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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

NÃO DESCE NEM COM GRAVIDADE...

★★★★
Título: Interestelar (Interstellar)
Ano: 2014
Gênero: Drama, Ficção Científica
Classificação: 14 anos
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, David Oyelowo, Michael Caine, Matt Damon, Jessica Chastain
País: Estados Unidos
Duração: 169 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A Terra se voltou contra os próprios humanos, as plantações morrem e tudo está sendo tomado pela poeira. A única alternativa para preservar a vida humana é enviar um aposentado piloto da NASA para sua última missão espacial que não terá qualquer perspectiva de volta.

O QUE TENHO A DIZER...
"O universo é cheio de fatos facinantes. Cheio de coisas impressionantes para contemplar como, por exemplo, o tamanho de nossa Galaxia. A luz viaja a 300.000km/s e mesmo assim demora 100.000 anos para um simples feixe atravessar toda a Via Lactea. Nossa Galaxia, como bem disse Carl Sagan, é apenas uma entre bilhões e bilhões. A imensidão do espaço é inimaginável".

Esse trecho acima, de outro comentário publicado sobre o filme, resume muito do que Interestelar deixa de ser. Toda a imensidão do universo e suas belezas admiráveis são coadjuvantes. É como ter Sex And The City sem Nova York, Ginger Rogers sem Fred Astaire, ou Gravidade sem Sandra Bullock.

Dirigido, escrito e produzido por Christopher Nolan. O roteiro é em parceria com seu irmão Jonathan. É uma ficção científica dramática espacial que discutirá, dentre várias coisas, viagem no tempo, física quântica, dimensões paralelas e o futuro da exploração espacial. O diretor acabou incluindo o físico teórico Kip Thorne na produção para servir como consultor sobre o tempo espacial, já que é o tema mais recorrente no filme. Dessa forma ele manteria as reproduções sobre o Buraco Negro ou sobre o Buraco de Minhoca os mais próximos possíveis daquilo deduzido na intenção de serem criados e mostrados no filme com base na ciência e não na imaginação dos roteiristas.

Assim como Nolan fez em seus filmes anteriores, como na trilogia Cavaleiro das Trevas e no superestimado A Origem (2010), há referências bastante diretas de outros filmes, como Wall-E (2008), Contato (Contact, 1997), Alien (1979), e claro, 2001 (1968), que evidentemente é uma regra referencial em toda ficção científica que se preze.

O que os roteiristas fazem é pegar os elementos mais importante de cada um desses filmes (e outros também), juntar tudo em uma coisa só e dar uma nova roupagem. É exatamente o mesmo processo criativo que Nolan utilizou em A Origem, que na verdade é uma cópia bem modificada de Matrix (1999).

Toda a produção foi mantida em sigilo contratual, ninguém envolvido na produção poderia comentar sobre o filme. Essa é uma velha tática do cinema para aumentar aquilo chamado de "buzz" e superlotar as salas de cinema para arrecadar na bilheteria o valor mais próximo possível de seu orçamento logo na estréia. Tudo isso aconteceu, e as pessoas compraram muito bem toda a idéia um tanto desnorteada e sem a mesma desenvoltura narrativa da trilogia do diretor sobre o homem morcego. Tanto que Interestelar tem hoje uma pontuação média de 8.6 no IMDb, com mais de 430 mil avaliações. Como bem disse Rubens Ewald: "O espectador ocasional é que decretará a sentença (do filme ser bom ou ruim). Preguiçoso como ele costuma ser". E a preguiça é no fato do público leigo ou ocasional pouco se importar em analisar os pormenores daquilo que assiste e também pelos fãs se deixarem levar pela extrema parcialidade. Essa pontuação é (pasmem) maior que de seu antecessor mais próximo, Gravidade, no qual Interestelar tenta ser visual e tecnicamente bastante similar, mas está anos luz de ter o mesmo grandioso impacto e ser o mesmo grandioso espetáculo.

O filme começa muito bem e muito ruim ao mesmo tempo. Inicia num tom meio documentado por conta de alguns depoimentos que deixam um suspense meio obscuro no ar, além de toda a ambientação rural norteamericana e as casas vulneráveis nos milharais ajudarem na ambientação distópica e um tanto sinistra. Essa atmosfera inicial é muito parecida com a que M. Night Shyamalan fez em Sinais (Signs, 2002), naquela sensação de que parece que os personagens estão sendo observados o tempo todo, de que algo está próximo, mas não se vê. Até a trilha sonora com poucas variações, baixa e constante ao fundo pra deixar a atenção do espectador mais desperta é utilizada da mesma maneira. Mas nada incomoda, tudo é feito muito bem e se fosse pra ser um filme de terror, ele teria começado de forma brilhante.

Mas aí algumas gafes começam a aparecer logo nos primeiros vinte minutos de filme, como o personagem de Matthew McConaughey ter diversas colheitadeiras gigantes e automáticas, mas sem qualquer explicação (nenhuma mesmo), elas deixam de realizar o trabalho programamado para terem vontade própria, como um poltergeist, só pra causar um frisson paranormal que não existe. Depois disso o protagonista descobre uma base ultra secreta que ninguém poderia achar. Ninguém! Ele pergunta o que é tudo aquilo mesmo com uma bandeira gigantesca escrita em letras garrafais "NASA", bem do seu lado direito. Outro problema é que o filme se passa em um futuro onde a tecnologia é tão evoluída que o protagonista consegue invadir o sistema de um drone militar e dominá-lo com apenas um touchpad, mas um dos integrantes da equipe da NASA custa a acreditar que alguém pudesse encontrar a base ultra secreta situada ao ar livre no meio de uma planície. Então pra este caso vamos julgar (apenas julgar) que o Google Earth ainda não tivesse sido inventado no futuro do filme. Aí tem a NASA, que dispõe de umas caixas de fósforo gigantes que eles chamam de robôs, que se locomovem como se estivessem sobre muletas quando um par de rodinhas podia ter facilitado muito a vida dessas máquinas e da equipe de efeitos especiais porque é pra isso que a roda foi inventada. Mais engraçado é que, quando o personagem se apresenta, todos da equipe sabem que ele foi um antigo piloto da NASA, mas todo mundo faz boquinha de siri e trata ele como um meliante só pra ter aquele momento "TE PEGUEI EM HOLLYWOOD, VAMOS PARA O ESPAÇO".

