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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

MULHERES FAZEM A FORÇA...

★★★★★★★★★☆
Título: Big Little Lies
Ano: 2017
Gênero: Drama, Suspense, Mistério
Classificação: 16 anos
Direção: Jean-Marc Vallée
Elenco: Nicole Kidman, Reese Witherspoon, Shailene Woodley, Alexander Skarsgård, Adam Scott, Zoë Kravitz, James Tupper
País: Estados Unidos
Duração: 60 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
As histórias de três mulheres, de suas respectivas famílias, e da relação existente entre elas, são expostas após um controverso assassinato.

O QUE TENHO A DIZER...
Houve uma época em que David E. Kelley era o J.J. Abrams dos anos 90/00, sendo conhecido principalmente por suas séries com bases jurídicas, já que ele mesmo foi advogado, largando a carreira para construir a de produtor de TV. Criou sucessos premiados como Ally McBeall (1997-2002), The Practice (1997-2004) e Boston Legal (2004-2008), também tiveram os aclamados Chicago Hope (1994-2000), Boston Public (2000-2004) e alguns outros. Mas advogados e séries era o seu negócio e sua característica como criador e produtor. Naquela época parecia que Kelley não tinha freios, e acumulou em sua carreira um total de 11 Emmys, sendo o último recebido por Big Little Lies, sua última criação até o momento, baseada no livro homônimo de Liane Moriarty, com roteiro adaptado integralmente por ele.

Mesmo tendo uma outra série em destaque no Amazon Prime, com Goliath (2016-), Big Little Lies é o grande retorno de Kelley depois de alguns anos um tanto apagado. A popularidade e o sucesso da mini-série não só trouxe de volta um dos maiores produtores aos holofotes, mas também o tirou completamente da zona de conforto daquilo que se condicionou a fazer e produzir ao longo de duas décadas.

Ter um roteiro bem escrito, cheio de elementos dispersantes (mas sem ser confuso), uma direção efetiva e que consegue lidar com o elenco peso-pesado, além de uma história intrigante e que reflete de maneiras, ora subliminares, ora diretas, muito daquilo que é a nossa sociedade moderna, não são os únicos elementos que deram créditos, superexposição e superestimação à série. A guerra pelos direitos do livro entre Netflix e HBO botou lenha nessa fogueira, e a partir do momento que HBO ganhou a licitação, um grande selo de qualidade foi carimbado, principalmente em tempos de Game Of Thrones, um dos maiores sucessos do canal pago até então. Além disso, o elenco formado excepcionalmente por estrelas de diferentes grandezas como Nicole Kidman, Reese Witherspoon, Laura Dern, Shailene Woodley e Alexander Skarsgård, fortaleceu mais ainda a imagem de que Hollywood tem buscado cada vez mais a televisão para se expandir, e que o encaretamento do cinema tem feito astros e estrelas encontrarem aporto e desafio em produções que fujam do status quo das salas de projeção.

Além disso, Big Little Lies é uma das poucas produções com debates claramente feministas e empoderadores que atraiu não apenas a atenção do público feminino em massa, como também do masculino, o mais resistente a temas como esse, já que, além de um drama, também é uma série de suspense e mistério.

Cada uma das personagens principais abordará basicamente um tema específico, como a maternidade ultraprotetora de Madeleine (Reese Whiterpoon), a violência e submissão doméstica de Celeste (Nicole Kidman), os traumas e as dificuldades da maternidade solitária de Jane (Shailene Woodley), o sucesso e a referência empresarial de Renata (Laura Dern) e, mais coadjuvante, porém nem menos importante, a liberalidade de Boonie (Zoë Kravitz). Todas elas com diferentes narrativas, construções e desenvolvimentos, ao mesmo tempo que dividem outras poucas qualidades em comum, como a independência financeira, idéias mais progressistas e menos arbitrárias do que a sociedade em que vivem na pacata, bem sucedida, porém conservadora e hipócrita cidade de Monterey, na Califórnia.

