Translate

Mostrando postagens com marcador Bryan Singer. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bryan Singer. Mostrar todas as postagens

sábado, 4 de junho de 2016

O APOCALIPSE DOS HERÓIS...

★★★★☆
Título: X-Men - Apocalipse
Ano: 2016
Gênero: Super Herói, Ação
Classificação: 12 anos
Direção: Bryan Singer
Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Oscar Isaac, Rose Byrne, Nicholas Hoult, Olivia Munn
País: Estados Unidos
Duração: 144 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Os heróis agora se unem para combater um inimigo ancestral que ressurge com o objetivo de aniquilar a raça humana, dominar os mutantes e destruir os mais fracos.

O QUE TENHO A DIZER...
Em um Egito antigo, com uma tecnologia aparentemente alienígena, nos é apresentado En Saban Nur (A Luz da Manhã, em arábico), mais conhecido como Apocalipse, um dos maiores supervilões dos X-Men e um importante personagem responsável por diversas mudanças dentro do Universo tanto dos heróis, quanto da Marvel, ao longo das décadas. Imortal e invencível, é um personagem curiosamente criado por uma mulher em 1986, Louise Simonson, e uma inteligente sacada da empresa porque ele é a metáfora do ciclo e da renovação, sendo sempre essa a intenção de suas ressurgências e reaparições de época em época. A criação do personagem se deu por uma necessidade, já que foi percebido que algo deveria estar acima de qualquer coisa e que justificasse, inclusive, até mesmo a razão de outros vilões existirem. 

É por isso que Apocalipse é narrado nos quadrinhos como o primeiro da espécie mutante (The First One), sendo ele o início da transição do homo sapiens ao homo superior em uma época em que a humanidade não estava preparada para isso, e nunca esteve. Para o vilão, que respira e transpira a crença da sobrevivência dos mais fortes, todos aqueles considerados fracos devem ser destruídos, não importa quem seja. Seu comportamento impiedoso é evidentemente o lado mais extremista, cruel e determinante daquilo que outros vilões pensam, e ao invés de convergir para o lado mais simples do maniqueísmo segregando ou extinguindo humanos, a intenção e existência dele é forçar a constante evolução selecionando os mais fortes através da guerra, obrigando todos a viverem em um constante caos para a sua própria renovação e preservação.

Por conta de seus poderes e tirania, Saban Nur dominava o Egito no ano de 3600aC, mas foi traído por seus súditos, que soterraram-no em sua própria tumba, enquanto seus Quatro Cavaleiros se sacrificaram para que ele pudesse ser preservado vivo. E é assim que o sexto filme começa, em uma narrativa rápida, escura e confusa o bastante pra deixar muita gente sem saber de fato o que aconteceu ou porquê. O que interessa é que Apocalipse agora está a salvo nos escombros de uma pirâmide soterrada no Cairo há mais de 5 mil anos, esperando um motivo para ser desperto.

Logo em seguida, entre rompantes da trilha sonora e uma breve ilustração que resume historicamente importantes acontecimentos durante os séculos, os créditos iniciais aparecem no típico estilo Bryan Singer de começar seus espetáculos.

É emocionante, principalmente para quem acompanha a trajetória dos heróis no cinema desde 2000. Mas ao mesmo tempo traz uma certa dúvida: será que Singer irá fazer jus à imagem e importância de um personagem tão grandioso e importante nesse universo quanto é Apocalipse?

Este novo capítulo é uma continuação direta do anterior, embora não haja qualquer referência. É o quarto de Singer na direção, e seria respeitável porque foi com os X-Men que ele se tornou o precursor do sucesso da nova leva de filmes de super heróis, e também de toda a renovação da Marvel nos cinemas e nos quadrinhos. Seu único grande erro foi o excesso de liberdade ao adaptá-los, fugindo completamente de certas origens e bagunçando importantes cronologias ao recontar histórias e recriar personagens à sua própria vontade.

Foi em cima dessa crítica comum que Dias de Um Futuro Esquecido (Days Of Future Past, 2014) foi feito, tentando corrigir erros passados e justificar prováveis erros futuros. Embora o filme anterior também tenha alguns buracos e confusões cronológicas dentro da própria franquia, no geral, o objetivo foi alcançado: o de sair dos becos sem saída nos quais a série havia se enfiado. Foi a oportunidade única e bem pensada de Singer para uma renovação geral e, assim, colocar tudo nos eixos novamente e em coerência com os quadrinhos, algo que ele nunca teve. Por isso, nenhuma outra sequência parecia calhar tão bem quanto Apocalipse, exatamente por conta do vilão em si ser o símbolo da mudança, o fim de um ciclo para a contemplação e firmação de outro. Parecia ser um excelente argumento para terminar mais uma trilogia e dar abertura para outra.