Sério, tudo isso em menos de 20 minutos...

Para um filme que quis ser muito sisudo, todas essas pequenas faltas de atenção chegam a ser ultrajantes, diminuindo bastante sua credibilidade pra quem é mais atento, e toda a excelente ambientação do início é logo esquecida. A partir daí o filme deixa a atmosfera Shyamalan de lado pra entrar na ficção científica de fato, o que é sempre um grande desafio.

Há um risco muito grande em falar sobre algo que se desconhece. Sobre o que desconhecemos, ou deduzimos com bases científicas, ou inventamos com base na imaginação. No caso desse filme, Nolan deduz e se baseia em teorias científicas apenas quando o filme precisa apertar o passo pra se resolver, e inventa a maioria das coisas na maior parte do tempo com muita pouca coerência com a realidade para preencher minutos extras. Inventa e inventa feio! Inventa rude com explicações que explicam nada porque ninguém vai entender metade do que eles teorizam em cena. Quando o roteiro para de inventar, ele cai no melodrama, como na cena em que o protagonista discute com a personagem de Anne Hathaway qual a melhor decisão tomar entre os planos A e B. Outra coisa que se percebe é que, como dito acima, toda essa imensidão do universo é desperdiçada em subtramas paralelas que se passam na Terra para evidentemente encomizar nos efeitos especiais e dar saltos temporais na ambientação espacial.

Tudo se torna uma bagunça que pode ter algum certo fundamento para os aspirantes a físicos quânticos espalhados por aí, mas para a audiência leiga é tudo simplesmente um festival impressionante de "qualquer coisa no espaço". 

Os personagens muitas vezes não fazem sentido, como a rebeldia interminável da filha do protagonista, a resolução extremamente banal do personagem de Matt Damon que entra e sai do filme como se tivesse no início de carreira, ou a incrível determinação do protagonista em querer salvar a humanidade a qualquer custo (a figura do "pai herói", também sempre explorada nos filmes de Shyamalan). Se o fim do mundo fosse inevitável e você tivesse que escolher entre salvar a humanidade ou passar o resto desses dias com o que resta de sua família, o que você faria? É uma pergunta bastante complexa que o protagonista em momento algum pensa a respeito.

Acredito que nada dói tanto quanto os exageros espaciais e clichés do gênero como as viagens que eles fazem entre um planeta e outro como se fosse algo do tipo "OK, vamos dar uma paradinha lá no shopping". E claro... o combustível que sempre está no fim no trajeto da volta. O momento "let it go", bem similar ao de Gravidade também deixa nítido que, direta ou indiretamente, a produção tenta pegar carona no sucesso do colega. Mas nada é tão impressionante como tudo ser resolvido e descoberto no último minuto, até as mais absurdas e inacreditáveis coisas, como as feitas pela personagem de Jessica Chastain.  E mais... se os humanos do futuro ficam tão poderosos ao ponto de conseguirem controlar o poder da gravidade como cordas de piano entre as diferentes dimensões, como é que não fizeram isso para evitar a Terra de se voltar contra os humanos do passado? Pensando nas teorias que o próprio filme mostra, seria tudo super simples assim, não é? Pois é... mas Nolan prefere complicar pra enganar tonto. E é por essas razões que eu passei a maior parte do filme me questionando: "Isso é sério mesmo?"

Na narrativa confusa, nos altos e baixos dramáticos pra tentar manter o espectador atento e um final bastante sentimental do jeito que o cinema Hollywoodiano está acostumado a fazer, muita gente vai terminar o filme com lágrimas e sem ar, igual quando Titanic foi lançado, mas depois de alguns dias é muito provável que a ficha caia no fato de que ele é uma das grandes bobagens de 2014.

De qualquer forma é um filme com algumas concepções visuais bem interessantes, mas a nuvem congelada... olha... aquilo é a gota d'agua, principalmente em um filme que fala incansavelmente sobre a física e a gravidade. Só não parei de assistir neste momento porque eu queria ver até onde a desgraça ia.

E foi longe. Nolan literalmente se perdeu nas idéias e acreditou no maravilhoso potencial da ignorância alheia de consumir bem qualquer coisa. O resultado é um filme desagradável, longo demais, que mais se perde do que se encontra, e desperdiça conceitos interessantes para divagar no absurdo para o bem do drama espacial e da redundancia.

CONCLUSÃO...
Christopher Nolan tem se especializado em dar grande complexidade desnecessária a seus filmes para enganar gratuitamente o espectador e faze-lo ter a sensação de que o assunto é realmente muito sério e complexo. 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

CAIXINHA MODESTA, PRESENTE SINCERO...

★★★★★★
Título: Amor Bandido (Mud)
Ano: 2011
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Jeff Nichols
Elenco: Matthew McConaughey, Tye Sheridan, Jacob Lofland, Reese Witherspoon, Sam Shepard
País: Estados Unidos
Duração: 130 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Dois adolescentes encontram um estranho em uma ilha, curiosos a respeito da história deste estranho e comovidos pela razão de sua volta, resolvem ajudá-lo com o que ele precisa, para só depois descobrirem que ele é um fugitivo.

