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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

ADORAMOS VÊ-LO FUGIR. SEMPRE!

★★★★★★★☆☆☆
Título: Jason Bourne
Ano: 2016
Gênero: Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Paul Greengrass
Elenco: Matt Damon, Tommy Lee Jones, Alicia Vikander, Vincent Cassell, Julia Stiles
País: Reino Unido, China, Estados Unidos
Duração: 123 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Bourne está fora dos radares da CIA, até uma antiga agente desligada interceptá-lo com novas informações sobre seu passado.

O QUE TENHO A DIZER...
Uma coisa é fato, e indíscutível: Se não fosse Jason Bourne, os filmes de 007 não estariam tão bons. Jason Stathan não teria virado referência no gênero e Matt Damon seria apenas um ganhador de Oscar que continuou fazendo dramas medianos.

Acredite, a Trilogia Bourne original foi revolucionária no cinema de ação atual e o seu formato impactou diretamente a forma de se fazer filmes do gênero em Hollywood, a começar pelo dinamismo na edição e a câmera mais livre que Paul Greengrass adicionou a partir do segundo filme (já que o primeiro foi dirigido por Doug Liman), e isso deu a sensação de o espectador ser um grande observador ativo em toda a história.

Apenas a Trilogia Bourne arrecadou quase US$2 bilhões pelo mundo (somando bilheteria e home vídeo), além de respeitosamente figurar entre os 100 melhores filmes de ação da história. Mas as pessoas devem saber que foi gradual, e o sucesso do herói só foi tomar proporções mundiais de fato no terceiro filme.

Como dito, Bourne foi um divisor de águas no cinema de ação, e o que Tony Gilroy e Paul Greengrass fizeram, se tornou referência.

A trilogia foi baseada em uma série de livros de Robert Ludlum, uma série que foi continuada pelo escritor Eric Van Lustbader após a morte do colega em 2002. Depois do terceiro filme, Greengrass afirmou que não voltaria à franquia, tanto que, quando soube que haveria uma continuação com Jeremy Renner (que não teria Damon, mas aconteceria no mesmo universo), o diretor bricou, entitulando o filme como "A Redundância Bourne".

Mesmo sendo escrito e dirigido por Tony Gilroy, roteirista e produtor da trilogia original, O Legado Bourne (The Bourne Legacy, 2012) não causou o mesmo impacto principalmente porque seguiu uma estética muito similar ao primeiro filme, dando aquele ar de deja vu no decorrer da trama. Mas de qualquer forma, Renner deu ao personagem Aaron Cross possibilidades para crescer. E o fato de terem continuado a trama por outro ponto de vista apenas reinterou a informação dos filmes anteriores de que Jason Bourne nunca foi o único, expandindo o universo para novas possibilidades.

Questionado frequentemente se voltaria ao papel, ou se haveria possibilidade de um encontro entre Jason Bourne e Aaron Cross em algum ponto da franquia, Matt Damon sempre afirmou que só voltaria se Paul Greengrass dirigisse o projeto. E assim foi. Greengrass, que outrora zombou de continuações, voltou ao projeto e Damon também. Se foi excepcionalmente pelo dinheiro, não se sabe, o que sabemos é que a parceria funciona, e que Damon realmente gosta de Bourne.

O filme começa com Nicky Parsons (Julia Stiles, a mesma da trilogia original) já desligada da CIA e hackeando a agência para obter documentos dos programas secretos de segurança do Governo, já que está intencionada a expô-los publicamente, no qual incluem os projetos Treadstone, Emerald Lake, Rubicon, Spearfish, LARX, Outcome, Hourglass, Spectrum, Blackbriar e Iron Hand, dos quais alguns já foram mencionados nos filmes anteriores. Bourne foi um dos primeiros no projeto Treadstone, e Nicky a responsável por alertá-lo de que ele não era o único, e que havia outros projetos além do que ele participou (é daí que surge o personagem Aaron Cross, que fez parte do projeto Outcome, explorado em O Legado Bourne).

Óbvio que, sem saber, ela será rastreada durante o hackeamento, indo atrás de Bourne para ajudá-la a revelar as informações. Bourne, que estava desaparecido dos radares desde os acontecimentos do último filme da trilogia original, novamente se torna alvo da CIA juntamente com Nicky, e a partir daí começam as cenas de perseguição, fuga, combate e espionagem clássicas da série.

Algumas pequenas mudanças ocorreram. No lugar de Pamela Landy (Joan Allen), entrou Robert Dewey (Tommy Lee Jones) como novo diretor operacional da CIA, e a função de Nicky Parsons (Julia Stiles) agora é de Heather Lee (Alicia Vikander). A questão é que Heather é muito mais ambiciosa, e quer derrubar Dewey para inciar uma nova geração de operações na CIA.

É inegável que, apesar de o cenário ser sempre o mesmo e esta sequência nem ser uma das melhores da franquia, ainda consegue ser um excelente filme de ação. Por parte do enredo, é um dos mais fáceis dos quatro filmes, não há reviravoltas mirabolantes, pistas falsas ou excesso de informações sobre os programas secretos para ficarmos confusos. Nem diálogos há muito, sendo o filme em que Matt Damon menos fala nas mais de duas horas de duração, ganhando até mesmo de seu personagem em Perdido em Marte (The Martian, 2015).

