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sábado, 9 de janeiro de 2016

TIME QUE GANHA NÃO SE MEXE, MAS CANSA...

★★★★★☆☆☆☆☆
Título: Joy - O Nome do Sucesso (Joy)
Ano: 2015
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: David O. Russell
Elenco: Jennifer Lawrence, Bradley Cooper, Robert De Niro, Diane Ladd, Isabella Rossellini
País: Estados Unidos
Duração: 124 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Levemente baseado na história real de Joy Mangano, uma mulher que saiu da total miséria para se tornar uma empresária de sucesso.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando o diretor David O. Russel trabalhou com a atriz Jennifer Lawrence pela primeira vez, ela ainda não era uma estrela de primeira grandeza em Hollywood. Foi com seu filme, O Lado Bom Da Vida (Silver Linings Playbook, 2012), que ela foi catapultada para o sucesso, pois ele lhe rendeu uma segunda indicação ao Oscar que, consequentemente, veio a ser sua primeira estatueta com apenas 23 anos.

Claro que não foi unicamente isso. Lawrence já vinha caminhando em uma sucessão de boas escolhas, mas foi com Russell que ela se estabeleceu em definitivo, e o mesmo aconteceu com o ator Bradley Cooper.

Portanto, não é à toa que este é o terceiro filme em que Russell, Lawrence e Cooper trabalham juntos novamente (e o quarto em que Lawrence e Cooper atuam juntos). Tudo isso porque, da mesma forma como foi em Trapaça (American Hustle, 2013), o filme anterior do trio, aqui vale novamente a máxima que "time que ganha não se mexe".

Russel está tão seguro disso que a fórmula já está ficando óbvia e cansada, mas ele ainda não percebeu.

Dessa vez ele contará a história de Joy (Jennifer Lawrence), uma jovem que praticamente carrega toda a responsabilidade de sua família e de sua casa hipotecada nas próprias costas (Lawrence fez algo parecido em Inverno D'Alma). Endividada e sem dinheiro para sequer pagar a conta de telefone, um dia ela acorda com a brilhante idéia de inventar um esfregão de chão após ter cortado sua mão com um copo quebrado na hora de limpar a sujeira. Com a ajuda de seu pai (Robert De Niro), de sua nova madrasta empresária (Isabella Rossellini) e de sua irmã invejosa (Dascha Polanco), ela consegue um gordo financiamento para produzir o primeiro lote de sua invenção. Depois de tudo pronto, ela não consegue vender sequer um deles. E depois de uma cascata de desastres, infortúnios e humilhações, ela consegue convencer um diretor de uma empresa a colocar seu mais novo produto em um famoso programa de televendas. E é a partir daí que a história de superação e sucesso realmente começa.

A grosso modo a história parece simples demais ou sem grandes atrativos para um filme com um elenco que conta até mesmo com De Niro (a terceira parceria dos dois também). Só que Russell, tal qual os televendedores no próprio filme, sabe vender seu produto e agregar valor a ele com uma produção de época novamente classuda (mas não tão exuberante como seu filme anterior) e exageros fictícios na história para render cenas que apelam no sentimentalismo ou na motivação, fora o elenco já citado.

Então, no fim das contas, o que se tem é um filme (no mínimo) divertido e empolgante, e o resto é aceitável, porque é tudo muito correto como ele sabe que tem que ser, até nos erros.

Por conta disso, não deixa de ser apelativo, daqueles que pedem pelo amor de deus para receber indicações a prêmios, principalmente para Lawrence. Tanto é assim que ele é cheio de cenas solo da atriz, aquelas típicas cenas para se passar no telão do Oscar. Temos Lawrence chorando com convicção, Lawrence discutindo com ênfase, Lawrence se surpreendendo com emoção, Lawrence quebrando tudo no cenário em frente a filha, Lawrence virando o jogo e saindo de cena desfilando. Enfim, vários momentos que atiram para todo o lado para chamar a atenção de jurados pelo mundo. E essa obviedade na intenção incomoda muito porque tentam fazer disso algo mais interessante do que a própria história, a qual, por si só, é cheia de problemas de continuidade e personagens mal explorados ou desenvolvidos. Os eventos acontecem todos um em cima do outro, sem intervalos que representem transições temporais convincentes, além de conflitos entre personagens que são jogados aleatoriamente na história para acentuar curvas dramáticas.

