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terça-feira, 14 de março de 2017

CHEGOU A HORA...

★★★★★★★★★☆
Título: Logan
Ano: 2017
Gênero: Drama, Ação
Classificação: 16 anos
Direção: James Mangold
Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen
País: Estados Unidos
Duração: 137 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Em 2029 o mundo não é o mesmo, nem Logan. Com a extinção de mutantes e o fim dos X-Men, ele agora se encontra debilitado, cuidando de um Xavier igualmente doente e que não consegue mais constrolar seus poderes. Quando é incumbido de escoltar uma garota até o Canadá, Logan terá de reecontrar em si o lado humano que um dia Xavier despertou, mas que o violento mundo o fez esquecer.

O QUE TENHO A DIZER...
Logan ter como título, pela terceira vez consecutiva, o nome do próprio personagem, é um tanto esquisito e estranho porque soa mais como uma terceira tentativa do que uma sequência, pois a impressão que se tem é que o personagem está sendo reapresentado a um público descrente. E não é por menos.

Quando X-Men Origens: Wolverine (2009) foi lançado, a intenção era ser muito mais do que um spin-off dos X-Men, mas o início de uma nova franquia. E em meio a tantas deturpações e descaracterizações, a decepção foi unânime, fazendo a Fox entrar em estado de alerta, iniciando um processo de salvação de emergência de um dos personagens mais caros dentre os quais ela detém os direitos de uso da Marvel.

Os roteiristas foram trocados, o diretor James Mangold foi contratado, e Wolverine recebeu tratamentos de um reboot, sendo praticamente promovido como tal, com a finalidade de fazer o público esquecer que o primeiro filme algum dia existiu. E seguindo a tendência deixada pela Trilogia Batman, de Christopher Nolan, o roteiro deu ao segundo filme um tom mais obscuro e introspectivo, um dos grandes erros dentre vários, porque Wolverine não é um personagem sombrio, mas um herói atormentado e perseguido pela violência. O resultado não foi satisfatório, e Wolverine (2013) igualmente falhou na tentativa de salvar a franquia de um fiasco, e a idéia do personagem ter um filme marcante e digno de sua existência parecia cada vez mais distante.

Independente disso, o filme havia agradado o ator e o diretor. Segundo eles, foi uma grande conquista o que conseguiram fazer no segundo filme, deixando implícito nesta afirmativa que dificuldades existiram para driblarem o constante controle criativo por parte do estúdio, algo evidente no primeiro filme, e que continuou evidente no segundo. De qualquer forma, arrecadou mundialmente mais de US$410 milhões, e no mesmo ano, conversas sobre um terceiro filme começaram a surgir.

Nesse meio tempo, Ryan Reynolds estava numa difícil negociação de levar para as telas o filme solo de Deadpool, e depois de tantos obstáculos, conseguiu fazer o projeto finalmente sair do papel ao tomar as rédeas da produção e injetar uma boa quantia de seu próprio dinheiro para cobrir o orçamento. O lançamento de Deadpool, no início de 2016, desbravou horizontes aos filmes de super heróis por uma razão óbvia: por conta da violência explícita, a classificação etária de 16 anos não impediu o filme de ser um estrondoso sucesso de bilheteria, crítica e público, algo que a Fox nunca imaginou que pudesse acontecer.

Visando abranger um maior público, o controle etário pelos estúdios sempre foi muito rigoroso. Havia uma errônea idéia de que filmes de super heróis não poderiam ter classificação alta pois limitaria a participação infantojuvenil, os maiores consumidores de histórias em quadrinhos e a faixa etária mais rentável das bilheterias. Só que Deadpool provou exatamente o contrário, mostrou que havia um público mais adulto ávido por filmes de heróis com conteúdo mais sério e explícito porque determinados personagens exigem isso, como sempre foi o caso de Wolverine.

Por essa razão, o sucesso de Deadpool foi essencial para definirem o tom final de Logan, que segue uma narrativa mais consistente e adulta sem preocupação com faixas etárias. E finalmente essa terceira tentativa deu certo. Deu tão certo que não apenas é o único filme relevante do herói, como também o melhor e mais bem dirigido filme de Mangold até hoje. Um produto refinado, feito com vontade e inspiração. 