O roteiro tem sua parte linear, mas constantemente interrompida por flashbacks confusos de um passado mais distante, que aos poucos vão fazendo sentido conforme os episódios avançam. E também flashbacks mais recentes e coesos de certos fatos momentâneos ocultados para aumentar o nível de surpresa de suas revelações. Longe de ser uma novidade, essa narrativa desconstruída é o elemento que mais tem sido usado na televisão nos últimos 10 anos para elevar o suspense e a apreensão, conquistando facilmente a atenção do espectador, fazendo-o cair como um pato no gancho que o segura para o próximo capítulo. Não é um elemento ruim, mas para quem já o conhece de outros seriados como Damages, Bloodline ou até no mais recente The Sinner, não verá nisso algo realmente atraente, pelo contrário, nem damos muito atenção porque já se tornou previsível para os familiarizados.

De qualquer forma, são as abordagens sociais inseridas no contexto que trazem um certo charme repulsivo nas situações. A maioria  sobre as heranças históricas do comportamento feminino e a adequação delas na sociedade moderna, e da relação individual e coletiva das mulheres em comunidade. Temas complexos que envolvem todo um ecossistema, e não são simplesmente questões de gênero, do tipo: "mulheres são fofoqueiras porque é parte de sua natureza"; ou "mulheres não perdoam porque é parte da personalidade delas"; ou "elas são do jeito que são por questões hormonais". Respostas simplistas para uma sociedade machista que historicamente condicionou cada uma delas a estereótipos que encontramos a todo momento, e a coletivamente se comportarem como se comportam.

É a partir do momento que cada uma dessas personagens desafia o meio em que vive e entra em conflito com suas próprias crenças e raízes sociais que a transformação começa a ocorrer entre elas e na relação que as personagens passam a desenvolver entre si. Mulheres que, a princípio, começam a transferir suas pessoais frustrações a seus filhos e famílias, ao invés de resolverem os problemas fundamentais que causam esses dilemas. Não resolvem não por inalibilidade, mas por medo do julgamento social, da exploração indevida da imagem imaculada de mulheres perfeitas cobrada pela sociedade e fora do ambiente doméstico.

Sim, quando analisamos a fundo, Big Little Lies é uma versão mais séria e centrada de Desperate Housewives, e Monterey não é nada diferente da fictícia Wisteria Lane. Dos depoimentos maldosos até o comportamento mais cínico e desprezível de pessoas que apenas conhecem as protagonistas superficialmente, tudo é, de fato, fundamentado em fofocas, como cantigas de escárnio ou maldizer. E conforme mais as conhecemos, mais enjoados ficamos com observações tão falaciosas dos outros sobre elas.

Mesmo em toda a plasticidade apresentada, existe uma naturalidade palpável na forma como a série é conduzida. Os méritos disso ocorrem por duas razões principais, a primeira pela série ser produzida em grande parte por mulheres, incluindo Kidman e Witherspoon. A segunda é a direção de Jean-Marc Vallée, o mesmo de Livre (2014) e Clube de Compras Dallas (2013), que não apenas deu liberdade de criação ao elenco, como também de movimento, abolindo uso de iluminação artificial para que não houvesse obstáculos entre o cenário e os atores, e para que a sensação de realismo fosse maior. E funciona.

Kidman, por mais que ainda tente manter a aparência mais perfeita possível, não tem vergonha de se expor em cenas que acabam sendo as mais fortes e chocantes. Felizmente as intervenções cosméticas se amenizaram e ela agora tem expressões faciais novamente. O mesmo sobre Witherspoon, que por trás da imagem fútil e mesquinha, se mostra uma das personagens mais fortes e intrigantes. E aos poucos é assim que as relações são construídas entre elas, pessoas que criaram vínculos com outras que possuem o mesmo sentimento de não se enquadrarem no padrão exigido, por mais que tentem se adequar a ele, descobrindo que existe muito mais na realidade do que a vã filosofia dos outros.

É uma série que, a princípio, não se sabe muito bem sobre o que é, sobre o que irá falar ou qual é seu objetivo. Não chega a ser dramática ao ponto de arrancar lágrimas e soluços, mas trata de temas complexos e bastante deprimentes. Os alívios cômicos estão lá, espalhados pelos episódios, bem como o suspense e o mistério desde o primeiro capítulo, que começa como em O Rebu (2014), com um crime ocorrido durante uma festa promovida para a alta sociedade, do qual não saberemos quem foi a vítima e muito menos quem foi o assassino, até o último momento do último capítulo. Inclusive, esse foi um dos grandes êxitos, já que a mídia em geral parece ter assinado um contrato de confidencialidade, revelando nada além do mínimo necessário para não estragar prováveis surpresas, embora muita coisa se torne bastante previsível depois de um certo ponto, e confesso que, no quarto capítulo eu já deduzi toda a resolução da história, com uns 95% de acerto.