Tudo isso é feito justamente para dar dinamismo e densidade em uma história que é fraca, mas que foi desenvolvida mesmo assim com o único intuito de manter Lawrence em evidência. Desnecessário, com certeza. Todos já sabemos que ela é talentosa porque é natural e espontânea. Há um momento no filme em que sua personagem se desmonta toda para aparecer no programa de televisão, e então ela justifica dizendo que é daquele jeito que ela é no dia comum: vestindo camisa, calça e cabelo amarrado de qualquer jeito. E na realidade, Lawrence é bem isso, sendo essa a razão de seus papéis terem sempre esse apelo mais despojado, de gente comum, e não algo estrategicamente montado, até mesmo quando tentam, como acontece aqui.

Não é ruim, mas também não consegue agregar alguma coisa porque só floreando muito para levar a história de uma mulher que inventou um esfregão de chão parecer algo interessante no cinema. O que paradoxalmente é até bastante engraçado porque, mesmo no desinteresse que o título ou tema possam despertar em um primeiro momento, ele consegue ser até melhor que o esperado. Só é inevitável notar tantos truques, exageros e situações marcadamente forçadas e previsíveis, um filme literalmente fabricado para atrair uma atenção fácil e garantir seu lugar nas premiações de alguma forma, principalmente em um ano bastante fraco como foi 2015.

CONCLUSÃO...
A empreitada de Russell para transformar o longa em mais um forçado show particular de Lawrence. O bom é que ela é tão espontânea que toda essa presunção acaba caindo por terra e fazendo o filme se transformar em algo bonitinho, motivador e aceitável. Com certeza a parceria de Lawrence com Cooper tem se tornado uma coisa meio Doris Day e Rock Hudson deste século, mas é necessário que Russell deixe de usar isso como uma fórmula fácil, caso contrário o resultado será sempre essa água com açúcar que virou.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

MARVEL NO ESPAÇO...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Guardiões da Galáxia (Guardians Of The Galaxy)
Ano: 2014
Gênero: Ação
Classificação: 12 anos
Direção: James Gunn
Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Lee Pace, Michael Rooker, Djimon Hounsou, Glenn Close, John C. Reilly, Benicio Del Toro, Bradley Cooper, Vin Diesel
País: Estados Unidos
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um grupo de criminosos espaciais devem trabalhar juntos para impedir um fanático vilão de destruir o universo.

O QUE TENHO A DIZER...
Se teve uma coisa que a Marvel aprendeu com alguns erros foi descobrir a fórmula correta para adaptar seus heróis e agradar todos os tipos de público, desde os fãs mais exigentes até aqueles que entram no cinema apenas pra comer pipoca e matar o tempo vago, seja criança ou não. A empresa, que já era uma gigante dos quadrinhos, transformou seu estúdio e produtora em um dos bens mais valiosos da indústria atualmente. Não é por menos. Seus filmes mais importantes, em um período de 15 anos, já arrecadaram uma soma que beira os 10 bilhões de dólares, uma marca que outros grandes estúdios não conseguiram alcançar nos últimos 20 anos, além de também deterem o terceiro lugar entre os mais rentáveis da história com Os Vingadores (The Avengers, 2012), um recorde que poderá ser superado com a(s) continuação(ões) seguinte(s).

O que aconteceu com Guardiões da Galáxia foi um fato curioso. Embora o buzz criado desde seu anúncio até o lançamento tenha sido muito grande e a estréia satisfatória por conta do massivo marketing típico com o recorde de mais de 4 mil salas de exibição, na segunda e terceira semanas ele caiu de posição, o que fez parecer que sua arrecadação não iria muito longe além de pagar seu orçamento de US$170 milhões. Porém as críticas favoráveis e o boca-a-boca foram mais fortes, e essa reunião inusitada de heróis disconexos atraiu a simpatia do público que injetou a nitroglicerina que faltava para o título retomar o primeiro lugar nas bilheterias que se manteve por quatro semanas. Um acontecimento raro. O filme surpreendentemente cresceu por si só e agora não apenas é considerado uma das melhores produções da Marvel como também uma das melhores adaptações já feitas, arrecadando quase US$800 milhões pelo mundo, um sucesso merecido que fez o diretor e roteirista James Gunn agradecer publicamente nas redes sociais o apoio e as críticas positivas recebidas, diretor muito pouco conhecido, que possuia nenhum título muito relevante até então.

