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domingo, 27 de julho de 2014

O VELHO E NEM TÃO DURÃO OESTE...

★★★★★★★
Gênero: Comédia
Título: Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola (A Million Ways To Die In The West)
Ano: 2014
Classificação: 14 anos
Direção: Seth MacFarlane
Elenco: Seth MacFarlane, Charlize Theron, Liam Neeson, Amanda Seyfried, Giovani Ribisi, Sarah Silverman, Neil Patrick Harris
País: Estados Unidos
Duração: 116 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um covarde pastor que perde sua namorada e acredita que sua vida não faz mais sentido no Oeste, até uma forasteira chegar e transformar sua vida e, principalmente, ensiná-lo a atirar.

O QUE TENHO A DIZER...
Dirigido, escrito, produzido e atuado por Seth MacFarlane, o humorista, comediante, animador, dublador e também cantor que ficou famoso e se tornou umas das referências do atual cenário cômico norteamericano depois de criar as animações de grande sucesso Uma Família da Pesada (Family Guy), American Dad! e O Show de Cleveland (The Cleveland Show), além de também ter dirigido e escrito Ted (2012), filme que também se tornou grande referência do humor politicamente incorreto desta década (não que não existam outros, mas esse foi o mais reconhecido por conta do inesperado sucesso).

MacFarlane pode errar algumas vezes, como na sua apresentação do Oscar em 2013, cheia de piadas grosseiras e de péssimo gosto em cima de uma prepotência que fracassou na batida idéia de ironizar e satirizar a premiação e transformá-la em uma grande piada de mau gosto que deixou muita gente desconfortável e com sorriso amarelo, principalmente a audiência. Mas não podemos negar que, como criador, seu currículo é bastante curioso, principalmente por resgatar o humor corrosivo e ambíguo de cartoons, como os de Hanna e Barbera, mas intensificando os elementos absurdos, o politicamente incorreto, a ironia e a sátira de maneira mais direta e escancarada para o público mais adulto e que se transformaram em uma forte marca registrada dele. E assim como suas outras criações animadas, este filme é sobre nada, mas que sobrevive ferindo diretamente a falsa moral e os "bons costumes" do modo de vida americano, já que esse seu humor é bastante inconveniente para os mais conservadores, pois expõe em demasia essa hipocrisia social tão forte por lá e que é um prato cheio para humoristas como ele.

E o filme é exatamente tudo isso, nesse grande misto exagerado de situações cômicas e piadas prontas para satirizar uma cultura tão forte e exportada mundialmente como é o Velho Oeste norteamericano. Assim como a figura do Super-Homem, a imagem do Velho Oeste ainda é o principal material publicitário para divulgar de forma simbólica a potência da nação americana, em como ela é durona fazendo as leis com suas próprias mãos armadas, e como ela deve ser temida pelos forasteiros. MacFarlane faz disso o cenário pronto para o ridículo ao brincar incansavelmente com esses cliches e os estereótipos do machismo e da brutalidade masculina, da submissão e fragilidade feminina e da "terra sem lei" que historicamente caracterizam essa época e região do país. Mas de certa forma não dá pra deixar de notar que, querendo ou não, o filme também deixa na superfície que toda essa grande e violenta ignorância latente e atual no país é claramente fruto e conseqüência dessa herança cultural constantemente consumida e ruminada por eles e por todo o mundo.

A idéia surgiu de uma piada interna, quando McFarlane, junto com seus co-roteiristas (que também são roteiristas de Uma Família da Pesada), começaram a analisar como deve ter sido estúpido, triste e perigoso viver no Velho Oeste já que você poderia morrer de diversas formas (tanto que essa é uma das razões do título em português não fazer o menor sentido). O nível de sátira presente é o mesmo de Sua Alteza (Your Higness, 2011), de Danny McBride e que também levam muito do que as sátiras de Mel Brooks chegaram a representar no passado. Mas enquanto McBride fez da seriedade do cenário medieval um grande palco para o absurdo e para uma surreal grosseria, MacFarlane faz dos cowboys fora da lei personagens jocosos e cartunizados. Por isso temos na lista o personagem Clinch (Liam Neeson), que tem um sotaque irlandês (o ator é irlandes); Edward (o sempre esquisito Giovani Ribisi), que não se importa com o fato de sua noiva, Ruth (Sarah Silverman), ser a prostituta mais requisitada da cidade e que se recusa a fazer sexo com ele antes do casamento por ser uma devota cristã; e o próprio personagem de MacFarlane, um simples e covarde pastor com crise existencial porque odeia o lugar onde mora e acha um absurdo existir tanta conivência das pessoas com tanta coisa errada.

Como roteirista, ele não se impede de ousar, usando referências anacrônicas que realmente fazem determinadas sequencias serem mais engraçadas do que poderia supor, como a breve (e inesperada) referência ao clássico De Volta Para O Futuro III (Back To The Future - Part III, 1990), ou quando consegue enfiar no filme o trecho mais famoso da também clássica música Tarzan Boy, da banda Baltimora. Também vale dizer que, acreditem ou não, a sequencia musical sobre os bigodes não é tão surreal assim, já que a música existe, chamada If You've Only Got A Moustache, feita por Stephen Foster em 1864. Claro que o filme recebeu críticas mistas e foi recepcionado pelo público de maneira controversa tal qual Sua Alteza, mas com certeza porque grande parte do público também pode não ter captado a idéia da maneira fácil como esperavam. Ele é grosseiro e explícito tanto quanto o filme de McBride, mas igualmente engraçado dentro de suas características absurdas por ridicularizar o principal ícone de uma cultura que se auto ridiculariza o tempo todo. E é sempre engraçado ver alguém tirando sarro disso.

CONCLUSÃO...
Um filme sobre nada, mas que sobrevive por satirizar e ferir o orgulho norteamericanos sobre um ícone cultural tão forte construído por eles mesmo como é o Velho Oeste, em um mundo que MacFarlane criou onde piadas voam tão rápido como balas, como bem disse Dave White em sua resenha sobre o filme.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

INCOERENTE...

★★★★
Título: Divergente (Divergent)
Ano: 2014
Gênero: Ação
Classificação: 12 anos
Direção: Neil Burger
Elenco: Shailene Woodley, Theo James, Ashley Judd, Kate Winslet
País: Estados Unidos
Duração: 139 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Chegou a hora de Beatrice (Shailene Woodley) escolher a qual facção pertence, mesmo ela não tendo idéia de qual deva escolher, já que ela na verdade pode ser de qualquer uma, o que a caracteriza como uma divergente.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é dirigido por Neil Burger, mais conhecido por filmes como o elogiado O Ilusionista (The Illusionist, 2006), o competente Gente de Sorte (The Lucky Ones, 2008) e o pouco relembrado sucesso Sem Limite (Limitless, 2011). Ou seja, Burger não é um diretor ruim, e ele consegue usar bem suas experiências adquiridas nos diferentes gêneros de seus filmes anteriores pra tentar construir alguma coisa em uma narrativa cheia de altos e baixos de um roteiro perdido em um filme que podia muito mais chamar Incoerente do que qualquer outra coisa.

Seguindo as portas que a Saga Crepúsculo abriu, o filme é mais uma adaptação de uma trilogia de livros para adolescentes/adultos jovens escrita por Veronica Roth (a atualmente milionária autora tem apenas 26 anos) e o primeiro livro foi originalmente lançado em 2011. Essas adaptações vem apresentando sinais de cansaço, já que depois da consagração de Jogos Vorazes (The Hunger Games, 2012), tudo o que os estúdios querem agora são produtos similares. Foi assim com o fracasso de Ender's Game (2013), que não haverá continuações, e com a grande expectativa em cima de Correr ou Morrer (The Maze Runner, 2014), também parte de uma trilogia, a ser lançado em Setembro. Isso tem levado o público a inevitavelmente fazer comparações com a adaptação de Suzanne Collins e seus Jogos, já que todas adaptações em produção agora estão vindo dentro de um mesmo pacote de jovens sobrevivendo em um mundo futurista ou distópico que remeta a paralelos sociais e políticos atuais só para não soarem tão superficiais, levando o público a ter a iminente sensação de deja vu. Por conta disso, Divergente suou a camisa para arrecadar mundialmente os US$275 milhões que (in)felizmente garantiram suas continuações (o primeiro Jogos Vorazes arrecadou mais que isso em apenas uma semana).

A história, cheia de demasiados e irrelevantes detalhes, vai se passar em uma Chicago futurista, destruída por uma terrível guerra que a isolou do resto do mundo por uma grandiosa muralha. A sociedade agora é determinada por cinco facções: Abnegação, Amizade, Audácia, Franqueza e Erudição. Cada uma delas possui uma função específica na sociedade e é obrigatório que os jovens, em uma determinada idade, realizem um teste (algo como um teste vocacional) que mostra qual sua tendência faccional, ao mesmo tempo que ele terá, por uma única vez, a liberdade de escolher qual facção deseja fazer parte para o resto de sua vida, independente do resultado. Caso ele desista ou não se encaixe na facção escolhida, ele não terá outra oportunidade e será jogado na rua como um desertor, vivendo como um mendigo (ahn???). As facções e todas essas exigências existem para manter o equilíbrio e a ordem na sociedade. Ao mesmo tempo, nenhum membro de uma facção deve ter contato com os membros de outra, nem mesmo com familiares (ahn??? de novo). O problema surge quando um jovem tem tendência para qualquer uma das facções (ou a nenhuma delas), sendo então essas "raras" pessoas denominadas divergentes. Por serem divergentes, acredita-se na potencialidade de serem rebeldes e desequilibrarem a estrutura social com suas "naturezas humanas", gerando o caos, a violência, a guerra, dentre outras coisas. Beatrice (Shailene Woodley) é uma divergente tal qual seu mentor, Quatro (Theo James). Ela descobriu isso no dia do teste, mas só vai perceber a gravidade disso quando Jeanine (Kate Winslet), a chefe dos eruditos, resolve realizar uma caça às bruxas aos divergentes, já que eles podem atrapalhar seus planos de dominação. Ou seja, uma referência sobre fascimo político bem, mas bem pobre.

O grande problema é sem dúvida os mil detalhes irrelevantes apenas pra dar volume e uma complexidade tão vazia que chega a doer, porque a base dela é um paralelo bem fajuto ao fascismo político. Nem a autora (nem os roteiristas) tiveram ao menos o cuidado de transformar essa situação em uma referência simbólica para justificar a alienação dos personagens sobre isso. As facções são denominadas facções de fato, e isso, por si só, já classifica o fascismo latente que os personagens vivem. Só que o engraçado é que os personagens foram construídos de tal forma que ignoram isso completamente desde o princípio e pra eles todo esse autoritarismo e toda essa segregação é muito normal e uma festa, até que, finalmente, um raio cai na cabeça da personagem principal e ela se toca de que alguma coisa errada acontece. Uau... acho que não precisava ser nenhum membro da Erudição para perceber isso, não é? Se bem que nem eles mesmos percebem...

