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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

MEDIANO, E NADA MAIS...

★★★★★
Título: Wolverine: Imortal (The Wolverine)
Ano: 2013
Gênero: Ação, Drama
Classificação: 12 anos
Direção: James Mangold
Elenco: Hugh Jackman, Rila Fukushima, Tao Okamoto, Svetlana Khodchenkova, Framke Janssen
País: Estados Unidos
Duração: 126 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Após a morte de Jean Grey, os X-Men se separaram, e Wolverine está em crise existencial. É quando uma estranha japonesa o aborda na tentativa de levá-lo ao Japão para se despedir de uma pessoa pela qual sua vida é grata a ele. Relutante, resolve ir, para descobrir que essa decisão será responsável por faze-lo repensar em todo seu comportamento auto-destrutivo nos últimos anos, e que inclui sua imortalidade.

O QUE TENHO A DIZER...
É difícil falar deste novo filme de Wolverine depois de tantos acidentes de percurso. Recapitulando a cronologia de forma breve, o terceiro filme da saga dos mutantes, X-Men: O Confronto Final (X-Men: The Last Stand, 2006), deixou a desejar, sendo um fracasso de crítica frente aos dois primeiros dirigidos por Bryan Singer. Posteriormente a Marvel, juntamente com a Fox, tentaram criar uma franquia chamada Origens, para contar a origem dos personagens mutantes. O herói escolhido foi de Wolverine, e o filme foi lançado em 2009. Isso foi óbvio pois ele é o personagem mais popular de todo o universo Marvel. A produção corrida, empurrada com a barriga, com um desenvolvimento péssimo e uma deturpação terrível de todos os personagens envolvidos resultou em um produto comercial pobre e ruim, que enterrou de imediato a idéia de uma nova franquia que desse ênfase ao passado de cada herói. Mesmo assim o público queria mais, e depois do sucesso da trilogia Batman, de Christopher Nolan, a tendência seria óbvia, e resolveram realizar um precipitado "reboot".

Conscientes do erro que foi o primeiro filme de Wolverine, tanto a Marvel quanto o estúdio Fox admitiram o erro, e tentaram promover a idéia de que o primeiro filme nunca existiu, e que esta nova empreitada seria, em definitivo, uma forma de mostrar o herói como ele realmente é, por um lado mais obscuro, intimista e humano, coerente com o que os fãs queriam, na tentativa de seguir à risca a idéia desenvolvida por Nolan com Batman.

A história está diretamente relacionada com os eventos do terceiro filme da saga X-Men, já que agora Wolverine está isolado e constantemente atormentado pelo espírito igualmente atormentado de Jean Grey, sua amada que morreu por suas próprias mãos... ou garras, melhor dizendo. Na verdade isso é uma dúvida que o filme propõe, pois não sabemos se o que atormenta o herói é realmente o espírito da amada, ou seu próprio psiquê. Para os que estão familiarizados com as histórias em quadrinhos ou até mesmo com a primeira série animada na televisão, sabe que Jean Grey era uma mutante de poderes tão únicos e elevados que ela até poderia morrer, mas mesmo assim, manter sua consciência no plano real e humano, e isso é uma idéia interessante proposta pelo filme.

O filme é baseado na saga de Wolverine no Japão, escrito por Chris Claremont e Frank Miller, uma época em que o herói busca refúgio espiritual no país para, na verdade, redescobrir suas próprias origens e a razão de sua existência. Para tentar manter essa atmosfera humana, sensível e ao mesmo tempo densa, o diretor James Mangold foi contratado, o mesmo dos filmes Garota, Interrompida (Girl, Interrupted, 1999), Kate & Leopold (2001), Identidade (Identity, 2003) e Johnny & June (Walk The Line, 2005).

Não se pode negar que a tentativa foi válida, mas forçada. A verdade é que, realmente, este filme mais aparenta um interlúdio entre uma história ou outra dos X-Men do que um filme com uma história própria. Também é complicado enquadrá-lo no gênero de ação quando a maior parte dele é em torno dos dramas e conflitos pessoais de Wolverine e a dificuldade do seu grande senso de humanidade aceitar o fato de um homem tão bruto quanto ele ser imortal, enquanto pessoas frágeis, e que ele ama, morrem a sua volta, ao ponto de ele se isolar do mundo e de todos, como um animal arisco.

Isso tudo é percebido no filme, que se esforça - e muito - em trazer para o espectador esse lado humano e martirizador do personagem que foi abordado de forma muito branda e breve nos filmes anteriores. Mas apesar de todo esse esforço, é impossível ignorar que a abordagem de Wolverine nos cinemas nunca deve ser a mesma da abordada nos quadrinhos, pois o personagem e sua história são muito grandes para apenas duas horas de filme, principalmente sobre uma saga tão complexa quando a sua temporada em solos japoneses, como é mostrado nos quadrinhos.

A história até que se desenvolve dramaticamente bem até uma parte do filme, mas as coisas começam a sair do trilho quando o roteiro se lembra de que é um filme de ação que estamos falando, e não um drama, obrigando o espectador a aceitar isso ao invés de guiá-lo para uma zona diferenciada, colocando as cenas de ação apenas como uma consequência, e não como uma obrigação.

O resultado de tudo é que o filme se perde em qualquer proposta que ele tenha, podendo agradar medianamente a base de fãs, mas não muito àqueles que conhecem o herói apenas no cinema. Mas até mesmo os fãs ficarão um tanto decepcionados por novamente deturparem a história de personagens clássicos como Silver Samurai ou Yukio, tal qual fizeram com Deadpool e outros antagonistas no filme anterior. Silver Samurai, que é um mutante, no filme é tratado como um ciborgue que não convence, e muito menos convence a batalha final entre ele e o herói, em uma resolução terrivelmente banal para um dos poucos inimigos que o próprio Wolverine temia além de Dentes de Sabre, Magneto e Apocalipse.

Mesmo sendo o sexto filme em que o ator Hugh Jackman encarna o personagem, a impressão que se tem é que ele está deslocado, perdido em uma história que não soube construí-lo ou desenvolvê-lo. O personagem perdeu muito de suas características clássicas, como seu senso de humor sarcástico e sua humanidade bruta e rústica para traçarem uma personalidade sombria e blasé ditadas por uma fórmula pós-Christopher Nolan que Hollywood creditou dar certo, mas que não funcionou com ele, nem com Superman, nem com Homem-Aranha, e que não funcionará com nenhum outro personagem, seja ele Marvel ou DC.

CONCLUSÃO...
O resultado de tudo isso é um filme mediano, que empolgará poucos fãs, e decepcionará muitos espectadores que buscam apenas o entretenimento que o personagem já chegou a oferecer nos filmes anteriores. Um erro que a Marvel dificilmente conseguirá superar, mas que tentará ao retomá-lo como uma parte da equipe X-Men, e não mais como um personagem solo.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

CAIXINHA MODESTA, PRESENTE SINCERO...

★★★★★★
Título: Amor Bandido (Mud)
Ano: 2011
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Jeff Nichols
Elenco: Matthew McConaughey, Tye Sheridan, Jacob Lofland, Reese Witherspoon, Sam Shepard
País: Estados Unidos
Duração: 130 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Dois adolescentes encontram um estranho em uma ilha, curiosos a respeito da história deste estranho e comovidos pela razão de sua volta, resolvem ajudá-lo com o que ele precisa, para só depois descobrirem que ele é um fugitivo.

O QUE TENHO A DIZER...
Amor Bandido é o terceiro filme dirigo por Jeff Nichols, que embora tenha sido produzido no mesmo ano que seu drama apocalíptico O Abrigo (Take Shelter, 2011) só foi lançado no Festival de Cannes em 2012. O Abrigo chamou bastante atenção da crítica mundial e foi o grande vencedor de Cannes naquele ano, enquanto Amor Bandido teve sua estréia oficial no Festival, sendo bem recepcionado pelo público e crítica.

Não há muito o que se dizer sobre a história, já que se trata unicamente de um drama sobre o amor, um sentimento único que é proposto no filme pelo ponto de vista ingênuo da puberdade e o traiçoeiro da idade adulta. Dois pontos de vista paradoxais que se encontram em uma mesma história e que realmente constróem gradualmente um impacto sentimental para aqueles que já cultivaram seu primeiro amor e também para aqueles que já sofreram por um grande amor.

O diretor já tinha o conceito da história ainda na década de 90, e sempre imaginou Matthew McConaughey interpretando o personagem principal. Ele foi fortemente inspirado pelo personagem Tom Sawyer, de Mark Twain, o qual tem muitas similaridades com o personagem adolescente do filme. Mas seu interesse principal foi captar a sua própria época de colégio, representando esses sentimentos de euforia e decepção que ele sentia quando se apaixonava por alguma garota que o devastava por não corresponder. Sua intenção era condensar toda a emoção, a dor e a intensidade dessa paixão pura, sobre uma época de descobertas que parecem ser muito duras, mas necessárias para a construção do caráter e da maturidade.

E sem dúvida o filme consegue construir essa atmosfera complexa de sentimentos mistos sem ser piegas, e muito menos cliché. Não é um filme com uma história complexa, com um final feliz e um beijo arrebatador ao final com uma grandiosa trilha sonora, e por isso não irá atrair a atenção de qualquer pessoa, mas é um filme pequeno, em uma embalagem simples, um presente sincero e muito honesto frente a duas perspectivas diferentes sobre um mesmo sentimento. Só é muito longo, em uma narrativa lenta e às vezes cansativa, cheia de indas e vindas e talvez um conflito até um pouco exagerado, que não interferem na bela construção do diretor e roteirista, mas que geram alguns bocejos durante o desenvolvimento.

