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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

ADORAMOS VÊ-LO FUGIR. SEMPRE!

★★★★★★★☆☆☆
Título: Jason Bourne
Ano: 2016
Gênero: Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Paul Greengrass
Elenco: Matt Damon, Tommy Lee Jones, Alicia Vikander, Vincent Cassell, Julia Stiles
País: Reino Unido, China, Estados Unidos
Duração: 123 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Bourne está fora dos radares da CIA, até uma antiga agente desligada interceptá-lo com novas informações sobre seu passado.

O QUE TENHO A DIZER...
Uma coisa é fato, e indíscutível: Se não fosse Jason Bourne, os filmes de 007 não estariam tão bons. Jason Stathan não teria virado referência no gênero e Matt Damon seria apenas um ganhador de Oscar que continuou fazendo dramas medianos.

Acredite, a Trilogia Bourne original foi revolucionária no cinema de ação atual e o seu formato impactou diretamente a forma de se fazer filmes do gênero em Hollywood, a começar pelo dinamismo na edição e a câmera mais livre que Paul Greengrass adicionou a partir do segundo filme (já que o primeiro foi dirigido por Doug Liman), e isso deu a sensação de o espectador ser um grande observador ativo em toda a história.

Apenas a Trilogia Bourne arrecadou quase US$2 bilhões pelo mundo (somando bilheteria e home vídeo), além de respeitosamente figurar entre os 100 melhores filmes de ação da história. Mas as pessoas devem saber que foi gradual, e o sucesso do herói só foi tomar proporções mundiais de fato no terceiro filme.

Como dito, Bourne foi um divisor de águas no cinema de ação, e o que Tony Gilroy e Paul Greengrass fizeram, se tornou referência.

A trilogia foi baseada em uma série de livros de Robert Ludlum, uma série que foi continuada pelo escritor Eric Van Lustbader após a morte do colega em 2002. Depois do terceiro filme, Greengrass afirmou que não voltaria à franquia, tanto que, quando soube que haveria uma continuação com Jeremy Renner (que não teria Damon, mas aconteceria no mesmo universo), o diretor bricou, entitulando o filme como "A Redundância Bourne".

Mesmo sendo escrito e dirigido por Tony Gilroy, roteirista e produtor da trilogia original, O Legado Bourne (The Bourne Legacy, 2012) não causou o mesmo impacto principalmente porque seguiu uma estética muito similar ao primeiro filme, dando aquele ar de deja vu no decorrer da trama. Mas de qualquer forma, Renner deu ao personagem Aaron Cross possibilidades para crescer. E o fato de terem continuado a trama por outro ponto de vista apenas reinterou a informação dos filmes anteriores de que Jason Bourne nunca foi o único, expandindo o universo para novas possibilidades.

Questionado frequentemente se voltaria ao papel, ou se haveria possibilidade de um encontro entre Jason Bourne e Aaron Cross em algum ponto da franquia, Matt Damon sempre afirmou que só voltaria se Paul Greengrass dirigisse o projeto. E assim foi. Greengrass, que outrora zombou de continuações, voltou ao projeto e Damon também. Se foi excepcionalmente pelo dinheiro, não se sabe, o que sabemos é que a parceria funciona, e que Damon realmente gosta de Bourne.

O filme começa com Nicky Parsons (Julia Stiles, a mesma da trilogia original) já desligada da CIA e hackeando a agência para obter documentos dos programas secretos de segurança do Governo, já que está intencionada a expô-los publicamente, no qual incluem os projetos Treadstone, Emerald Lake, Rubicon, Spearfish, LARX, Outcome, Hourglass, Spectrum, Blackbriar e Iron Hand, dos quais alguns já foram mencionados nos filmes anteriores. Bourne foi um dos primeiros no projeto Treadstone, e Nicky a responsável por alertá-lo de que ele não era o único, e que havia outros projetos além do que ele participou (é daí que surge o personagem Aaron Cross, que fez parte do projeto Outcome, explorado em O Legado Bourne).

Óbvio que, sem saber, ela será rastreada durante o hackeamento, indo atrás de Bourne para ajudá-la a revelar as informações. Bourne, que estava desaparecido dos radares desde os acontecimentos do último filme da trilogia original, novamente se torna alvo da CIA juntamente com Nicky, e a partir daí começam as cenas de perseguição, fuga, combate e espionagem clássicas da série.

Algumas pequenas mudanças ocorreram. No lugar de Pamela Landy (Joan Allen), entrou Robert Dewey (Tommy Lee Jones) como novo diretor operacional da CIA, e a função de Nicky Parsons (Julia Stiles) agora é de Heather Lee (Alicia Vikander). A questão é que Heather é muito mais ambiciosa, e quer derrubar Dewey para inciar uma nova geração de operações na CIA.

É inegável que, apesar de o cenário ser sempre o mesmo e esta sequência nem ser uma das melhores da franquia, ainda consegue ser um excelente filme de ação. Por parte do enredo, é um dos mais fáceis dos quatro filmes, não há reviravoltas mirabolantes, pistas falsas ou excesso de informações sobre os programas secretos para ficarmos confusos. Nem diálogos há muito, sendo o filme em que Matt Damon menos fala nas mais de duas horas de duração, ganhando até mesmo de seu personagem em Perdido em Marte (The Martian, 2015).