Mas não foi assim.

Não se pode esquecer que Primeira Classe (First Class, 2011) surgiu com o o intuito de dar um reboot na franquia que havia acabado na primeira trilogia, e Dias foi como um reboot desse reboot, como que a zerar o universo cinemático dos heróis.

Então, quando Apocalipse foi anunciado, a impressão de ser a segunda parte de uma saga de mudanças fundamentais soava coesa e madura, mas que emplodiram como a pirâmide de Saban Nur quando Singer não resistiu a si mesmo e a sua prepotência. Do filme anterior ele e seu roteirista, Simon Kimberg, nada mantiveram, nem mesmo um tema de fundo que justificasse essa continuação, por isso aparenta ser um reboot do reboot do reboot, como se a intenção agora fosse fazer de X-Men filmes com histórias individuais, sem contexto lógico, apenas para garantir à Fox o uso e exploração dos direitos e da marca, lucrando com a exaltação de fãs que apenas querem ver seus heróis preferidos nas telas, mesmo que eles estejam completamente fora de contexto, como é o caso de Jubileu, ou a própria Psylocke.

Os fãs que se irritaram com Singer ao longo dos anos e aceitaram seu indireto "pedido de desculpas" em Dias, terão outra vez os mesmos motivos para se irritarem.

É inacreditável a habilidade do diretor em desvirtuar histórias já concebidas e consagradas nos quadrinhos para deturpar personagens e suas funções. Nem mesmo o cuidado visual é o mesmo dos filmes anteriores. Se em Primeira Classe um dos pontos mais elogiados no filme de Matthew Vaughn foi a reprodução do final dos anos 60, nesta história, que se passa no início dos anos 80, as relações com a época são pífias. O anacronismo em vestuário, comportamento e tecnologia chegam a ser absurdos, na proposital intenção de deixar tudo o mais acessível possível, adequando o filme e uma época a um público mais jovem e desinformado, e não o contrário. Períodos históricos e suas respectivas épocas sempre tiveram importâncias fundamentais na Marvel, e com X-Men não seria diferente, mas Singer se esqueceu disso por completo, e nesse filme ele usa muita areia, concreto e deserto para disfarçar defeitos e  não obrigar a equipe técnica a se aprofundar em detalhes.

Nunca gostei da forma como Singer caracterizou os personagens ou narrou eventos, e o mesmo pensa muito daqueles que conhecem os materiais originais. Mas ainda sim havia algo a ser admirado, como sua habilidade de conseguir lidar com um grande elenco, de trazer humanidade e naturalidade para o fantástico, além de manter a essência aceitável e complacente das relações metafóricas da sociedade com os mutantes, que nada mais são do que uma metáfora aos diversos grupos sociais discriminados. Seus dois primeiros filmes foram produções que souberam construir uma história, mesmo que própria, sem deixar de entreter ou fugir deliberadamente do contexto no qual estavam inseridos nos quadrinhos. Ou seja, fato e fantasia, tudo aquilo que X-Men sempre soube fazer bem nas bancas e que no cinema, até então, tinha sido bem representado.

Quando Apocalipse desperta de seu sono milenar, ele afirma já ter sido chamado de várias coisas por diferentes eras, pois foi ele quem deu a centelha da vida e espalhou o fogo das civilizações. É nesse momento que você tem certeza que ele seria capaz de erguer uma montanha com um dedo e esmagar Magneto com um suspiro. Ele é alguém para se temer ou borrar as calças apenas de pensar, e é exatamente isso que ele faz quando empareda um homem com o olhar, ou faz o chão engolir dezenas de pessoas apenas com seu desdém. É dele o poder de dar vida ao pó, e ao pó fazer retornar quando bem quiser. Mas tanto poder assim eleva as possibilidades de tudo não parecer tão bom quanto deveria. Não havia necessidade de mostrar tanta onipotência em um filme só. Para que tanto poder se sua derrota é previsível desde o início? Para que insistir em batalhas quando o filme deu tantos poderes a um vilão que poderia desintegrar qualquer um com o estalar dos dedos, mas não o faz? Não houve em momento algum um crescente de acontecimentos desastrosos que levasse a um confronto justificável. Nos quadrinhos, todo esse vasto poder de Apocalipse é aperfeiçoado durante suas hibernações e despertares, portanto, definitivamente, não fazia sentido ele ter tanto poder concentrado para uma primeira aparição.