Nota-se logo nos primeiros minutos que o controle criativo agora estava nas mãos dos roteiristas e do diretor muito mais do que do estúdio, pois Logan é exatamente aquilo que o primeiro filme de Wolverine deveria ter sido. Melhor dizendo, Logan seria o fim de uma fantástica trilogia se os dois primeiros filmes tivessem sido executados nos mesmos moldes. Aqui, o tom distópico, rústico e violento, não faz a história se esconder por trás do herói, como foram os filmes anteriores, mas se engrandecer com ele. Uma pena que isso só foi acontecer tarde demais, quando Hugh Jackman finalmente aposentou as garras, neste que é o seu último e único bom filme solo de um personagem que, por 16 anos, ele vestiu de corpo e alma.

No filme, que se passa no ano de 2029, os mutantes finalmente entraram em extinção, como sempre foi a vontade política abordada nos filmes anteriores dos mutantes. Os X-Men não existem mais, e Logan (Hugh Jackman) agora trabalha como motorista de uma limosine de aluguel sob outra identidade para preservar sua segurança e enterrar um mundo no qual ele não faz mais parte. Ele está doente, já que seus ossos de adamantium se tornaram tóxicos ao seu sistema imunológico que agora está debilitado, e seu fator de cura não tem mais a mesma efetividade de quando era jovem. Ou seja, Logan envelheceu e morre aos poucos. Ao mesmo tempo, ele também cuida de um igualmente doente e nonagenário Charles Xavier (Patrick Stewart), que sofre de Alzheimer e de uma leve demência que o impede de ter o controle de seus poderes, transformando-o em uma bomba prestes a explodir. Em meio a tudo isso, Logan se vê envolvido em uma situação difícil, no qual é incumbido por uma enfermeira mexicana a escoltar uma criança, chamada Laura (Dafne Keen), até a fronteira com o Canadá.

O tom é um dos mais violentos de todas as adaptações de quadrinhos nos últimos anos, e aparenta ser muito mais chocante justamente por inserir um grande elenco infantil no meio de tudo isso, e Mangold impacta por todos os lados sem medo.

O último filme em que vi uma personagem infantil em uma história bastante violenta foi Hanna (2011), e a mesma ousadia acontece aqui. Por mais chocante que possa parecer, e muito mais violento que possa se mostrar por conta disso, existe um obrigatório senso de sobrevivência a eles que justifica as atitudes tanto de Logan, quanto de Laura. A relação que se desenvolve entre os dois, de proximidade, mas sem grandes contatos; de comunicação, mas sem muitos diálogos, é um dos grandes ápices do roteiro. É exatamente aquele elemento que transferiru a essência do personagem dos quadrinhos ao filme e que sempre faltou nas adaptações anteriores. Essa situação de co-dependência, que gradualmente cresce entre os dois, é bastante similiar à relação entre Joel e Ellie no jogo The Last Of Us (2013), que para quem não conhece, vale a pena saber que é emocionante em igual medida e tom.

Logan, sem dúvida, inaugura uma nova safra de adaptações. Um filme que mistura drama com ação em doses pontuais, de uma forma bastante inovadora em um estilo que já está saturado de clichés e piadas manjadas, que chega em um momento oportuno para um público que já está um tanto cansado de uma fórmula que se estagnou na última década. Ver o herói em sua zona de familiar desconforto é reconfortante, pois é como finalmente inserir um animal em seu habitat natural. O personagem não traz qualquer resquício daquele tom jocoso do primeiro filme, e abandonou por completo a sombriedade do segundo. Logan voltou a ser aquele homem movido pelo seu instinto arisco e violento apresentado por Brian Singer no primeiro filme dos X-Men, mas sem nunca se tornar o produto daqueles que o fizeram, pois a humanidade dentro dele sempre foi maior, apesar dos pesares.

