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Mostrando postagens com marcador Michelle Pfeiffer. Mostrar todas as postagens
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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

SALVO PELO GONGO...

★★★★★★☆
Título: Assassinato no Expresso do Oriente (Murder On The Orient Express)
Ano: 2017
Gênero: Policial, Suspense, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Kenneth Branagh
Elenco: Kenneth Branagh, Johnny Deep, Tom Bateman, Daisy Ridley, Josh Gad, Michelle Pfeiffer, Penelope Cruz, William Dafoe, Judi Dench, Olivia Colman
País: Reino Unido, Estados Unidos
Duração: 114 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Ao pegar o Expresso do Oriente, o conhecido melhor detetive do mundo, Hercule Poirot, se vê envolvido em um crime à bordo, sobrando a ele resolvê-lo.

O QUE TENHO A DIZER...
Talvez a última vez que uma obra de Agatha Christie tenha sido vista no cinema de grande circuito seja em 1989, na adaptação de O Caso dos Dez Negrinhos/E Não Sobrou Nenhum (Ten Little Niggers/And Then There Were None). Houve uma adaptação britânica de A Casa Torta (Crooked House, 2017), mas longe de ter a mesma divulgação e o mesmo sucesso que esta nova versão de Assassinato no Expresso do Oriente.

Christie tem uma base sólida de fãs que se renova geração após geração, mesmo depois de quatro décadas após sua morte, em 1976. A "dama do crime" sempre foi considerada uma autora perspicaz, e sua fórmula criou um gênero próprio dentro do estilo policial que, embora muito popular principalmente na Europa, tinha uma marca registrada tão forte que suas obras são únicas. Mas como dito, era uma fórmula, da qual Christie utilizou incansavelmente ao longo de sua carreira até o desgaste em meio de seus mais de 80 livros, sendo 33 deles protagonizados pelo seu mais famoso personagem, Hercule Poirot. Por essa razão, ela é considerada muito mais uma novelista do que uma romancista, porque seus livros são de situações afins (há sempre um crime e um assassino a ser descoberto), com narrativas mais sóbrias e diretas, e personagens que raramente saem da bidimensionalidade, tudo isso numa linguagem típica de livros de banca, sempre mais preocupada em desenvolver situações do que personagens. Em suma, suas obras são materiais de entretenimento e nada mais, algo que ela nunca contrariou.

Mas isso não significa que seja literatura ruim, de forma alguma. Suas histórias de crimes mirabolantes são imersivas, e as mais diversas situações e cenários que ela cria são, de fato, de uma perspicácia que sempre pega seu leitor desprevenido, por mais óbvia que possa parecer, além de ter embutido o típico humor britânico que tira a carrancuda seriedade do estilo. Mas quanto mais nos familiarizamos com sua personalidade literária, mais previsível suas histórias se tornam.

Ela não escreveu livros para ela, mas sim para seu público. Tanto que Poirot, ao contrário do que muita gente pode imaginar, não era seu personagem preferido. A verdade é que ela não o suportava e só não o matou antes de Cai O Pano (1975) porque, apesar de ser um personagem detestável (e que ela o fez se tornar mais detestável ao longo dos livros), tinha uma excentricidade cativante e que o público adorava, e matá-lo antes teria provocado a ira de seus leitores.

Por conta da própria estrutura de suas novelas, é notável que sejam materiais melhores adaptados para a televisão do que para o cinema, e é por isso que Christie não é muito levada para as telonas, e poucos são aqueles interessados nisso. Talvez seja essa a grande razão de um hiato de quase três décadas de alguma de suas obras no cinema, e mesmo que a adaptação de Branagh, com roteiro de Michael Green (o mesmo de Logan e Blade Runner 2049), seja bastante fiel (com uma ou outra leve mudança aqui e ali para adequá-lo aos dias atuais) e de uma produção impecável (e que chega até a fazer referências à adaptação de Sidney Lumet, de 1974), é possível ter uma sensação que não desgruda de que algo falta para causar aquele impacto que deveria.