Então a incoerência e absurdez começa aí, e pra levar o filme a sério só se for adolescente que não gosta de História ou que nem chegou nas aulas sobre Mussolini ainda, porque o enredo realmente é uma bobagem sem tamanho. Tudo bem que dar um tom de seriedade é o que Jogos Vorazes também tenta fazer, mas ao menos a história não esconde em momento algum que tudo que é feito, narrado ou mostrado é um grande pão com ovo mesmo. Divergente deveria ter feito o mesmo, pelo menos se desde o princípio algum personagem já tivesse expressado alguma grande insatisfação sobre todo esse regime que vivem, ao menos a história seria um pouco mais convincente.

Mas aí você também tem os grandes buracos na história que não explicam nada ou que conflitam com outras, como razão da cidade ter um muro. A única explicação dada no próprio filme é que o muro existe porque tem que existir. Ok, obrigado! Talvez seja explicado nos filmes posteriores, mas agora não me interessa mais. Ou o governo querer ser tão equilibrado que quem não se encaixa em uma facção, ou não quer mais fazer parte dela, automaticamente vira um mendigo. Parabéns, isso realmente é a solução! Ou a pior de todas, na minha opinião, é Beatrice ser considerada "divergente", pelo menos segundo explicação do filme, por se enquadrar em qualquer facção. Isso pra mim não é ser divergente, mas convergente e coerente. Portanto toda essa criação que a autora fez para esse mundo distópico aparenta ser bem distópico mesmo, mas no sentido de ser completamente sem pé nem cabeça só pra dar razão pra um bando de adolescente tatuato se rebelar com alguma coisa. Pode ser que o livro seja diferente nessas abordagens, mas desconheço e realmente é difícil acreditar nisso.

Segue todo o erro na também forçação de barra de transformar Shailene Woodley em uma nova Jennifer Lawrence. Isso foi tão nítido que logo após o filme ter sido lançado ela estava com o mesmo corte de cabelo de Laurence e com um visual totalmente repaginado pra também tentar virar um ícone da moda em Hollywood. Ela não é uma atriz ruim, mas também não possui o mesmo carisma e versatilidade. Shailene não consegue ser sutil. Ou ela chora escancaradamente, ou grita histericamente, ou está sempre com aquela cara de quem sofre o tempo todo, algo que funcionou muito bem em O Espetacular Agora (The Spectacular Now, 2013) e pode ter convencido em A Culpa é das Estrelas (The Fault In Our Stars, 2014), mas ela definitivamente não é uma atriz de ação. E ação é o que o filme tem bem pouco, pelo menos nessa primeira parte (as demais continuações já foram anunciadas).

O filme só toma um pouco de forma depois de uma hora, quando realmente não dá pra ignorar como a história quer a todo custo realizar um comparativo com a nossa realidade de como as pessoas são facilmente manipuladas, e como a sociedade realmente critica e oprime aqueles que pensam um pouco diferente da maioria. Talvez, a única moral efetivamente interessante, mas que vai ser bem ignorada no meio de tanta alienação. Mas como um todo, nem o elenco salva, com Kate Winslet na pior personagem de sua carreira e Ashley Judd se rendendo a papéis tão coadjuvantes que quando ela finalmente tem alguma oportunidade, ela morre.

CONCLUSÃO...
É um filme tipicamente adolescente, percentual da população que é a mais influenciavel pela mídia na atualidade e por isso já espero um monte deles com essas tatuagens por aí. Assim como aconteceu com Jogos Vorazes, que sofreu uma brusca mudança de narrativa no filme para compensar as falhas do livro, em Divergente isso também deveria ter acontecido para lapidar uma história que não é de toda ruim, mas muito exagerada e com dezenas de detalhes irrelevantes apenas para, no meu ver, aumentar as páginas do livro e ultrapassar as duas horas de duração. Irrelevante também poderia ser um bom nome.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

WES ANDERSON CADA VEZ MELHOR...

★★★★★★★★★☆
Título: O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel)
Ano: 2014
Gênero: Comédia, Fantasia
Classificação: Livre
Direção: Wes Anderson
Elenco: Ralph Fiennes, Tony Revolori, F. Murray Abraham, Jude Law, Adrien Brody, Saoirse Ronan, Willem Dafoe, Edward Norton, Tilda Swinton, Bill Murray, Harvey Keitel
País: Estados Unidos, Alemanha
Duração: 100 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre as aventuras de um respeitado concierge de um famoso hotel europeu e seu pupilo, que veio a ser seu melhor e mais fiel amigo.

O QUE TENHO A DIZER...
"É um engano extremamente comum pessoas acreditarem que a imaginação de um escritor está sempre em funcionamento, que ele tem um suprimento infinito de casos e incidentes, simplesmente inventando suas histórias do nada. Mas a verdade é que é o contrário. Quando as pessoas descobrem que você é um escritor, elas trazem os personagens e os eventos até você, e se mantiver sua habilidade de observar e ouvir com atenção, as histórias continuarão a..." e então o narrador é interrompido por um garoto que atira com uma arma de brinquedo ao mesmo tempo que, ao fundo do garoto, muito rapidamente, vemos em um segundo plano um pintor qualquer trabalhando na parede de uma sala. A câmera volta ao narrador, e ele continua.

É assim que começa a nova comédia aventuresca de Wes Anderson, que vai contar a saga de Gustave H (Ralph Fiennes), um elegante, bem humorado, magnífico e amplamente respeitado concierge do famoso Grande Hotel Budapeste, e como o aprendiz Zero Moustafa (Tony Revolori/F. Murray Abraham) se tornou seu melhor amigo e herdeiro de uma imensurável fortuna.

O início é exatamente o resumo daquilo que o diretor é em todos seus filmes, numa obsessão compulsiva, mas no extremo bom sentido e coerência. O momento que o narrador é interrompido por conta da criança, exatamente quando divagava sobre a habilidade do escritor em observar e ouvir, é o que Anderson faz o tempo todo com situações secundárias nas cenas quando chama a atenção do espectador para o segundo plano com ações inesperadas de figurantes, coadjuvantes ou simplesmente um cenário que aparentaria ser fora do contexto da situação. Outros diretores utilizariam as mudanças de foco para chamar a atenção entre diferentes planos e profundidades, mas Anderson, tal qual como Kubrick, raramente (a quase nunca) utiliza este artifício fotográfico. A imagem é limpa, todo o cenário e suas composições são claras e objetivas em toda a panorâmica da cena. Mas para Anderson, o segundo plano não é apenas uma composição dela, ela é a valorização do "slice of life", ou seja, o pedaço do cotidiano pouco visto ou admirado, mas que ele usa metodicamente para forçar o espectador a aprimorar sua habilidade de atenção e observação daquilo a sua volta e que pouco é notado.

Esse jogo entre imagens, ações e narrativa que Anderson faz chega a ser fascinante, pois é de uma sutileza tão marcante que é impossível não ser notada, e nem por isso perdemos o foco da narrativa ou do plano principal. Ao invés disso, quando descobrimos essa personalidade própria tão presente e aprendemos a identificar esses elementos delicados nas construções de suas cenas sempre dentro dessa harmonia incomum, seus filmes tomam outra dimensão e viram experiências prazerosas onde notamos seu humor singular, pois fogem completamente do convencional.

Muito se diz atualmente que os filmes de Tarantino acontecem em um mesmo universo. Mesmo sendo dois diretores de estilos completamente diferentes, essa afirmação é muito mais coerente nos filmes de Anderson. Enquanto Tarantino interliga seus filmes através de referências, Anderson faz isso através da sua linguagem visual única. É como se ele tivesse um mundo com vida própria em suas mãos, e seus filmes fossem uma pequena observação de um lugar aleatório dele, pois todos possuem personagens comuns que se destacam e são explorados pelas situações excêntricas que se encontram, cada um deles em um espaço muito definido e atemporal, com a mesma abordagem lúdica, por mais séria que possa ser. Tanto é assim que conseguimos imaginar, por exemplo, os personagens deste filme se relacionando com os personagens de qualquer um de seus filmes anteriores.

Para este filme o diretor utilizou três tipos diferentes de proporções de vídeo para diferenciar as épocas em que as histórias se situam, pois O Grande Hotel Budapeste é uma história com várias histórias dentro que se completam quando atingem novamente seu ponto de partida. E contar histórias é o que Anderson sabe fazer, além de tudo, muito bem. É interessante notar como seus personagens nunca são coadjuvantes, até mesmo o próprio Hotel, que não é um cenário, mas um personagem também. Em todos seus filmes, o que manda são os eventos, e são eles que conectam um personagem ao outro, como é observado logo no início. A dupla Gustave H e Zero podem ser a unha e carne da narrativa, só não existiriam se, por exemplo,
Madame D. (Tilda Swinton) nunca tivesse sido citada. Mesmo ela tendo uma participação de apenas 95 brilhantes segundos, ela é o principal evento de toda a saga, tão memorável e principal como qualquer outro. Aliás, Tilda Swinton, mesmo irreconhecível em uma maquiagem feita "pelos melhores" (como afirmado pelo próprio Anderson), oferece uma caricatura tão cativante e verdadeira de sua personagem que é como se ela realmente existisse. Uma personagem tão passageira como qualquer um dos hóspedes do hotel, mas em nenhum momento fugaz.

Anderson é um diretor para ser apreciado com leveza, que faz da comédia não um gênero, mas uma observação singular e uma aula de como degustar histórias e imagens e apreciar o mundo e suas seriedades sem o peso da responsabilidade adulta.

CONCLUSÃO...
Se em Moonrise Kigdom (2012) Anderson contou uma maravilhosa e ingênua história de amor, neste filme ele utiliza os mesmos elementos para contar na sua forma lúdica uma aventura cheia de outros grandes personagens memoráveis que se conectam por eventos inesperados em um mundo próprio que ele observa para nos ensinar a observar o nosso próprio. Cada vez melhor, o diretor sem dúvida novamente carimba uma marca única no cinema atual sem se impor, apenas agradando com a bela forma de construir histórias simples, repletas de diferentes camadas e nuances que conseguiram migrar do público alternativo para conquistar o gosto popular de maneira relevante.

domingo, 13 de julho de 2014

3 EM 1...

★★★★★★
Título: 300: A Ascensão do Império (300: Rise Of An Empire)
Ano: 2014
Gênero: Açãp
Classificação: 14 anos
Direção: Noam Murro
Elenco: Sullivan Stapleton, Eva Green, Rodrigo Santoro, Lena Headey
País: Estados Unidos
Duração: 102 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Com a derrota dos espartanos pelos persas na batalha de Termópilas, agora é a vez de mostrar a batalha de Salamina do ateniense Temístocles contra a outra parte do indestrutível exército de Xerxes, agora liderado pelo seu braço direito, a cruel Artemísia.