Mas quem disse que Bourne precisa falar? Matt Damon sempre foi um ator mais expressivo do que performático, e ele fez disso a característica principal de Bourne, sendo o verdadeiro atrativo dos filmes, afora as cenas de ação que aqui podem não ter tanto quanto nos anteriores, se extendendo demais em perseguições de carro, mas que mantém o mesmo ritmo frenético de Greengrass. Portanto, tem festival de sobra para os fãs, e a qualidade sonora e visual é bem paga no alto orçamento de US$120 milhões.

As reviravoltas na trama são modestas, e o que fazem delas interessantes são os próprios atores. Tommy Lee Jones é sempre carrancudo, objetivo e determinado, algo que ele sempre foi e por isso se encaixa em papéis como esses, não sendo à toa que ele bata o recorde de personagens que sejam ou da CIA, ou do FBI. Em contraponto está Alicia Vikander, sempre na espreita, tentando manipular e chegar ao centro comendo pelas bordas. Sua personagem é uma das mais interessantes da franquia, justamente por Bourne nunca saber de que lado ela realmente se encontra, uma dúvida que ganha o espectador ao também deixá-lo na mesma situação, o que é algo difícil de acontecer. Tanto que o filme rende um dos melhores finais da franquia. Final simples, mas de uma engraçada e merecida frustração (e que não é do espectador), encerrando com chave de ouro essa história, mas deixando aberto para um provável futuro.

Jason Bourne é o filme mais fácil da série, na intenção de conquistar o público jovem que não o conheceu antes (já que existe um buraco de quase 10 anos entre o último filme e este), a geração Y que pouco se importa com o conteúdo. Entitulá-lo apenas com o nome do personagem dessa vez pode significar o recomeço que a franquia não conseguiu com O Legado Bourne, até mesmo porque o filme arrecadou mundialmente mais de US$412 milhões, o que já garante sua continuação e mostra que o personagem ainda tem fôlego para sobreviver, mesmo depois de tanto tempo. E não há como se discutir: todos nós amamos Bourne, e adoramos vê-lo fugir sempre.

CONCLUSÃO...
Não é o filme mais forte da franquia, mas também não é descartável. Talvez seja a retomada da série. E que seja, Jason Bourne é o fugitivo que sempre iremos adorar ver.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

NÃO É O MELHOR EXEMPLO, MAS...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl)
Ano: 2015
Gênero: Drama, Biografia
Classificação: 14 anos
Direção: Tom Hooper
Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Amber Heard, Matthias Schoenaerts
País: Reino Unido, Estados Unidos, Belgica, Dinamarca, Alemanha
Duração: 119 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma história levemente baseado na biografia das artistas Lili Elbe e Gerda Gottlieb.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando um ator ou uma atriz recebe um Oscar, é de praxe Hollywood querer que isso se repita. Oferecem grandiosos papéis com este exclusivo intuito, nem que para isso seja necessário alterar completamente a História para adequá-la ao cinema e ao seu público. Assim a história se repete e estrelas são criadas, como aconteceu com Tom Hanks, Hilary Swank, Charlize Theron, Cate Blanchett, dentre outros. Hollywood também adora exageros em seus atores para intensificar tons dramáticos e impressionar o público, tanto que, dentre esses atores e atrizes citados, todos eles receberam seus prêmios e indicações por transformações físicas drásticas em filmes biográficos.

Eddie Redmayne também se encaixa nesse grupo, e é exatamente isso que volta a acontecer com ele nesse filme depois de ganhar o Oscar ano passado por A Teoria de Tudo (The Theory Of Everything, 2014).

A história contará a vida de Einar Wegener (Eddie Redmayne) e sua mulher, Gerda Gottlieb (Alicia Vikander), dois artistas do início do século XX, casados e apaixonados. Einar foi famoso por suas naturezas mortas, e Gerda por suas pinturas eróticas (que vieram a ser chamadas de lesbian art) cuja modelo em tela era a versão feminilizada de seu próprio marido, que posava em roupas femininas e, fascinado na possibilidade de exteriorizar essa personalidade, adotou publicamente o nome de Lili Elbe, aos poucos apagando sua persona masculina, o verdadeiro alter ego.

Mas se engana quem acreditar que a vida de Einar e seu conflito de gênero foi bastante superficial e tão simples como uma escolha qualquer, ou algo que tenha sido motivado por sua esposa, como o filme até chega a fazer o espectador acreditar em um primeiro momento. Assim como o próprio filme felizmente desmistifica (mesmo que demore um pouco), a vida de um transgênero já é confusa a partir do momento em que ele passa a ter consciência de seu próprio corpo, entre a fase final da infância e início da adolescência, já que ele não consegue compreender porque o seu sexo é diferente de sua personalidade e vontades.

E vale dizer aqui que gênero e orientação sexual são coisas diferentes. Gênero é ser homem ou mulher, e orientação sexual é ser homo, hetero ou bissexual. Mesmo sendo um transgênero feminino, não necessariamente precisa gostar de homens, por exemplo. Portanto, sobre a orientação sexual de Einer, a história não dá nenhuma certeza.

Embora essa cinebiografia crie algo bastante romantizado e fictício, incluindo até um terceiro personagem vivido pelo belga Matthias Schoenaerts, que não existiu na realidade e está presente apenas para justificar um pseudo-triângulo amoroso, não se sabe ao certo se na realidade Einer e Gerda eram apenas amigos e mantinham um casamento de aparências ou se realmente eram apaixonados, bem como não se sabe se Gerda era lésbica ou bissexual. Mesmo que tudo isso seja invenção do roteiro, o sofrimento dos personagens consegue ser bastante convincente e próximo daquele relatado por transgêneros e pessoas próximas.