Não dá para evitar a tristeza de ver dois grandes heróis dos quadrinhos envelhecer aos nossos olhos, e durante todo o filme existe uma latente melancolia que pesa nessa impressão todas as vezes em que Jackman e Stewart dividem as cenas, como no momento em que Logan carrega Xavier para a cama, fingindo ser o filho zeloso a proteger o debilitado pai. O simbolismo existente nessa cena é simples, mas profundo e impactante, pois metaforicamente, para o público e para os olhos de Laura, captados com precisão por Mangold, representam o fim de uma geração e o início de outra. A hora de finalmente dizer adeus não apenas a esses personagens, mas aos atores que os carregaram tão bem durante toda essa trajetória, deixando um legado que já se sente nostálgico.

Logo, apesar de toda a sanguinária violência - e que volto a dizer, em total coerência com a natureza do personagem - existe uma sutileza nos momentos dramáticos que fazem do filme um produto digno de seu protagonista, tardiamente suprindo uma longa espera. A tragédia embutida nos três personagens alivia a tensão da ação e eleva um genuíno sentimento de perda e redenção, um arco dramático sentido no silêncio do cinema de pessoas emocionalmente satisfeitas. Uma grande homenagem a um personagem que, depois de grandes tropeços no caminho, agora encerra seu ciclo em um filme memorável e que finalmente faz jus ao nome que carrega.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

SINGER CONSEGUE SAIR PELA TANGENTE...

★★★★★★★
Título: X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido (X-Men: Days Of Future Past)
Ano: 2014
Gênero: Ação
Classificação: 12 anos
Direção: Bryan Singer
Elenco: James McAvoy, Hugh Jackman, Jennifer Lawrence, Michael Fassbender, Ian McKellen, Patrick Stuart, Ellen Page
País: Estados Unidos
Duração: 131 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Wolverine é enviado de volta para a década de 70 para impedir um assassinato que será responsável por dizimar todos os mutantes no futuro.

O QUE TENHO A DIZER...
Há 51 anos atrás a primeira edição de X-Men foi lançada, super heróis mutantes criados por Stan Lee e Jack Kirby pela Marvel Comics. O sucesso desses heróis é visto até os dias de hoje, valendo sempre dizer que eles, juntamente com o diretor Bryan Singer, foram responsáveis e pioneiros por mostrarem no início de 2000 que havia possibilidades do cinema de ação trabalhar com os quadrinhos de maneira relevante tanto como entretenimento como um produto comercial que não fosse inteiramente descartável. Tanto que 90% dos filmes de ação do verão norteamericano nos últimos anos tem sido apenas de super heróis, sejam eles da Marvel ou da DC.

Os X-Men nos quadrinhos se destacaram por vários motivos, mas um deles era de suas histórias se adaptarem com as épocas e fatos que viviam e até mesmo incoroporá-las em suas tramas, o que também deu certo e funcionou no cinema. Mas com o passar dos anos as histórias publicadas perderam fôlego e ficaram confusas, os personagens começaram a entrar em um loop infinito de erros, discordâncias e anacronismos ao ponto de todo o Universo Marvel ter sofrido imensas transformações principalmente nos anos 90 até culminar com a Era do Apocalipse, um evento que zerou novamente todo o universo, e isso sempre vai acontecer quando tudo bagunçar, como aconteceu no ano passado em que parte da Marvel foi novamente resetada com a chegada do Marvel Now (Nova Marvel, no Brasil).

Com o lançamento do primeiro filme dos X-Men em 2000, Bryan Singer teve boas intenções, porém seu excesso de autoestima e afirmação fez o diretor se precipitar ao pegar a história dos mutantes e recontá-la à sua maneira. Singer se manteve fiel a alguns personagens chaves, mas reinventou a história particular muitos deles a seu bel prazer, o que gerou uma confusão entre aquilo que fãs já conheciam e novos fãs estavam conhecendo, tanto que a Marvel teve que sambar para recontar suas histórias publicadas e diminuir essa grande incoerência do que se viu nas telas com o que existia nos quadrinhos até então.

De uma maneira geral, os dois primeiros filmes de Singer funcionaram nas telas e são as referências em qualidade até hoje, mas o terceiro filme, dirigido por Brett Ratner, deixou a desejar e foi quase um suicídio da franquia. Em 2011, houve uma tentativa de fazer um reboot da série, e Matthew Vaughn foi escalado para dirigir o quarto filme, entitulado Primeira Classe, que seria uma pré-sequencia da trilogia original ao contar como Charles Xavier fundou sua escola de jovens super dotados na década de 60, e como a curiosa relação entre ele e seu amigo Erik Lensherr/Magneto culminou em discordâncias ideológicas e se transformou em uma das mais clássicas e conhecidas rivalidade dos quadrinhos.

