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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

CASAMENTO, TECNOLOGIA, RACISMO E DROGAS...

★★★★★★★★★☆
Título: Chelsea Does...
Ano: 2016
Gênero: Documentário, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Eddie Schmidt
Elenco: Chelsea Handler
País: Estados Unidos
Duração: aproximadamente 70 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Através de quatro temas, Chelsea Handler irá buscar seu autoconhecimento ao mesmo tempo que se aprofunda em questões atuais de delicada discussão, mas que irá desenvolver da melhor forma com seu humor sarcástico e autodepreciativo sem sair da seriedade.

O QUE TENHO A DIZER...
Embora ela tenha 40 anos, sua carreira e sucesso é, digamos, um tanto recente. Resumidamente começou sua carreira como comediante de stand ups, e seu reconhecimento teve início na série de pegadinhas chamada Girls Behaving Badly (2002-2005). O sucesso veio mesmo a partir de 2006, quando comandou seu próprio talk show, o Chelsea Lately, no canal E!. Apesar do sucesso progressivo do programa ao longo dos anos, ela decidiu encerrá-lo em 2014.

Um tanto absorvida pelo mundo fútil e fictício das celebridades em um programa que por mais que se esforçasse não podia se aprofundar nos assuntos que realmente lhe interessavam porque, como ela mesma cheogou a dizer, quanto pior o entrevistado, mais patético seria e mais o público iria gostar, talvez tenha sido essa a necessidade de mudar os rumos de sua carreira como comediante.

Com sua saída do canal E!, ela participou de um stand up especial encomendado pela própria Netflix entitulado Uganda Be Kidding Me (2014), e agora o serviço lança Chelsea Does, que foge completamente daquilo que ela ficou conhecida por fazer. Não é um talk show, não é um stand up comedy, não é um documentário comum. É um misto de reality show documentado, dividido em quatro episódio com a essência de seu humor, mas sem deixar de falar de alguns temas interessantes e que, para ela, são os assuntos que mais a incomodam.

Ao comparar essas duas produções da Netflix em que participa, percebe-se um grande avanço na carreira de uma mulher que, como ela diz em um dos episódios do documentário, está mais madura e consciente de sua posição no mundo do que antes, pesando globalmente e agindo globalmente.

O humor de Chelsea como comediante de stand ups é duro, sempre crítico e reverso, ou seja, se ela quer criticar o racismo e o machismo, ela vai fazer piadas racistas e machistas de forma a ridicularizar essas pessoas, que irão desencadear no público aquelas risadas de constrangimento, aquelas que damos não porque de fato achamos aquilo engraçado, mas porque atingem nosso ponto de defesa, porque nos identificamos com a forma ridícula como ela faz essas situações ou pessoas parecerem, porque somos aquilo, ou porque já vimos aquilo acontecer, ou simplesmente porque ela dá um tapa na cara daqueles que gostaríamos de dar.

Já o humor de Chelsea como pessoa é autodepreciativo e sarcástico, dizendo o que pensa, o que acha e o que quer. Não interessa a forma como as pessoas a interpretem, ela tem uma bagagem familiar e cultural que embasa sua personalidade, o que é mostrado aos poucos no decorrer dos quatro episódios.

Mas aqui o tom não é de um stand up e por isso ela não precisa criar personas e não precisa ser constrangedora. Dessa vez ela irá tratar dos temas vagando entre a informalidade e a análise. Não é à toa que todos episódios começam com uma reunião de amigos em uma mesa, da mesma forma como também tem encontros mais introspectivos com seu terapeuta, dividindo os momentos para discutir e momentos para refletir. E partindo-se desse princípio os temas se desenvolvem da mesma forma, e que são quatro: casamento, tecnologia, racismo e drogas.

Parecem temas um tanto corriqueiros e monótonos. O que há de interessante para se discutir sobre o casamento? O que Chelsea tem a dizer sobre tecnologia? Racismo outra vez? E... bom... drogas. Certeza eu ela já consumiu muito.

É o que se pensa em um primeiro momento.

Mas para começar, ela mesma não tem muito o que dizer sobre tudo isso. Na verdade esses temas existem para autoconhecimento e para esclarecer melhor seus espectadores sobre diferentes pontos de vista e opiniões. Quem realmente terá coisas a dizer são as pessoas que ela convida para participar ou aquelas entrevistadas através do princípio democrático, seja para favorecer suas idéias pessoais ou para contrariá-las. Isso quer dizer que ela evita ao máximo traçar julgamentos muito pessoais sobre certas idéias ou declarações, por mais que discorde deles. O oferecido é a oportunidade para todos darem os seus pontos de vista, porque já que ela pode fazer isso, podem também as outras pessoas, e seu papel é confrontá-las saudavelmente e respeitá-las, até quando isso chega a ser impossível.

Quando desenvolve o tema do casamento, que é o primeiro episódio, ela deixa claro que, por mais que nunca tenha se importado com isso e ache difícil entender a razão dessa constituição familiar ser tão importante na sociedade, ela não consegue esconder a frustração por não fazer parte disso devido a pressão cultural forte existente à nossa volta, que nos condiciona a tratar do casamento e da fidelidade como um objetivo e um compromisso que muitas vezes é ilusório, o que fica claro quando entrevista Noel Biderman, que na época da entrevista ainda era diretor do Ashley Madison, o maior website de relacionamentos extra-conjugais. Isso não significa que todo casamento é falido. Ela sabe que existem dificuldades durante o processo e que muitas vezes eles funcionam, como foi o caso de seus pais. O que ela questiona é a razão da fixação das pessoas sobre o tema, inclusive ela mesma.

Mesmo sendo o sentimento de Chelsea sobre isso, existem outras pessoas que se identificam com ele, como é o caso de uma adolescente que expressa não ter interesse em casar quando crescer porque para ela existem coisas mais importantes a fazer do que isso. Também não evita as pessoas que acreditam no casamento de repensarem sobre a idéia, ou sobre os limites e consequências de uma relação a longo termo.

