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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

NÃO COMO UM TODO...

★★★★★
Título: Mapa Para As Estrelas (Maps To The Stars)
Ano: 2014
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: David Chronemberg
Elenco: Julianne Moore, Mia Wasikowska, John Cusack, Olivia Williams, Evan Bird, Robert Pattinson
País: Canadá, Estados Unidos, Alemanha, França
Duração: 111 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre indivíduos que buscam a fama, o sucesso e o perdão, ligados um ao outro através dos fantasmas de seus passados.

O QUE TENHO A DIZER...
David Cronemberg não se cansa de realizar filmes confusos e controversos, sempre chegando no limite do bizarro e colocar seus personagens como cobaias de experimentos frente a diferentes níveis de perversão no mais profundo sentido sexual e patológico. E Mapa Para As Estrelas não seria diferente.

É a segunda colaboração do diretor com o ator Robert Pattinson, mas desta vez em um papel bem coadjuvante, para o alívio de muitos. Ao contrário do que ocorreu em Cosmopolis (2012), onde propositalmente ou não Cronemberg abusou da superficialidade, das limitações e da arrogância do ator tal qual o produto Hollywoodiano que ele representa, nesse filme, por incrível que pareça, Pattinson pela primeira vez consegue deixar sua figura de estrela-por-acaso de lado e conseguir atuar sem ser inconveniente. As comedidas vezes em que aparece não são desconfortáveis como foi no filme anterior, e isso já é bastante surpreendente.

Também é a primeira vez que Cronemberg filma nos Estados Unidos, algo que ele nunca havia feito em sua carreira, nem mesmo com Cosmopolis, filme em que a história é ambientada totalmente em Nova York.

Dissecar este filme não é uma tarefa fácil, mas como um todo é uma sátira moderna e dramática sobre o show business e do entretenimento ocidental em sua amplitude.

O filme começa com uma breve apresentação dos personagens e nada muito esclarecido. A impressão que se tem é que será um filme sobre histórias paralelas e as diferentes impressões que cada um deles tem sobre a fama, o sucesso e dinheiro. Mas conforme a relação dramática entre eles aflora - e não demora muito pra isso acontecer - fica cada vez mais claro o lado psicológico mais obscuro que estava escondido em cada um, desde a relação incestuosa de um casal de irmãos até a relação incestuosa entre mãe e filha. E pode se preparar porque o filme todo vai girar em cima disso e sobre a teoria dos filhos perpetuarem os erros e defeitos dos pais como uma herança genética.

Ao contrário de seus filmes anteriores, Cronemberg deixa um pouco a palidez de lado em cenografias ainda geometricamente bem estruturadas, mas agora mais contemporâneas e condizentes com a realidade mostrada, abolindo a figura da tecnologia como uma extensão humana, algo muito presente em seus filmes e parte de seu estilo único. Os atores também deixaram de ser marionetes automáticas do diretor para serem mais humanos. Talvez essa mudança venha a calhar muito bem para amenizar temas tão delicados e perturbadores, deixando o choque mais evidente para momentos específicos e inesperados nos confrontos físicos e psicológicos que gradualmente desenvolve e desconstrói os personagens. Não é sempre que vemos filmes abordarem o incesto na naturalidade que somente Cronemberg seria capaz de fazer, e o roteiro de Bruce Wagner consegue até fazer isso de forma bastante sutil e nada abusiva, diferente do que se espera.

O grande problema do filme é que as histórias particulares são muito mais expressivas do que o filme como uma unidade, e a repetitividade dos problemas abordados acabam enfraquecendo o filme como um todo. O drama da atriz Havana (Julianne Moore) e a tentativa de manter a fama e seu status na indústria cinematográfica por si só já é tão chocante quanto a precoce fama de Benjie (Evan Bird), que com apenas 13 anos já caminha para sua autodestruição. O arco dramático dessas duas histórias já possuiam forças para manter toda a estrutura do filme, mas ao contrário de se fortalecerem na concatenação dos fatos, infelizmente se ofuscam no meio de toda a elucubração do roteirista e da obsessão do diretor em querer aprofundar cada vez mais no bizarro. Isso deixa as tramas paralelas de Agatha (Mia Wasikowska) e do casal Stafford e Christina (John Cusack e Olivia Williams) ficarem um tanto obsoletos, como um drama familiar à parte inserido para dar uma consistência que nunca atinge o ponto que conseguiria sozinho.

