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sábado, 4 de junho de 2016

O APOCALIPSE DOS HERÓIS...

★★★★☆
Título: X-Men - Apocalipse
Ano: 2016
Gênero: Super Herói, Ação
Classificação: 12 anos
Direção: Bryan Singer
Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Oscar Isaac, Rose Byrne, Nicholas Hoult, Olivia Munn
País: Estados Unidos
Duração: 144 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Os heróis agora se unem para combater um inimigo ancestral que ressurge com o objetivo de aniquilar a raça humana, dominar os mutantes e destruir os mais fracos.

O QUE TENHO A DIZER...
Em um Egito antigo, com uma tecnologia aparentemente alienígena, nos é apresentado En Saban Nur (A Luz da Manhã, em arábico), mais conhecido como Apocalipse, um dos maiores supervilões dos X-Men e um importante personagem responsável por diversas mudanças dentro do Universo tanto dos heróis, quanto da Marvel, ao longo das décadas. Imortal e invencível, é um personagem curiosamente criado por uma mulher em 1986, Louise Simonson, e uma inteligente sacada da empresa porque ele é a metáfora do ciclo e da renovação, sendo sempre essa a intenção de suas ressurgências e reaparições de época em época. A criação do personagem se deu por uma necessidade, já que foi percebido que algo deveria estar acima de qualquer coisa e que justificasse, inclusive, até mesmo a razão de outros vilões existirem. 

É por isso que Apocalipse é narrado nos quadrinhos como o primeiro da espécie mutante (The First One), sendo ele o início da transição do homo sapiens ao homo superior em uma época em que a humanidade não estava preparada para isso, e nunca esteve. Para o vilão, que respira e transpira a crença da sobrevivência dos mais fortes, todos aqueles considerados fracos devem ser destruídos, não importa quem seja. Seu comportamento impiedoso é evidentemente o lado mais extremista, cruel e determinante daquilo que outros vilões pensam, e ao invés de convergir para o lado mais simples do maniqueísmo segregando ou extinguindo humanos, a intenção e existência dele é forçar a constante evolução selecionando os mais fortes através da guerra, obrigando todos a viverem em um constante caos para a sua própria renovação e preservação.

Por conta de seus poderes e tirania, Saban Nur dominava o Egito no ano de 3600aC, mas foi traído por seus súditos, que soterraram-no em sua própria tumba, enquanto seus Quatro Cavaleiros se sacrificaram para que ele pudesse ser preservado vivo. E é assim que o sexto filme começa, em uma narrativa rápida, escura e confusa o bastante pra deixar muita gente sem saber de fato o que aconteceu ou porquê. O que interessa é que Apocalipse agora está a salvo nos escombros de uma pirâmide soterrada no Cairo há mais de 5 mil anos, esperando um motivo para ser desperto.

Logo em seguida, entre rompantes da trilha sonora e uma breve ilustração que resume historicamente importantes acontecimentos durante os séculos, os créditos iniciais aparecem no típico estilo Bryan Singer de começar seus espetáculos.

É emocionante, principalmente para quem acompanha a trajetória dos heróis no cinema desde 2000. Mas ao mesmo tempo traz uma certa dúvida: será que Singer irá fazer jus à imagem e importância de um personagem tão grandioso e importante nesse universo quanto é Apocalipse?

Este novo capítulo é uma continuação direta do anterior, embora não haja qualquer referência. É o quarto de Singer na direção, e seria respeitável porque foi com os X-Men que ele se tornou o precursor do sucesso da nova leva de filmes de super heróis, e também de toda a renovação da Marvel nos cinemas e nos quadrinhos. Seu único grande erro foi o excesso de liberdade ao adaptá-los, fugindo completamente de certas origens e bagunçando importantes cronologias ao recontar histórias e recriar personagens à sua própria vontade.

Foi em cima dessa crítica comum que Dias de Um Futuro Esquecido (Days Of Future Past, 2014) foi feito, tentando corrigir erros passados e justificar prováveis erros futuros. Embora o filme anterior também tenha alguns buracos e confusões cronológicas dentro da própria franquia, no geral, o objetivo foi alcançado: o de sair dos becos sem saída nos quais a série havia se enfiado. Foi a oportunidade única e bem pensada de Singer para uma renovação geral e, assim, colocar tudo nos eixos novamente e em coerência com os quadrinhos, algo que ele nunca teve. Por isso, nenhuma outra sequência parecia calhar tão bem quanto Apocalipse, exatamente por conta do vilão em si ser o símbolo da mudança, o fim de um ciclo para a contemplação e firmação de outro. Parecia ser um excelente argumento para terminar mais uma trilogia e dar abertura para outra.

Mas não foi assim.

Não se pode esquecer que Primeira Classe (First Class, 2011) surgiu com o o intuito de dar um reboot na franquia que havia acabado na primeira trilogia, e Dias foi como um reboot desse reboot, como que a zerar o universo cinemático dos heróis.

Então, quando Apocalipse foi anunciado, a impressão de ser a segunda parte de uma saga de mudanças fundamentais soava coesa e madura, mas que emplodiram como a pirâmide de Saban Nur quando Singer não resistiu a si mesmo e a sua prepotência. Do filme anterior ele e seu roteirista, Simon Kimberg, nada mantiveram, nem mesmo um tema de fundo que justificasse essa continuação, por isso aparenta ser um reboot do reboot do reboot, como se a intenção agora fosse fazer de X-Men filmes com histórias individuais, sem contexto lógico, apenas para garantir à Fox o uso e exploração dos direitos e da marca, lucrando com a exaltação de fãs que apenas querem ver seus heróis preferidos nas telas, mesmo que eles estejam completamente fora de contexto, como é o caso de Jubileu, ou a própria Psylocke.

Os fãs que se irritaram com Singer ao longo dos anos e aceitaram seu indireto "pedido de desculpas" em Dias, terão outra vez os mesmos motivos para se irritarem.