O diretor, assim como o roteiro, se preocuparam demais em transformar Poirot no grande protagonista do cenário. Sim, ele é o protagonista da história e nós já sabemos disso, portanto não era necessário focá-lo a todo instante, até mesmo quando demais personagens estão presentes, interpretados em sua grande maioria por nomes de peso. Atores que, na verdade, parecem estar lá apenas fazendo pontinhas, contendo o seu brilho para não ofuscar o brilho do colega, pois seus personagens tem o espaço constantemente roubado pelo protagonista e suas excentricidades maníaco-obsessivas (como não conseguir comer dois ovos de tamanhos diferentes ou conversar com quem esteja com a gravata torta). Então, no pouco espaço que sobra para eles se destacarem, eles os fazem com afinco.

Dessa forma, mesmo com participações tão breves e personagens que existem apenas para ações chaves na história, e por isso sem grandes profundidades dramáticas ou desenvolvimentos, todos os atores conseguem dar a cada um deles mais do que eles oferecem, como transformar um desenho no papel em uma escultura de barro, pois se não tivesse sido isso, eles poderiam ter sido substituídos por quaisquer outros. E talvez essa tenha sido realmente a função deles, já que o filme dificilmente se sustentaria sozinho, sem grandes nomes para auxiliar.

Portanto, salvo pelo gongo, são os atores em suas posições bem coadjuvantes que conseguem segurar todas as pontas mais do que o protagonista e a própria história. Além da direção bastante clássica de Branagh, que raramente - a quase nunca - sai do convencional, deixar tudo muito perfeito e bem alinhado, com ar datado e extremamente politizado, resultado óbvio de sua fissura por Shakespeare por tantos anos (só ele adaptou 5 obras do autor) e que igualmente foi visto em Thor (2011).

Esse protocolo pessoal que parece que o diretor segue não trás uma agilidade necessária para alimentar o clássico suspense do famoso "quem matou", característico das obras de Christie, e quando a história atinge seu clímax, ele não consegue engrandecê-la. Toda a trama construída até então perde forças, e a conclusão não surpreende da forma como o livro consegue fazer. Os acontecimentos se revelam na velocidade de uma leitura, quando ler e ver são duas coisa completamente diferentes, de tempos bastantes distintos.

Do excesso de zelo e ponderação na hora de revelar o corpo esfaqueado, à extrema falta de sutileza ao revelar o crime aos personagens, há um desequilíbrio que tira a surpresa e a expectativa nos momentos onde mais deveriam aparecer. Colocar todos os personagens juntos ao final também careceu de um metrônomo para ajudar no compasso, um momento que se torna o exemplo óbvio do motivo das obras da autora se encaixarem muito melhor na televisão do que no cinema, porque pareceu muito mais a conclusão do último capítulo de um folhetim de Silvio de Abreu do que uma produção de US$55 milhões.

E mesmo com esses defeitos, ainda é um filme atraente porque, tal como os livros, foi feito com nenhuma outra intenção além de entreter com classe. O problema é que Branagh utilizou classe demais.

De qualquer forma, é interessante ter Agatha Christie de volta aos cinemas, e a intenção de Branagh com esse filme é transformá-lo em uma franquia caso fizesse sucesso, e assim explorar o universo de Poirot. Não é à toa que o final do filme é um gancho para Morte Sobre O Nilo, e depois de ter arrecadado mundialmente mais de US$350 milhões, é mais do que óbvio que a continuação recebeu carta verde e já está em pré-produção, com lançamento previsto para 2019.

OBS: detalhe para canção original do filme, apresentada nos créditos finais, cantada por Michelle Pfeiffer.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

DA GÊNESIS AO APOCALIPSE...

★★★★★★★★☆
Título: Mãe! (Mother!)
Ano: 2017
Gênero: Suspense, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Darren Aronofsky
Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Kristen Wiig
País: Estados Unidos
Duração: 121min.

