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sábado, 24 de fevereiro de 2018

LITERAL E FIGURADO...

★★★★★★★★★☆
Título: Desventuras Em Série (A Series Of Unfortunate Events)
Ano: 2017
Gênero: Fantasia, Comédia, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Neil Patrick Harris, Patrick Warburton, Melina Weissman, Louis Hynes, Joan Cusack
País: Estados Unidos
Duração: 50 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Após a morte de seus pais, os irmãos Baudelaire são enviados ao seu parente mais próximo (de distância), o terrível e maléfico Conde Olaf.

O QUE TENHO A DIZER...
Para quem achava que Lemony Snicket, assim como os irmãos Grimm, era um senhor de algum século passado que escrevia contos juvenis no sótão de sua casa, e de repente foi descoberto postumamente neste século pelo público juvenil, vai estar redondamente enganado.

Snicket nada mais é que o pseudônimo do escritor estadunidense Daniel Handler, sendo também o personagem de um de seus livros e o narrador onipresente de Desventuras em Série, uma série de treze livros publicados entre 1999 e 2006, com mais de 65 milhões de cópias vendidas em todo o mundo.

Embora o sarcasmo de Snicket tente a todo momento desmotivar ou desencorajar o leitor de continuar a história, isso é ele brincando muito bem com a psicologia reversa, que tanto funciona entre os mais jovens. É proibindo que eles querem fazer; é dando a permissão que eles perdem o interesse. Baseado nesse comportamento, Snicket conquista o interesse de seu leitor, mesmo que ele, assim como o personagem Klaus, já saiba perfeitamente a diferença entre o literal e o figurado, dois sentidos presentes com constância e peso nos variados jogos de palavras que Handler gosta tanto de usar e explicados com a mesma frequência para esclarecer àqueles que ainda não sabem essa diferença. 

Ou seja, Snicket não apenas é didático para os mais jovens, como também tira sarro da ignorância dos mais adultos sem ser ofensivo. Sua narração tragicômica e apática, que por muitas vezes chega até a revelar o fim com antecipação - antes mesmo da história começar - engatilha a curiosidade do leitor em saber como tudo vai acontecer. Psicologia reversa, como dito.

O primeiro livro foi adaptado ao cinema em 2004 pelo diretor Brad Silberling. A princípio era para Tim Burton dirigí-lo e Johnny Depp interpretar o papel do maléfico Conde Olaf, mas ambos acabaram desistindo do projeto. Quando Silberling tomou a direção, ele tentou se manter o mais fiel possível às idéias iniciais de Burton porque acreditava que se adequavam demais ao surrealismo do livro, tanto que cogitou a possibilidade de manter Burton na produção. Mas ao invés de Burton, temos Barry Sonnenfeld, um diretor que se aproximou bastante do gótico e do humor negro "burtonista" com suas adaptações de A Família Adams e que produz não apenas o filme, como também a série, e só não dirigiu o filme por desavenças orçamentárias com o estúdio.

O filme contou com Jim Carrey no papel do Conde, numa época em que sua carreira claudicava. Era o início de sua ladeira abaixo para o quase esquecimento que se encontra hoje. Carrey pode ter lá seus defeitos e vícios de interpretação que beira o insuportável, mas é inegável seu talento. A infelicidade do ator foi ter se transformado em uma caricatura dele mesmo, se estereotipado em um estilo único que chamou a atenção de todos com O Máskara (1994), um personagem no qual ele vive sob a sombra até hoje. Mas em Desventuras é diferente. Embora ele mantenha o estilo caricato, e alguns dos mesmos vícios ainda estejam presentes, a sensação de que ele tenta se distanciar de sua própria imagem é muito nítida. Simplesmente esquecemos que é Carrey por debaixo da maquiagem. A elasticidade que ele tem para desenvolver a comédia física de seus personagens sempre foi um de seus maiores talentos, coisa que ele usa nos momentos certos neste filme, numa versatilidade e fluência tão grande quanto nos disfarces de seu personagem.

