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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A VIRTUDE DA IGNORÂNCIA...

★★★★★★★★★☆
Título: Birdman - A Inexperada Virtude da Ignorância
Ano: 2014
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 16 anos
Direção: Alejandro Gonzáles Iñárritu
Elenco: Michael Keaton, Emma Stone, Edward Norton, Naomi Watts, Zack Galifianakis
País: Estados Unidos
Duração: 119 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um ator decadente que ficou famoso por interpretar um icônico super herói no passado, e agora deve lutar contra seu próprio ego e problemas familiares conforme produz sua nova peça teatral na Broadway.

O QUE TENHO A DIZER...
Que Alfonso Cuaron e Alejandro Iñarritu são amigos de longa data, isso todo mundo já sabe. Se não sabia aqui vai uma ótima oportunidade pra saber. Junto a dupla podemos colocar Guilermo Del Toro no grupo e a entourage mexicana está pronta.

Em 2013 Cuaron supreendeu com Gravidade (Gravity), dando ao filme elementos experimentais e ao mesmo tempo comerciais que atingiram a perfeição técnica e elogios pelo mundo todo. Cuaron elevou o nível de experiência das ficções científicas de tal forma que ele pode ser considerado um grande clássico moderno do gênero e da história do cinema, tal qual foi 2001 (1968). Suas cenas coreografadas como um balé espacial em planos sequências de até 15 minutos foram grandes passos à frente daquilo que até então conheciamos como uma odisséia espacial. E precisou ser um diretor mexicano para fazer isso na meca do cinema chamada Hollywood.

Ok. Agora é a vez de Iñarritu, que pegou a proposta inicial de Cuaron e elevou à 10ª potência, dirigindo, escrevendo e produzindo aquilo que vemos em uma tomada só. Bom, ao menos é a impressão que ele passa, já que foi incrivelmente bem editado e um desafio herculeo aos atores que em algumas ocasiões tiveram que não apenas decorar mais de 15 páginas de texto como marcações precisas dos cenários. Segundo Iñarritu, seria como Phillippe Petit andando em uma corda bamba entre as Torres Gêmeas, se algo desse errado, tudo estaria perdido.

De fato, a experiência angustiante e aflitiva que o filme passa são méritos desse estilo de filmagem que Iñarritu de certa forma desenvolveu ao longo de sua carreira e que hoje em dia caem muito bem na tendência que o cinema demonstrou bastante em 2014 em dar atenção a produções que focam o lado mais intimista e realista dos personagens com câmeras na mão, ausência de maquiagem e locações reais ao invés de estúdios. Enfim, tudo aquilo que o cinema independente e europeu já traçou há quase 20 anos atrás, mas apenas agora o público mais popular está aceitando.

O roteiro, também de Iñarritu, é digno de prêmios. De fato a complexidade que se vê na tela só seria possível se muito bem detalhada a cada ponto final e a cada nova linha. Não há espaço para erros, muito embora o ambiente claustrofóbico dos corredores do teatro St. James, e tantas idas e vindas dos personagens por esses caminhos tortuosos e apertados acabam por algumas vezes excedendo a paciência de quem assiste, mas isso também faz parte da angústia do personagem que desenvolveu uma paranóia depois de tantos fracassos. As incertezas de sua nova peça teatral, na qual ele mesmo dirige e também atua, estão levando-o a loucura, fazendo-o confundir realidade e fantasia, tendo disturbios delirantes um tanto esquizofrênicos com Birdman, o herói que o deixou famoso nos anos 90 em uma trilogia de ação. O personagem agora se transformou no seu alter-ego, já que Riggan Thomson passa a agir e tomar decisões de acordo com o que Birdman faria.

Peraí. O personagem é um ator que foi famoso nos anos 90 por interpretar um super herói e agora tenta ressurgir depois do fracasso... isso me lembra Michael Keaton depois de Batman. Sim. Uma ironia (com certa paródia) talvez à própria vida do ator, e que lhe caiu como uma luva.

