Translate

Mostrando postagens com marcador Jesse Eisenberg. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jesse Eisenberg. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 28 de março de 2016

A PRESSA É O INIMIGO...

★★★★★
Título: Batman vs Superman - A Origem da Justiça (Batman vs Superman)
Ano: 2016
Gênero: Super Herói, Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Zack Snyder
Elenco: Henry Cavill, Ben Affleck, Jesse Eisenberg, Amy Adams, Gal Gadot, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Diane Lane
País: Estados Unidos
Duração: 151 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Batman e Superman duvidam das reais intenções heróicas um do outro, surgindo uma inimizade alimentada por um plano de Lex Luthor para que um conflito iminente entre eles aconteça.

O QUE TENHO A DIZER...
A Warner, detentora dos direitos da DC Comics, pode até ter sido um tanto que pioneira nas adaptações de quadrinhos, principalmente quando Tim Burton foi responsável por Batman, entre 1989 e 1991. Digam o que quiserem, sejam fãs ou não de suas adaptações, Burton mostrou que havia possibilidade de adaptar esses universos de outras formas sem descaracterizá-los. Tanto que aquilo que ele criou foi - e ainda é - referência. Basta assistir a trilogia de Christopher Nolan para ter a certeza absoluta disso. Os elementos básicos do ponto de vista criativo de Burton ainda estão lá, confirmados pelo próprio Nolan que afirmou na época que não tinha intenções de esquecer do legado deixado pelo diretor.

O grande problema é que a Warner nunca soube lidar com seus heróis no cinema, e coube à Marvel desbravar esse território com muita esperteza e coerência. A empresa não apenas está há 16 anos adaptando seus próprios heróis com sucesso como criou um novo gênero. Tal qual o estilo Faroeste se tornou um gênero ao longo das décadas, assim se tornaram os filmes de Super-Herois graças à Marvel. E quando essa reprodução assexuada de gêneros acontece, é sinal de que vieram para ficar em definitivo.

O que a Marvel fez foi algo realmente inédito. Criou um universo infinito e que se auto renova tal como seu universo nos quadrinhos. Mais do que isso, inventou uma fórmula, que vem sido repetida com sucesso há aproximadamente uma década, já mostrando sinais de cansaço, mas que ainda funciona.

Apenas os filmes baseados nos heróis da Marvel já arrecadaram no mundo, em uma conta bem rápida, em torno de US$15 bilhões ao longo desses 16 anos. O que é mais que a soma de vários títulos de diversos estúdios por aí no mesmo período.

A intenção de levar A Liga da Justiça para o cinema sempre existiu e os fãs sempre clamaram por isso, mas o milhonário orçamento (que entre 2000 e 2010 beirava os US$350 milhões), assustava e inviava o projeto. Foi com a ousadia da Marvel na reunião de heróis em Os Vingadores (The Avengers, 2012) que a Warner finalmente sacou que isso era possível, e então retomaram a idéia para abocanhar sua parte em um mercado tão lucrativo.

O diferencial da Marvel é que ela, por quase uma década, amaciou o mercado em doses homeopáticas até Os Vingadores se tornar uma trilogia em quatro partes (é isso mesmo), coisa que a Warner não fez em nenhum momento. E como que a correr contra o tempo e compensar a falta de estratégia, resolveu fazer de A Origem da Justiça o ponto de partida de sua empreitada, tentando (reforço: tentando) seguir os mesmos passos e, quiçá, reinventar a fórmula da rival.

Embora Batman sempre seja um sucesso até mesmo quando seja ruim (como as tristes adaptações de Joel Schumacher nos anos 90), o mesmo não se diz mais sobre Superman, um herói alienígena simples que vive a favor da humanidade, sem grandes complexidades, iconizado, solidificado e enferrujado no tempo. Por isso que a adaptação de Bryan Singer não foi mais do que um boo-hoo nostálgico, enquanto o reboot desnecessário de Zack Snyder foi uma tentativa fracassada de obscurecer e dramatizar o herói em um festival de exageros que cometeu o erro mais clássico de todos, e que Burton, lá atrás, já ensinava não fazer: descaracterizar o personagem.