O roteiro em si já é bem diferente do livro homônimo em que é baseado, e o livro também já é muito diferente daquilo que se sabe através dos relatos contidos na autobiografia de Lili no livro Man Into Woman, publicado postumamente em 1933. 

Lili é conhecida historicamente como um dos primeiros transgêneros femininos de conhecimento público, pioneira na cirurgia de redesignação sexual que se tem registro clínico. Porém a realidade do procedimento é bastante diferente do que o filme mostra.

O filme não detalha a complexidade da cirurgia e nem ao menos a considera uma cobaia, como realmente foi. O procedimento teria quatro etapas (e não apenas duas), em um período de dois anos. Dentre essas cirurgias havia o transplante de ovários e útero, porque como era um procedimento ainda experimental, acreditava-se que era necessário uma total construção do órgão feminino interno e externo, o que a medicina posteriormente concluiu não ser necessário com seu avanço. Na última etapa, que consistia no transplante de útero e a construção da vagina, devido a rejeição do órgão transplantado e inúmeras infecções, Lili não sobreviveu ao pós-operatório e faleceu em 1931. Chega a ser cruel imaginar pelo que ela deve ter passado nas condições da medicina daquela época, ao mesmo tempo que isso demonstra como a rejeição dos transgêneros pelo seu próprio corpo faz dessa alternativa a única para se sentir uma pessoa completa, como Lili chega a dizer ao acordar da cirurgia.

Embora Einer tenha frequentado a sociedade como Lili, a qual se apresentava como irmã do pintor (e não como prima), a farsa não foi um segredo como o filme mostra, já que a sociedade descobriu a verdade algum tempo depois. É uma história triste que não tem o interesse em focar nas dificuldades sociais que Einar pode ter passado, mesmo havendo um momento bastante violento e duramente simbólico na discriminação que ainda é atual e igualmente desprezível.

O foco do filme, e que consegue fazer isso muito bem por boa parte da história e até com certo humor em alguns pontos, é mostrar o duro processo psicológico de aceitação do personagem e sua complicada peregrinação até encontrar um médico que compreendesse sua condição da forma como ele sentia. Difícil também é Gerda compreender tais mudanças e as diferenças de gênero que existe em uma época em que nada disso era comentado e estudado, além de ser considerado uma doença, um disturbio psiquiátrico de identidade, o que hoje não é mais aceito dessa forma.

Além do descompromisso com as biografias de ambas personagens, o filme sem dúvida peca na forma como a história é desenvolvida em um primeiro momento. Nem o diretor e nem a roteirista conseguiram ter a delicadeza, a sutileza necessária para conduzir o espectador nessa transição do personagem sem gerar curto circuito nos neurônios daqueles que pouco souberem sobre o assunto, podendo ser chocante e até fazer o espectador mal informado confundir a condição de Einer como um fetiche qualquer, uma doença, ou uma decisão momentânea. Demorar para revelar que Einer sempre se sentiu uma mulher soou como uma razão encaixada de última hora, posta para cobrir o buraco do fato e apertar o passo da história, relembrada a todo momento depois disso, mas que não consegue ser convincente ou esclarecedor porque a forma como foi feito antes não nos fez convencer. Toda a condição do personagem só irá fazer sentido para aqueles que tiverem conhecimento do que é um conflito de gênero de fato e como ele se manifesta.

As atuações de Redmayne e Vikander são emocionantes do início ao fim, mesmo que algumas vezes o excesso de sorrisos do ator para forçar a delicadeza do personagem fique um pouco cansativo e seu maneirismo um tanto caricato. Para a atriz sueca, que se destacou mundialmente com O Amante da Rainha (En Kongelig Affære, 2012) e participou do interessantíssimo Ex_Machina (2015), no qual faz uma interpretação até melhor, sem dúvida 2015 foi seu ano, mesmo que ela não ganhe o prêmio maior.

Claro que o fim não esquece de apelar para o sentimentalismo óbvio com o lenço de seda voando e uma frase pra lá de cliché para justificar uma cena já óbvia. Não é o melhor exemplo de um filme temático sobre a trangeneridade porque infelizmente falta uma história mais refinada, sem excessos que existem para compensar a complexidade e a difícil compreensão do tema. Mas assim como acontece em Transamérica (2005), consegue ser respeitoso, mesmo que grande parte seja ficção.

CONCLUSÃO...
Apesar de ser bastante fictício e romantizado, consegue ser um filme com uma intenção válida dentro desse tema complexo. Mas ainda está longe de ser um grande exemplo.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O DIFERENCIAL QUE FALTAVA...

★★★★★★★★
Título: O Agente da U.N.C.L.E. (The Man From U.N.C.L.E.)
Ano: 2015
Gênero: Ação, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Guy Ritchie
Elenco: Henry Cavil, Armie Hammer, Alicia Vikander, Elizabeth Debicki, Hugh Grant
País: Estados Unidos, Reino Unido
Duração: 116 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Dois agentes terão de se unir para proteger uma garota que é a única capaz de conseguir descobrir o paradeiro de um importante físico perseguido pelos nazistas.

O QUE TENHO A DIZER...
Esse filme é baseado numa série norteamericana que foi muito famosa dos anos 60, e que até chegou a passar no Brasil como se fossem filmes, mas não foi algo que se manteve vivo na memória popular. Teve quatro temporadas e contou com o auxílio de Ian Fleming na concepção, o pai de James Bond. Alguns creditam Fleming como um dos criadores, quando na verdade ele apenas concebeu um dos protagonistas, Napoleon Solo, o que não é muita surpresa já que ele não foge muito do estereótipo que Fleming criou com Bond, por isso que o personagem Illya acaba sendo até mais interessante com toda sua truculência russa no filme.