O QUE TENHO A DIZER...
Amor Bandido é o terceiro filme dirigo por Jeff Nichols, que embora tenha sido produzido no mesmo ano que seu drama apocalíptico O Abrigo (Take Shelter, 2011) só foi lançado no Festival de Cannes em 2012. O Abrigo chamou bastante atenção da crítica mundial e foi o grande vencedor de Cannes naquele ano, enquanto Amor Bandido teve sua estréia oficial no Festival, sendo bem recepcionado pelo público e crítica.

Não há muito o que se dizer sobre a história, já que se trata unicamente de um drama sobre o amor, um sentimento único que é proposto no filme pelo ponto de vista ingênuo da puberdade e o traiçoeiro da idade adulta. Dois pontos de vista paradoxais que se encontram em uma mesma história e que realmente constróem gradualmente um impacto sentimental para aqueles que já cultivaram seu primeiro amor e também para aqueles que já sofreram por um grande amor.

O diretor já tinha o conceito da história ainda na década de 90, e sempre imaginou Matthew McConaughey interpretando o personagem principal. Ele foi fortemente inspirado pelo personagem Tom Sawyer, de Mark Twain, o qual tem muitas similaridades com o personagem adolescente do filme. Mas seu interesse principal foi captar a sua própria época de colégio, representando esses sentimentos de euforia e decepção que ele sentia quando se apaixonava por alguma garota que o devastava por não corresponder. Sua intenção era condensar toda a emoção, a dor e a intensidade dessa paixão pura, sobre uma época de descobertas que parecem ser muito duras, mas necessárias para a construção do caráter e da maturidade.

E sem dúvida o filme consegue construir essa atmosfera complexa de sentimentos mistos sem ser piegas, e muito menos cliché. Não é um filme com uma história complexa, com um final feliz e um beijo arrebatador ao final com uma grandiosa trilha sonora, e por isso não irá atrair a atenção de qualquer pessoa, mas é um filme pequeno, em uma embalagem simples, um presente sincero e muito honesto frente a duas perspectivas diferentes sobre um mesmo sentimento. Só é muito longo, em uma narrativa lenta e às vezes cansativa, cheia de indas e vindas e talvez um conflito até um pouco exagerado, que não interferem na bela construção do diretor e roteirista, mas que geram alguns bocejos durante o desenvolvimento.

O longa foi listado entre os 10 melhores filmes independentes pelo National Board Of Review, um dos grupos mais importantes e respeitados da crítica norteamericana para o cinema. A performance de Matthew McConaughey é tão enigmática, sincera e natural quanto a própria história, e chamou a atenção da crítica mundial além de ter sido uma grande publicidade ao ator que, posteriormente a ele, escolheu filmes nem sempre muito bons, mas excelentes papéis, como nos filmes Killer Joe (2011), Obessão (The Paperboy, 2012) Magic Mike (2012) e o atual Clube de Compra Dallas (Dallas Buyers Club, 2013), no qual concorre ao Oscar de Melhor Ator, com grandes chances de vencer.

CONCLUSÃO...
Ao contrário do que o título induz, ou o que equivocadamente os posters aparentam, não é mais um filme de suspense ou de crimes passionais que se passa no sul dos Estados Unidos. Como dito, é um filme pequeno, em uma embalagem simples, um presente sincero e muito honesto frente a duas perspectivas diferentes sobre um mesmo sentimento.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

ERRA POR UM LADO, MAS ACERTA EM OUTROS...

★★★★★★★
Título: Clube de Compra Dallas (Dallas Buyers Club)
Ano: 2013
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Jean-Marc Vallée
Elenco: Matthew McConaughey, Jared Leto, Jennifer Garner, Steve Zahn, Griffin Dunne
País: Estados Unidos
Duração: 117 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre a história verídica de Ron Woodroof, que sem querer foi um dos pioneiros no auxílio da pesquisa para a busca de um protocolo de tratamento eficiente para o HIV em uma época em que pouco se sabia sobre a doença e a indústria farmacêutica não tinha a mínima idéia de onde ou como desenvolver suas pesquisas e suas drogas.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é dirigido pelo mesmo diretor de A Jovem Rainha Vitória (The Young Victoria, 2009), o canadense nascido na provícia de Quebec, Jean-Marc Vallée.

A história tem início em 1985, durante o delicado período epidêmico de HIV ocorrido nos EUA na década de 80. Para os que desconhecem, esse surto de contágio fatidicamente ocorreu alguns anos depois do movimento de liberação sexual gay, iniciado também nos EUA, mais precisamente em São Francisco/CA, entre o fim dos anos 60 e início dos anos 70, mas que ainda ecoava não apenas pelos EUA como também pelo mundo. Por conta disso, o vírus HIV, desconhecido na época, foi vulgar e erroneamente associado à homossexualidade porque o primeiro caso descoberto e registrado foi de um paciente homossexual. A associação do vírus com essa orientação sexual gerou muita discriminação e debate (mais do que já havia), bem como a crença de que apenas eles eram um grupo de risco, pensamento ainda muito comum nos dias de hoje.

Com o tempo conseguiu-se divulgar o fato de que todos estão propensos ao contágio e que não existe um grupo de maior ou menor risco. Naquela época o preservativo existia mais como um método contraceptivo, raramente utilizado para prevenção de DSTs, e ninguém se preocupava com um vírus mortal porque o HIV era desconhecido. Principalmente depois do movimento de liberação sexual gay, pessoas faziam sexo em qualquer lugar e com qualquer pessoa, e o surto epidêmico entre os homossexuais acabou sendo maior por conta de todos esses fatores agregados.

Mas o filme não é sobre o movimento de liberação sexual, e muito menos se passa em San Francisco, pelo contrário, se passa no Texas, um dos estados mais conservadores e machistas dos EUA.