A grande graça de um vilão como ele é sua inteligência e manipulação. Sua convicção de que aquilo que ele faz tem um propósito eficaz é tão grande que muitas vezes, tenha sido nos quadrinhos ou na série animada, ele conseguia fazer o espectador questionar se ele realmente tinha razão. Isso não acontece no filme. Tudo é muito banal, grosseiro e sem inteligência. É difícil aceitar que Ororo Munroe, a Tempestade, tenha visto ele decaptar pessoas em sua frente e mesmo assim convidá-lo para entrar em sua casa, ou que Psylocke tenha se unido a ele quando, nos quadrinhos, ela sistematicamente lutou contra ele como uma X-Men. Enquanto isso, Mística, uma das mais importantes vilãs, é transformada na principal heroína da história para garantir a Jennifer Lawrence a imagem de queridinha, quando deveria ser a grande oportunidade que Singer tinha nas mãos para mudá-la de lado e fazer crescer a vilania que vimos da personagem nos três primeiros filmes.

O desenvolvimento da história não convence. A forma como ele recruta seus cavaleiros; a falta de um melhor argumento para ele "dominar o mundo"; o comprometimento amador dos heróis em salvar a humanidade; até os interlúdios - como a ridícula aparição de Wolverine, apenas para novamente agradar aos fãs e dizer que ele está lá, bagunçando mais ainda a cronologia - é tudo muito incoerente e mais uma vez desrespeitoso ao legado dos heróis e daquilo que o próprio diretor já fez. Digo isso porque, no objetivo de derrotar ou exilar Apocalipse, sempre foi necessário nos quadrinhos um exército de heróis e vilões que tréguam suas rivalidades para isso, tamanho o medo que ele desperta a todos. Mas nesse filme, não. Aqui, se tiver meia dúzia comprometido pra isso, é muito, e para Singer foi suficiente. Basta lembrar do esforço hercúleo de todos para neutralizar Jean Grey em Confronto Final (The Last Stand, 2006) e comparar com a chacota de Mercúrio surrando o vilão para entenderem o que digo.

Singer parece esgotado de idéias, ou com uma visão borrada por estar mergulhado no mesmo projeto há tantos anos, numa coisa similar a um escritor que, de tanto ler o mesmo texto, não enxerga mais erros de ortografia. O novo longa nada mais é do que um punhado de coisas que não fazem sentido apenas para dizer aos fãs que lá as coisas estão, dando a falsa ilusão de qualidade por corresponder expectativas, mas não por oferecer uma narrativa coerente, consistente. Muita gente argumenta que filmes de heróis são entretenimento e que não é cinema sério, mas a questão não é essa. A questão é levar a sério e respeitar o material pelo qual ele é baseado, só isso daria crédito suficiente.

O filme parecia bem em seu caminho até o momento em que o vilão, para evitar interferências externas, aciona todos os mísseis nucleares do mundo. Naquele instante, pensei, "isso é Apocalipse". Pensei isso porque imaginei que alguns dos mísseis retornariam para atacar algumas nações e todo o conflito ter início, pois é a natureza desse vilão atacar inimigos com suas próprias armas, criando guerras, buscando a destruição em massa para a reconstrução fortalecida. Naquele instante do filme, parecia que Singer havia compreendido todo o potencial da história, mas quando todos os mísseis desarmados ficaram a deriva no espaço, o que parecia certo ficou muito errado.

Tudo é muito óbvio e fácil. Os motivos para o vilão de repente acordar e sair destruindo tudo são rasos. Sim, ele quer dominar o planeta, disso todos sabemos. Mas não há uma razão aprofundada que o motive para isso, que tente convencer e abraçar o espectador para dentro da história e suas convicções. Quem conhece o vilão dos quadrinhos já conhece sua personalidade e sua maneira de agir, mas quem está nos cinemas não, e para essas pessoas, Apocalipse é apenas um cara mau que deve ser aniquilado. E para os fãs, vê-lo nas telas foi apenas uma realização porque, apesar de tudo, Oscar Isaac fez um bom trabalho mesmo com tão pouco. Então, é por essas e outras que muitos dos críticos taxaram este como o pior filme da série, enquanto muitos fãs que apenas queriam ver o vilão nas telas ficaram indgnados com tanta negatividade e tem feito campanhas para que as pessoas ignorem essas críticas.