O mesmo tom é abordado sobre a tecnologia, em que ela age como uma verdadeira analfabeta digital tal qual muitas pessoas, questionando a todo momento como é a relação das gerações que nasceram com poucos recursos versus aquelas que já nascem com um celular nas mãos e porque a necessidade de se desenvolver coisas que nem sempre funcionam como queremos na ilusão de que elas podem facilitar nossa vida o tempo todo.

Mas sem dúvida os pontos altos são os dois últimos episódios, sobre o racismo e drogas respectivamente, em que consegue a difícil tarefa de equilibrar a seriedade do tema com o humor, sem descarecterizar ou transformá-lo em ferramenta cliché para piadas, como geralmente é o que se vê e que muito ela já fez.

Temas delicados por si só, isso não obriga Chelsea a pisar em ovos ao falar sobre eles, mas também não exagera quando confronta alguns indíviduos sobre o assunto, como quando entrevista um segregatista ou quando conhece pessoas de uma pequena cidade da Carolina do Sul durante o episódio sobre racismo. O que ela faz com essas pessoas e dar corda para que elas mesmas se enforquem em suas idéias absurdas que negligenciam qualquer direito humano existente. Seu desconforto nessas horas é evidente, mas ela deixa a pessoa se posicionar porque percebe que quanto mais ela fala e desenvolve suas idéias estapafúrdias, pior fica e mais constrangedor é para elas mesmas. Ver um homem apoiar a barreira que divide a fronteira entre Estados Unidos e México, comparando mexicanos a assaltantes e ladrões (ainda mais depois que afirma ter mexicanos na família), ou ouvir compararaem negros a tratores, ou uma mulher afirmar que existiu boas consequências com a escravidão, é estarrecedor. E nessas horas Chelsea lança seu sarcamos como facas a cortarem pescoços. Tudo muito sutil, mas é essa a função dessa figura de linguagem e que ela sabe usar muito bem.

Quando fala sobre as drogas, pode até soar apologético, mas ao contrário disso, ela demonstra ser uma pessoa que tem plena consciência do que são e de como seu corpo reage, além de ter total controle sobre elas, e não o contrário. Sua intenção é esclarecedora, seja para o uso recreativo ou puramente experimental, como faz ao se submeter a uma sessão espíritual com ayuaska, ou até mesmo quando, supervisionada por uma especialista no assunto, experimenta misturar algumas delas para que suas reações sejam documentadas pelas câmeras e sejamos testemunhas de que o uso indiscriminado e desinformado de drogas que estão ao nosso alcance é perigoso.

Os episódios tem uma progressão interessante. A princípio ela aparenta ser uma celebridade um tanto egocêntrica, com uma grande necessidade de se autoafirmar, falar de suas conquistas e preservar a identidade de que ela é uma mulher bem sucedida, rica, influente e que parece ter domínio sobre tudo, como durante sua reunião entre amigos no primeiro episódio, ou como quando sai pelo Vale do Silício pregando suas fotos pelas paredes dos estabelecimentos, como se todos tivessem obrigação de saber quem ela é.

Começando com um tema aparentemente fútil e que depois converge para para preocupações mais atuais de grande complexidade sociocultural, é nítido como a consciência que ela tem sobre as coisas também muda, inclusive sobre si mesma. É o que acontece quando ela está em uma mesa com representantes sociais no terceiro episódio, em que um deles começa a questioná-la sobre suas piadas que são julgadas como racistas e preconceituosas mesmo que ela, como comediante, não enxergue desta maneira. A forma como eles esclarecem esse ponto de vista demonstra como ela não tinha consciência de que seu humor pode ferir pessoas, raças e culturas quando analisados através de um maior escopo. E esse é o grande ponto transformador da série, pois a partir daí Chelsea se distancia da celebridade e se aproxima do ser humano comum em que o racismo e o preconceito estão tão absorvidos em nossa cultura que nós nem notamos quando somos, por mais que nos auto consideramos não ser. E é essa a percepção que ela passa a ter, de que de tudo ela nada sabe.

E com o último episódio ela fecha com chave de ouro esse pequeno ciclo transformador ao expressar a sua fragilidade e se despir emocionalmente de uma forma que ela nunca fez antes e nunca se permitiu. Por vários momentos podemos rir muito, mas também nos sentir extremamente sensibilizados. Chelsea soube escolher as pessoas certas para falar sobre temas importantes da maneira mais fácil, acessível e informativa possível, seja com humor ou sem ele, mas com equilíbrio e foco.

Não é um documentário por excelência porque é notório que ele se divide entre situações forjadas para criar um desenvolvimento aceitável e que entretém ao mesmo tempo que utiliza situações reais para fundamentar claramente os temas propostos. Independente disso é relevante, principalmente em uma época em que ao invés de avançarmos, retrocedemos nas idéias e nos pensamentos coletivos. E Chelsea, na verdade, passa a ser uma projeção de nós mesmos, daqueles que precisam buscar seu autoconhecimento e analisar a sua relação com o mundo.

CONCLUSÃO...
Netflix acerta mais uma vez com uma série documentada diferente de muita coisa que já produzida no gênero. Só depois de assistido percebe-se que ninguém melhor que Chelsea para tratar desses assuntos com equilíbrio entre o humor e a seriedade. Ao mesmo tempo que é cômico, consegue ser impactante e por vezes difícil de ser digerido e para compreendê-lo devemos nos abrir às opiniões diversas, tal qual ela mesma teve de fazer, seja para entender a tecnologia, seja para mostrar os horrores do racismo. Seja para dialogar sobre a vida conjugal ou consigo mesma.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

QUANDO A BOLHA ESTOURA...

★★★★★★★★★☆
Título: A Grande Aposta (The Big Short)
Ano: 2015
Gênero: Drama, Biografia, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Adam McKay
Elenco: Steve Carell, Christian Bale, Ryan Gosling,
País: Estados Unidos
Duração: 130 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Seis pessoas que trabalham no mundo de altas finanças resolvem apostar no erro dos grandes bancos, que não conseguiram prever o estouro da bolha imobiliária e do crédito que ocorreu entre entre 2007 e 2008.