Vai contar a história verídica de Ron Woodroof (Matthew McConaughey), um texano que vive na cidade de Dallas, machista, homofóbico, ninfomaníaco, alcólatra e cocainômano, e que descobre a doença por acaso, depois de um acidente de trabalho. Ele não quer acreditar no diagnóstico, mesmo com os exames em mãos, porque para ele o HIV é uma doença de gays, como era divulgado fortemente na época. Ron vai atrás de informações sobre o vírus e a doença, descobrindo que entre os grupos de risco estão as pessoas que fazem sexo sem proteção, o que o remete a lembrar de uma relação sexual específica que ele teve no passado e a finalmente ter de aceitar a dura realidade. Durante suas pesquisas ele descobre as drogas que estavam em uso para testes, sendo uma delas o AZT. Ele volta para o hospital e exige tratamento com a droga, que é negado pela médica Eve (Jennifer Garner), a qual informa que, por estar em fases de testes, não é certeza de sua eficácia e muito menos da garantia de terem a droga verdadeira, pois a indústria farmacêutica misturava placebo entre os lotes e apenas os fabricantes tinham conhecimento de quais eram eles. Desesperado, Ron consegue comprá-la ilegalmente, administrando-a em doses exageradas e sem acompanhamento médico. Por conta da superdosagem ele se intoxica e sofre um colapso que quase o leva a morte. Acreditando que a droga ainda possa ser sua salvação, ele continua sua busca no mercado negro, o que o leva ao Dr. Vass, o qual teve sua licença cassada nos EUA por tentar enfrentar as gigantes farmacêuticas, e agora trabalha no México, desenvolvendo pesquisas principalmente com soropositivos. A observação cientifica do médico é de que o AZT destruia todas as células saudáveis do sangue e que, embora a doença não fosse curável, havia a possibilidade de conviver com ela desde que haja a manutenção constante dos níveis saudáveis do sangue, utilizando suplementos vitamínicos e protéicos, e uma droga de combate ao vírus menos agressiva, além da instrução de que o paciente deve ficar longe do uso de outras drogas e manter uma alimentação regular e saudável. Ron tem uma melhora significante nos três meses que fica em tratamento com o médico, e volta para os EUA com o interesse de fazer de sua descoberta uma mina de dinheiro ao contrabandear os produtos, já que eles ainda não eram aprovados pela agência nacional de controle, mas também não eram considerados ilegais. Com o tempo Ron percebe a melhora e a satisfação de seus clientes, bem como um aumento constante de novas pessoas que o procuram em busca  do novo tratamento. Pensando nisso, e com a ajuda da travesti Rayon (Jared Leto), ele resolve ampliar seu negócio de forma mais organizada e abre o seu Clube de Compra Dallas, onde para ser sócio é necessário preencher uma ficha médica, assinar um contrato de responsabilidade e pagar US$400, dando direito ao sócio de ser fornecido constantemente com os suplementos. Ron passa a não pensar mais nos lucros quando a indústria farmacêutica se sente ameaçada por suas descobertas e passa a interferir em seu trabalho e na pesquisa que ele resolveu desenvolver por influência do Dr. Vass. Aos poucos ele consegue provar a Dra. Eve que o AZT reduz a expectativa de vida de um paciente, enquanto com os produtos que ele comercializa a expectativa aumenta, conseguindo uma aliada na guerra que ele trava contra a agência nacional de controle.

Sem dúvida o filme aborda todo esse período na história da doença e do desenvolvimento de uma droga farmacêutica com muito empenho, bem como os demais assuntos paralelos, como o preconceito e a discriminação sofrida pelos soropositivos, a falta de informação, a dominação corporativa e a dificuldade de todas as pessoas (saudáveis ou não) em lidar com tudo isso.

Muito embora o roteiro esteja presente na temporada de premiações na categoria Roteiro Original, algumas coisas chegam a incomodar aos mais atentos. Mesmo a história sendo dividida durante os dias de vida do personagem principal, a impressão que se tem é que tudo acontece de uma vez só, não havendo uma percepção de passagem de tempo muito efetiva. Os roteiristas também parecem não ter prestado muita atenção em personagens coadjuvantes chaves que surgem repentinamente na história e que nunca sabemos de onde são ou de onde surgiu o grau de relação enre eles, como o policial Tucker (Steve Zahn), a secretária e ajudante Denise (Deneen Tyler) ou até o caso romântico de Rayon. O desenvolvimento da relação entre Ron e Rayon também não soa muito convincente, já que os preconceitos e homofobia do personagem chegavam a níveis de intolerância máxima. Também é pouco explorada a percepção do personagem sobre a gradiosa descoberta que faz, ou da sua transição de um homem oportunista para um pesquisador por acidente que contribuiu imensamente para pesquisas futuras e na evolução de drogas farmacêuticas efetivas. O Clube de Compra Dallas também teve uma grande popularidade nos EUA, ultrapassando as fronteiras do Texas para outros estados do país, mas isso também é pouco pontuado, sendo apenas referido em alguns momentos enquanto Ron gerencia seus negócios por telefone.

O mérito do roteiro é definitivamente na congruência de várias situações e dificuldades que foram sofridas e a importância de Ron Woodroof em criar e divulgar, talvez, o primeiro protocolo de tratamento efetivo para o HIV.

Mesmo a história sendo fortemente baseada em fatos reais, muitos dos acontecimentos e personagens são fictícios, como a travesti Rayon e Dra. Eve. Segundo os roteiristas, esses personagens foram criados em referência aos vários travestis soropositivos e médicos entrevistados durante a pesquisa. A personalidade real de Ron também é contraditória, pois embora ele mesmo tenha afirmado em uma entrevista concedida ao roteirista Craig Borten de que a sua convivência com os gays tenham mudado consideravelmente sua percepção sobre eles, pessoas próximas chegaram a afirmar que ele não era homofóbico e, na verdade, era bissexual, e que seu comportamento mostrado no filme é exagerado, já que ele era um tipo intimidador, mas não violento.

