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segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

LOIRA ATÔMICA...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Atômica (Atomic Blonde)
Ano: 2017
Gênero: Ação
Classificação: 14 anos
Direção: David Leitch
Elenco: Charlize Theron, James McAvoy, John Goodman, Toby Jones
País: Alemanha, Suécia, Estados Unidos
Duração: 115 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Após o assassinato de um agente secreto, uma lista contendo nomes de agentes duplos da MI6 é exposta, colocando em risco a vida de todos, incluindo a da agente enviada especialmente para descobrir os motivos do crime.

O QUE TENHO A DIZER...
Atômica foi lançado e divulgado na premissa de trazer as mulheres novamente no primeiro plano da ação bate-e-arrebenta, com protagonistas que não são abaladas pelo sexismo ou pela esterotipação masculina, e que possam ter personagens tão fortes quanto eles, em cenários tão violentos quanto os deles.

Mas vale dizer que, apesar desse mérito, ele não é um carro chefe, sequer uma revolução. Nos últimos anos tivemos filmes de ação com protagonistas femininas muito fortes. Só Charlize Theron estreou dois antes desse: na adaptação da famosa série animada da MTV, Æon Flux (2005), e no estrondoso sucesso de crítica e público de Mad Max: Estrada da Fúria (2015), de longe um dos melhores do currículo da atriz por todo o significado de sua personagem no filme e a mudança de rumos que isso trouxe para a clássica franquia de George Miller.

Quando lembramos das mulheres no cenário de pancada, não podemos esquecer de Uma Thurman em Kill Bill (2003/2004), talvez a memória máxima do estilo no cinema desde século, que não apenas colocou Beatrix Kiddo com uma das protagonistas femininas mais fortes e empoderadas do gênero como também diversas outras antagonistas numa reunião exuberante que movimenta toda a história mais do que o próprio Bill (David Carradine), como: O-Ren Ishi (Lucy Liu); Vernita Green (Vivica A. Fox); Elle Driver (Daryl Hannah); Sofie Fatale (Julie Dreyfus) e Gogo Yubari (Chiaki Kuriyama).

Também menos interessante, mas nem por isso menos importante, a tentativa de Steven Soderbergh de revitalizar o estilo com Haywire (2011), trazendo Gina Carano, a famosa ex-lutadora de MMA, como protagonista, relembrando muito daquilo que Cynthia Rothrock fez nos filmes de pancadaria para a TV nas décadas de 80 a 90. Houve tentativas esdrúxulas, como Angelina Jolie numa cópia barata de Jason Bourne em Salt, Milla Jovovich na tenebrosa franquia Resident Evil, ou Jennifer Garner na abominável adaptação de Elektra (2005).

Não importa. Seja de Pam Grier a Michelle Yeoh, de Lucy Lawless a Rhona Mitra, de Carrie-Anne Moss a Kate Backinsale... as mulheres conseguem ser bem representadas no cinema estrogênio, já que o termo "testosterona" deixou de ser representação singular de força e empoderamento há muito tempo.

O grande problema é que a frequência com que isso acontece ainda é baixa, havendo uma relutância do público quando as intenções do cinema de ação dar mais espaço às mulheres ficam exageradamente expostas, ao invés de ser promovido sem essa intenção impositora, como aconteceram com os filmes de Tarantino ou Miller. E assim como ocorreu com As Caça Fantasmas (Ghostbusters, 2016), Atômica também sofreu da fúria conservadora quando utilizou esses princípios, não arrecadando nem US$100 milhões no mundo, nada mal para uma produção de US$30 milhões, mas nada que o considere um grande sucesso.

O que é uma grande pena, principalmente em um ano dominado pela Mulher Maravilha, pois é um interessante filme de espionagem de David Leitch, estréia do ex-dublê que agora se tornou diretor, trazendo Lorraine Broughton (Charlize Theron) como uma espiã da MI6 exposta por um traidor durante uma missão em Berlim.

Quer dizer... nem tão bem estréia assim, já que Leitch foi co-diretor de John Wick (2014), mas sem ser creditado.

Atômica é uma adaptação da novela gráfica The Coldest City (2012), de Anthony Johnston (autor) e Sam Hart (ilustrador), e assim como a obra original, o filme irá se desenvolver em meio aos acontecimentos que precederam o colapso do Comunismo na Alemanha com a Queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria. A história se mantém fiel ao material original, e por muitas vezes a fotografia de Jonathan Sela e os enquadramentos de Leitch utilizam das mesmas perspectivas dos desenhos que, embora sejam em preto e branco, são belissimamente adaptados ao colorido do filme. Cores sempre muito frias para causar a sensação de desconforto, isolamento e distância, com um ou outro choque, principalmente nos momentos mais densos da história, ou quando a protagonista parte diretamente para sua violência de sobrevivência.

Para quem é fã de James Bond e delirou com Skyfall (2012), lançado no mesmo ano da novela gráfica, irá encontrar muitas semelhanças entre as duas histórias, principalmente por ambos serem agentes secretos da MI6, e também porque a exposição de uma lista secreta de agentes duplos que passam a ser caçados um a um, sobrando à heroína tentar sobreviver e impedir o avanço da operação porque ela mesma está incluída nesta lista, também é um enredo similar ao de James Bond no filme mencionado. Também será impossível não relacionar os momentos de ação com as cenas antológicas da franquia Bourne, que incluem consistentes brigas corpo a corpo, o uso improvisado de objetos comuns como instrumentos de ataque e defesa, tiroteio comedido e uma perseguição de carro bastante interessante. A sensação da câmera na mão é presente o tempo todo, mas não tão delirante e labiríntica como os filmes de Paul Greengrass popularizaram. E ao invés da edição picotada, utilizada em demasia na Trilogia Bourne e que igualmente virou febre em todos os filmes de ação posteriores, aqui Leitch prefere abusar de planos sequência para que as coreografias de luta fossem amplamente registradas e mais convincentes, deixando de lado técnicas de edição para intensificar as técnicas de batalha. O que é sempre muito interessante em um cinema que tem deixado cada vez mais a atenção a mínimos detalhes de lado.

Mas enquanto o filme prefere impressionar em alguns pontos com a preferência de técnicas mais vibrantes e interessantes, ele peca no excesso de outros, como na trilha sonora recheada de clássicos 80tistas, usada de maneira tão intensa que chega a ser invasiva. Ou sempre mais alta que os diálogos ou sempre entrando em momentos desnecessários, a intenção é claramente de compensar as sequências mais monótonas de desenvolvimento da história, como na primeira metade do filme, e assim o espectador ter a falsa impressão de que tudo é empolgante do início ao fim. O que não é. Apenas na segunda metade que a ação vai tomar conta de tudo e o dinamismo da história acelera. Nem por isso o roteiro deixa de ir e vir várias vezes de e para lugar algum, tornando-se redundante para uma história que, inclusive, pode parecer confusa demais, naquela velha técnica narrativa de desconstruir fatos para causar a impressão de complexidade. E mesmo assim continuar previsível.

