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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

ESTUPIDEZ SEM LIMITE...

Título: Esquadrão Suicida (Suicide Squad)
Ano: 2016
Gênero: Ação, Super Herói, Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: David Ayer
Elenco: Margot Robbie, Will Smith, Viola Davis, Jared Leto, Cara Delavigne
País: Estados Unidos
Duração: 125 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um grupo formado pelos maiores criminosos e psicóticos do país são recrutados secretamente para tentar impedir um desastre de proporções mundiais. 

O QUE TENHO A DIZER...
A Marvel criou no cinema uma fórmula que deu certo. E dentro de um planejamento de 10 anos, divididos em três fases, concretizou seu Universo Cinemático. Nada do que ela fez dentro desse período foi decidido da noite para o dia. Foi um planejamento de longa data, moldado e adaptado conforme o interesse do público e dos fãs, até encontrar seu tom. Tudo muito sutil, mas feito com cuidado e uma filosofia única em foco: lucrar respeitando o próprio legado.

Demorou para a DC/Warner resolver fazer o mesmo no cinema, já que nos video-games e na televisão, por exemplo, essa universo já existe e é sólido, como os jogos Injustice e DC Universe, e com seriados como Arrow, The Flash e Supergirl. A diferença é que a DC se atrasou demais no processo de expansão desse universo para o cinema, e por isso tem colocado os pés na frente das mãos. 

Mesmo Homem de Aço (Man Of Steel, 2013), de Zack Snyder, ter sido um fracasso de crítica, a Warner se aproveitou do razoável sucesso de público para tão logo divulgar sua continuação direta, e de última hora fazê-la o grito de largada do seu universo cinemático próprio. Os erros de Homem de Aço poderiam ter sido usados como experiências do que não devia ter sido feito em Batman vs. Superman, como manter Zack Snyder na direção, por exemplo. Mas ele não apenas foi mantido e cometeu os mesmos equívocos, como também irá dirigir A Liga da Justiça, o maior investimento do estúdio e a principal razão de existência de todo esse universo que ela tenta criar a tropeços e solavancos. Por isso que tem valido a máxima "errar uma vez é humano, contratar Zack Snyder de novo foi burrice, e mantê-lo será suicídio".

O prematuro Universo da DC no cinema tem sido marcado por decisões sem foco, levando essa investida da Warner a um caminho sem rumo, eira ou beira, restando a Esquadrão Suicida e ao aguardadíssimo filme solo de Mulher-Maravilha, a tentativa de capturar um novo fôlego e reacender o interesse de um público que já está desinteressado, mesmo que ainda preencha as salas de cinema por pura curiosidade e minguadas expectativas.

Nada seria mais interessante do que uma história em que grandes criminosos sejam recrutados para missões que heróis deveriam ser poupados. O nome da equipe não seria mais apropriado, e a DC a mais coerente a ter uma equipe assim, já que o selo é marcado por vilões cujas personalidades psicóticas tendem a ser muito mais interessantes do que a de seus heróis.

Aqui a história já entra na proposta do universo, com início a partir dos eventos de Batman vs. Superman, no qual Amanda Waller (Viola Davis) discursa sobre a vulnerabilidade de todos após a suposta morte de Superman. Com a ajuda de Batman e de meta-humanos, como The Flash, conseguiu capturar alguns dos maiores criminosos do país, pois pretende recrutá-los para um programa secreto de segurança do Governo, no qual ela é responsável.

Linear e apresentando brevemente a história de cada um dos recrutados, a introdução é um pouco longa e cansativa, e após isso um tanto repetitiva, já que por várias vezes temos que passar pelo ponto de vista de cada personagem sobre alguma determinada coisa no decorrer da trama. De qualquer forma, o filme acaba e continuamos sabendo nada muito relevante a respeito de ninguém. Ou seja, superficial, pois caso não fosse, estaria na memória.