E aquilo que era pra ser o reinício de uma franquia e esquecer tudo que foi feito anteriormente, se transformou numa discussão entre a massa de fãs que se perguntava: como dar continuidade a essa história e alinhá-la à história da trilogia original?

Depois de ter abandonado a franquia para uma fracassada tentativa de reviver o ícone da DC em Superman Returns (2006), ninguém seria melhor que Bryan Singer para retornar à direção 10 anos depois justamente para realizar esta ponte entre os filmes e (tentar) consertar todos os erros cometidos no passado, inclusive por ele mesmo.

E funcionou?

Por incrível que pareça, sim.

A habilidade de Singer em administrar um grande número de personagens e de tramas paralelas é inegável e novamente visto aqui. Mas dessa vez Singer não apenas teve de lidar com as tramas paralelas do próprio filme como também com os buracos dos anteriores. Muitos dos erros são consertados de maneira discreta, e embora as referências aos filmes anteriores existam o tempo todo (incluindo também os dois péssimos spinoffs de Wolverine), muitas delas são feitas de maneira indireta justamente para não deixar o novo espectador confuso ou perdido e há até momentos para brincar com algumas situações inusitadas, como mostrar em uma sequencia de onde vem o trauma de Wolverine em viajar de avião.

Claro que isso não significa que seja necessário assistir os filmes anteriores para entender este, muito embora deva ser uma obrigação. Mas essa obrigação é para observar como Singer realmente conseguiu transformar tudo, entre erros e acertos, em um produto condensado, aceitável e grandioso dentro de todos esse complexo mundo confuso que ficou os dos X-Men. Parece que Singer finalmente deixou sua arrogante individualidade de lado e resolveu dar ouvido a base de fãs, pois entre méritos e deméritos, construções e desconstruções, este é o filme mais relevante dos X-Men como uma verdadeira adaptação.

A história se passa dez anos depois do Primeira Classe e 50 anos antes da dizimação dos mutantes na Terra. Esse período é baseado em um episódio dos quadrinhos que leva o mesmo nome e que também já foi adaptado na primeira série animada. Tudo começa com uma boa sequencia de ação no futuro, que teoricamente se passaria nos nossos dias atuais, só que completamente diferente do nosso presente, sendo muito mais tecnológico e apocalíptico. Depois perde o ritmo com piadinhas manjadas e uma crise depressiva de Xavier-jovem que não convence muito até mesmo pela facilidade com que ele é convencido a ajudar o Xavier-velho. Há outros momentos já vistos antes, como novamente Magneto isolado em uma prisão de segurança máxima, ou Wolverine novamente sendo neutralizado por Magneto, a relação de amor e ódio entre Xavier e Magneto, e a sempre clássica dúvida entre tentar viver em harmonia com os humanos ou não. Não há uma cena de batalha realmente impressionante ou de tirar o fôlego como nos filmes anteriores, mas nas poucas que existem, como nas batalhas com os Sentinelas, podemos sentir aquele gostinho muito bom de vê-los trabalhando em equipe, o verdadeiro grande atrativo dos X-Men.

Os personagens mais conhecidos estão presentes, e claro que a história novamente vai se concentrar nos personagens mais populares e nos atores que possuem mais relevancia popular e comercial, como Wolverine (Hugh Jackman, reprisando o papel pela sétima vez), Mística (Jennifer Lawrence, atualmente a atriz mais bem paga do cinema) e Magneto (Michael Fassbender, o alemão de ouro de Hollywood). Alguns que fizeram apenas algumas pontas nos anteriores voltaram com alguma participação maior, como Colossus (que outra vez entra mudo e sai calado), Kitty Pride (Ellen Page novamente fazendo aquela sempre cara de que não está nenhum pouco a fim de fazer o filme) e Bob Drake/Homem Gelo (sempre querendo fazer mais, mas Singer sempre oferecendo de menos). Novos mutantes agora aparecem como Quicksilver (que nos quadrinhos é filho de Magneto), Sunspot (não confundi-lo com o Homem Tocha de Quarteto Fantástico), Blink e Bishop, esses três últimos apenas para incrementar as cenas de ação, já que não possuem qualquer relevância em toda a trama.