Mas quem disse que Bourne precisa falar? Matt Damon sempre foi um ator mais expressivo do que performático, e ele fez disso a característica principal de Bourne, sendo o verdadeiro atrativo dos filmes, afora as cenas de ação que aqui podem não ter tanto quanto nos anteriores, se extendendo demais em perseguições de carro, mas que mantém o mesmo ritmo frenético de Greengrass. Portanto, tem festival de sobra para os fãs, e a qualidade sonora e visual é bem paga no alto orçamento de US$120 milhões.

As reviravoltas na trama são modestas, e o que fazem delas interessantes são os próprios atores. Tommy Lee Jones é sempre carrancudo, objetivo e determinado, algo que ele sempre foi e por isso se encaixa em papéis como esses, não sendo à toa que ele bata o recorde de personagens que sejam ou da CIA, ou do FBI. Em contraponto está Alicia Vikander, sempre na espreita, tentando manipular e chegar ao centro comendo pelas bordas. Sua personagem é uma das mais interessantes da franquia, justamente por Bourne nunca saber de que lado ela realmente se encontra, uma dúvida que ganha o espectador ao também deixá-lo na mesma situação, o que é algo difícil de acontecer. Tanto que o filme rende um dos melhores finais da franquia. Final simples, mas de uma engraçada e merecida frustração (e que não é do espectador), encerrando com chave de ouro essa história, mas deixando aberto para um provável futuro.

Jason Bourne é o filme mais fácil da série, na intenção de conquistar o público jovem que não o conheceu antes (já que existe um buraco de quase 10 anos entre o último filme e este), a geração Y que pouco se importa com o conteúdo. Entitulá-lo apenas com o nome do personagem dessa vez pode significar o recomeço que a franquia não conseguiu com O Legado Bourne, até mesmo porque o filme arrecadou mundialmente mais de US$412 milhões, o que já garante sua continuação e mostra que o personagem ainda tem fôlego para sobreviver, mesmo depois de tanto tempo. E não há como se discutir: todos nós amamos Bourne, e adoramos vê-lo fugir sempre.

CONCLUSÃO...
Não é o filme mais forte da franquia, mas também não é descartável. Talvez seja a retomada da série. E que seja, Jason Bourne é o fugitivo que sempre iremos adorar ver.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

MacGYVER MARCIANO...

★★★★★★★
Título: Perdido em Marte (The Martian)
Ano: 2015
Gênero: Drama, Ação, Ficção
Classificação: 12 anos
Direção: Ridley Scott
Elenco: Matt Damon, Jessica Chastain, Kate Mara, Sean Bean, Jeff Daniels, Michael Peña, Kristen Wig
País: Estados Unidos, Reino Unido
Duração: 144 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma tripulação em Marte aborta uma missão por conta de uma tempestade, e durante a evacuação um deles desaparece do raio de alcance e é dado como morto, quando na verdade ele não está.

O QUE TENHO A DIZER...
Ridley Scott andou errando feio. Tanto que seu último filme memorável foi Gladiador (Gladiator, 2000). Nem mesmo Prometheus (2012), que parecia ser o seu retorno à forma, conseguiu salvá-lo da ladeira. Sim, ele pode ter sido um dos mais influentes diretores dos anos 80 e 90, mas isso não o absteve de tantos erros sucessivos como nos últimos 15 anos e que, finalmente, são redimidos agora.

O que vale ser dito logo de cara é que, depois do estrondoso e até inesperado sucesso de Gravidade (Gravity, 2013), era um pouco óbvio que filmes com temática self survivor (sobrevivência solitária) seria o foco aberto para propostas. E se for no espaço, então... Melhor ainda! Porque o filme de Cuarón foi responsável por novamente atrair a audiência para ficções científicas espaciais. Tanto que logo em seguida Interstellar (2014) se fez presente, fazendo tanto sucesso quanto. O que pra mim é estranho é ninguém ter comentado sobre isso. Ao menos eu não vi.

Desta vez a investida é em solo marciano, já que nenhuma das tentativas anteriores deram certo com Planeta Vermelho (Red Planet, 2000) e Missão Marte (Mission Mars, 2000) porque realmente foram bem ruins (a curiosidade é que esses filmes também foram filmados em Wadi Rum, território na Jordânia pertencente à UNESCO).

Aqui a abordagem realista permanece. Não há alienígenas, nem fugas mirabolantes, nem uma inteligência artificial psicopata, nem mesmo algum alucinado para sabotar qualquer missão. O filme todo é unica e simplesmente sobre um homem esquecido em Marte e que deverá quebrar a cabeça para sobreviver por, no mínimo, quatro anos com os recursos que permaneceram após a tempestada e com aqueles deixados para trás pelos seus demais colegas (incluindo uma coletânea de músicas Disco, a piada funcional da história).

Logo, não é surpresa encontrar grandes semelhanças entre o filme de Scott com o de Cuarón. A diferença é que o personagem não está no espaço, mas no solo.