A moral principal do filme, e também um dos diversos significados do subtítulo poético, é exatamente como a futilidade e superficialidade reinam sobre todos nós e a nossa incansável busca pela aprovação alheia e o sucesso de alguma forma, nem que seja demonstrado por apenas um indivíduo. Todos os personagens são insatisfeitos e todos os personagens buscam aprovações, levando-os a atitudes vazias e impensadas.

É um filme visceral, uma comédia dramática negra que nos leva cruelmente para o caminho mais fácil da ignorância e que, por vezes, pode soar uma virtude, pois estar consciente e na tentativa de controlar tudo o tempo todo muitas vezes pode ser a sua própria auto-destruição. Não que ser ignorante seja nossa natureza, mas é isso que nos fazem ser o tempo todo não nos dando o direito dela ser apenas uma opção, nos dando produtos vazios e descartáveis para consumirmos a todo instante. Não é à toa que em um determinado momento vemos várias pessoas vestidas de super heróis brigando umas com as outras, ou quando Birdman diz que as pessoas gostam de explosões e sangue. Ou, principalmente, na já clássica cena de Michael Keaton correndo pelas ruas apenas de cueca, o momento que ele é mais notado de todo o filme, justamente por parecer um otário para aqueles que não sabem o motivo (apenas nós, espectadores, sabemos).

O filme não podia vir em melhor hora, colocando Michael Keaton novamente em um lugar que ele havia esquecido onde era. Vem muito a calhar depois de sua consagração no Globo de Ouro e depois da observação pontual de Gerge Clooney de que o sucesso só dura enquanto se está no tapete vermelho. Muito certeiro também depois do retorno do seriado The Comeback e da personagem Valerie Cherish na sua desesperada maratona ao sucesso.

Do sucesso ao fracasso e do fracasso ao sucesso em apenas um instante. É nessas horas que a virtude da ignorância é inexperada, e muito que bem desejada. Somos livres para fazermos o que gostamos e aquilo que desejamos fazer, independe das aprovações, porque elas são só aprovações, não significam nada no fim do dia.

CONCLUSÃO...
E mais um mexicano consegue fazer uma nova revolução técnica de filmagem. Sim, roteiro complexo e difícil para filmagens muito mais complexas e difíceis que resultaram em uma das experiências cinematográficas mais realistas de 2014 nessa onda que tem tomado força no cinema Hollywoodiano. O filme foi muito bem recebido pela crítica e já ganhou vários prêmios, entre eles o Globo de Ouro de Melhor Ator e Roteiro. Um grande concorrente ao Oscar, e um prêmio de direção a Iñarritu não cairia nada mal.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

WES ANDERSON CADA VEZ MELHOR...

★★★★★★★★★☆
Título: O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel)
Ano: 2014
Gênero: Comédia, Fantasia
Classificação: Livre
Direção: Wes Anderson
Elenco: Ralph Fiennes, Tony Revolori, F. Murray Abraham, Jude Law, Adrien Brody, Saoirse Ronan, Willem Dafoe, Edward Norton, Tilda Swinton, Bill Murray, Harvey Keitel
País: Estados Unidos, Alemanha
Duração: 100 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre as aventuras de um respeitado concierge de um famoso hotel europeu e seu pupilo, que veio a ser seu melhor e mais fiel amigo.

O QUE TENHO A DIZER...
"É um engano extremamente comum pessoas acreditarem que a imaginação de um escritor está sempre em funcionamento, que ele tem um suprimento infinito de casos e incidentes, simplesmente inventando suas histórias do nada. Mas a verdade é que é o contrário. Quando as pessoas descobrem que você é um escritor, elas trazem os personagens e os eventos até você, e se mantiver sua habilidade de observar e ouvir com atenção, as histórias continuarão a..." e então o narrador é interrompido por um garoto que atira com uma arma de brinquedo ao mesmo tempo que, ao fundo do garoto, muito rapidamente, vemos em um segundo plano um pintor qualquer trabalhando na parede de uma sala. A câmera volta ao narrador, e ele continua.