Não é possível ignorar. No geral houve uma construção muito mal feita dos personagens, bem como suas relações no roteiro. Já havíamos perdoado o fato dos filmes nunca terem mencionado que Vampira é filha adotiva de Mística, mas não se pode perdoar que Noturno e Mística lutem lado a lado como dois adolescentes quando, originalmente, ela é sua mãe biológica. É muita negligência em um filme só frente a tantas outras de Singer esquecidas com o tempo.

Tá, mas e se ignorássemos os quadrinhos, e se eu tivesse que comentar apenas sobre o filme em si, ele seria bom do mesmo jeito? Não. Por mais de duas horas o roteiro leva tudo a lugar algum, há até momento para Singer novamente apelar para o holocausto e nos infortúnios de Magneto no intuito de trazer falsa densidade. É só na última meia hora que o grande confronto ocorre, onde todas as cenas de suposta ação aparecem, aquelas todas que estão no trailer. Mesmo assim essas cenas nem tão boas são porque os efeitos especiais, bem como a movimentação dos atores durante sequências circenses, são tão artificiais que é difícil até mesmo compará-los com o primeiro filme da série, que custou menos da metade e ainda são visualmente melhores.

Desperdiçaram muita coisa para dar atenção às cenas em câmera lenta de Mercúrio. Enquanto em Dias a cena do herói foi um dos momentos ápices por ter pego espectadores de surpresa, foi engraçada principalmente por ser breve e sutil. Dessa vez turbinaram o repeteco, na idéia de que exagerar na reprise o deixaria melhor. E isso não é verdade. Dessa vez, ao som de Eurythmics, a sequência de Mercúrio não teve o mesmo impacto e não funcionou da mesma forma, sequer foi melhor. Ficou longe de causar a mesma hilária surpresa da primeira vez, e o exagero na tiração de sarro apenas desperdiçou tempo e dinheiro. Para realizar essa sequência, sacrificaram os outros heróis e o próprio enredo. Magneto sequer entra em combate, apenas aparece ora aqui, ora alí, erguendo objetos e mais uma vez (MAIS UMA VEZ) destruindo pontes. Mística é poupada de seus poderes frente a câmera sempre que possível, até mesmo da maquiagem. Se em 2000, Rebecca Romjin impressionou com uma maquiagem e caracterização convincentes, nesse filme, Lawrence, A Estrela, é poupada de horas e horas de cadeira, jato de tinta e próteses, tanto que sua maquiagem ao longo dos últimos três filmes apenas piorou, virando algo tão grotesco quanto amador, que seria reprovado em qualquer reality show do tema. É por esse motivo que o número de vezes que Lawrence aparece caracterizada-de-fato consegue ser menor que no filme anterior, ao ponto de ser tão insignificante quanto sua participação na história.

Talvez seja o filme mais sofrível da série, pois empobreceu essências para valorizar tudo que é descartável. Apocalipse é um personagem grandioso, um super vilão por excelência, mas sua ode pela destruição tem uma ordem de complexidade, e assim como a Saga da Fênix, abordada no terceiro filme da série, e novamente abordada aqui como se Fênix fosse parte dos poderes de Jean e não uma entidade, são histórias que não cabem em um único filme porque demandam desenvolvimento gradual e maturação. Não é à toa que nos quadrinhos essas fases não são episódios, mas sagas (ou eras), porque não é apenas sobre a vilania, mas também sobre as consequências disso no mundo que estão inseridos.

O resultado de tudo é a receptividade amena que o filme teve nos cinemas. No primeiro final de semana já arrecadou mais de US$280 milhões no mundo. Já se pagou, mas está longe de atingir o mesmo sucesso de público dos anteriores, e a tendência é cair nas próximas semanas. E pela crítica, até mesmo O Confronto Final nem parece mais ser tão ruim ou desrespeitoso quanto esse, pelo contrário, hoje vejo que Brett Ratner tentou, na medida do seu possível, ter sido mais fiel que Singer jamais foi, e que Jean Grey, possuída pela Fênix, causou muito mais medo nas sequências iniciais e finais do que Apocalipse jamais conseguiu nesse filme.

