos obsessivamente.

CONCLUSÃO...
Não é à toa que os críticos tem considerado Blue Jasmine como o melhor e mais refinado drama do diretor. Deliberadamente equilibrado na discussão comédia/tragédia, além de ser categórico nas ironias da vida e do destino da personagem principal e uma crítica às crueldades de uma sociedade banal. Uma história muito bem contada e uma trama com algumas surpresas até bastante interessantes que sem dúvida faz dele um dos melhores filmes de 2013, e um dos melhores na longa tragetória do diretor.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

APRECIE COM EXAGERO...

★★★★★★★★☆☆
Título: Star Trek: Além da Escuridão (Star Trek: Into Darkness)
Ano: 2013
Gênero: Ação
Classificação: 14 anos
Direção: J.J. Abrams
Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Zoe Saldana, Karl Urban, Simon Pegg, Benedict Cumberbatch, Bruce Greewood, Peter Weller
País: Estados Unidos
Duração: 132 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Capitão Kirk agora terá a missão de combater uma ameaça espacial que colocará à prova suas capacidades de comando e decisão que poderão colocar em risco não apenas sua carreira e a tripulação da Entreprise, mas sua relação de confiança e amizade com todos eles.

O QUE TENHO A DIZER...
Star Trek: Além da Escuridão é dirigido por J.J. Abrams. Para quem não conhece esse diretor, aqui vai um resumo em 5 passos:

1) Começou uma carreira de sucesso como produtor de seriados famosos como Felicity (1998-2002); Alias (2001-2006); Lost (2004-2010) e Fringe (2008-2013).
2) Arriscava como diretor e roteirista em seus próprios seriados, mas no cinema foi chamar atenção com Missão Impossível 3 (Mission: Impossible 3), considerado o melhor da série. Depois disso veio o sucesso do reboot de Star Trek (2009) e Super 8 (2011).
3) Sua produtora, a Bad Robot, se transformou em uma das maiores e mais importantes da atualidade por conta dos sucessos dos seriados, dos filmes que ele dirigiu e demais outros que ele apenas produziu como: Cloverfield (2008) e Missão Impossível - Protocolo Fantasma (Ghost Protocol, 2011). 
4) É o mais novo queridinho dos diretores de Hollywood, amigo e um grande admirador de Spielberg, diretor o qual o estilo ele se apropriou e segue fielmente as mesmas fórmulas (basta assistir Super 8 para saber do que falo).
5) Foi jogada em suas costas a gigante responsabilidade em produzir, dirigir e escrever a retomada da série Star Wars no Episódio VII da franquia.

Após essa breve apresentação, já sabemos que Abrams não é mais um maluco qualquer que criou seriados sem pé nem cabeça que abraçou milhões de fãs no mundo. Ele virou um homem poderoso e respeitado porque tudo que ele faz é comercial e hollywodiano demais, mas a qualidade é inegável. Seus filmes cumprem a proposta de entreter sem serem banais e descartáveis, e os títulos produzidos ou dirigidos por ele não são esquecidos facilmente com o tempo. Por essa razão que ele é bastante comparado a seu amigo Spielberg, pois todos seus filmes, até hoje, são sucessos de público e crítica, até mesmo na bobagem nostálgica chamada Super 8.

Quando o reboot de Star Trek foi anunciado, a preocupação dos fãs foi geral. Como retomar uma série antológica e icônica tanto da TV quanto do cinema, dentro de padrões atuais e modernos, sem perder as características? Com atores jovens e desconhecidos, ele recontou a história dos exploradores espaciais e conseguiu ser inovador e fiel o suficiente para agradar os fãs, os não fãs, e os que pouco sabiam ou desconheciam.

Quatro anos separaram o primeiro filme de sua continuação. Absurdos de lado, Abrams conseguiu fazer desta sequencia algo tão bom quanto o primeiro, mesmo esquecendo-se completamente de quaisquer leis da física. Na linguagem do cinema atual, absurdos ainda são possíveis, mas a facilidade pela busca de informações hoje em dia é tão grande que ninguém mais se convence com qualquer coisa, e a exigência dos espectadores por algo mais próximo possível de uma realidade hipotética é grande, ainda mais depois de reboots de filmes de ação que agoram puxam para o maior realismo possível (e que outrora tinham teores surreais intragáveis atualmente). O diretor conseguiu driblar tudo isso magicamente, fazendo a história e as sequencias de ação serem tão mais importantes que os absurdos se tornam irrelevantes e imperceptíveis tal qual eram os filmes de ação dos anos 80/90 (principalmente aqueles dirigidos por ninguém mais que Spielberg) e, obviamente, o seriado e os filmes da própria série Star Trek.

Por mais fantásticos que pudessem ser, a série Star Trek sempre teve como característica principal criar mundos e dimensões tão ilógicas e cativantes que, mesmo assim, convencia de que todo aquele esquisito desconhecido pudesse existir em uma realidade qualquer. Tudo isso é mantido no filme, bem como a dimensão e a profundidade dada aos personagens foi muito maior, principalmente na relação conflituosa de precisa racionalidade de Spock, com o exagero intuitivo e emocional de Kirk. O roteiro, muito bem trabalhado principalmente em cima dos diálogos que expõem cada vez mais com exatidão a personalidade de cada um, faz os personagens serem convincentes, grandiosos em seus determinados momentos e não tendo oportunidades para pieguices até mesmo em momentos de extremo cliché, como quando Spock e Kirk tocam as mãos através de um vidro que os separam. Este momento em específico é muito óbvio, mas só não se tornou ridículo por conta de um tom dramático preciso tanto dos diálogos, quanto dos atores, que é utilizado por todo o filme em doses realmente muito bem medidas.

E sem dúvida também há os momentos cômicos que fazem parte da fórmula de qualquer filme do gênero, mas que igualmente fogem de situações óbvias e de riso fácil e pastelão, indo para um humor mais debochado e irônico, como o constantemente estressado Scotty (brilhantemente interpretado pelo britânico Simon Pegg), o mau humor caricato de Magro/Bones (Karl Urban) e até mesmo o pragmatismo exagerado de Spock (Zachary Quinto). E tudo funcionando com fluidez, como manda a cartilha Star Trek de ser.

Não é à toa que o filme está na lista dos melhores filmes de ação do ano (igualmente ocorreu com o primeiro), arrecadando mais de US$460 milhões e prometendo novamente uma vida longa para a nova franquia de uma velha guarda (o terceiro filme já foi anunciado, mas provavelmente não será dirigido por Abrams).

CONCLUSÃO...
Abrams segue à risca todas as características e a fórmula do universo Star Trek nesse novo filme, dando ênfase na construção dos personagens e suas relações num roteiro caprichado que consegue fazer o absurdo e ilógico serem capazes de entreter sem ofender, como antigamente.

domingo, 15 de dezembro de 2013

LOLA VERSUS... FRANCES!

★★★★★★★☆☆☆
Título: Frances Ha
Ano: 2012
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Noah Baumbach
Elenco: Greta Gerwig, Mickey Sumner, Michael Zegen, Charlotte d'Amboise
País: Estados Unidos
Duração: 86 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Frances é uma aspirante a dançarina que não tem talento, que mora em Nova York mas na verdade não possui um apartamento, e que segue numa trajetória de crescimento pessoal sem deixar para trás seus sonhos e vontades.

O QUE TENHO A DIZER...
Frances Ha é dirigido por Noah Baumach, o qual também escreveu o roteiro em parceria com a própria atriz principal, Greta Gerwig.

Greta ainda é uma atriz desconhecida, mas que vem chamando muita atenção do circuito independente nos últimos anos justamente por, assim como outra atriz de sua geração, Brit Marling, não ser somente uma atriz, mas também produtora, roteirista e até já ter investido na direção.