É interessante também que, embora o Clube tenha tido uma grande popularidade nos EUA naquela época, poucas informações são encontradas sobre ele e sua existência é desconhecida pela maioria. O próprio ator que interpreta o personagem afirmou que desconhecia totalmente a existência de Ron e do Clube, e Jennifer Garner também disse em uma entrevista que leu diversas revistas científicas e jornais durante aquele período e não encontrou qualquer referência sobre o Clube e a importância que ele teve no tratamento. 

O filme concorre a seis Oscars, incluindo Melhor Ator a Matthew McConnaughey e Ator Coadjuvante a Jared Leto. Embora o talento de McConaughey já tenha sido reconhecido ainda na década de 90 em filmes como Tempo de Matar (A Time To Kill, 1996) e Amistad (1997), passou um tempo se dedicando a filmes de ação e comédias românticas pouco expressivas e apenas nos últimos anos tem se dedicado a papéis mais densos e complexos como nos filmes Killer Joe (2011), Obsessão (Paperboy, 2012), Amor Bandido (Mud, 2012) e Magic Mike (2012), todos personagens sulistas por excelência, porém interessantes e distintos, que finalmente chamaram a atenção da crítica e da Academia. Sem dúvida a transformação física que o ator sofreu é relevante (ele emagreceu mais de 20kg para o papel), mas ao contrário do processo similar que Tom Hanks realizou em Filadélfia (Philadelphia, 1993), aqui o ator não se coloca em uma posição submissa e martirizada, ele desempenha um papel forte e autoritário, superando obstáculos e lutanto o tempo todo contra seu próprio corpo devido a debilitada condição que se encontra, conseguido transpor sentimentos sem caricaturas ou cliches. Jared Leto também passou pela mesma transformação, emagrecendo mais de 10kg para sua personagem. Sua atuação também é notável, e mesmo representando um tipo estereotipado, sua perfomance é tão delicada e sensível que não aparenta artifical, forçado ou vulgar.

A atuação só é sofrível mesmo com Jennifer Garner. Para quem acompanhou sua trajetória no seriado Alias, sabe que ela realmente pode atuar, mas agora chega a espantar a falta de talento que ela apresenta filme após filme (com excessão de Juno, talvez por ter sido bem dirigida). Mas não é possível compreender o que aconteceu com essa atriz que, quanto mais os anos passam, pior ela fica, atuando de maneira até infantil, jogando no lixo o Globo de Ouro que já recebeu outrora pelo papel de Sidney Bristow.

Os conflitos são muito bem colocados e raramente o diretor apela para uma cena dramática excessiva, mantendo o filme sempre dentro do tom mais sincero e realista possível e emocionante por conseguir nos inserir nas condições vivenciadas pelos personagens. O próprio diretor afirmou que o filme sofreu vários problemas financeiros e quase não pode ser finalizado por falta de verbas. Matthew investiu dinheiro pessoal para o filme, bem como outros atores como Brad Pitt e Ryan Gosling, além dos diretores Marc Forster e Craig Gillespie. Com orçamento apertado, as filmagens duraram apenas 25 dias, não houve iluminação cenográfica ou ensaios, e os atores não foram mantidos na pós produção para correções. Mas o mais interessante de tudo é a produção ter sido filmada inteiramente com apenas uma câmera de mão capaz de gravar apenas 15 minutos, e o trabalho de edição realizado foi tão bem feito que se essa informação não tivesse sido divulgada, seria imperceptível. Não é à toa que o filme também concorre ao Oscar nas categorias de Edição, Direção e Filme, porque apesar de alguns poucos defeitos, sabe-se que eles existem por conta das limitações técnicas e não por incompetência, e o tanto que foi feito com tão pouco resultam em um belíssimo e admirável trabalho que merece ser respeitado por conta de sua grandiosa intenção.

CONCLUSÃO...
Frente a tantos problemas orçamentais que a produção teve em conseguir fundos para concluir as filmagens, realmente é um trabalho bastante digno que não apenas é baseado em fatos reais como também conta uma parte muito importante da história da descoberta do HIV e pesquisas para seu tratamento. Não podemos ignorar o fato de que isso tudo ocorreu em uma época em que ninguém tinha idéia de como combater ou começar a combater a doença, e que a indústria farmacêutica também não teve outra alternativa a não ser produzir os coquetéis e testar diretamente em humanos e de forma aleatória frente a urgência cobrada da situação. Os primeiros coquetéis produzidos possuiam uma composição completamente diferente da atual e eram muito mais agressivos (embora os efeitos colaterais sejam inúmeros e igualmente fortes), mas hoje em dia o seu uso é efetivo e o aumento da expectativa de vida é comprovado e bastante considerável em comparação com o da época do início das pesquisas. O filme também peca neste aspecto, em não esclarecer isso ou informar o espectador de que os tratamentos mostrados no filme são antigos e ultrapassados frente aos avanços farmacêutico e dos protocolos médicos de tratamento disponíveis hoje em dia.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

SHOW BARATO E PARTICULAR DE KIDMAN...

★★★
Título: Obsessão (The Paperboy)
Ano: 2012
Gênero: Suspense/Crime
Classificação: 16 anos
Direção: Lee Daniels
Elenco: Matthew McConaughey, Zac Efron, Nicole Kidman, Macy Gray, John Cusack
País: Estados Unidos
Duração: 107 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Dois irmãos vão investigar os acontecimentos que geraram a morte de um policial na tentativa de exonerar um inocente da pena de morte.

O QUE TENHO A DIZER...
É baseado no livro homônimo de Pete Dexter, originalmente publicado em 1995. O filme foi escrito e dirigido por Lee Daniels, o mesmo do pesadíssimo (sem trocadilhos), Preciosa (Precious, 2009).