É inacreditável a habilidade do diretor em desvirtuar histórias já concebidas e consagradas nos quadrinhos para deturpar personagens e suas funções. Nem mesmo o cuidado visual é o mesmo dos filmes anteriores. Se em Primeira Classe um dos pontos mais elogiados no filme de Matthew Vaughn foi a reprodução do final dos anos 60, nesta história, que se passa no início dos anos 80, as relações com a época são pífias. O anacronismo em vestuário, comportamento e tecnologia chegam a ser absurdos, na proposital intenção de deixar tudo o mais acessível possível, adequando o filme e uma época a um público mais jovem e desinformado, e não o contrário. Períodos históricos e suas respectivas épocas sempre tiveram importâncias fundamentais na Marvel, e com X-Men não seria diferente, mas Singer se esqueceu disso por completo, e nesse filme ele usa muita areia, concreto e deserto para disfarçar defeitos e  não obrigar a equipe técnica a se aprofundar em detalhes.

Nunca gostei da forma como Singer caracterizou os personagens ou narrou eventos, e o mesmo pensa muito daqueles que conhecem os materiais originais. Mas ainda sim havia algo a ser admirado, como sua habilidade de conseguir lidar com um grande elenco, de trazer humanidade e naturalidade para o fantástico, além de manter a essência aceitável e complacente das relações metafóricas da sociedade com os mutantes, que nada mais são do que uma metáfora aos diversos grupos sociais discriminados. Seus dois primeiros filmes foram produções que souberam construir uma história, mesmo que própria, sem deixar de entreter ou fugir deliberadamente do contexto no qual estavam inseridos nos quadrinhos. Ou seja, fato e fantasia, tudo aquilo que X-Men sempre soube fazer bem nas bancas e que no cinema, até então, tinha sido bem representado.

Quando Apocalipse desperta de seu sono milenar, ele afirma já ter sido chamado de várias coisas por diferentes eras, pois foi ele quem deu a centelha da vida e espalhou o fogo das civilizações. É nesse momento que você tem certeza que ele seria capaz de erguer uma montanha com um dedo e esmagar Magneto com um suspiro. Ele é alguém para se temer ou borrar as calças apenas de pensar, e é exatamente isso que ele faz quando empareda um homem com o olhar, ou faz o chão engolir dezenas de pessoas apenas com seu desdém. É dele o poder de dar vida ao pó, e ao pó fazer retornar quando bem quiser. Mas tanto poder assim eleva as possibilidades de tudo não parecer tão bom quanto deveria. Não havia necessidade de mostrar tanta onipotência em um filme só. Para que tanto poder se sua derrota é previsível desde o início? Para que insistir em batalhas quando o filme deu tantos poderes a um vilão que poderia desintegrar qualquer um com o estalar dos dedos, mas não o faz? Não houve em momento algum um crescente de acontecimentos desastrosos que levasse a um confronto justificável. Nos quadrinhos, todo esse vasto poder de Apocalipse é aperfeiçoado durante suas hibernações e despertares, portanto, definitivamente, não fazia sentido ele ter tanto poder concentrado para uma primeira aparição.

A grande graça de um vilão como ele é sua inteligência e manipulação. Sua convicção de que aquilo que ele faz tem um propósito eficaz é tão grande que muitas vezes, tenha sido nos quadrinhos ou na série animada, ele conseguia fazer o espectador questionar se ele realmente tinha razão. Isso não acontece no filme. Tudo é muito banal, grosseiro e sem inteligência. É difícil aceitar que Ororo Munroe, a Tempestade, tenha visto ele decaptar pessoas em sua frente e mesmo assim convidá-lo para entrar em sua casa, ou que Psylocke tenha se unido a ele quando, nos quadrinhos, ela sistematicamente lutou contra ele como uma X-Men. Enquanto isso, Mística, uma das mais importantes vilãs, é transformada na principal heroína da história para garantir a Jennifer Lawrence a imagem de queridinha, quando deveria ser a grande oportunidade que Singer tinha nas mãos para mudá-la de lado e fazer crescer a vilania que vimos da personagem nos três primeiros filmes.

O desenvolvimento da história não convence. A forma como ele recruta seus cavaleiros; a falta de um melhor argumento para ele "dominar o mundo"; o comprometimento amador dos heróis em salvar a humanidade; até os interlúdios - como a ridícula aparição de Wolverine, apenas para novamente agradar aos fãs e dizer que ele está lá, bagunçando mais ainda a cronologia - é tudo muito incoerente e mais uma vez desrespeitoso ao legado dos heróis e daquilo que o próprio diretor já fez. Digo isso porque, no objetivo de derrotar ou exilar Apocalipse, sempre foi necessário nos quadrinhos um exército de heróis e vilões que tréguam suas rivalidades para isso, tamanho o medo que ele desperta a todos. Mas nesse filme, não. Aqui, se tiver meia dúzia comprometido pra isso, é muito, e para Singer foi suficiente. Basta lembrar do esforço hercúleo de todos para neutralizar Jean Grey em Confronto Final (The Last Stand, 2006) e comparar com a chacota de Mercúrio surrando o vilão para entenderem o que digo.

Singer parece esgotado de idéias, ou com uma visão borrada por estar mergulhado no mesmo projeto há tantos anos, numa coisa similar a um escritor que, de tanto ler o mesmo texto, não enxerga mais erros de ortografia. O novo longa nada mais é do que um punhado de coisas que não fazem sentido apenas para dizer aos fãs que lá as coisas estão, dando a falsa ilusão de qualidade por corresponder expectativas, mas não por oferecer uma narrativa coerente, consistente. Muita gente argumenta que filmes de heróis são entretenimento e que não é cinema sério, mas a questão não é essa. A questão é levar a sério e respeitar o material pelo qual ele é baseado, só isso daria crédito suficiente.

O filme parecia bem em seu caminho até o momento em que o vilão, para evitar interferências externas, aciona todos os mísseis nucleares do mundo. Naquele instante, pensei, "isso é Apocalipse". Pensei isso porque imaginei que alguns dos mísseis retornariam para atacar algumas nações e todo o conflito ter início, pois é a natureza desse vilão atacar inimigos com suas próprias armas, criando guerras, buscando a destruição em massa para a reconstrução fortalecida. Naquele instante do filme, parecia que Singer havia compreendido todo o potencial da história, mas quando todos os mísseis desarmados ficaram a deriva no espaço, o que parecia certo ficou muito errado.