Essa mania de concentrar as histórias sempre nos personagens ou nos atores mais populares é, talvez, o grande defeito de todo o filme, porque X-Men não é Wolverine, e essa noção de "trabalho em equipe", que sempre foi um dos fundamentos principais de Xavier, se perde. Diferente de Os Vingadores (The Avengers, 2012), em que o Homem de Ferro se tornou o personagem mais popular por conta de sua franquia e mesmo assim o filme soube dar momentos especiais para todos os demais personagens. Mas isso nunca acontece de maneira satisfatória nesse filme.

Apesar de Singer tentar consertar algumas coisas e encaixar a história com os quadrinhos de uma forma que ele nunca havia feito, ele ainda insiste na mesma tecla de deturpar as histórias dos personagens e criar as suas próprias, como o fato de Bishop (que nos quadrinhos é o verdadeiro viajante do tempo) ser o personagem que menos tem a ver com tudo isso no filme, e agora Kitty Pride ter esse novo poder de transportar a consciência dos mutantes para o passado, quando isso deveria ser uma missão de Xavier, Jean Grey, Emma Frost ou até mesmo uma simples máquina no tempo, como aquelas criadas pelo personagem Forge nos quadrinhos. Essas são, talvez, as maiores heresias cometida por ele, e imperdoáveis no ponto de vista de quem conhece a função de cada um nessa história. Essas gafes colossais realmente deixam os fãs um tanto decepcionados, mas para aqueles que pouco conhecem a fundo a história dos mutantes, nada disso é percebido, nem mesmo serão percebidos os erros de continuidade e questões chaves que não deveriam ter sido ignoradas, como o website SCREENRANT publicou.

Na parte do design de produção e figurino, é notável a queda de qualidade do filme anterior para esse. Se em Primeira Classe a década de 60 foi reproduzida com uma qualidade de encher os olhos e, inclusive, elogiada pela crítica em sua maioria, neste filme a década de 70 nem se parece com ela, principalmente depois do deleite visual de Trapaça (American Hustle, 2013). No filme há até um notebook com tela LCD. Além desse ato falho e absurdamente anacrônico, é engraçado observar a atuação dos figurantes, que de tão mal dirigidos ou dirigidos com pressa, fica evitente a mecânica e a coreografia de organização. Enfim, erros pequenos para quem enxerga pouco, mas bem graves para uma produção de US$200 milhões.

Como um todo, não há como negar que Singer conseguiu, a duras penas, aprender que com os X-Men não se brinca e sair pela tangente de maneira fina. A Marvel estava muito preocupada com o que fazer sobre a terceira franquia mais lucrativa da empresa e um dos principais ícones de sua marca. A sequencia final, por si só, define a razão do filme existir e já vale a pena todos os seus 131 minutos, como também é um final nostálgico, trágico e emocionante, que conseguiu transportar pra tela muito desse misto de angústia e esperança que os quadrinhos e a primeira série animada conseguiram fazer, além de, inclusive, dar gás para novos filmes no futuro (uma nova sequencia já foi anunciada para 2016).

Sorte teve Singer em conseguir encontrar linhas comuns entre todos os individuais filmes e, ironicamente, tal qual como o filme, seus erros do passado justificam os resultados desse novo episódio.

CONCLUSÃO...
Novamente é Singer fazendo tudo da sua forma, mas sua habilidade de conseguir lidar com diversos personagens e tramas paralelas fazem desse filme um grande divisor nesta pentalogia. Claro que vai agradar mais os fãs dos filmes do que dos quadrinhos, mas nem por isso vai deixar de emocionar os mais exigentes ao ver seus heróis preferidos personificados na tela, mas também vai despertar o ódio por muitos erros de continuação existirem e questões fundamentais da trilogia original terem sido ignoradas.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

MEDIANO, E NADA MAIS...