É assim que começa a nova comédia aventuresca de Wes Anderson, que vai contar a saga de Gustave H (Ralph Fiennes), um elegante, bem humorado, magnífico e amplamente respeitado concierge do famoso Grande Hotel Budapeste, e como o aprendiz Zero Moustafa (Tony Revolori/F. Murray Abraham) se tornou seu melhor amigo e herdeiro de uma imensurável fortuna.

O início é exatamente o resumo daquilo que o diretor é em todos seus filmes, numa obsessão compulsiva, mas no extremo bom sentido e coerência. O momento que o narrador é interrompido por conta da criança, exatamente quando divagava sobre a habilidade do escritor em observar e ouvir, é o que Anderson faz o tempo todo com situações secundárias nas cenas quando chama a atenção do espectador para o segundo plano com ações inesperadas de figurantes, coadjuvantes ou simplesmente um cenário que aparentaria ser fora do contexto da situação. Outros diretores utilizariam as mudanças de foco para chamar a atenção entre diferentes planos e profundidades, mas Anderson, tal qual como Kubrick, raramente (a quase nunca) utiliza este artifício fotográfico. A imagem é limpa, todo o cenário e suas composições são claras e objetivas em toda a panorâmica da cena. Mas para Anderson, o segundo plano não é apenas uma composição dela, ela é a valorização do "slice of life", ou seja, o pedaço do cotidiano pouco visto ou admirado, mas que ele usa metodicamente para forçar o espectador a aprimorar sua habilidade de atenção e observação daquilo a sua volta e que pouco é notado.

Esse jogo entre imagens, ações e narrativa que Anderson faz chega a ser fascinante, pois é de uma sutileza tão marcante que é impossível não ser notada, e nem por isso perdemos o foco da narrativa ou do plano principal. Ao invés disso, quando descobrimos essa personalidade própria tão presente e aprendemos a identificar esses elementos delicados nas construções de suas cenas sempre dentro dessa harmonia incomum, seus filmes tomam outra dimensão e viram experiências prazerosas onde notamos seu humor singular, pois fogem completamente do convencional.

Muito se diz atualmente que os filmes de Tarantino acontecem em um mesmo universo. Mesmo sendo dois diretores de estilos completamente diferentes, essa afirmação é muito mais coerente nos filmes de Anderson. Enquanto Tarantino interliga seus filmes através de referências, Anderson faz isso através da sua linguagem visual única. É como se ele tivesse um mundo com vida própria em suas mãos, e seus filmes fossem uma pequena observação de um lugar aleatório dele, pois todos possuem personagens comuns que se destacam e são explorados pelas situações excêntricas que se encontram, cada um deles em um espaço muito definido e atemporal, com a mesma abordagem lúdica, por mais séria que possa ser. Tanto é assim que conseguimos imaginar, por exemplo, os personagens deste filme se relacionando com os personagens de qualquer um de seus filmes anteriores.

Para este filme o diretor utilizou três tipos diferentes de proporções de vídeo para diferenciar as épocas em que as histórias se situam, pois O Grande Hotel Budapeste é uma história com várias histórias dentro que se completam quando atingem novamente seu ponto de partida. E contar histórias é o que Anderson sabe fazer, além de tudo, muito bem. É interessante notar como seus personagens nunca são coadjuvantes, até mesmo o próprio Hotel, que não é um cenário, mas um personagem também. Em todos seus filmes, o que manda são os eventos, e são eles que conectam um personagem ao outro, como é observado logo no início. A dupla Gustave H e Zero podem ser a unha e carne da narrativa, só não existiriam se, por exemplo,
Madame D. (Tilda Swinton) nunca tivesse sido citada. Mesmo ela tendo uma participação de apenas 95 brilhantes segundos, ela é o principal evento de toda a saga, tão memorável e principal como qualquer outro. Aliás, Tilda Swinton, mesmo irreconhecível em uma maquiagem feita "pelos melhores" (como afirmado pelo próprio Anderson), oferece uma caricatura tão cativante e verdadeira de sua personagem que é como se ela realmente existisse. Uma personagem tão passageira como qualquer um dos hóspedes do hotel, mas em nenhum momento fugaz.