Tudo é muito óbvio e fácil. Os motivos para o vilão de repente acordar e sair destruindo tudo são rasos. Sim, ele quer dominar o planeta, disso todos sabemos. Mas não há uma razão aprofundada que o motive para isso, que tente convencer e abraçar o espectador para dentro da história e suas convicções. Quem conhece o vilão dos quadrinhos já conhece sua personalidade e sua maneira de agir, mas quem está nos cinemas não, e para essas pessoas, Apocalipse é apenas um cara mau que deve ser aniquilado. E para os fãs, vê-lo nas telas foi apenas uma realização porque, apesar de tudo, Oscar Isaac fez um bom trabalho mesmo com tão pouco. Então, é por essas e outras que muitos dos críticos taxaram este como o pior filme da série, enquanto muitos fãs que apenas queriam ver o vilão nas telas ficaram indgnados com tanta negatividade e tem feito campanhas para que as pessoas ignorem essas críticas.

Não é possível ignorar. No geral houve uma construção muito mal feita dos personagens, bem como suas relações no roteiro. Já havíamos perdoado o fato dos filmes nunca terem mencionado que Vampira é filha adotiva de Mística, mas não se pode perdoar que Noturno e Mística lutem lado a lado como dois adolescentes quando, originalmente, ela é sua mãe biológica. É muita negligência em um filme só frente a tantas outras de Singer esquecidas com o tempo.

Tá, mas e se ignorássemos os quadrinhos, e se eu tivesse que comentar apenas sobre o filme em si, ele seria bom do mesmo jeito? Não. Por mais de duas horas o roteiro leva tudo a lugar algum, há até momento para Singer novamente apelar para o holocausto e nos infortúnios de Magneto no intuito de trazer falsa densidade. É só na última meia hora que o grande confronto ocorre, onde todas as cenas de suposta ação aparecem, aquelas todas que estão no trailer. Mesmo assim essas cenas nem tão boas são porque os efeitos especiais, bem como a movimentação dos atores durante sequências circenses, são tão artificiais que é difícil até mesmo compará-los com o primeiro filme da série, que custou menos da metade e ainda são visualmente melhores.

Desperdiçaram muita coisa para dar atenção às cenas em câmera lenta de Mercúrio. Enquanto em Dias a cena do herói foi um dos momentos ápices por ter pego espectadores de surpresa, foi engraçada principalmente por ser breve e sutil. Dessa vez turbinaram o repeteco, na idéia de que exagerar na reprise o deixaria melhor. E isso não é verdade. Dessa vez, ao som de Eurythmics, a sequência de Mercúrio não teve o mesmo impacto e não funcionou da mesma forma, sequer foi melhor. Ficou longe de causar a mesma hilária surpresa da primeira vez, e o exagero na tiração de sarro apenas desperdiçou tempo e dinheiro. Para realizar essa sequência, sacrificaram os outros heróis e o próprio enredo. Magneto sequer entra em combate, apenas aparece ora aqui, ora alí, erguendo objetos e mais uma vez (MAIS UMA VEZ) destruindo pontes. Mística é poupada de seus poderes frente a câmera sempre que possível, até mesmo da maquiagem. Se em 2000, Rebecca Romjin impressionou com uma maquiagem e caracterização convincentes, nesse filme, Lawrence, A Estrela, é poupada de horas e horas de cadeira, jato de tinta e próteses, tanto que sua maquiagem ao longo dos últimos três filmes apenas piorou, virando algo tão grotesco quanto amador, que seria reprovado em qualquer reality show do tema. É por esse motivo que o número de vezes que Lawrence aparece caracterizada-de-fato consegue ser menor que no filme anterior, ao ponto de ser tão insignificante quanto sua participação na história.

Talvez seja o filme mais sofrível da série, pois empobreceu essências para valorizar tudo que é descartável. Apocalipse é um personagem grandioso, um super vilão por excelência, mas sua ode pela destruição tem uma ordem de complexidade, e assim como a Saga da Fênix, abordada no terceiro filme da série, e novamente abordada aqui como se Fênix fosse parte dos poderes de Jean e não uma entidade, são histórias que não cabem em um único filme porque demandam desenvolvimento gradual e maturação. Não é à toa que nos quadrinhos essas fases não são episódios, mas sagas (ou eras), porque não é apenas sobre a vilania, mas também sobre as consequências disso no mundo que estão inseridos.

O resultado de tudo é a receptividade amena que o filme teve nos cinemas. No primeiro final de semana já arrecadou mais de US$280 milhões no mundo. Já se pagou, mas está longe de atingir o mesmo sucesso de público dos anteriores, e a tendência é cair nas próximas semanas. E pela crítica, até mesmo O Confronto Final nem parece mais ser tão ruim ou desrespeitoso quanto esse, pelo contrário, hoje vejo que Brett Ratner tentou, na medida do seu possível, ter sido mais fiel que Singer jamais foi, e que Jean Grey, possuída pela Fênix, causou muito mais medo nas sequências iniciais e finais do que Apocalipse jamais conseguiu nesse filme.

CONCLUSÃO...
Os personagens que já conhecemos se tornaram vazios, jogados aleatoriamente com relações sem qualquer propósito para bagunçar mais ainda o que já estava bagunçado, como a intromissão de Striker, que não acrescenta nada na história além de garantir a já citada e desnecessária participação de Wolverine. É um filme que sequer consegue ser empolgante, e assim como A Origem da Justiça (Dawn Of Justice, 2016), sofre no seu desenvolvimento, arrastando o espectador em qualquer coisa para um fim trivial.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

O PRIMEIRO GRANDE FILME DO ANO...

★★★★★★★★★☆
Título: Ex_Machina
Ano: 2015
Gênero: Drama, Suspense, Ficção
Classificação: 14 anos
Direção: Alex Garland
Elenco: Domhnal Gleeson, Oscar Isaac, Alicia Vikander
País: Reino Unido
Duração: 108 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um rapaz que irá participar de um fascinante e complexo experimento no qual deverá interagir com uma inteligência artificial em forma de uma mulher.