Esse fato curioso já é seu mérito, e vale ser assistido por isso e também para entender como heróis não muito difundidos na cultura pop mundial conseguiram se engrandecer de tal forma a conquistar uma média de mais de 60 milhões de pessoas (fora aquelas que os conhecerão por home video). Conhecidos para quem devora quadrinhos, mas para os demais era como se fosse uma grande novidade.

A Marvel resolveu investir neste grupo para trazer ao seu universo uma saga espacial, talvez para reacender uma chama apagada desde os anos 90 e que foi reacesa com muito custo com a retomada da fraca primeira trilogia de Star Wars e o reboot de Star Trek, que era até o momento o dominante no gênero. Por conta disso não é à toa que há muitas similaridades entre Peter Quill e Hans Solo, Rocket e Groot com a dupla R2D2 e C3PO (ou até mesmo do próprio Groot com o peludo Chewbacca), e toda a ambientação ser muito característica da filosofia pluralista do universo Star Trek. 

Claro que a história vai ir e vir entre esses dois grandes clássicos e beber de suas fontes de maneira inesgotável, mas por incrível que pareça consegue soltar entre alguns momentos e outros uma certa originalidade por agregar a estas referências a atmosfera mais fantástica do mundo dos quadrinhos com vilões superpoderosos, artefatos ameaçadores e pessoas comuns que, para se redimirem de seus erros passados, se transformam em heróis.

O grupo não podia ser mais esquisito, e é formado pelo saqueador Peter Quill, um órfão roubado da Terra nos anos 80 e que levou consigo um walkman, a única memória de sua mãe, no qual ainda ouve insistentemente há 26 anos os mesmos clássicos pop gravados em um K7; a assassina Gamora, também órfã e adotada por Thanos, o soberano dos vilões; o criminoso Drax, que teve sua família assassinada e agora busca vingança; o guaxinim Rocket (muito bem dublado por Bradley Cooper), um caçador de recompensas que trabalha junto com seu amigo e parceiro Groot, um monstro planta e talvez único de sua espécie.

Pelo fato de todos terem em comum a perda de algo muito valioso de suas vidas e se identificarem com isso, na idéia da "união faz a força", eles se unem primeiramente para fugir de uma prisão de segurança máxima e acabam entrando de gaiato numa jornada espacial para evitar que um importante artefato capaz de destruir todo um universo caia nas mãos de Ronan, ou de Thanos.

Ao longo dos 120 minutos de filme os laços de amizade e a relação co-dependente que cada um cria sobre o outro vai parecer um pouco forçada e apressada demais, mas isso vai ser um mero detalhe frente ao grande épico espacial que é apresentado principalmente ao público infanto-juvenil. O planeta futurista, cheio de Lady Gagas, pessoas coloridas e tudo que se pode imaginar para se distanciarem o mais possível de qualquer referência terrestre infelizmente se perde no seu próprio exagero, principalmente pelo fato de grande parte do filme ser em computação gráfica, o que acaba enjoando com tanta imagem plástica e artificial, confusa em diversas sequências de ação ao ponto do espectador perder pontos de referência ou até mesmo o que de fato acontece.

A história é fraca e repetida, nada que qualquer outro filme de super heróis não tenha abordado antes, e o que ganha são mesmo os personagens e essa relação conflituosa como a de pessoas que falam diferentes línguas, mas se entendem de alguma forma. Nada muito ousado poderia ser esperado da Marvel, adquirida pela Disney em 2009 e que definitivamente limitou muito suas liberdades de criação para se adaptarem às filosofias infantis da marca do Mickey. Ao menos o que os diferencia de outros heróis é a natureza pouco correta de cada um e as piadas bem encaixadas que ainda não se sobrepõem aos clichés exagerados ou frases de impacto imediato, mas funcionam mesmo assim. Obviamente que o guaxinim e seu monstro amigo serão o núcleo cômico, como é a tendência de toda fábula que incrementa um filme que não é de animação. Previsível, mas que também não atrapalha por ser bem dosado. São outros detalhes que trazem graça a produção, como o hiper literal Dex, que grandalhão como é, tem pensamento profundos e frases bem elaboradas de vocabulário muito correto, ou até mesmo Peter Quill, o personagem central, cheio de piadas irônicas e metafóricas que levam os extraterrestres à loucura. Detalhes muito simples e funcionais para quebrar a seriedade de algumas sequências.