Conta a história de Frances, uma mulher apaixonada por dança (mas que não sabe dançar), de 27 anos, e que mora em um apartamento em Nova York com sua melhor amiga de infância, Sophie. Como unha e carne, as duas são inseparáveis, tanto que Sophie se considera a versão morena de Frances, e é dessa forma que Frances fala de sua amiga aos outros. Para os demais, as duas são um casal lésbico que não faz sexo, e para elas esse rótulo pouco importa, porque elas se amam como irmãs e dormem juntas na mesma cama como um casal enquanto discutem sobre outros homens e seus fracassos amorosos. Um dia Sophie surpreende Frances ao dar a notícia que irá se mudar para outro apartamento para morar com outra garota. Essa notícia balança toda a base e estrutura confortável da vida da personagem, e a partir daí tudo desaba aos poucos, pedaço por pedaço.

Para quem assistiu seu filme anterior, Lola Versus (2012), definitivamente vai encontrar algumas situações similares neste novo filme. De alguma forma eles até se completam, e Frances Ha parece até fazer algumas referências ao anterior, podendo ser visto indiretamente como uma continuação, ou até mesmo como a outra face da percepção de como lidar com frustrações comuns da vida e do cotidiano humano. Enquanto Lola Versus foi um drama cômico sobre uma personagem que humanamente sofre em retomar sua vida após o término de uma longa relação semanas antes do seu casamento, Frances Ha é uma comédia dramática que não apenas lida com relações, mas com diversas outras situações habituais comum a todos e que essencialmente se difere de Lola por conta da força de vontade da personagem em superar as duras mudanças de uma vida que ela considerava simples e perfeita, mas que agora virou apenas um sonho no qual ela está determinada a reconquistar, custe o que custar.

Lola Versus não foi muito bem interpretado pelo público e pela crítica, talvez por conta da veracidade até brutal que o filme tenta mostrar de forma cômica sobre as dores, frustrações e conflitos passados pela personagem até atingir a natural superação sobre uma situação e um capítulo amoroso específico em sua vida, o que é realista para quem já passou pelo mesmo que ela, mas que soa absurdo ou exagerado para quem ainda não o vivenciou. Mas com uma narrativa similar, Frances Ha foi melhor aceito e compreendido por abranger situações que definem uma fase de transição complicada da juventude irreponsável para a total juventude independente, além da determinação da personagem em encarar essas situações trágicas como obstáculos a serem superados, ao invés de sofrer tudo passivamente como aconteceu com a personagem do filme anterior. Ela é graduada, inteligente, legal, engraçada, amistosa, vem de uma família de classe média e possui apenas pessoas interessantes a sua volta. Ou seja, ela poderia ser e fazer o que quisesse, mas viver em um apartamento qualquer, ter uma vida simples e trabalhar em um subemprego de dançarina substituta são as escolhas que ela fez e pretente se manter, mesmo que ela quebre a cara com isso.

O filme é unicamente sobre Frances e, por isso, não há uma cena sequer em que ela não esteja presente, mostrando sua vida de forma intimista e nostálgica, e a identificação com certos momentos chega a ser forte e carismática o suficiente para não ser vista com estranheza pelo espectador, tanto que o filme foi intencionalmente feito em preto e branco porque o diretor queria limitar o foco e a atmosfera apenas na personagem e em sua trajetória, e não ser saudosista a uma época, até porque a contemporaneidade do filme não se encaixaria nisso.

A história pode ser linear, mas o roteiro realmente se bagunça em dar atenção mais para alguns momentos do que para outros, mas definitivamente isso não atrapalha a intenção e a idéia principal do filme - e sua moral - da busca da personagem pela independência, superação e determinação da conquista de sonhos, importantes para a maturação das idéias e do caráter, o que é muito bem mostrado.

O mérito disso é inteiramente tanto de Greta Gerwig quanto dos diálogos, em uma atuação apaixonante e sincera nas variações emocionais - às vezes sutis, às vezes exageradas - que em nenhum momento fogem da perspectiva e da personalidade despretenciosa, desordenada e impulsiva da personagem. Os diálogos não podiam ser mais inteligentes, variando entre o cinismo e a ignorância proposital, a ingenuidade e o excesso de malícia. Os momentos íntimos e sinceros do filme se tornam realmente íntimos e sinceros porque todo mundo já fez o que Frances fez, e se não fez, irá fazer. Só que a grande graça de todo filme é que, embora Frances tenha idéias inconsequentes, atitudes impensáveis e seja por algumas vezes inconveniente, ela mesmo assim continua sendo legal, e ao invés de sentirmos pena, nós torcemos por ela.

Frances começa o filme com sonhos e atitudes típicas do deslumbre da primeira experiência dessa juventude independente e da falta de necessidade de obrigações e satisfações, até mesmo se auto-referindo como alguém "inamorável" justamente por não querer se apegar a nada além de sua própria vida e experiências. Depois entra para os conflitos e o choque com a realidade: a constante falta de dinheiro; a dúvida profissional; a ironia da descoberta da falta do talento para o que mais ama; as atitudes inconsequentes; a dificuldade de readaptação social, de encontrar e se encaixar em diferentes grupos que mudaram no decorrer do aumento de experiências e responsabilidades. Ela chega até a ter atitudes inconvenientes por conta da imaturidade, ou na tentativa de demonstrar ser algo que não é para ser aceita numa sociedade que ela descobre prezar pela imagem e status, como no jantar em que participa, disparando diálogos constrangedores a todo tempo ao tentar ser o que não é, só cativando a atenção de todos quando, já bêbada e desarmada da falsa imagem, faz uma observação inusitada e até poética sobre a vida e as relações.

Ela atinge a maturidade e a fase adulta quando finalmente decide deixar o passado para trás, descobrindo aos tropeços que a vida é uma onda de constantes mudança adaptáveis, e que para isso ela não precisa deixar de ser o que é em essência, apenas manter o pensamento positivo. O ápice desse desenvolvimento confuso, porém fluido da personagem, é visto de forma breve e muito marcante nos últimos minutos do filme, na sua postura de mulher adulta, e até mesmo na forma como ela novamente se considera "inamorável", mas que agora carrega uma outra carga de responsabilidade na afirmação e que se resume no espetáculo final, ou quando Colleen, a dona da companhia de dança - e a grande responsável por abrir os olhos da personagem à realidade - diz que a apresentação foi interessante por representar o que Frances realmente é.

A leveza com que o filme trata essa positiva inércia vivida por Frances faz com que ele não apenas tenha diálogos memoráveis como várias cenas igualmente inesquecíveis, como no momento em que ela corre dançando pelas ruas de Manhattan. São cenas deliciosas como essa, além da trilha sonora 70/80tista que nos remetem aos filmes daquela época, que assistíamos e reassistíamos justamente para absorver as cenas marcantes e decorar os diálogos interessantes, o que nesse filme tem de monte.

CONCLUSÃO...
Greta novamente faz um trabalho doce, despretencioso, delicado, sutil e realista. A atriz conquistou sua primeira indicação ao Globo de Ouro no gênero Comédia/Musical pelo filme, e com certeza sua grande estréia em uma carreira que promete ser grandiosa no futuro. É um filme com as mesmas pretensões de seu filme anterior, Lola Versus, porém mais abrangente e, por isso, melhor assimilado e com maior vínculo de identificação.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

MICHAEL BAY DE SEMPRE...

★★★★☆☆☆☆☆☆
Título: Sem Dor, Sem Ganho (Pain & Gain)
Ano: 2013
Gênero: Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Michael Bay
Elenco: Mark Wahlberg, Dwayne Johnson, Anthony Mackie, Tony Shalhoub, Ed Harris, Rebel Wilson
País: Estados Unidos
Duração: 129 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
História do educador físico, instrutor e halterofilista Daniel Lugo, que resolve por em prática um plano criminoso e inconsequente para ser mais um novo milhonário em Miami.