O QUE TENHO A DIZER...
Caleb (Domhnall Gleeson) é um programador que trabalha numa grande empresa chamada Blue Book, a maior e mais importante ferramenta de pesquisa existente, o equivalente ao Google ou Facebook. Ocorre um sorteio interno na empresa, cujo prêmio será passar uma semana com o todo poderoso Nathan (Oscar Isaac), o gênio recluso por trás da criação e do sucesso de toda a companhia.

A mansão subterrânea de Nathan é também seu escritório de trabalho, por onde monitora meticulosamente todas as atividades da empresa e cada um da extensa lista de funcionários. É também seu laboratório particular de experimentos, criação e desenvolvimento de novas tecnologias. Bastante iluminada e automatizada, fria e sem qualquer personalidade, essa atmosfera pálida onde tudo é geometricamente definido muito se assemelha com a fotografia de A Pele Que Habito (La Piel Que Habito, 2011), de Pedro Almodóvar, cuja artificialidade gera um incômodo constante. É preciso permissão de acesso para qualquer parte do grande complexo que se molda perfeitamente dentro da própria natureza sólida e gélida onde está localizada. É como se Nathan não acreditasse no ser humano de alguma forma, mantendo distância por não saber se relacionar com ele.

Quando Caleb chega, Nathan até tenta tratá-lo com informalidade para "quebrar o gelo" do primeiro contato, mas a austeridade patronal e a frieza de tudo, inclusive dele mesmo, impedem uma aproximação mais calorosa e receptiva. Para piorar as coisas, Caleb é induzido a assinar um contrato de confidencialidade sobre tudo que ver, ouvir, ler ou acessar durante os sete dias que estiver hospedado lá. É então que ele descobre que sua função é participar de um experimento dentro do Teste de Turing, que é interagir com uma máquina e avaliar se ela realmente possui inteligência artificial ou não.

E então nos é apresentado Ava, uma fembot, ou seja, um robô com características e personalidade feminina que fala, ouve, vê, interage, dialoga, pensa e tem sentimentos. Ava é uma mistura de Andrew, de O Homem Bicentenário (1999), com Samantha, o sistema operacional de Ela (2013), de Spike Jonze. E ao mesmo tempo que ela tem a ingenuidade de David, de A.I. (2001), o sentimento de que a qualquer momento ela se volte contra alguém é inevitável, tal qual a atitude de Hal em 2001 (1968), de Kubrick.

Ava possui uma inteligência artificial fluida, responsiva, distinta e adaptável, "como se ela pensasse antes de dizer algo", como diz Caleb em um determinado momento. Isso acontece porque Nathan criou o cérebro artificial reunindo todas as informações de busca realizados na Blue Book, pois as ferramentas de busca são mapas de como as pessoas pensam. É como se Ava tivesse um Google dentro de sua cabeça, agindo de forma às vezes impulsiva, às vezes responsiva, imperfeita, padronizada e caótica, tal qual a forma como as pessoas fazem suas pesquisas. Ou seja, uma justificativa simples sobre a forma de Ava pensar, mas ao mesmo tempo sólida e absolutamente coerente com a nossa realidade.

Caleb fica fascinado com a criação de Nathan, o que é obviamente fascinante por si só tamanha a perfeição. Mesmo visualmente simples, todo o conjunto funciona. Os efeitos especiais que dão o visual tecnológico, mas ainda orgânico, nunca atrapalham essa simplicidade principalmente porque Alicia Vikander não atua com movimentos mecânicos ou clichés, como Schwarzenegger em Exterminador, mas limitadamente, num controle físico e expressivo surpreendente, como que movida a impulsos eletrônicos.

É impossível não se sentir atraído por Ava, tanto pelo que ela é quanto pelo que ela faz. Confinada em um quarto, limitada apenas àquele ambiente como um computador em uma mesa cuja função é estar sempre à disposição de seu usuário, ela tem um rosto, tem expressões faciais, vocais e corporais, e por isso conseguimos enxergá-la como uma pessoa, e nos sensibilizamos com as angustias das quais ela está programada a sentir, sendo a solidão a maior delas. Sim, nos sentirmos sensibilizados por ela nos dar essa sensação de que também fazemos parte do mesmo teste pelo qual Caleb passa, e isso é um dos elementos mais interessantes e também impressionantes do filme.

A trama toma outro rumo quando, durante uma queda de energia do complexo, seguros de que não estavam sendo observados, Ava pede a Caleb que não acredite em tudo que Nathan diz. A partir daí o protagonista deixa de ser uma peça passiva da história para definitivamente agir nela. Ele é tomado por paranóias, que se intensificam na medida que o sentimento de confinamento aumenta e a sensação de ser apenas mais uma peça do experimento fica cada vez mais evidente.

Dirigido e escrito por Alex Garland, o filme segue uma linearidade e uma coerência quase perfeitas. Garland já foi responsável pelo roteiro de três filmes do cineasta Danny Boyle: A Praia (The Beach, 2000), Extermínio (28 Days Later, 2002) e Sunshine (2007). Ex_Machina é o primeiro que dirige em sua carreira, e o faz muito bem, tanto que ele consegue esse raro fenômeno de manipular o espectador e literalmente enfiá-lo dentro da história como um diretor veterano poderia fazer.

Ao contrário da impressão que passa pela forma como foi promovido, como um thriller intenso sobre a relação homem/máquina, o que vemos de fato é um filme bastante equilibrado em todos os quesitos, que ao contrário de simplesmente contar uma história, ele dialoga com seu espectador e o insere na mesma situação que o protagonista se encontra. Garland primeiro nos apresenta os ambientes e os personagens, depois ele nos abraça de forma envolvente com a fluidez da trama, e apesar do final ser até previsível, não é previsível o caminho até ele. Acima de tudo é um filme humano dentro da frieza de seu contexto, que explora as essências mais complexas da solidão e da necessidade de afeto, como isso tem refletido no avanço tecnológico e como cada vez mais tentamos inserir essas necessidades naquilo que podemos utilizar no cotidiano, como uma forma de compensar a falta da proximidade e da relação humana.