Uma série boa e muito bem construída, com alguns errinhos de continuidade aqui e ali, mas nada criminoso. Mas com tantos elementos reutilizados de narrativas de outras produções, Big Little Lies funciona pela bela química resultante de tantas idéias particulares e um esforço coletivo para que o projeto desse certo de maneira visível e quase palpável. Pode figurar entre as melhores produções do ano sim, mas o lobby em cima dele tem ofuscado outras séries que merecem as maiores premiações do ano, mais do que aqui, como: Feud, The Sinner (por sinal, muito mais intrigante) e Fargo.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

INCOERENTE...

★★★★
Título: Divergente (Divergent)
Ano: 2014
Gênero: Ação
Classificação: 12 anos
Direção: Neil Burger
Elenco: Shailene Woodley, Theo James, Ashley Judd, Kate Winslet
País: Estados Unidos
Duração: 139 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Chegou a hora de Beatrice (Shailene Woodley) escolher a qual facção pertence, mesmo ela não tendo idéia de qual deva escolher, já que ela na verdade pode ser de qualquer uma, o que a caracteriza como uma divergente.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é dirigido por Neil Burger, mais conhecido por filmes como o elogiado O Ilusionista (The Illusionist, 2006), o competente Gente de Sorte (The Lucky Ones, 2008) e o pouco relembrado sucesso Sem Limite (Limitless, 2011). Ou seja, Burger não é um diretor ruim, e ele consegue usar bem suas experiências adquiridas nos diferentes gêneros de seus filmes anteriores pra tentar construir alguma coisa em uma narrativa cheia de altos e baixos de um roteiro perdido em um filme que podia muito mais chamar Incoerente do que qualquer outra coisa.

Seguindo as portas que a Saga Crepúsculo abriu, o filme é mais uma adaptação de uma trilogia de livros para adolescentes/adultos jovens escrita por Veronica Roth (a atualmente milionária autora tem apenas 26 anos) e o primeiro livro foi originalmente lançado em 2011. Essas adaptações vem apresentando sinais de cansaço, já que depois da consagração de Jogos Vorazes (The Hunger Games, 2012), tudo o que os estúdios querem agora são produtos similares. Foi assim com o fracasso de Ender's Game (2013), que não haverá continuações, e com a grande expectativa em cima de Correr ou Morrer (The Maze Runner, 2014), também parte de uma trilogia, a ser lançado em Setembro. Isso tem levado o público a inevitavelmente fazer comparações com a adaptação de Suzanne Collins e seus Jogos, já que todas adaptações em produção agora estão vindo dentro de um mesmo pacote de jovens sobrevivendo em um mundo futurista ou distópico que remeta a paralelos sociais e políticos atuais só para não soarem tão superficiais, levando o público a ter a iminente sensação de deja vu. Por conta disso, Divergente suou a camisa para arrecadar mundialmente os US$275 milhões que (in)felizmente garantiram suas continuações (o primeiro Jogos Vorazes arrecadou mais que isso em apenas uma semana).

A história, cheia de demasiados e irrelevantes detalhes, vai se passar em uma Chicago futurista, destruída por uma terrível guerra que a isolou do resto do mundo por uma grandiosa muralha. A sociedade agora é determinada por cinco facções: Abnegação, Amizade, Audácia, Franqueza e Erudição. Cada uma delas possui uma função específica na sociedade e é obrigatório que os jovens, em uma determinada idade, realizem um teste (algo como um teste vocacional) que mostra qual sua tendência faccional, ao mesmo tempo que ele terá, por uma única vez, a liberdade de escolher qual facção deseja fazer parte para o resto de sua vida, independente do resultado. Caso ele desista ou não se encaixe na facção escolhida, ele não terá outra oportunidade e será jogado na rua como um desertor, vivendo como um mendigo (ahn???). As facções e todas essas exigências existem para manter o equilíbrio e a ordem na sociedade. Ao mesmo tempo, nenhum membro de uma facção deve ter contato com os membros de outra, nem mesmo com familiares (ahn??? de novo). O problema surge quando um jovem tem tendência para qualquer uma das facções (ou a nenhuma delas), sendo então essas "raras" pessoas denominadas divergentes. Por serem divergentes, acredita-se na potencialidade de serem rebeldes e desequilibrarem a estrutura social com suas "naturezas humanas", gerando o caos, a violência, a guerra, dentre outras coisas. Beatrice (Shailene Woodley) é uma divergente tal qual seu mentor, Quatro (Theo James). Ela descobriu isso no dia do teste, mas só vai perceber a gravidade disso quando Jeanine (Kate Winslet), a chefe dos eruditos, resolve realizar uma caça às bruxas aos divergentes, já que eles podem atrapalhar seus planos de dominação. Ou seja, uma referência sobre fascimo político bem, mas bem pobre.