Mas a impressão maior que se tem com Esquadrão é uma coisa meio óbvia: a de ter sido feita às pressas, assim como aconteceu com Lanterna Verde (Green Lantern, 2011). Sabe-se também que, depois das pesadas críticas negativas que Batman vs. Superman recebeu, o estúdio pressionou para que o filme fosse editado de forma a amenizar o tom violento e não sofrer com a classificação etária. Não é à toa que dezenas de cenas foram deletadas, e muito do palavriado jocoso que poderia ser usado para o bem do contexto dos personagens foi igualmente censurado pelo estúdio. É nessas horas que admiramos Deadpool (2016), sua violência explícita, a boca aberta do anti-herói e suas piadas sujas, outra lição que a Warner deveria ter aprendido, dessa vez, com a Marvel.

O didatismo simplista do roteiro chega a níveis abusivos porque a grande falha, como sempre, é amenizar a carga dramática e a personalidade violenta ou insana dos personagens, deixando tudo politicamente correto. No começo até tentam dar alguma densidade, só que sempre que alguma cena tenta ultrapassar o limite, ela é cortada abruptamente. O maníqueísmo simplista de Hollywood (bem como de boa parte da mídia de entretenimento) parte do princípio de que os espectadores não podem se identificar com vilões ou anti-heróis. Pelo ponto de vista religioso, isso induziria ao mal, já que o mal é relativo ao inferno, e o bem ao paraíso. Por isso que nenhum vilão é bem sucedido. Ou ele morre pelas mãos de um herói e vai para o inferno, ou tem que se redimir de suas atitudes diabólicas para subir aos céus. Essa é a justificativa para existir os momentos clichés de redenção dos vilões ou bandidos, pois assim os espectadores não se sentem culpados por se identificarem com eles, ou simplesmente os acharem mais interessantes do que os heróis ou mocinhos. Por isso que mostram Deadshot (Will Smith) pensar em sua filha constantemente, ou Diablo (Jay Hernandez) ser uma pessoa constantemente arrependida e Arlequina (Margot Robbie) sofrendo de amor como uma donzela virgem e solitária no alto de uma torre. Clichés da redenção para dar motivos fáceis aos espectadores de que o lado humano dos vilões é mais forte.

Esquadrão Suicida surgiu nos quadrinhos para justamente ir contra esse pensamento de que apenas heróis seriam capazes de realizar atitudes heroicas. Foi uma oportunidade que a DC encontrou de fazer com que seus vilões pudessem ser admirados como os heróis, mas sem nunca esquecermos de que eles não são pessoas de boa índole. Por isso, são obrigados a prestarem esses serviços, sofrendo constantemente ameaças e chantagens da impiedosa Amanda Waller. Essa justificativa é o que deixa evidente que, não importa o que façam, eles nunca serão bonzinhos.

Só que isso é algo que não vemos acontecer de fato nessa adaptação, e o resultado é um filme inerte, que falha em todos os aspectos possíveis, pisando em ovos para não ser chocante ou infantil demais, caindo numa cafonice intragável que sobrevive na gambiarra dos péssimos efeitos especiais e da trilha sonora para cobrir os buracos emotivos de cenas apáticas. Nota-se que os efeitos especiais não interagem de maneira convincente com as cenas, sendo tão ruins quanto a maquiagem de Crocodilo. Resultados da pressa, já que todo o processo demorou um ano, desde a pré até a pós produção. Um período de tempo muito curto para uma adaptação como essa ter qualidade.

Não é um filme divertido, sequer empolgante ou engraçado, sem ritmo ou coerência. Em nenhum momento oferece a sensação de que o grupo é formado por aqueles que deveriam estar entre os maiores vilões e criminosos do Universo DC. Ao invés disso, nos passa a impressão de que escolheram aleatoriamente um bando de ladrões de galinha que não terão a mínima idéia do que fazer em um campo de guerra. Então imagine como será quando descobrirem que terão de impedir uma entidade diabólica de destruir o planeta: "vamos explodir uma bomba", pensam eles. Porque é óbvio, é a solução mais prática.