Embora Gravidade não tenha realmente um grande enredo além de uma astronauta a deriva que deverá encontrar uma maneira de voltar para a Terra, ele consegue ser um grandioso filme com metáforas interessantes sobre o renascimento, além de outras numeráveis razões. Havia suspense crescente, interesse, coerência, desenvolvimento, seriedade e embasamento. No filme de Ridley Scott, que é baseado no livro homônimo de Andy Weir, ele tenta manter as mesmas características, além do enredo ser um pouco mais consistente, porque enquanto Watney sobrevive em Marte, a vida na Terra continua e o seu caso, de comoção pública, se transforma em um reality show da NASA, onde os acontecimentos são transmitidos globalmente ao vivo.

Mas tirando isso, o desenvolvimento não apenas é quase o mesmo como algumas sequências chegam a ser muito semelhantes. Até mesmo a trilha sonora original é tão parecida que até parece ser do mesmo compositor (não é).

E falando em deriva... se pegarmos o filme Náufrago (Cast Away, 2000) e secar o mar, teremos o solo de Marte e Mark Watney seguindo os mesmos passos de Chuck Noland para não morrer de inanição. Felizmente não há cenas apelativamente dramáticas ou algo que remeta à bola Wilson na solidão marciana, mas as dificuldades para a sobrevivência são as mesmas, e só o árduo trabalho do personagem e a constante possibilidade de algo dar errado já são situações tensas e naturalmente dramáticas. Damon realmente desenvolve um papel tão importante quanto o que Bullock desenvolveu em Gravidade, mas aqui há mais espaço para tanto o personagem, quanto o espectador, relaxarem em devidos momentos e curtirem a jornada. O espectador torce por ele e suas tentativas, se emociona quando algo dá certo, da mesma forma como também se entristece ou se frustra quando algo dá errado, por mais esperada que seja uma situação assim.

O desesperador é que só assistindo ao filme para novamente termos aquela terrível sensação de que nós, meros indivíduos tão acostumados com as facilidades do dia a dia, não estamos preparados para qualquer situação de sobrevivência extrema. Se nos jogarem em um deserto com uma garrafa vazia, não teremos idéia do que fazer, mas se fizerem isso com o personagem de Damon, ele conseguirá fazer chover. Não é à toa que ele é o MacGyver do espaço, porque não existe o que ele não consiga resolver com uma manta de plástico e um pedaço de silver tape (que por sinal, só no cinema mesmo para silver tape ser tão funcional e fácil de se cortar).

Óbvio que existem momentos que chega a ser um tanto forçado imaginar que um especialista em botânica saberia fazer tanta coisa sozinho e tivesse tanto conhecimento sobre tudo, porque se fosse assim não haveria necessidade de uma equipe de seis pessoas com especialidades únicas serem enviadas ao espaço. Mas a gente pode acreditar que o treinamento dele foi tão bom, mas tão bom, que ele conseguiria reestabelecer sistemas eletrônicos com tanta facilidade ou recriar um sistema de comunicação bastante arcaico para se comunicar com a Terra da mesma forma como ele tem habilidade para plantar batatas com excremento humano.

E nada deixa de ser intrigante mesmo assim porque, apesar de tudo, é interessante ouvir as explicações do personagem enquanto faz seu registro de bordo sobre os procedimentos que deverá seguir para que obtenha sucesso, das quais algumas são verdadeiras, incluindo a produção de água que é um sistema que a NASA vem aprimorando. Claro que, em outras situações, uma ou outra mudança da realidade é feita para se adequar melhor na ficção, como o fato dos equipamentos e da tecnologia utilizada serem muito mais avançados que na realidade (mas que existe possibilidade de atingir esse avanço), da gravidade em Marte ser menor que na Terra, mas não no filme, e, assim como em Gravidade, o personagem improvisar um propulsor no espaço, o que seria impraticável por não haver outros sistemas estabilizadores. Segundo a NASA, fazer isso em gravidade zero seria como soltar uma bexiga em uma sala sem amarrar sua ponta.

Um pouco exagerado nos longos 144 minutos que não chegam a ter um ritmo tão dinâmico ao ponto do tempo não ser sentido. A história definitivamente poderia ter acabado alguns minutos antes da mesma forma sucinta como Cuarón encerrou seu filme. Talvez se o personagem tivesse reestabelecido o sistema de comunicação primeiro para posteriormente receber instruções da Terra de como progredir com demais procedimentos, isso talvez teria sido mais verossímil, e assim o personagem seria um homem que sobrevive em Marte, e não um super gênio. De qualquer forma, não deixa de ser interessante, até porque não há antagonismos muito resistentes na história, não há vilões, e o único conflito de fato é a preocupação da NASA com sua imagem pública, o que realmente aconteceria e acontece.

Também não chega a ser um deslumbre visual como foram Gravidade e Interstellar. Por mais que as locações áridas de Wadi Rum sejam atrativas, dificilmente sai daquilo. Nem mesmo os efeitos especiais impressionam tanto, principalmente na tentativa de forjar gravidade zero.

