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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

QUANDO A BOLHA ESTOURA...

★★★★★★★★★☆
Título: A Grande Aposta (The Big Short)
Ano: 2015
Gênero: Drama, Biografia, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Adam McKay
Elenco: Steve Carell, Christian Bale, Ryan Gosling,
País: Estados Unidos
Duração: 130 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Seis pessoas que trabalham no mundo de altas finanças resolvem apostar no erro dos grandes bancos, que não conseguiram prever o estouro da bolha imobiliária e do crédito que ocorreu entre entre 2007 e 2008.

O QUE TENHO A DIZER...
Todo ano são lançados filmes com abordagens ou até temas simliares para concorrerem entre eles. Esse ano não seria diferente, e A Grande Aposta tem um teor biográfico muito parecido com seu concorrente direto, Spotlight (2015).

Mas enquanto Spotlight aborda o jornalismo investigativo, aqui a história é sobre o mundo das altas finanças e investimentos que culminaram no estouro da bolha imobiliária e do crédito entre 2007 e 2008, resultando em uma crise econômica mundial.

O filme é dirigido por Adam McKay, mais conhecido por O Âncora (Anchorman, 2004) e sua continuação, Tudo Por Um Furo (Anchorman 2, 2013). O roteiro é escrito por ele em parceria com Charles Randolph, baseado no livro homônimo de Michael Lewis. Um tanto diferente do livro, com excessão de Michael Burry, personagem que existe de fato em pessoa e nome, os demais possuem nomes fictícios com caracterizações um pouco exageradas para sutilmente satirizar o momento. .

Que Estados Unidos faz negócio com qualquer negócio, isso não é novidade. Se bobear vendem até as mães. Nessa história esse consumismo desenfreado e todo o sistema capitalista atual é vilanizado como poucos filmes fazem, evidenciando que o sistema realmente existe para favorecer única e exclusivamente um seleto grupo, como aquele de Wall Street, que usa termos complexos para coisas aparentemente simples e assim manter pessoas comuns distantes do dinheiro e do poder para ser fácil enganá-los, manipula-los e explorá-los. Também mostra como uma nação conseguiu colocar a economia mundial em risco por egoísmo, egocentrismo e excesso de autoconfiança.

Em 2006, quando Michael Burry (Christian Bale) prevê através de análises estatísticas sobre juros, riscos, inadimplência e outras variáveis, que em um período de um ano o mercado imobiliário iria falir, e junto com ele os bancos, e com os bancos seus investidores, todo o caos econômico é exposto como uma ferida à sua frente. Ao contrário do que se pensava, muitos ricos e detentores de poder seriam jogados no asfalto sem um dólar no bolso. Baseando-se nisso e sendo responsável por investimentos de risco dentro de uma empresa média, para garantir o futuro de seus investidores ele escolhe a dedo alguns dos mais rentáveis imóveis hipotecados e resolve ir de banco em banco para propor um tipo de "seguro" sobre eles.

Como ironica e didadicamente explicado pela atriz Margot Robbie em uma inserção que mais parece material publicitário, Burry resolve "apostar" contra o mercado. Ele investe US$1.5 bilhões nisso, aceitando pagar aos bancos uma taxa anual milhonária de manutenção em um acordo que o faria receber todo o dinheiro investido acrescido de juros inversamente proporcional à desvalorização do mercado. Ou seja, se desvalorizasse 200%, ele lucraria mais 200% em cima do valor investido nessa "aposta", ou "seguro". Resumidamente do resumo, ele apostou que o mercado imobiliário iria um dia se autodestuir, e os bancos aceitaram sua aposta porque tinham certeza que isso nunca iria acontecer.

Todos os investidores de Burry, bem como seus associados, acreditam que ele cometeu uma loucura e resolvem interceder, enquanto os bancos comemoram ter fechado um negócio milhonário com um lunático. Para os bancos, foi dinheiro fácil. Para Burry, foi um investimento a longo prazo que os salvariam do colapso.