CONCLUSÃO...
Os personagens que já conhecemos se tornaram vazios, jogados aleatoriamente com relações sem qualquer propósito para bagunçar mais ainda o que já estava bagunçado, como a intromissão de Striker, que não acrescenta nada na história além de garantir a já citada e desnecessária participação de Wolverine. É um filme que sequer consegue ser empolgante, e assim como A Origem da Justiça (Dawn Of Justice, 2016), sofre no seu desenvolvimento, arrastando o espectador em qualquer coisa para um fim trivial.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

SINGER CONSEGUE SAIR PELA TANGENTE...

★★★★★★★
Título: X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido (X-Men: Days Of Future Past)
Ano: 2014
Gênero: Ação
Classificação: 12 anos
Direção: Bryan Singer
Elenco: James McAvoy, Hugh Jackman, Jennifer Lawrence, Michael Fassbender, Ian McKellen, Patrick Stuart, Ellen Page
País: Estados Unidos
Duração: 131 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Wolverine é enviado de volta para a década de 70 para impedir um assassinato que será responsável por dizimar todos os mutantes no futuro.

O QUE TENHO A DIZER...
Há 51 anos atrás a primeira edição de X-Men foi lançada, super heróis mutantes criados por Stan Lee e Jack Kirby pela Marvel Comics. O sucesso desses heróis é visto até os dias de hoje, valendo sempre dizer que eles, juntamente com o diretor Bryan Singer, foram responsáveis e pioneiros por mostrarem no início de 2000 que havia possibilidades do cinema de ação trabalhar com os quadrinhos de maneira relevante tanto como entretenimento como um produto comercial que não fosse inteiramente descartável. Tanto que 90% dos filmes de ação do verão norteamericano nos últimos anos tem sido apenas de super heróis, sejam eles da Marvel ou da DC.

Os X-Men nos quadrinhos se destacaram por vários motivos, mas um deles era de suas histórias se adaptarem com as épocas e fatos que viviam e até mesmo incoroporá-las em suas tramas, o que também deu certo e funcionou no cinema. Mas com o passar dos anos as histórias publicadas perderam fôlego e ficaram confusas, os personagens começaram a entrar em um loop infinito de erros, discordâncias e anacronismos ao ponto de todo o Universo Marvel ter sofrido imensas transformações principalmente nos anos 90 até culminar com a Era do Apocalipse, um evento que zerou novamente todo o universo, e isso sempre vai acontecer quando tudo bagunçar, como aconteceu no ano passado em que parte da Marvel foi novamente resetada com a chegada do Marvel Now (Nova Marvel, no Brasil).

Com o lançamento do primeiro filme dos X-Men em 2000, Bryan Singer teve boas intenções, porém seu excesso de autoestima e afirmação fez o diretor se precipitar ao pegar a história dos mutantes e recontá-la à sua maneira. Singer se manteve fiel a alguns personagens chaves, mas reinventou a história particular muitos deles a seu bel prazer, o que gerou uma confusão entre aquilo que fãs já conheciam e novos fãs estavam conhecendo, tanto que a Marvel teve que sambar para recontar suas histórias publicadas e diminuir essa grande incoerência do que se viu nas telas com o que existia nos quadrinhos até então.

De uma maneira geral, os dois primeiros filmes de Singer funcionaram nas telas e são as referências em qualidade até hoje, mas o terceiro filme, dirigido por Brett Ratner, deixou a desejar e foi quase um suicídio da franquia. Em 2011, houve uma tentativa de fazer um reboot da série, e Matthew Vaughn foi escalado para dirigir o quarto filme, entitulado Primeira Classe, que seria uma pré-sequencia da trilogia original ao contar como Charles Xavier fundou sua escola de jovens super dotados na década de 60, e como a curiosa relação entre ele e seu amigo Erik Lensherr/Magneto culminou em discordâncias ideológicas e se transformou em uma das mais clássicas e conhecidas rivalidade dos quadrinhos.

E aquilo que era pra ser o reinício de uma franquia e esquecer tudo que foi feito anteriormente, se transformou numa discussão entre a massa de fãs que se perguntava: como dar continuidade a essa história e alinhá-la à história da trilogia original?