Poderia ser algo mais sério, mas também foi diferenciada a abordagem mais leve. Só acho engraçado tanto o filme quanto Matt Damon estarem concorrendo ao Globo de Ouro na categoria Comédia. Embora tenha alívios cômicos (alguns até exagerados e fora de hora), definitivamente não é um filme desta categoria. É essencialmente um drama espacial e uma ficção científica, não uma paródia. Talvez a Associação tenha resolvido incluir o filme entre os finalistas sem perceber que não havia mais espaço nas categorias dramáticas. Não faz muito sentido, mas enfim...

CONCLUSÃO...
Ridley Scott finalmente se redime neste filme que, apesar de seu desenvolvimento e outras coisas terem grandes semelhanças com o filme Gravidade, de Alfonso Cuarón, ele consegue ser interessante à sua forma, um outro ponto de vista de como sobreviver em um lugar inóspito e ameaçador. Os acontecimentos paralelos surgem para quebrar a monotonia e aumentar a duração do longa que poderia ter poupado alguns minutos, assim como se alguns acontecimentos tivessem ocorrido em ordem diferente as situações teriam sido um pouco menos exageradas. Entretém e emociona da mesma forma. Mérito de Damon e acerto de Scott.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

NÃO DESCE NEM COM GRAVIDADE...

★★★★
Título: Interestelar (Interstellar)
Ano: 2014
Gênero: Drama, Ficção Científica
Classificação: 14 anos
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, David Oyelowo, Michael Caine, Matt Damon, Jessica Chastain
País: Estados Unidos
Duração: 169 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A Terra se voltou contra os próprios humanos, as plantações morrem e tudo está sendo tomado pela poeira. A única alternativa para preservar a vida humana é enviar um aposentado piloto da NASA para sua última missão espacial que não terá qualquer perspectiva de volta.

O QUE TENHO A DIZER...
"O universo é cheio de fatos facinantes. Cheio de coisas impressionantes para contemplar como, por exemplo, o tamanho de nossa Galaxia. A luz viaja a 300.000km/s e mesmo assim demora 100.000 anos para um simples feixe atravessar toda a Via Lactea. Nossa Galaxia, como bem disse Carl Sagan, é apenas uma entre bilhões e bilhões. A imensidão do espaço é inimaginável".

Esse trecho acima, de outro comentário publicado sobre o filme, resume muito do que Interestelar deixa de ser. Toda a imensidão do universo e suas belezas admiráveis são coadjuvantes. É como ter Sex And The City sem Nova York, Ginger Rogers sem Fred Astaire, ou Gravidade sem Sandra Bullock.

Dirigido, escrito e produzido por Christopher Nolan. O roteiro é em parceria com seu irmão Jonathan. É uma ficção científica dramática espacial que discutirá, dentre várias coisas, viagem no tempo, física quântica, dimensões paralelas e o futuro da exploração espacial. O diretor acabou incluindo o físico teórico Kip Thorne na produção para servir como consultor sobre o tempo espacial, já que é o tema mais recorrente no filme. Dessa forma ele manteria as reproduções sobre o Buraco Negro ou sobre o Buraco de Minhoca os mais próximos possíveis daquilo deduzido na intenção de serem criados e mostrados no filme com base na ciência e não na imaginação dos roteiristas.

Assim como Nolan fez em seus filmes anteriores, como na trilogia Cavaleiro das Trevas e no superestimado A Origem (2010), há referências bastante diretas de outros filmes, como Wall-E (2008), Contato (Contact, 1997), Alien (1979), e claro, 2001 (1968), que evidentemente é uma regra referencial em toda ficção científica que se preze.

O que os roteiristas fazem é pegar os elementos mais importante de cada um desses filmes (e outros também), juntar tudo em uma coisa só e dar uma nova roupagem. É exatamente o mesmo processo criativo que Nolan utilizou em A Origem, que na verdade é uma cópia bem modificada de Matrix (1999).

Toda a produção foi mantida em sigilo contratual, ninguém envolvido na produção poderia comentar sobre o filme. Essa é uma velha tática do cinema para aumentar aquilo chamado de "buzz" e superlotar as salas de cinema para arrecadar na bilheteria o valor mais próximo possível de seu orçamento logo na estréia. Tudo isso aconteceu, e as pessoas compraram muito bem toda a idéia um tanto desnorteada e sem a mesma desenvoltura narrativa da trilogia do diretor sobre o homem morcego. Tanto que Interestelar tem hoje uma pontuação média de 8.6 no IMDb, com mais de 430 mil avaliações. Como bem disse Rubens Ewald: "O espectador ocasional é que decretará a sentença (do filme ser bom ou ruim). Preguiçoso como ele costuma ser". E a preguiça é no fato do público leigo ou ocasional pouco se importar em analisar os pormenores daquilo que assiste e também pelos fãs se deixarem levar pela extrema parcialidade. Essa pontuação é (pasmem) maior que de seu antecessor mais próximo, Gravidade, no qual Interestelar tenta ser visual e tecnicamente bastante similar, mas está anos luz de ter o mesmo grandioso impacto e ser o mesmo grandioso espetáculo.