O QUE TENHO A DIZER...
Todo ano são lançados filmes com abordagens ou até temas simliares para concorrerem entre eles. Esse ano não seria diferente, e A Grande Aposta tem um teor biográfico muito parecido com seu concorrente direto, Spotlight (2015).

Mas enquanto Spotlight aborda o jornalismo investigativo, aqui a história é sobre o mundo das altas finanças e investimentos que culminaram no estouro da bolha imobiliária e do crédito entre 2007 e 2008, resultando em uma crise econômica mundial.

O filme é dirigido por Adam McKay, mais conhecido por O Âncora (Anchorman, 2004) e sua continuação, Tudo Por Um Furo (Anchorman 2, 2013). O roteiro é escrito por ele em parceria com Charles Randolph, baseado no livro homônimo de Michael Lewis. Um tanto diferente do livro, com excessão de Michael Burry, personagem que existe de fato em pessoa e nome, os demais possuem nomes fictícios com caracterizações um pouco exageradas para sutilmente satirizar o momento. .

Que Estados Unidos faz negócio com qualquer negócio, isso não é novidade. Se bobear vendem até as mães. Nessa história esse consumismo desenfreado e todo o sistema capitalista atual é vilanizado como poucos filmes fazem, evidenciando que o sistema realmente existe para favorecer única e exclusivamente um seleto grupo, como aquele de Wall Street, que usa termos complexos para coisas aparentemente simples e assim manter pessoas comuns distantes do dinheiro e do poder para ser fácil enganá-los, manipula-los e explorá-los. Também mostra como uma nação conseguiu colocar a economia mundial em risco por egoísmo, egocentrismo e excesso de autoconfiança.

Em 2006, quando Michael Burry (Christian Bale) prevê através de análises estatísticas sobre juros, riscos, inadimplência e outras variáveis, que em um período de um ano o mercado imobiliário iria falir, e junto com ele os bancos, e com os bancos seus investidores, todo o caos econômico é exposto como uma ferida à sua frente. Ao contrário do que se pensava, muitos ricos e detentores de poder seriam jogados no asfalto sem um dólar no bolso. Baseando-se nisso e sendo responsável por investimentos de risco dentro de uma empresa média, para garantir o futuro de seus investidores ele escolhe a dedo alguns dos mais rentáveis imóveis hipotecados e resolve ir de banco em banco para propor um tipo de "seguro" sobre eles.

Como ironica e didadicamente explicado pela atriz Margot Robbie em uma inserção que mais parece material publicitário, Burry resolve "apostar" contra o mercado. Ele investe US$1.5 bilhões nisso, aceitando pagar aos bancos uma taxa anual milhonária de manutenção em um acordo que o faria receber todo o dinheiro investido acrescido de juros inversamente proporcional à desvalorização do mercado. Ou seja, se desvalorizasse 200%, ele lucraria mais 200% em cima do valor investido nessa "aposta", ou "seguro". Resumidamente do resumo, ele apostou que o mercado imobiliário iria um dia se autodestuir, e os bancos aceitaram sua aposta porque tinham certeza que isso nunca iria acontecer.

Todos os investidores de Burry, bem como seus associados, acreditam que ele cometeu uma loucura e resolvem interceder, enquanto os bancos comemoram ter fechado um negócio milhonário com um lunático. Para os bancos, foi dinheiro fácil. Para Burry, foi um investimento a longo prazo que os salvariam do colapso.

É então que entra Jared Vennett, que descobre sobre os investimentos de Burry, acredita neles, e cria um ramo de negócio em cima disso, convencendo Mark Baum a fazer parte. Baum faz uma investigação e descobre que o mercado imobiliário realmente está a ponto de explodir porque nenhuma pessoa física ou jurídica está conseguindo pagar suas hipotecas devido aos juros crescentes que estão sendo mascarados e a escasses de crédito oferecido pelos bancos porque os fundos estavam se esgotando. Então isso o leva a também descobrir um grandioso esquema de corrupção através de fraudes monstruosas criadas tanto por corretoras que passaram a utilizar o crédito de investidores para cobrir o crédito de outros, quanto pelas empresas de análise de riscos, que receberam propina para mascarar as taxas de risco do mercado imobiliário e assim evitar que os investimentos congelassem, inflando muito mais o problema. Essas fraudes foram cruciais naquilo que levou dezenas de empreas a investirem em negócios vazios, e quando a bolha estourou e a grana de todo mundo desapareceu, uma onda de falência atingiu não apenas a maiores empresas nos EUA, como no mundo, resultando em uma taxa de desemprego e desapropriação em uma porcentagem nunca vista na história.

Portanto, basicamente é sobre isso que o filme trata, porém explicado de forma muito mais minusciosa, tentando por vezes ser até didático para os leigos no assunto, como eu. Também complementa o filme A Última Hora (Margin Call, 2011), cujos eventos cronologicamente acontecem após o estouro da bolha.

Por incrível que pareça está longe de ser um filme chato. Essa linguagem dinâmica desenvolvida por McKay, misturando diversos estilos com interlúdios ilustrativos e eventos que se intercalam para complementar fatos em comum, funciona muito bem e faz um tema complicado e extenuante se tornar interessante, com uma linguagem acessível. Chega um momento que parece que é impossível digerir tantos termos técnicos, mas não se preocupe, o contexto é compreendido assim como uma conversa entre duas pessoas que não falam a mesma lingua: não é necessário saber o que se diz para compreender o que se quer.

Com a câmera na mão, para forjar um estilo documentado (mas sem ser), McKay dá abertura para alguns breves momentos em que personagens dialogam diretamente com o espectador, como um parênteses na história para enfatizar a circunstância. Além disso intensificar o humor embutido, a narrativa feita pelo personagem Jared Vennett (Ryan Gosling) é ao mesmo tempo metainformativa (e crítica), desmentindo alguns momentos que claramente foram feitos para deixar o filme mais interessante, assim como confirma alguns outros que realmente aconteceram na realidade, como no momento que o personagem Mark Baum (Steve Carell) questiona um palestrante, fato realizado por Steve Eisman, quem o personagem é baseado.