É claro que cada um dos personagens irão nos surpreender em seus determinados momentos porque Garland desenvolve com clareza a personalidade de cada um, sendo compreensível o que cada um deles faz, e os motivos que os levam a agir de formas tão diferentes.

Por um lado há Caleb, um jovem extremamente ingênuo, bondoso e solitário. Por todas essas características que ele tem, ele é facilmente manipulável. Depois há Nathan, que tem um pensamento extremamente científico, que analisa e quer dados empíricos sobre aquilo que desenvolve, pouco se importando com os meios utilizados para o fim esperado. Se Ava é um robô ou não, se tem sentimentos ou não, ou se Caleb é um ser humano frágil, ele pouco se importa. O que Nathan quer saber é se o objetivo de transformar Ava no mais humano possível, ao ponto de nem mesmo um humano conseguir distinguir a diferença, foi alcançado. A verdade é que ele consegue atingir esse objetivo porque Caleb responde a Ava como se ela fosse realmente uma humana. Nós, espectadores, respondemos como se ela fosse humana. Até mesmo Nathan, em alguns breves momentos, mostra que isso atingiu ele próprio sem ele mesmo perceber. As breves reações de raiva ou impaciência de Nathan, ou a busca pelo afeto que ele demonstra em algumas partes (e que não cabe dizer em quais circunstâncias para não estragar as surpresas), já demonstram por si só que até mesmo ele se confunde com sua própria criação. E são nesses momentos que o Teste de Turing se comprova definitivamente positivo, já que uma das características para isso é a interação entre o homem e a máquina sem que o homem perceba isso.

Aí temos Ava, cujos sentimentos, sensações, frustrações, desejos, vontades, aspirações e demais sensações aleatórias, existem dentro dela. A forma dela de racioncinar é baseado unicamente como uma barra de pesquisa do Google. Ela raciocina em cima do raciocínio de pesquisa das pessoas. Então ela vive em um conflito constante sendo um robô, mas pensando como um humano; sendo um robô, mas tendo sentimentos; sendo robô, mas com vontades de descobrir o mundo, tal qual o mito da caverna, de Platão.

É necessário compreender que, apesar dos antagonismos levarem a história para um final um tanto óbvio, o importante é que não existem vilões na história. Não existe bem ou mal, porque existem três pessoas e três personalidades agindo não por instinto, mas em cima daquilo que elas acreditam. Caleb tenta proteger Ava a todo instante; para Nathan, Ava é apenas mais um produto em teste; Ava luta para sobreviver, tal qual um humano faria.

O desenvolvimento do filme fecha em um ciclo perfeito. A construção é lenta e prende a atenção porque queremos saber qual será seu fim. As referências, principalmente à mitologia Grega, como o de Prometheus e a mitos, como o já citado de Platão, são sutis, mas presentes de maneira pontuada e proposital. Não empolgará como um filme de ação ou um thriller intenso, mas ele nos leva a uma jornada de conhecimento que mostra que a própria evolução do ser humano é perigosa para ele mesmo.

Claro que não se pode deixar de notar uma certa metáfora existente sobre o controle de informação que a internet gerou e o poder que ela concentrou a algumas corporações. Se começarmos a associar o nível de informações que o Google ou o Facebook tem de todos seus usuários e as mudanças que ocorreram recentemente, como a forma como eles respondem e interagem às pesquisas de seus usuários sobre aquilo que buscam no cotidiano, isso tudo é apenas o princípio daquilo que é Ava propriamente dita. Então, de certa forma, os detentores dessas informações se transformaram nos novos exploradores de petróleo, como diz o próprio Nathan. Eles podem agir da forma que quiserem com você, e você irá interagir, irá acreditar e será manipulado por eles da mesma forma como os personagens neste filme manipulam e são manipulados.

O filme teve um orçamento de US$11 milhões. Por ter uma narrativa incomum ao gosto popular, até que tem se saído bem, arrecadando mais de US$19 milhões em seis semanas de exibição, com média 8 no IMDb baseado na avaliação de mais de 43 mil usuários cadastrados até o momento. Isso significa que a probabilidade de ele ser lembrado nas premiações será grande, porque sem dúvida é o primeiro grande filme do ano e figurará na lista dos melhores.

CONCLUSÃO...
O primeiro grande filme do ano. Com um desenvolvimento que se fecha em um ciclo perfeito. A atenção dada aos mínimos detalhes deste longa o transformaram em uma jornada fascinante e ao mesmo tempo assustadora sobre os avanços tecnológicos e quão longe pode ir o controle da informação, no qual estamos todos vulneráveis.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

ATÉ ONDE CHEGAR PELO SONHO AMERICANO...

★★★★★★★★
Título: O Ano Mais Violento (A Most Violent Year)
Ano: 2014
Gênero: Suspense, Drama, Crime
Classificação: 16 anos
Direção: J.C. Chandor
Elenco: Oscar Isaac, Jessica Chastain, David Oyelowo, Albert Brooks
País: Estados Unidos
Duração: 125 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um imigrante que luta para manter seus negócios e proteger sua família da forma mais íntegra possível em uma cidade liderada por corruptos e criminosos, naquele que foi o ano mais violento de Nova York.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é dirigido e escrito por J.C. Chandor, que já havia concorrido ao Oscar por melhor roteiro original em 2012 no seu filme de estréia Margin Call (2012).

Assim como no seu filme de estréia, temas econômicos e políticos voltam a ser tratados nesse filme, não necessaria e diretamente sobre eles, mas relacionados de alguma forma, já que a história se passa em Nova York, no ano de 1981, e mostra a jornada de Abel Morales (Oscar Isaac), um imigrante ambicioso que sonha em alcançar o grande sonho americano de engrandecer seu império através do suor do próprio rosto.

As coisas começam a dar errado quando ele, sua família e seus negócios também se tornam vítimas do crime organizado e de uma violência indiscriminada que se movimenta pela cidade, além da corrupção que se fortalece com todos esses acontecimentos desastrosos que dão início a um efeito dominó que ameaçam todo o patrimônio que Abel e sua mulher, Anna (Jessica Chastain), construíram ao longo dos anos.