As atuações também são os pontos fortes tanto quanto as histórias individuais, e Julianne Moore oferece uma performance muito interessante e diferenciada entre a razão e a insanidade que, ao invés de cair no drama fácil, segue para um humor negro e propositalmente piegas que contextualiza muito bem o tom satírico da fama e do sucesso abordados na trama.

CONCLUSÃO...
Um filme que, como bem dito pelo próprio Cronemberg, é difícil de ser digerido, que é muito mais interessante e melhor compreendido em suas histórias individuais do que como uma unidade. A complexidade e excentricidade características do diretor sempre fazem seus filmes fugirem da compreensão convencional, mas ainda sim não deixa de ser interessante, justamente por ser Chronemberg.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

DIFÍCIL...

★★★★★★
Título: The Double
Ano: 2013
Gênero: Suspense, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Richard Ayoade
Elenco: Jesse Eisenberg, Mia Wasikowska, Wallace Shawn
País: Reino Unido
Duração: 2013

SOBRE O QUE É O FILME?
A vida de um comum trabalhador vira do avesso quando ele encontra uma pessoa exatamente idêntica a ele, porém com uma personalidade totalmente contrária e tudo aquilo que ele gostaria de ser.

O QUE TENHO A DIZER...
The Double (ainda sem título em português) é o segundo filme dirigido pelo jovem britânico Richard Ayoade, que anteriormente dirigiu o excelente Submarino (Submarine, 2010) e que curiosamente tem como um dos produtores o ator Michael Cane. Mas ao contrário de seu primeiro longa de narrativa linear inteligente e do humor negro classudo de fácil absorção, aqui ele foge da narrativa clássica, muito embora a estética esteja muito presente e referências a diretores como Terry Gillian e David Lynch estão sendo inevitáveis tanto por aqueles que adoraram quanto pelos que odiaram.

Por uma razão desconhecida, o filme tem recebido críticas positivas em sua maioria. Foi originalmente lançado em Setembro de 2013 no Festival de Toronto, e terá lançamento em mercado norteamericano este ano. Tem sido promovido com um suspense com teores de humor negro, mas esse humor negro difícilmente vai ser notado ou apreciado pela maioria.

Conta a história de Simon, um rapaz tímido, condescendente e genuinamente bondoso, que trabalha em uma empresa há sete anos, mas seus esforços nunca foram notados, muito menos sua presença. Como se nada disso bastasse na sua vida, há uma inexplicável capacidade natural de tudo dar errado a sua volta, e sua vida vira de ponta cabeça quando James é contratado para trabalhar no mesmo setor. James é um sósia idêntico de Simon, mas ninguém nota isso, pois para todos Simon nem ao menos existe, nem mesmo aos sensores do elevador. Simon fica fascinado com a eloquencia, autoconfiança e desenvoltura de James, pois enxerga no colega tudo aquilo que ele não tem coragem de ser. Isso leva a ambos desenvolverem uma relação de amizade que se transforma em guerra quando Simon percebe que James está tomando um lugar que ele nunca teve.

O filme é baseado no livro homônimo de Fyodor Dostoyevsky, que obviamente conta uma história similar conhecida por utilizar o mito do doppelganger, uma palavra de origem alemã que significa muito mais do que apenas "sósia" ou "dublê" na língua portuguesa, mas uma pessoa exatamente igual a outra, como um clone, mas sem qualquer origem genética. Na mitologia essa figura pode ser vista como uma pessoa fisica e espiritualmente idêntica como também um alter ego, ou seja, com uma personalidade distinta, geralmente aquela almejada pela pessoa, mas nunca conquistada de maneira consciente. Em algumas outras culturas ele é visto como uma versão demoníaca de si mesmo.