Charlize, deslumbrante como sempre, não precisa mais do que ela mesma em frente a câmera para chamar atenção até em filmes bem porcarias como Branca de Neve e o Caçador (2012) e sua sequência O Caçador e a Rainha de Gelo (2016), e mesmo numa personagem sem grandes variações emocionais, ela dá conta do recado, trazendo ao filme um refinamento que dificilmente qualquer outra atriz teria em seu lugar. Até porque o grande e único atrativo é ela e apenas ela, realizando movimentos numa coordenação que impressiona, imprimindo um estilo próprio assim como outras grandes estrelas de ação já fizeram em seus respectivos filmes. Irritante mesmo é James McAvoy, que se acomodou nos cacoetes com sua boca e acredita que fazer careta é atuar. Entorta a boca aqui, arreganha os dentes ali, morde ou bota a língua pra fora acolá... é tão irritante quanto a altura da trilha sonora. Inconveniente, propriamente dizendo.

E mesmo com esses defeitos que podem ter tido destaque justamente por ser um diretor estreante e mais preocupado com elementos visuais e sonoros, novamente não é um filme memorável, mas traz consigo idéias interessantes e cenas bem empolgantes e realistas. Não tem o excesso de ação como o trailer prometia, mas ainda sim empolga em sua segunda metade, acordando o espectador que bocejava nos primeiros 30 minutos.

Sem falar que é impagável uma das cenas finais de Charlize, quando pergunta o que ela deveria vestir para o chá com a Rainha. Cena simples e que mostra como a atriz tem um poder único e quase hipnotizante na tela, sendo esta a razão do filme funcionar e, de certa forma, oferecer o que propõe. Poderia ter acabado alí, mas infelizmente nem sempre os filmes são como esperamos.

sábado, 4 de junho de 2016

O APOCALIPSE DOS HERÓIS...

★★★★☆☆☆☆☆☆
Título: X-Men - Apocalipse
Ano: 2016
Gênero: Super Herói, Ação
Classificação: 12 anos
Direção: Bryan Singer
Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Oscar Isaac, Rose Byrne, Nicholas Hoult, Olivia Munn
País: Estados Unidos
Duração: 144 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Os heróis agora se unem para combater um inimigo ancestral que ressurge com o objetivo de aniquilar a raça humana, dominar os mutantes e destruir os mais fracos.

O QUE TENHO A DIZER...
Em um Egito antigo, com uma tecnologia aparentemente alienígena, nos é apresentado En Saban Nur (A Luz da Manhã, em arábico), mais conhecido como Apocalipse, um dos maiores supervilões dos X-Men e um importante personagem responsável por diversas mudanças dentro do Universo tanto dos heróis, quanto da Marvel, ao longo das décadas. Imortal e invencível, é um personagem curiosamente criado por uma mulher em 1986, Louise Simonson, e uma inteligente sacada da empresa porque ele é a metáfora do ciclo e da renovação, sendo sempre essa a intenção de suas ressurgências e reaparições de época em época. A criação do personagem se deu por uma necessidade, já que foi percebido que algo deveria estar acima de qualquer coisa e que justificasse, inclusive, até mesmo a razão de outros vilões existirem. 

É por isso que Apocalipse é narrado nos quadrinhos como o primeiro da espécie mutante (The First One), sendo ele o início da transição do homo sapiens ao homo superior em uma época em que a humanidade não estava preparada para isso, e nunca esteve. Para o vilão, que respira e transpira a crença da sobrevivência dos mais fortes, todos aqueles considerados fracos devem ser destruídos, não importa quem seja. Seu comportamento impiedoso é evidentemente o lado mais extremista, cruel e determinante daquilo que outros vilões pensam, e ao invés de convergir para o lado mais simples do maniqueísmo segregando ou extinguindo humanos, a intenção e existência dele é forçar a constante evolução selecionando os mais fortes através da guerra, obrigando todos a viverem em um constante caos para a sua própria renovação e preservação.

Por conta de seus poderes e tirania, Saban Nur dominava o Egito no ano de 3600aC, mas foi traído por seus súditos, que soterraram-no em sua própria tumba, enquanto seus Quatro Cavaleiros se sacrificaram para que ele pudesse ser preservado vivo. E é assim que o sexto filme começa, em uma narrativa rápida, escura e confusa o bastante pra deixar muita gente sem saber de fato o que aconteceu ou porquê. O que interessa é que Apocalipse agora está a salvo nos escombros de uma pirâmide soterrada no Cairo há mais de 5 mil anos, esperando um motivo para ser desperto.

Logo em seguida, entre rompantes da trilha sonora e uma breve ilustração que resume historicamente importantes acontecimentos durante os séculos, os créditos iniciais aparecem no típico estilo Bryan Singer de começar seus espetáculos.

É emocionante, principalmente para quem acompanha a trajetória dos heróis no cinema desde 2000. Mas ao mesmo tempo traz uma certa dúvida: será que Singer irá fazer jus à imagem e importância de um personagem tão grandioso e importante nesse universo quanto é Apocalipse?

Este novo capítulo é uma continuação direta do anterior, embora não haja qualquer referência. É o quarto de Singer na direção, e seria respeitável porque foi com os X-Men que ele se tornou o precursor do sucesso da nova leva de filmes de super heróis, e também de toda a renovação da Marvel nos cinemas e nos quadrinhos. Seu único grande erro foi o excesso de liberdade ao adaptá-los, fugindo completamente de certas origens e bagunçando importantes cronologias ao recontar histórias e recriar personagens à sua própria vontade.

Foi em cima dessa crítica comum que Dias de Um Futuro Esquecido (Days Of Future Past, 2014) foi feito, tentando corrigir erros passados e justificar prováveis erros futuros. Embora o filme anterior também tenha alguns buracos e confusões cronológicas dentro da própria franquia, no geral, o objetivo foi alcançado: o de sair dos becos sem saída nos quais a série havia se enfiado. Foi a oportunidade única e bem pensada de Singer para uma renovação geral e, assim, colocar tudo nos eixos novamente e em coerência com os quadrinhos, algo que ele nunca teve. Por isso, nenhuma outra sequência parecia calhar tão bem quanto Apocalipse, exatamente por conta do vilão em si ser o símbolo da mudança, o fim de um ciclo para a contemplação e firmação de outro. Parecia ser um excelente argumento para terminar mais uma trilogia e dar abertura para outra.

Mas não foi assim.

Não se pode esquecer que Primeira Classe (First Class, 2011) surgiu com o o intuito de dar um reboot na franquia que havia acabado na primeira trilogia, e Dias foi como um reboot desse reboot, como que a zerar o universo cinemático dos heróis.

Então, quando Apocalipse foi anunciado, a impressão de ser a segunda parte de uma saga de mudanças fundamentais soava coesa e madura, mas que emplodiram como a pirâmide de Saban Nur quando Singer não resistiu a si mesmo e a sua prepotência. Do filme anterior ele e seu roteirista, Simon Kimberg, nada mantiveram, nem mesmo um tema de fundo que justificasse essa continuação, por isso aparenta ser um reboot do reboot do reboot, como se a intenção agora fosse fazer de X-Men filmes com histórias individuais, sem contexto lógico, apenas para garantir à Fox o uso e exploração dos direitos e da marca, lucrando com a exaltação de fãs que apenas querem ver seus heróis preferidos nas telas, mesmo que eles estejam completamente fora de contexto, como é o caso de Jubileu, ou a própria Psylocke.

Os fãs que se irritaram com Singer ao longo dos anos e aceitaram seu indireto "pedido de desculpas" em Dias, terão outra vez os mesmos motivos para se irritarem.