O QUE TENHO A DIZER...
Sem Dor, Sem Ganho é dirigido por Michael Bay. É seu segundo filme produzido com um pouco mais de US$25 milhões e, por incrível que pareça, talvez sua primeira e única tentativa de fazer um filme sério para tentar provar para um público - que não se sabe qual - de que ele pode ser um bom diretor em uma carreira definida por blockbusters bobos a inúteis, como a tetralogia Transformers (o quarto filme estréia em 2014). Considerado quase que em unanimidade pelos críticos como um dos piores diretores do cinema, justamente por ter em seu currículo apenas títulos puramente medíocres e comerciais, chega a ser até incoerente alguém como ele tentar criticar o consumismo, o "american way of life" e a cultura do corpo nesse filme que até tem um conteúdo que podia ser aproveitado e levado a sério, caso ele não fosse o diretor.

O filme começa dizendo que a história é real, quando na verdade ela é apenas baseada nas matérias de Pete Colins publicadas no Miami New Times, em 1998, sobre o professor, instrutor e halterofilista Daniel Lugo, que desiludido com uma vida nada glamurosa no meio da grande ostentação e imagem de Miami, resolve cair no mundo do crime de forma muito estúpida e inconsequente apenas para conseguir tudo o que as outras pessoas tem e que ele nunca conseguiu, como uma mansão, um conversível, mulheres, influência na sociedade e drogas.

Michael Bay, juntamente com Roland Emmerich ou o produtor Jerry Bruckheimer, fazem parte de um nicho de Hollywood que sempre teve grandes orçamentos nas mãos, tendo a liberdade de pecar no excesso e na falta de qualidade para atingir diretamente um público que busca o entretenimento fácil. Eles são respeitados e requisitados na indústria única e simplesmente por este propósito. Portanto, quanto mais bombas, explosões, porradas, efeitos especiais e piadas sem graça, mais acessíveis são seus filmes. Em uma carreira de mais de 15 anos, como a de Bay, apenas realizando filmes neste estilo vazio, não é de impressionar que Sem Dor até tenta, mas não consegue ter conteúdo suficiente pra mudar a péssima reputação do diretor.

É claro que todos os clichés estão presentes em personagens estereotipados, como o narcisista personagem principal, o grandalhão violento e infantil, e um terceiro elemento que não oferece desenvolvimento algum no filme. Todos os personagem apresentados são absurdamente ignorantes, que agem inconsequentemente numa desordem caótica. Há também a vítima que tenta ter uma vilania pintada de uma forma tão insuportável como que a convencer o espectador de que ele realmente merece tudo que sofre. Depois disso, tudo é um show de horrores, como a prostituta estrangeira e burra, um investigador da polícia durão e uma enfermeira vivida por Rebel Wilson numa caricatura de gorda-loira-sexy-esquisita-safada-e-burra que ela repetiu tantas vezes que já virou um tipo cansado e sem graça.

A idéia do filme não é de toda ruim, e a história de Daniel Lugo chega a ser interessante, mas muito mal contada. Michael Bay até acerta poucas vezes em alguns jogos de câmera, mas que logo perdem a graça por conta da repetitividade, como se ele tivesse descoberto um truque legal. Mark Wahlberg também tenta construir uma personalidade histérica e desesperada, mas está mais no filme para promover sua marca de suplementos alimentares, já que ele promoveu o filme dizendo que toda sua dieta foi feita com seus suplementos. Mas quem realmente rouba a cena é o truculento Dwayne Johnson que, mesmo repetindo um estilo que ele já fez em filmes anteriores, consegue mostrar muito bem uma versatilidade cômica e um tanto rústica sem ser forçado. Rouba a cena também a mais-que-coadjuvante personagem iuguslava, que aparece por não mais de 10 minutos, mas faz uma sequencia bem hilária e trágica quando é dopada com um potente anestésico animal.

Essa intenção de ser um filme apenas de vilões ou anti-heróis (não há heróis ou mocinhos em todo o filme) chega a ser um diferencial que poderia ter sido melhor aproveitado, mas além de longo demais, se prende e se estende em pormenores desnecessários, numa violência injustificada, que fica inadequada porque não havia necessidade da história caminhar para essa via. O roteiro inconsistente, que vai e volta, sem pé nem cabeça, mostra todo o sofrimento de uma história mau desenvolvida. Ou seja... por mais que ele quisesse fazer algo diferente, no fim é um típico filme Michael Bay.

CONCLUSÃO...
Michael Bay novamente pesando a mão e provando mais uma vez que seu talento é limitado em um filme que ele tenta a todo custo provar o contrário.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

QUEM É ELENA?

★★★★★★★★★☆
Título: Elena
Ano: 2011
Gênero: Drama, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Andrey Zvyagintsev
Elenco: Nadezhda Markina, Andrey Smirnov, Elena Lyadova, Aleksey Rozin
País: Rússia
Duração: 109 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Elena é uma enfermeira aposentada que há dez anos se transformou em uma dona de casa dedicada e oprimida, mas agora deverá tomar decisões inadiáveis e necessárias para o seu futuro e o de sua família.

O QUE TENHO A DIZER...
Elena é um filme russo dirigo por Andrey Zvyagintsev que obviamente é desconhecido pelo ocidente, mas chamou a atenção com este filme delicado e ao mesmo tempo denso que muito carrega da própria cultura socio política da Rússia e suas consistentes mudanças no decorrer dos tempos. Foi um dos grandes vencedores no Festival de Cannes de 2011 e de outros prêmios independentes pelo mundo (não confundir com o brasileiro Elena (2012), igualmente bem recebido pela crítica e público).

A construção do filme é lenta e gradativamente se aprofunda na história e na vida da personagem principal e dos demais que estão relacionados a ela que, embora seja até previsível em algumas situações, consegue fornecer uma narrativa surpreendente. O que é válido dizer é que Elena é uma enfermeira aposentada, e hoje uma dona de casa oprimida, de origem pobre e proletária que teve a sorte de cuidar e conhecer alguém que pode oferecer a ela uma melhor qualidade de vida. Talvez ela seja feliz em uma relação que hoje se resume em uma situação arranjada, funcional e codependente, cômoda na rotina e em regras determinadas até mesmo para o sexo em uma vida submissa e subalterna. Porém, a personagem agora se encontra em uma fase de decisões necessárias e inadiáveis, importantes para uma mudança de posições a seu futuro e ao de seu filho casado, que ainda mora em condições precárias no subúrbio e tem como profissão receber mensalmente a aposentadoria que sua mãe religiosamente entrega em suas mãos para alimentar seus dois filhos e a total dependência parasitária de sua família. Elena talvez pouco dê atenção a isso ou se importe, já que acredite estar fazendo bem e contribuindo principalmente para o futuro de seus dois netos, além de ter em si o instinto materno do cuidado e do amor incondicional, ou simplemente sentir-se na obrigação de agir assim.

Os "talvez" dessa história não são em vão, pois o trabalho da atriz se vale principalmente na sutileza e na discrição de uma performance complexa e enigmática de uma personagem que nunca deixa transparecer o que acha ou pensa além do necessário e que precisa estar ao alcance dos outros. Em algumas situações ela deixa transparecer tais dúvida, mas os momentos são tão raros e momentâneos que podem passar despercebidos em um piscar de olhos. Essa maestria da atriz e da direção em tecnicmanete ter total controle sobre a personagem, carregando o espectador em uma constante dualidade de conflitos contidos onde nunca sabemos até que ponto suas ações são calculadas ou espontâneas, não apenas são os pontos altos de todo o filme como a grande razão de se apreciar esta pequena e sólida obra. Como dito pelo crítico Peter Bradshaw para o The Guardian, a cena em que o diretor foca uma foto de Elena, provavelmente tirada dez anos antes e pela própria pessoa com quem ela dividiu esses dez anos, é o momento chave em que nos perguntamos quem é ela? O que ela realmente quer? Quem ela ama?

Mas os detalhes não param por aí, a relação entre Elena e sua familia metaforicamente representam as diferença de classes que agora os dividem, retratando uma imagem brutal e contemporânea da sociedade russa que se dividiu brutalmente com a queda do socialismo e se prendeu em uma estrutura familiar um tanto feudal, onde o direito e o respeito deve ser dado ao patriarca que provê nada além do necessário, estando ele no direito de cobrar pelo ofertado e decidir por aqueles que dependem de seus favores ou auxílios, e isso também se estende a seus descendentes. Mas Elena também existe para metaforicamente atuar como um agente modificador dessa estrutura.