Conde Olaf é descrito como um dos maiores piores atores que existe (descrições paradoxais como essa também são constantes na escrita de Handler), e Carrey consegue não apenas sustentar o filme como também personificar o personagem exatamente desta forma. O interessante aqui é que, embora ele seja um dos personagens principais, o filme não o coloca como grande centro de atenção, e por isso apreciamos o trabalho de Carrey por aquilo que ele faz, e não por aquilo que é.

Tentando ser o mais fiel possível ao livro, o filme peca em alguns aspectos de seu desenvolvimento, numa série de acontecimentos e um número muito grande de personagens que chega a ser um tanto atordoante para apenas uma hora e meia.

É aí que o seriado entra de maneira até glamurosa.

Carimbado pela Netflix, a primeira temporada da série, com 8 episódios, é essencialmente uma versão extendida do próprio filme em todos os aspectos, mas com um melhor espaço e aproveitamento de tempo para se desenvolver de forma muito mais detalhada os pormenores que no filme não couberam, tudo numa narrativa mais completa e que preenche buracos que o filme deixou.

Sonnenfeld agora também dirige alguns episódios, e o próprio autor do livro também é o roteirista e produtor. Ou seja, para ser mais fiel que os livros, impossível. Até a atriz escolhida para interpretar Violet tem uma similaridade até espantosa com a hoje-não-mais-garotinha Emily Browning, da adaptação cinematográfica. Mas os personagens de Handler são tão ricos e detalhados que, assim como uma boa música, oferecem material suficiente para terem as mais diferentes interpretações sem perderem suas essências.

É exatamente aí que os novos atores escolhidos para cada um dos personagens que surgem durante a incrível jornada dos Baudelaires se torna um diferencial, como é o caso de K. Tood Freeman no papel do Sr. Poe, ou Joan Cusack (que já trabalhou com Sonnefeld antes) fazendo uma bem vinda participação no papel da Juíza Strauss. Asif Mandvi como Tio Monty, ou a volta de Catherine O'Hara na história, mas dessa vez no papel de megera Dra. Orwell (ela havia feito o papel da Juíza Strauss no filme).

É emocionante e um tanto nostálgico ver Sonnenfeld de volta a um universo no qual ele domina tão bem, trazendo consigo pessoas que ele confia para desenvolver um produto apaixonado. Um diretor que começou sua carreira dirigindo filmes pornográficos na década de 70, dos quais ele se lamenta profundamente, afirmando ter sido um dos períodos mais turbulentos da sua vida, e que de repente conseguiu traçar sua trajetoria em Hollywood a passos curtos e sólidos como cinematografista, e finalmente se tornando um dos mais cogitados diretores da sua época depois do sucesso de A Família Adams (1991) e sua continuação de 1993. Mas depois da série M.I.B - Homens de Preto, ele aos poucos foi desaparecendo do spotlight, se dedicando a projetos pequenos no cinema e TV. Hoje quase ninguém mais lembra quem é ele, e é observando a delicadeza e deliciosa fantasia com que ele conduz as histórias que definitivamente percebemos um talento subestimado e que estava fazendo falta.

A atmosfera fantasiosa vista na série e a ironia visual se mantém na mesma referência estrutural de Tim Burton, numa paleta de cores mais fria, mas muitas vezes se assemelhando de igual forma com o deslumbrante-falecido seriado Pushing Daisies (2007-2009), criado por Bryan Fuller, outro interessante material que também faz ode ao maravilhoso universo "burtonista". Não é por menos que Sonnenfeld também produziu este seriado, não sendo então uma mera questão de coincidência Desventuras ser similar em vários aspectos técnicos e estéticos com o seriado de Fuller, seja na fotografia ou no design de produção, ou até mesmo na narrativa despretensiosa com constantes quebras da quarta parede para acentuar o tom cômico e atenuar o gótico.