SOBRE O QUE É O FILME?
O relacionamento de um casal é posto à prova quando um grupo de estranhos os visitam, atrapalhando a vida tranquila que tinham.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando Deus criou a Terra, ele deu a Natureza o poder do ciclo perpétuo da vida, e deste ciclo a criação de outras vidas. Mas não era o bastante, e à sua imagem e semelhança, colocou na Terra um homem, chamado Adão para ter alguém que pudesse amá-lo e adorá-lo. Para tirar a solidão de seu filho, dele foi retirada uma costela, e dela Eva foi feita. Ambos podiam usufruir de tudo aquilo que a Natureza poderia oferecer, só não podiam cometer o pecado original. O pecado original retirou de seus filhos a atenção e devoção, e dele nasceram Caim e Abel. A inveja levou o mais novo a matar o irmão mais velho, e assim os pecados foram perpetuados por seus descendentes, geração após geração, que juntos aos sete pecados capitais e a quebra dos 10 mandamentos, gerariam o caos, a guerra e à destruição. Deus não é perfeito, pois sua imagem e semelhança cometeu erros, mas em suas mãos existe o poder para destruir e reconstruir de novo, e para isso ele precisa apenas da materia prima mais pura da Mãe de todas as mães, aquilo que ela sempre ofereceu, mas ele nunca aceitou por ter ficado cego pelas belezas que criou.

E dessa mesma forma, mas contado de uma maneira muito mais peculiar, é que a história do casal interpretado por Javier Bardem e Jennifer Lawrence começa em sua bela casa de campo, afastados de qualquer civilização.

Sim, a base de todo o filme é o resumo dos livros Genesis e Apocalipse, da criação e da destruição. Dizer isso não é um spoiller, mas um favor para a melhor compreensão do filme e dos impactos que ele gera ao longo de suas duas horas. Mas falar sobre a história propriamente dita e suas mais obvias referências, é fazer sentido até aí, porque depois disso o filme é ribanceira abaixo para uma enxurrada de associações, metáforas e alegorias de outras metáforas e alegorias, já que não só da Bíblia que tudo se baseia. Como dito, o filme apenas utiliza o livro religioso como as principais bases da história, mas é possível identificar outras, como a da casa viva, que se torna o reflexo de quem vive nela. E assim como em A Guerra dos Roses (The War Of The Roses, 1989), no qual o cenário se desfalece conforme a relação entre o casal protagonista chega ao ápice da auto-destruição, o mesmo é de ser esperado no filme de Darren Aronofsky, mas com muito mais informações e parenteses até isso acontecer.

Não era de se esperar algo diferente do diretor, o qual também assina o roteiro e a produção, tal qual fez com seus filmes anteriores, e igualmente perturbadores, Requiem Para Um Sonho (2000) e Cisne Negro (2010), além dos questionamentos religiosos e espirituais que ele faz em Noé (2014), algo que ele volta a explorar aqui, mas de maneira muito mais crua e chocante.

Dessa vez o diretor viaja fundo nas entranhas da humanidade, nas suas crenças e descrenças, da sua forma mais simbólica até a mais folclórica. Se em Requiem ele divagou sobre os prazeres pessoais e até que ponto os diferentes personagens estavam dispostos a ir pelos seus sonhos e vontades, e em Cisne ele pegou praticamente a mesma premissa, mas condensou o processo obsessivo na protagonista, aqui ele também volta a dialogar sobre vontades, obsessões e ambições, mas de uma forma tão abrangente e espalhada que é difícil não pensar em mil coisas ao mesmo tempo.

De uma esposa dedicada até a incontrolável ira de uma mãe, da misoginia ao abuso e a violência física. O filme de Arenosfky é perturbador no seu inexplicável trajeto final. Um misto de sensações que extrai e nos joga na cara as piores naturezas humanas. Por situações muito rápidas, Arenofsky tenta até ser didático ao seu espectador com as referências que usa, como quando o personagem de Ed Harris está no banheiro e Lawrence enxerga uma ferida em sua costela, ou quando a própria Lawrence diz próximo ao fim do filme que precisa organizar a bagunça deixada pelo Apocalipse. Apenas dois exemplos de vários espalhados por toda a trajetória do casal.