O longa foi listado entre os 10 melhores filmes independentes pelo National Board Of Review, um dos grupos mais importantes e respeitados da crítica norteamericana para o cinema. A performance de Matthew McConaughey é tão enigmática, sincera e natural quanto a própria história, e chamou a atenção da crítica mundial além de ter sido uma grande publicidade ao ator que, posteriormente a ele, escolheu filmes nem sempre muito bons, mas excelentes papéis, como nos filmes Killer Joe (2011), Obessão (The Paperboy, 2012) Magic Mike (2012) e o atual Clube de Compra Dallas (Dallas Buyers Club, 2013), no qual concorre ao Oscar de Melhor Ator, com grandes chances de vencer.

CONCLUSÃO...
Ao contrário do que o título induz, ou o que equivocadamente os posters aparentam, não é mais um filme de suspense ou de crimes passionais que se passa no sul dos Estados Unidos. Como dito, é um filme pequeno, em uma embalagem simples, um presente sincero e muito honesto frente a duas perspectivas diferentes sobre um mesmo sentimento.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

NÃO É EUROPEU, MAS AINDA SIM UM DRAMA FAMILIAR...

★★★★★★★★★☆
Título: Álbum de Família (August: Osage County)
Ano: 2013
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: John Wells
Elenco: Meryl Streep, Julia Roberts, Chris Cooper, Margo Martindale, Ewan McGregor, Juliet Lewis, Abigail Breslin, Benedict Cumberbatch, Dermot Mulroney
País: Estados Unidos
Duração: 121 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Relações familiares nunca foi algo fácil de ser interpretado ou definido, e é o que acontecerá na família de Violet, uma mulher com câncer em estado terminal, viciada em calmantes, que acabou de perder seu marido e agora deverá confrontar pedaços dela mesma em cada uma de suas filhas.

O QUE TENHO A DIZER...
Album de Família é dirigido por John Wells, seu segundo longa metragem como diretor, tendo mais experiência como roteirista e produtor de seriados. Mas o interessante aqui é o roteiro ser assinado por Tracy Letts, baseado em sua própria peça homônima. É sua terceira adaptação de três peças teatrais próprias, sendo a primeira delas Possuídos (Bug, 2006) e a segunda Killer Joe (2011), ambos dirigido por Willian Friedkin, diretor mais conhecido pelo clássico O Exorcista (The Exorcist, 1973) e que poucas pessoas tem conhecimento disso pois não foram filmes de sucesso comercial, muito embora muito aclamados pela crítica e pelo público do circuito mais alternativo.

O tema deste filme é distinto tal qual as outras adaptações. Enquanto Possuídos trata sobre uma personagem que se afunda em um crescente distúrbio de personalidade e Killer Joe é uma comédia gótica violenta e absurda sobre uma crescente sucessão de fatos desastrosos, Album de Família também segue essa mesma construção crescente de infortúnios e segredos desastrosos responsáveis pela completa destruição das fundações familiares. Tracy Letts tem se destacado como um grande escritor, roteirista e dramaturgo contemporâneo no teatro e no cinema norteamericano por conta da profundidade e complexidade de seus personagens, além dos ambientes que eles vivem serem como uma metáfora transformadora dentro de idéias filosóficas ou psicossociais. Ele tem um estilo diferenciado na dramaturgia, construindo seus personagens fundamentados em perfis psicológicos e muitas vezes psiquiátricos distintos, que podem parecer exagerados na densidade, mas não deixam de ser exemplos verdadeiros. Ele também seguisse à risca as idéias deterministas já expressadas por Sartre, Marx e outros pensadores de que o homem é produto do meio, e não é à toa que os ambientes que ele situa suas histórias tem uma grande importância na narrativa e nos conflitos da trama.

É por isso que esta história se passa no centro-sul dos Estados Unidos, no condado de Osage, em Oklahoma, uma região que tinha um dos maiores números de nativo americanos, mas que foi reduzido significantemente depois de epidemias e guerras de dominação territorial, além de ter sido palco da chacina de índios Osage no ínício da década de 20, realizado por brancos para evitar o crescimento econômico dos indígenas nativos e tomar seus territórios e royalties de exploração de petróleo. Ou seja, historicamente um território marcado por violência e estupidez, que é citado no filme quando a racista Violet (Meryl Streep) narra as dificultades de ter crescido naquele condado e a brutalidade necessária para que sua família pudesse sobreviver nele naquela época.

A narrativa desse fato dada pela personagem é crucial para compreender a original natureza de todos, seus traumas e tragédias, já que são três gerações que se reencontram após o falecimento do patriarca. Letts não apenas se utiliza do determinismo para dar o ponto de partida para toda construção dos personagens e conflitos, como também abusa da teoria psicanalítica de que os filhos são a perpetuação dos erros dos pais, e de que há a tendência dos mesmos em reproduzirem e repassarem os mesmos traumas aos seus descendentes, como uma herança, geração após geração.

O filme é um drama familiar que não chega a ser complexo ou confuso já que os personagens tem personalidades parecidas entre si, mudando apenas o grau de intensidade, justamente por serem baseados na teoria já mencionada, mas é denso, algumas vezes pesado, com diálogos que ferem uns aos outros devido ao constante comportamento hostil. Isso fica claro na sequência em que Barbara (Julia Roberts) questiona sua irmã, Ivy (Julianne Nicholson), sobre o cinismo que ela agora apresenta, a qual oferece uma resposta compreendida como uma nova lei de sobrevivência pra ela.

A perpetuação dos erros é tão clara e nítida que temos Violet e Mattie Fae (Margo Martindale), irmãs, filhas de uma mãe que elas mesmas se referem como "uma mulher diabólica". Ambas tem personalidades bem parecidas, mas o comportamento de Violet é pior, mais explosivo e maldoso, talvez para compensar o complexo de "nunca ter sido a filha predileta, mas ter se acostumado com isso", como ela mesma diz em uma cena. Violet possui três filhas: Barbara, Ivy e Karen. Cada uma delas possui uma parte de sua personalidade, uma mais, outra menos, mas que deixam claras as heranças comportamentais e psicológicas herdadas, e juntas representam toda a engrenagem da história.

Barbara é a filha mais velha, a "predileta", é a que possui a maioria das características negativas e positivas de Violet, mas que tenta não reproduzir em sua filha, Jean (Abigail Breslin), os mesmos erros da mãe, mesmo que impossível em algumas determinadas situações. Seu casamento com Bill (Ewan McGregor) está em ruínas, tal qual estava o casamento de seus pais.

Ivy é a filha do meio, o "defeito" da família, talvez por ser a única que possui a maioria das características do pai. É a que cuidou de Violet durante anos tanto quanto ele, e que conquistou o afeto da mãe unicamente pela condição de dependência, já que foi a única das filhas que esteve presente.

Karen é a filha mais nova, a "desprezada", e que notoriamente se "acostumou" com a situação, tal qual como sua mãe. Essa personagem é a mais deslocada de todo o filme, a única com um comportamento que não se encaixa em lugar algum, e não é à toa que é sempre encontrada no canto da história ou de escanteio no filme, que de forma simbólica deixa nítida a falta de atenção e cuidado que ela sofreu pela família por nunca ter sido uma filha predileta, ou alguém que se destacasse. Ela é a que tem a personalidade mais distinta de todos por ter vivido sempre sozinha, dentro de um mundo imaginário e particular do qual ela nunca conseguiu sair, além de extremamente carente de afeto e atenção, deslumbrada com o pouco que consegue. É uma personagem pequena e que a maioria das pessoas provavelmente não darão muita atenção, mas ela tem muitos significados em todo o contexto, e a relação distante entre ela e sua mãe é chocante, como no jantar de luto, em um dos poucos momentos que Karen abre a boca para dizer algo. O olhar ferino e desdenhoso de Violet sobre ela já poupa o espectador de qualquer maior detalhe sobre a relação entre elas.

Frente a essa breve descrição das três personagens chaves da história, temos toda a trama que se completa em torno de cada uma delas, com conflitos muito semelhantes uns dos outros, como a mostrar que, embora uma familia esteja em ruínas, vivendo separadamente uns dos outros, os laços que os mantêm conectados ultrapassam uma mera condição sanguínea e genética. É muito mais do que isso, e são definitivamente as heranças psicológicas herdadas entre eles e a tragédia.

Quando o filme é analisado dentro deste contexto mais profundo e conflituoso de uma estrutura familiar, seu roteiro e o desenvolvimento dos personagens fazem muito mais sentido. Obviamente que há uma ou outra cena com excessos dramáticos, mas são relevantes por ser uma adaptação teatral, e esse tom ter sido mantido em momentos oportunos como o jantar de luto do patriarca ou no almoço entre Barbara, Violet e Ivy, e também para ampliar a personalidade de cada um e a semelhança entre eles ser mais nítida.

Há muito mais que pode ser observado no filme e nas relações desastrosas entre os personagens, mas são tão meticulosos, subliminares e muitas vezes delicados que são indescritíveis em palavras, apenas perceptíveis quando assistidos por este ponto de vista analítico.

Por incrível que pareça, é um filme que, mesmo se mantendo dentro de um padrão dramático Hollywodiano, é bastante diferente dos dramas familiares comumente produzidos e, talvez, um dos mais relevantes no circuito comercial que assisti nos últimos anos. Não é uma observação muito comum entre as críticas que li até o momento, mas por se tratar de uma obra de Tracy Letts é de se esperar que há muito mais na história do que a própria história mostra, e é necessário estar atento a isso, pois só quem já conhece o estilo do autor, por conta de suas duas adaptações anteriores, poderá compreender todos esses intercursos com mais facilidade. Também há espaço para algumas reviravoltas na trama, simples, porém inesperadas, como também é parte do estilo do autor e roteirista.