É a produtora dominando mais uma vez o cinema de ação fantástico, confortável numa fórmula que ainda funciona e tem seus atrativos, mas o susto tomado pela oscilação que o filme a princípio sofreu nas bilheterias antes de novamente alçar seu voo é um indício de que mais uma vez salvar o planeta ou o universo do mal não deve ser mais a única alternativa para se desenvolver uma história de heróis.

CONCLUSÃO...
É Marvel sendo Marvel e moldada pela Dis ney. Um filme basicamente de computação gráfica, que vale a pena pela relação disconexa de personagens com gritantes diferenças de personalidade e que desenvolvem uma relação interessante, mesmo que rápida demais e pouco convincente nas duas horas do novo épico espacial.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

TIME QUE GANHA NÃO SE MEXE...

★★★★★★★★☆☆
Título: Trapaça (American Hustle)
Ano: 2013
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: David O. Russel
Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Jeremy Renner, Robert De Niro
País: Estados Unidos
Duração: 138 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Irving e Sydney são um casal de trapaceiros forçados a ajudar o agente do FBI, Richie, a coletar provas contra o Prefeito e desarmar um esquema mafioso e de corrupção em cadeia.

O QUE TENHO A DIZER...
Onde ou quem é que tenha dito a David O. Russel que "time que está ganhando não se mexe", ele ouviu muito bem. Ele dirige e escreve este novo filme e, tal qual seu anterior, O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, 2012), volta a trabalhar com Bradley Cooper e Jennifer Lawrence, bem como a maioria dos demais atores que trabalharam com ele em filmes anteriores, com excessão de Jeremy Renner. Mas os movimentos que ele utilizou nesse tabuleiro de xadrez em Hollywood foi diferente. Embora novamente tenha pego os dois atores que ele ajudou a consagrar, aqui eles não atuam em parceria (aparecem juntos em apenas uma única cena muito breve), além de terem uma participação mais coadjuvante. Isso já torna o filme interessante, porque não abusa da exploração do sucesso de ambos. E mesmo atualmente sendo os atores mais requisitados, também optaram por um filme menor e papéis menores, mas nem por isso desinteressantes. Isso é muito relevante e mostra a maturidade de ambos. Bradley Cooper, mais experiente, já apresentava essa tendência quando começou a investir como produtor (aqui ele assina como co-produtor), e Jennifer vem sabendo escolher bem os papéis que caem em suas mãos (ou seu agente que é bom demais), e ela caiu nas graças do público e da crítica e se tornou a nova "Namoradinha da América".

A história deste filme nada tem a ver com o anterior, embora os personagens sejam tão problemáticos quanto (principalmente as personagens femininas), e não é uma história tão real como dizem no princípio, informação que virou moda hoje em dia até mesmo na ficção. A trama é apenas um esboço do esquema Árabe ocorrindo no final dos anos 70 e começo de 80, em que o FBI iniciou uma investigação pontual e depois a expandiu para incluir outros esquemas de corrupção. O roteiro do filme já estava pronto havia anos e ficou em oitavo lugar na Lista Negra de Hollywood no ano de 2010, que é uma lista divulgada todos os anos sobre os melhores roteiros que não foram produzidos.

Como é de costume nos filmes de Russel, o que manda não é o roteiro, ele é apenas uma linha guia. Quem manda são os atores e seus shows particulares, pois há muitos improvisos em ações e diálogos (mesmo assim o filme está presente na temporada de premiações na categoria Roteiro Original), o que, particularmente, faz dele algo muito mais interessante, pois foge de marcações e deixa os atores livres e ainda sim encarnados em seus personagens, demonstrando um outro domínio de técnica.

Falando em técnica, é um dos filmes tecnicamente perfeitos do ano, daqueles feitos realmente para serem enquadrados na temporada de premiações. Isso é bom porque é prazeroso ver tanta qualidade, mas ao mesmo tempo soa plástico demais por conta desse excesso de qualidade.