O filme é dirigido e escrito por Guy Ritchie, o famoso diretor britânico que deixou de ser conhecido por Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes para levar um tropeço assustador quando fez com sua ex-mulher, Madonna, o filme Destino Insólito (Swept Away, 2002), além do kabalístico Revolver (2005), que a crítica massacrou e virou do avesso. Aos poucos ele se recompôs, e só com Sherlock Holmes (2009) que ele conseguiu, finalmente, ufa, sair da sombra do revés e se reestabelecer por completo novamente, mas dessa vez como um diretor mais comercial e não underground, como ficou conhecido.

Ritchie nunca foi de grandes públicos, mas cultuado por ter uma linguagem violenta própria muito bem dosada de ironia e humor negro, com tema sempre voltado ao crime organizado e seus criminosos, algo que remete a um Tarantino britânico, mas sem querer sê-lo. Já chegou a ser taxado de machista por seus filmes serem focados apenas em personagens masculinos e com atitudes equivalentes, além da fama de homofóbico, que para quem assistiu seus filmes poderia facilmente acreditar no mesmo. Não é à toa que suas produções mais recentes possuem personagens femininas mais fortes e participativas.

Independente de todas as polêmicas que pairam sobre seu estilo de filmagem e narrativa, ele é competente e tem uma visão bastante sólida do que quer quando o projeto lhe interessa e não há influências muito externas atrapalhando seu processo, e parece que é o que acontece aqui, já que o resultado surpreende para aqueles que esperavam alguma coisa meramente encomendada.

Já é possível sentir o ambiente boêmio e requebrado de Ritchie na trilha sonora funk e no minimalismo gráfico da abertura que conta brevemente, através de imagens, o fim da Segunda Guerra e o início da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética que, obviamente, foi o grande tema central de toda a série. Mas no filme essa vai ser, a priori, a razão para que Solo (Henry Cavil) e Illya (Armie Hammer) se conheçam de maneira nada convencional e uma explicação até bastante interessante para a origem da dupla (que nunca foi contada na série), já que tanto a agência norteamericana, quanto a russa, estão atrás de uma mesma pessoa, uma mulher chamada Gaby (Alicia Vikander), a única que pode levá-los ao paradeiro de seu pai que possui dados para a construção de uma bomba nuclear e que alguns nazistas estão atrás.

Assim que o filme começa de fato, a imagem com cores saturadas ajuda bastante na ambientação 60tista da história. Realmente parece que o filme tem uma certa idade, e esse cuidado do design artístico na pós produção faz toda a diferença. Mas assim como ele fez em Sherlock Holmes, no qual teve o mesmo cuidado na reprodução do século XIX, ele não abre mão do estilo de filmagem mais moderno e da narrativa ágil. Essa contradição que pode até dar certo anacronismo a tudo, acaba divertindo mais ainda porque tira o excesso de seriedade, e esse é um dos principais elementos de humor indiretos de Ritchie e que tanto funciona. A edição também é um elemento muito forte em seus filmes. O excesso de recortes, ao invés de atrapalhar, oferece dinamismo de forma ilustrativa, como uma novela gráfica em movimento. Ele sempre foi assim, e visualmente falando é muito interessante porque, como Tarantino, ele também tem uma linguagem pop muito presente, influenciada por diversas mídias criativas, a diferença é que sua mão é mais pesada e atual ao invés de ser nostálgica e tão referencial como Tarantino.

Por isso que, por muitas vezes, é impossível não compará-lo com Tarantino porque tudo é muito bem acabado, principalmente na sincronia entre imagem e trilha sonora, como na sequência em que Solo está numa sala de tortura. O sadismo do vilão juntamente com a ambientação sonora de Daniel Pemberton chega a causar o mesmo impacto da sequência entre Bridget e Landa, na já antológica cena em que ele descobre as verdadeiras intenções da atriz em Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds, 2009). Só que Ritchie embute o humor ao invés de um crescente assustador, quebrando a seriedade sem estragar o desenvolvimento. E é dessa forma que ele conduz tudo do início ao fim, em um grande e estiloso entretenimento sem nunca precisar apelar para o desnecessário.

As piadas são sempre muito pontuais e inteligentes, principalmente na rivalidade entre Solo e Illya, que tenta ser uma metáfora e ao mesmo tempo uma crítica saudável da relação entre EUA e Rússia daquele período, oferecendo momentos genuinamente engraçados como quando precisam cortar uma cerca para invadir uma área restrita. Mas nada chega a ser tão surreal e engraçado como a fuga dos dois, em que Solo literalmente come um lanche enquanto observa Illya resolvendo as coisas na sua forma sempre menos prática, e lógico, a trilha sonora ao fundo dando o tempero especial e até pseudo-romântico. Talvez uma piada interna que tenha surgido enquanto escreviam o roteiro, mas que funcionou e se transformou em algo impagável.