Aliás, é um tanto esquisita a escolha de Zack Snyder para continuar a franquia, já que O Homem de Aço (Man Of Steel, 2013) não recebeu críticas muito positivas, tal qual os filmes anteriores do diretor. Talvez tenha sido a pressa do estúdio em desenvolver esse universo da DC no cinema, ou a falta de disponibilidade de algum diretor mais competente já que, apesar de todos os defeitos de Snyder, seus filmes são visualmente marcantes, como foi 300 (2006) - talvez seu único trabalho digno de nota.

E esse é o grande problema do diretor, pois ele consegue engrandecer personagens em imagens, usando filtros, angulações de câmera, enquadramentos e efeitos que os enaltecem em fotografias bastante cartoonizadas, como quadrinhos pintados por Alex Ross, mas ao mesmo tempo os personagens sofrem nos desenvolvimentos exagerados para coisas muito simples, resultando tudo numa densidade tão profunda quanto um pires.

Isso tudo é notório naquele que foi seu mais ambicioso projeto até hoje, o filme Sucker Punch (2011), visualmente deslumbrante, mas vazio, um exemplar daquilo que se deve e ao mesmo tempo não se deve fazer no cinema fantasioso.

E o tom de A Origem da Justiça é o mesmo. Snyder engrandece os heróis através desse surrealismo das imagens, transformando em titãs os dois personagens principais, além de fazer a participação de Mulher Maravilha (Gal Gadot) ser distanciada de qualquer cafonice de outrora, fazendo valer a interminável espera por sua aparição nos cinemas. Mas isso tudo dura muito pouco e decepciona no resultado final.

A história é uma continuação direta de Homem de Aço, tanto que na sequência inicial revemos a destruição de Metropolis durante a batalha de Superman (Henry Cavill) com o General Zod através do ponto de vista de Bruce Wayne (Ben Affleck), e só vai entender dessa forma quem assistiu ao filme anterior. Para quem não assistiu, a cena será como algo aleatório e sem sentido. A partir daí alguns meses se passam, e Wayne tenta responsabilizar Superman pelo grande massacre civil ocorrido naquele evento. Ao mesmo tempo, Superman considera Batman um mercenário perigoso pela forma tirana com que lida com as coisas, e através de sua identidade de Clark Kent, tanta expô-lo dessa forma usando o Planeta Diário para isso. Enquanto isso, Lex Luthor (Jesse Eisenberg) precisa tirar Superman de seu caminho, aquecendo essa rivalidade ao maquinar um plano "diabólico" para que Batman se volte contra Superman, e vice-versa.

O enredo é até interessante, e se teve algo realmente bom em toda a história foi o ponto de partida de tudo porque os roteiristas utilizaram as críticas que O Homem de Aço recebeu para favorecer a trama. Na época os críticos pelo mundo levantaram a questão de que, já que Superman é um herói e sua missão é salvar vidas, foi bastante incoerente o filme fazê-lo destruir mais da metade da cidade e matar mais gente do que salvar. Foi um grande erro na história e na personalidade do herói simplesmente para favorecer a ação barata e o espetáculo de efeitos visuais que transformou o filme em um disaster movie por excelência. Então, ponto positivo para o roteiro que usou a própria realidade como referência e transformou essas críticas em parte dos questionamentos de Wayne sobre a conduta de Superman.

Só que, se por um lado o começo parecia interessante e promissor, o desenvolvimento de tudo se mostra desastroso. Há uma incoerência de situações e cronologia que não convencem, a começar pela visível diferença de idade entre os personagens. Luthor é mais jovem que Superman, e Batman é mais velho que todos. A impressão que se tem é que tiraram Luthor do seriado Smallville (2001-2011) e o velho Batman de sua versão da série em quadrinhos O Reino do Amanhã (Kingdom Come, 1996), no qual está 20 anos mais velho e sem credibilidade.

Eisenberg dá uma caricatura a Luthor que mais irrita do que impressiona, fazendo do personagem um repeteco empobrecido do Coringa, longe, mas muito longe da diversão que era a versão canastrona de Gene Hackman, ou até mesmo na versão mais sisuda de Kevin Spacey. E falando em distância, o que dizer sobre Cavill? Tão longe da candura de Christopher Reeve, ou tão longe da doçura de Brandon Routh. A personalidade agora introspectiva e cascuda é coerente com algumas fases negras do herói nos quadrinhos e na sua crescente perda de esperança nos humanos, mas no cinema aparenta descaracterizado porque em nenhum momento houve uma construção que levasse a esse ponto com consistência.