Russel novamente abusa da câmera na mão, mas seu esquema de direção firme, porém adaptável, faz todas as atuações - sem excessão - serem pontuais e muito bem colocadas em cena. É nítido como sua visão sobre o produto final era algo muito sólido porque o filme flui sem tropeços graças a seu roteiro, direção e principalmente pela edição, que se não fosse tão exata frente a tantas histórias e reviravoltas que acontecem facilmente teria tirado o filme do trilho. Não há engasgos ou momentos em que o espectador se sinta perdido na história frente a tantas tramas paralelas e tantos personagens com personalidades tão distintas e muito bem exploradas e desenvolvidas. Os improvisos, que são marcas do diretor, que já declarou que sua preocupação com os personagens é maior do que com seus diálogos, faz o filme fugir do que está originalmente descrito e previsto, tomando um rumo natural, como se os personagens criassem vida própria.

A trilha sonora original, assinada pelo sempre magnífico Danny Elfman, nunca é invasiva e sempre um grande complemento para todo o desenvolvimento, mas o que mais chama atenção, sem dúvida, é o desenho de produção. Belíssimo no figurino e cenários, reproduzido bem a década de 70 e o exagero estiloso da época. Ainda sobre o desenho de produção, não podemos evitar de perceber que em alguns momentos soa mais moderno e atual que a própria década reproduzida, até porque sabemos que a tecnologia cosmética e têxtil da época era muito diferente da utilizada hoje e no filme, algo que parece ser um pouco ignorado, o que resulta em um anacronismo sobre as diferenças de qualidade, cores e texturas que não atrapalha, mas frustra um pouco na tentativa de ser fidedigno.

As atuações são excelentes em todos os aspectos, mesmo quando há a esquisitice exagerada de Christian Bale em engordar absurdamente para o papel, uma atitude muito mais para chamar atenção sobre seu comprometimento do que um grande adicional ao personagem, porque era dispensável. Bale nunca foi um galã para ter que sofrer grandes transformações para dar mais foco a seu talento do que para uma beleza que ele nunca teve, mas ele aparenta gostar desses processos metamórficos, já que é o terceiro filme com Russel que ele se propõe a isso. Mas com excessão dessas decisões dispensáveis e particulares do ator, sua performance é notável, e seu personagem, tal qual é dito até mesmo no filme, consegue atrair a simpatia mesmo sendo esquisito e às vezes asqueroso, justamente por ser um homem sensível e inteligente. Mas sem dúvida quem rouba toda e qualquer cena é Amy Adams, que nunca peca pelo excesso. Sua personagem começa o filme fraca, apenas chamando atenção por ser belíssima, envolvente e bastante sexualizada, mas conforme o filme desenvolve notamos que ela é composta de várias camadas, e que, no fundo, ela tem mais profundidade do que aparenta, além de ser uma mulher frustrada por nunca ter sido realmente amada e valorizada pela sua essência e capacidade. O desenvolvimento da sua personagem é tão brilhante que em determinadas cenas Amy consegue transpor todas essas frustrações, anseios e até poucas felicidades e prazeres de uma única vez, o que deixa evidente em como sua personagem é complexa, com um misto de emoções e sensações que a perturbam. Não é à toa que, juntamente com Cate Blanchett ou Kate Winslet, ela também é considerada por alguns como uma nova Meryl Streep (esta será sua quinta indicação ao Oscar).

Agora, muito tem se falado sobre a atuação de Jennifer Lawrence, mas particularmente acredito que seja mais uma superestimação por conta de sua grande exposição do que uma personagem realmente marcante. Todos já sabemos que ela é talentosa, mas os surtos dramáticos em cena não são muito diferentes do que os mostrados em O Lado Bom da Vida, algo que futuramente deixará de ser convincente pra ser um vício de interpretação, caso ela se acomode nesse exagero. Há poucos momentos em que sua personagem é dominante, e são momentos típicos e clichés para serem apresentados no telão do Oscar quando seu nome for bradado entre os indicados. Há até um beijo na boca de Amy Adams, que pode soar irônico e até engraçado, mas um tanto fora de contexto. De qualquer forma, a personagem é tão complexa quanto a de Amy (ou talvez até muito parecida), mas é tão coadjuvante que se fosse dispensada não atrapalharia a trama, ela só existe para dar uma profundidade dramática maior aos conflitos do personagem de Christian Bale, como se os que ele já possui não fossem bastante. Ela venceu prêmios importantes na categoria Atriz Coadjuvante, e tem grandes chances de novamente receber o Oscar pela sua atuação, mesmo porque esta categoria não esteja muito bem servida este ano.