Essa é a intenção do diretor desde o princípio, tanto que a polêmica criada em torno do filme surgiu justamente pelas pessoas não terem conseguido entender quais eram as alegorias, e aqueles que entenderam consideram o filme uma heresia, uma deturpação religiosa sem fim, dentre outros absurdos.

Mas Mãe! não é apenas de religião ou espiritualidade, mas a consequência de tudo isso e de toda a relação humana, sendo, acima de qualquer coisa, uma ode (ou um novo requiem) ao inconveniente: das heranças culturais machistas; da imposição social; da opressão sexual; da intrusão; do desrespeito; da desvalorização humana; das ilusões sociais; da impotência; da inferiorização; da cultura vazia; da idolatração; da deturpação de valores; do definhamento humano; da exploração; do abuso; da ignorância e incompreensão; do medo, do caos, do pânico e da discriminação; do colapso; da segregação; da re-ascensão conservadora; da intolerância; da violência gratuita e sem propósito; do surto coletivo; do comportamento de rebanho; da perda da fé, da identidade e da esperança, etc... etc...

Das doenças sociais que nos afetam, transformam nosso meio e nos fazem ser o que somos. A imagem e o resultado nu e cru do fim que nós mesmos construímos.

É como o poema transformador do personagem de Javier Bardem, responsável por abrir os olhos daqueles que o leem, assim como os cegos que voltaram a enxergar em Ensaio Sobre A Cegueira, de José Saramago. É a Caixa de Pandora da Mitologia Grega aberta, liberando todos os males e, junto, indo embora a única coisa que não poderia jamais ter saído.

É óbvio que a viagem de Aronofsky é muito mais lisérgica. Segundo ele, é um filme psicológico-delirante, construído para não ter uma lógica óbvia, e quanto mais se tenta encontrar respostas ou significados para ele, mais questionamentos ele cria, numa onda sem fim. É um daqueles típicos filmes que favorecem a masturbação mental, mas que de uma forma intrigante desenvolve questões humanas profundas e de problemas tão atuais e viscerais que chega a ser indigesto. 

Da criação ao apocalipse, da origem ao fim, e do fim ao recomeço. É assim que Mãe! é. Um filme que nem agrada e nem desagrada, e terá uma interpretação diferente para cada pessoa dentro de suas referências principais. Por isso eh um filme desconfortável, polêmico e controverso. Todo o exagero do ser está lá, e a reação exagerada do público quando ele foi lançado, como aconteceu com as vaias em Cannes, apenas faz toda a ficção delirante do longa ser um mero reflexo da nossa mais estúpida realidade.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

BESSON É ASSIM MESMO...

★★★★★
Título: A Família (The Family)
Ano: 2013
Gênero: Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Luc Besson
Elenco: Robert De Niro, Michelle Pfeiffer, Tommy Lee Jones
País: Estados Unidos, França
Duração: 111 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
O clã mafioso dos Manzoni agora foi relocado na Normandia sob o programa de proteção a testemunhas. Agora tentam levar uma vida normal, mesmo que seja difícil tirar do sangue italiano a brutalidade pela vingança.

O QUE TENHO A DIZER...
A Família foi dirigido, escrito e produzido pelo francês Luc Besson. Não vou me estender aqui sobre quem é esse diretor, ao invés disso vou apenas citar que ele criou o exemplo máximo da femme fatale em Nikita (1990), depois foi o responsável por dar o primeiro papel a Natalie Portman em O Profissional (Léon, 1994), conseguiu também transformar a modelo Milla Jovovich naquilo chamado de "atriz" no que também virou uma referência da ficça-ação científica em O Quinto Elemento (The 5th Element, 1997), e conseguiu repaginar a carreira de Liam Neeson como um senhor de ação em Busca Implacável (Taken, 2008/2012), franquia que já foi anunciada terceira parte (embora Besson não tenha dirigido nenhuma, apenas criou os personagens e escreveu o roteiro).