É inacreditável a habilidade do diretor em desvirtuar histórias já concebidas e consagradas nos quadrinhos para deturpar personagens e suas funções. Nem mesmo o cuidado visual é o mesmo dos filmes anteriores. Se em Primeira Classe um dos pontos mais elogiados no filme de Matthew Vaughn foi a reprodução do final dos anos 60, nesta história, que se passa no início dos anos 80, as relações com a época são pífias. O anacronismo em vestuário, comportamento e tecnologia chegam a ser absurdos, na proposital intenção de deixar tudo o mais acessível possível, adequando o filme e uma época a um público mais jovem e desinformado, e não o contrário. Períodos históricos e suas respectivas épocas sempre tiveram importâncias fundamentais na Marvel, e com X-Men não seria diferente, mas Singer se esqueceu disso por completo, e nesse filme ele usa muita areia, concreto e deserto para disfarçar defeitos e  não obrigar a equipe técnica a se aprofundar em detalhes.

Nunca gostei da forma como Singer caracterizou os personagens ou narrou eventos, e o mesmo pensa muito daqueles que conhecem os materiais originais. Mas ainda sim havia algo a ser admirado, como sua habilidade de conseguir lidar com um grande elenco, de trazer humanidade e naturalidade para o fantástico, além de manter a essência aceitável e complacente das relações metafóricas da sociedade com os mutantes, que nada mais são do que uma metáfora aos diversos grupos sociais discriminados. Seus dois primeiros filmes foram produções que souberam construir uma história, mesmo que própria, sem deixar de entreter ou fugir deliberadamente do contexto no qual estavam inseridos nos quadrinhos. Ou seja, fato e fantasia, tudo aquilo que X-Men sempre soube fazer bem nas bancas e que no cinema, até então, tinha sido bem representado.

Quando Apocalipse desperta de seu sono milenar, ele afirma já ter sido chamado de várias coisas por diferentes eras, pois foi ele quem deu a centelha da vida e espalhou o fogo das civilizações. É nesse momento que você tem certeza que ele seria capaz de erguer uma montanha com um dedo e esmagar Magneto com um suspiro. Ele é alguém para se temer ou borrar as calças apenas de pensar, e é exatamente isso que ele faz quando empareda um homem com o olhar, ou faz o chão engolir dezenas de pessoas apenas com seu desdém. É dele o poder de dar vida ao pó, e ao pó fazer retornar quando bem quiser. Mas tanto poder assim eleva as possibilidades de tudo não parecer tão bom quanto deveria. Não havia necessidade de mostrar tanta onipotência em um filme só. Para que tanto poder se sua derrota é previsível desde o início? Para que insistir em batalhas quando o filme deu tantos poderes a um vilão que poderia desintegrar qualquer um com o estalar dos dedos, mas não o faz? Não houve em momento algum um crescente de acontecimentos desastrosos que levasse a um confronto justificável. Nos quadrinhos, todo esse vasto poder de Apocalipse é aperfeiçoado durante suas hibernações e despertares, portanto, definitivamente, não fazia sentido ele ter tanto poder concentrado para uma primeira aparição.

A grande graça de um vilão como ele é sua inteligência e manipulação. Sua convicção de que aquilo que ele faz tem um propósito eficaz é tão grande que muitas vezes, tenha sido nos quadrinhos ou na série animada, ele conseguia fazer o espectador questionar se ele realmente tinha razão. Isso não acontece no filme. Tudo é muito banal, grosseiro e sem inteligência. É difícil aceitar que Ororo Munroe, a Tempestade, tenha visto ele decaptar pessoas em sua frente e mesmo assim convidá-lo para entrar em sua casa, ou que Psylocke tenha se unido a ele quando, nos quadrinhos, ela sistematicamente lutou contra ele como uma X-Men. Enquanto isso, Mística, uma das mais importantes vilãs, é transformada na principal heroína da história para garantir a Jennifer Lawrence a imagem de queridinha, quando deveria ser a grande oportunidade que Singer tinha nas mãos para mudá-la de lado e fazer crescer a vilania que vimos da personagem nos três primeiros filmes.

O desenvolvimento da história não convence. A forma como ele recruta seus cavaleiros; a falta de um melhor argumento para ele "dominar o mundo"; o comprometimento amador dos heróis em salvar a humanidade; até os interlúdios - como a ridícula aparição de Wolverine, apenas para novamente agradar aos fãs e dizer que ele está lá, bagunçando mais ainda a cronologia - é tudo muito incoerente e mais uma vez desrespeitoso ao legado dos heróis e daquilo que o próprio diretor já fez. Digo isso porque, no objetivo de derrotar ou exilar Apocalipse, sempre foi necessário nos quadrinhos um exército de heróis e vilões que tréguam suas rivalidades para isso, tamanho o medo que ele desperta a todos. Mas nesse filme, não. Aqui, se tiver meia dúzia comprometido pra isso, é muito, e para Singer foi suficiente. Basta lembrar do esforço hercúleo de todos para neutralizar Jean Grey em Confronto Final (The Last Stand, 2006) e comparar com a chacota de Mercúrio surrando o vilão para entenderem o que digo.

Singer parece esgotado de idéias, ou com uma visão borrada por estar mergulhado no mesmo projeto há tantos anos, numa coisa similar a um escritor que, de tanto ler o mesmo texto, não enxerga mais erros de ortografia. O novo longa nada mais é do que um punhado de coisas que não fazem sentido apenas para dizer aos fãs que lá as coisas estão, dando a falsa ilusão de qualidade por corresponder expectativas, mas não por oferecer uma narrativa coerente, consistente. Muita gente argumenta que filmes de heróis são entretenimento e que não é cinema sério, mas a questão não é essa. A questão é levar a sério e respeitar o material pelo qual ele é baseado, só isso daria crédito suficiente.

O filme parecia bem em seu caminho até o momento em que o vilão, para evitar interferências externas, aciona todos os mísseis nucleares do mundo. Naquele instante, pensei, "isso é Apocalipse". Pensei isso porque imaginei que alguns dos mísseis retornariam para atacar algumas nações e todo o conflito ter início, pois é a natureza desse vilão atacar inimigos com suas próprias armas, criando guerras, buscando a destruição em massa para a reconstrução fortalecida. Naquele instante do filme, parecia que Singer havia compreendido todo o potencial da história, mas quando todos os mísseis desarmados ficaram a deriva no espaço, o que parecia certo ficou muito errado.

Tudo é muito óbvio e fácil. Os motivos para o vilão de repente acordar e sair destruindo tudo são rasos. Sim, ele quer dominar o planeta, disso todos sabemos. Mas não há uma razão aprofundada que o motive para isso, que tente convencer e abraçar o espectador para dentro da história e suas convicções. Quem conhece o vilão dos quadrinhos já conhece sua personalidade e sua maneira de agir, mas quem está nos cinemas não, e para essas pessoas, Apocalipse é apenas um cara mau que deve ser aniquilado. E para os fãs, vê-lo nas telas foi apenas uma realização porque, apesar de tudo, Oscar Isaac fez um bom trabalho mesmo com tão pouco. Então, é por essas e outras que muitos dos críticos taxaram este como o pior filme da série, enquanto muitos fãs que apenas queriam ver o vilão nas telas ficaram indgnados com tanta negatividade e tem feito campanhas para que as pessoas ignorem essas críticas.

Não é possível ignorar. No geral houve uma construção muito mal feita dos personagens, bem como suas relações no roteiro. Já havíamos perdoado o fato dos filmes nunca terem mencionado que Vampira é filha adotiva de Mística, mas não se pode perdoar que Noturno e Mística lutem lado a lado como dois adolescentes quando, originalmente, ela é sua mãe biológica. É muita negligência em um filme só frente a tantas outras de Singer esquecidas com o tempo.