Embora essa adaptação seja uma projeto ousado do diretor, fica difícil analisá-la de forma contundente pelo fato da obra de Dostoyevsky não ser amplamente conhecida, embora bastante referenciada e controversa, já que é possível encontrar diferentes linhas de pensamento sobre ela. Alguns acreditam que o personagem do livro sofre de esquizofrenia, outros acreditam que seja um alter ego do personagem principal que está em busca de sua verdadeira identidade que é ou não oprimida pela burocracia sufocante em que vive.

A partir dessas características e controversias sobre a obra literária toda a situação em volta do personagem principal no filme é construída, bem como a ascenção de James sobre os méritos de Simon, ao ponto de Simon chegar a sua quase autodestruição e inexistência. Não há como deixar de notar James como um alter ego do personagem, assim como foi Tyler Durden em Clube da Luta (Fight Club, 1999). Em muitas outras sequencias também ficamos na dúvida se tudo o que acontece é consequencia de um surto esquizofrênico do personagem que não aguenta mais toda a opressão a sua volta, ou também aquilo que pode ser chamado pela psiquiatria de heautoscopia, também uma alucinação, em que a pessoa enxerga a mesma imagem de si como um espelho, porém de forma distorcida ou não. O que acontece com James também pode ser simplesmente uma mistura de tudo isso, o que é muito mais provável, já que o diretor e roteirista não consegue dar uma definição muito clara para qual linha de pensamento ele quer levar seus personagens.

Não é um filme fácil e há muito tempo não assistia uma narrativa complexa assim desde Possuídos (Bug, 2006), com divagações psicoanalíticas e sociais puxadas para esse teor surreal e discutível. Como disse, é um projeto ousado do diretor Ayoade e foge completamente da beleza e delicadeza narrativa de seu filme anterior, e muito embora ele se bem suceda na construção do personagem e em mostrar que ele é alguém muito frágil para suportar sua própria significância, ou de mostrar sua incrível capacidade de tolerar tudo, menos ele mesmo, porque a existência de James cria o dilema dele aceitar tudo em silêncio ou finalmente resolver mudar e se adaptar, a qualidade final do roteiro fica questionável quando não encontramos nenhum ponto realmente esclarecedor sobre quem ou o que tudo isso realmente significa. É um alter ego? É uma figura resultante de uma esquizofrenia? É um extraterrestre? É alguma outra coisa qualquer? É tudo isso ou nada disso?

Claro que não há como negar suas qualidades, como as já ditas sobre o desenvolvimento dos personagens, a fotografia e os enquadramentos incríveis que remetem uma década de 60 que ao mesmo tempo não se encaixa nessa época, como um mundo paralelo frio e inquieto. A trilha sonora sem dúvida é o grande destaque não apenas ao utilizar um repertório asiático antigo, mas também por fazer sons ambientes também virarem melodias inusitadas em uma similaridade ao de Bjork no filme Dançando no Escuro (Dancer In The Dark, 2000), criando o clima denso e até sombrio por muitas vezes. A atuação de Jesse Eisenberg é propositalmente coreografada e contida como Simon e explosiva como James e essa versatilidade do ator realmente dá outra dimensão nos momentos em que ele contracena com ele mesmo.

Existem tantas questões que surgem quando o filme acaba que desistimos dessa masturbação mental para simplesmente não cair na possibilidade de entrar em um mar sem respostas, e no fim das contas tudo aparenta ser apenas mais um daqueles filmes bem construídos, que rodam e rodam pra deixar o espectador tonto e com vergonha de dizer que entendeu e não saber explicar, ou ficar com vergonha de dizer que nada entendeu e ser taxado de ignorante por quem faz pose de intelectual. Tudo pode fazer muito sentido na cabeça do diretor, mas acho até desrespeitoso abranger tantas possibilidades sem haver uma conclusão coerente, como que jogar a batata quente na mão do espectador. Independente disso, as críticas e as ironias estão lá, e essas são relevantes e consideráveis acima de qualquer coisa.