É um filme longo (mais de duas horas) e que demora pra engatar na trama propriamente dita, uma primeira parte para apresentar e se aprofundar nos personagens e uma segunda para chegar na trama principal de fato, mas tudo é tão bem construido e costurado que essa divisão parece até muito simplópria no meio de tanta qualidade, além de tudo ser muito bem escrito e detalhado, ninguém precisa se esforçar pra entender o que acontece na trama principal ou entre os personagens, algo raro em filmes comerciais com tendência a aparentarem complexos demais só para enganar bobo.

CONCLUSÃO...
Como um todo, Trapaça é um filme sólido e respeitável, com qualidades técnicas que chegam a ser deslumbrantes e uma trama que envolve vagarosamente e surpreende, mesmo que sua conclusão já seja previsível. Merece figurar entre os melhores do ano e entre as listas da temporada de premiações, deverá ganhar em algumas categorias principais, mas não podemos ignorar também o fato de que o cinema de Hollywood anda cada ano mais fraco e sem grandes surpresas, por isso que a atenção e superestimação a poucos títulos aconteçam.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

PARA CADA FRASCO DE REMÉDIO HÁ UMA TAMPA...

★★★★★★★★☆☆
Título: O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook)
Ano: 2012
Gênero: Drama, Romance, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: David O. Russel
Elenco: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Jacki Weaver, Julia Stiles
País: Estados Unidos
Duração: 122 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um homem que sofre de bipolaridade acaba de sair de uma clínica psicoterápica depois de 8 meses em reclusão judicial. Ele acredita estar apto para se reintegrar à sociedade e provar à sua ex-mulher de que eles ainda podem retomar o casamento de onde parou. Mas ele conhece uma jovem depressiva que passa a mostrar as coisas sobre outros pontos de vista e por um lado bom da vida que ele não imaginava existir.

O QUE TENHO A DIZER...
Filme dirigido e escrito por David O. Russel, o mesmo de Três Reis (Three Kings, 1999), A Vida É Uma Comédia (I Hurt Huckabees, 2004) e O Vencedor (The Fighter, 2010). É uma adaptação do livro homônimo de Matthew Quick. Além disso, também é o segundo filme produzido pelo ator Bradley Cooper, que mais uma vez acerta a mão nessa comédia romântica inusitada tanto quanto ele acertou com o thriller Sem Limites (Limitless, 2011).

Raramente somos agraciados com um diferencial em um gênero tão batido. A história começa com a saída do personagem Pat Soletano (Bradley Cooper) de uma clínica psicoterápica após 8 meses de tratamento por conta de um repente violento que ele teve após encontrar sua mulher com o amante, tudo levado por conta da condição bipolar que ele até então desconhecia. Ele acredita estar reabilitado e pronto tanto para a reintegração social quanto para perdoar sua mulher e retomar o casamento, caso não houvesse uma restrição judicial que o impeça de se aproximar dela por menos de 150m. É quando ele conhece Tiffany (Jennifer Lawrence), uma garota que ficou viúva há pouco tempo e que sofre de depressão crônica. Ela é a única que pode se aproximar da ex-mulher de Pat, e ele se aproxima de Tiffany com o interesse de fazê-la entregar uma carta, porém a jovem só aceitará fazer este favor se ele também retornar alguns favores em troca, já que ela está apaixonada por ele e, de uma forma manipuladora, vai tentar conquistá-lo durante o processo.

Então conheçam Pat Soletano e Tiffany, dois personagens que não tem absolutamente nada em comum além de sofrerem de disturbios psiquiátricos. Um tem repentes violentos e de raiva, enquanto a outra tem repentes de tristeza, angústia e incompreensão. Juntos eles poderiam formar o casal que menos daria certo, mas são exatamente seus problemas e dificuldades que os aproximam, criando uma linguagem entre eles que funciona.