Tá, mas e se ignorássemos os quadrinhos, e se eu tivesse que comentar apenas sobre o filme em si, ele seria bom do mesmo jeito? Não. Por mais de duas horas o roteiro leva tudo a lugar algum, há até momento para Singer novamente apelar para o holocausto e nos infortúnios de Magneto no intuito de trazer falsa densidade. É só na última meia hora que o grande confronto ocorre, onde todas as cenas de suposta ação aparecem, aquelas todas que estão no trailer. Mesmo assim essas cenas nem tão boas são porque os efeitos especiais, bem como a movimentação dos atores durante sequências circenses, são tão artificiais que é difícil até mesmo compará-los com o primeiro filme da série, que custou menos da metade e ainda são visualmente melhores.

Desperdiçaram muita coisa para dar atenção às cenas em câmera lenta de Mercúrio. Enquanto em Dias a cena do herói foi um dos momentos ápices por ter pego espectadores de surpresa, foi engraçada principalmente por ser breve e sutil. Dessa vez turbinaram o repeteco, na idéia de que exagerar na reprise o deixaria melhor. E isso não é verdade. Dessa vez, ao som de Eurythmics, a sequência de Mercúrio não teve o mesmo impacto e não funcionou da mesma forma, sequer foi melhor. Ficou longe de causar a mesma hilária surpresa da primeira vez, e o exagero na tiração de sarro apenas desperdiçou tempo e dinheiro. Para realizar essa sequência, sacrificaram os outros heróis e o próprio enredo. Magneto sequer entra em combate, apenas aparece ora aqui, ora alí, erguendo objetos e mais uma vez (MAIS UMA VEZ) destruindo pontes. Mística é poupada de seus poderes frente a câmera sempre que possível, até mesmo da maquiagem. Se em 2000, Rebecca Romjin impressionou com uma maquiagem e caracterização convincentes, nesse filme, Lawrence, A Estrela, é poupada de horas e horas de cadeira, jato de tinta e próteses, tanto que sua maquiagem ao longo dos últimos três filmes apenas piorou, virando algo tão grotesco quanto amador, que seria reprovado em qualquer reality show do tema. É por esse motivo que o número de vezes que Lawrence aparece caracterizada-de-fato consegue ser menor que no filme anterior, ao ponto de ser tão insignificante quanto sua participação na história.

Talvez seja o filme mais sofrível da série, pois empobreceu essências para valorizar tudo que é descartável. Apocalipse é um personagem grandioso, um super vilão por excelência, mas sua ode pela destruição tem uma ordem de complexidade, e assim como a Saga da Fênix, abordada no terceiro filme da série, e novamente abordada aqui como se Fênix fosse parte dos poderes de Jean e não uma entidade, são histórias que não cabem em um único filme porque demandam desenvolvimento gradual e maturação. Não é à toa que nos quadrinhos essas fases não são episódios, mas sagas (ou eras), porque não é apenas sobre a vilania, mas também sobre as consequências disso no mundo que estão inseridos.

O resultado de tudo é a receptividade amena que o filme teve nos cinemas. No primeiro final de semana já arrecadou mais de US$280 milhões no mundo. Já se pagou, mas está longe de atingir o mesmo sucesso de público dos anteriores, e a tendência é cair nas próximas semanas. E pela crítica, até mesmo O Confronto Final nem parece mais ser tão ruim ou desrespeitoso quanto esse, pelo contrário, hoje vejo que Brett Ratner tentou, na medida do seu possível, ter sido mais fiel que Singer jamais foi, e que Jean Grey, possuída pela Fênix, causou muito mais medo nas sequências iniciais e finais do que Apocalipse jamais conseguiu nesse filme.

CONCLUSÃO...
Os personagens que já conhecemos se tornaram vazios, jogados aleatoriamente com relações sem qualquer propósito para bagunçar mais ainda o que já estava bagunçado, como a intromissão de Striker, que não acrescenta nada na história além de garantir a já citada e desnecessária participação de Wolverine. É um filme que sequer consegue ser empolgante, e assim como A Origem da Justiça (Dawn Of Justice, 2016), sofre no seu desenvolvimento, arrastando o espectador em qualquer coisa para um fim trivial.

domingo, 18 de janeiro de 2015

FERIDA QUE DÓI E NÃO SE SENTE...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Dois Lados do Amor (The Disappearance Of Eleanor Rigby)
Ano: 2014
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Ned Benson
Elenco: Jessica Chastain, James McAvoy, William Hurt, Isabelle Hupert, Viola Davis
País: Estados Unidos
Duração: 123

SOBRE O QUE É O FILME?
A história de um casal que tenta retomar a vida e o amor que um dia tiveram juntando os pedaços de um passado que pode ter ido embora há muito tempo.

O QUE TENHO A DIZER...
O Desaparecimento de Eleanor Rigby seria o nome do filme se traduzido literalmente em português, o que teria sido um título muito melhor do que o atual dado por aquelas pessoas que a gente não sabe quem são. Um título tendencioso, que remete a uma comédia romântica fajuta qualquer, quando este não é o propósito do filme, e está muito longe de qualquer coisa parecida.

O desaparecimento de Eleanor que se fala é apenas um sentido figurado, já que a personagem está presente o tempo todo. A ausência é de sua essência, daquilo que a deixava viva e autêntica, pois hoje Eleanor nada mais é do que uma carcaça ambulante, apática, que sofre de uma culpa que não se sabe de onde vem e de um vazio que não há conteúdo que o preencha.

Dirigido e escrito por Ned Benson, é também sua estréia com longas metragens. A princípio o filme foi lançado em duas partes, a parte Ele, contada pela perspectiva de Conor (James McAvoy), e a parte Ela, contada pela perspectiva de Eleanor (Jessica Chastain). As duas partes foram lançadas no Festival de Cannes e posteriormente o diretor fez uma terceira edição entitulada Eles, que é a edição final distribuida em maior circuito pela Weinstein Company.

Dois Lados do Amor mostra de forma muito realista e sensível os rumos inesperados de um casamento após um trágico episódio e das sinceras dores de se seguir em frente depois disso. Este acontecimento será o grande responsável por abalar todas as fundações da relação de ambos ao ponto de não haver solução para estancar a sangria desenfreada.

Benson até tenta criar um clima de mistério no ar que por alguns momentos nos leva a acreditar que a culpa pode ser tanto de um quanto de outro, dependendo do grau de empatia do espectador com cada personagem, mas em nenhum momento ele força essas situações e muito menos demora a revelar o que de fato aconteceu, ele apenas evita falar sobre isso, pois é isso que os personagens fazem o tempo todo: evitar lidar com a realidade.

É quando a história se torna muito mais densa, pois é muito triste notar conforme ela se desenvolve que nenhum dos dois possui de fato uma culpa sobre a situação que se encontram. Eles até tentam, com muita sinceridade, encontrar alguma solução, um meio termo em consideração ao amor e carinho genuínos que possuem um pelo outro, mas há um gosto amargo no ar sobre algo que não se vê, mas se sente mesmo assim. A atmosfera pesa, o ar fica denso e a presença um do outro é cada vez mais incômoda, como uma vergonha, numa situação insustentável a cada nova tentativa de reaproximação e uma necessidade de se ouvir desculpas de quem não tem desculpas para dar. Esse desenvolvimento lento e doloroso feito pelo diretor/roteirista funciona como a deixar a ferida exposta ao tempo, e por mais que ele tente nos mostrar que ainda possa haver esperanças, no fundo sabemos que não há alternativas. Embora os clichés sejam usados, a construção de tudo é tão honesta, emotiva e instrospectiva que não há outra impressão sobre o filme como um triste olhar sobre um jovem casal que poderia ter dado muito certo caso não fosse o acaso de seus próprios destinos.