É então que entra Jared Vennett, que descobre sobre os investimentos de Burry, acredita neles, e cria um ramo de negócio em cima disso, convencendo Mark Baum a fazer parte. Baum faz uma investigação e descobre que o mercado imobiliário realmente está a ponto de explodir porque nenhuma pessoa física ou jurídica está conseguindo pagar suas hipotecas devido aos juros crescentes que estão sendo mascarados e a escasses de crédito oferecido pelos bancos porque os fundos estavam se esgotando. Então isso o leva a também descobrir um grandioso esquema de corrupção através de fraudes monstruosas criadas tanto por corretoras que passaram a utilizar o crédito de investidores para cobrir o crédito de outros, quanto pelas empresas de análise de riscos, que receberam propina para mascarar as taxas de risco do mercado imobiliário e assim evitar que os investimentos congelassem, inflando muito mais o problema. Essas fraudes foram cruciais naquilo que levou dezenas de empreas a investirem em negócios vazios, e quando a bolha estourou e a grana de todo mundo desapareceu, uma onda de falência atingiu não apenas a maiores empresas nos EUA, como no mundo, resultando em uma taxa de desemprego e desapropriação em uma porcentagem nunca vista na história.

Portanto, basicamente é sobre isso que o filme trata, porém explicado de forma muito mais minusciosa, tentando por vezes ser até didático para os leigos no assunto, como eu. Também complementa o filme A Última Hora (Margin Call, 2011), cujos eventos cronologicamente acontecem após o estouro da bolha.

Por incrível que pareça está longe de ser um filme chato. Essa linguagem dinâmica desenvolvida por McKay, misturando diversos estilos com interlúdios ilustrativos e eventos que se intercalam para complementar fatos em comum, funciona muito bem e faz um tema complicado e extenuante se tornar interessante, com uma linguagem acessível. Chega um momento que parece que é impossível digerir tantos termos técnicos, mas não se preocupe, o contexto é compreendido assim como uma conversa entre duas pessoas que não falam a mesma lingua: não é necessário saber o que se diz para compreender o que se quer.

Com a câmera na mão, para forjar um estilo documentado (mas sem ser), McKay dá abertura para alguns breves momentos em que personagens dialogam diretamente com o espectador, como um parênteses na história para enfatizar a circunstância. Além disso intensificar o humor embutido, a narrativa feita pelo personagem Jared Vennett (Ryan Gosling) é ao mesmo tempo metainformativa (e crítica), desmentindo alguns momentos que claramente foram feitos para deixar o filme mais interessante, assim como confirma alguns outros que realmente aconteceram na realidade, como no momento que o personagem Mark Baum (Steve Carell) questiona um palestrante, fato realizado por Steve Eisman, quem o personagem é baseado.

Sim, uma sacada bem legal, feita de maneira muito bem dosada, exatamente naqueles momentos em que o tema parece ficar complexo demais ou cair na monotonia.

O elenco, além de grandioso, é excepcional em grande parte, mas é Steve Carell quem rouba as cenas, mesmo com toda a esquisitisse de Christian Bale e sua terceira indicação ao Oscar, um ator que obviamente não é ruim, mas não impressiona mais porque todos os personagens que escolhe sempre são excêntricos e cansativos, ao contrário de Carell, que aos poucos tem saído da zona de conforto da comédia e abraçado papéis mais sérios, embutindo uma ironia que, assim como nesse filme, sem dúvida é seu ponto mais alto e interessante.

Não há dúvidas de que é um filme para ser lembrado, principalmente porque mesmo com todo esse circo que foi armado onde milhões de pessoas foram sacrificadas no processo, tudo conclui que as coisas voltaram a ser como eram, só mudando os nomes para manter longe aqueles que serão sempre as vítimas. E não importa se tudo isso voltar a acontecer daqui 50 anos que seja, até lá muita gente vai ter aproveitado muito, nadado em muita grana e se respaldado para o pior, enquanto somos nós quem continuaremos pagando o pato sempre. Um filme muito interessante para quem acha que lá fora tudo é muito melhor do que aqui dentro, ou que o capitalismo, da forma como é levado, seja tão excelente como muita gente acha.

CONCLUSÃO...
Utilizando diversos estilos e linguagens em um tema complexo, tudo que parecia ser um caos se torna mais organizado do que se pensa, sendo até didátido e ilustrativo para aqueles que nada entendem sobre o tema. O que na verdade não importa, porque McKay conduz tudo de forma que, independente da linguagem, a interpretação será a mesma. E o choque de que somos meros fantoches de um pequeno grupo continua sendo grande. Independente da dimensão, seremos nós as vítimas dos erros alheios.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

TIME QUE GANHA NÃO SE MEXE...