A grande sacada deste filme, e que Chandor consegue desenvolver brilhantemente, é a dificuldade do personagem em conduzir seus negócios e sua vida da maneira mais correta possível. Abel é um homem íntegro, de boa índole, um patrão respeitado que treina e se preocupa com seus funcionários, cumpre sua obrigações civis, evita desentendimentos, é um pai presente e tenta solucionar seus problemas da maneira mais pacífica possível, sempre com discursos honestos, construtivos e motivadores. Ele é incapaz de ameaçar, ser ofensivo ou reagir com violência. Já Anna é o oposto, a qual acredita que as dificuldades que todos estão passando no momento é justamente pela falta de uma austeridade mais ofensiva de Abel e de sua capacidade de combater a violência com a violência, algo que ele se recusa sem espaço para discussão.

Desde o início do filme, com sua trilha sonora contida e constante, como um ruído incômodo, é possível sentir a tensão e a densidade da desesperadora situação em que Abel Morales se encontra. Seu nome, que poderiam significar "poder" (do inglês "able") e "moral" (de "morales"), são os temas principais nos quais toda a trama é construída. O personagem possui ambos adjetivos, tanto no nome quanto em sua persona, mas ainda sim não são suficientes. O roteiro consegue criar muito bem o emaranhado processo do personagem em lutar contra os fatores agravantes sem qualquer sucesso, e que tudo começa a dar certo apenas quando ele mesmo passa a ignorar suas próprias convicções.

Dentro de toda a máfia controladora que a todo custo tenta derrubá-lo dos negócios, ou as dificuldades judiciais que ele enfrenta com o promotor da cidade que o investiga há três anos devido a denúncias que nunca são comprovadas, o pesadelo parece nunca ter fim. Junta-se a isso a violência que não consegue ser controlada e a inexistência de meios legais eficazes que protejam seus funcionários dos saqueadores, a empresa da falência e a sua família da miséria. Abel é pressionado por todos os lados, exposto a uma constante tentação em resolver seus problemas através das vias mais fáceis da corruptividade. É como se o meio o obrigasse de todas as formas possíveis a ceder, e finalmente se tornar exatamente aquilo que sempre condenou.

A tensão desenvolvida por Chandor é angustiante. Ele utiliza tecnicas de roteirização não linear para construir o suspense, revelando situações e fatos não de forma progressiva com a história, mas de acordo com progressão da atmosfera apreensiva que ele cria, o que dá aquela sensação de que cada novo fato revelado ou esclarecido ao espectador são cavas mais fundas no buraco que o personagem se encontra. Oscar Isaac, que foi recentemente visto em As Duas Faces de Janeiro (The Two Faces Of January, 2014) realmente dá uma maior profundidade ao personagem do que ele aparentemente teria, tal qual fez no seu filme anterior. Jessica Chastain tem dispensado comentários, seus últimos trabalhos, mesmo que em filmes não tão bons, tem sido muito interessantes. Vê-la recentemente em Dois Lados do Amor (The Disappearance Of Eleanor Rigby, 2014) e depois neste filme, a diferença é impressionante. Ela não chega a ter a finesse e a técnica um tanto britânica da australiana Cate Blanchett, mas ela consegue se transformar bem entre um papel e outro tanto quanto. Sua participação também não chega a ser muito grande no filme. É grande no início, mas perde espaço na segunda metade do filme. Mesmo assim ela é uma importante peça em toda a trama, pois sua personagem é filha de um gângster, o que não a caracteriza como uma criminosa, mas suas atitudes tem propósitos muito certeiros e justificáveis, bastante questionáveis também, sendo ela a outra polaridade do imã e a verdadeira grande influência nas decisões de Abel. Ou seja, Anna é uma personagem bastante grandiosa e importante que transcende o tempo que aparece na tela, a grande mulher por trás de um grande homem.

Apesar de alguns momentos ele parecer bastante confuso pela falta dessa linearidade, além de algumas outras situações um tanto confusas que realmente colocam em dúvida essa tal integridade do personagem, o filme sem dúvida mostra aquela realidade que já bem conhecemos, a de que não há honestidade e integridade suficiente que consiga combater as doenças sociais nas quais todos estão vulneráveis. E embora 1981 realmente tenha sido estatisticamente o ano mais violento de Nova York, o título também remete à violência moral sofrida pelo personagem, e de que é possível evitar qualquer desastre, mas é impossível evitar o mundo corruptível, o que nos faz voltar a considerar o lamarckismo de que o meio é o grande responsável por transformar o homem que vive nele, pois é nos momentos finais do filme e na forte expressão no olhar de Abel de que, por mais que ele quisesse, para dar continuidade a seus planos, ele não podia impedir o pior de acontecer. É então que temos o endosso de que o personagem, enfim, entrou em um caminho sem volta.

CONCLUSÃO...
Não dá pra negar que o filme consegue desenvolver muito bem o processo de transformação do personagem e como o mundo corruptível realmente consegue corromper até os mais fortes e relutantes, fazendo de O Ano Mais Violento uma explicação óbvia em forma de longa metragem sobre a vulnerabilidade das pessoas frente às amoralidades que as rodeiam.

domingo, 7 de setembro de 2014

NÃO É DESTA VEZ, MINGHELLA...

★★★★
Título: As Duas Faces de Janeiro (The Two Faces Of January)
Ano: 2014
Gênero: Drama, Suspense, Crime
Classificação: 14 anos
Direção: Hossein Amini
Elenco: Viggo Mortensen, Kirsten Dunst, Oscar Isaac
País: Reino Unido, Franca, Estados Unidos
Duração: 96 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um casal norteamericano que está há alguns dias em Atenas é ajudado por um guia turístico que se sujeita a fazer parte de uma perigosa trama que ele não imaginava.