A história é narrada por Anita (Macy Gray) em um depoimento, já que ela trabalhou na casa do pai de Ward (Matthew McConaughey), repórter que volta para sua cidade para investigar a morte de um policial a pedido de Charlotte (Nicole Kidman), já que seu amante, Hillary (John Cusack), foi condenado a pena de morte e ela precisa de ajuda para inocentá-lo. Ward também é ajudado por seu irmão Jack (Zac Efron) e pelo repórter Yardley (David Oyelowo), mas Jack se apaixona por Charlotte, sofrendo um amor platônico por uma mulher lasciva e vulgar que o rejeita por motivos que ele não consegue entender. Ao mesmo tempo Ward e Yardley são levados por pistas falsas que levam a uma conclusão inverídica e que não deve ser publicada e todos são mergulhados em um jogo de interesses e mentiras.

Os rumores sobre este filme começaram um pouco antes de seu lançamento no festival de Cannes, quando chegou os rumores da mídia de que seria uma das melhores performances da carreira de Nicole Kidman, já que ela faria cenas de sexo selvagem e sem pudores ao representar uma mulher vulgar e extremamente sexualizada. De fato, a única coisa de todo o filme que gera o interesse de assistí-lo é ela, mesmo que suas expressões faciais ainda estejam um pouco limitadas pelo excesso de intervenções estéticas (ela estava bem pior em A Bussola de Ouro).

É mais um filme no qual Matthew McConaughey interpreta um tipo no qual ele vem se especializando e que ele nunca fez questão de se desvincular, a de cowboy sulista despojado. Não chega a ser um tipo tão marcante quanto os que ele representou em Matador de Aluguel (Killer Joe, 2011) ou Magic Mike (2012), mas é aquela interpretação comum e segura de sempre, quando ele não tem muito interesse em ousar.

Há ainda a surpresa de Macy Gray, que mal é citada entre o elenco principal, o que é um absurdo, já que a história é narrada por sua personagem e, sem dúvida, a melhor construída de todo o filme.

Sinceramente, é um filme confuso, e apesar das boas interpretações ele não foge do habitual nesses gêneros de suspense independentes e que tentam sempre puxar a história para um lado mais regionalizado, utilizando como pano de fundo algumas referências socio/políticas como a discriminação racial, questão sempre presente nos filmes do diretor e que, embora sempre importante ser discutido, em alguns contextos acaba aparentando mais um ativismo exagerado e desnecessário do que um argumento relevante. Não há uma coerência convincente no filme para os personagens serem como são. Há até mesmo um momento em que é revelado que o personagem de McConaughey é gay, mas isso não tem qualquer relevância no filme (talvez haja no livro, que desconheço), além da relação abusiva de amor e ódio entre Charlotte e Hillary e de uma referência direta e disconexa feita a Lolita, obra de Vladmir Nobokov, talvez o ápice dessa linguagem que tenta aparentar profunda e séria.

É um filme que sofre com personagens mau construídos e que justifica sua existência apenas para o show particular de Kidman, que depois de seu Oscar por As Horas (The Hours, 2002) descobriu que é melhor aceita quando se enfeia ou se vulgariza. Sem contar que o final é revoltante, concluindo que tudo antes dele foi um desperdício de tempo.

CONCLUSÃO...
É tão confuso que soa como inacabado. Um roteiro estranho e mal desenvolvido, com personagens mal construídos e uma conclusão revoltante. Filme que serve de palco para o show barato e particular de Nicole Kidman, que poderá concorrer a um ou outro prêmio, mas nada grandioso como a mídia a princípio promoveu.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

SULISMO GÓTICO EM SEU MELHOR EXEMPLO...

★★★★★★★★
Título: Matador de Aluguel (Killer Joe)
Ano: 2011
Gênero: Comédia, Crime, Ação, Suspense
Classificação: 16 anos
Direção: William Friedkin
Elenco: Emile Hirsch, Juno Temple, Matthew McConaughey, Thomas Haden Church, Gina Gershon
País: Estados Unidos
Duração: 102 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um jovem endividado que resolve contratar um profissional para matar a mãe odiada por todos da família e finalmente salvar seu pescoço de uma dívida com o seguro de vida na qual a beneficiada será sua irmã.
O QUE TENHO A DIZER...
Filme dirigido por William Friedkin, o mesmo de O Exorcista (The Exorcist, 1973), diretor que não lança filmes com muita regularidade, mas que conseguiu o importante feito de, com o passar dos anos, se desvincular do seu filme de maior sucesso porque senão soaria como se ele tivesse feito apenas um filme relevante em toda a carreira, o que não é verdade. Friedkin sempre foi um grande diretor excêntrico, que adora temas malucos e bem estruturados, e nunca se importou em fazer filmes que fogem do público comum. E particularmente, ultimamente tenho admirado muito seus últimos filmes.
Desta vez ele trabalha novamente com o roteirista Tracy Letts, com o qual ele havia trabalhado no seu filme anterior, Possuídos (Bug, 2006), e ambos são baseados em peças teatrais homônimas do próprio autor.
Conta a história de Joe Cooper (Matthew McConaughey), um detetive que também trabalha como assassino particular. Ele é contratado por Chris Smith (Emile Hirsch), que está devendo uma grande quantia a traficantes por conta de sua mãe maluca que todos odeiam, a qual ele descobre ter uma apólice de seguros no valor de US$50 mil dólares. Ele convence seu pai, Ansel (Thomas Haden Church) a contratar Joe, que recusa a proposta porque só realiza o trabalho com pagamento antecipado, dinheiro que nenhum deles possui. Joe, então, resolve fazer um trato, realizar o serviço desde que Dottie (Juno Temple), irmã de Chris, seja uma garantia que ele possa usufruir até o seguro ser liberado e o pagamento feito. Mas as coisas não dão os resultados que eles esperavam, e muito menos saem da meneira como eles queriam.
Saber que o filme é baseado numa peça teatral é algo relevante porque raramente uma adaptação consegue oferecer um resultado satisfatório, já que os diretores geralmente ou tentam manter a mesma estrutura teatral ou tentam modificar tudo para que se encaixe melhor na película. Mas nesse filme os resultados são muito bons, e embora não pareça muitas vezes, a construção do roteiro e das cenas realmente mantém as estruturas de uma peça teatral com cada personagem tendo seu momento em diálogos bem pausados, cada ator entrando e saindo das cenas em seu tempo correto, e tudo funcionando de forma muito organizada e fluida. Friedkin já havia experimentado isso em Possuídos, o que funcionou de forma bastante impressionante. Se não fosse seu pulso firme e o pleno conhecimento do que fazer e como fazer as coisas, o filme teria sido uma bagunça.
Além de um roteiro matador, as atuações são excepcionais. É empolgante ver Gina Gershon de volta em um filme relevante, num tipo vulgar do qual ela nunca se desvinculou porque sempre conseguiu imprimir uma característica única, e que nesse filme vale até usar uma peruca pubiana. Thomas Haden Church, sempre em um humor sério e recalcado que consegue tirar risada até mesmo em momentos inoportunos. Juno Temple está bem diferente dos papéis anteriores e provando mais uma vez que é capaz de se tornar uma das grandes estrelas atuais. Claro que, querendo ou não, quem rouba a cena é Matthew McConaughey, com toda a sua panca de galã numa sexualidade rústica que não surpreenderia caso ele não desse o tom perverso e sacana a um personagem que apenas cresce, ao ponto de se torna assustador. Tanto é que o ator já recebeu sua primeira indicação como Melhor Ator ao Independent Spirit Awards na temporada 2013 de premiações (ao mesmo tempo também foi indicado na categoria Coadjuvante por Magic Mike).
Aliás, tirar risada em momentos inoportunos não é um privilégio só de Haden Church, mas de muitas partes desse filme que, ao mesmo tempo que é chocante, tem um tempo cômico incomum, pois é de um humor cruel que excede o sarcasmo e a ironia, sendo de uma brutalidade primitiva, absurda e espontânea por demais. E embora muitas comparações acabam sendo feitas,  não há nada a ser comparado com o estilo de Tarantino. Enquanto Tarantino se utiliza do extremo sarcasmo e ironia, para não dizer muitas vezes do cinismo e do constante uso do absurdo, a construção de toda a história de Killer Joe é baseada nas caracterísitcas de um subgênero específico da literatura norte-americana conhecido como Sulismo Gótico, ou Gótico Sulista.