★★★★★★★★
Título: Trapaça (American Hustle)
Ano: 2013
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: David O. Russel
Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Jeremy Renner, Robert De Niro
País: Estados Unidos
Duração: 138 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Irving e Sydney são um casal de trapaceiros forçados a ajudar o agente do FBI, Richie, a coletar provas contra o Prefeito e desarmar um esquema mafioso e de corrupção em cadeia.

O QUE TENHO A DIZER...
Onde ou quem é que tenha dito a David O. Russel que "time que está ganhando não se mexe", ele ouviu muito bem. Ele dirige e escreve este novo filme e, tal qual seu anterior, O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, 2012), volta a trabalhar com Bradley Cooper e Jennifer Lawrence, bem como a maioria dos demais atores que trabalharam com ele em filmes anteriores, com excessão de Jeremy Renner. Mas os movimentos que ele utilizou nesse tabuleiro de xadrez em Hollywood foi diferente. Embora novamente tenha pego os dois atores que ele ajudou a consagrar, aqui eles não atuam em parceria (aparecem juntos em apenas uma única cena muito breve), além de terem uma participação mais coadjuvante. Isso já torna o filme interessante, porque não abusa da exploração do sucesso de ambos. E mesmo atualmente sendo os atores mais requisitados, também optaram por um filme menor e papéis menores, mas nem por isso desinteressantes. Isso é muito relevante e mostra a maturidade de ambos. Bradley Cooper, mais experiente, já apresentava essa tendência quando começou a investir como produtor (aqui ele assina como co-produtor), e Jennifer vem sabendo escolher bem os papéis que caem em suas mãos (ou seu agente que é bom demais), e ela caiu nas graças do público e da crítica e se tornou a nova "Namoradinha da América".

A história deste filme nada tem a ver com o anterior, embora os personagens sejam tão problemáticos quanto (principalmente as personagens femininas), e não é uma história tão real como dizem no princípio, informação que virou moda hoje em dia até mesmo na ficção. A trama é apenas um esboço do esquema Árabe ocorrindo no final dos anos 70 e começo de 80, em que o FBI iniciou uma investigação pontual e depois a expandiu para incluir outros esquemas de corrupção. O roteiro do filme já estava pronto havia anos e ficou em oitavo lugar na Lista Negra de Hollywood no ano de 2010, que é uma lista divulgada todos os anos sobre os melhores roteiros que não foram produzidos.

Como é de costume nos filmes de Russel, o que manda não é o roteiro, ele é apenas uma linha guia. Quem manda são os atores e seus shows particulares, pois há muitos improvisos em ações e diálogos (mesmo assim o filme está presente na temporada de premiações na categoria Roteiro Original), o que, particularmente, faz dele algo muito mais interessante, pois foge de marcações e deixa os atores livres e ainda sim encarnados em seus personagens, demonstrando um outro domínio de técnica.

Falando em técnica, é um dos filmes tecnicamente perfeitos do ano, daqueles feitos realmente para serem enquadrados na temporada de premiações. Isso é bom porque é prazeroso ver tanta qualidade, mas ao mesmo tempo soa plástico demais por conta desse excesso de qualidade.

Russel novamente abusa da câmera na mão, mas seu esquema de direção firme, porém adaptável, faz todas as atuações - sem excessão - serem pontuais e muito bem colocadas em cena. É nítido como sua visão sobre o produto final era algo muito sólido porque o filme flui sem tropeços graças a seu roteiro, direção e principalmente pela edição, que se não fosse tão exata frente a tantas histórias e reviravoltas que acontecem facilmente teria tirado o filme do trilho. Não há engasgos ou momentos em que o espectador se sinta perdido na história frente a tantas tramas paralelas e tantos personagens com personalidades tão distintas e muito bem exploradas e desenvolvidas. Os improvisos, que são marcas do diretor, que já declarou que sua preocupação com os personagens é maior do que com seus diálogos, faz o filme fugir do que está originalmente descrito e previsto, tomando um rumo natural, como se os personagens criassem vida própria.