Triste também é Lois Lane (Amy Adams), que assim como no filme anterior, entra e sai correndo de cena sem motivos. E por mais que Martha Kent (Diane Lane) tenha uma certa importância na conclusão da história, ela na verdade só aparece para literalmente nos lembrar a todo instante que é mãe do herói e nada mais. Duas atrizes desperdiçadas, que poderiam ter sido poupadas tanto quanto Jeremy Irons no mais insosso Alfred que existe, ou Holly Hunter como a Senadora Finch, que poderia ter sido um excelente acréscimo em toda a franquia como o único grande ponto mediador entre humanos e meta-humanos.

Por incrível que pareça, Ben Affleck é o único que consegue atuar no meio de tudo, o que prova que seus cabelos brancos valeram para algo em uma carreira de ator que mostrou-se melhor na direção. Anos luz distante da interpretação constrangedora de Demolidor (Daredevil, 2003), aquilo que parecia um equívoco supreendentemente não atrapalha. As cenas de batalha de seu personagem são as épicas batalhas de Batman por excelência, cheia de malabarismos, arsenais tecnológicos e porrada. Muita porrada bruta e seca de um Batman velho e impaciente, que deixou a tática de lado para encarar tudo de frente. Se o filme fosse apenas dele - o que quase é - teria sido muito mais empolgante.

E são em sequências como essa que vale a pena assisti-lo, mas tem que ter muita paciência. Snyder arrasta a história desnecessariamente em um filme que consegue ser mais longo que Os Vingadores em sequências de dar bocejo em gente grande. A diferença é que Os Vingadores tem todo um background que fortalece sua história, o que não acontece aqui. Ao contrário, o excesso de informação, de tramas e subtramas é justamente para, como dito acima, compensar o que não se fez até hoje.

Então, o filme parte do errôneo princípio de que nada antes dele aconteceu e que nenhum dos personagens já tiveram suas histórias contadas inúmeras vezes antes. Fica difícil nos convencermos de que eles não conseguem compreender seus métodos de justiça e que ignoram completamente seus atos heróicos pregressos. O roteiro poderia ter sido mais sucinto e usado Lex Luthor de uma forma mais inteligente para gerar uma conspiração mais convincente, menos forçada e artificial como é. Mas ao invés disso trata o espectador até com certa ignorância, pois a maneira como os heróis se tornam inimigos é feita de forma tão banal como se Gothan City e Metropolis fossem dois mundos completamente diferentes e distantes, e que nenhum deles nunca tivesse ouvido falar um do outro ou de suas intenções. Se a rivalidade tivesse surgido por uma coisa mais simples ou cliché como inveja pela popularidade ou pela importância de algum deles, acredite... teria sido muito mais interessante.

Mas mais banal ainda é a hora errada em que certas verdades são reveladas justamente por quem fez segredo sobre elas durante toda a trama capenga, estragando em definitivo o grande efeito surpresa do tão esperado duelo. É frustrante e simplório como magicamente a intriga se resolve depois de Batman passar mais de uma hora sangrando os olhos para destruir um arqui-inimigo que, na verdade, nem ele sabe de verdade porque é. E então, pra compensar esse grande e horroroso desfecho, o vilão Doomsday (que mais parece um troll burro do Senhor dos Anéis) surge em sequências de computação gráfica bem ruins, onde insistem na idéia de que para um monstro ser assustador ele tem que gritar e soltar o bafo fedorento contra a câmera. Tudo muito no escuro para tentar disfarçar defeitos indisfarçáveis, entre um e outro momento dramático profundamente dispensáveis. Aliás, Snyder não se cansa do escuro e dos filtros borrados, coisas que ficam muito piores no 3D.