Sim, uma sacada bem legal, feita de maneira muito bem dosada, exatamente naqueles momentos em que o tema parece ficar complexo demais ou cair na monotonia.

O elenco, além de grandioso, é excepcional em grande parte, mas é Steve Carell quem rouba as cenas, mesmo com toda a esquisitisse de Christian Bale e sua terceira indicação ao Oscar, um ator que obviamente não é ruim, mas não impressiona mais porque todos os personagens que escolhe sempre são excêntricos e cansativos, ao contrário de Carell, que aos poucos tem saído da zona de conforto da comédia e abraçado papéis mais sérios, embutindo uma ironia que, assim como nesse filme, sem dúvida é seu ponto mais alto e interessante.

Não há dúvidas de que é um filme para ser lembrado, principalmente porque mesmo com todo esse circo que foi armado onde milhões de pessoas foram sacrificadas no processo, tudo conclui que as coisas voltaram a ser como eram, só mudando os nomes para manter longe aqueles que serão sempre as vítimas. E não importa se tudo isso voltar a acontecer daqui 50 anos que seja, até lá muita gente vai ter aproveitado muito, nadado em muita grana e se respaldado para o pior, enquanto somos nós quem continuaremos pagando o pato sempre. Um filme muito interessante para quem acha que lá fora tudo é muito melhor do que aqui dentro, ou que o capitalismo, da forma como é levado, seja tão excelente como muita gente acha.

CONCLUSÃO...
Utilizando diversos estilos e linguagens em um tema complexo, tudo que parecia ser um caos se torna mais organizado do que se pensa, sendo até didátido e ilustrativo para aqueles que nada entendem sobre o tema. O que na verdade não importa, porque McKay conduz tudo de forma que, independente da linguagem, a interpretação será a mesma. E o choque de que somos meros fantoches de um pequeno grupo continua sendo grande. Independente da dimensão, seremos nós as vítimas dos erros alheios.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

NINGUÉM É SUBSTITUÍVEL...

★★★★★★★★☆☆
Título: 45 Anos (45 Years)
Ano: 2015
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Andrew Haigh
Elenco: Charlotte Rampling, Tom Courtenay
País: Reino Unido
Duração: 95 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um casal às vesperas de comemorar 45 anos de casados é surpreendido por uma carta que irá trazer à tona outro ponto de vista sobre todos os anos juntos, suas escolhas e uma bagagem do passado que poderá se tornar pesada demais para ser levada adiante.

O QUE TENHO A DIZER...
Julie Delpy muito bem disse em 2 Dias Em Paris (2 Days In Paris, 2007) que quando escolhemos ficar com alguém devemos aceitá-la com todos seus defeitos e bagagens. É uma comédia romântica, mas a realidade embutida nesta afirmação é mais séria do que muita gente pode imaginar.

É basicamente sobre isso que o filme de Andrew Haigh irá tratar, e a capacidade que temos em aceitar o outro dessa forma.

É o terceiro longa do diretor, que também foi responsável por escrever, produzir e dirigir o seriado Looking (2014-2015) para a HBO. Embora tenha durado apenas duas temporadas, Haigh mostrou nele que é um diretor/roteirista delicado, preocupado com os mistos sentimentos e a forma como eles se manifestam entre os indivíduos, aquilo que naturalmente nos diferencia uns dos outros. Neste filme essa abordagem não poderia ser diferente, mesmo que tudo pareça um tanto frio e melancólico para que o cotidiano dos protagonistas seja reflexo de tantos anos de convivência. Um longa que se desenvolve a passos lentos para que tenhamos tempo de observar e pensar. Não há nem espaço para trilha sonora, pois lança para o espectador uma visão bastante agridoce sobre uma relação de longo termo que subitamente é posta à prova, e apenas isso é suficiente.

A história acontecerá em um período de uma semana na vida de Kate (Carlotte Rampling) e Geoff (Tom Courtenay), pois metaforicamente representará toda a vida que estão juntos. Eles são um casal suburbano aposentado que vive confortavelmente sem ter que dar satisfações a ninguém. Sem filhos, a rotina dos dois se resume a ir para a cidade durante a manhã e passarem o resto do dia juntos entre livros e conversas cotidianas. Confidentes, companheiros, parceiros e amigos, estão prestes a completar 45 anos de casados, e por isso organizam uma festa para substituir aquela que não conseguiram comemorar quando completaram 40. Era para ser uma semana exclusiva para a organização desses detalhes, mas logo na segunda-feira Geoff recebe uma carta que informa que o corpo de Katya, sua falecida namorada, foi encontrado intacto nos Alpes, 50 anos depois de ter caído em uma fenda.

A princípio Kate também se sente surpreendida com a triste notícia, e mesmo sabendo que tudo isso aconteceu alguns anos antes de ter conhecido Geoff, não demora para que ela também se sinta abalada quando percebe que há muito mais na história do que as linhas contam.

Tudo é muito sutil, e conforme os dias passam, mais a protagonista se joga em um vortex de dúvidas enquanto seu marido mergulha cada vez mais em lembranças sobre um amor interrompido. Enquanto Geoff se perde em memórias pela dor de uma perda que nunca se curou, Kate fica pelas sombras pensando nos "talvez" que a história teria tido caso Katya ainda estivesse viva.

As hipotéticas possibilidades de um passado que não aconteceu a perturbam, crescendo dentro de si como um câncer. E entre desabafos de seu marido e até a descoberta de uma foto, passa a acreditar que ela foi uma mera substituta, e nunca foi a mulher da vida daquele que é e sempre foi o homem de sua vida.