Zvyagintsev é preciso, criando um cenário constante, magnificamente filmado e dirigido em tomadas propositalmente óbvias àqueles que observam e assistem atentamente. Também não podemos deixar de notar um certo estilo hitchcockiano em técnicas cinematográficas clássicas e o abuso do voyerismo que constrói um ambiente igualmente tenso e misterioso tal qual os filmes do clássico diretor. Mas neste filme a câmera atua mais que uma ferramenta de imagem, mas como um narrador vivo, mudo e expressivo que compensa a (talvez) apática vida da personagem principal. Enquanto em ambiente de classe alta, suas tomadas são amplas, longas, frias, distantes e lentas; quando em classe média baixa, as tomadas são curtas, editadas, sem movimentos, inconvenientes e invasivas. O único meio termo encontrado é quando Elena vaga livremente de uma zona da cidade para outra, onde temos apenas um leve esboço de sua real natureza.

CONCLUSÃO...
Um filme magnificamente dirigido e que não peca no excesso de perfeição tecnica, com uma história simples e carregada de simbolismos sociais, políticos e familiares fortes, por vezes surpreendente na frieza e profundidade com que toda a história é silenciosamente narrada.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

CADÊ GODZILLA?

★★★★★☆☆☆☆☆
Título: Círculo de Fogo (Pacific Rim)
Ano: 2013
Gênero: Ação
Classificação: 12 anos
Direção: Guillermo Del Toro
Elenco: Charlie Hunnan, Rinko Kikuchi, Idris Elba
País: Estados Unidos
Duração: 131 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma raça alienígena e parasita migra de planeta em planeta de tempos em tempos, e agora tentam invadir a Terra enviando Kaijus através de um portal em uma fenda tectônica para destruirem os humanos. Cansados de serem constantemente atacados, as nações se unem na construção dos Jaegers, robôs capazes de irem a combate para lutarem e destruirem os monstros.

O QUE TENHO A DIZER...
Dirigido pelo mexicano Guillermo Del Toro, o mesmo de Hellboy (2004/2008) e O Labirinto do Fauno (Pan's Labyrinth, 2006), sendo sua volta como diretor depois de cinco anos (nos últimos anos atuou mais como produtor) e também a tentativa da Warner de pegar carona com a franquia Transformers, iniciada em 2007, e lançar seu próprio filme (ou sua própria franquia) de robôs gigantes. Talvez possa dar certo, talvez não, pois o filme custou US$190 milhões e foi um fracasso nos Estados Unidos, arrecadando custosamente um pouco mais de US$100 milhões. Mas curiosamente o filme arrecadou mais de US$300 milhões no resto do mundo, o que garantiu a ele a possibilidade de uma sequencia e talvez, segundo o próprio Del Toro, de uma trilogia.

Conta a história de monstros alienígenas gigantescos que invadem a Terra pelo mar ao atravessarem uma fenda tectônica que é também um portal entre os dois mundos. Chamados de Kaiju (termo japonês dado a monstros desconhecidos), destruiram boa parte das grandes cidades numa sequência de ataques que já duram sete anos, o que fez as nações se unirem para criar os Jaegers, robôs igualmente gigantescos capazes de enfrentá-los de forma equivalente e evitar novas invasões e catástrofes.

A grande diferença dos já mencionado Transformers é que o filme de Del Toro, o qual também trabalhou no roteiro e produção, bebe até em exagero da cultura japonesa e seu fascínio por monstros gigantes de destruição em massa que andam pelas cidades como em um jardim. Enquanto Transformers lida com a guerra entre robôs de diferentes raças, Círculo de Fogo lida com a guerra direta entre humanos e monstros. Por conta disso, não é difícil associar o filme a antigos seriados como Jaspion, Changemam e Flashman por conta de uma equipe de heróis responsável por comandar robôs que irão a campo de batalha contra monstros destruidores. Também é impossível não associar àquele que foi e é a referência maior de todos eles, chamado Godzilla. Há também referências aos mangás e animes japoneses que tratam do mesmo tema, ou até a série de jogos eletrônicos Final Fantasy, já que grande parte dos monstros do filme tem visuais bastante similares aos monstros chamados Weapons nesses jogos.

Uma pena que as grandes e importantes referências utilizadas parem por aí e necessariamente não façam do filme algo tão bom como poderia, porque Del Toro não consegue evitar o uso exacerbado do fator Hollywoodiano, ou seja, do excesso do desnecessário. Da mesma forma que o diretor também não consegue manter a mesma linearidade e aquela mistura mágica e aceitável de ficção, fantasia e realidade que ele já conseguiu com sucesso em títulos anteriores, tanto que ele ficou conhecido justamente pela facilidade em articular esses gêneros como se fosse um só.

Círculo erra naquilo que a maioria dos blockbusters fazem. Exacerba nos diálogos bobos, vazios e cheios de frases heróicas de efeito; atores inexpressivos ou que se expressam caricatamente como feito, por exemplo, por Idris Elba na sua leitura repetitiva e já cansada de chefe áustero e mecânico ou do herói durão feito por Charlie Hunnam; os personagens cômicos e irritantes para cobrir buracos; e um argumento comum para justificar tanta destruição; ou a famosa tensão sexual existente entre o herói e a heroína irritante.

O roteiro é cheio de buracos e situações que não se encaixam ou justificam as razões das coisas existirem e acontecerem, como o fato de serem capazes de criar robôs gigantes cheios de aparatos tecnológicos inimagináveis, mas não de um míssel ou bombas avassaladoras contra eles. Sem contar que, no decorrer da história, supõe-se que os monstros ficariam maiores e mais difíceis, mas o último deles, o temido CLASSE 5, que pode acabar com qualquer coisa a sua frente, é morto numa facilidade como se fosse o primeiro. Aliás, como eles saberiam que é um  Classe 5 se nunca tinham visto antes? Há também o fato dos robôs existirem para evitar a invasão e destruição das cidades, mas durante batalha eles são permitidos destruir mais que os próprios monstros. Então, assim como o intragável O Homem de Aço, me pergunto para que a existência de heróis se eles matam e destróem mais do que os vilões e os monstros?

Portanto, se torna incoerente e sem sentido, desatento a tudo que é mostrado e falado, e uma via única e fácil para produzirem um blockbuster oco para o aumento do consumo de pipoca. Nem podemos dizer que possui efeitos especiais deslumbrantes, pois a maioria do que acontece é no escuro ou na chuva porque é mais fácil esconder os defeitos da produção corrida, ou também dizer que há cenas de ação realmente boas ou de tirar o fôlego, porque todas parecem ser iguais.

Então, novamente é fraco tanto quanto Transformers, e não algo mais polido, articulado e adulto quanto se supunha, deixando aquele gosto de desperdício no ar e da constante carência de cabeças mais amadurecidas por filmes de ação que não necessariamente precisam tacar em nossa cara tanto absurdo de uma vez só e chamar isso de cinema.

E se preparem porque nada vai parar por aí, há também o reboot de Gozdilla chegando ano que vem, como se o absurdo de Roland Emmerich (1997) não tivesse sido suficiente.

CONCLUSÃO...
Prato cheio para aqueles que só querem ver efeitos grandiosos, explosões, batalhas entre monstros ou até mesmo ter apenas um gostinho de nostalgia sobre as referências utilizadas. Está longe de ser um filme bom, e mais ainda de ser memorável. Mas como um todo é um filme robusto na tentativa de impressionar, pesado no exagero e que demora pra entrar em um ritmo tal qual os próprios Jaegers.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

ASS KICKED...

★★☆☆☆☆☆☆☆☆
Título: Kick-Ass 2
Ano: 2013
Gênero: Ação
Classificação: 16 anos
Direção: Jeff Wadlow
Elenco: Aaron Taylor-Johnson, Chloë Grace Moretz, Jim Carrey
País: Estados Unidos, Reino Unido
Duração: 103 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Kick Ass abandonou seu uniforme, mas o senso de justiça fala mais alto quando descobre que a vida é entediante sem ele.