O grande problema é sem dúvida os mil detalhes irrelevantes apenas pra dar volume e uma complexidade tão vazia que chega a doer, porque a base dela é um paralelo bem fajuto ao fascismo político. Nem a autora (nem os roteiristas) tiveram ao menos o cuidado de transformar essa situação em uma referência simbólica para justificar a alienação dos personagens sobre isso. As facções são denominadas facções de fato, e isso, por si só, já classifica o fascismo latente que os personagens vivem. Só que o engraçado é que os personagens foram construídos de tal forma que ignoram isso completamente desde o princípio e pra eles todo esse autoritarismo e toda essa segregação é muito normal e uma festa, até que, finalmente, um raio cai na cabeça da personagem principal e ela se toca de que alguma coisa errada acontece. Uau... acho que não precisava ser nenhum membro da Erudição para perceber isso, não é? Se bem que nem eles mesmos percebem...

Então a incoerência e absurdez começa aí, e pra levar o filme a sério só se for adolescente que não gosta de História ou que nem chegou nas aulas sobre Mussolini ainda, porque o enredo realmente é uma bobagem sem tamanho. Tudo bem que dar um tom de seriedade é o que Jogos Vorazes também tenta fazer, mas ao menos a história não esconde em momento algum que tudo que é feito, narrado ou mostrado é um grande pão com ovo mesmo. Divergente deveria ter feito o mesmo, pelo menos se desde o princípio algum personagem já tivesse expressado alguma grande insatisfação sobre todo esse regime que vivem, ao menos a história seria um pouco mais convincente.

Mas aí você também tem os grandes buracos na história que não explicam nada ou que conflitam com outras, como razão da cidade ter um muro. A única explicação dada no próprio filme é que o muro existe porque tem que existir. Ok, obrigado! Talvez seja explicado nos filmes posteriores, mas agora não me interessa mais. Ou o governo querer ser tão equilibrado que quem não se encaixa em uma facção, ou não quer mais fazer parte dela, automaticamente vira um mendigo. Parabéns, isso realmente é a solução! Ou a pior de todas, na minha opinião, é Beatrice ser considerada "divergente", pelo menos segundo explicação do filme, por se enquadrar em qualquer facção. Isso pra mim não é ser divergente, mas convergente e coerente. Portanto toda essa criação que a autora fez para esse mundo distópico aparenta ser bem distópico mesmo, mas no sentido de ser completamente sem pé nem cabeça só pra dar razão pra um bando de adolescente tatuato se rebelar com alguma coisa. Pode ser que o livro seja diferente nessas abordagens, mas desconheço e realmente é difícil acreditar nisso.

Segue todo o erro na também forçação de barra de transformar Shailene Woodley em uma nova Jennifer Lawrence. Isso foi tão nítido que logo após o filme ter sido lançado ela estava com o mesmo corte de cabelo de Laurence e com um visual totalmente repaginado pra também tentar virar um ícone da moda em Hollywood. Ela não é uma atriz ruim, mas também não possui o mesmo carisma e versatilidade. Shailene não consegue ser sutil. Ou ela chora escancaradamente, ou grita histericamente, ou está sempre com aquela cara de quem sofre o tempo todo, algo que funcionou muito bem em O Espetacular Agora (The Spectacular Now, 2013) e pode ter convencido em A Culpa é das Estrelas (The Fault In Our Stars, 2014), mas ela definitivamente não é uma atriz de ação. E ação é o que o filme tem bem pouco, pelo menos nessa primeira parte (as demais continuações já foram anunciadas).