Proposital ou não, as referências às obras igualmente fantásticas de Wes Anderson ou Jean-Pierre Jeunet são notáveis. De Anderson a simetria e a sobreposição de planos, sempre tendo algo ao fundo para atrair a atenção do espectador sem ele perceber; de Jeunet o realismo mágico como as desventuras se concluem, se assemelhando muito a clássicos deste diretor francês, como Ladrão de Sonhos (The City Of Lost Children, 1995) e Uma Viagem Extraordinária (The Young And Prodigious T.S. Spivet, 2013).

Jim Carrey não repete o papel de Conde Olaf, mas em seu lugar entrou Neil Patrick Harris, que também produz alguns episódios, deixando mais evidente ainda o nível de comprometimento do elenco com o projeto. É inquestionável o talento do ator no papel, tão interessante quanto o trabalho desenvolvido por Carrey, e do qual muito ele preservou, diga-se de passagem. A diferença é que, enquanto Carrey carregou um pouco mais no humor, Neil fez o contrário, acentuando um pouco mais o tom sombrio, deixando-o mais assustador e maquiavélico. Uma mudança sutil e que fez uma enorme diferença, mas que ainda não conseguiu justificar, por exemplo, o único ato explicitamente violento de toda a história, que é quando Olaf defere um tapa no rosto de Klaus. Um momento que, na minha opinião, poderia ter sido deixado de fora tanto no filme, quanto no seriado, pois é chocante de maneira desnecessária, ferindo a fantasia juvenil que toda a atmosfera lúdica tanto da história, quanto da produção, criam.

Sabemos das intenções sórdidas de Olaf desde o princípio, sabemos que ele é um criminoso inescrupuloso, narcisista e ambicioso, e qualquer coisa entre o que ele é o que ele virá a fazer na intenção de roubar tudo o que restou dos Baudelaires a qualquer custo, se torna até pequeno e irrelevante, mas o tapa imputa uma quebra narrativa até chocante, porque é o único momento que não foi feito com nenhuma figura de linguagem, com nenhuma intenção de ser engraçado. Foi literal, e não figurado.

Todos os defeitos de Olaf são utilizados para construir o caos da sua caricatura decadente. É dele que vem o humor negro e o antagonismo de tanto brilhantismo presente na unidimensionalidade dos protagonistas. O tapa pode ter, no livro, a função narrativa de mostrar que o personagem nunca terá seu momento de redenção, e que sua maldade não é realmente uma brincadeira textual. Mas nas telas teria sido inesperado e mantido o humor negro, bem como sua essência, se o tapa, por exemplo, tivesse sido deferido acidentalmente e Conde Olaf não se desculpasse por isso, ao invés de ter sido um ato deliberado e que realmente ofende o espectador.

O autor e roteirista é extremamente generoso com o nível de maldade e oportunismo que existirá em torno do casal de irmãos, sua intenção é explicitamente mostrar como a tristeza não tem fim, mas a felicidade sim. Mas embora o destino dos Baudelaires seja de um nível trágico fora de proporções nas mãos de Handler, apesar de tudo ele está do lado das crianças, assim como Lemony Snicket também, e é isso que nos conforta como espectador. A relação dos adultos com as crianças são sempre de superioridade, desde sempre acreditar que tudo que elas dizem é mentira ou exagero, até mesmo desqualificarem as experiências que elas adquirem. Mas a personalidade de Klauss e Violet mantém uma positividade que não morre. Não é um otimismo amedrontador, como do personagem que conhecem na madeireira, mas simplesmente acreditarem que os meios difíceis justificarão o fim de maneira satisfatória.

Com tantas nuances, figuras de linguagem implícitas e explícitas, e uma linguagem visual fascinante, tudo é baseado na ironia visual com a verbal, como acontece na família de Mr. Poe, onde tudo é tão pequeno, inclusive a própria casa, que nada mais é do que o reflexo da personalidade de todos eles. E se o espectador não prestar atenção, não notará que ela é tão pequena que está quase esmagada entre dois grandes imóveis, e da mesma forma, a ironia que ela representa.