Não há o que se falar sobre as atuações. Meryl Streep dispensa comentários e Julia Roberts está segura, e até mesmo aqueles que se parecem deslocados ou meio fora de contexto, isso é apenas uma impressão superficial. É interessante perceber que não há uma similaridade sequer entre os atores escolhidos ao ponto do espectador realmente considerar aquilo como uma família de fato, como se essa escolha um tanto aleatória tenha sido proposital para representar todo esse caos que a trama alimenta, e a conexão entre eles ser única e exclusivamente, como já dito, pelos seus conflitos e semelhanças psicológicas.

Infelizmente o filme não concorreu na categoria de Roteiro Adaptado nas premiações mais populares (com excessão do Writers Guild), o que é uma pena, pois novamente ignoram mais um trabalho consistente e desafiador de Tracy Letts.

CONCLUSÃO...
Sem dúvida um filme que deve ser analisado além do que ele mostra superficialmente, uma representação muito verdadeira dentro de seus exageros dramáticos de que os filhos são espelhos de seus pais e que quebrar os laços dessas heranças traumáticas e psicológicas são desafiadoras e talvez impossíveis, pois são justamente isso que os conectam (atenção para a revelação que Ivy faz quando diz que não poderá ter filhos, como um simbolismo da quebra desta perpetuação de heranças). Mais um roteiro brilhante desenvolvido por Tracy Letts, que novamente usa e abusa de construções psicológicas densas para seus personagens, fundamentados e teorias e observações verdadeiras, nos propondo a pensar e repensar no que realmente significa os laços e as estruturas familiares, seus erros e acertos, o que devemos manter para as gerações seguintes e como quebrar as heranças trágicas.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

ERRA POR UM LADO, MAS ACERTA EM OUTROS...

★★★★★★★
Título: Clube de Compra Dallas (Dallas Buyers Club)
Ano: 2013
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Jean-Marc Vallée
Elenco: Matthew McConaughey, Jared Leto, Jennifer Garner, Steve Zahn, Griffin Dunne
País: Estados Unidos
Duração: 117 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre a história verídica de Ron Woodroof, que sem querer foi um dos pioneiros no auxílio da pesquisa para a busca de um protocolo de tratamento eficiente para o HIV em uma época em que pouco se sabia sobre a doença e a indústria farmacêutica não tinha a mínima idéia de onde ou como desenvolver suas pesquisas e suas drogas.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é dirigido pelo mesmo diretor de A Jovem Rainha Vitória (The Young Victoria, 2009), o canadense nascido na provícia de Quebec, Jean-Marc Vallée.

A história tem início em 1985, durante o delicado período epidêmico de HIV ocorrido nos EUA na década de 80. Para os que desconhecem, esse surto de contágio fatidicamente ocorreu alguns anos depois do movimento de liberação sexual gay, iniciado também nos EUA, mais precisamente em São Francisco/CA, entre o fim dos anos 60 e início dos anos 70, mas que ainda ecoava não apenas pelos EUA como também pelo mundo. Por conta disso, o vírus HIV, desconhecido na época, foi vulgar e erroneamente associado à homossexualidade porque o primeiro caso descoberto e registrado foi de um paciente homossexual. A associação do vírus com essa orientação sexual gerou muita discriminação e debate (mais do que já havia), bem como a crença de que apenas eles eram um grupo de risco, pensamento ainda muito comum nos dias de hoje.

Com o tempo conseguiu-se divulgar o fato de que todos estão propensos ao contágio e que não existe um grupo de maior ou menor risco. Naquela época o preservativo existia mais como um método contraceptivo, raramente utilizado para prevenção de DSTs, e ninguém se preocupava com um vírus mortal porque o HIV era desconhecido. Principalmente depois do movimento de liberação sexual gay, pessoas faziam sexo em qualquer lugar e com qualquer pessoa, e o surto epidêmico entre os homossexuais acabou sendo maior por conta de todos esses fatores agregados.

Mas o filme não é sobre o movimento de liberação sexual, e muito menos se passa em San Francisco, pelo contrário, se passa no Texas, um dos estados mais conservadores e machistas dos EUA.

Vai contar a história verídica de Ron Woodroof (Matthew McConaughey), um texano que vive na cidade de Dallas, machista, homofóbico, ninfomaníaco, alcólatra e cocainômano, e que descobre a doença por acaso, depois de um acidente de trabalho. Ele não quer acreditar no diagnóstico, mesmo com os exames em mãos, porque para ele o HIV é uma doença de gays, como era divulgado fortemente na época. Ron vai atrás de informações sobre o vírus e a doença, descobrindo que entre os grupos de risco estão as pessoas que fazem sexo sem proteção, o que o remete a lembrar de uma relação sexual específica que ele teve no passado e a finalmente ter de aceitar a dura realidade. Durante suas pesquisas ele descobre as drogas que estavam em uso para testes, sendo uma delas o AZT. Ele volta para o hospital e exige tratamento com a droga, que é negado pela médica Eve (Jennifer Garner), a qual informa que, por estar em fases de testes, não é certeza de sua eficácia e muito menos da garantia de terem a droga verdadeira, pois a indústria farmacêutica misturava placebo entre os lotes e apenas os fabricantes tinham conhecimento de quais eram eles. Desesperado, Ron consegue comprá-la ilegalmente, administrando-a em doses exageradas e sem acompanhamento médico. Por conta da superdosagem ele se intoxica e sofre um colapso que quase o leva a morte. Acreditando que a droga ainda possa ser sua salvação, ele continua sua busca no mercado negro, o que o leva ao Dr. Vass, o qual teve sua licença cassada nos EUA por tentar enfrentar as gigantes farmacêuticas, e agora trabalha no México, desenvolvendo pesquisas principalmente com soropositivos. A observação cientifica do médico é de que o AZT destruia todas as células saudáveis do sangue e que, embora a doença não fosse curável, havia a possibilidade de conviver com ela desde que haja a manutenção constante dos níveis saudáveis do sangue, utilizando suplementos vitamínicos e protéicos, e uma droga de combate ao vírus menos agressiva, além da instrução de que o paciente deve ficar longe do uso de outras drogas e manter uma alimentação regular e saudável. Ron tem uma melhora significante nos três meses que fica em tratamento com o médico, e volta para os EUA com o interesse de fazer de sua descoberta uma mina de dinheiro ao contrabandear os produtos, já que eles ainda não eram aprovados pela agência nacional de controle, mas também não eram considerados ilegais. Com o tempo Ron percebe a melhora e a satisfação de seus clientes, bem como um aumento constante de novas pessoas que o procuram em busca  do novo tratamento. Pensando nisso, e com a ajuda da travesti Rayon (Jared Leto), ele resolve ampliar seu negócio de forma mais organizada e abre o seu Clube de Compra Dallas, onde para ser sócio é necessário preencher uma ficha médica, assinar um contrato de responsabilidade e pagar US$400, dando direito ao sócio de ser fornecido constantemente com os suplementos. Ron passa a não pensar mais nos lucros quando a indústria farmacêutica se sente ameaçada por suas descobertas e passa a interferir em seu trabalho e na pesquisa que ele resolveu desenvolver por influência do Dr. Vass. Aos poucos ele consegue provar a Dra. Eve que o AZT reduz a expectativa de vida de um paciente, enquanto com os produtos que ele comercializa a expectativa aumenta, conseguindo uma aliada na guerra que ele trava contra a agência nacional de controle.

Sem dúvida o filme aborda todo esse período na história da doença e do desenvolvimento de uma droga farmacêutica com muito empenho, bem como os demais assuntos paralelos, como o preconceito e a discriminação sofrida pelos soropositivos, a falta de informação, a dominação corporativa e a dificuldade de todas as pessoas (saudáveis ou não) em lidar com tudo isso.

Muito embora o roteiro esteja presente na temporada de premiações na categoria Roteiro Original, algumas coisas chegam a incomodar aos mais atentos. Mesmo a história sendo dividida durante os dias de vida do personagem principal, a impressão que se tem é que tudo acontece de uma vez só, não havendo uma percepção de passagem de tempo muito efetiva. Os roteiristas também parecem não ter prestado muita atenção em personagens coadjuvantes chaves que surgem repentinamente na história e que nunca sabemos de onde são ou de onde surgiu o grau de relação enre eles, como o policial Tucker (Steve Zahn), a secretária e ajudante Denise (Deneen Tyler) ou até o caso romântico de Rayon. O desenvolvimento da relação entre Ron e Rayon também não soa muito convincente, já que os preconceitos e homofobia do personagem chegavam a níveis de intolerância máxima. Também é pouco explorada a percepção do personagem sobre a gradiosa descoberta que faz, ou da sua transição de um homem oportunista para um pesquisador por acidente que contribuiu imensamente para pesquisas futuras e na evolução de drogas farmacêuticas efetivas. O Clube de Compra Dallas também teve uma grande popularidade nos EUA, ultrapassando as fronteiras do Texas para outros estados do país, mas isso também é pouco pontuado, sendo apenas referido em alguns momentos enquanto Ron gerencia seus negócios por telefone.

O mérito do roteiro é definitivamente na congruência de várias situações e dificuldades que foram sofridas e a importância de Ron Woodroof em criar e divulgar, talvez, o primeiro protocolo de tratamento efetivo para o HIV.