O roteiro foi estranhamente escrito por Chris Terrio e David Goyer. Estranhamente porque Terrio foi o responsável pelo roteiro de Argo (2012), por sinal dirigido por Affleck, um filme simples com um desenvolvimento empolgante e comedido, elogiado exatamente por isso. E Goyer foi responsável pela trilogia O Cavaleiro das Trevas, de Nolan, elogiados justamente pela trama bem costurada e desenvolvida sem rebosteios. Então é espantoso ver dois roteiristas talentosos e com qualidades tão interessantes oferecerem algo tão desorientado e redigido às pressas, o que prova novamente que o diretor simplesmente deu qualquer atenção a isso.

Não é à toa que a crítica não tem sido favorável, da mesma forma como ele não foi o estrondoso sucesso que se esperava em seu final de semana de estréia. Claro que foi uma estréia boa (US$170 milhões), mas não ultrapassou a de Os Vingadores (US$207 milhões). Portanto acredita-se que o interesse pelo filme caia como uma pedra no oceano nas próximas semanas, e que chegar a US$1 bilhão se torne uma missão custosa, já que é essa a cifra que garantirá as próximas continuações.

O que algumas pessoas me perguntaram, e foi o que perguntei quando pessoas que eu conheço assistiram antes de mim, é se vale a pena e é legal. Vale a pena e é legal, não por todo o produto em si, mas pela materialização da idéia. Ver os três heróis juntos, agigantados na megalomania visual de Snyder, mesmo que por um breve momento, parece valer o preço do ingresso. Mas a história, não se pode negar, por mais que os fãs argumentem nos fóruns por aí, é banal e até ridícula.

Como um todo, vai agradar os fãs mais desesperados e aqueles que pouco se importam com o resto além da ação - e que também há pouco, diga-se de passagem - embora é possível ver que muitos deles sairam desapontados do cinema. A grande preocupação é se a próxima sequência, já entitulada como A Liga da Justiça, cairá nos mesmos problemas, já que insistirão do tenebroso erro de manter Snyder na direção, diretor que provou por A + B que, fora o seu próprio ego, não tem talento suficiente para sustentar outras coisas grandiosas.

CONCLUSÃO...
Aparentemente não é um tipo de filme para ser inteligente, mas o que diferencia as histórias da DC da Marvel é justamente o fato das histórias da DC serem mais densas e adultas, com tramas mais elaboradas, sem muitos alívios cômicos e que fogem do habitual sem deixar de entreter como se deve. Baseando-se nos roteiristas, poderia ter tido o desenvolvimento simples de Argo, com uma trama melhor elaborada como foi O Cavaleiro das Trevas, mas ao invés desse desenvolvimento simples, focado e efetivo, é um filme disperso, cheio de reviravoltas desnecessárias para dar a falsa impressão de grandiosidade que ele de fato não tem. E se existe um verdadeiro inimigo em tudo isso, ele se chama "pressa", algo que a Marvel não teve e, por isso, se manterá no pódio por mais alguns bons anos.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

DIFÍCIL...

★★★★★★
Título: The Double
Ano: 2013
Gênero: Suspense, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Richard Ayoade
Elenco: Jesse Eisenberg, Mia Wasikowska, Wallace Shawn
País: Reino Unido
Duração: 2013

SOBRE O QUE É O FILME?
A vida de um comum trabalhador vira do avesso quando ele encontra uma pessoa exatamente idêntica a ele, porém com uma personalidade totalmente contrária e tudo aquilo que ele gostaria de ser.

O QUE TENHO A DIZER...
The Double (ainda sem título em português) é o segundo filme dirigido pelo jovem britânico Richard Ayoade, que anteriormente dirigiu o excelente Submarino (Submarine, 2010) e que curiosamente tem como um dos produtores o ator Michael Cane. Mas ao contrário de seu primeiro longa de narrativa linear inteligente e do humor negro classudo de fácil absorção, aqui ele foge da narrativa clássica, muito embora a estética esteja muito presente e referências a diretores como Terry Gillian e David Lynch estão sendo inevitáveis tanto por aqueles que adoraram quanto pelos que odiaram.

Por uma razão desconhecida, o filme tem recebido críticas positivas em sua maioria. Foi originalmente lançado em Setembro de 2013 no Festival de Toronto, e terá lançamento em mercado norteamericano este ano. Tem sido promovido com um suspense com teores de humor negro, mas esse humor negro difícilmente vai ser notado ou apreciado pela maioria.