O QUE TENHO A DIZER...
Estréia do iraniano Hossein Amini na direção, com roteiro também escrito por ele. Hossein tem maior experiência como roteirista, cuja carreira é um tanto esquisita. Ele foi responsável pelo roteiro de filmes excelentes como Asas do Amor (The Wings Of Dove, 1999) e Drive (2011), mas ao mesmo tempo contribuiu com os péssimos Branca de Neve e o Caçador (Snow White and The Huntsman, 2012) e 47 Ronins (2013). Levando-se isso em consideração, as possibilidades dessa produção ser boa eram um tanto incertas, mesmo contendo grandes nomes para os personagens principais e por ser baseada no livro homônimo de Patrícia Highsmith, a mesma da obra que rendeu a excelente adaptação cinematográfica O Talentoso Ripley (The Talented Mr. Ripley, 1999), de Anthony Minghella.

Chester (Viggo Mortensen) e Colette (Kirsten Dunst) é um casal norteamericano que está passando alguns dias em Atenas. Entre um passeio turístico e outro, Chester percebe que um estranho o observa. Colette consegue se aproximar de Rydal (Oscar Isaac) e descobre que ele é um americano que mora em Atenas e trabalha como guia turístico, pois ainda não decidiu o que fazer de sua vida pessoal e profissional. O casal contrata o guia e algumas semelhanças levam Rydal a uma fascinação por ambos que o sujeitará a ajudá-los quando Chester é perseguido pela polícia por motivos que para não são claros, mas que colocarão Rydal dentro de uma trama perigosa que ele não imaginava.

Depois que Anthony Minghella realizou o deslumbrande O Talentoso Ripley, elogiado pelo mundo todo pelas excepcionais qualidades visuais, técnicas e pela habilidade que ele teve em desenvolver a história com um cativante suspense progressivo e dramático, até mesmo ao incluir uma personagem que não existia no livro e aumentar sua participação apenas para dar mais destaque ao desempenho de Cate Blanchett, que ao invés de adulterar os rumos da história apenas incrementou ainda mais o tom hitchcockiano que ele deu à trama, o cinema ficou novamente carente de suspenses psicológicos sofisticados como aqueles entre as décadas de 40 e 60 referenciados e homenageados por Minghella.

Ao assistir o trailer de As Duas Faces de Janeiro a fotografia clássica juntamente com o estilo literário já conhecido da autora Highsmith, gerou uma grande expectativa pela estréia de Hossein, e referências à obra de Minghella foram inevitáveis. A tentativa de repetir a fórmula de sucesso da adaptação de O Talentoso Ripley são tão evidentes que um dos produtores executivos é Max Minghella, filho do falecido diretor.

Realmente não dá para evitar comparações, mas ao invés delas se tornarem referências nostálgicas e até uma excelente oportunidade para homenagear Minghella e os méritos alcançados por ele em um dos seus últimos grandes filmes, tudo se transforma numa experiência bastante frustrante em muitos aspectos.

A narrativa condensada, o suspense envolvendo o passado desconhecido dos personagens e acontecimentos chaves que ocorrem em momentos exatos logo na primeira meia hora conduzidos pela trilha sonora de Alberto Iglesias com grandes referências a Bernard Herrmann em Psicose (Psycho, 1960) claramente conduzem e preparam o espectador à atmosfera esperada. Mas infelizmente a robustez desse início perde a força quando o roteiro entra em um platô superficial que não ousa em momento algum abusar do passado e dos conflitos psicológicos individuais dos personagens que justifiquem de fato suas atitudes e os posicionem na trama como acontece no livro, principalmente a respeito de Rydal, o ângulo reto do triângulo que se forma.

O título do filme se refere ao deus romano de duas faces, Jano (ou Janus), guardião das transições, das portas, das decisões e do início, com uma face voltada para o passado e a outra para o futuro. Essa figura romana representa o ajuste de contas que Rydal fará com seu passado ao enfrentar as decisões perigosas do presente, além da história ocorrer no início de Janeiro, que também simboliza a oportunidade do grande recomeço na cultura popular. Na obra de Highsmith, essa associação do título com a trama se revela quando Rydal encontra uma estranha e penosa semelhança de Chester com seu falecido pai, e de Colette com uma garota por quem ele foi perdidamente apaixonado na adolescência. A transferência dessas duas fortes figuras de sua vida no casal é o que leva Rydal se manter próximo a eles na inconsciente busca pela resolução de sua traumática relação com seu detestável pai, e no romance interrompido com a garota na adolescência.

Motivos tão importantes como esses e as verdadeiras fundações de toda a trama não são exploradas da forma devida. Há apenas breves referências a respeito da semelhança física de Chester com o falecido pai de Rydal, sem maiores desenvolvimentos que esclareçam ao espectador o motivo dessa transferência de personas tão forte e a relação de amor e ódio que cresce entre eles. Os principais macroacontecimentos no filme seguem a mesma cronologia do livro, com algumas alterações que até beneficiariam a adaptação dentro do gênero proposto caso a atenção devida aos problemas já mencionados tivessem sido dados, mas ao contrário do suspense psicológico bem orquestrado do livro, tudo se transforma em uma história de crimes passionais comum no filme, com perseguição policial tola e um triangulo amoroso formado da maneira mais simples possível que explora uma ingenuidade de Colette inexistente, já que no livro sua infidelidade era recorrente. O resultado é um filme vazio, com um final banal que torna toda a trama redundante ao invés de significar o ápice dramático, a definitiva e esperada grande libertação de Rydal de seus conflitos, sua final jornada pela simbólica absolvição tão buscada.

Mesmo desenvolvendo um excelente trabalho, Viggo Mortensen tem seu talento deseperdiçado aqui por conta do filme esquecível que impressionantemente é. Kirsten Dunst ainda não aprendeu a ter uma postura sofisticada sem parecer estudante universitária, e como sempre suas melhores partes são quando as personagens sofrem maiores pressões. Desperdiçadas também são as locações na Grécia e Turquia, ao contrário do que foi feito por Minghella ao transformar a exuberância das paisagens italianas um grande adendo no misto de beleza e delicada crueldade contidas em O Talentoso Ripley. Oscar Isaac tem impressionantes momentos, talvez por conhecer a obra original e saber que seu personagem é muito mais complexo do que o roteiro apresenta, mas que para o espectador que é mal esclarecido por todos os 96 minutos, as atitudes de seu personagem soarão apenas como uma fixação vazia e romanticamente descabida, sem pretexto coerente algum.