O QUE TENHO A DIZER...
O primeiro Kick Ass (2010) foi dirigido por Matthew Vaughn, que conseguiu uma difícil junção de linguagem adulta com visual e sonoridades lúdicas para aliviar o peso de tanta violência embutida, conseguindo fazer do filme um cult instantâneo no gênero e um dos poucos absurdos relevantes no cinema nos últimos anos. Politicamente incorreto ao extremo, o filme sofreu para ser produzido ao ponto do diretor angariar fundos por conta própria e produzí-lo indepedentemente. Óbvio que, depois do sucesso de crítica e em home vídeo obtidos, os olhos dos estúdios cresceram e quiseram transforma-lo em uma franquia.

Vaughn saiu da direção e do roteiro e foi para a produção. No seu lugar entrou o pseudo-novato e desconhecido Jeff Wadlow. A mudança foi gritante e visível, e o segundo filme perdeu quase que totalmente a pequena mágica sarcástica que Vaughn conseguiu criar.

Ao invés de se manter dentro das propostas apresentadas no primeiro filme, Wadlow pegou os personagens Dave e Mindy e os colocou em um universo comum e sem graça, cheio de clichés que no primeiro filme pouco existiam ou tentavam ser abolidos. As cenas e seqüências parecem não fluir no meio de uma edição tão exagerada e cheia de cortes, e os dramas dos personagens viraram um grande besteirol que se encaixaria caso o filme de Vaughn não tivesse uma proposta tão incorreta como teve. É aquela velha história de que todo grande estúdio tende a destruir uma grande idéia original, e não foi diferente com essa sequência. Feita para atrair um maior público adolescente, não apenas a violência foi amenizada como a própria rebeldia contida nos personagens. Há uma jorrada de sangue aqui e outra ali apenas para dizer que o estilo do filme se manteve, mas a impressão que se passa é que quanto mais os personagens cresceram, menos ousados eles ficaram.

Talvez o mesmo a ser dito sobre os atores. Em 3 anos que separam um filme e outro, muita coisa mudou para eles. Embora Aaron Taylor-Johnson (Kick Ass) se mantenha no mesmo platô confortável e que não exigiria muito de qualquer ator amador ou não, Chloe Grace Moretz (Hit Girl) agora aparenta sofrer daquilo que outras atrizes mirins sofrem ao crescer, o da perda da espontaneidade e do aumento da atuação ensaiada, deixando a artificialidade tomar conta da naturalidade de antes.

Um filme longo e entediante, pois não tem o mesmo humor e a espontaneidade do primeiro, feito sobre um roteiro bagunçado que tenta se desenvolver em conflitos bobos e comuns como o vilão que quer cegamente vingar a morte do pai, ou a heroína que agora sofre assédio na escola pelas garotas populares e abandona o uniforme porque seu padrasto policial e bonzinho a colocou de castigo, ou o herói que esconde do pai sua identidade secreta (super original) e um mentor vivido por Jim Carrey (irreconhecível) apenas para ocupar o papel que tinha que ser ocupado por um ator mais velho e conhecido tal como fez Nicholas Cage no filme anterior. Como se isso tudo não fosse suficiente, há também os deja vus, com cenas que parecem ter sido simplesmente copiadas do primeiro filme ou a apelação para o exagero escatológico que não podia ser mais apelativo na tentativa do resgate do riso fácil no meio de uma hora e meia de pura chatice.

Não há muito o que ser analisado, pois assim como o filme original nada mais foi do que uma idéia interessante e um produto diferenciado para entreter (algo que faz muito bem), a segunda parte virou apenas um produto qualquer que tenta entreter mas não consegue e se perde numa fórmula que tentaram criar, mas que nunca existiu. Tanto foi assim que o filme foi um naufrágio de crítica e público, e definitivamente não manteve o respeito alcançado com o primeiro, pelo contrário, o denegriu.

CONCLUSÃO...
Realmente o filme de Vaughn é difícil de ser engolido para os mais conservadores ou politicamente corretos, mas quem entende sua ironia e seu sarcasmo dentro de tanta violência absurda e fantasia distorcida, se diverte e vibra sem compromisso, pois o restultado de tudo é, de fato, apreciável. Mas nessa segunda parte dirigida por Wadlow, tudo foi juntado sem sentido ou coerência, resultando numa grande tentativa frustrada e mal planejada de continuar uma história que poderia ter parado onde parou, mas que agora teve uma extensão desnecessária.

UMA VERDADEIRA KRIPTONITA AO HERÓI...

★★★★☆☆☆☆☆☆
Título: O Homem de Aço (Man Of Steel)
Ano: 2013
Gênero: Ação
Classificação: Livre
Direção: Zack Snyder
Elenco: Henry Cavill, Amy Adams, Diane Lane, Russell Crowe, Kevin Costner
País: Estados Unidos
Duração: 143 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Novamente a história do homem alienígena que se fortaleceu e se transformou em um superherói na Terra.

O QUE TENHO A DIZER...
Embora seja um herói construído unicamente para a cultura norte americana na intenção de enaltece-la como um indestrutível poder político e bélico, além de promover ao mundo a grande filosofia do american way of life e sua garantia ilusória de vida feliz, não podemos negar o fato de que o herói é uma parte viva de uma cultura popular e muito lembrada principalmente no cinema.

Depois de mais de quase 20 anos no ostracismo desde o último filme da série que estrelava Christopher Reeve, responsável por marcar uma geração e ainda ser a referência mais sólida que temos do herói em carne e osso, a Warner resolveu entregar a responsabilidade de retomar a franquia nas mãos do diretor Bryan Singer. Isso aconteceu pelo fato de ter sido este diretor o responsável pelo grande marco divisório que ocorreu nos filmes de ação baseado em heróis de quadrinhos ao ousar adaptar - e também acertar em cheio - os heróis da Marvel conhecidos como X-Men, ainda em 2000.

O que Bryan Singer fez no início da década de 2000 em trabalhar fortemente na releitura dos quadrinhos de maneira acessível para a linguagem do cinema virou uma regra e uma fórmula contemporânea que há muito o cinema buscava, e que deu certo. A Marvel Comics tomou a frente, produzindo adaptações de sucesso, como Homem Aranha, além dos já citados X-Men. Posteriormente teve uma leva de outros heróis já conhecidos como Hulk, Homem de Ferro, Capitão América e Thor, culminando seu reinado na indústria ao pegar essa entourage e produzir o projeto mais ousado da história do cinema chamado Os Vingadores, que arrecadou quase US$2 bilhões no mundo. A DC Comics com a Warner, por outro lado, se mantiveram na zona de conforto, tendo apenas nas mangas os heróis Superman e Batman. Tentaram apresentar ao mercado o Lanterna Verde, que foi um fiasco de crítica e público.

O reboot do herói foi lançado em 2006 e levou o título de Superman - O Retorno (Superman Returns), em analogia às suas quase duas décadas desaparecido. Singer tentou brincar com esse "sumiço" do herói e, inclusive, justificá-lo no filme de forma bastante aceitável, além de tentar se manter fiel à imagem e mito que o herói se transformou. Mas O Retorno não foi o sucesso esperado, além de ter sido um filme mais nostálgico do que inovador, pois ele nada mais foi do que uma reprise do que já havia sido feito e abordado anteriormente quando estrelado por Christopher Reeve na década de oitenta, deixando o público dividido: enquanto os nostálgicos se sentiram satisfeitos logo na abertura com os rompantes da trilha sonora de John Ottman em sua releitura moderna e fiel a de John Williams, os mais conservadores ficaram decepcionados com os mesmos cliches e um grande grau de insatisfação por conta dos atores protagonistas.