David Ayer, diretor e roteirista, foi responsável por filmes como Corações de Ferro (Fury, 2015) e Marcados Para Morrer (End Of Watch, 2012), o primeiro sobre a Segunda Guerra, e o segundo sobre a violência nas ruas. Dois filmes que receberam críticas positivias, levando a perceber como ele está igualmente deslocado nessa empreitada. Esses personagens poderiam ter sido muito melhor aproveitados em tramas das quais Ayer já estivesse familiarizado, em coisas mais palpáveis até, e condizente com os talentos de cada um, como uma ação política, uma guerra iminente, ou simplesmente sendo obrigados a confrontar outros vilões de igual nível criminoso. Fiquei pensando como poderia ter sido interessante impedirem uma conspiração do Coringa, por exemplo, e como isso teria abalado a relação entre ele e Arlequina e as consequências disso, o que é sempre uma bomba prestes a ser detonada.

Mas não, preferiram dar uma missão fantástica e sobrenatural, como se eles fossem Os Vingadores. Percebe-se aí a intenção barata de atrair o público pelo exagero e não pela qualidade e coerência, errando feio mais uma vez.

É um filme sofrível que causa bocejos em cadeia no cinema. A falta de reação do público constrangia como um grande vazio durante os diálogos sofríveis. Há um momento em que um dos personagens repreende Arlequina, dizendo que ela sempre cria discussões no meio das conversas. Mas que conversas? Que discussões? Não havia tido nenhuma até então, principalmente ela. E por que não discussões? São todos vilões! Enfim, não há diálogo sequer para criar vículos entre eles ou com o público. O que se tem, do início ao fim, são  frases de efeitos para a câmera, como piadas prontas ou bordões. Imediatas como memes de internet que aguardam gargalhadas, mas nunca conseguem.

Deprimente querer transformar um personagem tão cruel como Crocodilo em um piadista estúpido, ou quase arrancarem uma lágrima de Deadshot quando este recebe a notícia que Arlequina morreu (e isso não é um spoiler). Inclusive, não consegui entender até o momento a razão de Will Smith no elenco. Assim como vi alguém dizer, parecia que estava lá para poder pagar o aluguel do mês.

E no meio de tanto desperdício, nem mesmo a caracterização dos atores se salva. Jared Leto ficou longe de conseguir criar uma caricatura mais atual e memorável do Coringa, ele estava mais para um personagem teatral que solta grunhidos estranhos do que para alguém mentalmente perturbado como foram as versões de Jack Nicholson e Heath Ledger. Leto não precisava ser tão exagerado no meio de tanta informação visual, e o resultado foi um bolo de noiva: decoradíssimo por fora, mas sem qualquer sabor ou conteúdo. Até porque sua participação no filme é infame, para não dizer "sem qualquer motivo" além de atrair público e mostrar seu vínculo com Arlequina, esta que, por sinal, poderia ter sido melhor aproveitada.

Margot Robbie tinha uma grande oportunidade de fazer com que a personagem fosse memorável, mas é desperdiçada não porque foi incompetente, mas porque o péssimo roteiro que não soube aproveitar seus potenciais. Quero dizer: ela é o grande destaque, mas isso só é possível porque os demais foram pessimamente desenvolvidos. O filme se preocupa muito mais com sua imagem sexista do que com aquilo que ela poderia oferecer de fato. Não é raro os momentos que aparecem os demais personagens masculinos perdendo o foco em suas curvas, e a câmera parece fazer o mesmo, perdida e sem saber onde ir toda vez que ela aparece. Excesso de planos fechados quando seria mais fácil vê-los aproveitarem melhor os cenários e terem espaço para o improviso e brincarem com suas caricaturas.