O filme começa muito bem e muito ruim ao mesmo tempo. Inicia num tom meio documentado por conta de alguns depoimentos que deixam um suspense meio obscuro no ar, além de toda a ambientação rural norteamericana e as casas vulneráveis nos milharais ajudarem na ambientação distópica e um tanto sinistra. Essa atmosfera inicial é muito parecida com a que M. Night Shyamalan fez em Sinais (Signs, 2002), naquela sensação de que parece que os personagens estão sendo observados o tempo todo, de que algo está próximo, mas não se vê. Até a trilha sonora com poucas variações, baixa e constante ao fundo pra deixar a atenção do espectador mais desperta é utilizada da mesma maneira. Mas nada incomoda, tudo é feito muito bem e se fosse pra ser um filme de terror, ele teria começado de forma brilhante.

Mas aí algumas gafes começam a aparecer logo nos primeiros vinte minutos de filme, como o personagem de Matthew McConaughey ter diversas colheitadeiras gigantes e automáticas, mas sem qualquer explicação (nenhuma mesmo), elas deixam de realizar o trabalho programamado para terem vontade própria, como um poltergeist, só pra causar um frisson paranormal que não existe. Depois disso o protagonista descobre uma base ultra secreta que ninguém poderia achar. Ninguém! Ele pergunta o que é tudo aquilo mesmo com uma bandeira gigantesca escrita em letras garrafais "NASA", bem do seu lado direito. Outro problema é que o filme se passa em um futuro onde a tecnologia é tão evoluída que o protagonista consegue invadir o sistema de um drone militar e dominá-lo com apenas um touchpad, mas um dos integrantes da equipe da NASA custa a acreditar que alguém pudesse encontrar a base ultra secreta situada ao ar livre no meio de uma planície. Então pra este caso vamos julgar (apenas julgar) que o Google Earth ainda não tivesse sido inventado no futuro do filme. Aí tem a NASA, que dispõe de umas caixas de fósforo gigantes que eles chamam de robôs, que se locomovem como se estivessem sobre muletas quando um par de rodinhas podia ter facilitado muito a vida dessas máquinas e da equipe de efeitos especiais porque é pra isso que a roda foi inventada. Mais engraçado é que, quando o personagem se apresenta, todos da equipe sabem que ele foi um antigo piloto da NASA, mas todo mundo faz boquinha de siri e trata ele como um meliante só pra ter aquele momento "TE PEGUEI EM HOLLYWOOD, VAMOS PARA O ESPAÇO".

Sério, tudo isso em menos de 20 minutos...

Para um filme que quis ser muito sisudo, todas essas pequenas faltas de atenção chegam a ser ultrajantes, diminuindo bastante sua credibilidade pra quem é mais atento, e toda a excelente ambientação do início é logo esquecida. A partir daí o filme deixa a atmosfera Shyamalan de lado pra entrar na ficção científica de fato, o que é sempre um grande desafio.

Há um risco muito grande em falar sobre algo que se desconhece. Sobre o que desconhecemos, ou deduzimos com bases científicas, ou inventamos com base na imaginação. No caso desse filme, Nolan deduz e se baseia em teorias científicas apenas quando o filme precisa apertar o passo pra se resolver, e inventa a maioria das coisas na maior parte do tempo com muita pouca coerência com a realidade para preencher minutos extras. Inventa e inventa feio! Inventa rude com explicações que explicam nada porque ninguém vai entender metade do que eles teorizam em cena. Quando o roteiro para de inventar, ele cai no melodrama, como na cena em que o protagonista discute com a personagem de Anne Hathaway qual a melhor decisão tomar entre os planos A e B. Outra coisa que se percebe é que, como dito acima, toda essa imensidão do universo é desperdiçada em subtramas paralelas que se passam na Terra para evidentemente encomizar nos efeitos especiais e dar saltos temporais na ambientação espacial.

Tudo se torna uma bagunça que pode ter algum certo fundamento para os aspirantes a físicos quânticos espalhados por aí, mas para a audiência leiga é tudo simplesmente um festival impressionante de "qualquer coisa no espaço". 

Os personagens muitas vezes não fazem sentido, como a rebeldia interminável da filha do protagonista, a resolução extremamente banal do personagem de Matt Damon que entra e sai do filme como se tivesse no início de carreira, ou a incrível determinação do protagonista em querer salvar a humanidade a qualquer custo (a figura do "pai herói", também sempre explorada nos filmes de Shyamalan). Se o fim do mundo fosse inevitável e você tivesse que escolher entre salvar a humanidade ou passar o resto desses dias com o que resta de sua família, o que você faria? É uma pergunta bastante complexa que o protagonista em momento algum pensa a respeito.