Anderson é um diretor para ser apreciado com leveza, que faz da comédia não um gênero, mas uma observação singular e uma aula de como degustar histórias e imagens e apreciar o mundo e suas seriedades sem o peso da responsabilidade adulta.

CONCLUSÃO...
Se em Moonrise Kigdom (2012) Anderson contou uma maravilhosa e ingênua história de amor, neste filme ele utiliza os mesmos elementos para contar na sua forma lúdica uma aventura cheia de outros grandes personagens memoráveis que se conectam por eventos inesperados em um mundo próprio que ele observa para nos ensinar a observar o nosso próprio. Cada vez melhor, o diretor sem dúvida novamente carimba uma marca única no cinema atual sem se impor, apenas agradando com a bela forma de construir histórias simples, repletas de diferentes camadas e nuances que conseguiram migrar do público alternativo para conquistar o gosto popular de maneira relevante.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

"O SOL NASCE EM MOONRISE KINGDOM"...

★★★★★★★★
Título: Moonrise Kingdom
Ano: 2012
Gênero: Comédia, Romance, Drama
Classificação: 12 anos
Direção: Wes Anderson
Elenco: Jared Gilman, Kara Hayward, Bruce Willis, Edward Norton, Bill Murray, Frances McDormand, Tilda Swinton, Bob Balaban
País: Estados Unidos
Duração: 94 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um casal de adolescentes apaixonados fogem da pequena cidade de New Penzance para refazer o mesmo caminho de migração de colheita de uma antiga tribo, colocando a pequena população da cidade em polvorosa, ao mesmo tempo que se transforma em um grande acontecimento em um lugar onde nada interessante acontece.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é dirigido e produzido por Wes Anderson, e o roteiro original é escrito por ele em parceria com Roman Coppola, filho de Francis Ford Coppola, com quem ele já havia trabalhado anteriormente em Viagem A Darjeeling (The Darjeeling Limited, 2007).

Juntamente com Os Excêntricos Tenembauns (The Royal Tenenbaums, 2001), é o filme mais lucrativo e de sucesso nos cinemas de Wes Anderson. Custou US$15 milhões e arrecadou mundialmente mais de US$65 milhões. O que é um fato bastante estranho para um diretor de 44 anos e com sete longas metragens no currículo, incluindo a elogiada animação O Fantástico Senhor Raposo (The Fantastic Mr. Fox, 2009), que foi praticamente ignorada pelo público naquele ano e pelo Oscar, perdendo a estatueta pelo bom, mas não melhor, Up - Altas Aventuras (Up, 2009).

Ele também é conhecido por suas parcerias, como a com o ator Owen Wilson, que já atuou e também colaborou com o roteiro de vários outros títulos, incluindo o próprio Tenembauns, com o qual concorreram ao Oscar de Melhor Roteiro Original em 2002, perdendo para o filme de Robert Altman, Assassinato em Gosford Park (Gosford Park, 2001). Ou também a parceria com os atores Bill Murray e Angelica Houston. É um diretor muito bem quisto no meio, sendo por vezes comparado a diretores, seja pelo visual ou pela condução das histórias, como Tim Burton, Michel Gondry, Spike Jonze, Tarsem Singh e até mesmo os irmãos Cohen.

Moonrise tem uma história um pouco diferente de seus filmes anteriores, já que é uma dramédia romantica que trata do amor entre dois jovens que estão entrando na adolescência e são apaixonados um pelo outro por conta de suas particularidades e excentricidades em comum, além da constante curiosidade por coisas que ninguém tem interesse e a vontade de explorarem juntos um mundo fora do que existe na pequena cidade onde moram. E assim eles fogem com o intuito de refazer um caminho que era realizado por uma tribo antiga durante o período de colheita. O desaparecimento dos dois coloca a cidade de pernas para o ar, e ao mesmo tempo se transforma em um inusitado acontecimento que também se transformará em um grande espetáculo por conta de uma forte tempestade que se aproxima da ilha onde vivem.