Arlequina é um tipo que leva desastres na brincadeira e brinca fazendo desastre. Em nenhum momento, por exemplo, vemos ela pulando e cantarolando enquanto esmaga cabeças com seu porrete e faz piada dos miolos que voam, já que seu nível de perversidade consegue ser maior que o de Coringa. A relação amorosa que criam entre os dois é tão púbere quanto aquelas que vemos em Malhação, enquanto nos quadrinhos é muito mais complexa, destrutiva e psicótica do que se imagina. Coringa faz dela gato e sapato. Arlequina, assim como o filme mostra, era uma psiquiatra que, de tão fascinada pela sua mente criminosa, apaixona-se por ele. De fato, ela elouquece de amor obsessivo enquanto Coringa se aproveita disso, manipulando-a como um brinquedo o tempo todo. Tanto que Arlequina é constantemente violentada por ele. Ela apanha, é humilhada, ameaçada e repudiada, mas continua junto, firme e forte, porque acredita que assim conseguirá receber a aprovação que tanto espera, ou que seja dessa forma como ele corresponde seu amor por ela.

Ao contrário dessa relação doentia, vemos um casal que escorre sacarina toda vez que aparece, dando azia até em Sonrisal quando demonstram suas loucuras de amor um pelo outro, rendendo várias cenas românticas com direito a música de fundo e tudo. Há uma cena sobre eles que só não foi mais ridícula porque tudo que podia ser feito para ela ser melodramática, foi feito. Aliás, amor aqui é justificativa para tudo. Todo mundo morre por amor, todo mundo mata por amor e todo mundo sofre de amor. E todo mundo é vilão por isso. Nada poderia ter sido mais simples e fácil, ou nada poderia ter sido tão pior do que Deadshot receber um abraço de felicidade. O que era pra ser engraçado, não foi. Foi imbecil.

Tudo é um erro fatal, que desperdiçou a possibilidade de ser o melhor filme de super heróis sem ser de heróis. Já que tinha intenções e foi promovido desde o princípio como algo despretencioso, ousado e diferente tal como foi Deadpool, na realidade conseguiu ser o pior de todos eles. Apelar para o humor barato e na amenização do tom fez aquilo que é o erro número um de adaptações: não ser fiel ao material original. David Ayer tinha mil caminhos a seguir para ser fiel sem sofrer o talhe da censura do estúdio. Sim, era possível o filme até manter um tom mais leve e humorado, mas não precisava ser estúpido e vazio. Ao invés disso, Ayer seguiu para um caminho mais fantástico para impressionar, dando para Esquadrão Suicida uma missão que caberia à Liga da Justiça.

CONCLUSÃO...
Aquele que poderia ter sido um dos melhores filmes do gênero, tanto quanto foi com Deadpool, consegue ser o pior de todos eles por justamente pegar personagens politicamente incorretos e darem a todos eles um gandre banho de moral. O resultado é um filme inerte e estúpido, que não consegue sequer fazer o mais simples: divertir.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

ERRA POR UM LADO, MAS ACERTA EM OUTROS...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Clube de Compra Dallas (Dallas Buyers Club)
Ano: 2013
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Jean-Marc Vallée
Elenco: Matthew McConaughey, Jared Leto, Jennifer Garner, Steve Zahn, Griffin Dunne
País: Estados Unidos
Duração: 117 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre a história verídica de Ron Woodroof, que sem querer foi um dos pioneiros no auxílio da pesquisa para a busca de um protocolo de tratamento eficiente para o HIV em uma época em que pouco se sabia sobre a doença e a indústria farmacêutica não tinha a mínima idéia de onde ou como desenvolver suas pesquisas e suas drogas.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é dirigido pelo mesmo diretor de A Jovem Rainha Vitória (The Young Victoria, 2009), o canadense nascido na provícia de Quebec, Jean-Marc Vallée.

A história tem início em 1985, durante o delicado período epidêmico de HIV ocorrido nos EUA na década de 80. Para os que desconhecem, esse surto de contágio fatidicamente ocorreu alguns anos depois do movimento de liberação sexual gay, iniciado também nos EUA, mais precisamente em São Francisco/CA, entre o fim dos anos 60 e início dos anos 70, mas que ainda ecoava não apenas pelos EUA como também pelo mundo. Por conta disso, o vírus HIV, desconhecido na época, foi vulgar e erroneamente associado à homossexualidade porque o primeiro caso descoberto e registrado foi de um paciente homossexual. A associação do vírus com essa orientação sexual gerou muita discriminação e debate (mais do que já havia), bem como a crença de que apenas eles eram um grupo de risco, pensamento ainda muito comum nos dias de hoje.