★★★★★
Título: Wolverine: Imortal (The Wolverine)
Ano: 2013
Gênero: Ação, Drama
Classificação: 12 anos
Direção: James Mangold
Elenco: Hugh Jackman, Rila Fukushima, Tao Okamoto, Svetlana Khodchenkova, Framke Janssen
País: Estados Unidos
Duração: 126 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Após a morte de Jean Grey, os X-Men se separaram, e Wolverine está em crise existencial. É quando uma estranha japonesa o aborda na tentativa de levá-lo ao Japão para se despedir de uma pessoa pela qual sua vida é grata a ele. Relutante, resolve ir, para descobrir que essa decisão será responsável por faze-lo repensar em todo seu comportamento auto-destrutivo nos últimos anos, e que inclui sua imortalidade.

O QUE TENHO A DIZER...
É difícil falar deste novo filme de Wolverine depois de tantos acidentes de percurso. Recapitulando a cronologia de forma breve, o terceiro filme da saga dos mutantes, X-Men: O Confronto Final (X-Men: The Last Stand, 2006), deixou a desejar, sendo um fracasso de crítica frente aos dois primeiros dirigidos por Bryan Singer. Posteriormente a Marvel, juntamente com a Fox, tentaram criar uma franquia chamada Origens, para contar a origem dos personagens mutantes. O herói escolhido foi de Wolverine, e o filme foi lançado em 2009. Isso foi óbvio pois ele é o personagem mais popular de todo o universo Marvel. A produção corrida, empurrada com a barriga, com um desenvolvimento péssimo e uma deturpação terrível de todos os personagens envolvidos resultou em um produto comercial pobre e ruim, que enterrou de imediato a idéia de uma nova franquia que desse ênfase ao passado de cada herói. Mesmo assim o público queria mais, e depois do sucesso da trilogia Batman, de Christopher Nolan, a tendência seria óbvia, e resolveram realizar um precipitado "reboot".

Conscientes do erro que foi o primeiro filme de Wolverine, tanto a Marvel quanto o estúdio Fox admitiram o erro, e tentaram promover a idéia de que o primeiro filme nunca existiu, e que esta nova empreitada seria, em definitivo, uma forma de mostrar o herói como ele realmente é, por um lado mais obscuro, intimista e humano, coerente com o que os fãs queriam, na tentativa de seguir à risca a idéia desenvolvida por Nolan com Batman.

A história está diretamente relacionada com os eventos do terceiro filme da saga X-Men, já que agora Wolverine está isolado e constantemente atormentado pelo espírito igualmente atormentado de Jean Grey, sua amada que morreu por suas próprias mãos... ou garras, melhor dizendo. Na verdade isso é uma dúvida que o filme propõe, pois não sabemos se o que atormenta o herói é realmente o espírito da amada, ou seu próprio psiquê. Para os que estão familiarizados com as histórias em quadrinhos ou até mesmo com a primeira série animada na televisão, sabe que Jean Grey era uma mutante de poderes tão únicos e elevados que ela até poderia morrer, mas mesmo assim, manter sua consciência no plano real e humano, e isso é uma idéia interessante proposta pelo filme.

O filme é baseado na saga de Wolverine no Japão, escrito por Chris Claremont e Frank Miller, uma época em que o herói busca refúgio espiritual no país para, na verdade, redescobrir suas próprias origens e a razão de sua existência. Para tentar manter essa atmosfera humana, sensível e ao mesmo tempo densa, o diretor James Mangold foi contratado, o mesmo dos filmes Garota, Interrompida (Girl, Interrupted, 1999), Kate & Leopold (2001), Identidade (Identity, 2003) e Johnny & June (Walk The Line, 2005).

Não se pode negar que a tentativa foi válida, mas forçada. A verdade é que, realmente, este filme mais aparenta um interlúdio entre uma história ou outra dos X-Men do que um filme com uma história própria. Também é complicado enquadrá-lo no gênero de ação quando a maior parte dele é em torno dos dramas e conflitos pessoais de Wolverine e a dificuldade do seu grande senso de humanidade aceitar o fato de um homem tão bruto quanto ele ser imortal, enquanto pessoas frágeis, e que ele ama, morrem a sua volta, ao ponto de ele se isolar do mundo e de todos, como um animal arisco.