O filme só toma um pouco de forma depois de uma hora, quando realmente não dá pra ignorar como a história quer a todo custo realizar um comparativo com a nossa realidade de como as pessoas são facilmente manipuladas, e como a sociedade realmente critica e oprime aqueles que pensam um pouco diferente da maioria. Talvez, a única moral efetivamente interessante, mas que vai ser bem ignorada no meio de tanta alienação. Mas como um todo, nem o elenco salva, com Kate Winslet na pior personagem de sua carreira e Ashley Judd se rendendo a papéis tão coadjuvantes que quando ela finalmente tem alguma oportunidade, ela morre.

CONCLUSÃO...
É um filme tipicamente adolescente, percentual da população que é a mais influenciavel pela mídia na atualidade e por isso já espero um monte deles com essas tatuagens por aí. Assim como aconteceu com Jogos Vorazes, que sofreu uma brusca mudança de narrativa no filme para compensar as falhas do livro, em Divergente isso também deveria ter acontecido para lapidar uma história que não é de toda ruim, mas muito exagerada e com dezenas de detalhes irrelevantes apenas para, no meu ver, aumentar as páginas do livro e ultrapassar as duas horas de duração. Irrelevante também poderia ser um bom nome.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

BEM VINDA MATURIDADE...

★★★★★★★★
Gênero: Drama, Romance, ComédiaTítulo: O Espetacular Agora (The Spectacular Now)
Ano: 2013
Classificação: 12 anos
Direção: James Ponsoldt
Elenco: Miles Teller, Shailene Woodley, Brie Larson, Kyle Chandler, Jennifer Jason Leigh
País: Estados Unidos
Duração: 95 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um rapaz de 18 anos que entra em choque com sua própria realidade quando conhece uma garota prestes a entrar em choque com várias realidades.

O QUE TENHO A DIZER...
O Espetacular Agora é o terceiro filme do diretor James Ponsoldt, com roteiro dos mesmos escritores de (500) Dias Com Ela (500 Days Of Summer, 2009) e é baseado no livro homônimo de Tim Tharp. Teve estréia no Festival de Sundance de 2013, o qual foi bem recebido e, em geral, recebeu comentários bastante positivos da crítica mundial.

Mas ao contrário da espetacular comédia romântica (500) Dias Com Ela, esta não é uma comédia, e muito menos romântica, muito embora tenha alguns esparsos momentos cômicos e românticos, sendo assim que o filme tem sido divulgado, quando na verdade é um drama romântico adolescente incomum, que surpreende por ter uma abordagem madura o suficiente para servir até como uma metáfora, ou mais precisamente, uma indireta aos mais velhos que o assistirem, pois consegue ser sério e adulto em sua mais pura essência, mesmo que atuado por jovens cujos conflitos giram em torno deles.

Sutter (Miles Teller) é um garoto aparentemente comum como qualquer outro de sua idade, ele não é muito atraente e muito menos faz parte do time de futebol do colégio, mas mesmo assim é um grande conquistador e mulherengo por ser inteligente, engraçado, extrovertido e bastante seguro de si, mas incapaz de levar qualquer coisa a sério como deveria. Sutter vive o agora, e o alimento de sua felicidade é consumir o prazer momentâneo a todo instante, o que o faz ser, com apenas 18 anos, um alcólatra. É em um desses momentos que, na tentativa de esquecer sua ex-namorada, ele é encontrado em coma alcólico no jardim da casa de Aimee (Shailene Woodley), uma garota simples que estuda no mesmo colégio, mas que ele nunca notou. Aimee é completamente diferente de Sutter, mas na intenção de conhecer uma nova garota para esquecer a anterior e usá-la para alimentar suas felicidades e prazeres, ele tenta conquistá-la. Entre vários encontros e longas conversas ele descobre que Aimee é mais do que simples e comum, é uma garota com um intenso potencial adormecido e reprimido por uma vida sem graça e uma mãe codependente, e por isso ele se sente tentado a libertá-la disso de alguma forma enquanto ela vê nele a descoberta de experiências que ela nunca teve e o primeiro passo para caminhar em um mundo de satisfações e desgostos que até o momento desconhecia.