É um filme que mistura diversos gêneros e consegue até fazer algumas referências bem interessantes às comédias românticas antigas. Tem sido bastante elogiado e com razão, pois realmente consegue dar um certo ar de novidade e até ser genuído em determinados momentos. O filme começa como um drama, lembrando um pouco O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married, 2008) por conta da situação perturbada do personagem e do clima de dúvida de um passado que desconhecemos, bem como o uso constante da câmera na mão na tentativa de aumentar a sensação de proximidade e intimidade entre o espectador e o filme. Vagarosamente ele se apresentar mais leve e sutilmente engraçado, construindo um tom de comédia em cima das situações constrangedoras que os personagens se colocam e nos absurdos que desarrolam naturalmente. O ato final do filme é a comédia romântica propriamente dita, com direito a todos os clichés que foram evitados durante mais de uma hora.

Mas nada disso se destoa ou incomoda, pelo contrário, o roteiro não deixa o filme cair em deslizes ou degraus muito altos entre um estilo e outro, e tudo funciona como se deve. Até mesmo a câmera suspensa manualmente também não chega a ser inconveniente, pois o diretor parece ter tomado cuidado nos exageros comuns de diretores que optam por esse estilo de filmagem que já se tornou antiquado nos últimos anos pelo excesso de produções que utilizaram esta técnica.

O filme foi indicado a 8 Oscars: Direção, Filme, Ator, Atriz, Ator Coadjuvante, Atriz Coadjuvante, Roteiro Adaptado e Edição (eu tenho lá minhas dúvidas sobre o valor dessa categoria no filme). As sete primeiras categorias são as principais e raramente um filme consegue esse feito, embora seja difícil que ele vença em um ano bem concorrido. As atuações também são os grandes pontos positivos de todo o elenco. Todos tem seu momento de importância e sempre são muito bem colocados em cena e nas situações, dando oportunidade a todos sem ninguém ofuscar o outro com o brilho. Bradley Cooper não apenas tem desmonstrado seus talentos como empreendedor (ele tem recebido dezenas de propostas e sabido escolher a dedo seus filmes) como também um ator versátil que sabe se adequar em filmes menores e mais complexos e também enfatizar sua panca de galã em filmes maiores e mais populares. Jennifer Lawrence brilha e rouba a maioria das cenas em uma personagem também psicologicamente difícil, mantendo um platô entre não aparentar ser depressiva demais e transformar o filme em um drama, e não ridicularizar demais para não forçar situações engraçadas que facilmente cairiam no ridículo. Robert De Niro obviamente está em uma performance que há tempos não se via, com direito até a lágrimas sinceras de um lado dramático que raramente se viu nos papéis do ator. Jacki Weaver, no papel da mãe que está a todo o tempo segurando as pontas por todos os lados, sempre com o semblante carregado de que a qualquer momento qualquer deslize pode por tudo água a baixo, está fenomenal.

Para o filme, cada frasco de remédio tem sua tampa, já que é uma história que a todo momento faz alusão ao ditado de que para todo caldeirão há uma tampa. É o ser humano precisando de pouco, tanto para se desmanchar em pedaços que se perdem e deixam buracos, quanto para se restabelecer substituindo as peças perdidas por outras que, podem não combinar, mas se encaixam.
Mas no meio de tantas qualidades é uma pena que o continuísta desse longa seja tão ruim, tanto que cada vez que Jennifer Lawrence é focalizada numa mesma sequência, ela está com o cabelo diferente, talvez os momentos de maior piada de todo filme.

CONCLUSÃO...
Faz jus a todos os comentários positivos que vem recebendo e definitivamente é um diferencial no gênero nos últimos anos. Não é uma comédia romântica na sua excelência, mas consegue se fazer genuíno na dramédia romântica construída, já que o filme também possui pitadas dramáticas bem grandes. Para aqueles que esperam algo mais engraçado em um estilo Judd Apatow de se fazer comédia, estará redondamente enganado, mas com certeza, depois de um certo tempo, se deixará levar por um dos casais mais estranhos que o cinema não apenas conseguiu juntar, mas também colocar nos eixos.
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