CONCLUSÃO...
Uma adaptação banal e redundante para o espectador que foi muito mal introduzido e situado em todo o contexto, ao contrário da obra literária que conduz a história para um suspense psicológico baseado em um simbolo mitológico que justifica todo o ciclo dramático do personagem principal.

sábado, 14 de junho de 2014

MENOS PODERIA SER MAIS...

★★★★★★★
Título: Em Segredo (In Secret)
Ano: 2013
Gênero: Drama, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Charlie Stratton
Elenco: Elizabeth Olsen, Jessica Lange, Tom Felton, Oscar Isaac
País: Estados Unidos
Duração: 107 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Therese é casada com seu primo, filho de sua tia, irmã de seu pai. Ela vive infeliz amorosa e sexualmente até conhecer Laurent, amigo de infância de seu marido.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é dirigido e escrito por Charlie Stratton, sendo esta sua estréia em longas metragens, e baseado no livro Thérèse Raquin (1897), de Émile Zola. A obra foi repudiada pela crítica da época devido a seus elementos naturalistas, estilo que radicaliza ainda mais o realismo, abordando temas verdadeiros e recorrentes - porém ocultos - na sociedade, como o sexo, a loucura, o concubinato, e demais outros em que os personagens fossem dominados por instintos e desejos naturais de forma erotizada, agressiva e até mesmo violenta.

Portanto, a história tanto do livro quanto do filme vai se desenvolver em torno da personagem princial, chamada Thereze (Elizabeth Olsen), que foi deixada por seu pai, ainda menina, aos cuidados de sua tia paterna (Jessica Lange). Seu pai a deixou com uma determinada quantia de dinheiro destinada apenas a ela caso necessário. Ela cresceu cuidando de seu primo doente, Camille (Tom Felton), e auxiliando sua tia nos deveres domésticos até atingir a maioridade e aceitar o fato de que seu pai nunca mais voltaria. Sua tia então decide casá-la com seu primo, para que o dote deixado pelo pai de Thereze possa ser usurpado por eles. Eles se mudam para Paris, e seu casamento entediante e infeliz a afunda cada vez mais em uma grande frustração amorosa e sexual até conhecer Laurant (Oscar Isaac), amigo de infância de Camille. Obviamente ambos se tornam amantes e as coisas tendem a complicar quando decidem por fim à vida de Camille para darem continuidade ao romance proibido.

Embora a tentativa seja válida, o filme ainda sofre de grandes problemas comuns de adaptações literarias, principalmente quando estas são de clássicos como esse. Mas ao contrário do que se pode imaginar, nesse filme os problemas não são nem pela falta, mas pelo excesso. Mesmo que a narrativa tente muitas vezes ser bem construída e o desenvolvimento de toda a trama até convincente, se não soubessemos que se trata de uma adaptação de uma obra naturalista de Zola dificilmente nos atentaríamos às características do estilo, e isso acontece principalmente pela falta de uma abordagem com mais nuances e delicadezas por parte do diretor.

A literatura naturalista exige que as ações sejam cruas e diretas, mas essa reprodução exata em uma adaptação cinematográfica chega a ser até abusiva e incoerente já que uma mínima ação se torna grande demais na lente de uma câmera, inumeras vezes maior do que uma sucinta frase em um livro. O diretor segue à risca o estilo na adaptação, mas sua falta de sutileza na construção das cenas oferece um resultado mais forçado do que verdadeiramente real, como o estilo pede. Isso faz com que, de uma adaptação de um clássico sobre uma época específica, o filme se torne contemporâneo como qualquer outro, chegando a causar um impacto menos verdadeiro até mesmo quando comparado a filmes como Infidelidade (Unfaithful, 2002), ou a adaptação da obra de Graham Greene, Fim de Caso (The End Of The Affair, 1999), filmes contemporâneos, mas que abusam da sutileza mais clássica para desenvolver um clima realista e que convença de fato o espectador sobre aquilo que é narrado.

Os diálogos são curtos e diretos, e os personagens definitivamente são produtos do meio em que vivem. Todos são evidentemente figuras que se enquadram dentro do microcosmo social exigido pelo estilo, mas as relações de interesse apenas são explícitas entre Therese, sua tia e Laurant. Observamos a tentativa de sobrevivência dos mais fortes e a opressão dos mais fracos, mas uma das cenas mais interessantes é quando todo o fervor sexual entre os personagens é interrompido por Madame Raquin que pergunta se o barulho que ela ouve é novamente o gato tossindo as bolas de pelo, que, propositalmente ou não por parte do diretor e roteirista, é a referência direta àquilo conhecido como animalização dos personagens, pois são eles agindo na sua forma mais primitiva e instintiva, outra importantíssima característica do estilo.

No livro, o interesse de Laurant por Thereze a princípio é apenas por ele não ter dinheiro para pagar prostitutas (o que não fica claro no filme) e a idéia de matar Camille partiu da própria Therese, e não de Laurant. Mas essas sutis mudanças não pesam muito na trama pois foram bem balanceadas e o grau de vitimização da personagem se mantém o mesmo.

Portanto, mesmo o diretor ter pecado na falta de sutileza, impedindo o espectador de ser convencido da realidade de toda a situação (que é um dos elementos principais do estilo naturalista), consegue ser uma adaptação enxuta e atenta a demais outros detalhes que demonstram os grandes interesses do diretor e roteirista em tentar transpor para a tela um estilo que, mesmo clássico, não envelhece ao tempo, mas também não cabe ter uma linguagem moderna demais.

Não dá pra deixar de notar o talento crescente de Elizabeth Olsen (irmã das sem-talento gêmeas Mary-Kate e Ashley Olsen), que ganhou destaque com o independente Martha, Marcy, May, Marlene (2011) e aos poucos demonstra ser uma das mais importantes de sua geração.

CONCLUSÃO...
Um filme tenso, mas que mesmo baseado em uma obra naturalista e com muitas das características, está longe de ser considerado um filme desse estilo, muito disso por falta da sutileza do diretor e na sua falta de habilidade em manipular essas características, deixando o filme muito mais moderno do que uma adaptação de uma época específica de um clássico, a velha história de que, neste caso, menos poderia seria mais.
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