Com o tempo conseguiu-se divulgar o fato de que todos estão propensos ao contágio e que não existe um grupo de maior ou menor risco. Naquela época o preservativo existia mais como um método contraceptivo, raramente utilizado para prevenção de DSTs, e ninguém se preocupava com um vírus mortal porque o HIV era desconhecido. Principalmente depois do movimento de liberação sexual gay, pessoas faziam sexo em qualquer lugar e com qualquer pessoa, e o surto epidêmico entre os homossexuais acabou sendo maior por conta de todos esses fatores agregados.

Mas o filme não é sobre o movimento de liberação sexual, e muito menos se passa em San Francisco, pelo contrário, se passa no Texas, um dos estados mais conservadores e machistas dos EUA.

Vai contar a história verídica de Ron Woodroof (Matthew McConaughey), um texano que vive na cidade de Dallas, machista, homofóbico, ninfomaníaco, alcólatra e cocainômano, e que descobre a doença por acaso, depois de um acidente de trabalho. Ele não quer acreditar no diagnóstico, mesmo com os exames em mãos, porque para ele o HIV é uma doença de gays, como era divulgado fortemente na época. Ron vai atrás de informações sobre o vírus e a doença, descobrindo que entre os grupos de risco estão as pessoas que fazem sexo sem proteção, o que o remete a lembrar de uma relação sexual específica que ele teve no passado e a finalmente ter de aceitar a dura realidade. Durante suas pesquisas ele descobre as drogas que estavam em uso para testes, sendo uma delas o AZT. Ele volta para o hospital e exige tratamento com a droga, que é negado pela médica Eve (Jennifer Garner), a qual informa que, por estar em fases de testes, não é certeza de sua eficácia e muito menos da garantia de terem a droga verdadeira, pois a indústria farmacêutica misturava placebo entre os lotes e apenas os fabricantes tinham conhecimento de quais eram eles. Desesperado, Ron consegue comprá-la ilegalmente, administrando-a em doses exageradas e sem acompanhamento médico. Por conta da superdosagem ele se intoxica e sofre um colapso que quase o leva a morte. Acreditando que a droga ainda possa ser sua salvação, ele continua sua busca no mercado negro, o que o leva ao Dr. Vass, o qual teve sua licença cassada nos EUA por tentar enfrentar as gigantes farmacêuticas, e agora trabalha no México, desenvolvendo pesquisas principalmente com soropositivos. A observação cientifica do médico é de que o AZT destruia todas as células saudáveis do sangue e que, embora a doença não fosse curável, havia a possibilidade de conviver com ela desde que haja a manutenção constante dos níveis saudáveis do sangue, utilizando suplementos vitamínicos e protéicos, e uma droga de combate ao vírus menos agressiva, além da instrução de que o paciente deve ficar longe do uso de outras drogas e manter uma alimentação regular e saudável. Ron tem uma melhora significante nos três meses que fica em tratamento com o médico, e volta para os EUA com o interesse de fazer de sua descoberta uma mina de dinheiro ao contrabandear os produtos, já que eles ainda não eram aprovados pela agência nacional de controle, mas também não eram considerados ilegais. Com o tempo Ron percebe a melhora e a satisfação de seus clientes, bem como um aumento constante de novas pessoas que o procuram em busca  do novo tratamento. Pensando nisso, e com a ajuda da travesti Rayon (Jared Leto), ele resolve ampliar seu negócio de forma mais organizada e abre o seu Clube de Compra Dallas, onde para ser sócio é necessário preencher uma ficha médica, assinar um contrato de responsabilidade e pagar US$400, dando direito ao sócio de ser fornecido constantemente com os suplementos. Ron passa a não pensar mais nos lucros quando a indústria farmacêutica se sente ameaçada por suas descobertas e passa a interferir em seu trabalho e na pesquisa que ele resolveu desenvolver por influência do Dr. Vass. Aos poucos ele consegue provar a Dra. Eve que o AZT reduz a expectativa de vida de um paciente, enquanto com os produtos que ele comercializa a expectativa aumenta, conseguindo uma aliada na guerra que ele trava contra a agência nacional de controle.