O QUE TENHO A DIZER...
Embora não tenha sido dirigido por Zack Snyder, o mesmo do primeiro filme, ele produziu e escreveu o roteiro, já que ele estava bastante ocupado com o reboot de Superman no péssimo O Homem de Aço (Man Of Steel, 2013). A direção agora ficou a cargo de Noam Murro, um israelense desconhecido que antes só havia dirigido a comédia romântica igualmente desconhecida Vivendo e Aprendendo (Smart People, 2008). Então fica a questão no ar se ele realmente foi uma boa escolha. Não que Snyder, quando dirigiu o primeiro, fosse um grande diretor, o que ele provou nos filmes posteriores que ele não é, mas para esta continuação, com o orçamento que teve (US$110 milhões comparados com os US$65 milhões do primeiro), sem dúvida a cadeira pedia alguém com melhor expertise. O que se nota é que Snyder manteve a produção a rédeas curtas, pois tanto o visual quanto a história tem exatamente os mesmos elementos e segue praticamente o mesmo desenvolvimento narrativo do original, salvo algumas interessantes diferenças.

Com o sucesso de 300 (2006), que arrecadou quase US$500 milhões no mundo, a Warner ficou desesperada para que uma continuação fosse feita, não importasse como. Várias idéias correram e a sequencia chegou até a ter um título provisório de 302, o que virou piada na rede, porque embora o filme seja baseado na versão fictícia e mítica dos quadrinhos de Frank Miller sobre a histórica guerra entre persas e gregos, não teria fundamento fugir da cronologia real dos fatos. E, pensando nisso, não se pode negar que A Ascensão do Império é uma continuação diferente, porque conta três episódios em um único filme e de forma linear e bem coerente.

O filme é narrado pela rainha Gorgo, viúva do derrotado espartano Leonidas. Ela começa contando a história pregressa do filme original e o que fez o imperador Xerxes ter sucumbido a ambição de destruir a Grécia. Depois mostra a batalha paralela dos atenienses contra os persas no Mar Egeu enquanto acontecia a batalha entre os espartanos e persas mostrada no primeiro filme. A terceira parte da história segue no que aconteceu depois que os 300 de esparta foram dizimados, e como os gregos venceram os persas na Batalha em Salamina.

Ou seja, o filme é ao mesmo tempo uma pré-continuação, uma história paralela e uma continuação direta do original. De fato, não dá pra ignorar que este é seu grande mérito porque consegue encaixar de forma bastante convincente cenas e acontecimentos do primeiro filme (mesmo não tendo o ator Gerard Butler). Mas, a grande diferença é que, enquanto no primeiro filme a crítica tenha sido mista ao afirmarem que era visualmente interessante, mas vazio por conta do excesso de imagem e ausência de diálogos, nesse filme há diálogos até demais, e muito ruins. Erraram também na escolha do ator desconhecido, o australiano Sullivan Stapleton, na tentativa de repetir o que fizeram com o escocês Gerard Butler no primeiro. A única parte do elenco que salva o filme de uma tragédia é Eva Green, que faz a grega magoada Artemísia, braço direito de Xerxes, que se virou contra seus conterrâneos para liderar a outra parte do exército persa. Eva consegue fazer uma vilã fria, bastante classuda e sexualizada, mas o carro desanda na desnecessária cena de sexo entre ela e Temístocles naquilo que era pra ser o ápice dramático entre o respeito e a rivalidade, já que os dois são mostrados no filme como os maiores táticos de guerra naquela fictícia e fantasiosa antiguidade. O resultado foi uma vulgaridade descabida só pra voltar no velho cliché da mulher rejeitada e acentuar subliminarmente que, a partir dali, todas as atitudes de vingança da personagem se justificarão por isso. É Hollywood sendo sexista como sempre. Podem colocar uma mulher como chefe de um exército, mas ela sempre será emocionalmente perturbada. O que é uma pena, pois pelo gênero do filme e o público masculino que ele atinge, Artemísia até que tinha um desenvolvimento bastante interessante e equilibrado por ser uma das duas únicas personagens femininas de todo o filme.

O impacto visual é o mesmo do primeiro, com batalhas bem coerografadas, cheias de efeitos que voam na tela para impressionar no 3D e toda marca registrada que fez de 300 uma referência além das "barrigas tanquinho", referências visuais que foram usadas com frequência em filmes épicos e de ação nos últimos oito anos. Tudo é muito escuro, e realmente exageraram nos filtros de cor e imagens em segundo plano desfocadas para dar aquele tom de história em quadrinho animada. Interessante e com sequencias até deslumbrantes, mas é justificadamente mais enjoativo e visualmente cansativo que antecessor.

A princípio o filme era pra se chamar Xerxes, já que é baseado na história gráfica de Frank Miller com o mesmo nome, mas o estúdio teve medo do filme não ser bem recebido por não ter uma referência direta em seu título, e o personagem persa vivido por Rodrigo Santoro é novamente tão coadjuvante como foi antes. Arrecadou mais de US$330 milhões no mundo, e seu final deixa abertura para mais uma provável sequencia que até valeria a pena ser feita para concluir a derrota persa e o posterior assassinato de Xerxes por um de seus ministros, como conta a história.

CONCLUSÃO...
Mesmo o grande e interessante diferencial de ser três tipos de continuações em uma única narrativa, o filme poderia ter um maior impacto se não pecasse na falta de uma direção que soubesse utilizar sem excessos as qualidades do primeiro filme, além do roteiro que definitivamente erra nos diálogos pobres, anacrônicos e sequencias abusivas e desnecessárias, mas em contraponto une os dois filmes de maneira convincente, além de conseguir seguir, a seu modo, a cronologia histórica verdadeira. Cheio de altos e baixos, prós e contras, não dá pra dizer que o filme é tão empolgante quanto o primeiro, ou tão ruim quanto imaginaram que poderia ser. Consegue até oferecer um produto bem melhor do que esperado, mas que podia ser melhor elaborado para tirar o ranso pastelão que as vezes vem a tona.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

POR QUE ELA MERECE VOLTAR?

★★★★★★★★★
Título: The Comeback
Ano: 2005
Gênero: Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Michael Patrick King
Elenco: Lisa Kudrow, Damian Young, Malin Akerman, Robert Bagnell, Lance Barber, Laura Silverman, Bayne Gibby
País: Estados Unidos
Duração: 25 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Valerie Cherish quer a todo custo reconquistar o sucesso depois de uma carreira morta há 15 anos.

O QUE TENHO A DIZER...
The Comeback foi um seriado criado, escrito e produzido por Michael Patrick King e Lisa Kudrow. Michael foi diretor, roteirista e produtor de Sex And The City, e Lisa foi estrela de Friends. O seriado foi lançado no canal HBO um ano após o término desses dois enormes sucessos, além de o primeiro e único na história da HBO a ser cancelado logo na primeira temporada. A explicação dada foi os baixos índices de audiência, já que a emissora havia tido três grandes sucessos consecutivos (Six Feet Under, Sex And The City e Os Sopranos). A princípio recebeu opiniões mistas, mas depois que o seriado finalmente engatou e voltou a chamar atenção ao concorrer a três Emmys, os críticos e o público resolveram dar uma segunda chance e analisar o seriado com mais calma. Foi então que, em 2012, a Entertainment Weekly o listou entre os 10 melhores seriados dos últimos dez anos, além de colocá-lo na posição 75 na lista de novos clássicos, o que novamente chamou atenção do novo público e praticamente virou uma campanha bastante atrasada para seu retorno.

Por conta da curiosidade tardia do público, The Comeback foi um dos raros casos em que o sucesso posterior foi maior do que durante sua exibição original, tanto em venda de DVDs como nas exibições "on demand" da HBO. Após a divulgação da Entertainment Weekly, ainda em 2012, a Writers Guild Foundation convidou Lisa Kudrow e Michael Patrick para darem uma coletiva de mais de duas horas a escritores e estudantes para falarem sobre o seriado e todo o processo criativo no desenvolvimento dos roteiros, uma entrevista bastante esclarecedora sobre como tudo começou, como o seu cancelamento pegou todos de surpresa e como todos ainda lamentam seu cancelamento (é possível assistir essa coletiva em duas partes: PARTE 1 e PARTE 2). Mas em Abril de 2014 a HBO novamente pegou todos de surpresa ao finalmente concordar com seu erro e aceitar a campanha ao anunciar o retorno do seriado para mais uma única e curta temporada de apenas seis episódios, que agora se passará 10 anos depois dos episódios originais. Segundo o canal, o seriado poderá ou não ser renovado conforme a repercursão do retorno.

O enredo central da primeira temporada foi mostrar a tragetória e tentativa da atriz Valerie Cherish em voltar aos holofotes depois de uma carreira morta há 15 anos. Agora a emissora de seu primeiro e único sucesso, sem gandes idéias, a escolheu para estrelar o reality The Comeback ao mesmo tempo em que ela também é coadjuvante de uma nova sitcom da mesma emissora chamada Room & Bored, na qual ela foi escalada apenas para servir como ponte para o lançamento de seu show. Embora 15 anos tenha se passado, Valerie não sente isso. Ela ainda acredita ser famosa e reconhecida pelo seu primeiro e único sucesso, e que a exploração de sua imagem é para dar crédito a emissora, quando na verdade a emissora quer apenas dar continuidade a produções baratas, descartáveis e de rápido retorno. Esse egocentrismo e falta de percepção da realidade é o que vai complicar todo o processo de Valerie, transformando seu trabalho naquilo que será chamado pelo produtor de "show do ódio", já que será uma guerra entre ela, os produtores e, principalmente, os roteiristas da sitcom, ganhadores de um Emmy que não conseguem aceitar o fato de estarem perdendo espaço no mercado por causa de reality shows.