Foge da ação comum que encheu os cinemas esse ano, com um grande diferencial de ser também um filme de época, talvez para exatamente não se misturar com tantos filmes de espionagem com ação e pancadaria como a série Bourne, Missão Impossível ou até mesmo seu quase parente próximo, 007. Consegue ser diferente, um alívio no meio de tanta explosão e perseguição sem fundamento em histórias sem sentido. Lógico que, ainda sim, é um filme de ação com uma história que não pode ser séria demais, mas tem referências, tem metáforas, humor, ritmo, desenvolvimento, personagens carismáticos, um elenco agradável e o principal: roteiro enxuto.

Confesso que estava com certo receio por nada conhecer do material original, por medo de ser uma adaptação e por ter assistido filmes com Henry Cavil que realmente me deixaram constrangidos pela sua falta de talento. A surpresa foi boa, principalmente porque adoro ser surpreendido por algo que sempre espero o pior.

Por tantos elementos que dão certo, talvez este seja tecnicamente o melhor filme de Ritchie porque é ponderado e preciso, é o Ritchie mais maduro e certo do que quer, ao mesmo tempo que se diverte fazendo o que faz, porque é essa a impressão que se tem ao assistir. Uma pena ter ido mal de bilheteria, o que já podemos imaginar que não haverá continuações. Mas isso também não era uma grande surpresa, já que o público de cinema tem a tendência de torcer o nariz para adaptações de séries de televisão que um dia foram famosas, o que devemos combinar que, em sua grande maioria, são bastante ruins mesmo (para não dizer quase todas).

Mas seria interessante vê-los juntos novamente, pois é impressionante como Henry Cavil melhorou e sua química com Armie Hammer tenha funcionado, e Alicia Vikander tem um carisma bastante peculiar. É até estranho ver os três juntos, já que ela fica diminuta perto deles (que são muito altos), além da beleza dos dois tender a uma disputa de atenção, mas cada um deles tem seu espaço, com todas participações equilibradas, e nem há excesso de personagens, o que é ótimo. A mistura ficou bastante interessante e convincente, onde nenhum dos personagens consegue levar ninguém a sério, mas todos conseguem fazer tudo certo. E quando o filme acaba fica aquele gosto de querer uma continuação.

CONCLUSÃO...
Um diferencial nas recentes safras de filmes de ação e que consegue ser até um dos melhores do ano e também do diretor. Se de propósito ou não, Ritchie bebe demais de Tarantino dessa vez, mas longe de ser algo ruim, dessa forma conseguiu acertar fácil em um filme que poderia ter caído no ridículo como tantas outras adaptações para o cinema de seriados antigos que já foram famosos. Um filme que, mesmo sendo do diretor que é, consegue ser leve por conta do humor inteligente, e ao mesmo tempo não descaracteriza o tema, muito menos seu gênero.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

O PRIMEIRO GRANDE FILME DO ANO...

★★★★★★★★★☆
Título: Ex_Machina
Ano: 2015
Gênero: Drama, Suspense, Ficção
Classificação: 14 anos
Direção: Alex Garland
Elenco: Domhnal Gleeson, Oscar Isaac, Alicia Vikander
País: Reino Unido
Duração: 108 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um rapaz que irá participar de um fascinante e complexo experimento no qual deverá interagir com uma inteligência artificial em forma de uma mulher.

O QUE TENHO A DIZER...
Caleb (Domhnall Gleeson) é um programador que trabalha numa grande empresa chamada Blue Book, a maior e mais importante ferramenta de pesquisa existente, o equivalente ao Google ou Facebook. Ocorre um sorteio interno na empresa, cujo prêmio será passar uma semana com o todo poderoso Nathan (Oscar Isaac), o gênio recluso por trás da criação e do sucesso de toda a companhia.

A mansão subterrânea de Nathan é também seu escritório de trabalho, por onde monitora meticulosamente todas as atividades da empresa e cada um da extensa lista de funcionários. É também seu laboratório particular de experimentos, criação e desenvolvimento de novas tecnologias. Bastante iluminada e automatizada, fria e sem qualquer personalidade, essa atmosfera pálida onde tudo é geometricamente definido muito se assemelha com a fotografia de A Pele Que Habito (La Piel Que Habito, 2011), de Pedro Almodóvar, cuja artificialidade gera um incômodo constante. É preciso permissão de acesso para qualquer parte do grande complexo que se molda perfeitamente dentro da própria natureza sólida e gélida onde está localizada. É como se Nathan não acreditasse no ser humano de alguma forma, mantendo distância por não saber se relacionar com ele.

Quando Caleb chega, Nathan até tenta tratá-lo com informalidade para "quebrar o gelo" do primeiro contato, mas a austeridade patronal e a frieza de tudo, inclusive dele mesmo, impedem uma aproximação mais calorosa e receptiva. Para piorar as coisas, Caleb é induzido a assinar um contrato de confidencialidade sobre tudo que ver, ouvir, ler ou acessar durante os sete dias que estiver hospedado lá. É então que ele descobre que sua função é participar de um experimento dentro do Teste de Turing, que é interagir com uma máquina e avaliar se ela realmente possui inteligência artificial ou não.

E então nos é apresentado Ava, uma fembot, ou seja, um robô com características e personalidade feminina que fala, ouve, vê, interage, dialoga, pensa e tem sentimentos. Ava é uma mistura de Andrew, de O Homem Bicentenário (1999), com Samantha, o sistema operacional de Ela (2013), de Spike Jonze. E ao mesmo tempo que ela tem a ingenuidade de David, de A.I. (2001), o sentimento de que a qualquer momento ela se volte contra alguém é inevitável, tal qual a atitude de Hal em 2001 (1968), de Kubrick.