Sem dúvida o filme aborda todo esse período na história da doença e do desenvolvimento de uma droga farmacêutica com muito empenho, bem como os demais assuntos paralelos, como o preconceito e a discriminação sofrida pelos soropositivos, a falta de informação, a dominação corporativa e a dificuldade de todas as pessoas (saudáveis ou não) em lidar com tudo isso.

Muito embora o roteiro esteja presente na temporada de premiações na categoria Roteiro Original, algumas coisas chegam a incomodar aos mais atentos. Mesmo a história sendo dividida durante os dias de vida do personagem principal, a impressão que se tem é que tudo acontece de uma vez só, não havendo uma percepção de passagem de tempo muito efetiva. Os roteiristas também parecem não ter prestado muita atenção em personagens coadjuvantes chaves que surgem repentinamente na história e que nunca sabemos de onde são ou de onde surgiu o grau de relação enre eles, como o policial Tucker (Steve Zahn), a secretária e ajudante Denise (Deneen Tyler) ou até o caso romântico de Rayon. O desenvolvimento da relação entre Ron e Rayon também não soa muito convincente, já que os preconceitos e homofobia do personagem chegavam a níveis de intolerância máxima. Também é pouco explorada a percepção do personagem sobre a gradiosa descoberta que faz, ou da sua transição de um homem oportunista para um pesquisador por acidente que contribuiu imensamente para pesquisas futuras e na evolução de drogas farmacêuticas efetivas. O Clube de Compra Dallas também teve uma grande popularidade nos EUA, ultrapassando as fronteiras do Texas para outros estados do país, mas isso também é pouco pontuado, sendo apenas referido em alguns momentos enquanto Ron gerencia seus negócios por telefone.

O mérito do roteiro é definitivamente na congruência de várias situações e dificuldades que foram sofridas e a importância de Ron Woodroof em criar e divulgar, talvez, o primeiro protocolo de tratamento efetivo para o HIV.

Mesmo a história sendo fortemente baseada em fatos reais, muitos dos acontecimentos e personagens são fictícios, como a travesti Rayon e Dra. Eve. Segundo os roteiristas, esses personagens foram criados em referência aos vários travestis soropositivos e médicos entrevistados durante a pesquisa. A personalidade real de Ron também é contraditória, pois embora ele mesmo tenha afirmado em uma entrevista concedida ao roteirista Craig Borten de que a sua convivência com os gays tenham mudado consideravelmente sua percepção sobre eles, pessoas próximas chegaram a afirmar que ele não era homofóbico e, na verdade, era bissexual, e que seu comportamento mostrado no filme é exagerado, já que ele era um tipo intimidador, mas não violento.

É interessante também que, embora o Clube tenha tido uma grande popularidade nos EUA naquela época, poucas informações são encontradas sobre ele e sua existência é desconhecida pela maioria. O próprio ator que interpreta o personagem afirmou que desconhecia totalmente a existência de Ron e do Clube, e Jennifer Garner também disse em uma entrevista que leu diversas revistas científicas e jornais durante aquele período e não encontrou qualquer referência sobre o Clube e a importância que ele teve no tratamento. 