CONCLUSÃO...
Bem feito, construído e atuado, com uma trilha sonora bastante inusitada e impactante, um filme que talvez consiga até surpreender em vários aspectos, mas vai deixar muita gente com uma interrogação na testa por não dar uma clareza ou um ponto determinante para encontrar um denomidador comum. Mas independente disso, as críticas sobre o ser e não ser estão lá.

domingo, 23 de junho de 2013

INCÔMODO, PORÉM CORAJOSO...

★★★★★★★
Título: Segredos de Sangue
Ano: 2013
Gênero: Suspense, Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Chan-wook Park
Elenco: Mia Wasikowska, Nicole Kidman, Matthew Goode, Dermont Mulroney, Jacki Weaver
País: Estados Unidos, Reino Unido
Duração: 99 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
India Stoker fez 18 anos e perdeu o seu pai. Ela viveria apenas com sua mãe caso não chegasse Charles Stoker, irmão do seu pai e o qual ela nunca soube que existia, nascendo uma relação de distanciamento e afinidades que culminarão em segredos que definirão sua nova fase de vida.

O QUE TENHO A DIZER...
Segredos de Sangue é dirigido pelo sul coreano Chan-wook Park. É seu primeiro filme em inglês, cujo roteiro é curiosamente assinado pelo ator Wentworth Miller, conhecido pelo seu papel principal em Prision Break. O roteiro fez parte da Black List de 2010, uma lista feita todos os anos contendo os melhores roteiros que ainda não foram produzidos.

Basicamente conta a história de India Stoker (Mia Wasikowska), uma garota inteligente e de classe média alta, que vive em um mundo particular de observação, de constante desconfiança, avessa a determinadas regras sociais e que tem a forte tendência de contrariar ordens, principalmente quando partem de sua mãe. India gosta de observar e ouvir pequenas coisas, ler e explorar o mundo que a rodeia por um ponto de vista por vezes estranho e obscuro, como uma foto em negativo. Ela não tem amigos, nunca namorou e as únicas relações próximas eram com seu pai, Richard Stoker (Dermont Mulroney), e seu piano. Sua relação com sua mãe, Evelyn Stoker (Nicole Kidman), é conturbada, em um misto de distância, mágoa e um afeto que existe, mas nunca ultrapassa um determinado limite. A vida de India e Evelyn mudam completamente quando Charles Stoker (Mathew Goode) aparece no velório de seu irmão. India trata seu tio com estranheza como a um intruso por nunca ter tido conhecimento de sua existência, e Evelyn se encanta com as constantes gentilezas do cunhado, do bom gosto e da beleza jovial que ela há muito não conhecia.

Falar muito sobre o filme é como estragar determinadas surpresas, pois não há como negar que, mesmo entre uns tropeços e outros, Segredos de Sangue é um filme corajoso e, de certa forma, audacioso em Hollywood, pois é um daqueles raros filmes que é desconfortável e que em nenhum momento cria uma conexão de afinidade com o espectador, seja na história ou com qualquer um dos personagens. O filme cresce numa tensão e em uma sucessão de erros que se tornam coerentes dentro da natureza que vive cada um dos arquétipos retratados pelos personagens.

O suspense traçado muitas vezes é bastante similar com o hitchcockiano. Obviamente que não chega a ter o mesmo peso sutil e a classe do mestre, mas essa tentativa existe e é válida o tempo todo numa fotografia caprichada, limpa e que evita os excessos para evidenciar as personas e as situações construídas entre eles. O diretor também se atenta na câmera estática, enfatizando a calma e o sossego rotineiro do território bucólico que India vive e que no decorrer do filme se torna assustador por ser belo e esconder segredos muitas vezes mórbidos.

Uma das características hitchicockianas mais fortes no filme são as interpretações friamente calculadas e milimetricamente detalhadas. Todas as ações dos personagens, um gesto, um olhar, um caminhar, uma forma de parar frente a câmera... tudo parece ensaiado e calculado diversas vezes para causar sempre a melhor impressão e ter um sentido sublime para aquela situação específica. E funciona, pois não é mecânico, mas é frio e bonito. Algo raro de se ver.