Isso tudo é percebido no filme, que se esforça - e muito - em trazer para o espectador esse lado humano e martirizador do personagem que foi abordado de forma muito branda e breve nos filmes anteriores. Mas apesar de todo esse esforço, é impossível ignorar que a abordagem de Wolverine nos cinemas nunca deve ser a mesma da abordada nos quadrinhos, pois o personagem e sua história são muito grandes para apenas duas horas de filme, principalmente sobre uma saga tão complexa quando a sua temporada em solos japoneses, como é mostrado nos quadrinhos.

A história até que se desenvolve dramaticamente bem até uma parte do filme, mas as coisas começam a sair do trilho quando o roteiro se lembra de que é um filme de ação que estamos falando, e não um drama, obrigando o espectador a aceitar isso ao invés de guiá-lo para uma zona diferenciada, colocando as cenas de ação apenas como uma consequência, e não como uma obrigação.

O resultado de tudo é que o filme se perde em qualquer proposta que ele tenha, podendo agradar medianamente a base de fãs, mas não muito àqueles que conhecem o herói apenas no cinema. Mas até mesmo os fãs ficarão um tanto decepcionados por novamente deturparem a história de personagens clássicos como Silver Samurai ou Yukio, tal qual fizeram com Deadpool e outros antagonistas no filme anterior. Silver Samurai, que é um mutante, no filme é tratado como um ciborgue que não convence, e muito menos convence a batalha final entre ele e o herói, em uma resolução terrivelmente banal para um dos poucos inimigos que o próprio Wolverine temia além de Dentes de Sabre, Magneto e Apocalipse.

Mesmo sendo o sexto filme em que o ator Hugh Jackman encarna o personagem, a impressão que se tem é que ele está deslocado, perdido em uma história que não soube construí-lo ou desenvolvê-lo. O personagem perdeu muito de suas características clássicas, como seu senso de humor sarcástico e sua humanidade bruta e rústica para traçarem uma personalidade sombria e blasé ditadas por uma fórmula pós-Christopher Nolan que Hollywood creditou dar certo, mas que não funcionou com ele, nem com Superman, nem com Homem-Aranha, e que não funcionará com nenhum outro personagem, seja ele Marvel ou DC.

CONCLUSÃO...
O resultado de tudo isso é um filme mediano, que empolgará poucos fãs, e decepcionará muitos espectadores que buscam apenas o entretenimento que o personagem já chegou a oferecer nos filmes anteriores. Um erro que a Marvel dificilmente conseguirá superar, mas que tentará ao retomá-lo como uma parte da equipe X-Men, e não mais como um personagem solo.

sábado, 5 de janeiro de 2013

MAIS PRA MARGARINA QUE MANTEIGA...