Depois de ter abandonado a franquia para uma fracassada tentativa de reviver o ícone da DC em Superman Returns (2006), ninguém seria melhor que Bryan Singer para retornar à direção 10 anos depois justamente para realizar esta ponte entre os filmes e (tentar) consertar todos os erros cometidos no passado, inclusive por ele mesmo.

E funcionou?

Por incrível que pareça, sim.

A habilidade de Singer em administrar um grande número de personagens e de tramas paralelas é inegável e novamente visto aqui. Mas dessa vez Singer não apenas teve de lidar com as tramas paralelas do próprio filme como também com os buracos dos anteriores. Muitos dos erros são consertados de maneira discreta, e embora as referências aos filmes anteriores existam o tempo todo (incluindo também os dois péssimos spinoffs de Wolverine), muitas delas são feitas de maneira indireta justamente para não deixar o novo espectador confuso ou perdido e há até momentos para brincar com algumas situações inusitadas, como mostrar em uma sequencia de onde vem o trauma de Wolverine em viajar de avião.

Claro que isso não significa que seja necessário assistir os filmes anteriores para entender este, muito embora deva ser uma obrigação. Mas essa obrigação é para observar como Singer realmente conseguiu transformar tudo, entre erros e acertos, em um produto condensado, aceitável e grandioso dentro de todos esse complexo mundo confuso que ficou os dos X-Men. Parece que Singer finalmente deixou sua arrogante individualidade de lado e resolveu dar ouvido a base de fãs, pois entre méritos e deméritos, construções e desconstruções, este é o filme mais relevante dos X-Men como uma verdadeira adaptação.

A história se passa dez anos depois do Primeira Classe e 50 anos antes da dizimação dos mutantes na Terra. Esse período é baseado em um episódio dos quadrinhos que leva o mesmo nome e que também já foi adaptado na primeira série animada. Tudo começa com uma boa sequencia de ação no futuro, que teoricamente se passaria nos nossos dias atuais, só que completamente diferente do nosso presente, sendo muito mais tecnológico e apocalíptico. Depois perde o ritmo com piadinhas manjadas e uma crise depressiva de Xavier-jovem que não convence muito até mesmo pela facilidade com que ele é convencido a ajudar o Xavier-velho. Há outros momentos já vistos antes, como novamente Magneto isolado em uma prisão de segurança máxima, ou Wolverine novamente sendo neutralizado por Magneto, a relação de amor e ódio entre Xavier e Magneto, e a sempre clássica dúvida entre tentar viver em harmonia com os humanos ou não. Não há uma cena de batalha realmente impressionante ou de tirar o fôlego como nos filmes anteriores, mas nas poucas que existem, como nas batalhas com os Sentinelas, podemos sentir aquele gostinho muito bom de vê-los trabalhando em equipe, o verdadeiro grande atrativo dos X-Men.

Os personagens mais conhecidos estão presentes, e claro que a história novamente vai se concentrar nos personagens mais populares e nos atores que possuem mais relevancia popular e comercial, como Wolverine (Hugh Jackman, reprisando o papel pela sétima vez), Mística (Jennifer Lawrence, atualmente a atriz mais bem paga do cinema) e Magneto (Michael Fassbender, o alemão de ouro de Hollywood). Alguns que fizeram apenas algumas pontas nos anteriores voltaram com alguma participação maior, como Colossus (que outra vez entra mudo e sai calado), Kitty Pride (Ellen Page novamente fazendo aquela sempre cara de que não está nenhum pouco a fim de fazer o filme) e Bob Drake/Homem Gelo (sempre querendo fazer mais, mas Singer sempre oferecendo de menos). Novos mutantes agora aparecem como Quicksilver (que nos quadrinhos é filho de Magneto), Sunspot (não confundi-lo com o Homem Tocha de Quarteto Fantástico), Blink e Bishop, esses três últimos apenas para incrementar as cenas de ação, já que não possuem qualquer relevância em toda a trama.

Essa mania de concentrar as histórias sempre nos personagens ou nos atores mais populares é, talvez, o grande defeito de todo o filme, porque X-Men não é Wolverine, e essa noção de "trabalho em equipe", que sempre foi um dos fundamentos principais de Xavier, se perde. Diferente de Os Vingadores (The Avengers, 2012), em que o Homem de Ferro se tornou o personagem mais popular por conta de sua franquia e mesmo assim o filme soube dar momentos especiais para todos os demais personagens. Mas isso nunca acontece de maneira satisfatória nesse filme.