Ava possui uma inteligência artificial fluida, responsiva, distinta e adaptável, "como se ela pensasse antes de dizer algo", como diz Caleb em um determinado momento. Isso acontece porque Nathan criou o cérebro artificial reunindo todas as informações de busca realizados na Blue Book, pois as ferramentas de busca são mapas de como as pessoas pensam. É como se Ava tivesse um Google dentro de sua cabeça, agindo de forma às vezes impulsiva, às vezes responsiva, imperfeita, padronizada e caótica, tal qual a forma como as pessoas fazem suas pesquisas. Ou seja, uma justificativa simples sobre a forma de Ava pensar, mas ao mesmo tempo sólida e absolutamente coerente com a nossa realidade.

Caleb fica fascinado com a criação de Nathan, o que é obviamente fascinante por si só tamanha a perfeição. Mesmo visualmente simples, todo o conjunto funciona. Os efeitos especiais que dão o visual tecnológico, mas ainda orgânico, nunca atrapalham essa simplicidade principalmente porque Alicia Vikander não atua com movimentos mecânicos ou clichés, como Schwarzenegger em Exterminador, mas limitadamente, num controle físico e expressivo surpreendente, como que movida a impulsos eletrônicos.

É impossível não se sentir atraído por Ava, tanto pelo que ela é quanto pelo que ela faz. Confinada em um quarto, limitada apenas àquele ambiente como um computador em uma mesa cuja função é estar sempre à disposição de seu usuário, ela tem um rosto, tem expressões faciais, vocais e corporais, e por isso conseguimos enxergá-la como uma pessoa, e nos sensibilizamos com as angustias das quais ela está programada a sentir, sendo a solidão a maior delas. Sim, nos sentirmos sensibilizados por ela nos dar essa sensação de que também fazemos parte do mesmo teste pelo qual Caleb passa, e isso é um dos elementos mais interessantes e também impressionantes do filme.

A trama toma outro rumo quando, durante uma queda de energia do complexo, seguros de que não estavam sendo observados, Ava pede a Caleb que não acredite em tudo que Nathan diz. A partir daí o protagonista deixa de ser uma peça passiva da história para definitivamente agir nela. Ele é tomado por paranóias, que se intensificam na medida que o sentimento de confinamento aumenta e a sensação de ser apenas mais uma peça do experimento fica cada vez mais evidente.

Dirigido e escrito por Alex Garland, o filme segue uma linearidade e uma coerência quase perfeitas. Garland já foi responsável pelo roteiro de três filmes do cineasta Danny Boyle: A Praia (The Beach, 2000), Extermínio (28 Days Later, 2002) e Sunshine (2007). Ex_Machina é o primeiro que dirige em sua carreira, e o faz muito bem, tanto que ele consegue esse raro fenômeno de manipular o espectador e literalmente enfiá-lo dentro da história como um diretor veterano poderia fazer.

Ao contrário da impressão que passa pela forma como foi promovido, como um thriller intenso sobre a relação homem/máquina, o que vemos de fato é um filme bastante equilibrado em todos os quesitos, que ao contrário de simplesmente contar uma história, ele dialoga com seu espectador e o insere na mesma situação que o protagonista se encontra. Garland primeiro nos apresenta os ambientes e os personagens, depois ele nos abraça de forma envolvente com a fluidez da trama, e apesar do final ser até previsível, não é previsível o caminho até ele. Acima de tudo é um filme humano dentro da frieza de seu contexto, que explora as essências mais complexas da solidão e da necessidade de afeto, como isso tem refletido no avanço tecnológico e como cada vez mais tentamos inserir essas necessidades naquilo que podemos utilizar no cotidiano, como uma forma de compensar a falta da proximidade e da relação humana.

É claro que cada um dos personagens irão nos surpreender em seus determinados momentos porque Garland desenvolve com clareza a personalidade de cada um, sendo compreensível o que cada um deles faz, e os motivos que os levam a agir de formas tão diferentes.

Por um lado há Caleb, um jovem extremamente ingênuo, bondoso e solitário. Por todas essas características que ele tem, ele é facilmente manipulável. Depois há Nathan, que tem um pensamento extremamente científico, que analisa e quer dados empíricos sobre aquilo que desenvolve, pouco se importando com os meios utilizados para o fim esperado. Se Ava é um robô ou não, se tem sentimentos ou não, ou se Caleb é um ser humano frágil, ele pouco se importa. O que Nathan quer saber é se o objetivo de transformar Ava no mais humano possível, ao ponto de nem mesmo um humano conseguir distinguir a diferença, foi alcançado. A verdade é que ele consegue atingir esse objetivo porque Caleb responde a Ava como se ela fosse realmente uma humana. Nós, espectadores, respondemos como se ela fosse humana. Até mesmo Nathan, em alguns breves momentos, mostra que isso atingiu ele próprio sem ele mesmo perceber. As breves reações de raiva ou impaciência de Nathan, ou a busca pelo afeto que ele demonstra em algumas partes (e que não cabe dizer em quais circunstâncias para não estragar as surpresas), já demonstram por si só que até mesmo ele se confunde com sua própria criação. E são nesses momentos que o Teste de Turing se comprova definitivamente positivo, já que uma das características para isso é a interação entre o homem e a máquina sem que o homem perceba isso.