Acredito que nada dói tanto quanto os exageros espaciais e clichés do gênero como as viagens que eles fazem entre um planeta e outro como se fosse algo do tipo "OK, vamos dar uma paradinha lá no shopping". E claro... o combustível que sempre está no fim no trajeto da volta. O momento "let it go", bem similar ao de Gravidade também deixa nítido que, direta ou indiretamente, a produção tenta pegar carona no sucesso do colega. Mas nada é tão impressionante como tudo ser resolvido e descoberto no último minuto, até as mais absurdas e inacreditáveis coisas, como as feitas pela personagem de Jessica Chastain.  E mais... se os humanos do futuro ficam tão poderosos ao ponto de conseguirem controlar o poder da gravidade como cordas de piano entre as diferentes dimensões, como é que não fizeram isso para evitar a Terra de se voltar contra os humanos do passado? Pensando nas teorias que o próprio filme mostra, seria tudo super simples assim, não é? Pois é... mas Nolan prefere complicar pra enganar tonto. E é por essas razões que eu passei a maior parte do filme me questionando: "Isso é sério mesmo?"

Na narrativa confusa, nos altos e baixos dramáticos pra tentar manter o espectador atento e um final bastante sentimental do jeito que o cinema Hollywoodiano está acostumado a fazer, muita gente vai terminar o filme com lágrimas e sem ar, igual quando Titanic foi lançado, mas depois de alguns dias é muito provável que a ficha caia no fato de que ele é uma das grandes bobagens de 2014.

De qualquer forma é um filme com algumas concepções visuais bem interessantes, mas a nuvem congelada... olha... aquilo é a gota d'agua, principalmente em um filme que fala incansavelmente sobre a física e a gravidade. Só não parei de assistir neste momento porque eu queria ver até onde a desgraça ia.

E foi longe. Nolan literalmente se perdeu nas idéias e acreditou no maravilhoso potencial da ignorância alheia de consumir bem qualquer coisa. O resultado é um filme desagradável, longo demais, que mais se perde do que se encontra, e desperdiça conceitos interessantes para divagar no absurdo para o bem do drama espacial e da redundancia.

CONCLUSÃO...
Christopher Nolan tem se especializado em dar grande complexidade desnecessária a seus filmes para enganar gratuitamente o espectador e faze-lo ter a sensação de que o assunto é realmente muito sério e complexo. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

CARMINHA EXPLODINDO POBRE NO ESPAÇO...

★★★★
Título: Elysium
Ano: 2013
Gênero: Ficção, Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Neill Blomkamp
Elenco: Matt Damon, Jodie Foster, Wagner Moura, Alice Braga
País: Estados Unidos
Duração: 109 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A Terra está destruída e os ricos resolveram ir morar no espaço, enquanto os pobres trabalham a seu favor. Aí um homem recebe uma carga de radiação que o matará em 5 dias, e aí ele resolve ir para Elysium, onde há uma máquina super poderosa capaz de recuperar até um rosto destruído por uma bomba, e junto a isso, tentar salvar a classe pobre e proletária sem saber.

O QUE TENHO A DIZER...
O sulafricano Neill Blomkamp acertou quando estreiou na direção e escreveu a aclamada ficça-ação Distrito 9 (Disctrict 9, 2009), transformando extraterrestres em seres escravizados, excluídos e segregados na Terra pelos humanos em uma metáfora e referência direta ao Apartheid que ocorreu no sul da África por quase meio século. O interessante deste inesperado filme foi que isso não era uma crítica social apenas à exclusão racial, mas a qualquer tipo de exclusão social que existe, podendo-se substituir os extraterrestres por qualquer grupo excluído ou segregado sem perder o contexto da história. Isso levou o diretor a concorrer ao Oscar pelo filme nas categorias de Roteiro Adaptado e Melhor Filme, e catapultou o estreante diretor ao topo dos mais promissores.

Muito barulho correu sobre Elysium quando sua produção foi anunciada e muita gente se perguntou se ele manteria essa discussão política e social relevantes dentro de um filme de ação pipoca, mas o papo perdeu a força com trailers fracos e uma estréia modesta, que não agradou a primeira leva de público. Compreensível, pois a verdade é que sua nova investida decepciona por extamente tentar seguir os mesmos passos do anterior, mas nada de tão relevante ao ponto de acharmos as analogias interessantes demais para que ele possa ser considerado alguma coisa. O resultado foi um fracasso. O filme que custou mais de US$120 milhões, arrecadou custosamente um pouco mais de US$90 milhões só nos EUA.

O pano de fundo que Blomkamp utiliza nada mais é do que a segregação entre ricos e pobres, a concentração da assistência a saúde apenas aos poderosos e uma leve referência a Revolução Industrial. Temas batidos no cinema e que dificilmente convencem se não bem fundamentados e estruturados. Dessa vez ele faz da Terra um lugar destruído pela poluição e pelo esgotamento das reservas naturais, superpopulado por latinoamericanos que vivem em favelas, explorados incansavelmente por um governo elitista, como se latinoamericanos fossem, em sua essência, o exemplo da pobreza, da miséria e submissão. Pode até ser, mas ficou feio e mal arranjado na tela com um monte de gente falando espanhol.

Não é à toa que o filme tem dois atores brasileiros entre os principais, como Alice Braga (sobrinha de Sônia Braga) e o chatíssimo Wagner Moura, que pode ter sido bom em outra época, mas hoje virou mais um ator Rede Globo. Claro que o herói não podia ser outra pessoa além do norteamericano Matt Damon, que está perdido no filme e só vai descobrir de fato o que tem que fazer só lá pro final, quando ele finalmente recebe o resto do roteiro e o briefing do desfecho de seu personagem.