O tema, para ser mais explícito e didático, sem ser um fator que estrague as surpresas do filme, é mais um daqueles que tenta transpor de forma mais humana determinadas psicopatologias como a sociopatia psicótica, mostrando que uma doença psiquiatrica estabelecida desde a infância culmina em atitudes imprudentes que podem ser compreendidas, embora difíceis de serem aceitas por uma sociedade comum. A especialista em criminologia Ilana Casoy, autora do livro Serial Killer - Louco ou Cruel?, deu uma entrevista há alguns anos explicando que é muito fácil para a população leiga condenar um assassino, mas o que essas mesmas pessoas desconhecem e não fazem questão de ter conhecimentosão das razões e dos fatores psicossociais que levaram essa pessoa a cometer um crime. Não que isso justifique o ato, mas coloca a pensar que, para os conflitos internos e existentes na psiquê dessa pessoa, isso é algo coerente. Uma doença de fato que deve ser tratada como tal, e não simplesmente posta para um julgamento qualquer. Mas para isso ser feito é necessário, a princípio, a compreensão de seu mundo particular.

O elenco caiu como uma luva. Mia Wasikowska sem dúvida está entrando para a mesma lista de grandes e jovens atrizes de sua geração, no mesmo patamar que a popular e querida Jennifer Lawrence, Juno Temple ou a um pouco mais nova Saoirse Ronan, naquela versatilidade de poder ser uma atriz menina a uma jovem adulta apenas numa mudança de postura ou em um olhar. Nicole Kidman realmente se sai melhor em filmes pequenos e ousados, conseguindo oferecer curtos momentos de uma interpretação que chega ao sublime por atingir o sofrimento emocional e demonstrá-lo com pouco. Sutil e contida, impressionando até mesmo eu, que nunca fui seu fã. Matthew Goode não só impressiona como seu semblante carregado no cinismo e na perversão é bastante assustador, um personagem que realmente marca, daqueles que mesmo assistindo outros filmes com o ator, com outros personagens, será difícil desassociar.

Há muitas resenhas e sinopses do filme que informam erroneamente que India sofre maus tratos da mãe, ou que sua mãe sofre de instabilidade emocional crônica. Isso tudo é mentira, ou ao menos o filme nunca deixa qualquer uma dessas duas alternativas explícitas. A instabilidade emocional de Evelyn existe tal qual a de India justamente pelo filme se passar logo após a morte de Richard, o que é bastante compreensivo.

Os grandes problemas do desenvolvimento surgem quando a história não esclarece determinadas situações, como a razão da relação entre India e sua mãe serem tão distantes. Seria isso uma referência batida ao Complexo de Édipo? Os breves conflitos entre a governanta ou da tia Gwendolyn Stoker (Jacki Weaver, sempre muito boa) com Charles também aparentam serem fúteis e desnecessários, além da indiferença e do consentimento de India com várias situações soar forçado, por mais que tudo aparente familiar e natural para ela.

CONCLUSÃO...
De qualquer forma, Segredos de Sangue é um filme para poucos, que explora bastante o psicológico de seus personagens principais que crescem gradualmente em uma sucessão de fatos distorcidos, surpreendendo o espectador por não fugir de sua idéia principal em nenhum momento, além de nunca ter a intenção de incrementar a história com elementos que possam atenuar o que incomoda para o bem de um público que sempre espera um final feliz ou satisfatório.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

ONDE AS ROSAS SELVAGENS DE NICK CAVE NASCEM...