Aí temos Ava, cujos sentimentos, sensações, frustrações, desejos, vontades, aspirações e demais sensações aleatórias, existem dentro dela. A forma dela de racioncinar é baseado unicamente como uma barra de pesquisa do Google. Ela raciocina em cima do raciocínio de pesquisa das pessoas. Então ela vive em um conflito constante sendo um robô, mas pensando como um humano; sendo um robô, mas tendo sentimentos; sendo robô, mas com vontades de descobrir o mundo, tal qual o mito da caverna, de Platão.

É necessário compreender que, apesar dos antagonismos levarem a história para um final um tanto óbvio, o importante é que não existem vilões na história. Não existe bem ou mal, porque existem três pessoas e três personalidades agindo não por instinto, mas em cima daquilo que elas acreditam. Caleb tenta proteger Ava a todo instante; para Nathan, Ava é apenas mais um produto em teste; Ava luta para sobreviver, tal qual um humano faria.

O desenvolvimento do filme fecha em um ciclo perfeito. A construção é lenta e prende a atenção porque queremos saber qual será seu fim. As referências, principalmente à mitologia Grega, como o de Prometheus e a mitos, como o já citado de Platão, são sutis, mas presentes de maneira pontuada e proposital. Não empolgará como um filme de ação ou um thriller intenso, mas ele nos leva a uma jornada de conhecimento que mostra que a própria evolução do ser humano é perigosa para ele mesmo.

Claro que não se pode deixar de notar uma certa metáfora existente sobre o controle de informação que a internet gerou e o poder que ela concentrou a algumas corporações. Se começarmos a associar o nível de informações que o Google ou o Facebook tem de todos seus usuários e as mudanças que ocorreram recentemente, como a forma como eles respondem e interagem às pesquisas de seus usuários sobre aquilo que buscam no cotidiano, isso tudo é apenas o princípio daquilo que é Ava propriamente dita. Então, de certa forma, os detentores dessas informações se transformaram nos novos exploradores de petróleo, como diz o próprio Nathan. Eles podem agir da forma que quiserem com você, e você irá interagir, irá acreditar e será manipulado por eles da mesma forma como os personagens neste filme manipulam e são manipulados.

O filme teve um orçamento de US$11 milhões. Por ter uma narrativa incomum ao gosto popular, até que tem se saído bem, arrecadando mais de US$19 milhões em seis semanas de exibição, com média 8 no IMDb baseado na avaliação de mais de 43 mil usuários cadastrados até o momento. Isso significa que a probabilidade de ele ser lembrado nas premiações será grande, porque sem dúvida é o primeiro grande filme do ano e figurará na lista dos melhores.

CONCLUSÃO...
O primeiro grande filme do ano. Com um desenvolvimento que se fecha em um ciclo perfeito. A atenção dada aos mínimos detalhes deste longa o transformaram em uma jornada fascinante e ao mesmo tempo assustadora sobre os avanços tecnológicos e quão longe pode ir o controle da informação, no qual estamos todos vulneráveis.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

UMA GRANDIOSA PARTE DA HISTÓRIA...

★★★★★★★★★☆
Título: O Amante da Rainha (En Kongelig Affære)
Ano: 2012
Gênero: Drama, História
Classificação: 14 anos
Direção: Nikolaj Arcel
Elenco: Alicia Vikander, Mads Mikkelsen, Mikkel Boa Folsgaard, Cyron Melville
País: Dinamarca, Suíça, República Tcheca
Duração: 137 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma passagem sobre a Dinamarca durante o Iluminismo no século XVIII e a influencia sofrida no reino pelo médico e pensador alemão Johann Friedrich Struensee.

O QUE TENHO A DIZER...
Esta pérola do cinema dinamarquês foi dirigida e escrita por Nikolaj Arcel. O roteiro, escrito em parceria com Rasmus Heisterberg, já estava em desenvolvimento desde 1999 e era para ser baseado na obra The Visit Of The Royal Physician, de Per Olov Enquit, que por sua vez é baseado nos eventos que aconteceram durante o período em que Friedrich Struensee fazia parte da corte dinamarquesa. Porém, os direitos de adaptação do livro já haviam sido vendidos há uma companhia que tentava há uma década adaptá-lo em inglês, sem sucesso. Esta companhia não quis vender os direitos a produtora Zantropa, que produziu este filme, e cujo um dos chefes é Lars Von Trier. As pesquisas continuaram e o filme foi, então, baseado no livro erótico Prinsesse Af Blodet, de Bodil Steensen-Leth, que conta a história a partir do ponto de vista da rainha Caroline Mathilde.

Embora a narrativa e as caracterizações ainda continuem fortemente baseadas no livro que era originalmente para ser adaptado, foi necessária diversas mudanças no roteiro e na construção da história para que a produção pudesse ter continuidade. Olov Enquit foi até mesmo consultado pessoalmente para que o diretor pudesse esclarecer o que era inventado e o que era baseado em pesquisas históricas ao ponto de uma pessoa ter sido contratada especificamente para comparar o roteiro com o livro de Enquit, página a página, para garantir que havia diferenças significativas e a produção não correr o risco de ser impedida caso fosse considerada uma adaptação não autorizada.

Mesmo com todas essas dificuldades sofridas durante a produção e a forma às vezes extremamente romântica e shakesperiana de como é mostrado o romance entre a rainha Caroline e o físico/médico/filósofo Struensee, não há como negar que o filme não apenas é belíssimo como também um grandioso drama histórico sobre um período pouco conhecido hoje em dia sobre aquele país durante o movimento iluminista ocorrido na Europa no século XVIII, e que, portanto, transformou a Dinamarca no último país Europeu a sofrer avanços sociais e políticas relevantes durante o reinado de Christian VII sob influência de Struensee.