O filme concorre a seis Oscars, incluindo Melhor Ator a Matthew McConnaughey e Ator Coadjuvante a Jared Leto. Embora o talento de McConaughey já tenha sido reconhecido ainda na década de 90 em filmes como Tempo de Matar (A Time To Kill, 1996) e Amistad (1997), passou um tempo se dedicando a filmes de ação e comédias românticas pouco expressivas e apenas nos últimos anos tem se dedicado a papéis mais densos e complexos como nos filmes Killer Joe (2011), Obsessão (Paperboy, 2012), Amor Bandido (Mud, 2012) e Magic Mike (2012), todos personagens sulistas por excelência, porém interessantes e distintos, que finalmente chamaram a atenção da crítica e da Academia. Sem dúvida a transformação física que o ator sofreu é relevante (ele emagreceu mais de 20kg para o papel), mas ao contrário do processo similar que Tom Hanks realizou em Filadélfia (Philadelphia, 1993), aqui o ator não se coloca em uma posição submissa e martirizada, ele desempenha um papel forte e autoritário, superando obstáculos e lutanto o tempo todo contra seu próprio corpo devido a debilitada condição que se encontra, conseguido transpor sentimentos sem caricaturas ou cliches. Jared Leto também passou pela mesma transformação, emagrecendo mais de 10kg para sua personagem. Sua atuação também é notável, e mesmo representando um tipo estereotipado, sua perfomance é tão delicada e sensível que não aparenta artifical, forçado ou vulgar.

A atuação só é sofrível mesmo com Jennifer Garner. Para quem acompanhou sua trajetória no seriado Alias, sabe que ela realmente pode atuar, mas agora chega a espantar a falta de talento que ela apresenta filme após filme (com excessão de Juno, talvez por ter sido bem dirigida). Mas não é possível compreender o que aconteceu com essa atriz que, quanto mais os anos passam, pior ela fica, atuando de maneira até infantil, jogando no lixo o Globo de Ouro que já recebeu outrora pelo papel de Sidney Bristow.

Os conflitos são muito bem colocados e raramente o diretor apela para uma cena dramática excessiva, mantendo o filme sempre dentro do tom mais sincero e realista possível e emocionante por conseguir nos inserir nas condições vivenciadas pelos personagens. O próprio diretor afirmou que o filme sofreu vários problemas financeiros e quase não pode ser finalizado por falta de verbas. Matthew investiu dinheiro pessoal para o filme, bem como outros atores como Brad Pitt e Ryan Gosling, além dos diretores Marc Forster e Craig Gillespie. Com orçamento apertado, as filmagens duraram apenas 25 dias, não houve iluminação cenográfica ou ensaios, e os atores não foram mantidos na pós produção para correções. Mas o mais interessante de tudo é a produção ter sido filmada inteiramente com apenas uma câmera de mão capaz de gravar apenas 15 minutos, e o trabalho de edição realizado foi tão bem feito que se essa informação não tivesse sido divulgada, seria imperceptível. Não é à toa que o filme também concorre ao Oscar nas categorias de Edição, Direção e Filme, porque apesar de alguns poucos defeitos, sabe-se que eles existem por conta das limitações técnicas e não por incompetência, e o tanto que foi feito com tão pouco resultam em um belíssimo e admirável trabalho que merece ser respeitado por conta de sua grandiosa intenção.

CONCLUSÃO...
Frente a tantos problemas orçamentais que a produção teve em conseguir fundos para concluir as filmagens, realmente é um trabalho bastante digno que não apenas é baseado em fatos reais como também conta uma parte muito importante da história da descoberta do HIV e pesquisas para seu tratamento. Não podemos ignorar o fato de que isso tudo ocorreu em uma época em que ninguém tinha idéia de como combater ou começar a combater a doença, e que a indústria farmacêutica também não teve outra alternativa a não ser produzir os coquetéis e testar diretamente em humanos e de forma aleatória frente a urgência cobrada da situação. Os primeiros coquetéis produzidos possuiam uma composição completamente diferente da atual e eram muito mais agressivos (embora os efeitos colaterais sejam inúmeros e igualmente fortes), mas hoje em dia o seu uso é efetivo e o aumento da expectativa de vida é comprovado e bastante considerável em comparação com o da época do início das pesquisas. O filme também peca neste aspecto, em não esclarecer isso ou informar o espectador de que os tratamentos mostrados no filme são antigos e ultrapassados frente aos avanços farmacêutico e dos protocolos médicos de tratamento disponíveis hoje em dia.
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