O seu sucesso como diretor o transformou mais em um grande produtor do que um grande cineasta (são 15 longas como diretor, contra mais de 100 como produtor). A fama não faz tanto jus ao talento. A maior força de Besson sempre esteve nos poucos e memoráveis personagens que ele criou, mais do que na sua capacidade como diretor ou roteirista.

Neste filme de humor negro e pesado na violência, que mais funciona como uma sátira sobre histórias de máfia e gângsters contados no cinema ao longo dos anos, não seria diferente. Os personagens são muito mais interessantes do que a história em si, e que infelizmente também perdem sua força conforme o filme chega ao fim.

O elenco, formado por atores que, em sua maioria, já passaram dos 50 anos de idade, também tenta pegar carona nas produções de ação que agora resgatam atores desta faixa etária para agradar o público da mesma idade e conquistar os mais jovens ao mostrar que, sim, eles ainda são capazes de carregarem um filme deste gênero com muito empenho. Exemplos destes filmes são: o sucesso da terceira idade chamado Red - Apostentados e Perigosos (Red, 2010), cuja continuação de 2013 foi um fracasso; Os Mercenários (The Expendables, 2010), que também terá uma terceira parte este ano; Liam Neeson novamente em Desconhecido (Unknown, 2011); Liam Neeson novamente outra vez em A Perseguição (The Grey, 2011); e por aí vai...

Conta a história da família Manzoni, que resolveu delatar seus comparsas para tentarem largar a vida do crime e viver uma vida normal, comum e correta através do programa de proteção a testemunhas que existe nos Estados Unidos, onde um grande criminoso pode ter sua pena reduzida ou perdoada caso ele colabore com a justiça na ajuda pela busca e/ou identificação de outros criminosos dentro de um grupo correlato ou afim. O programa agora enviou a família para a Normandia, na França, onde terão que se adaptar com os costumes locais e viver através do disfarce de uma familia americana tradicional, que gosta de churrascos e filmes. O problema é que o sangue italiano e o temperamento explosivo de todos os impedem de se adaptar nesta vida pacata e pacífica, e qualquer motivo se transforma em uma grande razão para retaliações severas como explodir um supermercado porque ouviu os donos falando mal da manteiga de amendoim, espancar o colega de escola com uma raquete porque ele tentou roubar um beijo, ou quebrar todos os ossos do encanador com um taco de baseball porque ele quis cobrar caro pelos serviços.

Essa violência por pouca coisa, absurda e um tanto surreal, deixa de ser chocante pra ser engraçada porque desde o princípio sabemos que o filme não é pra ser levado a sério. É até divertido em sua esquisitice, e que mais chama atenção por situações engraçadas criadas pelos atores, principalmente por Robert De Niro, que criou uma sátira dos personagens feitos por ele mesmo depois de tantos filmes seríssimos com Scorcese sobre o mesmo tema. Há até um momento para uma pequena referência a um de seus clássicos (Scorcese também assina a produção deste filme). Portanto, vendo o ator americano atuar como um chefe da máfia italiana, que fala inglês fluente e com sotaque meio italiano e meio novaiorquino (do Brooklyn) naquele mau humor e rustidez típica, chega a ser hilário e mais uma prova de como ele é bom. Michelle Pfeiffer é sempre graciosa demais para ser ignorada, mas está dentro da zona de conforto e só consegue arrancar algumas risadas também no falso sotaque que às vezes ela solta esguelado, como um miado de um gato velho.

Mas o roteiro não ajuda a segurar as qualidades. Toda a história poderia ter sido melhor aproveitada se a ordem dos acontecimentos tivessem sido diferentes no roteiro. Muita coisa que está no fim, deveria ter acontecido no começo, muita coisa que está no começo devia estar no fim e várias das coisas que está no meio poderiam ter sido divididas entre o começo e o fim. Demora muito para entendermos o que está acontecendo, quem é quem na história, ou sobre o que é tudo. Toda a explicação é dada em uma conversa entre De Niro e Tommy Lee Jones (seu personagem é totalmente dispensável na história) de uma forma pouco clara e direta, quando o roteiro caminhou em tanto buraco que ninguém mais está interessado em saber.