Apesar de Singer tentar consertar algumas coisas e encaixar a história com os quadrinhos de uma forma que ele nunca havia feito, ele ainda insiste na mesma tecla de deturpar as histórias dos personagens e criar as suas próprias, como o fato de Bishop (que nos quadrinhos é o verdadeiro viajante do tempo) ser o personagem que menos tem a ver com tudo isso no filme, e agora Kitty Pride ter esse novo poder de transportar a consciência dos mutantes para o passado, quando isso deveria ser uma missão de Xavier, Jean Grey, Emma Frost ou até mesmo uma simples máquina no tempo, como aquelas criadas pelo personagem Forge nos quadrinhos. Essas são, talvez, as maiores heresias cometida por ele, e imperdoáveis no ponto de vista de quem conhece a função de cada um nessa história. Essas gafes colossais realmente deixam os fãs um tanto decepcionados, mas para aqueles que pouco conhecem a fundo a história dos mutantes, nada disso é percebido, nem mesmo serão percebidos os erros de continuidade e questões chaves que não deveriam ter sido ignoradas, como o website SCREENRANT publicou.

Na parte do design de produção e figurino, é notável a queda de qualidade do filme anterior para esse. Se em Primeira Classe a década de 60 foi reproduzida com uma qualidade de encher os olhos e, inclusive, elogiada pela crítica em sua maioria, neste filme a década de 70 nem se parece com ela, principalmente depois do deleite visual de Trapaça (American Hustle, 2013). No filme há até um notebook com tela LCD. Além desse ato falho e absurdamente anacrônico, é engraçado observar a atuação dos figurantes, que de tão mal dirigidos ou dirigidos com pressa, fica evitente a mecânica e a coreografia de organização. Enfim, erros pequenos para quem enxerga pouco, mas bem graves para uma produção de US$200 milhões.

Como um todo, não há como negar que Singer conseguiu, a duras penas, aprender que com os X-Men não se brinca e sair pela tangente de maneira fina. A Marvel estava muito preocupada com o que fazer sobre a terceira franquia mais lucrativa da empresa e um dos principais ícones de sua marca. A sequencia final, por si só, define a razão do filme existir e já vale a pena todos os seus 131 minutos, como também é um final nostálgico, trágico e emocionante, que conseguiu transportar pra tela muito desse misto de angústia e esperança que os quadrinhos e a primeira série animada conseguiram fazer, além de, inclusive, dar gás para novos filmes no futuro (uma nova sequencia já foi anunciada para 2016).

Sorte teve Singer em conseguir encontrar linhas comuns entre todos os individuais filmes e, ironicamente, tal qual como o filme, seus erros do passado justificam os resultados desse novo episódio.

CONCLUSÃO...
Novamente é Singer fazendo tudo da sua forma, mas sua habilidade de conseguir lidar com diversos personagens e tramas paralelas fazem desse filme um grande divisor nesta pentalogia. Claro que vai agradar mais os fãs dos filmes do que dos quadrinhos, mas nem por isso vai deixar de emocionar os mais exigentes ao ver seus heróis preferidos personificados na tela, mas também vai despertar o ódio por muitos erros de continuação existirem e questões fundamentais da trilogia original terem sido ignoradas.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

FE-FI-FO-FLOP!

★★★★★★
Título: Jack, O Caçador de Gigantes (Jack, The Giant Slayer)
Ano: 2013
Gênero: Ação, Aventura, Fantasia
Classificação: 10 anos
Direção: Brian Synger
Elenco:
País: Estados Unidos
Duração: 114 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Jack é um jovem plebeu que cresceu ouvindo história de gigantes que devoravam humanos e foram expulsos para um território entre o céu e a terra. Um dia o destino lhe coloca nas mãos um punhado de feijões que podem mudar o curso de toda a humanidade caso germinem. E acreditem, um deles germina.

O QUE TENHO A DIZER...
Jack, O Caçador de Gigantes é dirigido pelo ganacioso e orgulhoso Bryan Singer. O filme é baseado no conto inglês por aqui conhecido como João e o Pé de Feijão e foi um dos maiores imediatos fracassos de bilheteria do ano, entrou para um dos maiores da história e é o grande primeiro fracasso da vida do diretor. O filme custou aproximadamente US$195 milhões, e arrecadou "apenas", e com muito sacrifício, um pouco mais de US$ 65 milhões só nos EUA. Ou seja, nem ao menos a metade. Isso para um diretor qualquer seria um suicídio na carreira, bem como já aconteceu com tantos outros, porém Singer tem a sorte de estar ligado a uma franquia que pode ressucitar sua carreira quando ele quiser, a dos X-Men. Isto é... se tudo correr bem.