Ao contrário do que muita gente pensou na época, The Comeback não foi uma tentativa de Kudrow catapultar sua carreira solo como tentaram a todo custo seus outros colegas de Friends, e muito menos seria uma sátira sobre ela mesma, como muitos julgaram a partir de seu título e do seu inicial fracasso. Kudrow já tinha a personagem em mente cuja idéia surgiu depois de assistir alguns episódios humilhantes da segunda temporada de Amazing Race, em que os participantes vomitavam e choravam em frente a câmera em rede nacional, além da inspiração também ter surgido de programas como The Osbournes e do surreal The Ana Nicole Smith Show, o qual ela afirma não entender como conseguiu assisti-lo. Foi então que, em um almoço com Michael Patrick, ela comentou sobre sua idéia. Muito embora ela não tivesse interesses em retornar para uma sitcom tão cedo e Michael também não estava procurando algo novo para trabalhar depois dos exaustivos anos de Sex And The City, ele se empolgou com a idéia, e ela se empolgou tanto com a empolgação dele, que o almoço, que era pra ser apenas um encontro sem pretensões, se transformou em uma reunião de negócios, e quatro horas depois a idéia de quase todo o seriado estava pronta. Segundo Lisa, houve uma química tão imediata de idéias que ela não consegue imaginar outra pessoa para ter trabalhado com ela neste projeto além dele.

Lisa e Michael desenvolveram os personagens e as histórias, mas foi Michael quem escreveu o piloto em apenas três semanas. Segundo afirmação dada por eles mesmos, embora as filmagens aparentem ser improvisadas, tudo estava em roteiro, desde mínimas ações, como um tropeço, até as maiores, como os diálogos. Lisa afirmou que os diálogos de Valerie eram improvisados apenas durante o desenvolvimento dos roteiros, mas nunca durante as filmagens. Ela se encontrava com Michael, encarnava a personagem e simplesmente despejava os diálogos e situações enquanto ele redigia. Michael disse que esse era sempre um dos momentos mais difíceis porque ele queria captar a maior quantidade de informações possíveis, mas seus dedos não conseguiam acompanhar a velocidade de criação espontânea que ela tem. Depois que os diálogos improvisados de Valerie estavam redigidos, eles eram encaixados e trabalhados em suas devidas situações.

Quando levaram a idéia aos chefões da HBO, boa parte de toda a primeira temporada já estava pronta. Ele afirmou na coletiva dada a Writers Guild Foundation que, a princípio, ninguém havia entendido a idéia do seriado, e que ele usou suas influências adquiridas com o sucesso de Sex And The City para convencê-los de que a idéia valeria a pena, e que muito do que estava no roteiro poderia não fazer sentido, mas faria depois que Lisa Kudrow representasse. O piloto foi apresentado e a emissora aprovou a produção de mais 12 episódios e o seriado teve estréia no dia 05 de Junho de 2005.

O formato parecia não chamar muito a atenção das pessoas, já que era um "mockumentary", termo dado a documentários forjados e de apelo cômico, o que levou o show a ser erroneamente comparado ao fracassado seriado desse estilo, Fat Actress, de Kirsty Alley. Para que assistir um reality falso quando havia outras dezenas de verdade? Era o que se passava na cabeça das pessoas. Mas ele não era sobre um reality show e tampouco a tentativa de imitar um, mas uma sátira sobre a decadência do show business e da indústria do entretenimento através de uma atriz fracassada disposta a tudo para retomar uma carreira, exatamente como todas as demais pessoas desesperadas por sucesso e que se submetiam a essas humilhações públicas estavam dispostas.

Uma das coisas interessantes de Valerie é que ela bloqueou completamente o fato de sua carreira ter fracassado, tanto que tudo que é citado dentro do período de 15 anos que ela estava inerte, ela não se lembra. É realmente como se ela tivesse ficado em coma profundo. Como acontece no episódio 10, em que ela comenta com seu cabeleireiro sua vontade de recontratar um antigo conhecido, e seu cabeleireiro a relembra de que ele morreu em 1994. Isso é apenas um exemplo dos divesos lapsos de memória da personagem.

Todas as situções que Valerie vivencia também é obviamente a mais brilhante e brutal sátira sobre os rumos que a televisão e seus bastidores estavam tomando (e tomaram). Os programas de realidade documentada já estavam no mercado há alguns anos, mas ainda não tinham atingido seu limite destruidor. Acredita-se até hoje que eles estão em decadência, mas eles nunca acabam. Por isso que é uma opinião praticamente unânime da crítica que uma das razões de The Comeback ter sido compreendido tardiamente foi porque ele estava a frente de seu tempo, porque muito do que ele mostrou foi o que os reality shows e a televisão mundial se transformou nos anos seguintes, pois antes eram pessoas desconhecidas sendo exploradas pelas câmeras, mas atualmente qualquer pessoa é alvo, principalmente subcelebridades ou artistas inertes que se sujeitam a explorar suas próprias vidas da maneira mais ultrajante possível para tentar transformar o sensacionalismo e a banalidade em uma oportunidade ilusória de reconquistar a fama, quando na verdade é completamente o oposto, porque a efemeridade de tudo é tão devastadora que o ponto final será novamente a decadência, mas agora com a pessoa desprovida de qualquer reputação, privacidade ou moralidade própria. Ou seja, restará um nada, como bem citaram Lisa e Michael na coletiva.

Portanto, não há como negar que o que vemos é praticamente um documentário sobre uma personagem fictícia dentro de uma realidade, pois é a experiência e a reprodução mais verossímil que poderíamos ter sobre o tema. Segundo Lisa Kudrow, nada poderia ser mais degradante na carreira de alguém estrelar um programa que clama seu retorno no próprio título porque é a confirmação de que ela já havia ido embora há muito tempo. Mas o egocentrismo, o excesso de auto afirmação, e a estagnação de Valerie no tempo a impedem completamente de enxergar a realidade atual a sua volta ou de simplesmente se satisfazer com o que lhe é oferecido. Tudo para ela nunca é bastante o suficiente. Ela nunca será uma grande estrela, mas por mais alto que ela chegue, seu objetivo estará sempre acima daquilo, e isso não é ambição, é simplesmente sua constante busca pela cura da intensa frustração de nunca ter sido, nem ao menos sequer, uma líder de torcida na adolescência.

Chega um determinado momento que compreendemos as preocupações e as vontades da protagonista, mas ela é como um caminhão sem freio em uma ladeira, que não para enquanto não se choca com alguma coisa. Há um momento muito interessante no quarto episódio em que ela discute com o produtor uma piada escrita pelos roteiristas do programa e que ela acredita não funcionar por ter um humor preconceituoso que pode denegrir sua imagem. O produtor simplesmente diz pra ela parar de se preocupar com isso, pois ele também sabe que a piada não funciona, e os roteiristas precisam saber disso pela platéia. Mas ela não para. Quando a piada não funciona com a platéia e ela novamente os questiona sobre isso, o nível de intolerância deles com Valerie já está tão alto que eles dão a ela uma fala pior e muito mais constrangedora, um "cala a boca Valerie" que ela poderia ter evitado, mas sua ansiedade e excessos a impedem de enxergar qualquer limite.

Valerie é a causa e a consequencia de seus próprios problemas e constrangimentos. Alguns escritores acreditam que protagonistas não podem ser vítimas perpétuas deles mesmos, pois serem eles mesmos a causa e a consequencia de seus problemas torna algo conflitante para quem o observa, resultando em um bloqueio de sensibilidade que anula a conexão emocional e distancia o espectador do personagem. E o espectador, ao invés de se simpatizar com os conflitos do protagonista, vai se simpatizar com a antipatia que os antagonistas tem por ele. O personagem não se torna um vilão, mas também não é um herói, vindo a ser simplesmente uma figura desconfortável, vazia e constrangedora tal qual é Valerie Cherish.

Mas nesse seriado essa personalidade tão fragmentada funciona dentro de uma coerência tão perfeita que essa noção de realidade das situações que ela vivencia aumentam microscopicamente para o espectador. Tudo finalmente se equilibra entre o personagem e o espectador quando Valerie passa a ser atacada gratuitamente e de forma ofensiva por antagonistas que reagem em excesso aos excessos dela, em um assédio constante e amoral. E então entendemos porque ela é como é, pois Valerie é, acima de tudo, ingênua demais para perceber a crueldade alheia. Ela é egocêntrica e até mesmo oportunista para suas causas próprias e autoafirmações sociais, mas passível e com um grande senso de responsabilidade e consideração que são minados o tempo todo por ela mesma devido a este conflito que ela vive entre ser o que deve ser e aquilo que acha que deve ser. A sátira de um típico produto de entretenimento. Ela não é uma pessoa ruim, e sua humanidade muitas vezes nos pega de surpresa além do que esperamos, como acontece também no episódio 10, quando ela resolve dar um de seus convites para a roteirista gorda e depressiva, ou no último episódio, quando ela impede sua empregada de organizar a mesa de jantar pois ela está lá como convidada. São em momentos como esse que as máscaras de Valerie caem e enxergamos ela como uma pessoa de verdade e, finalmente, uma vítima na qual conseguimos nos conectar.

Essa reviravolta da personagem (ou "turning point", como é o termo correto) acontece a partir do episódio 8, quando ela finalmente deixa mais explícito essas camadas mais humanas e menos plásticas, e mesmo Valerie nunca deixando de ser uma vítima perpétua de si mesma, e mesmo o espectador nunca deixando de se constranger com suas atitudes, passamos a nos sensibilizar com toda a hostilidade existente em sua volta e a compreender sua existência tão caótica, torcendo por seu sucesso, mesmo tendo a certeza absoluta de toda sua futilidade e do seu iminente fracasso.

Lisa Kudrow desempenha um papel tão fantástico que, embora a personagem seja muitas vezes caricata como a comédia e as situações exigem, são os momentos de sutileza em que ela mais brilha com pequenos gestos e olhares que fazem efervecer tudo que ela contém a todo instante. Valerie é uma personagem cômica por excelência, mas Lisa utiliza a comédia naquele real propósito de aliviar as cargas dramática e nos preparar para absorver sua penosa realidade. Os méritos da atriz não estão apenas em sua atuação, mas também como uma artista criativa que conseguiu captar todas essas nuances da realidade do entretenimento e reproduzi-los em cada um dos personagens, sendo Valerie o centro de toda essa ostentada bagunça. Bato sempre na tecla em afirmar que ela não é apenas uma comediante, como demonstrou em Friends, mas uma impressionante humorista que cria personagens originais como Valerie ou Fiona Wallice, de seu seriado posterior Web Therapy, outra genial idéia. Não há dúvidas também de que Valerie se transformou em uma referência, tanto que em 2011, com o seriado Enlightened, também da HBO, a personalidade desastrosa da personagem Amy Jellicoe e sua também perpétua vitimização de si mesma em um incansável efeito dominó constragedor, chegou a ser comparada com a de Valerie.

Se os seis novos episódios serão suficientes para o cômico drama de Valerie Cherish, isso não podemos saber. A única certeza é que, mesmo tardio, esse reconhecimento é mais que necessário, é uma obrigação àqueles que veem a comédia como algo sério e muito mais do que piadas prontas para risadas automáticas e vazias.