A trilha sonora original, assinada pelo sempre magnífico Danny Elfman, nunca é invasiva e sempre um grande complemento para todo o desenvolvimento, mas o que mais chama atenção, sem dúvida, é o desenho de produção. Belíssimo no figurino e cenários, reproduzido bem a década de 70 e o exagero estiloso da época. Ainda sobre o desenho de produção, não podemos evitar de perceber que em alguns momentos soa mais moderno e atual que a própria década reproduzida, até porque sabemos que a tecnologia cosmética e têxtil da época era muito diferente da utilizada hoje e no filme, algo que parece ser um pouco ignorado, o que resulta em um anacronismo sobre as diferenças de qualidade, cores e texturas que não atrapalha, mas frustra um pouco na tentativa de ser fidedigno.

As atuações são excelentes em todos os aspectos, mesmo quando há a esquisitice exagerada de Christian Bale em engordar absurdamente para o papel, uma atitude muito mais para chamar atenção sobre seu comprometimento do que um grande adicional ao personagem, porque era dispensável. Bale nunca foi um galã para ter que sofrer grandes transformações para dar mais foco a seu talento do que para uma beleza que ele nunca teve, mas ele aparenta gostar desses processos metamórficos, já que é o terceiro filme com Russel que ele se propõe a isso. Mas com excessão dessas decisões dispensáveis e particulares do ator, sua performance é notável, e seu personagem, tal qual é dito até mesmo no filme, consegue atrair a simpatia mesmo sendo esquisito e às vezes asqueroso, justamente por ser um homem sensível e inteligente. Mas sem dúvida quem rouba toda e qualquer cena é Amy Adams, que nunca peca pelo excesso. Sua personagem começa o filme fraca, apenas chamando atenção por ser belíssima, envolvente e bastante sexualizada, mas conforme o filme desenvolve notamos que ela é composta de várias camadas, e que, no fundo, ela tem mais profundidade do que aparenta, além de ser uma mulher frustrada por nunca ter sido realmente amada e valorizada pela sua essência e capacidade. O desenvolvimento da sua personagem é tão brilhante que em determinadas cenas Amy consegue transpor todas essas frustrações, anseios e até poucas felicidades e prazeres de uma única vez, o que deixa evidente em como sua personagem é complexa, com um misto de emoções e sensações que a perturbam. Não é à toa que, juntamente com Cate Blanchett ou Kate Winslet, ela também é considerada por alguns como uma nova Meryl Streep (esta será sua quinta indicação ao Oscar).

Agora, muito tem se falado sobre a atuação de Jennifer Lawrence, mas particularmente acredito que seja mais uma superestimação por conta de sua grande exposição do que uma personagem realmente marcante. Todos já sabemos que ela é talentosa, mas os surtos dramáticos em cena não são muito diferentes do que os mostrados em O Lado Bom da Vida, algo que futuramente deixará de ser convincente pra ser um vício de interpretação, caso ela se acomode nesse exagero. Há poucos momentos em que sua personagem é dominante, e são momentos típicos e clichés para serem apresentados no telão do Oscar quando seu nome for bradado entre os indicados. Há até um beijo na boca de Amy Adams, que pode soar irônico e até engraçado, mas um tanto fora de contexto. De qualquer forma, a personagem é tão complexa quanto a de Amy (ou talvez até muito parecida), mas é tão coadjuvante que se fosse dispensada não atrapalharia a trama, ela só existe para dar uma profundidade dramática maior aos conflitos do personagem de Christian Bale, como se os que ele já possui não fossem bastante. Ela venceu prêmios importantes na categoria Atriz Coadjuvante, e tem grandes chances de novamente receber o Oscar pela sua atuação, mesmo porque esta categoria não esteja muito bem servida este ano.

É um filme longo (mais de duas horas) e que demora pra engatar na trama propriamente dita, uma primeira parte para apresentar e se aprofundar nos personagens e uma segunda para chegar na trama principal de fato, mas tudo é tão bem construido e costurado que essa divisão parece até muito simplópria no meio de tanta qualidade, além de tudo ser muito bem escrito e detalhado, ninguém precisa se esforçar pra entender o que acontece na trama principal ou entre os personagens, algo raro em filmes comerciais com tendência a aparentarem complexos demais só para enganar bobo.

CONCLUSÃO...
Como um todo, Trapaça é um filme sólido e respeitável, com qualidades técnicas que chegam a ser deslumbrantes e uma trama que envolve vagarosamente e surpreende, mesmo que sua conclusão já seja previsível. Merece figurar entre os melhores do ano e entre as listas da temporada de premiações, deverá ganhar em algumas categorias principais, mas não podemos ignorar também o fato de que o cinema de Hollywood anda cada ano mais fraco e sem grandes surpresas, por isso que a atenção e superestimação a poucos títulos aconteçam.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

BATMAN E SEUS AMIGOS...