Aliás, foi a partir dessa franquia que o diretor ficou famoso, mas chegou a esnobá-la ao abandonar a FOX e migrar para a concorrente Warner para dirigir o esquecível Superman, O Retorno (Superman Returns, 2006), no interesse grandioso de transformá-lo em uma grande nova referência dos filmes de super-heróis. Com um sucesso mediano e bastante aquém do que a Warner esperava, o diretor foi posto na geladeira por um tempo. Ao mesmo tempo, X-Men - O Confronto Final (X-Men: The Last Stand, 2006), a terceira parte da franquia que Singer desistiu de dirigir, também não foi lá grandes coisas e recebeu um jorro de críticas negativas principalmente pelos fãs.

Foi por conta disso que, em 2008, o diretor foi convidado para dirigir o reboot dos mutantes, X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class, 2011). Singer diz para a mídia que negou o convite por conflitos de agenda, pois estava "mergulhado" na produção de João, um projeto pessoal que há muito ele queria fazer, porém a impressão que se tem vai além disso, e aparenta que a concorrente Warner não aceitou dispensá-lo para voltar a FOX sem antes lhe render mais um produto descartável para uma leva de filmes baseados em contos de fada (tanto que após a conclusão de João, Singer retomou as rédeas dos mutantes e dirigirá o próximo capítulo do reboot, Dias De Um Passado Esquecido).

Ok, João não desaponta, e dentre os filmes baseados em contos de fada, ele é de longe o mais considerável. O personagem principal é interpretado por Nicholas Hoult, o zumbi simpático de Meu Namorado É Um Zumbi (Warm Bodies, 2013), ele não precisa de muito para convencer, mas tem um bom desempenho mesmo assim. O filme já começa grandioso, do jeito que Singer aprendeu a gostar, espetaculoso, com uma narrativa de abertura semalhante a de O Senhor Dos Anéis, cheio de efeitos e trilha sonora orquestrada recheada de rompantes sonoros estridentes para motivar e chamar a atenção logo no começo até mesmo os pouco interessados.

A história parte do princípio de que a história dos gigantes é uma história. Entenderam? Essa história era lida por duas pessoas muito distintas: uma rainha, que contava a história para sua filha, e um plebeu, que contava a história para seu filho. Isso já deixa claro que, em algum momento do filme o destino os unirá, e isso acontece quando o feijão germina e leva para a terra de gigantes a casa de João com a princesa dentro, e João fica na terra dos pequenos, inconsciente depois de ter caído do pé enquanto ele crescia. O rei, apavorado, envia uma leva de pessoas para resgatar a princesa, e João se voluntaria porque está apaixonado (óbvio).

O enredo é infantil, mas não há como negar que Singer sabe conduzir uma história, por mais banal que seja, dando um dinamismo e uma versatilidade que deixa tudo muito interessante mesmo nas situações mais banais. Os efeitos especiais são deslumbrantes, e ficam mais interessantes por não terem a intenção de ser perfeito, já que os gigantes são desformes de forma caricata, e com uma postura assustadora apenas para deixar criancinhas de olhos esbugalhados, vidrados no filme. Enfim, a gente vê na tela de forma explícita onde os US$195 milhões foram usados.

Mas é aquela coisa... conto de fada é conto de fada e essas histórias já fazem parte de um consciente coletivo que já demonstrou que não estã interessado em visões particulares sobre ela. Uma coisa é você ouvir ou ler uma delas, outra coisa é você tentar engolir uma imaginação já pronta. É a mesma coisa que a vida toda você acreditar que Chapeuzinho Vermelho tem os cabelos castanhos escuros, e de repente aparece Amanda Seyfried mais loura que palha de milho. É difícil.

CONCLUSÃO...
Por melhores que tenham sido as intenções de Singer, o filme é grandioso e não chega a ser uma perda de tempo, mas é um fracasso considerável e que nos faz questionar se adaptações de contos de fadas são realmente necessárias em um mundo onde novos contos podem surgir.
Add to Flipboard Magazine.