A história do filme vai pegar o período em que Struensee, um físico/médico plebeu, é admitido como Médico da Coroa depois de ser influenciado por seus amigos igualmente iluministas de que essa seria uma grande oportunidade de conseguirem inserir (ou reinserir) seguidores desse movimento filosófico e político na nobreza. Com medo de perder sua soberania e domínio sobre os camponeses e de que os pensamentos e ideais contraditórios atingissem as fronteiras do país, a corte era tirana, governando através de imperativa autoridade através do medo e da censura. Proibia a circulação de textos e livros, e retaliava encontros entre intelectuais que pudessem trazer risco à confortável situação da nobreza, castigando, punindo, torturando e matando todos aqueles que se rebelassem ou divulgassem um pensamento contrário.

Struensee conseguiu mais do que aquilo que imaginava, e se tornou um grande aliado do rei Christian VII, pois foi o único que soube lidar com sua demência, e o rei, por sua vez, encontrou no médico um grande amigo e parceiro justamente por ser o único capaz de compreender seus delírios e tratá-lo não como um louco, mas como uma pessoa naturalmente excêntrica. As boas intenções do médico e a possibilidade de trazer mudanças ao país e ao povo, e a oportunidade de se tornarem uma grande referência no continente, fez com que Struensee bem utilizasse essa influência sobre o Rei para o bem da ideologia política e iluminista. Várias mudanças substanciais ocorreram durante esta influência, ao ponto do médico plebeu se transformar na autoridade máxima da corte quando o Rei resolveu dissolvê-la por completo após uma tentativa deportarem Struensee para a Alemanha, seu país natal, e nomeá-lo Ministro da Corte.

Na dificuldade de atacarem o agora Ministro, descobriu-se que o mesmo tinha um caso com a Rainha Caroline, que, segundo o filme, desprezava o Rei e era intolerante com ele pois desconhecia até onde sua demência e desvios comportamentais eram uma ameaça. Não apenas isso, Caroline ficou grávida de seu segundo filho, mas dessa vez de Struensee. Os ex membros da corte se aproveitaram dessa fraqueza e fizeram disso um grande escândalo que colocou o reino e sua população em polvorosa, e um golpe foi orquestrado para a queda do poder do médico filósofo sobre o reino.

Entre os fatos reais e fictícios, a distinção é clara para o bem do drama, da construção do roteiro e suas tramas, mas em nenhum momento eles se conflitam ao ponto de diminuir a grandiosidade de toda a história que mostra e pontua claramente as dificuldades e incertezas de um povo submisso e que vivia sob a sombra de incertezas.

Embora o título se refira ao romance Real, e seja essa a trama principal, as demais não são ofuscadas por isso, e há momentos de grande importância para cada tema abordado. Pelo mínimo que seja lido sobre este período já é possível verificar que o roteiro realmente se baseia em fatos sólidos e verídicos, construídos de forma cronológica e didática o suficiente, dando uma noção de passagem de tempo e mudanças convincentes e que raramente é visto com tanta eficácia e eficiência em filmes do gênero. Ao contrário de muitos filmes de temática histórica, este está longe de ser tedioso ou cansativo, mesmo tendo mais de duas horas de duração. As situações e fatos são tão bem definidos e construídos que seu desenvolvimento atrai o interesse do espectador pela História e nos insere dentro dela, como um observador vivo e presente, que vibra com os sucessos, anseia pelas mudanças e sofre com a falta de caráter dos outros tanto quanto os personagens principais. A idéia também desenvolvida pelo filme de que tudo pode ser contornado, resolvido e superado, como ocorre em vários momentos, faz o espectador torcer por um final feliz aos personagens, mesmo ele sabendo que na História as coisas não foram assim. Esse sentimento é graças ao tom fictício utilizado com sucesso dentro de tantos fatos verídicos. Portanto, brincar com a História de maneira séria ao ponto de conseguir fazer o espectador esperar que o fim seja diferente, é um sinal de que a proposta do cinema foi atingida, a de nos imergir em todo aquele mundo recriado. Mas apesar de todo o sofrimento e um final trágico a todos, sempre há alguma esperança para as mudanças e não há como não se emocionar com o epílogo e as tranformações positivas que o país sofreu por conta da grandiosa índole dos descendentes Reais.

A relação mostrada entre Struensee, Christian e Caroline e a relação de confiança e comprometimento entre eles não apenas é mostrada de forma muito bonita como motivadora, deixando de ser simplesmente uma traição amorosa oca e vulgar para se tornar algo verdadeiro e humano suficiente, um bem necessário para toda a maturidade ideológica. E como já dito, uma grande aula de história também, já que esclarece muito o que foi o Iluminismo e porque ele foi tão temido pela nobreza européia.

As atuações de um elenco desconhecido nas américas surpreende, e o desenho de produção igualmente. O filme foi bastante aclamado pela crítica e pelo público. Chegou a concorrer ao Oscar e ao Globo de Ouro em 2013 na categoria Filme Estrangeiro, perdendo para o francês Amor (Amour, 2012), mas foi um passo relevante e uma grande publicidade a uma produção que poderia facilmente ter sido ignorada, mas felizmente está acessível a todos.

CONCLUSÃO...
Um drama histórico surpreendente que cresce e insere o espectador na história como uma parte dela. Uma grande aula de história contada de forma até shakesperiana e que esclarece muito os ideais iluministas e uma parte da história da Dinamarca desconhecida por muita gente.
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