Anderson é conhecido por suas cenas visualmente interessantes e pela coerência de uma estranha mistura cenográfica que foge do perfeccionismo, colocando seus personagens em situações estranhas e cômicas numa alienação do comportamento convencional. Ele faz isso para intensificar o incomum e trazer do idílico para a realidade (e vice-versa) de que o imperfeito faz parte daquilo que é mostrado e também do nosso próprio cotidiano. E esse filme é novamente o diretor brincando com o diferente e o esquisito. Há sempre elementos nas cenas que se destacam e que quebram a perfeição e homogeneidade, como uma marca, ou um defeito, que simboliza essa metáfora de que o diferente não deve partir dos olhos de quem vê, mas de que está lá o tempo todo e é comum.


Assim como todos seus filmes anteriores, tudo se passa em um mundo fantástico onde há sempre uma contradição não apenas nos cenários, mas também nos personagens. Aqui os personagens infantojuvenis agem como uma metáfora do comportamento adulto, mas por um ponto de vista ingênuo do amor, do medo e do companheirismo. Ao mesmo tempo vemos adultos que já perderam a ingenuidade agindo como crianças por pura ignorância. Também temos personagens de bela aparência com comportamentos transviados e personagens com aparências estranhas tendo atitudes comuns. É como colocar o menino com o tapa-olho no meio dos desmais escoteiros em seus perfeitos uniformes; ou em um outro momento, em que os personagens principais vão para um lugar isolado para conversar e de repente um menino começa a pular em uma cama elástica; ou a estranha casa na árvore; ou a relação romântica, porém crua e nada melosa dos personagens. É a forma de Anderson quebrar com os padrões, e ao mesmo tempo fazer o espectador ser obrigado a mudar o foco de atenção sem se dispersar, apenas para prestar atenção nos detalhes. É exatamente o que o personagem principal faz quando começa a explicar todos os instrumentos utilizados em uma música orquestrada. Ou seja, expandir a visão limitada para que ela dê atenção ao belo que é pouco visto, e o belo não significa ser perfeito.


O filme foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original, mas novamente não será o favorito, assim como é mais um filme do diretor esquecido em outras categorias. Talvez seja seu melhor filme até o momento por ser a junção de todas as excelentes qualidades que ele colecionou e fez disso um estilo único ao longo da carreira. Também há uma certa e interessante semelhança entre a relação construída dos personagens com os da comédia romântica O Lado Bom Da Vida (Silver Linings Playbook, 2012). Nem por todas suas grandes qualidades é um filme que se abstém de defeitos, mas não são defeitos técnicos, muito menos da direção perfeccionista e de um roteiro sem tropeços ou buracos, mas defeitos nossos por não estarmos acostumados a assistir filmes como esse.

CONCLUSÃO...
É uma história de amor inconvencional, em um filme inconvencional, de um diretor inconvencional, para um público que esteja aberto ao inconvencional.

sábado, 1 de dezembro de 2012

A FÓRMULA BOURNE...

★★★★★★★
Título: O Legado Bourne (The Bourne Legacy)
Ano: 2012
Gênero: Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Tony Gilroy
Elenco: Jeremy Renner, Rachel Weisz, Edward Norton, Donna Murphy, Stacy Keach
País: Estados Unidos
Duração: 135 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Jason Bourne ainda vive, mas enquanto isso o agente Aaron Cross descobre que é mais uma peça de uma trama conspiratória e ele também está na mira da queima de arquivo.

O QUE TENHO A DIZER...
Baseado nos livros do escritor norte-americando Robert Ludlun, a Trilogia Bourne foi um grande sucesso tanto de crítica quando de público. Após a morte de Ludlun, em 2001, o escritor Eric Van Lustbader conseguiu permissão para dar continuidade à vida do personagem, publicando mais sete livros entre 2004 e 2012.

O primeiro filme da série, A Identidade Bourne (The Bourne Identity, 2002) foi dirigido por Doug Liman e roteiro de Tony Gilroy. O filme estrelava Matt Damon no papel do agente secreto em busca da sua identidade e Franka Potente como sua companheira Mary. Foi uma das maiores surpresas daquele ano, arrecadando mais de US$210 milhões no mundo, o que foi o suficiente para o estúdio dar sinal verde para a segunda parte.