E desse jeito o seriado é construído, em um deleite visual constante, com momentos sinceros e outros um tanto surreais, num equilíbrio que entretém e igualmente fascina na sua simplicidade emocional.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

NEM TÃO EXEMPLAR ASSIM...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Garota Exemplar (Gone Girl)
Ano: 2014
Gênero: Suspense
Classificação: 16 anos
Direção: David Fincher
Elenco: Ben Affleck, Rosamund Pike, Kim Dickens, Carrie Con, Neil Patrick Harris, Tyler Perry
País: Estados Unidos
Duração: 149 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
No dia do 5º aniversário de casamento, Amy desaparece deixando várias pistas, mas nenhuma que leve diretamente a ela. Ao mesmo tempo que a polícia investiga os fatos, tudo indica que Nick, seu marido, não é tão inocente quanto parece.

O QUE TENHO A DIZER...
Percebe-se que David Fincher tenta a todo custo emplacar algum novo thriller tal qual ele fez no passado com Se7en (1995), Clube da Luta (Fight Club, 1999) e O Quarto do Pânico (Panic Room, 2002). Ele não foi muito feliz no gênero com Zodíaco (Zodiac, 2007) e se deu um intervalo para investir em dramas como o cansativo O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case Of Benjamin Button, 2008) e o aclamado A Rede Social (The Social Network, 2010). Voltou ao gênero um ano depois com sua hedionda adaptação norteamericana de Os Homens Que Não Amavam As Mulheres (The Girl With The Dragon Tattoo, 2011). Hediondo e desnecessário, diga-se de passagem, já que as adaptações suecas das obras de Stieg Larsson são muito melhores em todos os aspectos.

Garota Exemplar é baseado no livro de Gillian Flynn, lançado em 2012, que se transformou instantaneamente em um best seller, vendendo mais de 8 milhões de cópias no mundo. Foi bastante aclamado por narrar as consequências obscuras de um casamento decadente, bem como o circo manipulativo criado pela mídia em cima das situações trágicas que envolvem os mistérios da trama. É produzido pela atriz Reese Witherspoon e sua produtora Pacific Standard junto com a Regency. Parece que a princípio era pra ela ter sido a protagonista, mas por conta da sua gravidez teve que abrir mão do papel. A autora também é a roteirista, por conta disso, vale-se dizer, o filme é 90% fiel ao livro, desde o desenvolvimento narrativo até mesmo nos diálogos, muitos dos quais foram tirados da própria obra original, algo sempre muito interessante de se observar. Se quiser ler o resto por sua conta e risco, selecione o texto para aparecer: Foi divulgado que a autora havia mudado o final do filme para que aqueles que já leram o livro não perdessem o interesse. Realmente há algumas diferenças mínimas, mas nada significativo, e tudo foi apenas um boato. Para os que não leram, essa informação não faz qualquer diferença.

Fincher novamente abusa do tempo nas mais de duas horas e meia de um filme que visualmente cansa pelo excesso de edição e diálogos cortados, perdendo a fluidez e a grande expectativa viciante que o livro tem. Quem desconhece a obra original poderá achar a história um pouco inconsistente porque Flynn se limitou muito no desenvolvimento da história para mantê-la a mais fiel possível ao livro, mas não soube desenvolver a personalidade dos personagens principais da maneira como é brilhantemente feita no original e indispensáveis para a imersão na trama. Este é de cara o problema mais notável para aqueles que leram a obra, pois embora a história como um todo possa cair numa sequência interminável de absurdos um tanto difíceis de engolir até mesmo dentro da própria ficção, o grande atrativo é a construção dos personagens e suas consistentes personalidades.