Já é decepcionante logo no começo, quando Damon solta piadinhas manjadas de rapariga gente boa que acorda todos os dias para enfrentar a fila do busão para realizar o trabalho explorador e ter uns tostões no fim do mês. Um tipo canastrão, de criminoso arrependido e que combina em nada com a persona do ator e personagens que ele interpretou no passado, principalmente em filmes de ação. Aí ele apanha de policiais ciborgues e sofre assédio no trabalho por um patrão casca grossa que ameaça substituí-lo por qualquer desempregado que está na fila em dois momentos cruciais da história: 1) quando chega com o braço quebrado no setor; 2) quando se recusa a entrar com o braço quebrado em uma cabine radioativa para desenroscar a porta de fechamento automático. Óbvio que, com o braço quebrado, ele entra na cabine, desenrosca a porta que se fecha automaticamente e ele recebe um banho delicioso de pura radioatividade que, como diz um dos personagens, não foi capaz de descolar a pele do corpo, mas vai deixá-lo vivo e em agonia por mais cinco dias. Tem umas pilulas mágicas que ele pode tomar e que farão os órgãos funcionarem normalmente até se deteriorarem por completo por conta da radioatividade (oi???), mas isso não é importante, porque ele vai se esquecer deste detalhe durante o filme, e quando lembra toma todas de uma vez.

O mais interessante de tudo é que era pra ele estar até verde (ou azul, como o Dr. Manhattan, de Watchmen) de tanta radiação, mas ele anda normalmente entre as pessoas sem qualquer problema e todo mundo fica de boa. Só vomita no começo, mas depois passa.

Aí a coisa piora quando resolvem acoplar um dispositivo biotecnológico em seu corpo, porque ele está fraco, mas precisa de forças de alguma forma para ir até Elysium porque ele não quer morrer, mas só vai conseguir chegar lá clandestinamente caso, em troca, consiga completar uma missão para o Wagner... digo... para o Spider, interpretado pelo Wagner (lembrando que ele tem apenas cinco dias para isso). Todo o processo cirúrgico e agressivo é feito em um buraco imundo qualquer, por pessoas suadas que usam ferramentas enferrujadas. A pressa era tanta que nem tiraram a roupa dele: serraram, martelaram, parafusaram e colaram tudo por cima daquela roupa encardida mesmo. Também acredito que ele não tenha passado nem uma noite sequer no ambulatório. Acordou algumas horas depois, sem dor alguma, olhou para todo aquele desconforto e perguntou (sic): "O QUE VOCÊS FIZERAM COMIGO?"

Uai... nada! Só uns ajustes.

E assim o filme se desenvolve, entre absurdos enfadonhos e outros, entre diálogos terríveis e outros, como no momento em que Matt vira para o Wagner e fala (sic): "PRECISO IR PARA ELYSIUM AGORA!", e o Wagner responde (sic): "SÓ VOU CONSEGUIR EM 5 DIAS". Mas peraí... no começo do filme o Matt não tinha dito que morreria em cinco dias? Weird!!!

Agora pulando toda a baboseira, vamos para o espaço: Elysium é lindo e parece um pedaço gigante de Miami. Tem coqueiros por todos os lados, mansões, piscinas, sol o dia todo e um bando de gente folgada de biquini e bebendo Martini. Tudo está a céu aberto porque todo este planeta artificial tem uma atmosfera qualquer e que ninguém se importa em explicar como funciona, mas ninguém também tem interesse em saber. É assim porque é assim.

Quem manda naquilo tudo é a Jodie Foster, toda metida a Carminha, de Avenida Brasil, sempre vestida de branco e mandando explodir pobre no espaço. Tem também um vilão meio afeminado, um personagem super esquecível e que não agrega nada na história, vivido pelo igulamente esquecido William Fichtner, que abre a boca apenas umas três vezes. Sua única função é carregar um dado no cérebro que será responsável por todas as reviravoltas na trama, se é que tem alguma de fato. Mas ele vai morrer, só pra dizer.

Lá no espaço o Matt trava uma batalha bem nervosa com o Krueger, outro vilão, vivido pelo ator Sharlto Copley. O ator é até interessante, mas aquele sotaque que ele usa, que não se sabe se é russo, francês, chinês ou o quê, é chato pra caramba, e toda vez que ele abre a boca pra falar é um grande desconforto primeiro porque, como já disse, o sotaque é chato, e segundo porque ele adora ser um vilão engraçadinho cheio de sadismo, que virou um tipo cliché nos últimos anos.

Enfim, o filme tem um visual muito interessante e uma história que poderia ter sido excelente se tivesse sido bem desenvolvida, mas no fundo ele é chato, arrastado, forçado e não convence. As atuações são caricatas e perdidas. A inclusão dos brasileiros no filme não tem razão. Alice Braga é sempre aquela coisa: franze a testa pra mostrar que está com raiva e faz cara de choro sem lágrima. Ver a atuação de Wagner Moura chega a ser constrangedor porque, aqui no Brasil, pra ser considerado bom ator, você tem que fazer careta e falar gritado, principalmente na Rede Globo, e esse exagero expressivo que não cabe numa tela de cinema não combina em nada com a competência comedida e quase européia de Matt Damon, que atua bem até quando atua mal. Então imagina...