CONCLUSÃO...
Não há dúvidas de que ele é um dos melhores seriados dos últimos 10 ou 20 anos, uma experiência de comédia satírica bastante diferente do que era produzido na época e ainda assim atual, mesmo que 9 anos tenham se passado.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

MAIS PRA EFEITO TARTARUGA DO QUE BORBOLETA...

★★★★
Nota:
Título: Questão de Tempo (About Time)
Ano: 2013
Gênero: Comédia, Romance
Classificação: 14 anos
Direção: Richard Curtis
Elenco: Rachel McAdams, Domhnall Gleeson, Bill Nighy
País: Reino Unido
Duração: 123 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um jovem descobre sua habilidade para viajar no tempo.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme tem roteiro e também é dirigido por Richard Curtis, o mesmo roteirista de pérolas da comédia romântica como Um Lugar Chamado Notting Hill (Notting Hill, 1999) e Quatro Casamentos e Um Funeral (Four Weddings And A Funeral, 1994), além dele também ser, juntamente com o ator Rowan Atkinson, o criador e roteirista dos episódios e dos filmes do Mr. Bean. É também por curiosidade o segundo filme de Rachel McAdams com viagem no tempo, o primeiro foi Te Amarei Para Sempre (The Time Traveler's Wife, 2009), muito melhor por sinal.

A história gira em torno de Tim, um rapaz tímido que não consegue ter muita atitude, principalmente quando isso está relacionado a mulheres. Ele descobre por seu pai que faz parte de uma família onde os homens possuem o dom de viajar no tempo, e cujo "poder" tende a se manifestar aos 21 anos. O pai de Tim conta esta inacreditável surpresa e ele recebe como uma piada, mas logo em seguida faz um teste e... kabum! Lá está ele no último momento que lembra se arrepender por não ter tomado uma atitude decente. Ele fica maravilhado com a descoberta e dali pra frente nada mais poderia dar errado em sua vida, já que ele teria a oportunidade de consertar toda vez que isso acontecer. E é isso o que ele vai fazer para conquistar Mary, uma jovem que ele conheceu em uma noite, mas que pela necessidade de uma viagem ao passado e outro e sua inexperiência no assunto, ele perde a oportunidade de encontrá-la novamente no mesmo lugar.

E o filme é basicamente isso, idas e vindas ao passado do personagem principal para evitar situações, consertar outras e ajudar amigos ou familiares que precisam. O problema aparece quando ele descobre sozinho que nem sempre é possível o resultado esperado, e o efeito borboleta desastroso é inevitável caso ele volte ao tempo antes de algumas situações chaves (como, por exemplo, o dia da concepção de sua primeira filha), não havendo possibilidades de conserto.

Teria tudo pra ser uma comédia romântica bonitinha e com pitadas sinceras de drama familiar. Você tem a simpatia do ator Domhnall Gleeson, que não é bonito e nem feio, mas sua esquisitice consegue ter um charme particular; tem a graciosidade de Rachel McCadams, mas que é bem coadjuvante no pior filme de sua carreira; e tem Bill Nighy com muita vontade de fazer o filme dar certo. Histórias com viagem no tempo são complicadas, e qualquer derrapada pode se transformar em um terrível acidente. A história se divide basicamente duas partes, a primeira que gira em torno da tentativa do personagem conquistar seu amor, e a segunda sobre as descobertas do personagem e suas tentativas de evitar que a sua família sofra com decisões erradas tomadas em algum passado. E é aí onde tudo desanda.

Tudo perde o foco quando passa a ter muitas explicações sobre as consequencias de se mexer com o passado, o que teria dado certo caso não fossem feitas tão em cima da hora ao espectador porque soa como uma tentativa de consertar buracos do roteiro. Há também erros de continuidade bem explícitos entre suas idas e vindas e que nem as mais lentas das pessoas deixarão de notar, como por exemplo, ele entrar em seu guarda roupa para viajar no tempo, e ao fazer isso ele ainda estar dentro do guarda roupa e não dentro do momento ou da situação. Então onde ele estaria para as demais pessoas naquele determinado momento e situação? Ele simplesmente teria sumido de perto delas do tipo "desculpe, evaporei mas já voltei"? Chega a ser bizarro. Tem também uma descartável e desnecessária sequencia que ele tenta levar sua irmã ao passado junto com ele, o que não convence mesmo dentro da fantasia, e no fim das contas não acrescenta absolutamente nada no desenvolvimento.

Tem algumas cenas engraçadas aqui e alí, todos os personagens são gente boa e o roteiro dá até oportunidade para uma moral bonita sobre o carpe diem (aproveitar o momento), sobre a vida ser passageira, sobre a construção da família e toda essa consciência que temos que ter para lidar com as situações inevitáveis nas quais estamos todos vulneráveis. Mas esses questionamentos mais sentimentais, sinceros e verdadeiros do filme só acontecem na virada final dos últimos 30 minutos, em lágrimas que poderiam ter escorrido mais cedo se não tivessem enrolado com tanta besteira ou outras situações dramáticas banais, muito mais pra efeito tartaruga do que borboleta nas longas duas horas.

CONCLUSÃO...
Enfim, embora falei até muito sobre o filme, a verdade é quem valia ter falado tanto. Filme dispensável, para ser visto em alguma madrugada sem sono quando for exibido por algum canal aberto.

sábado, 14 de junho de 2014

MENOS PODERIA SER MAIS...

★★★★★★★
Título: Em Segredo (In Secret)
Ano: 2013
Gênero: Drama, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Charlie Stratton
Elenco: Elizabeth Olsen, Jessica Lange, Tom Felton, Oscar Isaac
País: Estados Unidos
Duração: 107 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Therese é casada com seu primo, filho de sua tia, irmã de seu pai. Ela vive infeliz amorosa e sexualmente até conhecer Laurent, amigo de infância de seu marido.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é dirigido e escrito por Charlie Stratton, sendo esta sua estréia em longas metragens, e baseado no livro Thérèse Raquin (1897), de Émile Zola. A obra foi repudiada pela crítica da época devido a seus elementos naturalistas, estilo que radicaliza ainda mais o realismo, abordando temas verdadeiros e recorrentes - porém ocultos - na sociedade, como o sexo, a loucura, o concubinato, e demais outros em que os personagens fossem dominados por instintos e desejos naturais de forma erotizada, agressiva e até mesmo violenta.

Portanto, a história tanto do livro quanto do filme vai se desenvolver em torno da personagem princial, chamada Thereze (Elizabeth Olsen), que foi deixada por seu pai, ainda menina, aos cuidados de sua tia paterna (Jessica Lange). Seu pai a deixou com uma determinada quantia de dinheiro destinada apenas a ela caso necessário. Ela cresceu cuidando de seu primo doente, Camille (Tom Felton), e auxiliando sua tia nos deveres domésticos até atingir a maioridade e aceitar o fato de que seu pai nunca mais voltaria. Sua tia então decide casá-la com seu primo, para que o dote deixado pelo pai de Thereze possa ser usurpado por eles. Eles se mudam para Paris, e seu casamento entediante e infeliz a afunda cada vez mais em uma grande frustração amorosa e sexual até conhecer Laurant (Oscar Isaac), amigo de infância de Camille. Obviamente ambos se tornam amantes e as coisas tendem a complicar quando decidem por fim à vida de Camille para darem continuidade ao romance proibido.

Embora a tentativa seja válida, o filme ainda sofre de grandes problemas comuns de adaptações literarias, principalmente quando estas são de clássicos como esse. Mas ao contrário do que se pode imaginar, nesse filme os problemas não são nem pela falta, mas pelo excesso. Mesmo que a narrativa tente muitas vezes ser bem construída e o desenvolvimento de toda a trama até convincente, se não soubessemos que se trata de uma adaptação de uma obra naturalista de Zola dificilmente nos atentaríamos às características do estilo, e isso acontece principalmente pela falta de uma abordagem com mais nuances e delicadezas por parte do diretor.

A literatura naturalista exige que as ações sejam cruas e diretas, mas essa reprodução exata em uma adaptação cinematográfica chega a ser até abusiva e incoerente já que uma mínima ação se torna grande demais na lente de uma câmera, inumeras vezes maior do que uma sucinta frase em um livro. O diretor segue à risca o estilo na adaptação, mas sua falta de sutileza na construção das cenas oferece um resultado mais forçado do que verdadeiramente real, como o estilo pede. Isso faz com que, de uma adaptação de um clássico sobre uma época específica, o filme se torne contemporâneo como qualquer outro, chegando a causar um impacto menos verdadeiro até mesmo quando comparado a filmes como Infidelidade (Unfaithful, 2002), ou a adaptação da obra de Graham Greene, Fim de Caso (The End Of The Affair, 1999), filmes contemporâneos, mas que abusam da sutileza mais clássica para desenvolver um clima realista e que convença de fato o espectador sobre aquilo que é narrado.

Os diálogos são curtos e diretos, e os personagens definitivamente são produtos do meio em que vivem. Todos são evidentemente figuras que se enquadram dentro do microcosmo social exigido pelo estilo, mas as relações de interesse apenas são explícitas entre Therese, sua tia e Laurant. Observamos a tentativa de sobrevivência dos mais fortes e a opressão dos mais fracos, mas uma das cenas mais interessantes é quando todo o fervor sexual entre os personagens é interrompido por Madame Raquin que pergunta se o barulho que ela ouve é novamente o gato tossindo as bolas de pelo, que, propositalmente ou não por parte do diretor e roteirista, é a referência direta àquilo conhecido como animalização dos personagens, pois são eles agindo na sua forma mais primitiva e instintiva, outra importantíssima característica do estilo.

No livro, o interesse de Laurant por Thereze a princípio é apenas por ele não ter dinheiro para pagar prostitutas (o que não fica claro no filme) e a idéia de matar Camille partiu da própria Therese, e não de Laurant. Mas essas sutis mudanças não pesam muito na trama pois foram bem balanceadas e o grau de vitimização da personagem se mantém o mesmo.

Portanto, mesmo o diretor ter pecado na falta de sutileza, impedindo o espectador de ser convencido da realidade de toda a situação (que é um dos elementos principais do estilo naturalista), consegue ser uma adaptação enxuta e atenta a demais outros detalhes que demonstram os grandes interesses do diretor e roteirista em tentar transpor para a tela um estilo que, mesmo clássico, não envelhece ao tempo, mas também não cabe ter uma linguagem moderna demais.

Não dá pra deixar de notar o talento crescente de Elizabeth Olsen (irmã das sem-talento gêmeas Mary-Kate e Ashley Olsen), que ganhou destaque com o independente Martha, Marcy, May, Marlene (2011) e aos poucos demonstra ser uma das mais importantes de sua geração.