Ben Affleck pode ser bonito e ter um sorriso camarada, mas ele é um ator tão medíocre quanto seu personagem. Felizmente ele provou nos últimos anos que consegue ser um bom diretor e roteirista, qualidades que salvaram sua carreira do fracasso, porque sua falta de talento cênico é devastadora. Para sua sorte, sua incapacidade de atuar e a fisionomia sempre apática caem como uma luva no personagem. Nick Dunne é perfeitamente descrito pela escritora como uma pessoa introvertida, mecânica e inexpressiva, havendo momentos que sua rigidez emocional chega a ser constrangedora até mesmo para o leitor, mas o personagem traz embutido um sarcasmo e uma autodepreciação que rende momentos de humor negro e sutil. Affleck evidentemente é um ator que seria uma das últimas opções de Fincher para qualquer trabalho, mas assim como Cronemberg conseguiu se beneficiar da mesma incompetência do ator Robert Pattinson para caracterizar o personagem arrogante, egocêntrico e narcisista de Cosmopolis (2012), percebe-se que Fincher tenta fazer o mesmo com as inabilidades do ator em prol do inábil personagem. O resultado só não tem muito sucesso porque nem Gillian Flynn, nem o próprio Fincher, conseguiram deixar claro no filme que o que vemos naturalmente de Affleck na tela é exatamente o que o seu personagem é no livro. Para o espectador leigo a interpretação do ator pode não parecer convincente, o que de fato não é, mas é coerente com o personagem, isso só não ficou claro. E o tal sarcasmo e autodepreciação, grandes atrativos do personagem, passam despercebidos.

O mesmo pode ser dito sobre a personagem Amy, mas ao contrário de seu colega, Rosamund Pike atua de verdade e faz um excelente trabalho. Mas o filme em nenhum momento se beneficia ou argumenta sobre a inteligência acima do normal da personagem e a máquina manipuladora que ela é descrita no livro. Os leitores perceberão que a atuação da atriz é extremamente sutil e calculada principalmente nos momentos mais dramáticos entre ela e Affleck, onde é possível notar subliminarmente toda sua perspicácia e dissimulação. Quando o roteiro finalmente tenta expor essa genialidade de Amy de maneira mais óbvia, é tarde demais e pouco convence.

De maneira até curiosa, os demais coadjuvantes acabam roubando as cenas, como a irmã Margo (Carrie Con) e a detetive Rhonda Boney (Kim Dickens). Considero infeliz a escolha de Tyler Perry para o advogado Tanner Bolt, um personagem que na verdade nada acrescenta tanto no livro quanto no filme porque ele não tem nenhuma conclusão importante na história, e o ator entrega um tom cômico e despretencioso que soa incoerente, talvez para compensar essa desimportância, mas ainda sim continua esquecível.

Fincher tinha um grande material nas mãos para fazer mais um grande suspense quando parte-se do princípio de que o livro se bem sucede no gênero por conta da narrativa um tanto folhetinesca que intercala o ponto de vista de Nick e o ponto de vista de Amy sobre a relação de ambos como se fossem capítulos, cada um deles interrompidos em momentos chaves que prendem a atenção do leitor para descobrir como cada um desses momentos se esclarecerão. Essa proposta foi mantida no filme, mas não funciona tão bem quanto no papel. Quando a história atinge seu climax, um momento extremamente importante que pega o leitor de surpresa pela maneira abrupta como a reviravolta acontece, esse grande impacto é desperdiçado numa cena tola com um tempo narrativo totalmente errado, novamente por conta de uma edição falha e de uma revelação que poderia ter sido construída de forma mais lenta e elaborada. Quando comparamos com Clube da Luta e a maneira chocante como o diretor revela ao espectador algo que estava evidente aos seus olhos o tempo todo, percebe-se que Fincher poderia ter trabalhado melhor nos impactos da trama.