A Supremacia Bourne (The Bourne Supremacy, 2004) deu continuidade na tragetória do ex-agente. Doug Liman saiu da direção para a produção executiva, dando lugar para o competente Paul Greengrass, o qual foi responsável por intensificar a linguagem dinâmica do filme, dando uma identidade mais forte e expressiva que no filme anterior. Tony Gilroy assinou novamente o roteiro, e o filme arrecadou mais de US$280 milhões no mundo.

A terceira e última parte, O Ultimato Bourne (The Bourne Ultimatum, 2007) fechou a trilogia com chave de ouro. Paul Greengrass continuou na direção, Doug Liman se manteve como produtor executivo e Tony Gilroy foi auxiliado por Scott Z. Burns e George Nolfi no roteiro. A última parte é considerada por muitos como o melhor filme da série. Embora os dois primeiros tenham feito muito sucesso nos cinemas, eles posteriormente viraram febre nas video locadoras, o que levou a última parte a arrecadar mais de US$440 milhões no mundo.

Negar que a Trilogia Bourne é excepcional chega a ser leviano. Foi uma das raras ocasiões no cinema comercial Hollywoodiano em que a qualidade da produção é inquestionável, bem como uma série coesa, sólida e coerente que, ao contrário de muitas outras franquias, não foi apenas ação pela ação.

Os personagens e a trama se desenvolveram em fatos e sequências que superavam seus próprios limites numa sucessão crescente e em um dinamismo de tirar o fôlego graças a edição em total sintonia com o estilo de filme que se propunha. Sem dúvida alguma o trio Greengrass, Liman e Gilroy conseguiram fazer da trilogia um dos melhores filmes de ação do cinema atual. Dizer isso não é exagero, já que houve uma mudança radical na forma como os filmes de ação posteriores a eles passaram a ser produzidos. Ou seja, a trilogia se tornou uma referência sólida numa época em que o cinema comercial perece de qualidade e boas idéias.

Na tentativa de retomar a série graças a onda de reboots que dominaram a indústria nos últimos anos, Tony Gilroy resolveu continuar o legado. O questionamento a princípio foi: como dar continuidade a uma trilogia que superou seus próprios limites?

A idéia parecia tão absurda que, ao ser questionado sobre isso, o diretor Paul Greengrass até brincou dizendo que o título do quarto filme deveria ser "A REDUNDÂNCIA BOURNE".

A princípio Gilroy queria manter Matt Damon, já que o autor Eric Van Lustbader deu continuidade à saga do personagem após a morte de Ludlun, rendendo até agora mais 7 livros. Damon achou melhor não voltar para a franquia, e por sua atuação ter sido bastante elogiada e a resistência dos fãs a sua substituição, o roteirista resolveu expandir o universo Bourne e, embora o titulo se refira ao primeiro livro de Eric Van Lustbader, o filme nada tem a ver com ele. Ao contrário disso, ele conta uma história paralela aos eventos do último filme.

O personagem principal agora é Aaron Cross, um agente da Operação Outcome, programa secreto científico de defesa que está fazendo testes bioquímicos em seus agentes para aumentar suas capacidades físicas e mentais. Porém, durante seu treinamento no Alaska, vem a tona os escândalos envolvendo os programas Blackbriar e Treadstone, revelados por Jason Bourne na última parte da Trilogia. Juntamente a isso, um vídeo comprometedor envolvendo uma relação próxima entre os chefes de pesquisa do programa Treadstone e Outcome vaza na internet. Com medo das pesquisas do programa Outcome serem descobertas durante as investigações sobre a Tredstone, o coronel da CIA Eric Byer (Edward Norton) decide apagar todas as evidências, começando pela eliminação de todos os agentes em treinamento. Aaron sobrevive a várias tentativas de assassinato, e no interesse de sobreviver, ele descobre que entrou de gaiato nos fatos conspiratórios envolvendo Jason Bourne.