A história é contada pelo ponto de vista de Kate, não como narrativa, mas como um objeto de observação porque é crucial que a dúvida que ela alimenta, de sua vida ter sido baseada em um mentira ou não, tenha a mesma intensidade que a nossa como espectador, e caberá a nós acreditar ou não em Geoff, que por sua vez tem um desenvolvimento que expressa claramente que pessoas são insubstituíveis e o amor se manifesta por diferentes maneiras e intensidades. Portanto, também cabe a nós respeitar ou não os sentimentos do personagem porque cada pessoa que passa em nossas vidas deixa sua marca, sentimentos e lembranças. Nada disso pode ser apagado.

Haigh é extremamente cauteloso, e em momento algum tenta construir alguma opinião tendenciosa, se recusando a criar uma narrativa maniqueísta sobre a relação. Para o roteiro, os sentimentos tanto de Kate quanto de Geoff são sinceros, cada um deles em sua razão. Não cabe a nós julgá-los, mas observá-los, porque poderíamos estar em qualquer um dos lados.

Mesmo quando tudo parece estar acertado, o sentimento de que as coisas nunca mais serão as mesmas é pesado, e tudo graças ao fenomenal trabalho de Charlotte Rampling, que até quando tenta esconder seus sentimentos deixa transparecer a caótica dúvida e preocupação sobre sua relação, como no momento em que ouve atentamente seu marido relatar o acidente, toda a paciência e atenção não impedem seus olhos de mostrar o contrário. Para ela, é como se agora estivesse assombrada por um fantasma que nunca deixou sua casa, enquanto para ele a tragédia foi uma oportunidade para conhecer a mulher com quem ele resolveu passar o resto de sua vida junto.

É um filme bastante adulto, que traz à tona sentimentos tão sinceros quanto os dos protagonistas. Não há melodramas e nem lágrimas, e vale ser dito que são desnecessários. Seu fim imprevisível é até chocante dentro da sua simplicidade. Talvez direto demais, mas que mantém a proposta viva do filme de que somos apenas observadores e que a conclusão de fato é indefinida.

CONCLUSÃO...
Talvez o filme mais sério e adulto de 2015, tanto que é difícil o público comum conseguir achá-lo interessante. Um trabalho um tanto frio e distante de Andrew Haigh, pois sua intenção é nos fazer ser observadores incapazes de julgar, pois poderíamos estar no lugar de qualquer um dos protagonistas. Só a interpretação sutil e a presença marcante de Charlotte Rampling já vale uma espiada, mesmo que o tema não agrade.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

NÃO É O MELHOR EXEMPLO, MAS...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl)
Ano: 2015
Gênero: Drama, Biografia
Classificação: 14 anos
Direção: Tom Hooper
Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Amber Heard, Matthias Schoenaerts
País: Reino Unido, Estados Unidos, Belgica, Dinamarca, Alemanha
Duração: 119 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma história levemente baseado na biografia das artistas Lili Elbe e Gerda Gottlieb.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando um ator ou uma atriz recebe um Oscar, é de praxe Hollywood querer que isso se repita. Oferecem grandiosos papéis com este exclusivo intuito, nem que para isso seja necessário alterar completamente a História para adequá-la ao cinema e ao seu público. Assim a história se repete e estrelas são criadas, como aconteceu com Tom Hanks, Hilary Swank, Charlize Theron, Cate Blanchett, dentre outros. Hollywood também adora exageros em seus atores para intensificar tons dramáticos e impressionar o público, tanto que, dentre esses atores e atrizes citados, todos eles receberam seus prêmios e indicações por transformações físicas drásticas em filmes biográficos.

Eddie Redmayne também se encaixa nesse grupo, e é exatamente isso que volta a acontecer com ele nesse filme depois de ganhar o Oscar ano passado por A Teoria de Tudo (The Theory Of Everything, 2014).

A história contará a vida de Einar Wegener (Eddie Redmayne) e sua mulher, Gerda Gottlieb (Alicia Vikander), dois artistas do início do século XX, casados e apaixonados. Einar foi famoso por suas naturezas mortas, e Gerda por suas pinturas eróticas (que vieram a ser chamadas de lesbian art) cuja modelo em tela era a versão feminilizada de seu próprio marido, que posava em roupas femininas e, fascinado na possibilidade de exteriorizar essa personalidade, adotou publicamente o nome de Lili Elbe, aos poucos apagando sua persona masculina, o verdadeiro alter ego.

Mas se engana quem acreditar que a vida de Einar e seu conflito de gênero foi bastante superficial e tão simples como uma escolha qualquer, ou algo que tenha sido motivado por sua esposa, como o filme até chega a fazer o espectador acreditar em um primeiro momento. Assim como o próprio filme felizmente desmistifica (mesmo que demore um pouco), a vida de um transgênero já é confusa a partir do momento em que ele passa a ter consciência de seu próprio corpo, entre a fase final da infância e início da adolescência, já que ele não consegue compreender porque o seu sexo é diferente de sua personalidade e vontades.

E vale dizer aqui que gênero e orientação sexual são coisas diferentes. Gênero é ser homem ou mulher, e orientação sexual é ser homo, hetero ou bissexual. Mesmo sendo um transgênero feminino, não necessariamente precisa gostar de homens, por exemplo. Portanto, sobre a orientação sexual de Einer, a história não dá nenhuma certeza.

Embora essa cinebiografia crie algo bastante romantizado e fictício, incluindo até um terceiro personagem vivido pelo belga Matthias Schoenaerts, que não existiu na realidade e está presente apenas para justificar um pseudo-triângulo amoroso, não se sabe ao certo se na realidade Einer e Gerda eram apenas amigos e mantinham um casamento de aparências ou se realmente eram apaixonados, bem como não se sabe se Gerda era lésbica ou bissexual. Mesmo que tudo isso seja invenção do roteiro, o sofrimento dos personagens consegue ser bastante convincente e próximo daquele relatado por transgêneros e pessoas próximas.