Isso fez a Warner novamente engavetar o herói e pensar no que fazer com ele no futuro, acreditando que a safra de filmes baseado em quadrinhos estava perdendo o fôlego (ledo engano), aguardando para analisar o mercado e observar qual seria a tendência nos anos seguintes. A tendência foi óbvia, e com o reboot de Batman, levando o personagem para dentro de um mundo muito mais obscuro e realista, mas sem deixar de ser igualmente fantástico, fez o gênero tomar um ar fresco e que novamente mudou a forma narrativa de se "brincar" com os quadrinhos na tela. O teor mais humano criado por Cristopher Nolan para o homem morcego foi o que a Warner acreditou ser o que faltava no herói da capa vermelha. Correndo contra o tempo para aproveitar o público que ficou carente com o final da Trilogia Batman, Zack Snyder foi contratado para tocar a produção e o sinal verde para O Homem de Aço foi dado.

Snyder ficou conhecido por fazer filmes que ficaram famosos pelo visual que vaga entre os quadrinhos, mangas e vídeo game, como acontece em 300 (2006), Watchmen (2009) e até com exagero em Sucker Punch (2011), portanto ele aparentava ser uma escolha certeira, tanto que o filme foi um dos mais esperados nos dois últimos anos e boa parte da bilheteria foi arrecadada apenas na primeira semana.

O uso de filtros de imagem, característicos do estilo do diretor, embora usados de forma mais sutil dessa vez, estão presentes tal qual em todos seus filmes anteriores, mas ele definitivamente pesa a mão e não consegue oferecer a mesma fluidez como, por exemplo, em 300, seu único filme mais famoso e criticamente bem aceito. Snyder custosamente tenta dar ao filme uma linguagem mais adulta do que a suportada de forma forçada, e a narrativa desconstruída do roteiro que pinga entre o presente e o passado com flash backs desnecessários para quebrar aquela rotineira história de como um bebê alienígena descobriu seus poderes na Terra, desmotiva e chega a até quebrar o clima em momentos chaves, demorando uma eternidade para chegar aos finalmente de apresentar o homem como um Herói. As mais de duas horas de filme se resumem em apenas uma meia hora quiçá interessante e que nem é possível lembrar qual seja frente a tantos acidentes de percurso.

Talvez a grande ganância tenha definitivamente sido a tentativa de seguir os mesmos passos de Christopher Nolan ao dar um tom sombrio a um personagem que não comporta esta abordagem em sua personalidade. Essa tentativa de reprodução é tão forte que igualmente apostaram no sucesso de abolir o nome do herói do título do filme tal qual foi feito com o de Batman em O Cavaleiro das Trevas. Não satisfeitos com isso, acreditaram que criar uma história completamente nova em cima das mesmas fundações seria interessante. A história do herói é novamente e basicamente contada da mesma maneira, mas características e detalhes icônicos que são partes de sua figura tanto quanto sua capa vermelha foram abolidos ou modificados sem coesão. A Kriptonita não existe mais, Kripton deixou de ser um planeta de cristal, Louis Lane agora é loira, a trilha sonora praticamente nem é ouvida e nada carrega do clássico de Williams e o poder do herói agora existe por causa da atmosfera terrestre. Ou seja, nada que valesse realmente a pena ser modificado, mas mesmo assim foi, apenas para dar um ar enganoso de novidade e consumir tempo - e haja tempo - ao ter que, mais uma vez, explicar a razão de tudo ser como é agora.

O filme novamente sofre por um público dividido que não sabe se gosta ou se despreza, e a crítica especializada definitivamente detestou as infames mudanças ocorridas, e fez tanta questão de desprezá-lo que apenas teceu elogios ao porte físico do ator que insistiu unicamente em um rigoroso treino e descartou qualquer hipóstese de ser colocado dentro de um padrão de beleza com uso de anabolizantes ou sessões de depilação. Ou seja... irrelevante.

É um filme que se torna banal e desnecessário, que justifica sua existência apenas com intermináveis destruições que deixam os filmes arrasa-quarteirões de Michael Bay no chinelo. Considerado o pai e o chefe de todos os super heróis justamente por ter um enorme senso de justiça, humanidade e de perda por conta da educação exemplar tida pelos pais adotivos, chega até ser assustador que em momento algum ele tenha se preocupado em derrubar todo e qualquer prédio que aparecesse em sua frente como um Godzilla, e junto matando milhares de civis. Isso tudo deixa no ar essa incoerência de que, para salvar o planeta, ele agora pode destruir cidades inteiras, algo que o herói sempre evitou, seja nos quadrinhos, seja nas telas (incluindo no filme anterior de Bryan Singer).

O vilão Zod até chega a roubar a cena algumas vezes, mas isso também não espanta porque o nível das atuações, em um todo, chega a ser vergonhoso. Até mesmo Diane Lane (Martha Kent) ou Amy Adams (Louis Lane) não seguram as pontas como conseguiriam normalmente. Louis e Martha estão totalmente perdidas, aparecendo em cena sem motivo algum, apenas para serem lembradas de que fazem parte de algum ponto da história. O pior dos momentos sempre sobra para Amy Adams, que na maioria das vezes entra correndo em cena como que atrasada na gravação, e sai andando pra trás à francesa como se fosse excesso de contingência porque nem diálogo que valha a pena ela tem. Enquanto isso Diane Lane só aparece para resmungar de alguma coisa, como a bagunça que a casa ficou depois de ser destruída, ou a panca de mãe durona ao peitar um homem alienígena que ela encara louvavelmente e sem borrar as calças como se fosse um vizinho qualquer. Como se não bastasse ter Russell Crowe, ainda houve espaço para Kevin Costner. Ou seja... está tudo errado. Um elenco que não funciona em uma história pra lá de furada com uma direção que não sabe para onde atirar. Novamente Superman não teve um filme que fizesse jus ao peso de seu nome.

A versão de Bryan Singer pode não ter sido a das melhores, mas os ícones e todo o universo que caracterizam o herói foram mantidos. Não apenas isso, Singer tem uma grande habilidade de conseguir trazer à tona questões e questionamentos humanos em personagens heróicos e fictícios, coisa que em momento algum Snyder consegue fazer. Pelo contrário, Snyder causou uma enorme revolução para, no fim, enfiar um par de óculos no personagem e ainda insistir em chamar aquilo de disfarce. Ele fez a mesma coisa com seu filme anterior, Sucker Puch, promovendo-o sob um enorme barulho para, no fim, ser decepcionante na mesma medida. Snyder está se mostrando um diretor perdido, ruim e sem foco, que começou a carreira utilizando todos seus cartuchos, e hoje em dia não tem uma bala sequer para acertar ao menos uma vez.

Com um orçamento de mais de US$220 milhões, arrecadou mundialmente um pouco mais de US$370 milhões, nada muito surpreendente perto do tanto que foi gasto, mas foi o suficiente para Warner dar sinal verde para uma continuação já entitulada Superman vs. Batman. Ou seja...

CONCLUSÃO...
Fraco, sem foco, perdido e uma verdadeira Kriptonita ao herói. Consegue ser o pior de todos e dificilmente conseguirá se recuperar no futuro. Filme para impressionar aqueles que não conhecem o herói ou para aqueles que simplesmente adoram uma grandiosa destruição sem sentido na tela.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

"I CAN'T BREATH..."

★★★★★★★★★★
Título: Gravidade (Gravity)
Ano: 2013
Gênero: Ficção Científica, Suspense, Drama
Classificação: 12 anos
Direção: Alfonso Cuarón
Elenco: Sandra Bullock, George Clooney
País: Estados Unidos
Duração: 91 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Dois astronautas devem confiar um no outro para sobreviverem no espaço após sua nave ser atingida por destroços de um satélite russo que fora destruído.

O QUE TENHO A DIZER...
Em produção desde 2009, o filme foi apenas anunciado em 2010. É dirigido, produzido e escrito por Alfonso Cuarón (o roteiro em parceria com seu filho, Jonas Cuarón), e causou grande expectativa principalmente depois que seu teaser foi lançado no meio do primeiro semestre de 2013 e após a excelente receptividade pelo YouTube a distribuidora encontrou alí um forte caminho para o marketing, lançado logo em seguida o trailer e mais alguns vignettes, que foram imediatamente assistidos em massa. O grande diretor Mexicano e amigo pessoal de James Cameron (o qual também se considera um grande fã de Cuarón), conseguiu esta grande e rara oportunidade após dirigir os bem elogiados Harry Potter E O Prisioneiro de Azkaban (Harry Potter And The Prisioner Of Azkaban, 2004) - considerado pelos críticos o melhor da série - além da também bem elogiada ficção Filhos da Esperança (Children Of Men, 2006).