Mesmo a história sendo fortemente baseada em fatos reais, muitos dos acontecimentos e personagens são fictícios, como a travesti Rayon e Dra. Eve. Segundo os roteiristas, esses personagens foram criados em referência aos vários travestis soropositivos e médicos entrevistados durante a pesquisa. A personalidade real de Ron também é contraditória, pois embora ele mesmo tenha afirmado em uma entrevista concedida ao roteirista Craig Borten de que a sua convivência com os gays tenham mudado consideravelmente sua percepção sobre eles, pessoas próximas chegaram a afirmar que ele não era homofóbico e, na verdade, era bissexual, e que seu comportamento mostrado no filme é exagerado, já que ele era um tipo intimidador, mas não violento.

É interessante também que, embora o Clube tenha tido uma grande popularidade nos EUA naquela época, poucas informações são encontradas sobre ele e sua existência é desconhecida pela maioria. O próprio ator que interpreta o personagem afirmou que desconhecia totalmente a existência de Ron e do Clube, e Jennifer Garner também disse em uma entrevista que leu diversas revistas científicas e jornais durante aquele período e não encontrou qualquer referência sobre o Clube e a importância que ele teve no tratamento. 

O filme concorre a seis Oscars, incluindo Melhor Ator a Matthew McConnaughey e Ator Coadjuvante a Jared Leto. Embora o talento de McConaughey já tenha sido reconhecido ainda na década de 90 em filmes como Tempo de Matar (A Time To Kill, 1996) e Amistad (1997), passou um tempo se dedicando a filmes de ação e comédias românticas pouco expressivas e apenas nos últimos anos tem se dedicado a papéis mais densos e complexos como nos filmes Killer Joe (2011), Obsessão (Paperboy, 2012), Amor Bandido (Mud, 2012) e Magic Mike (2012), todos personagens sulistas por excelência, porém interessantes e distintos, que finalmente chamaram a atenção da crítica e da Academia. Sem dúvida a transformação física que o ator sofreu é relevante (ele emagreceu mais de 20kg para o papel), mas ao contrário do processo similar que Tom Hanks realizou em Filadélfia (Philadelphia, 1993), aqui o ator não se coloca em uma posição submissa e martirizada, ele desempenha um papel forte e autoritário, superando obstáculos e lutanto o tempo todo contra seu próprio corpo devido a debilitada condição que se encontra, conseguido transpor sentimentos sem caricaturas ou cliches. Jared Leto também passou pela mesma transformação, emagrecendo mais de 10kg para sua personagem. Sua atuação também é notável, e mesmo representando um tipo estereotipado, sua perfomance é tão delicada e sensível que não aparenta artifical, forçado ou vulgar.

A atuação só é sofrível mesmo com Jennifer Garner. Para quem acompanhou sua trajetória no seriado Alias, sabe que ela realmente pode atuar, mas agora chega a espantar a falta de talento que ela apresenta filme após filme (com excessão de Juno, talvez por ter sido bem dirigida). Mas não é possível compreender o que aconteceu com essa atriz que, quanto mais os anos passam, pior ela fica, atuando de maneira até infantil, jogando no lixo o Globo de Ouro que já recebeu outrora pelo papel de Sidney Bristow.

Os conflitos são muito bem colocados e raramente o diretor apela para uma cena dramática excessiva, mantendo o filme sempre dentro do tom mais sincero e realista possível e emocionante por conseguir nos inserir nas condições vivenciadas pelos personagens. O próprio diretor afirmou que o filme sofreu vários problemas financeiros e quase não pode ser finalizado por falta de verbas. Matthew investiu dinheiro pessoal para o filme, bem como outros atores como Brad Pitt e Ryan Gosling, além dos diretores Marc Forster e Craig Gillespie. Com orçamento apertado, as filmagens duraram apenas 25 dias, não houve iluminação cenográfica ou ensaios, e os atores não foram mantidos na pós produção para correções. Mas o mais interessante de tudo é a produção ter sido filmada inteiramente com apenas uma câmera de mão capaz de gravar apenas 15 minutos, e o trabalho de edição realizado foi tão bem feito que se essa informação não tivesse sido divulgada, seria imperceptível. Não é à toa que o filme também concorre ao Oscar nas categorias de Edição, Direção e Filme, porque apesar de alguns poucos defeitos, sabe-se que eles existem por conta das limitações técnicas e não por incompetência, e o tanto que foi feito com tão pouco resultam em um belíssimo e admirável trabalho que merece ser respeitado por conta de sua grandiosa intenção.

CONCLUSÃO...
Frente a tantos problemas orçamentais que a produção teve em conseguir fundos para concluir as filmagens, realmente é um trabalho bastante digno que não apenas é baseado em fatos reais como também conta uma parte muito importante da história da descoberta do HIV e pesquisas para seu tratamento. Não podemos ignorar o fato de que isso tudo ocorreu em uma época em que ninguém tinha idéia de como combater ou começar a combater a doença, e que a indústria farmacêutica também não teve outra alternativa a não ser produzir os coquetéis e testar diretamente em humanos e de forma aleatória frente a urgência cobrada da situação. Os primeiros coquetéis produzidos possuiam uma composição completamente diferente da atual e eram muito mais agressivos (embora os efeitos colaterais sejam inúmeros e igualmente fortes), mas hoje em dia o seu uso é efetivo e o aumento da expectativa de vida é comprovado e bastante considerável em comparação com o da época do início das pesquisas. O filme também peca neste aspecto, em não esclarecer isso ou informar o espectador de que os tratamentos mostrados no filme são antigos e ultrapassados frente aos avanços farmacêutico e dos protocolos médicos de tratamento disponíveis hoje em dia.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

UMA GRANDIOSA PARTE DA HISTÓRIA...

★★★★★★★★★☆
Título: O Amante da Rainha (En Kongelig Affære)
Ano: 2012
Gênero: Drama, História
Classificação: 14 anos
Direção: Nikolaj Arcel
Elenco: Alicia Vikander, Mads Mikkelsen, Mikkel Boa Folsgaard, Cyron Melville
País: Dinamarca, Suíça, República Tcheca
Duração: 137 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma passagem sobre a Dinamarca durante o Iluminismo no século XVIII e a influencia sofrida no reino pelo médico e pensador alemão Johann Friedrich Struensee.

O QUE TENHO A DIZER...
Esta pérola do cinema dinamarquês foi dirigida e escrita por Nikolaj Arcel. O roteiro, escrito em parceria com Rasmus Heisterberg, já estava em desenvolvimento desde 1999 e era para ser baseado na obra The Visit Of The Royal Physician, de Per Olov Enquit, que por sua vez é baseado nos eventos que aconteceram durante o período em que Friedrich Struensee fazia parte da corte dinamarquesa. Porém, os direitos de adaptação do livro já haviam sido vendidos há uma companhia que tentava há uma década adaptá-lo em inglês, sem sucesso. Esta companhia não quis vender os direitos a produtora Zantropa, que produziu este filme, e cujo um dos chefes é Lars Von Trier. As pesquisas continuaram e o filme foi, então, baseado no livro erótico Prinsesse Af Blodet, de Bodil Steensen-Leth, que conta a história a partir do ponto de vista da rainha Caroline Mathilde.

Embora a narrativa e as caracterizações ainda continuem fortemente baseadas no livro que era originalmente para ser adaptado, foi necessária diversas mudanças no roteiro e na construção da história para que a produção pudesse ter continuidade. Olov Enquit foi até mesmo consultado pessoalmente para que o diretor pudesse esclarecer o que era inventado e o que era baseado em pesquisas históricas ao ponto de uma pessoa ter sido contratada especificamente para comparar o roteiro com o livro de Enquit, página a página, para garantir que havia diferenças significativas e a produção não correr o risco de ser impedida caso fosse considerada uma adaptação não autorizada.

Mesmo com todas essas dificuldades sofridas durante a produção e a forma às vezes extremamente romântica e shakesperiana de como é mostrado o romance entre a rainha Caroline e o físico/médico/filósofo Struensee, não há como negar que o filme não apenas é belíssimo como também um grandioso drama histórico sobre um período pouco conhecido hoje em dia sobre aquele país durante o movimento iluminista ocorrido na Europa no século XVIII, e que, portanto, transformou a Dinamarca no último país Europeu a sofrer avanços sociais e políticas relevantes durante o reinado de Christian VII sob influência de Struensee.

A história do filme vai pegar o período em que Struensee, um físico/médico plebeu, é admitido como Médico da Coroa depois de ser influenciado por seus amigos igualmente iluministas de que essa seria uma grande oportunidade de conseguirem inserir (ou reinserir) seguidores desse movimento filosófico e político na nobreza. Com medo de perder sua soberania e domínio sobre os camponeses e de que os pensamentos e ideais contraditórios atingissem as fronteiras do país, a corte era tirana, governando através de imperativa autoridade através do medo e da censura. Proibia a circulação de textos e livros, e retaliava encontros entre intelectuais que pudessem trazer risco à confortável situação da nobreza, castigando, punindo, torturando e matando todos aqueles que se rebelassem ou divulgassem um pensamento contrário.

Struensee conseguiu mais do que aquilo que imaginava, e se tornou um grande aliado do rei Christian VII, pois foi o único que soube lidar com sua demência, e o rei, por sua vez, encontrou no médico um grande amigo e parceiro justamente por ser o único capaz de compreender seus delírios e tratá-lo não como um louco, mas como uma pessoa naturalmente excêntrica. As boas intenções do médico e a possibilidade de trazer mudanças ao país e ao povo, e a oportunidade de se tornarem uma grande referência no continente, fez com que Struensee bem utilizasse essa influência sobre o Rei para o bem da ideologia política e iluminista. Várias mudanças substanciais ocorreram durante esta influência, ao ponto do médico plebeu se transformar na autoridade máxima da corte quando o Rei resolveu dissolvê-la por completo após uma tentativa deportarem Struensee para a Alemanha, seu país natal, e nomeá-lo Ministro da Corte.