Neste estilo as histórias devem se passar exclusivamente no Sul do País, incluindo sempre personagens estranhos, confusos ou desorientados, em locais abandonados ou decadentes, situações grotescas e qualquer outro evento sinistro relacionado ou vindo da pobreza, alienação, racismo, crime ou violência. Enquanto o estilo Gótico se utiliza de todas essas ferramentas para intensificar o suspense e o medo, o Gótico Sulista se utiliza delas para explorar problemas sociais e revelar o caráter cultural dos sulistas norte-americanos numa realidade distorcida e cômica. Por isso que quanto mais os personagens estão sujos, machucados e desorientados, e quanto mais as situações se tornam violentas, estúpidas e pervertidas, mais o tom dessa comédia absurda se acentua. Um grande exemplo de todo o contexto desse humor gótico é a cena entre Matthew McConaughey e Gina Gershon. Sem dúvida uma das mais estranhas, absurdas e engraçadas cenas que  lembro de ter visto.
Tudo só me faz concluir que a parceria entre William Friedkin e Tracy Letts resultou novamente em um filme fantástico, recheado de referências sólidas, que foge do padrão fantasioso para se tornar obra de um conteúdo psicológico e sociocultural fortíssimos, sendo melhor apreciado depois de estudado e compreendida as referências utilizadas para a construção da história e de personagens fortes, extremamente bem desenvolvidos e caracterizados.
Com um atraso de quase um ano para seu lançamento por conta de divergências entre a censura norte-americana e sua distribuidora, parece que o filme sofreu várias edições até chegar ao seu formato final. A outra parte infeliz de tudo isso é que novamente o diretor e os atores, tanto quanto o roteirista e o filme em si, poderão não ser tão ignorados na temporada 2013 de premiações tal qual aconteceu com Possuídos e a interpretação viceral de Ashley Judd em 2007, mas também não chegarão a receber os merecidos reconhecimentos.
CONCLUSÃO...
A parceria entre Friedkin e Letts repetiu o mesmo resultado surpreendente de Possuídos. Mas ao contrário do filme anterior, Killer Joe pode soar confuso a princípio, mas o roteiro, juntamente com todas as qualidades citadas, chega a ser até extremamente didático no seu clímax, tão didático que seria vergonhoso esclarecer qualquer detalhe. O fato é que Friedkin novamente não fez um filme se importando com o público comum, mas para um público mais sofisticado, que gosta de sair de sua zona de conforto e que vai fundo, onde quer que seja, para compreender toda sua concepção. Violento, sangrento e chocante, não agradará muita gente, mas a quem agradar irá se divertir com esse misto de sensações e absurdez.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

PARA SACIAR A VONTADE DE QUEM QUER VER...

★★★★★★★
Título: Magic Mike
Ano: 2012
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Steven Soderbergh
Elenco: Matthew McConaughey, Channing Tatum, Olivia Munn, Alex Pettyfer, Joe Manganiello
País: Estados Unidos
Duração: 110 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Mike é um homem honesto, trabalhador e que gosta de ajudar o próximo. Durante o dia ele trabalha fazendo bicos, e durante a noite ele veste o uniforme de sua verdadeira profissão. Ou melhor, tira o uniforme.

O QUE TENHO A DIZER...
Que Steven Soderbergh é um dos melhores diretores de sua geração, isso é incontestável. Que ele também é arrogante e pretencioso, também.