O roteiro em si já é bem diferente do livro homônimo em que é baseado, e o livro também já é muito diferente daquilo que se sabe através dos relatos contidos na autobiografia de Lili no livro Man Into Woman, publicado postumamente em 1933. 

Lili é conhecida historicamente como um dos primeiros transgêneros femininos de conhecimento público, pioneira na cirurgia de redesignação sexual que se tem registro clínico. Porém a realidade do procedimento é bastante diferente do que o filme mostra.

O filme não detalha a complexidade da cirurgia e nem ao menos a considera uma cobaia, como realmente foi. O procedimento teria quatro etapas (e não apenas duas), em um período de dois anos. Dentre essas cirurgias havia o transplante de ovários e útero, porque como era um procedimento ainda experimental, acreditava-se que era necessário uma total construção do órgão feminino interno e externo, o que a medicina posteriormente concluiu não ser necessário com seu avanço. Na última etapa, que consistia no transplante de útero e a construção da vagina, devido a rejeição do órgão transplantado e inúmeras infecções, Lili não sobreviveu ao pós-operatório e faleceu em 1931. Chega a ser cruel imaginar pelo que ela deve ter passado nas condições da medicina daquela época, ao mesmo tempo que isso demonstra como a rejeição dos transgêneros pelo seu próprio corpo faz dessa alternativa a única para se sentir uma pessoa completa, como Lili chega a dizer ao acordar da cirurgia.

Embora Einer tenha frequentado a sociedade como Lili, a qual se apresentava como irmã do pintor (e não como prima), a farsa não foi um segredo como o filme mostra, já que a sociedade descobriu a verdade algum tempo depois. É uma história triste que não tem o interesse em focar nas dificuldades sociais que Einar pode ter passado, mesmo havendo um momento bastante violento e duramente simbólico na discriminação que ainda é atual e igualmente desprezível.

O foco do filme, e que consegue fazer isso muito bem por boa parte da história e até com certo humor em alguns pontos, é mostrar o duro processo psicológico de aceitação do personagem e sua complicada peregrinação até encontrar um médico que compreendesse sua condição da forma como ele sentia. Difícil também é Gerda compreender tais mudanças e as diferenças de gênero que existe em uma época em que nada disso era comentado e estudado, além de ser considerado uma doença, um disturbio psiquiátrico de identidade, o que hoje não é mais aceito dessa forma.

Além do descompromisso com as biografias de ambas personagens, o filme sem dúvida peca na forma como a história é desenvolvida em um primeiro momento. Nem o diretor e nem a roteirista conseguiram ter a delicadeza, a sutileza necessária para conduzir o espectador nessa transição do personagem sem gerar curto circuito nos neurônios daqueles que pouco souberem sobre o assunto, podendo ser chocante e até fazer o espectador mal informado confundir a condição de Einer como um fetiche qualquer, uma doença, ou uma decisão momentânea. Demorar para revelar que Einer sempre se sentiu uma mulher soou como uma razão encaixada de última hora, posta para cobrir o buraco do fato e apertar o passo da história, relembrada a todo momento depois disso, mas que não consegue ser convincente ou esclarecedor porque a forma como foi feito antes não nos fez convencer. Toda a condição do personagem só irá fazer sentido para aqueles que tiverem conhecimento do que é um conflito de gênero de fato e como ele se manifesta.

As atuações de Redmayne e Vikander são emocionantes do início ao fim, mesmo que algumas vezes o excesso de sorrisos do ator para forçar a delicadeza do personagem fique um pouco cansativo e seu maneirismo um tanto caricato. Para a atriz sueca, que se destacou mundialmente com O Amante da Rainha (En Kongelig Affære, 2012) e participou do interessantíssimo Ex_Machina (2015), no qual faz uma interpretação até melhor, sem dúvida 2015 foi seu ano, mesmo que ela não ganhe o prêmio maior.

Claro que o fim não esquece de apelar para o sentimentalismo óbvio com o lenço de seda voando e uma frase pra lá de cliché para justificar uma cena já óbvia. Não é o melhor exemplo de um filme temático sobre a trangeneridade porque infelizmente falta uma história mais refinada, sem excessos que existem para compensar a complexidade e a difícil compreensão do tema. Mas assim como acontece em Transamérica (2005), consegue ser respeitoso, mesmo que grande parte seja ficção.

CONCLUSÃO...
Apesar de ser bastante fictício e romantizado, consegue ser um filme com uma intenção válida dentro desse tema complexo. Mas ainda está longe de ser um grande exemplo.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A IGREJA VERSUS O JORNALISMO INVESTIGATIVO...

★★★★★★★★★☆
Título: Spotlight - Segredos Revelados (Spotlight)
Ano: 2015
Gênero: Drama, Investigação, Biografia
Classificação: 14 anos
Direção: Tom McCarthy
Elenco: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Liev Schreiber, John Slattery, Stanley Tucci
País: Estados Unidos
Duração: 128 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um grupo de jornalistas investigativos do jornal Boston Globe é interceptado por informações que levam a um grandioso esquema de abuso sexual dentro da Igreja Católica.

O QUE TENHO A DIZER...
Em 2002 o jornal The Boston Globe publicou uma matéria bombástica sobre os casos de abuso sexual infantil ocorridos na arquidiocese de Boston, no Estados Unidos, repercutindo mundialmente, tirando até mesmo a Irlanda e outros países do silêncio.

A história começou quando houve uma pequena publicação em uma coluna do jornal sobre alguns casos envolvendo cinco padres católicos locais em 2001. Impulsionado pelo novo editor chefe, Martin Borton, o assunto acabou indo parar nas mãos de uma equipe dentro do jornal conhecida como Spotlight, um grupo específico responsável por matérias investigativas de grande foco e de alta confidencialidade, onde cada matéria pode demorar de um a dois anos para ser publicada, tamanha a minusciosa busca de informações e confirmação de fontes. Isso acabou trazendo para a mesa editorial uma série de outros casos correlacionados envolvendo vítimas das quais muitas haviam cometido suicídio, e as que estavam vivas apresentavam severos traumas psicológicos.