Mas o excelente currículo do diretor não é válido apenas por esses dois filmes. Sua grande estréia foi com o lúdico e emocionante A Princesinha (A Little Princess, 1995), que embora infantil, foi muito bem apreciado principalmente pelos mais velhos. Depois dele veio a refilmagem do clássico de Charles Dickens, Grandes Esperanças (Great Expectations, 1998), seguido por E Sua Mãe Também (Y Tu Mamá También, 2001), filmado em terras natais no qual ele concorreu ao Oscar de Melhor Roteiro Original. Portanto, Cuarón é atualmente um nome estrangeiro forte no cenário cinematográfico nos EUA, se estabelecendo em uma lista de diretores naquilo que vem sendo uma discreta mudança de paradigmas em Hollywood, principalmente na última década, em expandir suas fronteiras com talentos estrangeiros que não a descaracterize totalmente.

Cuarón aparentemente escolhe a dedos seus projetos ao invés de simplesmente sair fazendo filmes para que seu nome seja reconhecido pela quantidade, por isso acaba surpreendendo mais do que o esperado, pois seu nome não é alarmante como é, por exemplo, como o do seu amigo Cameron, portanto o elemento surpresa é sempre mais impactante, e por isso Gravidade supera ou, no mínimo, corresponde qualquer expectativa.

Há muito o que se falar sobre o filme, mas pouco que deve ser dito para não estragar qualquer experiência, pois sem dúvida é um dos melhores dentro do gênero de ficção espacial realizado nas duas ou três últimas décadas, e isso não é exagero. Temos uma lista de grandes títulos de odisséias que em hipótese alguma devem ser ignorados, que claramente tem seu início com o pai de todos, chamado 2001 (1968), de  Stanely Kubrick. A lista de referências segue com Solaris (1974), do russo Andrei Tarkovsky e Alien/Aliens (1979/1986), respectivamente de Ridley Scott e James Cameron. Há outros, com certeza, mas é notório que filmes relevantes neste tema são raros. Poucos atualmente conseguem ter uma originalidade relevante, mesmo que concebidos através de outras referências (principalmente de Kubrick), como ocorre com os excelentes e ignorados Sunshine (2007), de Danny Boyle e Lunar (Moon, 2009), de Duncan Jones. A maioria são tentativas frustradas e pretenciosas fadadas a caírem na mesmice e no cliché de reproduções mal feitas que não acrescentam nada, como o atual e até ridículo Oblivion (2013). Felizmente temos a felicidade de, vez ou outra, sermos agraciados com jóias raras como é o filme de Cuarón. Mas o melhor de seu filme é exatamente se abster dessas referências e criar - na medida do possível - uma narrativa própria e que, por isso, o anula de qualquer comparação, mesmo que o enredo seja simples. O que o difere dos anteriores é a idéia única e principal do diretor em manter toda a situação bem próxima do nível de realidade daquilo que hipoteticamente seria uma verdadeira tentativa de sobrevivencia em uma cadeia de situações catastróficas no espaço, colocando até cenas em primeira pessoa para causar um impacto mais subjetivo em determinadas situações. Metaforicamente, segundo o próprio diretor, seria o renascimento depois de uma diversidade de fatos desastrosos vividos dentro das leis da vida e da sobrevivência. Tanto é assim que o filme se desenvolve em referências à geração, à gestação e ao nascimento, demonstrados claramente em cenas chaves.

Tecnicamente o filme chega aos limites da perfeição em um espetáculo visual e sonoro impressionantes, o que é até paradoxal no último quesito, pois o filme se abstém do som, já que no espaço ele não existe e é dito logo na abertura - o contrário do que é mostrado no trailer, onde a sonosplastia foi utilizada apenas como um truque para causar maior impacto no espectador fácil, mas nem por isso o engana dentro de um resultado total. Preconceitos surgiram quando foi divulgado pelo boca a boca que o filme não teria sonoplastia, fazendo algumas pessoas acreditarem que seria algo tedioso, antiquado e ruim, ou seja, fora do exemplo comercial comumente esperado. Mas para driblar essa ausência, o diretor utilizou fortemente (e de forma bastante inteligente) uma trilha sonora que se encaixa perfeitamente nas situações, e embora o barulho de explosões e de ações em deriva espacial não exista (o pouco que se ouve é apenas o que os astronautas ouviriam dentro de suas roupas), a trilha sonora os substituem e impactam da mesma forma, pois obviamente Cuarón não teria sido tolo o suficiente de realizar um projeto desse porte da maneira mais alternativa que pudessem imaginar, por mais alternativo e até experimental que ele já naturalmente fosse, jogando pela janela US$100 milhões investidos. Isso tudo volta a seu favor, conseguindo unir a linguagem popular com a alternativa, levando para o público comum o moderno e fácil sem precisar se abster de detalhes óbvios que fizeram total diferença e agradam - até em excesso - o público tecnicamente mais exigente. 

A ousadia não para por aí. Cuarón fez questão de que as tomadas fossem longas. A sequencia inicial, por exemplo, tem mais de dez minutos sem cortes, e essa método pouco utilizado no cinema por conta de limitações técnicas e até mesmo falta de interesse dos diretores em explorar este estilo, é desenvolvido repetidamente durante todo o filme, dando uma sensação de continuidade fluida e realista, praticamente em tempo real. Sim, isso não é novidade. Diretores como Hitchcock, Kubrick, Brian DePalma, Woody Allen, Von Trier, Martin Scorcese e até Spielberg, são grandes fãs e realizadores desse método, mas a grande diferença é que neste filme não havia cenários, não havia elenco ensaiado e marcado, havia um espaço qualquer e um ator (ou dois) em cena contracenando em um chroma key que resultou naquilo já dito por outros críticos como interpretações que aparentam espontâneas, mas que foram exaustivamente ensaiadas e coreografadas em um verdadeiro balé espacial, que se mostra natural por conta do excesso de perfeição e treinamento. Realizar a junção perfeita de cenas inteiramente realizadas em computação gráfica juntamente com cenas e atores reais em sequencias longas e sem cortes como as que são vistas não apenas abraça o espectador para o momento como também faz dessa uma das melhores experiências em assistí-lo. Embora curto (apenas 90 minutos), as tomadas longas, toda a ação lenta e meticulosa e a total ausência de referências temporais e espaciais passa a sensação de ser um filme de duração maior, e de forma alguma tedioso ou cansativo.

O mérito também se vale nas atuações. Embora George Clooney ofereça aquele mesmo arquétipo do ator canastrão, que surge em cena apenas para aliviar as cargas dramáticas, Sandra Bullock novamente consegue carregar o filme com absoluta noção técnica e total coerência com os conflitos vividos pela personagem tal como vem demonstrando nos últimos anos nos poucos filmes mais dramáticos que participou. A maior preocupação da atriz foi em como representar as sensações e emoções da personagem com tão pouco. Ela se preparou fisicamente para o filme por seis meses enquanto revisava o roteiro com o diretor em minúcias. Eles chegaram então a um ponto crucial de como deveria ser a entonação e a frequencia respiratória da personagem em cada situação, já que seria a mesma respiração que ofegaria por conta do stress em alguns momentos e pela falta de oxigênio em outros, ou a respiração que oscilaria entre a euforia, o medo, angustia e sofrimento, já que boa parte do filme é apenas isso que se ouve da personagem Ryan Stone. Foram semanas ensaiando exaustivamente com o diretor em como realizar os momentos de forma precisa ao ponto dele mesmo comparar os ensaios como uma rotina de dança, que no fim resultou em puro realismo e emoção, tanto que James Cameron considerou a atuação da atriz mais impressionante do que qualquer tecnologia que suporta todo o filme.