Impressionante como a atriz Jessica Chastain tem escolhido filmes com muita acertividade, preferindo papéis mais densos e em produções menores do que ir para o caminho mais óbvio da fama, tanto que ela desistiu de O Homem de Ferro 3 para fazer este filme, que exige dela muito mais sutileza do que seus papéis anteriores porque a dor de Eleanor vem de dentro, de um lugar que nem mesmo o coração dela sabe onde está. Um alguém que a todo momento tenta se fixar em algum lugar na tentativa de recomeçar outra vez, mas não consegue fazê-lo de forma alguma.

CONCLUSÃO...
Uma pena que esse filme vai passar despercebido no grande circuito, pois as atuações são bastante impressionantes e por parte de todo elenco, além de ser uma história sutil, delicada e verdadeira sobre a relação de um casal que se perdeu, de um amor que ainda existe, mas cuja presença esvaneceu e deixou entre eles apenas um vácuo inexplicável.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

SINGER CONSEGUE SAIR PELA TANGENTE...

★★★★★★★☆☆☆
Título: X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido (X-Men: Days Of Future Past)
Ano: 2014
Gênero: Ação
Classificação: 12 anos
Direção: Bryan Singer
Elenco: James McAvoy, Hugh Jackman, Jennifer Lawrence, Michael Fassbender, Ian McKellen, Patrick Stuart, Ellen Page
País: Estados Unidos
Duração: 131 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Wolverine é enviado de volta para a década de 70 para impedir um assassinato que será responsável por dizimar todos os mutantes no futuro.

O QUE TENHO A DIZER...
Há 51 anos atrás a primeira edição de X-Men foi lançada, super heróis mutantes criados por Stan Lee e Jack Kirby pela Marvel Comics. O sucesso desses heróis é visto até os dias de hoje, valendo sempre dizer que eles, juntamente com o diretor Bryan Singer, foram responsáveis e pioneiros por mostrarem no início de 2000 que havia possibilidades do cinema de ação trabalhar com os quadrinhos de maneira relevante tanto como entretenimento como um produto comercial que não fosse inteiramente descartável. Tanto que 90% dos filmes de ação do verão norteamericano nos últimos anos tem sido apenas de super heróis, sejam eles da Marvel ou da DC.

Os X-Men nos quadrinhos se destacaram por vários motivos, mas um deles era de suas histórias se adaptarem com as épocas e fatos que viviam e até mesmo incoroporá-las em suas tramas, o que também deu certo e funcionou no cinema. Mas com o passar dos anos as histórias publicadas perderam fôlego e ficaram confusas, os personagens começaram a entrar em um loop infinito de erros, discordâncias e anacronismos ao ponto de todo o Universo Marvel ter sofrido imensas transformações principalmente nos anos 90 até culminar com a Era do Apocalipse, um evento que zerou novamente todo o universo, e isso sempre vai acontecer quando tudo bagunçar, como aconteceu no ano passado em que parte da Marvel foi novamente resetada com a chegada do Marvel Now (Nova Marvel, no Brasil).

Com o lançamento do primeiro filme dos X-Men em 2000, Bryan Singer teve boas intenções, porém seu excesso de autoestima e afirmação fez o diretor se precipitar ao pegar a história dos mutantes e recontá-la à sua maneira. Singer se manteve fiel a alguns personagens chaves, mas reinventou a história particular muitos deles a seu bel prazer, o que gerou uma confusão entre aquilo que fãs já conheciam e novos fãs estavam conhecendo, tanto que a Marvel teve que sambar para recontar suas histórias publicadas e diminuir essa grande incoerência do que se viu nas telas com o que existia nos quadrinhos até então.

De uma maneira geral, os dois primeiros filmes de Singer funcionaram nas telas e são as referências em qualidade até hoje, mas o terceiro filme, dirigido por Brett Ratner, deixou a desejar e foi quase um suicídio da franquia. Em 2011, houve uma tentativa de fazer um reboot da série, e Matthew Vaughn foi escalado para dirigir o quarto filme, entitulado Primeira Classe, que seria uma pré-sequencia da trilogia original ao contar como Charles Xavier fundou sua escola de jovens super dotados na década de 60, e como a curiosa relação entre ele e seu amigo Erik Lensherr/Magneto culminou em discordâncias ideológicas e se transformou em uma das mais clássicas e conhecidas rivalidade dos quadrinhos.

E aquilo que era pra ser o reinício de uma franquia e esquecer tudo que foi feito anteriormente, se transformou numa discussão entre a massa de fãs que se perguntava: como dar continuidade a essa história e alinhá-la à história da trilogia original?

Depois de ter abandonado a franquia para uma fracassada tentativa de reviver o ícone da DC em Superman Returns (2006), ninguém seria melhor que Bryan Singer para retornar à direção 10 anos depois justamente para realizar esta ponte entre os filmes e (tentar) consertar todos os erros cometidos no passado, inclusive por ele mesmo.

E funcionou?

Por incrível que pareça, sim.

A habilidade de Singer em administrar um grande número de personagens e de tramas paralelas é inegável e novamente visto aqui. Mas dessa vez Singer não apenas teve de lidar com as tramas paralelas do próprio filme como também com os buracos dos anteriores. Muitos dos erros são consertados de maneira discreta, e embora as referências aos filmes anteriores existam o tempo todo (incluindo também os dois péssimos spinoffs de Wolverine), muitas delas são feitas de maneira indireta justamente para não deixar o novo espectador confuso ou perdido e há até momentos para brincar com algumas situações inusitadas, como mostrar em uma sequencia de onde vem o trauma de Wolverine em viajar de avião.

Claro que isso não significa que seja necessário assistir os filmes anteriores para entender este, muito embora deva ser uma obrigação. Mas essa obrigação é para observar como Singer realmente conseguiu transformar tudo, entre erros e acertos, em um produto condensado, aceitável e grandioso dentro de todos esse complexo mundo confuso que ficou os dos X-Men. Parece que Singer finalmente deixou sua arrogante individualidade de lado e resolveu dar ouvido a base de fãs, pois entre méritos e deméritos, construções e desconstruções, este é o filme mais relevante dos X-Men como uma verdadeira adaptação.

A história se passa dez anos depois do Primeira Classe e 50 anos antes da dizimação dos mutantes na Terra. Esse período é baseado em um episódio dos quadrinhos que leva o mesmo nome e que também já foi adaptado na primeira série animada. Tudo começa com uma boa sequencia de ação no futuro, que teoricamente se passaria nos nossos dias atuais, só que completamente diferente do nosso presente, sendo muito mais tecnológico e apocalíptico. Depois perde o ritmo com piadinhas manjadas e uma crise depressiva de Xavier-jovem que não convence muito até mesmo pela facilidade com que ele é convencido a ajudar o Xavier-velho. Há outros momentos já vistos antes, como novamente Magneto isolado em uma prisão de segurança máxima, ou Wolverine novamente sendo neutralizado por Magneto, a relação de amor e ódio entre Xavier e Magneto, e a sempre clássica dúvida entre tentar viver em harmonia com os humanos ou não. Não há uma cena de batalha realmente impressionante ou de tirar o fôlego como nos filmes anteriores, mas nas poucas que existem, como nas batalhas com os Sentinelas, podemos sentir aquele gostinho muito bom de vê-los trabalhando em equipe, o verdadeiro grande atrativo dos X-Men.