Como dito, conforme o filme chega a seu fim, os personagens vão perdendo sua força, bem como a narrativa empobrece mais ainda e transforma tudo em um filme descartável. Uma pena, há muito talento para pouca coisa na tela. Muito potencial para pouca visão. Tinha tudo para ser bom, só não teve ordem de idéias.

CONCLUSÃO...
De qualquer forma, para quem estiver mais interessado em De Niro, nos personagens, ou na violência cômica criada, vale a pena assistir, porque apesar de seus defeitos, não é um filme irritante e seus bons e esparsos momentos valem a pena. Mas assista sem muitas expectativas, porque Besson é assim mesmo.

domingo, 23 de setembro de 2012

DRAMA DE NOVELA...

★★★★
Título: People Like Us
Ano: 2012
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Alex Kurtzman
Elenco: Chris Pine, Elizabeth Banks, Olivia Wilde, Michelle Pfeiffer
País: Estados Unidos
Duração: 114 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sam (Chris Pine) recebe a notícia de sua namorada, Hannah (Olivia Wilde), que seu pai ausente e irresponsável morreu. Mesmo relutante, ele vai para a casa de sua mãe, Lillian (Michelle Pfeiffer). Lá descobre, por intermédio de um testamenteiro, que ele tem uma irmã e um sobrinho, do qual nunca ouviu falar, e agora ele terá que lidar com esses dois lados da família e suas escolhas.

O QUE TENHO A DIZER...
Esse filme é a estréia do roteirista e produtor Alex Kurtzman na direção, que teve êxito ao produzir alguns episódios de seriados como Xena - A Princesa Guerreira (1995-2001), Alias (2001-2006) e Fringe (2008), além de dois filmes que foram de enorme sucesso comercial para seu currículo como o reboot de Jornada Nas Estrelas (Star Trek, 2009) e a comédia romântica A Proposta (The Proposal, 2009). O roteiro é assinado por ele em colaboração com mais dois autores, Roberto Orci e Jody Lambert. Roberto Orci parece ser colaborador de longa data, já que ambos possuem vários trabalhos em comum, enquanto o outro roteirista deve ter sido um tipo de estagiário, já que não possui algo muito relevante.

Esse drama, ainda inédito no país, atraiu minha curiosidade por ter um elenco bastante forte que é encabeçado por Chris Pine, ator atualmente em ascenção. O filme começa com Sam, um negociador corporativo egoísta, ambicioso e mentiroso, tendo problemas em sua empresa depois de uma das suas negociações violar leis federais de troca de produtos. Seu chefe o obriga a contornar a situação subornando os agentes responsáveis pela investigação com seu próprio dinheiro, ou ele será responsabilizado por todas as irregularidades. Ao mesmo tempo, Sam volta para casa e recebe a notícia da morte de seu pai. Relutante, acaba voando para Los Angeles para visitar sua mãe, Lillian (Michelle Pfeiffer). Por intermédio de um testamenteiro, descobre que seu pai deixou uma quantia de US$150 mil para um garoto chamado Josh, de 11 anos. Determinado a ficar com o dinheiro e resolver os seus atuais problemas, ele acaba descobrindo que Josh é, na verdade, seu sobrinho, filho de uma meia-irmã paterna, Frankie (Elizabeth Banks), da qual ele nunca ouviu falar. Sam se aproxima de Frankie, mas não consegue contar a verdade em momento algum.

O enredo do filme é do típico drama que norte-americano adora, envolvendo a difícil relação familiar e da dificuldade de aceitação dos erros dos pais pelos filhos depois que eles já estão adultos. Começa com a redundante e desnecessária informação de que é baseado em fatos reais, talvez para aumentar o vínculo entre o público e o drama. A verdade é que o que o protagonista vive com sua família, mesmo não sendo comum, é bastante recorrente não apenas no cinema como também na vida real, pois sabemos que acontece e existe por aí. Ao mesmo tempo isso também não significa que o filme seja carregado desse apelo pessoal que nos identifique a todo o tempo com a realidade, pois embora o título do filme tenha essa intenção, a história não fala de pessoas como nós, nem no sentido de conexão com os personagens e nem no sentido de que os protagonistas do filme sejam pessoas tão comuns quanto a gente, e os roteiristas não conseguem em momento algum criar esse vínculo.