★★★★★★★
Título: Os Infratores (Lawless)
Ano: 2012
Gênero: Drama, Ação, Suspense, Policial
Classificação: 16 anos
Direção: John Hillcoat
Elenco: Tom Hardy, Shia LaBeouf, Jason Clarke, Guy Pearce, Jessica Chastain, Mia Wasikowska, Dane DeHaan, Gary Oldman
País: Estados Unidos
Duração: 116 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Na terceira década do século 20, durante a "Lei Seca" nos Estados Unidos, uma cidade no sul da Virgínia se transformou em um dos maiores centros de produção e comercialização ilegal de bebida alcólica, onde a lei deixou de existir para dar lugar à máfia do álcool. Nessa cidade vive a família Bondurant, conhecida por sua austeridade, pela qualidade de seu whisk branco, e outras lendas urbanas que os rodeiam. Tudo era um caos controlado, até a chegada de um Agente Especial enviado pelo Promotor do Estado, que irá a todo custo ignorar a falta das leis para impor as suas próprias e derrubar a qualquer custo a família mais dura da cidade, os Bondurant.

O QUE TENHO A DIZER...
Dirigido por John Hillcoat, o mesmo dos ótimos A Estrada (The Road, 2009) e A Proposta (The Proposition, 2005). Ele ficou conhecido dirigindo vídeos de música para importantes artistas do rock como Nick Cave, Siouxie & The Banshees, Deepeche Mode, Manic Street Preachers, Placebo, Muse, dentre outros, antes do reconhecimento ganho com filmes bem recepcionados pela crítica. Amigo pessoal de Nick Cave, a amizade rendeu bons trabalhos ao longo de sua carreira como diretor de longas metragens, sendo este filme o terceiro na parceria do diretor com o multitalentoso artista australiano que assina o roteiro.
Cantor, músico, compositor, escritor, roteirista e eventualmente ator, Nick Cave é mais conhecido por trabalhos às vezes obscuros, densos ou cruéis, mas sempre mantendo uma linha poética e refinada que aliviam essas características em seus trabalhos.
Por isso este é um daqueles poucos filmes que conseguem realmente surpreender e impressionar não apenas por ter qualidades ímpares e que funcionam com coerência, mas também por ser, de certa forma, baseado em um material histórico que pouca gente tem conhecimento a respeito: a máfia do álcool que tomou conta dos Estados Unidos durante praticamente uma década (1919-1933) com a Lei Seca instaurada em todos os estados do país.
A Lei Seca foi uma ação apoiada fortemente por Protestantes e mulheres, instaurada ainda durante a Primeira Guerra. Dentre as razões dos movimento sociais a favor da proibição da venda de bebidas alcólicas (não podiam ser vendidas bebidas com mais de 2,5% de álcool) estavam: destruir a corrupção existente nos Saloons; acabar com a política dominante de indústria cervejeira alemã; a diminuição da violência doméstica; e aumentar a estocagem de grãos e cereais para o consumo na guerra. Não adiantou muito, já que o consumo do álcool aumentou significantemente em alguns locais específicos, assim como a criminalidade relacionada à sua produção e distribuição, principalmente nos estados da Califórnia e Virgínia.
Por ter se tornado um produto ilegal, obviamente houve o surgimento e crescimento da máfia e guerra entre gangues produtoras e distribuidoras para o domínio do comércio ilegal. Por mais de dez anos os Estados Unidos viveu sob a sombra da emenda proibitiva, e com o passar dos anos, principalmente durante a Grande Depressão, a Lei Seca se tornou impopular, criticada e um exemplo da hipocrisia e da destruição do país e de suas liberdades.