Na dificuldade de atacarem o agora Ministro, descobriu-se que o mesmo tinha um caso com a Rainha Caroline, que, segundo o filme, desprezava o Rei e era intolerante com ele pois desconhecia até onde sua demência e desvios comportamentais eram uma ameaça. Não apenas isso, Caroline ficou grávida de seu segundo filho, mas dessa vez de Struensee. Os ex membros da corte se aproveitaram dessa fraqueza e fizeram disso um grande escândalo que colocou o reino e sua população em polvorosa, e um golpe foi orquestrado para a queda do poder do médico filósofo sobre o reino.

Entre os fatos reais e fictícios, a distinção é clara para o bem do drama, da construção do roteiro e suas tramas, mas em nenhum momento eles se conflitam ao ponto de diminuir a grandiosidade de toda a história que mostra e pontua claramente as dificuldades e incertezas de um povo submisso e que vivia sob a sombra de incertezas.

Embora o título se refira ao romance Real, e seja essa a trama principal, as demais não são ofuscadas por isso, e há momentos de grande importância para cada tema abordado. Pelo mínimo que seja lido sobre este período já é possível verificar que o roteiro realmente se baseia em fatos sólidos e verídicos, construídos de forma cronológica e didática o suficiente, dando uma noção de passagem de tempo e mudanças convincentes e que raramente é visto com tanta eficácia e eficiência em filmes do gênero. Ao contrário de muitos filmes de temática histórica, este está longe de ser tedioso ou cansativo, mesmo tendo mais de duas horas de duração. As situações e fatos são tão bem definidos e construídos que seu desenvolvimento atrai o interesse do espectador pela História e nos insere dentro dela, como um observador vivo e presente, que vibra com os sucessos, anseia pelas mudanças e sofre com a falta de caráter dos outros tanto quanto os personagens principais. A idéia também desenvolvida pelo filme de que tudo pode ser contornado, resolvido e superado, como ocorre em vários momentos, faz o espectador torcer por um final feliz aos personagens, mesmo ele sabendo que na História as coisas não foram assim. Esse sentimento é graças ao tom fictício utilizado com sucesso dentro de tantos fatos verídicos. Portanto, brincar com a História de maneira séria ao ponto de conseguir fazer o espectador esperar que o fim seja diferente, é um sinal de que a proposta do cinema foi atingida, a de nos imergir em todo aquele mundo recriado. Mas apesar de todo o sofrimento e um final trágico a todos, sempre há alguma esperança para as mudanças e não há como não se emocionar com o epílogo e as tranformações positivas que o país sofreu por conta da grandiosa índole dos descendentes Reais.

A relação mostrada entre Struensee, Christian e Caroline e a relação de confiança e comprometimento entre eles não apenas é mostrada de forma muito bonita como motivadora, deixando de ser simplesmente uma traição amorosa oca e vulgar para se tornar algo verdadeiro e humano suficiente, um bem necessário para toda a maturidade ideológica. E como já dito, uma grande aula de história também, já que esclarece muito o que foi o Iluminismo e porque ele foi tão temido pela nobreza européia.

As atuações de um elenco desconhecido nas américas surpreende, e o desenho de produção igualmente. O filme foi bastante aclamado pela crítica e pelo público. Chegou a concorrer ao Oscar e ao Globo de Ouro em 2013 na categoria Filme Estrangeiro, perdendo para o francês Amor (Amour, 2012), mas foi um passo relevante e uma grande publicidade a uma produção que poderia facilmente ter sido ignorada, mas felizmente está acessível a todos.

CONCLUSÃO...
Um drama histórico surpreendente que cresce e insere o espectador na história como uma parte dela. Uma grande aula de história contada de forma até shakesperiana e que esclarece muito os ideais iluministas e uma parte da história da Dinamarca desconhecida por muita gente.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

TIME QUE GANHA NÃO SE MEXE...

★★★★★★★★
Título: Trapaça (American Hustle)
Ano: 2013
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: David O. Russel
Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Jeremy Renner, Robert De Niro
País: Estados Unidos
Duração: 138 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Irving e Sydney são um casal de trapaceiros forçados a ajudar o agente do FBI, Richie, a coletar provas contra o Prefeito e desarmar um esquema mafioso e de corrupção em cadeia.

O QUE TENHO A DIZER...
Onde ou quem é que tenha dito a David O. Russel que "time que está ganhando não se mexe", ele ouviu muito bem. Ele dirige e escreve este novo filme e, tal qual seu anterior, O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, 2012), volta a trabalhar com Bradley Cooper e Jennifer Lawrence, bem como a maioria dos demais atores que trabalharam com ele em filmes anteriores, com excessão de Jeremy Renner. Mas os movimentos que ele utilizou nesse tabuleiro de xadrez em Hollywood foi diferente. Embora novamente tenha pego os dois atores que ele ajudou a consagrar, aqui eles não atuam em parceria (aparecem juntos em apenas uma única cena muito breve), além de terem uma participação mais coadjuvante. Isso já torna o filme interessante, porque não abusa da exploração do sucesso de ambos. E mesmo atualmente sendo os atores mais requisitados, também optaram por um filme menor e papéis menores, mas nem por isso desinteressantes. Isso é muito relevante e mostra a maturidade de ambos. Bradley Cooper, mais experiente, já apresentava essa tendência quando começou a investir como produtor (aqui ele assina como co-produtor), e Jennifer vem sabendo escolher bem os papéis que caem em suas mãos (ou seu agente que é bom demais), e ela caiu nas graças do público e da crítica e se tornou a nova "Namoradinha da América".

A história deste filme nada tem a ver com o anterior, embora os personagens sejam tão problemáticos quanto (principalmente as personagens femininas), e não é uma história tão real como dizem no princípio, informação que virou moda hoje em dia até mesmo na ficção. A trama é apenas um esboço do esquema Árabe ocorrindo no final dos anos 70 e começo de 80, em que o FBI iniciou uma investigação pontual e depois a expandiu para incluir outros esquemas de corrupção. O roteiro do filme já estava pronto havia anos e ficou em oitavo lugar na Lista Negra de Hollywood no ano de 2010, que é uma lista divulgada todos os anos sobre os melhores roteiros que não foram produzidos.

Como é de costume nos filmes de Russel, o que manda não é o roteiro, ele é apenas uma linha guia. Quem manda são os atores e seus shows particulares, pois há muitos improvisos em ações e diálogos (mesmo assim o filme está presente na temporada de premiações na categoria Roteiro Original), o que, particularmente, faz dele algo muito mais interessante, pois foge de marcações e deixa os atores livres e ainda sim encarnados em seus personagens, demonstrando um outro domínio de técnica.

Falando em técnica, é um dos filmes tecnicamente perfeitos do ano, daqueles feitos realmente para serem enquadrados na temporada de premiações. Isso é bom porque é prazeroso ver tanta qualidade, mas ao mesmo tempo soa plástico demais por conta desse excesso de qualidade.

Russel novamente abusa da câmera na mão, mas seu esquema de direção firme, porém adaptável, faz todas as atuações - sem excessão - serem pontuais e muito bem colocadas em cena. É nítido como sua visão sobre o produto final era algo muito sólido porque o filme flui sem tropeços graças a seu roteiro, direção e principalmente pela edição, que se não fosse tão exata frente a tantas histórias e reviravoltas que acontecem facilmente teria tirado o filme do trilho. Não há engasgos ou momentos em que o espectador se sinta perdido na história frente a tantas tramas paralelas e tantos personagens com personalidades tão distintas e muito bem exploradas e desenvolvidas. Os improvisos, que são marcas do diretor, que já declarou que sua preocupação com os personagens é maior do que com seus diálogos, faz o filme fugir do que está originalmente descrito e previsto, tomando um rumo natural, como se os personagens criassem vida própria.

A trilha sonora original, assinada pelo sempre magnífico Danny Elfman, nunca é invasiva e sempre um grande complemento para todo o desenvolvimento, mas o que mais chama atenção, sem dúvida, é o desenho de produção. Belíssimo no figurino e cenários, reproduzido bem a década de 70 e o exagero estiloso da época. Ainda sobre o desenho de produção, não podemos evitar de perceber que em alguns momentos soa mais moderno e atual que a própria década reproduzida, até porque sabemos que a tecnologia cosmética e têxtil da época era muito diferente da utilizada hoje e no filme, algo que parece ser um pouco ignorado, o que resulta em um anacronismo sobre as diferenças de qualidade, cores e texturas que não atrapalha, mas frustra um pouco na tentativa de ser fidedigno.

As atuações são excelentes em todos os aspectos, mesmo quando há a esquisitice exagerada de Christian Bale em engordar absurdamente para o papel, uma atitude muito mais para chamar atenção sobre seu comprometimento do que um grande adicional ao personagem, porque era dispensável. Bale nunca foi um galã para ter que sofrer grandes transformações para dar mais foco a seu talento do que para uma beleza que ele nunca teve, mas ele aparenta gostar desses processos metamórficos, já que é o terceiro filme com Russel que ele se propõe a isso. Mas com excessão dessas decisões dispensáveis e particulares do ator, sua performance é notável, e seu personagem, tal qual é dito até mesmo no filme, consegue atrair a simpatia mesmo sendo esquisito e às vezes asqueroso, justamente por ser um homem sensível e inteligente. Mas sem dúvida quem rouba toda e qualquer cena é Amy Adams, que nunca peca pelo excesso. Sua personagem começa o filme fraca, apenas chamando atenção por ser belíssima, envolvente e bastante sexualizada, mas conforme o filme desenvolve notamos que ela é composta de várias camadas, e que, no fundo, ela tem mais profundidade do que aparenta, além de ser uma mulher frustrada por nunca ter sido realmente amada e valorizada pela sua essência e capacidade. O desenvolvimento da sua personagem é tão brilhante que em determinadas cenas Amy consegue transpor todas essas frustrações, anseios e até poucas felicidades e prazeres de uma única vez, o que deixa evidente em como sua personagem é complexa, com um misto de emoções e sensações que a perturbam. Não é à toa que, juntamente com Cate Blanchett ou Kate Winslet, ela também é considerada por alguns como uma nova Meryl Streep (esta será sua quinta indicação ao Oscar).