Há um momento no filme que Frankie diz que você identifica uma mentira quando a pessoa carrega os fatos em detalhes desnecessários. O exagero do filme em "carregar" a história com paralelos inúteis é o que transforma tudo em um drama fictício e inverossímel, contradizendo a informação dada no começo. Os problemas profissionais que Sam está passando não tem nenhuma finalidade no filme além de tentar dar profundidade à sua personalidade egocêntrica e covarde que já são exploradas bastante nas suas relações familiares, deixando essa trama paralela suspensa e sem resolução, aparecendo aleatoriamente durante o filme para criar momentos de indecisão forçadas e que não levam a nada. Demora para os personagens e a história encontrar seu tom, e isso só vai acontecer depois de uma hora de filme.

Esse desenvolvimento confuso do roteiro é o que estraga uma história que poderia ter sido mais sincera e realista se tivesse mantido o foco apenas na relação familiar e nas dificuldades de administrar descobertas que levam a escolhas importantes e definitivas para todos. As tramas e complexidades dispersas não dão oportunidade a personagens e atores crescerem, como acontece com Michelle Pfeiffer, que faz o papel da mãe, se tornando uma personagem esquecida tanto quanto a personagem de Olivia Wilde.

A cena de reencontro entre Lillian e Sam mostra que ambos tem uma relação de um passado aparentemente conturbado e difícil, mas que nunca é desenvolvido ou explicado, envolvendo até um tapa no rosto de Sam, sem muita lógica ou nexo. A própria atriz insistiu que essa cena fosse deletada, alegando que que seria difícil para o espectador compreender o motivo e posteriormente ter compaixão por ela. E realmente fica difícil compreender essa sequência, porque a relação entre ambos segue como se nada disso tivesse acontecido, ignorando um passado turbulento que exista entre eles.

O foco fica sempre na relação entre Sam e Frankie, sua meia-irmã, uma alcólatra em reabilitação que também tem dificuldades com seu filho adolescente e rebelde, personagem que só tem a intenção de acentuar o apelo dramático e de como sua personagem é uma mãe esforçada e trabalhadora, que além de ter tido uma infância traumática e uma adolescencia problemática, também tem que lidar com o filho que não se adapta na escola por conta da ausência de uma figura paterna. A relação construída nesse núcleo é um tanto forçada, já que Sam invade a vida de ambos sem pedir licença e Frankie aceita de bom grado sem nem ao menos questionar em qualquer momento suas origens ou intenções, como se nenhuma experiência de vida a tivesse ensinado alguma coisa, se extendendo até a uma tensão sexual desnecessária que ocorre no ápice da relação dos dois, momento que, aí sim, ela resolve questioná-lo sobre tudo.

A inexperiência do diretor e o roteiro vago esquecem que a inteção do filme é mostrar como é difícil para todos lidar com as diferenças da instituição familiar e como as escolhas são importantes para que esses laços sejam mantidos independente dos graus de proximidade e de diferenças, além da posição que devemos tomar para a manutenção desses vínculos. Por conta disso o filme nunca atinge esse vínculo pessoal com o espectador, que vai absorver muito pouco ou achar pouca coisa relevante para ser interpretada como uma grande moral ou lição a ser aprendida.

CONCLUSÃO...
Sem dúvida é um filme sofrível de ser assistido por conta do péssimo desenvolvimento e de uma direção perdida. O pouco êxito se dá por conta da experiência dos atores, que nem precisaram ser dirigidos pelo visto, e a grande intenção que tiveram de fazer tudo funcionar como deve. Mas o produto final não agrada, virando um filme com uma traminha aguada de novela.
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