A nova trama apresentada no roteiro de Gilroy (que agora também assina a direção) foi uma guinada interessante, já que os três primeiros filmes naturalmente deram gancho para que isso pudesse acontecer, já que Jason Bourne não era o único agente que participou de um programa secreto, bem como a Treadstone também não era o único programa existente. Bourne não aparece em nenhum momento, mas o personagem é citado diversas vezes.

A história se amarra bem com os filmes anteriores. Ao mesmo tempo que é uma continuação, consegue realmente ser um filme novo, mas não diferente. Jeremy Renner é competente ao dar essa continuidade ao legado de Bourne, mas a posição do seu personagem na história não tem uma conexão muito bem fundamentada entre sua situação e os acontecimentos revelados por Jason, o que faz sua fuga constante parecer meio superficial. Como o roteiro apresenta uma nova história, o desenvolvimento é mais lento tal qual o primeiro filme, dando mais atenção aos fatos do que em sequencias de ação bem arquitetadas, pra dar profundidade nos fatos e justificar as razões de tudo.

Claro que algumas cenas típicas de Jason Bourne são repetidas aqui, como as perseguições e o jeitão truculento de fugir pulando muro, arrebentando portas e pulando de janelas, exigindo ao máximo dos atores num dinamismo constante e bem editado feito por Greengrass no segundo e terceiro filme, mas não de maneira igualmente mirabolante. O interessante é que Aaron também tem uma forma diferente de lutar. Enquanto Jason tem um semblante mais fechado e era mais adestrado na hora de improvisar armas de luta (como usar livros, revistas e o que tivesse por perto, numa técnica de luta que realmente existe, o que deixava algumas cenas até mais empolgantes e engraçadas), Aaron é de um semblante mais sereno, mas que bate no oponente pra cair, sem muitos rodeios.

Jeremy Renner pode não ser um galã como Matt Damon, mas é um bom ator, e mais, competente quando se trata de um personagem que utiliza todas suas capacidades físicas tanto quanto Damon fez.

Quem já assistiu seus outros filmes de ação, como sua pequena porém relevante participação em Os Vingadores (The Avengers, 2012), ou até mesmo em Missão Impossível: Protocolo Fantasma (Mission: Impossible - Ghost Protocol, 2011), sabe que ele está muito bem preparado pra encabeçar a franquia. Sem contar que já está prometido que sua participação em Os Vingadores 2 será maior, além de Tom Cruise estar bastante motivado em passar a franquia de Missão Impossível para o ator, que também terá uma participação muito maior no quinto filme da série, ainda em planejamento.

Rachel Weisz também é igualmente boa e todo mundo já sabe disso, mas assim como no primeiro filme, temos uma personagem feminina apenas para o personagem ter com quem dividir suas cenas e criar inevitáveis clichés heroicos e sentimentais porque no fim das contas ela não é lá tão importante na história, entrando meio de sopetão e ajudando em coisas que o personagem tinha condições de encontrar outras maneiras pra se dar bem.

Sem dúvida Gilroy retoma uma fórmula que funciona e consegue fazer do filme um novo início mais discreto e menos esbanjador que os anteriores, mas que tem condições de evoluir pra algo bem interessante e tão grandioso quanto porque as possibilidades que foram abertas agora são infinitas, basta saber aproveitá-las.

Há uma grande expectativa de que as histórias de Aaron e Jason se cruzem no futuro ao ponto de os dois personagens trabalharem juntos, mas isso é incerto. Tão incerto quanto saber se a franquia realmente continuará nas mãos de Tony Gilroy.

CONCLUSÃO...
É uma expansão bem introduzida do universo Bourne, um filme menor e mais discreto que os anteriores, a princípio mais focado na história e no desenvolvimento, como que dar tempo pro expectador conhecer o novo herói e se acostumar com ele, o que funciona, mas deixar a desejar para os que assistirem esperando a metralhadora de cenas de ação que foram os dois últimos filmes dirigidos por Paul Greengrass. Para quem chegou até o Ultimato, não custa nada dar uma olhada no Legado. Uma história e personagens que tem possibilidades de crescer, como também poder se interagir com os acontecimentos dos filmes anteriores. Basta saber se a franquia vai realmente continuar.
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