Trent Reznor e Atticus Ross novamente colaboram com o diretor na trilha sonora, talvez para tentar repetir o sucesso da parceria que rendeu um Oscar aos dois pela composição de A Rede Social. A trilha sonora, cheia de instrumentais e ruídos eletrônicos desconexos, tem um papel fundamental para diferenciar os tempos narrativos. Como dito pelo próprio diretor, embora relaxante e vaga, ainda instila um senso de pavor. Mesmo assim ela soa invasiva em alguns momentos, e seu mau uso, seja pelo excesso ou pela má sincronia, deixa a desejar em situações que poderia causar esse impacto surpreendente esperado.

No geral o filme pode agradar principalmente por conseguir reproduzir fielmente os personagens e a cenografia narrada pela autora no livro. Mesmo em uma narração em primeira pessoa, o detalhamento que Flynn dá na descrição dos ambientes e da fisionomia de seus personagens é tão rico que para muitos que leram a obra ficarão surpresos e terão aquela sensação de "era assim que eu imaginava quando li", e esse é um dos grandes pontos positivos. Uma pena que ele falha na sua construção, fazendo todo o clima sombrio, misterioso e dúbio do livro serem perdidos ou pouco aproveitados tanto quanto a rica personalidade dos personagens principais. Muito disso, com certeza, pela inexperiência quase amadora da escritora como roteirista, já que é seu primeiro trabalho para o cinema.

CONCLUSÃO...
Muito fiel ao livro, porém erra em não ter explorado como devia a personalidade dos personagens principais e na edição que nunca oferece o suspense esperado, além da chocante surpresa do clímax que é desperdiçada. Evidente também a falta de forma do diretor em conduzir mais um suspense sem a vontade demonstrada em seus primeiros grandes sucessos, talvez porque aqueles filmes ele tenha feito por vontade, e não por contrato, como acontece aqui ou como aconteceu com Os Homens Que Não Amavam As Mulheres.

domingo, 27 de julho de 2014

O VELHO E NEM TÃO DURÃO OESTE...

★★★★★★★☆☆☆
Gênero: Comédia
Título: Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola (A Million Ways To Die In The West)
Ano: 2014
Classificação: 14 anos
Direção: Seth MacFarlane
Elenco: Seth MacFarlane, Charlize Theron, Liam Neeson, Amanda Seyfried, Giovani Ribisi, Sarah Silverman, Neil Patrick Harris
País: Estados Unidos
Duração: 116 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um covarde pastor que perde sua namorada e acredita que sua vida não faz mais sentido no Oeste, até uma forasteira chegar e transformar sua vida e, principalmente, ensiná-lo a atirar.

O QUE TENHO A DIZER...
Dirigido, escrito, produzido e atuado por Seth MacFarlane, o humorista, comediante, animador, dublador e também cantor que ficou famoso e se tornou umas das referências do atual cenário cômico norteamericano depois de criar as animações de grande sucesso Uma Família da Pesada (Family Guy), American Dad! e O Show de Cleveland (The Cleveland Show), além de também ter dirigido e escrito Ted (2012), filme que também se tornou grande referência do humor politicamente incorreto desta década (não que não existam outros, mas esse foi o mais reconhecido por conta do inesperado sucesso).

MacFarlane pode errar algumas vezes, como na sua apresentação do Oscar em 2013, cheia de piadas grosseiras e de péssimo gosto em cima de uma prepotência que fracassou na batida idéia de ironizar e satirizar a premiação e transformá-la em uma grande piada de mau gosto que deixou muita gente desconfortável e com sorriso amarelo, principalmente a audiência. Mas não podemos negar que, como criador, seu currículo é bastante curioso, principalmente por resgatar o humor corrosivo e ambíguo de cartoons, como os de Hanna e Barbera, mas intensificando os elementos absurdos, o politicamente incorreto, a ironia e a sátira de maneira mais direta e escancarada para o público mais adulto e que se transformaram em uma forte marca registrada dele. E assim como suas outras criações animadas, este filme é sobre nada, mas que sobrevive ferindo diretamente a falsa moral e os "bons costumes" do modo de vida americano, já que esse seu humor é bastante inconveniente para os mais conservadores, pois expõe em demasia essa hipocrisia social tão forte por lá e que é um prato cheio para humoristas como ele.