★★★★★★★★
Título: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises)
Ano: 2012
Gênero: Ação, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Christian Bale, Tom Hardy, Anne Hathaway, Gary Oldman, Marion Cotillard, Joseph Gordon-Levitt, Michael Caine, Morgan Freeman, Matthew Modine
País: Estados Unidos, Reino Unido
Duração: 164 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Depois da morte de Harvey Dent no segundo filme, Batman assumiu todas as culpas do político corrupto, e posteriormente vilão, para que a Gothan visse em um cidadão comum um herói de verdade. Alguns anos se passaram e os tempos de guerra também, até uma nova ameaça ultrapassar os limites da cidade e os tempos de paz acabarem novamente, colocando em xeque não apenas sua resistência física, mas também psicológica.

O QUE TENHO A DIZER...
De todas as trilogias lançadas ultimamente, nenhuma chegou no nível alcançado por Batman. O Senhor dos Anéis (The Lord Of The Rings, 2001/2002/2003) consegue ser um exemplo único de excelência, mas nenhuma adaptação de quadrinhos conseguiu os méritos que Nolan conseguiu com Batman.

Tim Burton tentou fazer de Batman uma trilogia nos anos 90. Apesar do estrondoso sucesso do primeiro filme (arrecadou mais de US$400 milhões no mundo na época), o estúdio reprovou o clima sombrio e fantasioso que estavam muito mais fortes no segundo filme e que assustou um pouco a audiência, não repetindo o mesmo sucesso do primeiro filme. Pesadas críticas caíram sobre ele na época e os chefões exigiriam que o terceiro filme fosse mais leve e colorido. Burton, fiel ao seu estilo, recusou e gerou conflitos, se afastando do projeto para nunca mais voltar. Ele alegou que sua visão artística sobre as coisas é diferente da maioria das pessoas e que sua adaptação nada mais foi do que a forma como ele via o personagem. Na intenção de não ferir a visão comum novamente, além das pressões por todos os lados serem exaustantes, Burton prometeu nunca mais adaptar qualquer história em quadrinhos que fosse (ele havia recebido inúmeras propostas depois de Batman). E assim o fez e vem cumprindo.

Nolan conseguiu colocar as adaptações de quadrinhos em outro nível, justamente em um nível que Tim Burton havia tentado lá atrás. E é bastante irônico Burton ter sido duramente criticado quando, na verdade, ele foi um dos grandes responsáveis por ter traduzido o personagem numa linguagem mais popular e oferecido mudanças significativas que o herói teve tanto em caracterização, como em personalidade, aderidas em todas as mídias nos anos posteriores. Quem não se lembra da febre que foi os brinquedos do "Batman preto", como era chamado. O Batman do uniforme cinza e azul havia morrido, dando lugar a figura moderna e atualizada de Burton. Christopher Nolan aderiu muito da interpretação de Burton. A figura retraída, deprimida e soturna do personagem e o uniforme são bastante similares ao proposto por Burton no passado. Com excessão da arquitetura monocromática e biomecânica, a Gothan City de Nolan não é diferente da de Burton, já que a atmosfera gótica, fria e distante é a mesma. O foco de Nolan foi manter a fantasia dos quadrinhos e a realidade numa proximidade tangível, abordando fatos e personagens de maneira mais humana e menos extraordinária, dando explicações realistas para aquilo que antes era apenas justificativas fantasiosas e exageradas. Dessa forma, hoje podemos compreender melhor e de maneira mais verossímil porque Espantalho é um dos vilões mais assustadores, ou Coringa é o mais insano, ou Bane ser o mais forte e resistente. Até mesmo as "orelhas" da Mulher-Gato tem um fundamento e uma razão de existir na visão de Nolan.

O terceiro filme fecha um ciclo de história e de expectativa para aqueles que queriam um verdadeiro grand finale. Ele é grandioso nos seus 160 minutos praticamente imperceptíveis, com locações e cenários caóticos, muitos efeitos especiais e, principalmente, muita trama e conspiração que se enlaça perfeitamente com os filmes anteriores. Portanto, ter conhecimento dos dois primeiros filmes não é imprecindível, mas quem tiver terá uma experiência muito mais interessante.