CONCLUSÃO...
Um filme tenso, mas que mesmo baseado em uma obra naturalista e com muitas das características, está longe de ser considerado um filme desse estilo, muito disso por falta da sutileza do diretor e na sua falta de habilidade em manipular essas características, deixando o filme muito mais moderno do que uma adaptação de uma época específica de um clássico, a velha história de que, neste caso, menos poderia seria mais.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

DIFÍCIL...

★★★★★★
Título: The Double
Ano: 2013
Gênero: Suspense, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Richard Ayoade
Elenco: Jesse Eisenberg, Mia Wasikowska, Wallace Shawn
País: Reino Unido
Duração: 2013

SOBRE O QUE É O FILME?
A vida de um comum trabalhador vira do avesso quando ele encontra uma pessoa exatamente idêntica a ele, porém com uma personalidade totalmente contrária e tudo aquilo que ele gostaria de ser.

O QUE TENHO A DIZER...
The Double (ainda sem título em português) é o segundo filme dirigido pelo jovem britânico Richard Ayoade, que anteriormente dirigiu o excelente Submarino (Submarine, 2010) e que curiosamente tem como um dos produtores o ator Michael Cane. Mas ao contrário de seu primeiro longa de narrativa linear inteligente e do humor negro classudo de fácil absorção, aqui ele foge da narrativa clássica, muito embora a estética esteja muito presente e referências a diretores como Terry Gillian e David Lynch estão sendo inevitáveis tanto por aqueles que adoraram quanto pelos que odiaram.

Por uma razão desconhecida, o filme tem recebido críticas positivas em sua maioria. Foi originalmente lançado em Setembro de 2013 no Festival de Toronto, e terá lançamento em mercado norteamericano este ano. Tem sido promovido com um suspense com teores de humor negro, mas esse humor negro difícilmente vai ser notado ou apreciado pela maioria.

Conta a história de Simon, um rapaz tímido, condescendente e genuinamente bondoso, que trabalha em uma empresa há sete anos, mas seus esforços nunca foram notados, muito menos sua presença. Como se nada disso bastasse na sua vida, há uma inexplicável capacidade natural de tudo dar errado a sua volta, e sua vida vira de ponta cabeça quando James é contratado para trabalhar no mesmo setor. James é um sósia idêntico de Simon, mas ninguém nota isso, pois para todos Simon nem ao menos existe, nem mesmo aos sensores do elevador. Simon fica fascinado com a eloquencia, autoconfiança e desenvoltura de James, pois enxerga no colega tudo aquilo que ele não tem coragem de ser. Isso leva a ambos desenvolverem uma relação de amizade que se transforma em guerra quando Simon percebe que James está tomando um lugar que ele nunca teve.

O filme é baseado no livro homônimo de Fyodor Dostoyevsky, que obviamente conta uma história similar conhecida por utilizar o mito do doppelganger, uma palavra de origem alemã que significa muito mais do que apenas "sósia" ou "dublê" na língua portuguesa, mas uma pessoa exatamente igual a outra, como um clone, mas sem qualquer origem genética. Na mitologia essa figura pode ser vista como uma pessoa fisica e espiritualmente idêntica como também um alter ego, ou seja, com uma personalidade distinta, geralmente aquela almejada pela pessoa, mas nunca conquistada de maneira consciente. Em algumas outras culturas ele é visto como uma versão demoníaca de si mesmo.

Embora essa adaptação seja uma projeto ousado do diretor, fica difícil analisá-la de forma contundente pelo fato da obra de Dostoyevsky não ser amplamente conhecida, embora bastante referenciada e controversa, já que é possível encontrar diferentes linhas de pensamento sobre ela. Alguns acreditam que o personagem do livro sofre de esquizofrenia, outros acreditam que seja um alter ego do personagem principal que está em busca de sua verdadeira identidade que é ou não oprimida pela burocracia sufocante em que vive.

A partir dessas características e controversias sobre a obra literária toda a situação em volta do personagem principal no filme é construída, bem como a ascenção de James sobre os méritos de Simon, ao ponto de Simon chegar a sua quase autodestruição e inexistência. Não há como deixar de notar James como um alter ego do personagem, assim como foi Tyler Durden em Clube da Luta (Fight Club, 1999). Em muitas outras sequencias também ficamos na dúvida se tudo o que acontece é consequencia de um surto esquizofrênico do personagem que não aguenta mais toda a opressão a sua volta, ou também aquilo que pode ser chamado pela psiquiatria de heautoscopia, também uma alucinação, em que a pessoa enxerga a mesma imagem de si como um espelho, porém de forma distorcida ou não. O que acontece com James também pode ser simplesmente uma mistura de tudo isso, o que é muito mais provável, já que o diretor e roteirista não consegue dar uma definição muito clara para qual linha de pensamento ele quer levar seus personagens.

Não é um filme fácil e há muito tempo não assistia uma narrativa complexa assim desde Possuídos (Bug, 2006), com divagações psicoanalíticas e sociais puxadas para esse teor surreal e discutível. Como disse, é um projeto ousado do diretor Ayoade e foge completamente da beleza e delicadeza narrativa de seu filme anterior, e muito embora ele se bem suceda na construção do personagem e em mostrar que ele é alguém muito frágil para suportar sua própria significância, ou de mostrar sua incrível capacidade de tolerar tudo, menos ele mesmo, porque a existência de James cria o dilema dele aceitar tudo em silêncio ou finalmente resolver mudar e se adaptar, a qualidade final do roteiro fica questionável quando não encontramos nenhum ponto realmente esclarecedor sobre quem ou o que tudo isso realmente significa. É um alter ego? É uma figura resultante de uma esquizofrenia? É um extraterrestre? É alguma outra coisa qualquer? É tudo isso ou nada disso?

Claro que não há como negar suas qualidades, como as já ditas sobre o desenvolvimento dos personagens, a fotografia e os enquadramentos incríveis que remetem uma década de 60 que ao mesmo tempo não se encaixa nessa época, como um mundo paralelo frio e inquieto. A trilha sonora sem dúvida é o grande destaque não apenas ao utilizar um repertório asiático antigo, mas também por fazer sons ambientes também virarem melodias inusitadas em uma similaridade ao de Bjork no filme Dançando no Escuro (Dancer In The Dark, 2000), criando o clima denso e até sombrio por muitas vezes. A atuação de Jesse Eisenberg é propositalmente coreografada e contida como Simon e explosiva como James e essa versatilidade do ator realmente dá outra dimensão nos momentos em que ele contracena com ele mesmo.

Existem tantas questões que surgem quando o filme acaba que desistimos dessa masturbação mental para simplesmente não cair na possibilidade de entrar em um mar sem respostas, e no fim das contas tudo aparenta ser apenas mais um daqueles filmes bem construídos, que rodam e rodam pra deixar o espectador tonto e com vergonha de dizer que entendeu e não saber explicar, ou ficar com vergonha de dizer que nada entendeu e ser taxado de ignorante por quem faz pose de intelectual. Tudo pode fazer muito sentido na cabeça do diretor, mas acho até desrespeitoso abranger tantas possibilidades sem haver uma conclusão coerente, como que jogar a batata quente na mão do espectador. Independente disso, as críticas e as ironias estão lá, e essas são relevantes e consideráveis acima de qualquer coisa.

CONCLUSÃO...
Bem feito, construído e atuado, com uma trilha sonora bastante inusitada e impactante, um filme que talvez consiga até surpreender em vários aspectos, mas vai deixar muita gente com uma interrogação na testa por não dar uma clareza ou um ponto determinante para encontrar um denomidador comum. Mas independente disso, as críticas sobre o ser e não ser estão lá.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

SINGER CONSEGUE SAIR PELA TANGENTE...

★★★★★★★
Título: X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido (X-Men: Days Of Future Past)
Ano: 2014
Gênero: Ação
Classificação: 12 anos
Direção: Bryan Singer
Elenco: James McAvoy, Hugh Jackman, Jennifer Lawrence, Michael Fassbender, Ian McKellen, Patrick Stuart, Ellen Page
País: Estados Unidos
Duração: 131 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Wolverine é enviado de volta para a década de 70 para impedir um assassinato que será responsável por dizimar todos os mutantes no futuro.

O QUE TENHO A DIZER...
Há 51 anos atrás a primeira edição de X-Men foi lançada, super heróis mutantes criados por Stan Lee e Jack Kirby pela Marvel Comics. O sucesso desses heróis é visto até os dias de hoje, valendo sempre dizer que eles, juntamente com o diretor Bryan Singer, foram responsáveis e pioneiros por mostrarem no início de 2000 que havia possibilidades do cinema de ação trabalhar com os quadrinhos de maneira relevante tanto como entretenimento como um produto comercial que não fosse inteiramente descartável. Tanto que 90% dos filmes de ação do verão norteamericano nos últimos anos tem sido apenas de super heróis, sejam eles da Marvel ou da DC.

Os X-Men nos quadrinhos se destacaram por vários motivos, mas um deles era de suas histórias se adaptarem com as épocas e fatos que viviam e até mesmo incoroporá-las em suas tramas, o que também deu certo e funcionou no cinema. Mas com o passar dos anos as histórias publicadas perderam fôlego e ficaram confusas, os personagens começaram a entrar em um loop infinito de erros, discordâncias e anacronismos ao ponto de todo o Universo Marvel ter sofrido imensas transformações principalmente nos anos 90 até culminar com a Era do Apocalipse, um evento que zerou novamente todo o universo, e isso sempre vai acontecer quando tudo bagunçar, como aconteceu no ano passado em que parte da Marvel foi novamente resetada com a chegada do Marvel Now (Nova Marvel, no Brasil).

Com o lançamento do primeiro filme dos X-Men em 2000, Bryan Singer teve boas intenções, porém seu excesso de autoestima e afirmação fez o diretor se precipitar ao pegar a história dos mutantes e recontá-la à sua maneira. Singer se manteve fiel a alguns personagens chaves, mas reinventou a história particular muitos deles a seu bel prazer, o que gerou uma confusão entre aquilo que fãs já conheciam e novos fãs estavam conhecendo, tanto que a Marvel teve que sambar para recontar suas histórias publicadas e diminuir essa grande incoerência do que se viu nas telas com o que existia nos quadrinhos até então.

De uma maneira geral, os dois primeiros filmes de Singer funcionaram nas telas e são as referências em qualidade até hoje, mas o terceiro filme, dirigido por Brett Ratner, deixou a desejar e foi quase um suicídio da franquia. Em 2011, houve uma tentativa de fazer um reboot da série, e Matthew Vaughn foi escalado para dirigir o quarto filme, entitulado Primeira Classe, que seria uma pré-sequencia da trilogia original ao contar como Charles Xavier fundou sua escola de jovens super dotados na década de 60, e como a curiosa relação entre ele e seu amigo Erik Lensherr/Magneto culminou em discordâncias ideológicas e se transformou em uma das mais clássicas e conhecidas rivalidade dos quadrinhos.