O personagem acredita ser, por excelência, auto suficiente e um tanto arrogante na sua forma, com uma visão muito branda e superficial sobre as coisas e sobre ele mesmo. A princípio Sutter consegue ser bastante antipático e inconveniente, principalmente na primeira meia hora, mas toda essa superficialidade que ele demonstra esconde problemas muito mais sérios e que ele não consegue lidar, como a ausência paterna desde seus 8 anos de idade, o distanciamento de sua mãe e irmã mais velha, a cobrança de seus professores sobre seu baixo rendimento escolar, a impressão subestimada e maldosa que seus colegas tem sobre ele pelas costas, além do abandono de sua ex-namorada que, para ele, foi por ela simplesmente ter se apaixonado pelo chefe do time do colégio. Ele age como se não ligasse para nada disso porque, já que sua filosofia de vida é viver o momento e não pensar no futuro porque isso o assombra e demanda responsabilidades que ele não sabe se é capaz de cumprir, então qualquer responsabilidade que ele tenha é tratada com bastante descaso.

O filme desenvolve todas essas características do personagem às avessas, começa mostrando-o como um garoto chato e inconsequente, sendo tortuoso pensar em aturar esse comportamento arrogante por todo o filme ao ponto de não acreditarmos em suas atitudes, mesmo quando estas são as mais sinceras possíveis, pois apesar de tudo ele é honesto com as pessoas sobre suas vontades e sua forma de pensar. Mas aos poucos o roteiro quebra a casca em que ele vive, ou melhor, tira tijolo por tijolo da muralha que ele construiu à sua volta. E então todas suas camadas aparecem, e lentamente toda a confusão emocional e sentimental que ele vive se revelam, momento quando finalmente o espectador se sensibiliza, a empatia acontece, Sutter se transforma em um jovem incompreendido que a todo momento luta contra ele mesmo e  (ufa!) o filme finalmente toma sua forma.

Com certeza é um dos personagens mais complexos a ter sido adaptado no cinema norteamericano nos últimos anos, e de uma forma tão simbólica e relevante que é difícil definí-lo por inteiro, pois ele representa várias situações e fases da vida, sendo a própria adolescência uma pequena fração dela. Pode ser que no livro o personagem não seja tão complexo dessa forma, mas a construção dada nele pelos roteiristas é, e seu desenvolvimento na história ficou brilhante.

Ao contrário dele, Aimee é a verdadeira representação da pureza e ingenuidade prestes a serem corrompidas quando o choque com a realidade acontecer e todas as coisas que um dia pareciam tão belas, se tornarem sujas. Ela é a única personagem com uma atitude mais equivalente com sua idade, e muito embora sabemos desde o início que ela irá sofrer, também sabemos que este sofrimento é necessário para seu crescimento e fortalecimento psicológico e emocional típicos de quem passa por certas dificuldades pela primeira vez.

O roteiro até consegue nos pegar de surpresa quando, confrontado por sua mãe (Jennifer Jason Leigh), o personagem finalmente tem um insight de que o problema não são as coisas ou pessoas a sua volta, mas suas próprias atitudes sugestionadas pela descrença que ele tem por ele mesmo e seu precoce alcolismo que só piora conforme ele se confronta mais e mais com seus problemas. Essa cena dura e emocionante é uma das várias que acontecem, e que mostram por si só que o filme não é um passeio pelo parque, mas uma grande e difícil tarefa de encararmos as dificuldades e aceitar as responsabilidades.

A seriedade até poética com que o filme trata uma fase tão complicada da vida de descobertas, conflitos e desapontamentos se assemelha muito com As Vantagens de Ser Invisível (The Perks Of Being a Wallflower, 2012) no sentido de não subestimar nenhum público e muito menos exagerar em cliches na tentativa de criar uma identificação fácil com um tipo específico, mas enquanto este outro filme trata do tema com adolescentes vivendo suas felicidades e infortúnios típicos da idade e da busca pela maturidade dentro de uma linguagem bastante expressiva e relevante, neste filme essa referência de idade só existe para, talvez, intensificar todos os conflitos dramáticos tratados, que em realidade são universais, atemporais e sem classificação etária.

CONCLUSÃO...
Um drama romântico incomum, que mostra um personagem que sofre com as dificuldades de aceitar as responsabilidades por pontos de vistas tão sérios e conflitantes que, ao contrário do que se supõe, chega a não ser um filme agradável para aqueles que esperam um belo casal romântico no final, mas um filme que conquista aos poucos, e aos poucos revela que há um pouco de Sutter em todos nós.
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