A anti-proibição foi liderada por uma das mulheres que, a princípio, apoiavam a Proibição. Pauline Sabin passou a discursar contra e apoiar uma grande reforma, afirmando que a derrubada da Lei não apenas poderia favorecer o governo com a cobrança de taxas e impostos às produtoras, que seriam muito importantes para o país, como também diminuiria consideravelmente a violência e a "terra de ninguém" que alguns lugares haviam se transformado. O discurso coerente de Pauline foi apoiado principalmente por Franklin Roosevelt, que ao se tornar presidente dos EUA em 1933, assinou a derrocada da proibição no país, deixando a cargo dos estados decidirem suas leis sobre isso.
No meio desse "breve" e pouco conhecido quiprocó (ao menos por aqui) na história norte-americana estava a família dos irmãos John, Howard e Forrest Bondurant, destiladores clandestinos que moravam no Condado de Franklin, no sul da Virgínia, conhecida como "a capital mundial do whisk branco", ou moonshine, como a bebida é popularmente conhecida por lá. Esse termo deriva de sua forma de produção ilegal, já que as destilarias clandestinas funcionavam durante a noite e madrugada (sob a "moon shine", ou seja, o "brilho da lua"). Esses destiladores utilizavam um processo usando radiadores de carro para a condensação do produto. O chumbo, bem como a ferrugem, presente nos ligamentos tubulares, e também o metanol, por conta da fermentação dos grãos ou cereais utilizados na produção, comumente estavam presentes. Embora não em quantidades letais, com excessão de destiladores inescrupulosos que aumentavam a quantidade de metanol barato para enganosamente fortificar o produto, as substâncias tóxicas ainda eram presentes devido a precariedade de algumas produções.
Havia um teste popular feito para descobrir a pureza e a procedência, ao encher uma colher e atear fogo. O destilado confiável deveria queimar uma chama azul, enquanto o adulterado queimaria amarelo. Se houvesse a presença de óleos tóxicos dos radiadores, a chama queimaria em um tom avermelhado, sendo então descartado por sua alta toxidade. Era um método popular seguro, mas que não evitava descobrir a presença do metanol, já que sua chama é invisível.
E assim a família Bondurant sobrevivia e, de certa forma, comandava o condado, alimentando a sede da população com destilados de qualidade ao mesmo tempo que a austeridade, dureza e frieza dos irmãos Forrest e Howard se transformaram em lenda, dando a eles a fama de "invencíveis" não apenas no condado, como nos arredores, o que evitava a aproximação de homens da lei e intimidava inimigos que evitavam inimizades ou confrontos a qualquer custo.
Tudo muda quando, no auge da Lei Seca, o promotor do estado envia para o Condado o agente especial Charlie Rakes (Guy Pearce), com a finalidade de por fim ao tráfico de bebida e destruir todas as destilarias clandestinas existentes, bem como qualquer gangue que dominasse o local. Rakes invade o território dos Bondurant e não apenas os ameaça diretamente como espanca o irmão mais novo, Jack (Shia LaBeouf), como um aviso a Forrest e Howard de que desistam da tentativa de obstruir a lei. O episódio não apenas revolta os irmãos como também é o ponto de partida para uma guerra que dividirá o condado entre aqueles que acreditam em um país livre e aqueles que acreditam nas incoerentes punições da lei.
Sem dúvida o roteiro de Nick Cave e a direção de  John Hillcoat se sobressaem não apenas por estabelecer sucintamente todos os fatos históricos descritos acima, como também pincela as biografias do trio de irmãos baseadas no livro The Wettest County In The World (2008), de Matt Bondurant, decendente direto da família, já que ele é neto de Jack Bondurant, o mais novo dos irmãos. Violento do início ao fim, foi geralmente bem recebido pela crítica especializada e em grande maioria pela leiga, mas muita gente tem saído do cinema um tanto chocada com a crueldade de algumas cenas, que de fato são extremamente impactantes pelo diretor não esconder a brutalidade e o medo coletivo pelo qual aquela população passou. É também de um suspense angustiante, mesmo quando alivia. O psicológico de quem assiste está tão afetado que continua em estado de alerta, apreensivo por alguma coisa que possa acontecer, mesmo que não aconteça.
O elenco sem dúvida alguma é estelar. Shia LeBeouf finalmente perdeu aquela cara de garoto atrapalhado e consegue convencer como o caçula que se sente inferior por não ter o sangue frio e a determinação dos outros irmãos, numa evolução de garoto frágil e apaixonado que deve passar pelos tortuosos caminhos que seus irmãos já passaram para finalmente encontrar em si aquilo que ele acreditava não existir. Jessica Chastain, que ficou reconhecida e roubou a cena com uma interpretação pra lá de cativante em Vidas Cruzadas (The Help, 2011), impressiona mais uma vez como uma ex-dançarina de cabaré que foge para o interior da Virgínia para tentar escapar da brutalidade machista de Chicago. Tom Hardy, que agora está conseguindo alguma ascenção e reconhecimento em Hollywood graças a sua participação como o vilão Bane em O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, 2012), pode ser muito expressivo em toda sua truculência, mas tal qual o vilão Bane, parece que ele está deixando de lado a sutileza que ele tinha antes da fama e entrando numa atuação caricata e viciada, num misto exagerado de Dirty Harry e Duke Mantee, rosnando com uma frequência irritante e desencessária para construir um personagem que naturalmente dispensa exageros. Uma pena, já que esses exageros são os únicos pontos que, quando acontecem, estragam o filme como um arranhado na vitrola durante um tango. Mas quem rouba a cena é Guy Pearce, como o agente de sexualidade duvidosa, em um vilanismo e crueldade fria, cheia de um sórdido requinte tal qual o nazista interpretado por Christopher Waltz em Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009).