E aquilo que era pra ser o reinício de uma franquia e esquecer tudo que foi feito anteriormente, se transformou numa discussão entre a massa de fãs que se perguntava: como dar continuidade a essa história e alinhá-la à história da trilogia original?

Depois de ter abandonado a franquia para uma fracassada tentativa de reviver o ícone da DC em Superman Returns (2006), ninguém seria melhor que Bryan Singer para retornar à direção 10 anos depois justamente para realizar esta ponte entre os filmes e (tentar) consertar todos os erros cometidos no passado, inclusive por ele mesmo.

E funcionou?

Por incrível que pareça, sim.

A habilidade de Singer em administrar um grande número de personagens e de tramas paralelas é inegável e novamente visto aqui. Mas dessa vez Singer não apenas teve de lidar com as tramas paralelas do próprio filme como também com os buracos dos anteriores. Muitos dos erros são consertados de maneira discreta, e embora as referências aos filmes anteriores existam o tempo todo (incluindo também os dois péssimos spinoffs de Wolverine), muitas delas são feitas de maneira indireta justamente para não deixar o novo espectador confuso ou perdido e há até momentos para brincar com algumas situações inusitadas, como mostrar em uma sequencia de onde vem o trauma de Wolverine em viajar de avião.

Claro que isso não significa que seja necessário assistir os filmes anteriores para entender este, muito embora deva ser uma obrigação. Mas essa obrigação é para observar como Singer realmente conseguiu transformar tudo, entre erros e acertos, em um produto condensado, aceitável e grandioso dentro de todos esse complexo mundo confuso que ficou os dos X-Men. Parece que Singer finalmente deixou sua arrogante individualidade de lado e resolveu dar ouvido a base de fãs, pois entre méritos e deméritos, construções e desconstruções, este é o filme mais relevante dos X-Men como uma verdadeira adaptação.

A história se passa dez anos depois do Primeira Classe e 50 anos antes da dizimação dos mutantes na Terra. Esse período é baseado em um episódio dos quadrinhos que leva o mesmo nome e que também já foi adaptado na primeira série animada. Tudo começa com uma boa sequencia de ação no futuro, que teoricamente se passaria nos nossos dias atuais, só que completamente diferente do nosso presente, sendo muito mais tecnológico e apocalíptico. Depois perde o ritmo com piadinhas manjadas e uma crise depressiva de Xavier-jovem que não convence muito até mesmo pela facilidade com que ele é convencido a ajudar o Xavier-velho. Há outros momentos já vistos antes, como novamente Magneto isolado em uma prisão de segurança máxima, ou Wolverine novamente sendo neutralizado por Magneto, a relação de amor e ódio entre Xavier e Magneto, e a sempre clássica dúvida entre tentar viver em harmonia com os humanos ou não. Não há uma cena de batalha realmente impressionante ou de tirar o fôlego como nos filmes anteriores, mas nas poucas que existem, como nas batalhas com os Sentinelas, podemos sentir aquele gostinho muito bom de vê-los trabalhando em equipe, o verdadeiro grande atrativo dos X-Men.

Os personagens mais conhecidos estão presentes, e claro que a história novamente vai se concentrar nos personagens mais populares e nos atores que possuem mais relevancia popular e comercial, como Wolverine (Hugh Jackman, reprisando o papel pela sétima vez), Mística (Jennifer Lawrence, atualmente a atriz mais bem paga do cinema) e Magneto (Michael Fassbender, o alemão de ouro de Hollywood). Alguns que fizeram apenas algumas pontas nos anteriores voltaram com alguma participação maior, como Colossus (que outra vez entra mudo e sai calado), Kitty Pride (Ellen Page novamente fazendo aquela sempre cara de que não está nenhum pouco a fim de fazer o filme) e Bob Drake/Homem Gelo (sempre querendo fazer mais, mas Singer sempre oferecendo de menos). Novos mutantes agora aparecem como Quicksilver (que nos quadrinhos é filho de Magneto), Sunspot (não confundi-lo com o Homem Tocha de Quarteto Fantástico), Blink e Bishop, esses três últimos apenas para incrementar as cenas de ação, já que não possuem qualquer relevância em toda a trama.

Essa mania de concentrar as histórias sempre nos personagens ou nos atores mais populares é, talvez, o grande defeito de todo o filme, porque X-Men não é Wolverine, e essa noção de "trabalho em equipe", que sempre foi um dos fundamentos principais de Xavier, se perde. Diferente de Os Vingadores (The Avengers, 2012), em que o Homem de Ferro se tornou o personagem mais popular por conta de sua franquia e mesmo assim o filme soube dar momentos especiais para todos os demais personagens. Mas isso nunca acontece de maneira satisfatória nesse filme.

Apesar de Singer tentar consertar algumas coisas e encaixar a história com os quadrinhos de uma forma que ele nunca havia feito, ele ainda insiste na mesma tecla de deturpar as histórias dos personagens e criar as suas próprias, como o fato de Bishop (que nos quadrinhos é o verdadeiro viajante do tempo) ser o personagem que menos tem a ver com tudo isso no filme, e agora Kitty Pride ter esse novo poder de transportar a consciência dos mutantes para o passado, quando isso deveria ser uma missão de Xavier, Jean Grey, Emma Frost ou até mesmo uma simples máquina no tempo, como aquelas criadas pelo personagem Forge nos quadrinhos. Essas são, talvez, as maiores heresias cometida por ele, e imperdoáveis no ponto de vista de quem conhece a função de cada um nessa história. Essas gafes colossais realmente deixam os fãs um tanto decepcionados, mas para aqueles que pouco conhecem a fundo a história dos mutantes, nada disso é percebido, nem mesmo serão percebidos os erros de continuidade e questões chaves que não deveriam ter sido ignoradas, como o website SCREENRANT publicou.

Na parte do design de produção e figurino, é notável a queda de qualidade do filme anterior para esse. Se em Primeira Classe a década de 60 foi reproduzida com uma qualidade de encher os olhos e, inclusive, elogiada pela crítica em sua maioria, neste filme a década de 70 nem se parece com ela, principalmente depois do deleite visual de Trapaça (American Hustle, 2013). No filme há até um notebook com tela LCD. Além desse ato falho e absurdamente anacrônico, é engraçado observar a atuação dos figurantes, que de tão mal dirigidos ou dirigidos com pressa, fica evitente a mecânica e a coreografia de organização. Enfim, erros pequenos para quem enxerga pouco, mas bem graves para uma produção de US$200 milhões.

Como um todo, não há como negar que Singer conseguiu, a duras penas, aprender que com os X-Men não se brinca e sair pela tangente de maneira fina. A Marvel estava muito preocupada com o que fazer sobre a terceira franquia mais lucrativa da empresa e um dos principais ícones de sua marca. A sequencia final, por si só, define a razão do filme existir e já vale a pena todos os seus 131 minutos, como também é um final nostálgico, trágico e emocionante, que conseguiu transportar pra tela muito desse misto de angústia e esperança que os quadrinhos e a primeira série animada conseguiram fazer, além de, inclusive, dar gás para novos filmes no futuro (uma nova sequencia já foi anunciada para 2016).

Sorte teve Singer em conseguir encontrar linhas comuns entre todos os individuais filmes e, ironicamente, tal qual como o filme, seus erros do passado justificam os resultados desse novo episódio.

CONCLUSÃO...
Novamente é Singer fazendo tudo da sua forma, mas sua habilidade de conseguir lidar com diversos personagens e tramas paralelas fazem desse filme um grande divisor nesta pentalogia. Claro que vai agradar mais os fãs dos filmes do que dos quadrinhos, mas nem por isso vai deixar de emocionar os mais exigentes ao ver seus heróis preferidos personificados na tela, mas também vai despertar o ódio por muitos erros de continuação existirem e questões fundamentais da trilogia original terem sido ignoradas.

domingo, 18 de maio de 2014

O EXTRAORDINÁRIO MUNDO DE JEUNET...

★★★★★★★★★☆
Título: Uma Viagem Extraordinária (The Young And Prodigious T.S. Spivet)
Ano: 2013
Gênero: Aventura, Fantasia
Classificação: 10 anos
Direção: Jean-Pierre Jeunet
Elenco: Kyle Catlett, Helena Bonham Carter, Callum Keith Rennie, Niamh Wilson, Judy Davis, Dominique Pinon
País: França, Canadá
Duração: 105 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre T.S. Spivet, que resolve fazer uma viagem do oeste para o leste dos Estados Unidos para receber um prêmio científico. O que eles não sabiam é que a pessoa a receber o prêmio tem 10 anos de idade.

O QUE TENHO A DIZER...
T.S. Spivet é dirigido pelo magnífico diretor francês Jean-Pierre Jeunet, do qual sou suspeito para escrever, já que sou grande fã. Felizmente tive oportunidade de assistir todos seus filmes e, consequentemente, acompanhar essa brilhante carreira de poucas obras, mas relevantes e de uma riqueza narrativa e visual raros no cinema atual.

Claro que pouca gente conhece Jeunet se você perguntar pelo seu nome, mas todo mundo vai dizer que sabe quem é quando você disser que ele é o diretor de O Fabuloso Destino de Amelie Poulain (Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain, 2001), seu primeiro filme mais famoso e mundialmente conhecido. Ao mesmo tempo, provavelmente, ninguém vai conhecer nada mais além disso, o que é uma grande... grande pena. Por isso, vale mesmo fazer uma breve apresentação do diretor antes de falar do filme, até porque todo novo filme de Jeunet merece um grande comentário.

Jeunet começou a carreira com longas em parceria com seu amigo, Marc Caro. O primeiro filme, Delicatessen (1999), chamou atenção pela sua atmosfera pós-apocalíptica bizarra, mas ao mesmo tempo leve e curiosa pela narrativa diferenciada, o humor pra lá de obscuro e principalmente pela facilidade que o diretor tem em criar empatias entre o público, suas histórias e seus personagens, mesmo quando estes são estranhos, esquisitos, com atores feios ou de uma beleza exótica que fuja completamente de qualquer conveniência. Esta parceria com Marc Caro foi se repetir com o segundo filme, Ladrão de Sonhos (La Cité Des Enfants Perdus, 1995), talvez um dos filmes mais visualmente deslumbrantes do diretor, mais colorido que Delicatessen, um pouco menos sombrio, mas muito mais fantasioso e emocionante. O sucesso do filme rendeu um jogo de video game igualmente belo e fiel à história do filme.