Conta a história de Simon, um rapaz tímido, condescendente e genuinamente bondoso, que trabalha em uma empresa há sete anos, mas seus esforços nunca foram notados, muito menos sua presença. Como se nada disso bastasse na sua vida, há uma inexplicável capacidade natural de tudo dar errado a sua volta, e sua vida vira de ponta cabeça quando James é contratado para trabalhar no mesmo setor. James é um sósia idêntico de Simon, mas ninguém nota isso, pois para todos Simon nem ao menos existe, nem mesmo aos sensores do elevador. Simon fica fascinado com a eloquencia, autoconfiança e desenvoltura de James, pois enxerga no colega tudo aquilo que ele não tem coragem de ser. Isso leva a ambos desenvolverem uma relação de amizade que se transforma em guerra quando Simon percebe que James está tomando um lugar que ele nunca teve.

O filme é baseado no livro homônimo de Fyodor Dostoyevsky, que obviamente conta uma história similar conhecida por utilizar o mito do doppelganger, uma palavra de origem alemã que significa muito mais do que apenas "sósia" ou "dublê" na língua portuguesa, mas uma pessoa exatamente igual a outra, como um clone, mas sem qualquer origem genética. Na mitologia essa figura pode ser vista como uma pessoa fisica e espiritualmente idêntica como também um alter ego, ou seja, com uma personalidade distinta, geralmente aquela almejada pela pessoa, mas nunca conquistada de maneira consciente. Em algumas outras culturas ele é visto como uma versão demoníaca de si mesmo.

Embora essa adaptação seja uma projeto ousado do diretor, fica difícil analisá-la de forma contundente pelo fato da obra de Dostoyevsky não ser amplamente conhecida, embora bastante referenciada e controversa, já que é possível encontrar diferentes linhas de pensamento sobre ela. Alguns acreditam que o personagem do livro sofre de esquizofrenia, outros acreditam que seja um alter ego do personagem principal que está em busca de sua verdadeira identidade que é ou não oprimida pela burocracia sufocante em que vive.

A partir dessas características e controversias sobre a obra literária toda a situação em volta do personagem principal no filme é construída, bem como a ascenção de James sobre os méritos de Simon, ao ponto de Simon chegar a sua quase autodestruição e inexistência. Não há como deixar de notar James como um alter ego do personagem, assim como foi Tyler Durden em Clube da Luta (Fight Club, 1999). Em muitas outras sequencias também ficamos na dúvida se tudo o que acontece é consequencia de um surto esquizofrênico do personagem que não aguenta mais toda a opressão a sua volta, ou também aquilo que pode ser chamado pela psiquiatria de heautoscopia, também uma alucinação, em que a pessoa enxerga a mesma imagem de si como um espelho, porém de forma distorcida ou não. O que acontece com James também pode ser simplesmente uma mistura de tudo isso, o que é muito mais provável, já que o diretor e roteirista não consegue dar uma definição muito clara para qual linha de pensamento ele quer levar seus personagens.

Não é um filme fácil e há muito tempo não assistia uma narrativa complexa assim desde Possuídos (Bug, 2006), com divagações psicoanalíticas e sociais puxadas para esse teor surreal e discutível. Como disse, é um projeto ousado do diretor Ayoade e foge completamente da beleza e delicadeza narrativa de seu filme anterior, e muito embora ele se bem suceda na construção do personagem e em mostrar que ele é alguém muito frágil para suportar sua própria significância, ou de mostrar sua incrível capacidade de tolerar tudo, menos ele mesmo, porque a existência de James cria o dilema dele aceitar tudo em silêncio ou finalmente resolver mudar e se adaptar, a qualidade final do roteiro fica questionável quando não encontramos nenhum ponto realmente esclarecedor sobre quem ou o que tudo isso realmente significa. É um alter ego? É uma figura resultante de uma esquizofrenia? É um extraterrestre? É alguma outra coisa qualquer? É tudo isso ou nada disso?