Faz tempo que ele tenta agradar Hollywood assim como Hollywood agradava ele antigamente, numa época em que Soderbergh podia até sambar numa mesa que seria sucesso de público e crítica. Uma época em que a infame continuação Doze Homens E Outro Segredo (Ocean's 12, 2004) poderia ser só uma reunião de uma seleta panelinha de amigos que queria engordar suas contas bancárias e que todo mundo ia pagar pra ver, mesmo sem roteiro ou história alguma. Já se foi o tempo que todo mundo engolia Soderbergh mesmo assim.

Era o senso comum, e hoje em dia as pessoas parecem estar cansadas dele e escolhendo outros diretores para serem os preferidos da vez.

Faz anos que ele não movimenta para os cinemas nada mais que sua base de fãs e alguns poucos outros que gostam de seu estilo eclético e às vezes redundante. Seus seis últimos filmes, somados, não fecham nem uma média de US$28 milhões de bilheteria, o que é um fracasso perto dos US$100 milhões que ele atingia fácil com títulos como Erin Brockovich (2000) ou Traffic (2000), apenas como alguns exemplos da sua época de ouro. Mas dessa vez ele conseguiu... Com um orçamento de apenas US$7 milhões, o filme arrecadou mais de US$110 milhões no mundo, o que deixou muito marido e namorado ciumento com os nervos à flor da pele.

É do estilo de Soderbergh também surgir cada hora tentando abocanhar um tipo de público, e com Magic Mike ele tenta satisfazer os públicos femino e gay, públicos que ele nunca deu cuidado ou atenção, e que finalmente viraram grandes sifrões em seus olhos para sua salvação.

Seu filme anterior de ação "bate-e-arrebenta", feito especialmente para a lutadora de MMA, Gina Carano, também estrelava Chaning Tatum, e foi durante o período de filmagem de Haywire que o ator já havia demonstrado interesse em levar para as telas uma história envolvendo suas experiências de stripper, já que o ator trabalhou como um no final dos anos 90, em Tampa, na Florida, quando ainda tinha 19 aninhos.

Mas depois da desistência do diretor holandês Nicolas Refn, do filme Drive (2011), o projeto de Tatum parecia não sair tão cedo do papel, até Soderbergh abordá-lo com a ideia de dirigi-lo, com roteiro de Reid Carolin. Prontamente Tatum aceitou ser o produtor, e por isso o filme é uma ficção levemente baseada nas experiências do ator, e não uma biografia, como muita gente acredita. Tanto que o nome artístico que o ator usava como dançarino era Chan Crawford, e Magic Mike é apenas um personagem fictício que nada tem a ver com o ator naquela época, e qualquer outra semelhança será apenas uma leve referência e uma mera coincidência.

É o primeiro roteiro de Reid Carolin, que também faz uma ponta no filme como Paul, o namorado de Brooke (Cody Horn), atriz que por sinal rouba várias das cenas com um misto de Michelle Rodriguez e Eva Mendes. O filme segue muitas das mesmas características que fizeram de outro título um grande sucesso dos anos 90, o independente inglês Ou Tudo Ou Nada (The Full Monty, 1997). Mas claro que, ao contrário do filme dos desempregados que resolvem fazer strip, o maior atrativo de Magic Mike é o jorro de testosterona e os corpos esculturais de Chaning Tatum, Matthew McConauguey, Joe Manganiello e outros dos quais o nome nem importa, atrativos que não existiam no outro título. Também pode relembrar vagamente e de forma muito mais branda as peripécias de Boogie Nights (1997), mas apenas como um tapinha nas costas.

A verdade é que o filme não tem uma grande história, até porque ninguém prestaria atenção nela. Sabendo disso, Soderbergh enche o filme com dezenas de apresentações dos atores em palco, de tudo quanto é forma possível, com cenas de striptease, barrigas trincadas, sexualidade evaporando pelo suor e bundas à mostra para saciar a vontade de quem assiste só por isso (até porque não há outra razão). Tudo isso faz de Magic Mike um filme bacana, sexy e algumas vezes engraçado.

Sem dúvida também é um filme fetichista, sexista e que explora o homem tanto quanto qualquer outro exploraria as mulheres, mas mesmo assim ele não deixa de impor o lado machista e dominador, como que para amenizar a questão de que o homem, apesar de tudo que é mostrado, não é um objeto como são as mulheres. Tudo é mostrado de forma muito glamurosa e fácil, e a luxúria come solta sem qualquer pecado, como se esse mundo fosse sempre muito limpo, organizado, de pessoas muito belas e camaradas, com boa índole e capazes de até pagarem uma dívida de US$10 mil a qualquer estranho que se conheça há 3 meses, esquecendo-se de que este ramo de negócio, em muitos lugares, é uma máfia como qualquer outra. Uma visão bastante idealizada e deturpada de todos aqueles que realmente trabalham no ramo, e não duvido que muito homem terminou o filme pensando que essa fantasia toda seja verdade.

Há um draminha mediano aqui e ali, uma briguinha acá e acola, apenas para dar atenção aos poucos homens heterossexuais que forem obrigados pelas namoradas a assistirem, e também porque quem já conhece o estilo do diretor sabe que ele adora fazer uns rodeios para fingir que seus filmes não são vazios. Mas é aquilo que foi dito, não há qualquer outra intenção de Soderbergh além de uma excelente oportunidade para recolocar seu nome no spot e entregar ao público aquilo que querem ver. O filme estréia dia 2 de Novembro no Brasil, com quase cinco meses de atraso.

CONCLUSÃO...
É um filme divertido e que carrega quem assiste como boa parte dos filmes do diretor, e consegue se salvar de ser um fracasso tal qual foi Striptease (1996), com Demi Moore, porque em nenhum momento o roteiro tenta ser outra coisa. E assim como a melhor interpretação de Gina Carano é nas suas cenas de luta em Haywire, a melhor interpretação de Chaning Tatum é quando ele está no palco, e funciona tanto quanto a de qualquer outro porque ninguém está preocupado em dar uma interpretação melhor que o rebolado.
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