Dois anos depois a parceria entre Jeunet e Caro ficou abalada quando Jeunet aceitou dirigir Alien - A Ressurreição (Alien: Ressurection, 1997) e Caro não viu interesse algum na produção, embora ele tenha auxiliado o amigo por diversas vezes. Mesmo assim o filme não apenas é considerado o pior da franquia como é praticamente um arrependimento do próprio diretor, que sofreu duras críticas pela sua sólida base de fãs. Houve intensas dificuldades na produção, o estúdio mandava e desmandava, fazia e desfazia mil coisas enquanto, ao mesmo tempo, havia um intenso problema de comunicação entre o diretor (que não fala inglês) com o roteiro, os atores e toda a equipe. Tanto foi assim que, propositalmente ou não, ele ficou aproximadamente quatro anos longe das câmeras. Foi quando ele finalmente pegou o mundo de surpresa com Amelie Poulain e a volta de todo seu fabuloso mundo surreal, fantasioso, mas agora mais doce, em um tom mais alegre e cômico que anteriormente, talvez por novamente haver a falta do peso das mãos de Marc Caro.

Como dito, Amelie foi seu filme de maior sucesso, e depois dele Jeunet encontrou em Audrey Tautou sua musa, e a parceria com a atriz se repetiu com o belíssimo e delicado Eterno Amor (Un Long Dimanche de Fiançailles, 2004), seu segundo filme mais famoso e conhecido. Novamente Jeunet recebeu críticas de sua base de fãs, dizendo que ele agora havia se rendido ao cinema comercial por repetir a mesma fórmula de Amelie.

Jeunet sumiu do cinema novamente, mas dessa vez porque ficou preso na produção de As Aventuras De Pi (Life Of Pi, 2012) por dois anos. Segundo o diretor, o filme já estava pronto: o roteiro já havia sido escrito, as locações de filmagem já haviam sido pesquisadas e inclusive o storyboard já havia sido feito. Mas pelos constantes adiamentos do estúdio, Jeunet se demitiu da produção e escreveu a história de Micmacs - Um Plano Complicado (Micmacs à Tire-Larigot), que foi lançado apenas em 2009. O filme não passou nem perto do mesmo sucesso e reconhecimento dos dois anteriores, o que é triste, já que é igualmente fantástico em todos os sentidos em um filme onde todos os personagens foram baseados em personagens de desenhos animados, o que acentuou mais ainda a marca do diretor. Nesse meio tempo, em 2008, Elizabeth Ezra lançou suas análises sobre o diretor contemporâneo para a coleção Contemporary Film Directors, contendo comentários dele mesmo sobre suas obras e inspirações.

Um novo hiato de quatro anos aconteceu até T.S. Spivet chamar sua atenção. O filme é baseado no livro The Selected Works Of T.S. Spivet (2008), do norteamericano Reif Larsen. É o segundo filme em lingua inglesa do diretor, só que ao contrário do que aconteceu em Alien, vemos aqui que não houve problemas de comunicação, nem de roteiro (que foi escrito por ele mesmo em parceria com Guillaume Laurant), e o resultado é um filme redondo, com começo, meio e fim, que segue sem tropeços ou buracos.

O filme conta a história de Tecumseh Sparrow Spivet, um garoto prodígio de dez anos de idade (no livro ele tem doze anos) que mora em uma isolada fazenda no extremo Oeste dos Estados Unidos, que vê em tudo uma oportunidade de estudar as razões físicas de existirem no seu sentido mais científico. Aos quatro anos de idade, ele criou seu primeiro experimento, e aos dez ele conseguiu montar a roda perpétua, um gerador de energia que tem autonomia para funcionar por 400 anos sem consumir qualquer outra energia, que seria responsável por mudar toda a ciência. Por conta disso ele é chamado para receber um importante prêmio da instituição científica Smithsonian, no leste dos Estados Unidos, que daria o direito ao vencedor a um grande discurso em Washington. Dentro de uma precoce crise existencial por conta da perda de seu irmão gêmeo e demais conflitos familiares que ele julga serem por sua culpa, o personagem resolve fugir sozinho, pegando um trem que cortará todo o hemisfério norteamericano para chegar a seu destino.

Assim como todos seus filmes anteriores (com excessão de Alien), T.S. Spivet possui uma linguagem visual forte e que abusa no uso das cores primárias e de designs assimétricos ou de incomum simetria, já que os elementos do cenário e objetos de interação entre o personagem e o meio são mais do que um mero design de produção, mas partes vivas da narrativa, da visão ingênua e da imaginação infantil e particular que Spivet tem sobre o mundo. A angulação das câmeras em planos superiores e inferiores para intensificar a fragilidade ou a hostilidade dos personagens, além da excentricidade de cada um deles também é uma das marcas registradas do diretor, como caricaturas que saem de desenhos animados, que possuem uma simpatia e humor inerentes, responsáveis pela empatia instantânea com o espectador. Há também a forma narrativa em surpreender ou causar um leve suspense apenas omitindo informações chaves, e por isso nunca sabemos (até momentos antes do fim), a verdadeira razão de Spivet se sentir responsável por tantas coisas, ou nunca sabermos quais personagens se tornarão amigos ou vilões em sua trajetória, como no momento em que ele pega carona com o esquisito caminhoneiro, um momento genuíno de Jeunet de nos mostrar como podemos subjulgar alguém apenas pelas suas aparências ou atitudes. Há também referências sobre seus filmes anteriores o tempo todo, como a jornada do personagem principal pela busca ou compreensão de algo, a referência sobre ausências familiares, ou até mesmo sobre a vilania de alguns, como a caricatura da personagem G.H. Jibsen (Judy Davis), que se assemelha muito às irmãs malévolas de Ladrão de Sonhos, vividas pelas atrizes Odile Mallet e Geneviève Brunet, mas aqui de uma forma muito mais cômica e leve. Enfim, é um típico filme de Jean-Pierre Jeunet, que mesmo com todos os mesmos traços de seus filmes anteriores, não deixa de ser deslumbrante e um prazer indescritível, além de também ser emotivo na sua forma simples e ingênua de lidar com os conflitos dos personagens, numa delicadeza rara de se ver no cinema.

Tem sido comparado a A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011), de Martin Scorcese, por também contar em 3D a jornada de um personagem infantil. Mas a comparação, acima de tudo, é por sofrer da mesma crise de identidade em não saber para qual público ele foi feito ou a qual público ele deve ser direcionado. Diferente de Hugo, que pretendeu recontar a história do cinema francês e ter deixado tanto crianças e adultos mais deslumbrados com as imagens e bastante cansados pela longa duração (126 min.), em Spivet esse problema não acontece, pois Jeunet não se utiliza de uma história muito complexa para criar a bela narrativa contada sem cansaços. Os adultos compreenderão e sentirão melhor as nuances dramáticas, enquanto o público infantil ficará deslumbrado com as peripécias do garoto e todo o visual do mundo particular de Spivet. Independente de algumas similaridades com Hugo, é importante saber que o filme de Scorcese foi uma homenagem ao cinema francês, e uma das referências do diretor americano, além de George Meliés por sua excelência, foi Jean-Pierre Jeunet, que sempre foi fiel ao legado de Meliés.

Não há como negar que a maneira adulta como Jeunet conta uma história por um ponto de vista infantil ou ingênuo é marcante e consegue atingir os diferentes públicos sem dificuldade. Reif Larsen, autor do livro, afirmou em uma entrevista que a inspiração de escrever a história veio sobre sua curiosidade sobre o estereótipo do cawboy do Oeste norteamericano, e porque essa imagem é tão forte até os dias de hoje, além de ter se transformado em uma referência mundial do caráter durão, irredutível e pouco adaptável. Durante as pesquisas sobre o Oeste, o escritor acreditou ser interessante mostrar uma história por um ponto de vista infantil, onde a criança fosse completamente diferente das heranças culturais daquela região, mas que ao mesmo tempo mantivesse em suas raízes características que o fizesse sobreviver grandes dificuldades mesmo sendo tão pequeno, o que no fim faria da sua determinação um caráter e aquilo que o caracterizaria definitivamente um "cowboy", mesmo não estando de chapéu e espora sobre um cavalo. O livro recebeu críticas positivas, e sua maior atenção foi voltada ao layout repleto de gravuras e ilustrações que complementam a narrativa. Por isso não é de se espantar que a obra tenha chamado a atenção do diretor, já que também é sua característica utilizar jogo de imagens para ilustrar de forma mais didática e dinâmica a história contada.

Todo o elenco é americano ou britânico, com excessão do conterrâneo Dominique Pinon, amigo pessoal e que já é regra marcar presença em todos os filmes do diretor. É também a estréia do ator mirim Kyle Catlett no cinema (ele será o protagonista da refilmagem de Poltergeist em 2015) e só deixa a desejar em alguns poucos momentos dramáticos, mas que em nada atrapalha o desenvolvimento, e chega mesmo a surpreender em vários outros. As únicas engasgadas de Jeunet talvez tenha sido colocar alguns flashbacks em lugares indevidos, ou de não ter sido mais firme em momentos dramáticos solo do garoto. A conclusão um tanto rápida talvez quebre um pouco toda a maravilhosa experiência, mas a satisfação como um todo, no fim das contas, não sai prejudicada.

Toda essa imaginação do diretor foi transposta para a tela pela primeira vez com câmeras digitais 3D. Assim como Scorcese fez em Hugo, Jeunet também teve o cuidado e a delicadeza de montar cena a cena de todo o filme dentro da melhor qualidade para que o 3D pudesse oferecer toda a experiência possível de dimensões espaciais e profundidade. E assim Jeunet nos imerge em seus filmes, em um mundo fantasioso e belíssimo, que vaga entre o cinema clássico e o moderno sem fugir das raízes do cinema francês, nos dando oportunidade para sonhar novamente, como imaginava George Meliés.

Embora seja um filme de um diretor francês, ele é americano, para um público americano, mas por um ponto de vista francês, talvez um agradecimento de Jeunet à homenagem que Scorcese fez aos franceses com Hugo. Mesmo assim ele ainda não foi lançado nos Estados Unidos. A Weinstein Company pretende lança-lo no fim do ano, boa época para promover filmes mais artísticos e sérios para serem considerados na temporada de premiações, o que é merecido a Jeunet.

CONCLUSÃO...
Novamente é Jeunet trazendo para as américas seu maravilhoso método fantástico francês de fazer cinema e nos imergir em imagens deslumbrantes e personagens carismáticos. Como uma maravilhosa sobremesa para os olhos, T.S. Spivet pode não ser seu melhor filme, mas ainda está longe de ser ruim, além de ser visualmente grandioso em cores, texturas e nuances dramáticas em igual medida.
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