Obs: detalhe para um ciborque enfermeiro que aparece bem rápido no fim do filme, lendo informações em um tablet. Pra que ler informações em um tablet se ele poderia ter as informações no próprio sistema, hein?! Que burro.

CONCLUSÃO...
Filme triste, arrastado, uma história sem pé nem cabeça. Percebe-se que sua produção foi corrida em roteiro. Vai agradar leigos e troianos, mas não convence nem na ficção. Blomkamp errou a mão e nas idéias, mas ainda é seu segundo filme, dá tempo de recuperar a carreira.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

ALERTA VERMELHO...

★★★★★★★★
Título: Contágio (Contagion)
Ano: 2011
Gênero: Suspense, Drama
Classificação: 12 anos
Direção: Steven Soderbergh
Elenco: Matt Damon, Jude Law, Kate Winslet, Marion Cotiliard, Lawrence Fishburne, Gwyneth Paltrow
País: Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos
Duração: 106 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um vírus mortal e de alto grau de contágio começa a se espalhar e a matar milhões de pessoas pelo mundo ao mesmo tempo que inicia-se uma guerra social e política para a contenção da ameaça.

O QUE TENHO A DIZER...
Aqui é Steven Soderbergh mais uma vez mostrando-se eclético ao realizar um gênero que ele ainda não explorou com pronfundidade. Embora o filme tenha sido promovido como um filme de horror, na realidade é um suspense dramático, viajando um pouco pelo gênero promovido algumas vezes, mas ao contrário do terror que estamos acostumados a ver, neste filme em particular o diretor trata do medo iminente e invisível, do perigo real e que temoriza milhares de pessoas.

Para realizar este filme Soderbergh e o roteirista Scott Burns quiseram se manter o mais fiel à realidade possível, sendo o filme posteriormente elogiado pela revista New Scientist. O diretor e o roteirista entrevistaram e acompanharam médicos infectologistas, sendo acessorados por um médico infectologias, o Dr. Ian Lipkin, para se atentarem a detalhes científicos e mantê-los o mais correto possível, o que fez com que Soderbergh refilmasse algumas cenas quando estas fugiam do caráter científico real. O vírus mortal retratado no filme é baseado no vírus Nipah, descoberto em 1999 durante um surto na Malásia e que era transmitido para os humanos através de porcos. O realismo do filme não é diminuido pela sua dramaticidade, pelo contrário, embora uma ficção, o filme é uma reprodução de uma possível realidade, por isso acaba sendo assustador.

Nos anos 60 o diretor George Romero escreveu e dirigiu o clássico A Noite Dos Mortos-Vivos (Night Of Living Dead, 1968), o primeiro de sua tão conhecida "Hexologia dos Mortos". Romero afirmou incansavelment durante as décadas que seus filmes não são simplesmente filmes sobre zumbis e que ele não faz esses filmes simplesmente porque as pessoas querem assistir ou porque ele tem uma legião de fãs, mas porque ele sente a necessidade de que algo precisa ser dito naquele momento. É por isso que seus filmes tem um forte conotações político-sociais disfarçados em alegorias e metáforas porque ele sempre acreditou e tentou alertar as pessoas de que o governo pode ser responsável pela maioria das doenças e desastres humanos. E o que ele chama de "doenças" e "desastres" não é simplesmente o que é causado por vírus ou bactérias, mas tudo que nos rodeia e nos fazem doentes, incluindo uns aos outros.

Sodebergh, intencionalmente ou não, esclareceu de fato muito do que Romero tentou dizer, mas enquanto Romero metaforizava as idéias, Soderbergh foi explícito e enfiou o dedo na ferida. E os resultados são trágicos. O filme é desconfortável desde a primeira tossida, e é assim até o final.

Contágio consegue se manter fiel e acurado à realidade científica e na realidade em que vivemos, não medindo esforços e nunca aliviando a audiência da crueldade dos eventos. Enquanto nos filmes de Romero as pessoas saiam com medo e pensando "aquilo poderia acontecer", as pessoas terminam de assistir Contágio pensando "isso realmente pode acontecer". Por isso não é um filme de horror comum, é um drama com fatos reais, mostrando que o grande perigo do ser humano somos nós mesmos, explícito e provocativo. Um filme lento, mas tenso, para um tipo de público diferenciado, assim como costumam ser os filmes do diretor em sua grande maioria.

Duvido que depois de assistir ninguém saia pensando duas vezes antes de pegar em uma maçaneta, cumprimentar alguém ou simplesmente coçar o rosto da forma banal como faziam antes.

CONCLUSÃO...
Duro, realista e provocativo. Uma reprodução bastante fiel da realidade científica e da realidade que vivemos em eventos que realmente podem acontecer, e essa possibilidade nos aterroriza diariamente. Além de mostrar a melhor atuação de Gwyneth Paltrow, já que ela fica doente e morre...
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