Claro que não há como negar suas qualidades, como as já ditas sobre o desenvolvimento dos personagens, a fotografia e os enquadramentos incríveis que remetem uma década de 60 que ao mesmo tempo não se encaixa nessa época, como um mundo paralelo frio e inquieto. A trilha sonora sem dúvida é o grande destaque não apenas ao utilizar um repertório asiático antigo, mas também por fazer sons ambientes também virarem melodias inusitadas em uma similaridade ao de Bjork no filme Dançando no Escuro (Dancer In The Dark, 2000), criando o clima denso e até sombrio por muitas vezes. A atuação de Jesse Eisenberg é propositalmente coreografada e contida como Simon e explosiva como James e essa versatilidade do ator realmente dá outra dimensão nos momentos em que ele contracena com ele mesmo.

Existem tantas questões que surgem quando o filme acaba que desistimos dessa masturbação mental para simplesmente não cair na possibilidade de entrar em um mar sem respostas, e no fim das contas tudo aparenta ser apenas mais um daqueles filmes bem construídos, que rodam e rodam pra deixar o espectador tonto e com vergonha de dizer que entendeu e não saber explicar, ou ficar com vergonha de dizer que nada entendeu e ser taxado de ignorante por quem faz pose de intelectual. Tudo pode fazer muito sentido na cabeça do diretor, mas acho até desrespeitoso abranger tantas possibilidades sem haver uma conclusão coerente, como que jogar a batata quente na mão do espectador. Independente disso, as críticas e as ironias estão lá, e essas são relevantes e consideráveis acima de qualquer coisa.

CONCLUSÃO...
Bem feito, construído e atuado, com uma trilha sonora bastante inusitada e impactante, um filme que talvez consiga até surpreender em vários aspectos, mas vai deixar muita gente com uma interrogação na testa por não dar uma clareza ou um ponto determinante para encontrar um denomidador comum. Mas independente disso, as críticas sobre o ser e não ser estão lá.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

CINEMA TAMBÉM FAZ MÁGICA...

★★★★★★★
Título: Truque de Mestre (Now You See Me)
Ano: 2013
Gênero: Ação, Fantasia, Comédia
Classificação: Livre
Direção: Louis Leterrier
Elenco: Jesse Eisenberg, Mark Ruffalo, Woody Harrelson, Melanie Laurent, Isla Fisher, Dave Franco, Michael Cane, Morgan Freeman
País: Estados Unidos
Duração: 115 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Quatro mágicos são reunidos por um quinto elemento chamado de O Olho para cumprir uma missão de realizar o maior truque de mágica de suas vidas, a ser testemunhado por todo o mundo.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é diridigo pelo francês Louis Leterrier, o mesmo de filmes de ação como o inferior Carga Explosiva 2 (The Transporter 2, 2005), o precoce e fracassado remake de O Incrível Hulk (The Incredible Hulk, 2008) e o péssimo Fúria de Titãs (Clash Of The Titans, 2010), filmes que pecam na qualidade e no roteiro (com alguma excessão em Hulk), mas que de alguma forma fizeram algum sucesso nas bilheterias, o que garantiu ao diretor continuar sua carreira entre um tropeço e outro até conseguir finalmente acertar com esse filme que nada tinha para ser um grande sucesso.

Não possuia um título atrativo, os trailers eram mornos, e o enredo, que gira em torno do mundo da mágica, não é algo que faz muito a cabeça das pessoas no cinema porque a mágica é facilmente manipulada por truques cinematográficos. Embora possua um elenco de primeira, a maioria são de atores reconhecidos, mas de pouco sucessos, com excessão dos mais antigos como Woody Harrelson, Michael Cane e Morgan Freeman, que finalmente deixou de lado aquele tom de deboche irritante que vem feito nos últimos filmes e parece se divertir aqui. Ou seja, o que é que o filme teria de interessante? Não muito, mas o suficiente bem utilizado.