A contratação da atriz para o papel foi praticamente por acidente, já que Angelina Jolie havia sido originalmente contratada, mas abandonou o projeto ainda em pré-produção. Natalie Portman era a segunda opção, mas desistiu logo depois de anunciar que estava grávida. Sandra foi escolhida depois de uma fila de outras atrizes gabaritadas serem testadas para o papel como Marion Cotillard, Carey Mulligan, Rachel Weisz e Naomi Watts. E não há dúvidas de que a sutileza de sua atuação e seu comprometimento no papel são impressionantes e dificilmente teria atingido um nível equivalente por alguma outra.

Novamente 2013 se repete como o ano da atriz, assim como foi em 2009, já que Gravidade foi uma produção que não havia pretensões em ser o sucesso de crítica e público que tem sido tal qual foi o drama Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009), e que também foi lançado logo após outro filme feito para ser sucesso comercial e que ainda está nos cinemas, a comédia As Bem Armadas (The Heat, 2013), igualmente como ocorreu com A Proposta (The Proposal) em 2009. Até o momento, o filme já arrecadou mais de US$615 milhões no mundo, impressionante para um gênero que anda em baixa e está sofrendo pela falta de público nos últimos anos. No IMDb o filme já foi avaliado por mais de 168 mil usuáros (a avaliação não pode ser repetida por um mesma pessoa) e atingiu uma pontuação média de 8,5. Ou seja, estatísticamente a aprovação é quase unânime.

É um filme tenso do início ao fim, desesperador e até claustrofóbico, que atiça a curiosidade por ser imprevisível, além de visualmente deslumbrante. Vale ser visto em cópias 3D (o filme foi feito para essa tecnologia), para conseguir ter apenas o mínimo possível e imaginável da sensação de imensidão espacial e profundidade por nós, meros terráqueos. Claro que o roteiro sofre de poucos clichés hollywoodianos em frases heróicas de efeito, que poderiam ter sido evitadas, mas são tão poucas que se ofuscam frente a tanta perfeição tecnica e cuidado. Teria sido impossível realizar o longa em outra época, e dificilmente terá uma qualidade superada em um futuro próximo.

Atenção para a temporada de premiações que começará no final de Novembro, sem dúvida alguma Gravidade é o primeiro grande e forte candidato do ano, e um filme marcante que já é uma referência para filmes futuros.

CONCLUSÃO...
Finalmente uma grande odisséia espacial atual e que impressiona por tratar tudo da forma mais realista possível dentro do fantástico. A perfeição técnica da direção e pós produção, bem como da atuação ímpar da atriz fazem do filme um dos melhores do gênero, e muito possivelmente o melhor do gênero das últimas duas décadas.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

QUANTO MAIS FEIAS MELHOR...

★★★★★★★☆☆☆
Título: As Bem Armadas (The Heat)
Ano: 2013
Gênero: Comédia, Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Paul Feig
Elenco: Sandra Bullock, Melissa McCarthy
País: Estados Unidos
Duração: 117 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sarah Ashburn é uma agente do FBI arrogante e metódica que não consegue trabalhar em grupo já que ninguém segue e trabalha dentro dos mesmos procedimentos que ela. Ela é então transferida para investigar um crime em Boston, onde conhece a durona e egoísta agente do departamento local Shannon Mullins.

O QUE TENHO A DIZER...
Obviamente o filme foi realizado com intenções de ser sucesso de alguma forma, já que conta com a direção e produção de Paul Feig, que havia dirigido anteriormente Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids, 2011). Também tem aquela antiga fórmula de comédias que juntam uma dupla de atores famosos em situações absurdas para gerar o riso fácil dentro dos clichés. Mesmo atualmente essas comédias abraçarem um confortável "politicamente incorreto" com o uso exagerado de palavrões, piadas escatológicas e/ou sexualizadas, e personagens exageradamente estranhos e caricatos, isso também já se transformou em uma fórmula que raramente surpreende.

É o primeiro filme de Sandra Bullock em um hiato de dois anos depois de redescobrir o sucesso com o seu Oscar pelo filme Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009), e o quinto filme de Melissa McCarthy em apenas dois anos depois do sucesso alcançado por Missão Madrinha.

Quando o trailer do filme foi lançado, comparações com Miss Simpatia/Miss Simpatia 2 (Miss Congeniality/Miss Cogeniality 2, 2000/2005), foram inevitáveis, e muita gente chegou a considerá-lo uma terceira continuação não autorizada, já que aparentemente Sandra reprisaria um mesmo tipo de papel e McCarthy seria a coadjuvante durona tal qual Regina King fez no segundo filme. A verdade é que essas pessoas não estão erradas, pois grossamente nenhuma das duas atrizes fazem algo diferente do que já foi feito na franquia mencionada, e nenhuma das atrizes também criaram personagens muito diferentes das que já fizeram antes.

O roteiro bobo e furado, e a direção que só leva um nome pois tecnicamente não foge do trivial, são todos compensados unicamente pelas atrizes principais, em situações e diálogos hilários trocado entre ambas como chumbo. Geralmente filmes que unem dois grandes nomes estão fadados a cair no pastiche e no bocejo, mas o mérito (ou demérito) nesses casos são muito mais pelos próprios atores do que de qualquer outro elemento técnico. Todos já sabem que Sandra Bullock é talentosa, talento que ela teve que provar a duras penas numa trajetória com tantos altos e baixos, enquanto Melissa foi ter o talento reconhecido há apenas dois anos atrás, sendo finalmente reconhecida mundialmente como uma atriz e persona naturalmente cômica depois de tantos anos no mercado. Sandra também é uma atriz de comédias, e as faz muito bem, mas aqui ela realmente mostra que seu status de estrela não é em vão, pois ela brilha e oferece situções hilárias com pouco, além de se manter respeitosamente em seu lugar sem qualquer pretensão de roubar a cena ou ofuscar o show particular de McCarthy, que brilha dentro de sua espontaneidade exagerada e bem explorada também sem invadir o espaço da colega. E é exatamente isso que faz o filme funcionar e ter um nível elevado, pois a parceria de ambas gera uma química convincente e equilibrada, e não funcionaria mais com uma do que com outra, tanto que desde a primeira cena juntas, elas não se separam mais nem mesmo nos créditos finais. O interessante é que, embora o filme queira ter uma alto teor feminista, ele não é encarado como um filme de gênero, atraindo tanto o público masculino quanto o feminino em igual medida e agradando ambos por também ter esse equilíbrio entre os dois gêneros tanto na personalidade das personagens quanto pelas situações que elas se encontram.

Como dito, foi um filme feito para ter sucesso comercial por utilizar elementos manjados para conquistar o objetivo de forma fácil. E conseguiu. O filme arrecadou mundialmente US$226 milhões (US$150 mi só nos Estados Unidos, já que é uma comédia tipicamente norte-americana), mas apesar do sucesso e do grande desempenho das atrizes, não chega a ser um filme marcante por não ter um enredo que se destaque, e por ter personagens que soam reprisados, mesmo que bem construídos. Ele nem bem havia sido lançado e uma continuação já foi anunciada. Se Sandra Bullock aprendeu com a experiência, ela saberá que por mais tentador que possa ser, isso não soa uma boa idéia.

CONCLUSÃO...
Uma reunião bem realizada entre Bullock e McCarthy, mas não chega a ser um filme marcante e memorável justamente por se manter dentro de uma fórmula segura de se produzir um sucesso. Um tanto longo nas suas mais de duas horas, um exagero em um filme desse gênero. Os pontos altos da comédia são nas piadas espontâneas e internas que obviamente puderam ser aproveitadas e que fogem do óbvio, e também quando as personagens fazem piadas de si próprias ou são chacotadas pelos outros, como quando no momento em que é dito que a cada vez que elas aparecem, elas estão mais feias. O que é verdade, e talvez um dos poucos elemento mais originais de toda e qualquer piada do longa, que deve ser visto e apreciado pelo talento do elenco.
Add to Flipboard Magazine.