E o filme é exatamente tudo isso, nesse grande misto exagerado de situações cômicas e piadas prontas para satirizar uma cultura tão forte e exportada mundialmente como é o Velho Oeste norteamericano. Assim como a figura do Super-Homem, a imagem do Velho Oeste ainda é o principal material publicitário para divulgar de forma simbólica a potência da nação americana, em como ela é durona fazendo as leis com suas próprias mãos armadas, e como ela deve ser temida pelos forasteiros. MacFarlane faz disso o cenário pronto para o ridículo ao brincar incansavelmente com esses cliches e os estereótipos do machismo e da brutalidade masculina, da submissão e fragilidade feminina e da "terra sem lei" que historicamente caracterizam essa época e região do país. Mas de certa forma não dá pra deixar de notar que, querendo ou não, o filme também deixa na superfície que toda essa grande e violenta ignorância latente e atual no país é claramente fruto e conseqüência dessa herança cultural constantemente consumida e ruminada por eles e por todo o mundo.

A idéia surgiu de uma piada interna, quando McFarlane, junto com seus co-roteiristas (que também são roteiristas de Uma Família da Pesada), começaram a analisar como deve ter sido estúpido, triste e perigoso viver no Velho Oeste já que você poderia morrer de diversas formas (tanto que essa é uma das razões do título em português não fazer o menor sentido). O nível de sátira presente é o mesmo de Sua Alteza (Your Higness, 2011), de Danny McBride e que também levam muito do que as sátiras de Mel Brooks chegaram a representar no passado. Mas enquanto McBride fez da seriedade do cenário medieval um grande palco para o absurdo e para uma surreal grosseria, MacFarlane faz dos cowboys fora da lei personagens jocosos e cartunizados. Por isso temos na lista o personagem Clinch (Liam Neeson), que tem um sotaque irlandês (o ator é irlandes); Edward (o sempre esquisito Giovani Ribisi), que não se importa com o fato de sua noiva, Ruth (Sarah Silverman), ser a prostituta mais requisitada da cidade e que se recusa a fazer sexo com ele antes do casamento por ser uma devota cristã; e o próprio personagem de MacFarlane, um simples e covarde pastor com crise existencial porque odeia o lugar onde mora e acha um absurdo existir tanta conivência das pessoas com tanta coisa errada.

Como roteirista, ele não se impede de ousar, usando referências anacrônicas que realmente fazem determinadas sequencias serem mais engraçadas do que poderia supor, como a breve (e inesperada) referência ao clássico De Volta Para O Futuro III (Back To The Future - Part III, 1990), ou quando consegue enfiar no filme o trecho mais famoso da também clássica música Tarzan Boy, da banda Baltimora. Também vale dizer que, acreditem ou não, a sequencia musical sobre os bigodes não é tão surreal assim, já que a música existe, chamada If You've Only Got A Moustache, feita por Stephen Foster em 1864. Claro que o filme recebeu críticas mistas e foi recepcionado pelo público de maneira controversa tal qual Sua Alteza, mas com certeza porque grande parte do público também pode não ter captado a idéia da maneira fácil como esperavam. Ele é grosseiro e explícito tanto quanto o filme de McBride, mas igualmente engraçado dentro de suas características absurdas por ridicularizar o principal ícone de uma cultura que se auto ridiculariza o tempo todo. E é sempre engraçado ver alguém tirando sarro disso.

CONCLUSÃO...
Um filme sobre nada, mas que sobrevive por satirizar e ferir o orgulho norteamericanos sobre um ícone cultural tão forte construído por eles mesmo como é o Velho Oeste, em um mundo que MacFarlane criou onde piadas voam tão rápido como balas, como bem disse Dave White em sua resenha sobre o filme.
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