As investigações levaram a descobrir que o que acontecia não eram casos isolados, mas um padrão recorrente e de conhecimento do próprio Vaticano, comprovados pelo psiquiatra e ex-monge beneditino, Richard Sipe, que trabalhou de 1965 a 1970 no Instituto Psiquiátrico de Seaton, lugar mantido pela própria Igreja Católica. Foi lá que ele se deparou com seus primeiros casos de abuso e, a partir dalí e por conta própria, montou uma equipe que estudou isso por trinta anos, naquilo que ele considerou como um "fenômeno psiquiátrico" por conta dos padrões de ocorrência que partiam desde o comportamento sexual dos assediadores dentro da Congregação Católica, até nos padrões de escolha das vítimas, que geralmente são crianças e adolescentes com disturbios psicológicos já estabelecidos, ou com problemas familiares, como pais divorciados ou orfandade. Os estudos de Sipe chegaram a uma estatística de que 6 a 7% da comunidade mundial de padres e bispos da Igreja Católica são pedófilos, o que leva a um número exorbitante que foge da idéia comum de que os casos são apenas algumas "maçãs podres", como é dito varias vezes no filme. Sipe também conseguiu comprovar que os casos de pedofilia não ocorrem necessariamente entre padres homossexuais, e que o assédio envolvendo crianças do sexo feminino é muito maior do que se acreditava.

As investigações da Spotlight levaram a descobertas assustadoras com, no mínimo, trinta anos de recorrência envolvendo mais de 70 representantes locais (o que corrobora com as estatísticas traçadas por Sipe), além de centenas de vítimas. A maioria dos casos judiciais nunca foram julgados publicamente, ou simplesmente foram encerrados por conta de acordos de confidencialidade entre as vítimas e a igreja, o que ajudou a abafar possíveis escândalos e manter a situação controlada.

Descobriu-se mais, que também havia alí um forte esquema de corrupção envolvendo a instituição católica, a mídia e o setor judiciário, tanto por parte da promotoria quanto da defesa. O próprio Boston Globe chegou a ignorar o assunto na década de 90, quando recebeu materiais e denúnicas a respeito, fato que o filme também não esconde, o que até surpreende, já que poderiam simplesmente ter omitido essa situação para favorecer o heroísmo das intenções.

E é sobre tudo isso que este excelente filme biográfico e investigativo, dirigido por Tom McArthy e escrito por ele em parceria com Josh Singer, irá tratar. Mas o mais interessante é que houve um grande cuidado na abordagem do tema e uma sólida pesquisa para sua produção, e seu desenvolvimento é feito pelo ponto de vista da equipe editorial do jornal, onde presenciamos de forma bastante realista todo o processo de prospecção, além das dificuldades e obstáculos encontrados por cada um deles até a publicação que, inclusive, precisou ser temporariamente engavetada e sem prazo de retomada por conta dos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001. 

É um daqueles poucos filmes biográficos que realmente se embasam em fatos reais para construir sua história, tanto que todos os personagens interpretados com integridade pelo elenco são reais, incluindo suas identidades. Tudo é muito ponderado e bem feito, desde a direção que evita momentos clichés de abuso dramático até o roteiro que constói gradativamente um clima de tensão e interesse nos bastidores, que mostra de forma sucinta a importância do jornalismo investigativo como um serviço de informação social, principalmente em casos como esse, de um esquema criminoso gigantesco e abafado de causar repulsa, revolta e indignação. E acredite, quanto mais o filme caminha, mas chocados ficamos com seus acontecimentos e a conspiração existente em torno do assunto.

Não é à toa que tem sido considerado o melhor filme de 2015 e um dos melhores do gênero, pois consegue ser interessante e até com um certo nível de suspense sem necessidade alguma de ser apelativo. Nem há momentos de conflitos entre corpo editorial e chefes, como é de praxe nesses temas, onde criam-se dificuldades aleatórias para no fim os jornalistas empenhados provarem que estavam corretos. Só há um ou outro momento em que a efetividade e publicação da matéria é questionada, mas tudo é contornado rapidamente e as dificuldades encontradas são mais por fatores externos do que internos.

Que os casos de abuso sexual envolvendo a Igreja Católica tenha recorrência histórica e não seja mais segredo para ninguém, é notório. Hollywood mesmo já abordou esse tema, como no sutil e ponderadíssimo Dúvida (Doubt, 2008). Mas aqui a situação é levada para outro patamar, aquele de que ainda ignoramos os fatos e nos mantemos cegos frente àqueles que direcionam a fé, nos deixando sem a capacidade de enxergar os sinais com clareza de que nada é realmente aquilo que parece ser, numa perversidade que foge completamente da proporção que imaginamos. Transformando a Igreja em um reduto de crimes encobertos por eles mesmos, como uma irmandante, além de deterem poderes que se sobrepõem a qualquer outra instituição.

Claro que o filme acaba sem um grande conflito direto entre a Igreja e o jornal, deixando aquela vontade de querer saber mais, ou quais as consequências catastróficas que a publicação trouxe aos fiéis e ao Vaticano, mas ao mesmo tempo isso teria fugido do foco de contar a história pelo ponto de vista daqueles que se empenharam em peitar uma das instituições religiosas mais influentes do mundo. A única coisa que se sabe é que houve a resignação do arcebispo Bernard Francis Law, com alguns pedidos de desculpas públicas aqui e alí para amenizar a situação, mas que em 2004 foi readmitido pelo Papa João Paulo II como arcebispo da Basílica de Santa Maria Maggiore, em Roma. Ou seja, tudo voltou a ser como era. E se talvez catorze anos depois o mundo tenha se esquecido desse fato (o que não é de se espantar), esse filme é uma grande oportunidade de nos relembrar de tudo novamente e não deixar dúvidas de que para ser representante da fé não é necessário batina, mas integridade.