Agora, muito tem se falado sobre a atuação de Jennifer Lawrence, mas particularmente acredito que seja mais uma superestimação por conta de sua grande exposição do que uma personagem realmente marcante. Todos já sabemos que ela é talentosa, mas os surtos dramáticos em cena não são muito diferentes do que os mostrados em O Lado Bom da Vida, algo que futuramente deixará de ser convincente pra ser um vício de interpretação, caso ela se acomode nesse exagero. Há poucos momentos em que sua personagem é dominante, e são momentos típicos e clichés para serem apresentados no telão do Oscar quando seu nome for bradado entre os indicados. Há até um beijo na boca de Amy Adams, que pode soar irônico e até engraçado, mas um tanto fora de contexto. De qualquer forma, a personagem é tão complexa quanto a de Amy (ou talvez até muito parecida), mas é tão coadjuvante que se fosse dispensada não atrapalharia a trama, ela só existe para dar uma profundidade dramática maior aos conflitos do personagem de Christian Bale, como se os que ele já possui não fossem bastante. Ela venceu prêmios importantes na categoria Atriz Coadjuvante, e tem grandes chances de novamente receber o Oscar pela sua atuação, mesmo porque esta categoria não esteja muito bem servida este ano.

É um filme longo (mais de duas horas) e que demora pra engatar na trama propriamente dita, uma primeira parte para apresentar e se aprofundar nos personagens e uma segunda para chegar na trama principal de fato, mas tudo é tão bem construido e costurado que essa divisão parece até muito simplópria no meio de tanta qualidade, além de tudo ser muito bem escrito e detalhado, ninguém precisa se esforçar pra entender o que acontece na trama principal ou entre os personagens, algo raro em filmes comerciais com tendência a aparentarem complexos demais só para enganar bobo.

CONCLUSÃO...
Como um todo, Trapaça é um filme sólido e respeitável, com qualidades técnicas que chegam a ser deslumbrantes e uma trama que envolve vagarosamente e surpreende, mesmo que sua conclusão já seja previsível. Merece figurar entre os melhores do ano e entre as listas da temporada de premiações, deverá ganhar em algumas categorias principais, mas não podemos ignorar também o fato de que o cinema de Hollywood anda cada ano mais fraco e sem grandes surpresas, por isso que a atenção e superestimação a poucos títulos aconteçam.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

CARMINHA EXPLODINDO POBRE NO ESPAÇO...

★★★★
Título: Elysium
Ano: 2013
Gênero: Ficção, Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Neill Blomkamp
Elenco: Matt Damon, Jodie Foster, Wagner Moura, Alice Braga
País: Estados Unidos
Duração: 109 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A Terra está destruída e os ricos resolveram ir morar no espaço, enquanto os pobres trabalham a seu favor. Aí um homem recebe uma carga de radiação que o matará em 5 dias, e aí ele resolve ir para Elysium, onde há uma máquina super poderosa capaz de recuperar até um rosto destruído por uma bomba, e junto a isso, tentar salvar a classe pobre e proletária sem saber.

O QUE TENHO A DIZER...
O sulafricano Neill Blomkamp acertou quando estreiou na direção e escreveu a aclamada ficça-ação Distrito 9 (Disctrict 9, 2009), transformando extraterrestres em seres escravizados, excluídos e segregados na Terra pelos humanos em uma metáfora e referência direta ao Apartheid que ocorreu no sul da África por quase meio século. O interessante deste inesperado filme foi que isso não era uma crítica social apenas à exclusão racial, mas a qualquer tipo de exclusão social que existe, podendo-se substituir os extraterrestres por qualquer grupo excluído ou segregado sem perder o contexto da história. Isso levou o diretor a concorrer ao Oscar pelo filme nas categorias de Roteiro Adaptado e Melhor Filme, e catapultou o estreante diretor ao topo dos mais promissores.

Muito barulho correu sobre Elysium quando sua produção foi anunciada e muita gente se perguntou se ele manteria essa discussão política e social relevantes dentro de um filme de ação pipoca, mas o papo perdeu a força com trailers fracos e uma estréia modesta, que não agradou a primeira leva de público. Compreensível, pois a verdade é que sua nova investida decepciona por extamente tentar seguir os mesmos passos do anterior, mas nada de tão relevante ao ponto de acharmos as analogias interessantes demais para que ele possa ser considerado alguma coisa. O resultado foi um fracasso. O filme que custou mais de US$120 milhões, arrecadou custosamente um pouco mais de US$90 milhões só nos EUA.

O pano de fundo que Blomkamp utiliza nada mais é do que a segregação entre ricos e pobres, a concentração da assistência a saúde apenas aos poderosos e uma leve referência a Revolução Industrial. Temas batidos no cinema e que dificilmente convencem se não bem fundamentados e estruturados. Dessa vez ele faz da Terra um lugar destruído pela poluição e pelo esgotamento das reservas naturais, superpopulado por latinoamericanos que vivem em favelas, explorados incansavelmente por um governo elitista, como se latinoamericanos fossem, em sua essência, o exemplo da pobreza, da miséria e submissão. Pode até ser, mas ficou feio e mal arranjado na tela com um monte de gente falando espanhol.

Não é à toa que o filme tem dois atores brasileiros entre os principais, como Alice Braga (sobrinha de Sônia Braga) e o chatíssimo Wagner Moura, que pode ter sido bom em outra época, mas hoje virou mais um ator Rede Globo. Claro que o herói não podia ser outra pessoa além do norteamericano Matt Damon, que está perdido no filme e só vai descobrir de fato o que tem que fazer só lá pro final, quando ele finalmente recebe o resto do roteiro e o briefing do desfecho de seu personagem.

Já é decepcionante logo no começo, quando Damon solta piadinhas manjadas de rapariga gente boa que acorda todos os dias para enfrentar a fila do busão para realizar o trabalho explorador e ter uns tostões no fim do mês. Um tipo canastrão, de criminoso arrependido e que combina em nada com a persona do ator e personagens que ele interpretou no passado, principalmente em filmes de ação. Aí ele apanha de policiais ciborgues e sofre assédio no trabalho por um patrão casca grossa que ameaça substituí-lo por qualquer desempregado que está na fila em dois momentos cruciais da história: 1) quando chega com o braço quebrado no setor; 2) quando se recusa a entrar com o braço quebrado em uma cabine radioativa para desenroscar a porta de fechamento automático. Óbvio que, com o braço quebrado, ele entra na cabine, desenrosca a porta que se fecha automaticamente e ele recebe um banho delicioso de pura radioatividade que, como diz um dos personagens, não foi capaz de descolar a pele do corpo, mas vai deixá-lo vivo e em agonia por mais cinco dias. Tem umas pilulas mágicas que ele pode tomar e que farão os órgãos funcionarem normalmente até se deteriorarem por completo por conta da radioatividade (oi???), mas isso não é importante, porque ele vai se esquecer deste detalhe durante o filme, e quando lembra toma todas de uma vez.

O mais interessante de tudo é que era pra ele estar até verde (ou azul, como o Dr. Manhattan, de Watchmen) de tanta radiação, mas ele anda normalmente entre as pessoas sem qualquer problema e todo mundo fica de boa. Só vomita no começo, mas depois passa.

Aí a coisa piora quando resolvem acoplar um dispositivo biotecnológico em seu corpo, porque ele está fraco, mas precisa de forças de alguma forma para ir até Elysium porque ele não quer morrer, mas só vai conseguir chegar lá clandestinamente caso, em troca, consiga completar uma missão para o Wagner... digo... para o Spider, interpretado pelo Wagner (lembrando que ele tem apenas cinco dias para isso). Todo o processo cirúrgico e agressivo é feito em um buraco imundo qualquer, por pessoas suadas que usam ferramentas enferrujadas. A pressa era tanta que nem tiraram a roupa dele: serraram, martelaram, parafusaram e colaram tudo por cima daquela roupa encardida mesmo. Também acredito que ele não tenha passado nem uma noite sequer no ambulatório. Acordou algumas horas depois, sem dor alguma, olhou para todo aquele desconforto e perguntou (sic): "O QUE VOCÊS FIZERAM COMIGO?"

Uai... nada! Só uns ajustes.

E assim o filme se desenvolve, entre absurdos enfadonhos e outros, entre diálogos terríveis e outros, como no momento em que Matt vira para o Wagner e fala (sic): "PRECISO IR PARA ELYSIUM AGORA!", e o Wagner responde (sic): "SÓ VOU CONSEGUIR EM 5 DIAS". Mas peraí... no começo do filme o Matt não tinha dito que morreria em cinco dias? Weird!!!

Agora pulando toda a baboseira, vamos para o espaço: Elysium é lindo e parece um pedaço gigante de Miami. Tem coqueiros por todos os lados, mansões, piscinas, sol o dia todo e um bando de gente folgada de biquini e bebendo Martini. Tudo está a céu aberto porque todo este planeta artificial tem uma atmosfera qualquer e que ninguém se importa em explicar como funciona, mas ninguém também tem interesse em saber. É assim porque é assim.