Os personagens mais conhecidos estão presentes, e claro que a história novamente vai se concentrar nos personagens mais populares e nos atores que possuem mais relevancia popular e comercial, como Wolverine (Hugh Jackman, reprisando o papel pela sétima vez), Mística (Jennifer Lawrence, atualmente a atriz mais bem paga do cinema) e Magneto (Michael Fassbender, o alemão de ouro de Hollywood). Alguns que fizeram apenas algumas pontas nos anteriores voltaram com alguma participação maior, como Colossus (que outra vez entra mudo e sai calado), Kitty Pride (Ellen Page novamente fazendo aquela sempre cara de que não está nenhum pouco a fim de fazer o filme) e Bob Drake/Homem Gelo (sempre querendo fazer mais, mas Singer sempre oferecendo de menos). Novos mutantes agora aparecem como Quicksilver (que nos quadrinhos é filho de Magneto), Sunspot (não confundi-lo com o Homem Tocha de Quarteto Fantástico), Blink e Bishop, esses três últimos apenas para incrementar as cenas de ação, já que não possuem qualquer relevância em toda a trama.

Essa mania de concentrar as histórias sempre nos personagens ou nos atores mais populares é, talvez, o grande defeito de todo o filme, porque X-Men não é Wolverine, e essa noção de "trabalho em equipe", que sempre foi um dos fundamentos principais de Xavier, se perde. Diferente de Os Vingadores (The Avengers, 2012), em que o Homem de Ferro se tornou o personagem mais popular por conta de sua franquia e mesmo assim o filme soube dar momentos especiais para todos os demais personagens. Mas isso nunca acontece de maneira satisfatória nesse filme.

Apesar de Singer tentar consertar algumas coisas e encaixar a história com os quadrinhos de uma forma que ele nunca havia feito, ele ainda insiste na mesma tecla de deturpar as histórias dos personagens e criar as suas próprias, como o fato de Bishop (que nos quadrinhos é o verdadeiro viajante do tempo) ser o personagem que menos tem a ver com tudo isso no filme, e agora Kitty Pride ter esse novo poder de transportar a consciência dos mutantes para o passado, quando isso deveria ser uma missão de Xavier, Jean Grey, Emma Frost ou até mesmo uma simples máquina no tempo, como aquelas criadas pelo personagem Forge nos quadrinhos. Essas são, talvez, as maiores heresias cometida por ele, e imperdoáveis no ponto de vista de quem conhece a função de cada um nessa história. Essas gafes colossais realmente deixam os fãs um tanto decepcionados, mas para aqueles que pouco conhecem a fundo a história dos mutantes, nada disso é percebido, nem mesmo serão percebidos os erros de continuidade e questões chaves que não deveriam ter sido ignoradas, como o website SCREENRANT publicou.

Na parte do design de produção e figurino, é notável a queda de qualidade do filme anterior para esse. Se em Primeira Classe a década de 60 foi reproduzida com uma qualidade de encher os olhos e, inclusive, elogiada pela crítica em sua maioria, neste filme a década de 70 nem se parece com ela, principalmente depois do deleite visual de Trapaça (American Hustle, 2013). No filme há até um notebook com tela LCD. Além desse ato falho e absurdamente anacrônico, é engraçado observar a atuação dos figurantes, que de tão mal dirigidos ou dirigidos com pressa, fica evitente a mecânica e a coreografia de organização. Enfim, erros pequenos para quem enxerga pouco, mas bem graves para uma produção de US$200 milhões.

Como um todo, não há como negar que Singer conseguiu, a duras penas, aprender que com os X-Men não se brinca e sair pela tangente de maneira fina. A Marvel estava muito preocupada com o que fazer sobre a terceira franquia mais lucrativa da empresa e um dos principais ícones de sua marca. A sequencia final, por si só, define a razão do filme existir e já vale a pena todos os seus 131 minutos, como também é um final nostálgico, trágico e emocionante, que conseguiu transportar pra tela muito desse misto de angústia e esperança que os quadrinhos e a primeira série animada conseguiram fazer, além de, inclusive, dar gás para novos filmes no futuro (uma nova sequencia já foi anunciada para 2016).

Sorte teve Singer em conseguir encontrar linhas comuns entre todos os individuais filmes e, ironicamente, tal qual como o filme, seus erros do passado justificam os resultados desse novo episódio.

CONCLUSÃO...
Novamente é Singer fazendo tudo da sua forma, mas sua habilidade de conseguir lidar com diversos personagens e tramas paralelas fazem desse filme um grande divisor nesta pentalogia. Claro que vai agradar mais os fãs dos filmes do que dos quadrinhos, mas nem por isso vai deixar de emocionar os mais exigentes ao ver seus heróis preferidos personificados na tela, mas também vai despertar o ódio por muitos erros de continuação existirem e questões fundamentais da trilogia original terem sido ignoradas.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

TRANSE BANAL...

★★★★☆☆☆☆☆☆
Título: Em Transe (Trance)
Ano: 2013
Gênero: Ação, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Danny Boyle
Elenco: James McAvoy, Vincent Cassel, Rosario Dawson
País: Reino Unido
Duração: 101 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um auxiliar de leilões se vê envolvido em uma trama onde é utilizada a hipnose para descobrir o paradeiro de uma obra de arte a qual sumiu sem vestígios de suas próprias mãos.

O QUE TENHO A DIZER...
Em Transe é dirigido pelo britânico Danny Boyle. Para quem já conhece sua tragetória e seus filmes, poderia dispensar comentários, mas para quem não conhece ou conhece pouco, vale a pena saber.

Não é à toa que Boyle é por mérito um dos melhores diretores contemporâneos, sua carreira e trajetória por si só demonstram isso. A principal razão é, sem dúvida, a linguagem visual que ele constrói, principalmente nas composições criadas para demonstrar situações bastante subjetivas como a psicose que gradualmente toma conta dos personagens no tardiamente reconhecido Cova Rasa (Shallow Grave, 1994) - um thriller independente que chamou atenção de muitos só quando foi cair nas prateleiras das locadoras, quando tudo ainda era VHS; ou a letargia psicotrópica no cult lisérgico e uma referência de uma geração chamada Trainspotting (1996) - o qual marcou tanto uma década que é difícil encontrar alguma pessoa que não faça referência a ele ou não tenha assistido; ou o horror realista e desesperador de uma guerra pandêmica incontrolável em Extermínio (28 Days Later, 2002); e a atenção dos pequenos aos mínimos detalhes em Quem Quer Ser Um Milhonário? (Slumdog Millionaire, 2008).

Teve filmes pouco expressivos ou lembrados, como o megaproduzido A Praia (The Beach, 2000), que não fez o sucesso esperado e recebeu críticas de mistas a negativas; ou o limite entre a ingenuidade e a corrupção moral do metafórico Caiu do Céu (Millions, 2004); além da brilhante e injustiçada ficção científica Sunshine (2007), uma das únicas homenagens ao clássico espacial de Kubrick que deu certo.