Como foi dito em algum dos filmes anteriores e que não me lembro qual: "isso nunca tem fim". Essa frase é reafirmada de maneira diferente, mas o entendimento é o mesmo. O que não tem fim é o caos, e a proporção do crime, da corrupção e da passividade da população são ampliados como em uma lupa ao ponto de, em determinados momentos, entendermos de maneira clara as razões dos vilões fazerem o que fazem, pois essa ampliação nos deixa evidente os defeitos e as virtudes de seus atos. As justificativas dadas por eles também nos colocam em um muro sobre as atitudes do herói, nos levando a questionar se Batman existe para manter a ordem ou para manter o caos. Ele é um herói ou mais um perturbado que acredita estar fazendo o bem? Se ele é herói, por que ele sempre ajuda a manter a sociedade dentro de um platô de ignorância, ou dentro de uma mentira, como a de que Harvey Dent era um herói? Essas questões são levantadas em momentos chaves pelo mordomo Alfred, pelo detetive Blake e até mesmo por Bane e Selina.

Todos nós sabemos que o grande atrativo de Batman não é o personagem em si, que é sempre o mesmo depressivo, mimado e calculista que deixou de surpreender. A maioria das pessoas gostam do herói por causa de seus vilões que fogem dos padrões da insanidade, mas que sempre tem suas ações justificadas e até mesmo com fundos filosóficos e existencialistas. Outro ponto muito importante na franquia de Nolan é que ele soube não apenas escolher os vilões como desenvolvê-los nos filmes, dando espaço para apenas um de cada vez, ao invés de dois ou três como em outras adaptações de super heróis.

Dessa vez o sorteado foi Bane. Esse vilão surgiu nos quadrinhos em 1993. Para um herói que tem mais de 70 anos de história, Bane é um vilão relativamente novo a estar na lista dos mais grandiosos, poderosos e difíceis. Sua aceitação foi tão grande que o vilão ganhou preferência entre os fãs de forma quase que imediata nos quadrinhos. Ele chegou a aparecer pela primeira vez no filme Batman & Robin (1997), mas embora sua caracterização fosse bastante fiel à dos quadrinhos, sua personalidade era ridiculamente diferente. Nos quadrinhos Bane é um dos vilões mais inteligentes e cultos do mundo Batman, além de um exímio estrategista dependente de Venom, uma droga anabolizante que dá a ele naõ apenas a força e o tamanho que tem, mas também as alterações sensoriais e de comportamento. Mas no filme de Joel Schumacher ele foi retratado como um bombado paspalho de mentalidade limitada, o que revoltou por completo os fãs. A caracterização de Bane no filme de Nolan é forte porque Tom Hardy consegue fazer muito com pouco, mas não chega a ser impressionante e assustadora como deveria. Fisicamente concordo que Tom Hardy não tenha sido uma boa escolha para um papel que exigia um ator com largura e estatura verdadeiramente impressionantes, coisa que ele não tem, e por isso tentam a todo momento disfarçar a baixa estatura do ator com truques de câmera e angulações, mas isso pouco ajuda. Nem mesmo sua voz, que tenta ser uma releitura da cavernosa voz de Darth Vader, consegue causar um grande impacto. Em um filme com tanto cuidado técnico, deixaram passar um detalhe tão importante como esse. Logo na primeira fala do personagem o som destoa de todos os demais de maneira nítida. Não houve uma edição de som boa o suficiente para que, ao invés de colar a voz do personagem no filme, a inserisse dentro dele. A impressão que se tem é que a voz do personagem é uma gravação à parte. E realmente é. A voz do ator foi gravada, alterada digitalmente e inserida na pós-produção. Pra mim, foi um grande erro, porque quebra muito a proximidade entre o que está na tela e quem assiste.