Quem manda naquilo tudo é a Jodie Foster, toda metida a Carminha, de Avenida Brasil, sempre vestida de branco e mandando explodir pobre no espaço. Tem também um vilão meio afeminado, um personagem super esquecível e que não agrega nada na história, vivido pelo igulamente esquecido William Fichtner, que abre a boca apenas umas três vezes. Sua única função é carregar um dado no cérebro que será responsável por todas as reviravoltas na trama, se é que tem alguma de fato. Mas ele vai morrer, só pra dizer.

Lá no espaço o Matt trava uma batalha bem nervosa com o Krueger, outro vilão, vivido pelo ator Sharlto Copley. O ator é até interessante, mas aquele sotaque que ele usa, que não se sabe se é russo, francês, chinês ou o quê, é chato pra caramba, e toda vez que ele abre a boca pra falar é um grande desconforto primeiro porque, como já disse, o sotaque é chato, e segundo porque ele adora ser um vilão engraçadinho cheio de sadismo, que virou um tipo cliché nos últimos anos.

Enfim, o filme tem um visual muito interessante e uma história que poderia ter sido excelente se tivesse sido bem desenvolvida, mas no fundo ele é chato, arrastado, forçado e não convence. As atuações são caricatas e perdidas. A inclusão dos brasileiros no filme não tem razão. Alice Braga é sempre aquela coisa: franze a testa pra mostrar que está com raiva e faz cara de choro sem lágrima. Ver a atuação de Wagner Moura chega a ser constrangedor porque, aqui no Brasil, pra ser considerado bom ator, você tem que fazer careta e falar gritado, principalmente na Rede Globo, e esse exagero expressivo que não cabe numa tela de cinema não combina em nada com a competência comedida e quase européia de Matt Damon, que atua bem até quando atua mal. Então imagina...

Obs: detalhe para um ciborque enfermeiro que aparece bem rápido no fim do filme, lendo informações em um tablet. Pra que ler informações em um tablet se ele poderia ter as informações no próprio sistema, hein?! Que burro.

CONCLUSÃO...
Filme triste, arrastado, uma história sem pé nem cabeça. Percebe-se que sua produção foi corrida em roteiro. Vai agradar leigos e troianos, mas não convence nem na ficção. Blomkamp errou a mão e nas idéias, mas ainda é seu segundo filme, dá tempo de recuperar a carreira.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

BESSON É ASSIM MESMO...

★★★★★
Título: A Família (The Family)
Ano: 2013
Gênero: Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Luc Besson
Elenco: Robert De Niro, Michelle Pfeiffer, Tommy Lee Jones
País: Estados Unidos, França
Duração: 111 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
O clã mafioso dos Manzoni agora foi relocado na Normandia sob o programa de proteção a testemunhas. Agora tentam levar uma vida normal, mesmo que seja difícil tirar do sangue italiano a brutalidade pela vingança.

O QUE TENHO A DIZER...
A Família foi dirigido, escrito e produzido pelo francês Luc Besson. Não vou me estender aqui sobre quem é esse diretor, ao invés disso vou apenas citar que ele criou o exemplo máximo da femme fatale em Nikita (1990), depois foi o responsável por dar o primeiro papel a Natalie Portman em O Profissional (Léon, 1994), conseguiu também transformar a modelo Milla Jovovich naquilo chamado de "atriz" no que também virou uma referência da ficça-ação científica em O Quinto Elemento (The 5th Element, 1997), e conseguiu repaginar a carreira de Liam Neeson como um senhor de ação em Busca Implacável (Taken, 2008/2012), franquia que já foi anunciada terceira parte (embora Besson não tenha dirigido nenhuma, apenas criou os personagens e escreveu o roteiro).

O seu sucesso como diretor o transformou mais em um grande produtor do que um grande cineasta (são 15 longas como diretor, contra mais de 100 como produtor). A fama não faz tanto jus ao talento. A maior força de Besson sempre esteve nos poucos e memoráveis personagens que ele criou, mais do que na sua capacidade como diretor ou roteirista.

Neste filme de humor negro e pesado na violência, que mais funciona como uma sátira sobre histórias de máfia e gângsters contados no cinema ao longo dos anos, não seria diferente. Os personagens são muito mais interessantes do que a história em si, e que infelizmente também perdem sua força conforme o filme chega ao fim.

O elenco, formado por atores que, em sua maioria, já passaram dos 50 anos de idade, também tenta pegar carona nas produções de ação que agora resgatam atores desta faixa etária para agradar o público da mesma idade e conquistar os mais jovens ao mostrar que, sim, eles ainda são capazes de carregarem um filme deste gênero com muito empenho. Exemplos destes filmes são: o sucesso da terceira idade chamado Red - Apostentados e Perigosos (Red, 2010), cuja continuação de 2013 foi um fracasso; Os Mercenários (The Expendables, 2010), que também terá uma terceira parte este ano; Liam Neeson novamente em Desconhecido (Unknown, 2011); Liam Neeson novamente outra vez em A Perseguição (The Grey, 2011); e por aí vai...

Conta a história da família Manzoni, que resolveu delatar seus comparsas para tentarem largar a vida do crime e viver uma vida normal, comum e correta através do programa de proteção a testemunhas que existe nos Estados Unidos, onde um grande criminoso pode ter sua pena reduzida ou perdoada caso ele colabore com a justiça na ajuda pela busca e/ou identificação de outros criminosos dentro de um grupo correlato ou afim. O programa agora enviou a família para a Normandia, na França, onde terão que se adaptar com os costumes locais e viver através do disfarce de uma familia americana tradicional, que gosta de churrascos e filmes. O problema é que o sangue italiano e o temperamento explosivo de todos os impedem de se adaptar nesta vida pacata e pacífica, e qualquer motivo se transforma em uma grande razão para retaliações severas como explodir um supermercado porque ouviu os donos falando mal da manteiga de amendoim, espancar o colega de escola com uma raquete porque ele tentou roubar um beijo, ou quebrar todos os ossos do encanador com um taco de baseball porque ele quis cobrar caro pelos serviços.

Essa violência por pouca coisa, absurda e um tanto surreal, deixa de ser chocante pra ser engraçada porque desde o princípio sabemos que o filme não é pra ser levado a sério. É até divertido em sua esquisitice, e que mais chama atenção por situações engraçadas criadas pelos atores, principalmente por Robert De Niro, que criou uma sátira dos personagens feitos por ele mesmo depois de tantos filmes seríssimos com Scorcese sobre o mesmo tema. Há até um momento para uma pequena referência a um de seus clássicos (Scorcese também assina a produção deste filme). Portanto, vendo o ator americano atuar como um chefe da máfia italiana, que fala inglês fluente e com sotaque meio italiano e meio novaiorquino (do Brooklyn) naquele mau humor e rustidez típica, chega a ser hilário e mais uma prova de como ele é bom. Michelle Pfeiffer é sempre graciosa demais para ser ignorada, mas está dentro da zona de conforto e só consegue arrancar algumas risadas também no falso sotaque que às vezes ela solta esguelado, como um miado de um gato velho.

Mas o roteiro não ajuda a segurar as qualidades. Toda a história poderia ter sido melhor aproveitada se a ordem dos acontecimentos tivessem sido diferentes no roteiro. Muita coisa que está no fim, deveria ter acontecido no começo, muita coisa que está no começo devia estar no fim e várias das coisas que está no meio poderiam ter sido divididas entre o começo e o fim. Demora muito para entendermos o que está acontecendo, quem é quem na história, ou sobre o que é tudo. Toda a explicação é dada em uma conversa entre De Niro e Tommy Lee Jones (seu personagem é totalmente dispensável na história) de uma forma pouco clara e direta, quando o roteiro caminhou em tanto buraco que ninguém mais está interessado em saber.

Como dito, conforme o filme chega a seu fim, os personagens vão perdendo sua força, bem como a narrativa empobrece mais ainda e transforma tudo em um filme descartável. Uma pena, há muito talento para pouca coisa na tela. Muito potencial para pouca visão. Tinha tudo para ser bom, só não teve ordem de idéias.

CONCLUSÃO...
De qualquer forma, para quem estiver mais interessado em De Niro, nos personagens, ou na violência cômica criada, vale a pena assistir, porque apesar de seus defeitos, não é um filme irritante e seus bons e esparsos momentos valem a pena. Mas assista sem muitas expectativas, porque Besson é assim mesmo.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

OS PREMIADOS DO GLOBO DE OURO 2014...

O Globo de Ouro neste domingo, em mais um ano, não foi de todo surpreendente, mas preferiu favorecer filmes e atores que, dentre os concorrentes, realmente eram os mais qualificados a serem considerados os melhores, algo raro. 2013 será novamente um ano bastante competitivo no Oscar, mas um ano repleto de filmes fracos e pouco memoráveis. Ao menos evitaram a apelativa necessidade de manter a popularidade de jovens estrelas de Hollywood ou filmes superestimados de graça, e preferiram o meio termo, agradando um pouco de tudo. Para ver a lista completa, CLIQUE AQUI:

MELHOR FILME
-Drama: 12 Anos de Escravidão (12 Years As A Slave)
-Musical/Comédia: Trapaça (American Hustle)

Nota: Era um tanto óbvio que 12 Anos levaria o prêmio este ano na categoria Drama. É um daqueles títulos anuais lançados para fazerem os lobbys necessários nas temporadas de premiação (pode aguardar o Oscar) e, claro, embarcarem numa camuflagem política tal qual foi Argo, no ano passado. Mas dentre os finalistas nesta categoria, era o mais capaz. Não que Gravidade, por exemplo, não fosse, mas 12 Anos é o típico filme que agrada a Imprensa de Hollywood e o público ávido pelo drama suado e sofrido, além de mexer com fatos verídicos numa época muito delicada da história do país, e isso é sempre uma bela publicidade para qualquer premiação. A disputa estava mais acirrada na categoria Musical/Comédia, e Trapaça foi a declaração para David O. Russel de que "time que ganha não se mexe", atropelando preferidos como Ela ou até mesmo O Lobo de Wall Street, na milésima parceria entre o diretor Scorcese e o ator Leonardo DiCaprio (embora a verdade seja que muita gente não aguenta mais os dois juntos).