Os pontos altos da carreira do diretor ocorreram em dois momentos:

1) Extermínio, quando ele acertou em cheio ao alavancar o renascimento de um gênero basicamente esquecido, o "survivor horror" classicamente conhecido pela "Trilogia dos Mortos", de George Romero produzido entre as décadas de 70 e 80. Querendo ou não, este filme se tornou uma referência nos que foram lançados posteriormente - incluindo o atual Guerra Mundial Z (World War Z, 2013) - tanto que ganhou uma continuação em 2007 (dirigido pelo espanhol Juan Carlos Fresnadillo), além de uma campanha mundial de fãs que anseiam por um terceiro episódio que Boyle sempre cogitou a vontade de dirigir, mas que pelo excesso de produções e a falta de uma idéia inovadora sejam motivos para ele não realizá-lo.

2) Quem Quer Ser Um Milhonário?, talvez o auge de sua consagração até o momento, além de um dos seus filmes mais redondos e perfeccionistas no sentido narrativo e técnico. O filme concorreu a 10 Oscars, levando 8, incluindo Melhor Diretor e Melhor Filme, dando oportunidade para, dois anos depois, ele novamente acertar com 127 Horas (127 Hours, 2010), novamente utilizando o jogo de imagens para reproduzir a angústia e o sofrimento da solidão e do desespero. Outra vez concorreu a 6 Oscars, incluindo Melhor Filme.

E assim é a carreira de Boyle. Entre altos e baixos e filmes que se bem sucedem ou não, ele é um diretor relevante que conseguiu reestilizar as maneiras de se contar histórias através do apelo visual, em edições ágeis e cortes precisos que exigem atenção do espectador e, inclusive, uma atividade cerebral de leitura dinâmica de imagens, despertanto associações automáticas e uma certa noção semiótica de forma bastante natural e até mesmo didática, dispensando a necessidade de conhecimentos técnicos de tudo isso para haver a compreensão.

Mas claro que uma carreira não é brilhante integralmente, e Boyle já errou em filmes como Por Uma Vida Menos Ordinária (A Life Less Ordinary, 1997) e, agora, com Em Transe.

Em Transe é novamente Boyle brincando com imagens. O filme vem erroneamente sendo associado a Trainspotting (embora Boyle já tenha cogitado a idéia de dirigir uma continuação deste título), e muito do que ele realizou no seu primeiro grande cult está aqui nas edições, nos cortes, o uso do subliminar e também da omissão de informações. Com essas táticas chaves, algumas utilizadas mais, outras menos, ele constrói uma história que engana o espectador a todo momento com cenas confusas e - por poucas vezes - surreais que levam o espectador a se surpreender através da falsa dedução criada pelas ferramentas que Boyle oferece para isso. Isso seria brilhante, caso o filme não tivesse caído em fadados clichés que não costumam ser característicos do diretor.

O filme conta a história de Simon (James McAvoy), um auxiliar de leilões treinado para salvar os objetos valiosos em situações de risco. Obviamente que, durante um leilão, ele seria vítima de um assalto. Agindo de forma ágil para salvar a obra de arte, durante o procedimento de segurança ele é abordado pelo assaltante Franck (Vincent Cassel), que o golpeia na cabeça deixando-o em coma. O problema é que quando Franck abre a bolsa, descobre que dentro dela há apenas a moldura sem a tela. Ao se recuperar, Simon é novamente capturado por Franck, que quer saber onde ele escondeu a obra de arte, mas Simon não sabe dizer, já que agora sofre de uma amnésia que não se sabe se é temporária ou não. Franck busca alternativas e descobre que a hipnose pode ajudar Simon a descobrir o paradeiro da tela. É quando entra em cena a terapeuta Elizabeth (Rosario Dawson), que será uma peça chave para todo o desfecho da trama.

Assim como todos seus filmes anteriores, Em Transe é visualmente interessante, e poderia ter sido excelente se não fosse tão confuso e obsoleto. Assim como dito por Rubens Ewald, o filme até poderia ter funcionado em outra época, quando o uso de uma tática/justificativa tão boba como a hipnose para buscar a solução de fatos insolucionáveis ainda não era banalizado, ou numa época em que filmes de ação com situações absurdas não causavam constrangimento.

A verdade é que, para um diretor tão preciso e atento a detalhes sérios e realistas até mesmo quando fictícios, este filme soa como um grande acidente de percurso. O roteirista Joe Ahearne apresentou o roteiro do filme pela primeira vez a Boyle em meados de 1994, o qual foi recusado pelo diretor que alegou que o filme poderia ser bastante difícil para um roteirista iniciante. Em 2001 o roteirista conseguiu transformar a história em um filme para a televisão, e apenas em 2011 Boyle teve o interesse de dirigí-lo para o cinema com auxílio do roteirista e amigo John Hodge. Mas devido aos preparativos das Olimpíadas em Londres (a qual Boyle foi responsável pela direção da abertura e encerramento), o filme teve um atraso na sua finalização, e a pós produção ocorreu apenas no final de 2012.

A qualidade da produção é indiscutível. As características de Boyle estão explícitas a todo momento. A câmera ágil que busca ângulos inusitados, o jogo de imagens que Boyle faz para criar a atmosfera confusa, a atenção a detalhes e a fluidez. A habilidade do diretor em lidar com tudo isso de forma sublime é inegável, mas o roteiro, mesmo tendo quase duas décadas para ser maturado, não conseguiu deixar de lado o ranso do tempo, sofrendo de absurdos que não cabem mais no século XXI, ainda mais com a facilidade de se encontrar informações sobre qualquer coisa e em qualquer lugar. Chega a ser até constrangedor um erro como o do momento em que estão todos os persnagens em um carro com um cadáver apodrecido no porta mala há semanas e ninguém nem ao menos ter percebido. Só esta pequena situação já coloca o filme com um dos piores desenvolvimentos que assisti nos últimos anos.

Querendo ou não querendo o filme explora a atitude do sonho inconsciente e consciente, além da possibilidade da implantação de idéias, tal qual ocorreu na tentativa frustrada do filme A Origem (Inception, 2010). A diferença é que, visualmente, o contexto de Boyle é muito mais verossímel e sinestésico do que no filme de Chritopher Nolan, justamente pela experiência de Boyle em brincar com imagens e sensações ser maior e a grande característica e trunfo de seus filmes. Mas o roteiro mal desenvolvido não evitou sair da essência interessante para cair no grande cliché romântico. Também não se atentou por construções mais simples, e o resultado de tudo isso é um filme que, tal qual como o filme de Brian De Palma que recentemente assisti, Passion (2012), ele pode até ter uma grande coerência dentro da idéia do próprio diretor, mas para o público em geral - até mesmo para seus fãs - tudo vai soar como algo sem sentido ou fundamento, pois a tentativa de compreendê-lo se torna fútil e frustrante por conta de uma linguagem extremamente complicada para uma resolução simples. Ou seja, pra mim, é aquilo que chamo de redundância cinematográfica, algo que soma absolutamente nada, embora tente demonstrar e fazer o espectador acreditar no contrário a todo momento.

CONCLUSÃO...
Um erro no percurso brilhante na carreira de Boyle. Em Transe pode até ser visualmente interessante e até se bem suceder ao conseguir enganar o espectador utilizando truques de edição e omissão, mas sua resolução se torna boba conforme as peças se encaixam e o espectador conclui a trama. Uma pena e um desperdício que pode até ser salvo pelo ótimo elenco e as habilidades natas de Boyle, mas o roteiro furado se destaca pelo excesso de exageros desnecessários.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

PRIMEIRA CLASSE COM CLASSE...