Outro grande defeito do filme é não ter aproveitado mais o ator Gary Oldman. Sua participação é bastante pequena e seu personagem era interessante e podia ter tido um maior desenvolvimento na história do que algo tão breve, frente à grande apresentação que o personagem teve e que, posteriormente, parece ter sido esquecido.
Não dá pra ignorar o fato de que é um dos filmes mais expressivos do ano, uma história forte e duplamente real, tanto pelos fatos históricos quanto pelas biografias envolvidas. Segundo o próprio roteirista, Nick Cave, muitas das cenas mais violentas do livro tiveram que ficar de fora, mas que ele tentou ao máximo manter a atmosfera um tanto lírica do livro e que repentinamente é desconstruída numa violência brutal como um tapa na cara. E é exatamente dessa forma como o diretor faz o espectador se sentir. É também sobre uma máfia diferente, de gangues poderosas e de um mundo corrupto e sem leis, numa ironia estranha, mas verdadeira. Diferente de outros filmes e do certo niilismo presente nesse gênero, como os filmes de Scorcese e sua constante pregação determinista de que gângsters devem pagar pelos seus pecados ou serem punidos duramente por seus crimes, aqui a situação é inversa, e mostra que definitivamente muitas vezes os fins justificam os meios para a esperança ser mantida. 
Nick Cave também assina a trilha sonora juntamente com Warren Ellis, acrescentando sua identidade ao estilo bluegrass, deixando de lado a raiz norte-americana de realizá-lo e fazendo-o soar moderno e ousado, ao mesmo tempo que mantém as características básicas do estilo, em um poder sonoro com letras densas e poéticas, em total coerência com as cenas. Um trabalho tipicamente Nick Cave.

Também acredito que o fim poderia ter sido menos corrido, e perto de tanta perversidade mostrada, deveria ter sido algo mais elaborado e construído para a satisfazer a sede de vingança que o público alimenta por duas horas.
CONCLUSÃO...
Impressionante e tenso, ao mesmo tempo que pode surpreender em sequências inusitadamente delicadas e cômicas no meio de tanta violência brutal que sutilmente inspira uma esperança difícil, mas alcançável. Uma produção caprichada, cheia de atenção a pequenos detalhes historicos e biográficos. Uma pena que, embora uma história tipicamente norte-americana, o filme não foi feito da forma norte-americana esperada, e provavelmente será esquecido na temporada de premiações. Pra mim, os únicos defeitos que se destacam no filme é a atuação caricata e viciada de Tom Hardy, bem como não ter aproveitado melhor um elenco de apoio que podia ter sido melhor explorado. De qualquer forma, suas qualidades ofuscam os poucos defeitos, e o resultado é satisfatório e surpreendente. Uma história típica para um diretor como Scorcese, mas que Scorcese mesmo não teria dado uma identidade tão peculiar, mesmo com os defeitos que ele com certeza teria um cuidado fundamental.
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