MELHOR ATOR

-Drama: Matthew McConaughey
-Comédia/Musical: Leonardo DiCaprio

Nota: Ano passado Matthew chegou perto com duas performances fantásticas na comédia Magic Mike e no drama gótico Killer Joe, embora este último não tenha sido lembrado em nenhuma premiação mais popular, mas foram filmes suficientes para mostrar que o ator realmente não tem só sex appeal. E claro, o juri também adora atores que chegam aos seus extremos para um papel. Para Leonardo DiCaprio, o prêmio foi praticamente de consolação e um pedido de desculpas por concorrer tantas vezes (nove vezes) e ter sido ignorado tantas vezes (só venceu uma). Ao menos uma vez nessa parceria infinita entre ele e Scorcese isso tinha que acontecer, e para mim, tomara que seja a primeira, única e última.

MELHOR ATRIZ
-Drama: Cate Blanchett
-Musical/Comédia: Amy Adams

Nota: Não vou arriscar em dizer que são as duas favoritas neste ano porque novamente a temporada de premiações está com uma lista de grandes e importantes atrizes que tiveram desempenhos fantásticos, mas serão duas atrizes que estarão presentes em todas as premiações. Pra mim foi surpresa ter sido Cate Blanchett a vencedora, e não Sandra Bullock, que recebeu elogios unânimes da imprensa (Cate também), e seu filme foi um sucesso de crítica e público, e outra vez ela se consagra como uma grande estrela de Hollywood. O premio a Blanchett foi merecido e em grande hora, já que é uma atriz memorável e de impressionante desempenho filme após filme, e talvez será por isso que ela abocanhará todas a partir de agora nas premiações mais populares. O prêmio a Amy Adams não foi uma surpresa. Ela é constantemente considerada a "Meryl Streep" de sua geração, e já concorreu a 4 Oscars e 4 Globos e levou nenhum, até então. Não foi uma categoria de difícil decisão, Julie Delpy e Greta Gerwig tem excelentes desempenhos nas propostas de seus filmes, mas óbviamente Amy é a mais popular entre todas neste ano, logo...

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Jared Leto

Nota: Supreende mais uma vez Michael Fassbender não ter levado o prêmio, mas o desempenho de Jared Leto tem sido ovacionado a quatro cantos tal qual o de seu colega. Ele não é um ator de desempenhos tão memoráveis como Michael (embora também saiba escolher bem os filmes que trabalha), também nem tem uma popularidade tão alta assim, então realmente tudo aparenta que seu talento e desempenho no filme realmente tenham sido de grande relevância mais do que qualquer outra coisa. Até porque o juri também adora atores interpretando transexuais tanto quanto interpretando soropositivos ou prostitutas, porque são sempre os extremos do estereótipo dramático.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Jennifer Lawrence

Nota: Não era surpresa a nova "Namoradinha da América" ter vencido. Primeiro porque há muito tempo Hollywood não tinha uma "Namoradinha" (a última foi Sandra Bullock), segundo porque ela realmente tem talento (embora acredite que a superestimação da mídia esteja sendo maior que o próprio talento que a atriz tem), mas realmente não era uma categoria de grandes disputas e o prêmio estava mais pra óbvio do que algo divertido e surpreendente.

MELHOR DIRETOR
Alfonso Cuarón

Nota: Mais do que merecido, só pelas dificuldades técnicas sofridas e a pesquisa realizada pelo diretor que resultaram em um dos filmes mais surpreendentes do ano no quesito técnico, já deixavam explícito seu favoritismo. Muito embora este reconhecimento possa não ser repetido no Oscar.

MELHOR ROTEIRO
Spike Jonze

Nota: Faz muito tempo que este diretor/roteirista merece um reconhecimento destes, sem falar que faz tempo que ele não recebe uma grande promoção tal qual vem recebendo desde Quero Ser John Malkovich. É um cara com idéias esquisitas, que desenvolve histórias esquisitas, mas que nesse mundo esquisito consegue criar uma atmosfera tão real e sensível que é impossível não adorá-lo.

domingo, 12 de janeiro de 2014

APENAS PARA FÃS DO GÊNERO...

★★★★★
Título: Somos O Que Somos (We Are What We Are)
Ano: 2013
Gênero: Horror, Mistério, Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Jim Mickle
Elenco: Bill Sage, Ambyr Childers, Kassie Wesley DePaiva, Kelly McGillis
País: Estados Unidos
Duração: 105 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A família Parker é tradicional, e segue um ritual antigo que já existe há gerações. Eles se encontram em uma situação de risco depois que a morte de um membro da família coloca todas as responsabilidades em cima das irmãs Iris e Rose em seguir com essas tradições.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é uma versão americana do mexicano Somos Lo Que Hay (2010), e segue tipicamente um estilo de horror que não é agradável para muito espectador, um estilo fora de circuito, típicos para o público de Sundance, onde o roteiro está muito mais interessado em desenvolver a história e as situações até um clímax final por vezes chocante, e que foge de qualquer expectativa.

Tecnicamente ele tem lá suas qualidades e as atuações estão bem acima da média para um elenco desconhecido e para a história desenvolvida, mas não há como negar que seja desconfortável. Para quem assistiu Stoker (2012) e gostou, que foi outro filme de horror um tanto esquisito lançado em 2013 com Mia Wasikowska e Nicole Kidman, provavelmente também gostará deste. Mas ao contrário de Stoker, que tenta justificar a psicopatia dos personagens principais a partir de seus pontos de vista, traumas e razões que justifiquem a progressão desta doença, Somos O que Somos tenta justificar as ações dos personagens a partir de uma cultura ancestral pouco esclarecida em roteiro, o que deixa boa parte da história vaga e perdida, soando apenas algo inconsequente ao chegar no ato final.

A apresentação, toda trabalhada em filtros visuais e imagens desfocadas, numa fotografia até bonita, deixa dúvidas se será um filme de horror baseado no sobrenatural ou não, mas após a introdução as coisas ficam mais claras e um tanto óbvias até termos a certeza de que ele abordará temas antropofágicos, religiosos e até psicológicos.

Para os Parker, a religião e a crença estão em primeiro lugar, e eles seguem um diário ancestral que é repassado para as gerações seguintes, cuja responsabilidade sempre fica ao filho mais velho (aparentemente depois da matriarca, que é a responsável por todo o processo ritualístico). O diário detalha este ritual que hoje é realizado por eles de tempos em tempos, e é o que vai justificar a apresentação do filme e, inclusive, a demência que vai tomando conta de Frank, o patriarca.

A verdade é que a história é baseada na doença chamada Doença de Kuru, ou Doença de Creutzfeldt-Jakob, estudada e reportada pela primeira vez na década de 20, na Alemanha. Também se baseia na epidemia que ocorreu em Papua, na Nova Guiné, nas décadas de 50 e 60 entre pessoas que faziam parte de tribos que realizavam rituais antropofágicos. Durante os rituais de passagem, essas tribos se alimentavam do cérebro do familiar morto, e o que se sabe é que esta doença é transmitida pelos príons através da ingestão da carne contaminada, que são agentes infeccioso que não virais, nem bacterianos ou fungicos, portanto não conseguem ser combatidos, sendo letal para o indivíduo ou animal que o contrair. Por isso a ocorrência da epidemia em Papua. Posteriormente, descobriu-se uma variação moderna da doença em animais, a popularmente conhecida Doença da Vaca Louca.

Os sintomas são a perda de memória, tremores e demência, e se manifestam geralmente a partir dos 40 ou 50 anos de idade nas pessoas contaminadas, em sua maioria mulheres. No filme os personagens acreditam que esses sintomas sejam um reflexo da falta de fé e uma manifestação divina de que é o momento de ser realizado o ritual. As irmãs Iris e Rose não possuem a doença manifestada, portanto se questionam se o ritual realmente é necessário, e esse questionamento as colocarão em conflito com seu pai, que já está com a doença desenvolvida e todos os sintomas latentes, mas como ele não sabe disso, acredita que seja uma punição divina.

Foi uma sacada até interessante utilizar uma base científica e um fato histórico para dar profundidade a um filme de horror, ousado até, mas o momento da revelação de tudo isso é um momento tão breve e rápido que ele não apenas aparenta ser fictício como uma justificativa banal para quem não souber da existência da doença ou não pesquisar a veracidade das informações. A falta de uma explicação mais didática e condensada deixa a história superficial, e que a antropofagia pela antropofagia acaba sendo simplesmente para o bem do horror sanguinário da história e para justificar uma psicopatia latente. De qualquer forma, não é um filme de horror para qualquer um, mas impacta e até consegue construir uma atmosfera um tanto sombria.


CONCLUSÃO...
O final do filme chega a ser chocante e um tanto desnecessário, mas conclui a moral do título. Mas não chega a ser algo muito relevante no gênero, apenas um diferencial para satisfazer unicmanete os verdadeiros fãs do gênero.
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