Mas obviamente que a personagem mais aguardada pela maioria foi, sem dúvida, Selina Kyle, dessa vez interpretada por Anne Hathaway. Selina Kyle é a Mulher-Gato, mas neste filme ela não é chamada pelo nome de guerra em momento algum. São feitas apenas referências à figura da personagem, como as orelhas que ela usa durante o baile de máscaras (e seus óculos que, quando não usados, também parecem orelhas), seu uniforme que se assemelha bastante ao utilizado por Julie Newmar no sériado dos anos 60, e a forma como ela luta, que é bastante similar à de Michelle Pfeiffer em Batman, O Retorno (Batman Returns, 1992). Mulher-Gato é uma das personagens mais misteriosas e provocantes não apenas da DC Comics, mas da história dos quadrinhos. Ela não é uma heroína e nem uma vilã, ela é uma personagem solitária, feminista e contra o sistema, que rouba apenas para deixar os ricos com menos e não para proveito próprio. Tanto no filme de Tim Burton como agora, no filme de Nolan, essas características essenciais da personagem são mantidas, mas a abordagem tanto de Michelle Peiffer quanto de Anne Hathaway são bastante diferentes dentro de cada contexto. Fiquei um pouco desapontado e também concordo com quem não gostou da mudança de personalidade e direcionamento que ela sofre no decorrer do filme. Remorso, compaixão e companheirismo estão longe de ser adjetivos da personagem, e são qualidades que ela se aproxima bastante no filme de Nolan. De qualquer forma, mesmo sua personagem começando muito forte e perdendo a força no decorrer do filme, Anne Hathaway surpreende diversas vezes e conseguiu superar as expectativas, não tentando copiar ou disputar com nenhuma das anteriores, mas criando uma Mulher-Gato própria. Certamente ela já se tornou uma referência tanto quanto é Michelle Pfeiffer ou Julie Newmar. Corre a boca pequena que, entre Batman e Bane, Mulher-Gato é a personagem com maior índice de popularidade no filme, o que tem deixado o estúdio uriçado para tocar um novo projeto apenas dela e apagar o fiasco de Hale Barry da memória de todos.

Nolan já havia se consagrado um grande diretor com O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), mas neste filme sua qualidade é impecável. Em nenhum momento ele tenta fazer dessa terceira parte algo melhor que os anteriores, da mesma forma que em nenhum momento também podemos dizer que é inferior. Com a última parte da trilogia ele definitivamente conseguiu criar uma história única dividida em três partes, o que não o livra de críticas, mas que dá o mérito que pouquíssimos diretores conseguem: manter o nível de uma série. É a noção exata do que ter em mente, saber como passar para o papel e conseguir traduzir em imagens. O domínio do processo criativo.

O filme começa com a frase: "eu acreditava em Harvey Dent". E por toda e ignorante Gothan City acreditar em Harvey Dent, Batman preferiu que assim fosse ao invés de desmentir o homem de duas caras. E a partir disso o filme se desenvolve, e também ajuda a mostrar a outra face de cada um, trazendo à tona importantes revelações que chegam até a surpreender algumas vezes. Há até algumas referências e brincadeiras que ninguém esperaria. O baile de máscaras e a abordagem de Bruce Wayne e Selina Kylie oferece um leve e interessante deja vu de uma cena similar em Batman, O Retorno, ou a participação de Cillian Murphy como o Juíz, após a explosão do presídio, que também é um episódio presente nos quadrinhos.

Particularmente eu esperava uma resolução mais trágica ou uma grande batalha de fato, tanto quanto foi nos quadrinhos, mas isso só teria acontecido se não fosse o fim de uma trilogia. De qualquer forma, não posso dizer muito mais sobre o filme porque ele consegue surpreender bastante, e apesar de algumas coisas que considerei desagradáveis, saí do cinema bastante satisfeito e nenhum pouco enganado. Embora a trilogia seja baseada fortemente na série de Frank Miller, O Cavaleiros das Trevas Ressurge (1986), este último filme também tem grandes referências de um período nos quadrinhos entitulado A Queda do Morcego (Kinightfall). Logo, quem conhece ao menos o básico desses dois períodos não só vai prever muito do que acontece no filme como também vai encontrar várias outras similaridades e referências que eu poderia contar, mas seria estragar as surpresas que não apenas Nolan, mas como todos os atores conseguiram guardar tão bem.

CONCLUSÃO...
Um dos raros momentos em que é possível sair do cinema satisfeito com o fim de uma trilogia. Há uma linearidade e coerência entre os três filmes que só é compreendida depois de terminar de assistir esta terceira e última parte. Não chega a ser perfeito, mas os defeitos ficam facilmente debaixo da sombra das qualidades que aparecem porque, depois dos dois primeiros filmes, não estamos mais interessados muito no que há para mostrar, mas no que há para ser contado e como tudo vai terminar. Há o fato de podermos ter a oportunidade de interpretar outras facetas do herói frente a seus constantes erros.
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