A história começa com uma breve apresentação de cada um dos quatro personagens principais: Daniel Atlas (Jesse Eisenberg), um mágico ilusionista arrogante; Henley Reeves (Isla Fisher), igualmente ilusionista, mas de apelo mais teatral e espetaculoso, ex-ajudante de Daniel no começo da carreira; Merrit (Woody Harrelson), um mágico hipnotista que se diz sensitivo, mas que na verdade é um excelente dedutor pelo apurado senso de observação; Jack Wilder (Dave Franco), um mágico ruim, mas um mestre punguista, além do dom de despistar facilmente qualquer pessoa que o estiver observando. Todos tem em comum o fato de serem incrivelmente talentosos, mas não terem o devido reconhecimento. Tudo muda quando um quinto personagem indeterminado, chamado de O Olho, os reunem. Em um salto de tempo, os personagens são mostrados como os Quatro Cavaleiros, astros da TV que comandam um programa de grande sucesso. O problema começa quando realizam ao vivo um assalto a um banco francês utilizando apenas a mágica, o que chama a atenção do FBI e da Interpol, pois o assalto é bem sucedido, o dinheiro é jogado às pessoas da platéia, mas os suspeitos não podem ser presos pois não há nenhuma prova contundente, o que faz os agentes Dylan (Mark Ruffalo) e Alma (Melanie Laurent, a eterna Shosanna) ficarem na cola dos Cavaleiros por todo o filme. Há uma tentativa de modernizar a intenção de Robin Hood, mas é só uma humilde referência, nada muito relevante quando toda a trama se conclui.

A história na verdade faz pouco sentido. Não há profundidade na vida de nenhum personagem e pouco ficamos sabendo do passado de cada um além do que é brevemente explicado ou solto aleatoriamente entre um diálogo e outro. Também não sabemos qual o verdadeiro motivo de tudo acontecer ou estar acontecendo. Todos os truques mostrados até tentam ser explicados dentro da sua ficção, mas nada feito para convencer, só para mistificar as ações dos personagens e ter algum sentido no contexto, já que filmes em si são ficções, então ao invés do roteiro perder tempo em convencer o espectador de que tudo tem uma explicação lógica (com excessão da abertura do filme, em que o truque com as cartas realizado é verdadeiro e não criado digitalmente), o mérito fica em realmente fazer de tudo um grandioso espetáculo, como é o esperado por quem vai ao cinema para assistir um filme com esse tema. E mesmo com tanta superficialidade, tudo funciona exatamente por ter essa levada despretenciosa de que aparentemente tudo daria errado. Isso acontece porque o diretor e o roteiro levam à risca a intenção de fazer com que o espectador nunca observe tudo tão de perto (como o personagem Daniel tanto faz questão de dizer) e essa distância que o diretor fluidamente mantém entre a história e o espectador é o que entretém porque, mesmo comercial, consegue, desde o início, realizar essa pequena mágica do cinema de fazer com que o espectador simplesmente esqueça dos absurdos e mergulhe de cabeça em toda a fantasia com naturalidade e sem perceber, deixando a preocupação e a atenção nos mínimos detalhes completamente de lado.

Embora as façanhas realizadas pelos personagens sejam algumas vezes até banais e algumas sequencias até um tanto desnecessárias, como a perseguição de carro, há outras muito bem elaboradas como o breve conflito entre o ladrão Jack e o detetive Dylan, e a forma como ele consegue escapar como um sabonete de toda a situação. Os personagens também são carismáticos, não havendo conflitos banais entre eles para construção de tramas paralelas desnecessárias. O jeitão canastrão de Woody Harrelson, que embora seja sua marca registrada e recorrente, consegue dar o tom cômico exato nas situações, roubando e engrandecendo as cenas, bem como Isla Fisher com seu sexy appeal comportado.

E dessa forma o filme entretém e segura o espectador em basicamente três atos que conseguem superar um ao outro sucessivamente dentro de um limite de nunca querer ser realista, mas também nunca exceder o limite do absurdo, e ao mesmo tempo nunca subestimar o espectador independente da idade, pois também consegue ser um filme leve e familiar.

Uma pena ele não ter sido tão lembrado ou comentado, mesmo tendo feito um grande e silencioso sucesso, arrecadando mais de US$234 milhões no mundo, o que garantiu ao diretor uma continuação, mas que não garante a mesma despretenção, qualidade e entretenimento que esse inesperadamente oferece com muito prazer.

CONCLUSÃO...
É um filme divertido, um dos poucos atuais que mesclam ação e fantasia sem deixar o espectador entediado ou preocupado com tanta idéia mirabolante e desnecessária. Claro que as pistas falsas para enganar o espectador existem, e para aqueles que já estão acostumados com reviravoltas finais, poderá não ficar muito convencido com o final, mas também em nenhum momento o filme tem pretensões de ser levado a sério. 
Add to Flipboard Magazine.