★★★★★★★★☆☆
Título: X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class)
Ano: 2011
Gênero: Ação, Fantasia, Ficção Científica
Classificação: 12 anos
Direção: Matthew Vaughn
Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Kevin Bacon, Rose Byrne, Jennifer Lawrence, January Jones
País: Estados Unidos
Duração: 132 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Charles Xavier e Erik Lensherr são mutantes que sabem que não são os únicos, e que esta nova raça humana, a chamada Geração X, tem muito a oferecer e ajudar. Eles resolvem criar uma escola para jovens superdotados, mas as coisas não saem como planejado, pois os Estados Unidos, juntamente com União Soviética e Cuba, atravessam por um período delicado, a Guerra Fria, e o uso do poder desses mutantes parece ser interessante para aqueles que querem disseminar o caos e a destruição. E assim uma rachadura na grande amizade entre Xavier e Erik acontece, e essas duas partes tendem a se separar a qualquer instante, dando início a eterna batalha entre Magneto e sua irmandade, e Xavier e seus X-Men.

O QUE TENHO A DIZER...
Dirigido por Matthew Vaughn, diretor de Stardust (2007) e o inesperado Kick-Ass (2010), filme pelo qual ele ficou mais conhecido e que foi o responsável por ter dado a ele a direção de Primeira Classe. O roteiro é assinado por mais três pessoas, além do póprio Matthew Vaughn: Ashley Miller e Zack Stentz (Thor, 2011); Jane Goldman (Kick-Ass, 2010). Como já disse outras vezes, eu costumo duvidar da qualidade de roteiros escritos por mais de uma pessoa, pois demonstra ter sofrido dezenas de transformações em comparação ao protudo original. Mas nesse caso as coisas parecem que funcionaram bem, principalmente por ter sido escrito por mulheres e homens. A presença de roteiristas femininas dão uma sutileza necessária e obrigatória em qualquer adaptação dos X-Men, algo que faltou bastante nos filmes anteriores.

Bryan Singer assina como produtor, tentando retornar ao lar depois de ter abandonado os mutantes para investir no mundo de Kripton com o seu fracassado Superman, O Retorno (Superman Returns, 2006). Segundo Bryan Singer, ele mesmo tinha interesses pessoais em dirigir este filme desde o princípio, mas por conta da sua adaptação de João e o Pé de Feijão, ele acabou sendo substituído por Matthew Vaughn.

Na verdade este filme é um reboot, ou seja, um reinício, já que a primeira trilogia havia findado com X-Men: O Confronto Final (X-Men: Last Stand, 2006). Frente a várias insatisfações dos fãs, do público em geral e do estúdio pelos rumos que a trilogia havia tomado e como ela terminou, acharam que seria uma boa idéia recomeçar do zero. A princípio o reboot seria feito com uma pré-continuação que contasse a história de Magneto, em um spinoff similiar ao de Wolwerine (X-Men Origins: Wolwerine, 2009), tanto que o roteirista Zack Penn até havia sindo contratado para escrever o roteiro. Entretando, durante o desenvolvimento da história, os produtores acharam que seria interessante mudar o foco da história para os primeiros anos da equipe. Zack Penn achou essa idéia muito mais interessante do que a que ele estava desenvolvendo, e assim o filme sobre a Primeira Classe surgiu.

A "primeira classe" ao qual o filme se refere é a primeira turma de mutantes que Xavier uniu. Nos quadrinhos originais a equipe era formada por Cyclops, Jean Grey, Homem Gelo, Fera e Arcanjo. Obviamente que no filme as coisas seriam diferentes.

É difícil falar sobre ele colocando os outros filmes de lado. No meu ponto de vista uma coisa sempre foi muito clara: não importa o quanto Bryan Singer conseguiu fazer de X-Men (2000) e X-2 (2003) dois filmes interessantes e acima da média, ele nunca deveria ter se apropriado dos personagens para criar sua própria história sem respeitar as histórias originais e a cronologia de cada um deles porque agora estão tentando reparar isso numa cadeia cíclica de erros, pegando personagens clássicos e reinventando suas histórias outra vez, negando de uma forma ou de outra todo o desenvolvimento nos quadrinhos em seus mais de 40 anos de existência. Mais seqüências virão, mas como eles irão desenvolver e dar espaço para personagens esquecidos - ou àqueles que já foram apresentados fora de sua cronologia original - será um mistério.

De qualquer forma, Primeira Classe consegue agradar os fãs ao manter alguns personagens e trazer outros, mas ao mesmo tempo pode não ser tão agradável por não ser fiel aos quadrinhos. Para as pessoas que conhecem pouco sobre os mutantes, isso não faz diferença, e analizando o filme por si só, ele realmente oferece o que promete e traz de volta a atmosfera dos dois primeiros filmes que foram perdidos na terceira e útlima parte de 2006.

A história é sólida e consistente, encaixando os mutantes como peças de um jogo de xadrez no histórico período da Guerra Fria, fazendo desta época o marco zero da batalha entre humanos e mutantes, e também entre mutantes e mutantes. O roteiro conduz os fatos de forma linear, e misturar a ficção com bases históricas oferece outra dimensão nesta ficção, se encaixando perfeitamente dentro dos propósitos da história.

É direcionado para um público mais adulto do que juvenil, embora os jovens irão se exaltar por vários momentos com os personagens e cenas de ação que são frequentes do início ao fim. É um filme violento, comparado com os anteriores, mas não é explícito, e é isso que o caracteriza não apenas como adulto, mas também inteligente, porque a maioria da violência acontece mais na imaginação do que em imagens. Ou seja, eles oferecem o material, e o resto é criado por quem assiste. Isso acaba sendo mais chocante porque atinge as pessoas de forma individual, já que a imaginação é subjetiva.

Michael Vaugh sustenta a direção melhor do que o esperado, usando os elementos primários dos dois primeiros filmes dirigidos por Bryan Singer, mas ao mesmo tempo adicionando características próprias, trazendo um ar novo à série, algo que também havia sido perdido no terceiro episódio de 2006. Ele mesmo afirmou que o filme é fortemente inspirado nos anteriores dirigidos por Bryan Singer.

Os uniformes e o design artístico são maravilhosos, reproduzindo a década de 60 da maneira mais elegante possível. Alguns anacronismos existem, mas não atrapalham. Fãs ficarão impressionados com algumas referências e algumas participações especiais de personagens e atores da série anterior. Incluir Michael Fassbender, Kevin Bacon, Rose Byrne e Jennifer Lawrence na história só complementou as qualidades e o tom adulto do filme. Inclusive, Michael Fassbender estudou a atuação de Ian McKellen nos filmes anteriores durante o período em que se preparava para o papel de Magneto, justamente para que houvesse conexão entre os filmes. Senti que a trilha sonora era às vezes um pouco invasiva, apelando na sinestesia subliminar, mas que é possível ser esquecido perto de tantas qualidades.

O filme perde um pouco o interesse ao chegar próximo ao fim, amenizando a rebeldia de alguns personagens e transformando a separação e a guerra entre Magneto e Xavier algo um tanto pacífico para aqueles que esperavam um genuíno choque de ideologias.

Se o filme receberá uma sequência, é improvável, já que ele custou US$160 milhões e não foi o sucesso esperado nos EUA, embora ele tenha arrecadado mais de US$350 milhões no mundo.

CONCLUSÃO...
No geral, com certeza é a melhor adaptação de quadrinhos de 2011, e pode ser encaixada facilmente entre as melhores adaptações juntamente com as duas primeiras realizadas da série X-Men. Como disse anterioremente, é X-Men retornando à sua forma.

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