★★★★
Título: Butter
Ano: 2011
Gênero: Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Jim Field Smith
Elenco: Jennifer Garner, Ty Burrell, Alicia Silverstone, Bob Corddry, Hugh Jackman, Yara Shahidi
País: Estados Unidos
Duração: 90 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Numa época em que as esculturas em manteiga não são mais tão populares numa pequena cidade do Iowa, a mulher de um famoso escultor vê sua vida virar de ponta cabeça quando descobre que seu marido foi pressionado a passar o posto dominado por ele há 15 anos para alguém novo e desconhecido na tentativa de rejuvenecer um tradicional concurso local. Sua ambição e obsessão aumentam principalmente quando ela descobre que seus dias como importante figura pública local estão ameaçados por uma garotinha de apenas onze anos.
O QUE TENHO A DIZER...
Assim como a personagem diz logo no começo do filme, pouca gente sabe, mas esculturas em manteiga é uma cultura particular bastante popular no estado de Iowa, nos Estados Unidos, sendo uma das poucas tradições interessantes desse país que realmente demandam um rígido controle do material artístico e técnica, coisas que pouco se vê nessa nação. Mas é claro que eles dão mais ênfase ao Super Bowl do que a essa pitoresca arte que movimenta milhões de pessoas, mas não tantos milhões de dólares como o futebol americano.
Butter começou a se disseminar pela mídia bem cedo. Em 2008 ele fez parte da famosa e anual lista de roteiros mais populares que não foram produzidos em Hollywood ao ponto de chamar a atenção da atriz Jennifer Garner, que o escolheu para ser o primeiro filme de sua produtora, a Vandalia Films, dando início à produção em 2010. Em 2011 o filme estava pronto, foi lançado no Festival de Telluride e incansavelmente recorrente nos demais festivais nacionais americanos na tentativa de encaixá-lo em algum lugar. Mas a recepção sempre amena fez seu lançamento comercial ser adiado por diversas vezes.
Jennifer Garner interpreta Laura Pickler, mulher ambiciosa do famoso escultor de manteiga, Bob Pickler (Ty Burrell, de Modern Family). O casal é o melhor exemplo da família americana que uma pequena cidade do Iowa poderia ter e ela não podia ser mais orgulhosa por isso. Bob domina esse estranho meio artístico há 15 anos, até que um dia ele se vê forçado a abandonar o posto para dar oportunidade a escultores mais novos e desconhecidos para que a imagem de um anual e já cansado concurso de esculturas da cidade seja renovada. Laura não consegue admitir a idéia, já que toda a sua vida e imagem foram construídas em cima disso. Obsessiva na idéia de manter o título, resolve se candidatar sozinha no concurso. Porém a certeza de ganhar se torna ameaçada quando uma garota de apenas 11 anos se revela como sua maior e principal rival.
Por conta de um tema incomum e uma trama absurda que envolveria a obsessão de uma mulher por algo bastante banal e os caminhos tortuosos que ela estaria disposta a passar para conseguir seus objetivos, o filme aparentava ser uma comédia inspirada, além de uma grande oportunidade de retorno para a atriz que, depois de ter saído de uma carreira de enorme sucesso na televisão com seriado Alias e colhido um modesto sucesso nos cinemas, passou a amargar seguidos fracassos em filmes tolos e personagens pouco carismáticos. Hollywood tentou encaixar a atriz em tudo quanto pode, desde tentar transformá-la em uma estrela de filmes de ação até fazer o público engolí-la a seco como uma nova Namoradinha da América, e no fim das contas não conseguiram enquadrá-la em lugar algum, deixando a atriz numa crise com personagens que raramente se encaixam em seu perfil.
A verdade é que o filme não é nada do que parecia. Nem mesmo seu grande elenco o salva de tragédias, que conta com a belíssima Olivia Wilde, o sempre galã Hugh Jackman (um tanto irreconhecível) e Alicia Silverstone numa atuação despretenciosa como há muito não se via e cheia de vontade de que o filme dê certo (o que me dá até pena, já que seu último sucesso nos cinemas foi ainda na década de 90). Ele perde o tom e diversas oportunidades de ser sarcástico ou carregado no mesmo humor negro e absurdo de Alexander Payne em Eleição (Election, 1999), filme o qual Butter até parece se inspirar no início, mas que posteriormente tanto o diretor quanto o roteiro desperdiçam toda e qualquer situação para isso.
Além disso, Jennifer Garner não aparenta estar a vontade. Para quem a conhece de trabalhos anteriores, ou até mesmo do seriado pelo qual ficou famosa, sabe que ela consegue atuar (como a delicadeza com que ela trata seu papel no filme Juno, de 2007) e até possui uma veia cômica para papéis que exijam isso (como no familiar De Repente 30, de 2004), mas o que lhe falta é direção para amenizar seus exageros e destacar suas qualidades que, volto a dizer, se perderam nessa bagunça em que a enfiaram na tentativa de a rotularem em um estilo.
Sem dúvida é um filme cuja incompetência tanto do roteiro quanto da direção o transformaram em algo desnecessário, com personagens apagados e alguns até mesmo inúteis, perdido entre um meio termo adulto/sarcástico e infantil/familiar que desempolga e até constrange, numa crise de identidade constante tal qual a atriz principal atualmente se encontra.
CONCLUSÃO...
Fraco e esquecível, tinha todas as ferramentas para ser um filme inesperado, recheado de humor negro e sarcasmo, mas que perde toda oportunidade ao tenta atingir todo tipo de público e não fim não acertar ninguém.
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