Apesar do favoritismo público em meio a críticas boas e medianas que acabam sobrepondo e direcionando a opinião das pessoas mais influenciáveis, e embora seja um filme com todo o perfil possível para a temporada de premiações, a verdade é que a inteção da história e dos acontecimentos já é relevante por sí só. Sua execução funciona e é esclarecedora. Algumas coisas não dá para serem explicadas, como a indicação de Rachel McAdams ao Oscar de Coadjuvante, ou da preferência de Mark Ruffalo quando Michael Keaton fez um trabalho igualmente memorável, mas tudo é esquecível em uma história que, como li em um comentário, se transforma em um dos piores filmes de terror dos últimos tempos.

CONCLUSÃO...
Um relevante e ponderado filme sobre os bastidores e a importância do jornalismo investigativo na sociedade que carece de instituições íntegras, ao mesmo tempo que nos relembra de um dos maiores escândalos sexuais e religiosos da história, além de evidenciar em como a igreja católica não apenas é omissa como condescendente dos crimes envolvendo seus representantes.

sábado, 23 de janeiro de 2016

POLÍTICA, DONALD TRUMP E CINEMA SÃO ASSIM...

★★★★☆☆☆☆☆☆
Título: Especialista Em Crise (Our Brand Is Crisis)
Ano: 2015
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: David Gordon Green
Elenco: Sandra Bullock, Joaquim de Almeida, Billy Bob Thorton, Ann Dowd, Zoe Kazan
País: Estados Unidos
Duração: 107 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma estrategista eleitoral norteamericana é contratada para auxiliar na reeleição de um controverso presidente boliviano, ao mesmo tempo que compete com um rival de longa data, que trabalha para o candidato da oposição.

O QUE TENHO A DIZER...
Este filme é baseado no documentário homônimo de Rachel Boyton, lançado em 2005. Enquanto o documentário narrava a campanha presidencial boliviana de 2002, em que concorriam à presidência Gonzalo Lozada e Evo Morales, a história aqui será bem mais fictícia, levando os senãos da história para outros rumos e substituindo alguns personagens por outros.

Os presidentes no roteiro de Peter Straughan não são reais, embora sejam referências a eles, bem como a personagem vivida por Sandra Bullock seja uma referência a Robert "Bob" Shrum, o famoso consultor que prestou serviço a importantes candidatos no Estados Unidos, incluindo Al Gore e John Kerry. Ao longo de sua carreira, Shrum foi estrategista de oito candidatos, e sua fama se deve por nenhum deles ter chegado à presidência, embora sua participação tenha sido bastante relevante no cenário político.

O filme é dirigido por David Gordon Green, mais conhecido pelas comédias escrachadas, linguarudas e politicamente incorretas, como Segurando as Pontas (Pineappel Express, 2008) e o subestimado Sua Alteza? (Your Highness, 2011), que foi muito mal interpretado pela crítica que o destruiu, talvez porque deram muito mais atenção ao teor chulo e pornográfico do que ao satírico, que muito se assemelha ao que Mel Brooks fez no passado, mas obviamente de forma mais branda porque os tempos eram outros.

Uma escolha um pouco inusitada, já que Green é um diretor liberal demais para, talvez, conseguir carregar nas costas um filme político e, na medida do possível, bastante correto. Portanto é notável como ele está comedido, um tanto preso em exigências. 

O filme foi escolhido à dedo por Bullock (que também assina a produção) para tentar manter sua safra de boas escolhas que culminaram com o Oscar de Melhor Atriz por Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009) e uma posterior indicação por Gravidade (Gravity, 2013). Aliás, George Clooney, parceiro neste último, estava cotado para estrelar este filme também, mas acabou ficando apenas na produção.

Mas o resultado foi completamente o oposto daquele que se esperava. A seletiva escolha de Bullock não foi acertiva dessa vez. O filme foi massacrado pela crítica e público. Um verdadeiro fiasco. Isso não é uma novidade na carreira de Bullock, que por duas décadas foi estigmatizada como um atriz de comédias, chegando a ver sua carreira à beira do abismo. Depois de dar a volta por cima com alguns dramas e provar seu talento versátil à duras penas, voltou agora a dar preferência para estilos mistos, como acontece aqui, já que está comprovado que ela consegue ser engraçada e dramática ao mesmo tempo, e vice-versa. E o público comum adora.

Mas por que será que tudo foi tão mal das pernas assim? Ele é tão ruim ou até pior que o horroroso Maluca Paixão (All About Steve, 2009) ou o absurdo Velocidade Máxima 2 (Speed 2, 1997), ambos estrelados por ela?

Para ser sincero, tudo já não começa bem ao apresentar Jane "Calamidade" Bodine (Sandra Bullock) como uma estrategista política em reclusão há seis anos porque perdeu a última batalha presidencial para seu rival, Pat Candy (Billy Bob Thorton). E seu apelido "calamidade" já explica muita coisa. Ela parou de fumar, parou de beber e vive calmamente em uma cabana fazendo cinzeiros de argila depois de uma temporada em um hospital psiquiátrico. Clássicos e batidos conflitos que se transformam em motivos para fazer um personagem superar um trauma do passado. Então já conseguimos prever que a trajetória da personagem será cheia de obstáculos, mas ela irá se bem suceder no fim. Alguém já viu algo parecido? Sim?

Imaginei.

O candidato à presidência, Castillo (Joaquim de Almeida), é mostrado de forma patética em um programa de televisão, não sabendo dar respostas diretas ou nem mesmo tendo respostas para perguntas mais complexas, o que justifica logo de cara seus 8% de preferência nas pesquisas. Castillo é um político bronco, elitista e antipático que tenta se reeleger (como ele foi eleito no passado sendo assim, não se sabe). Ele tem dificuldade de se aproximar do povo em uma época complicada de crise econômica e segregação social na Bolívia, e isso também é argumento óbvio para que a missão da protagonista seja ainda mais complicada.

Quando Jane chega no país, entre tentativas de humor físico com um tombo ao sair do avião, comentários um pouco preconceituosos de seu assistente sobre o povo boliviano, trombadas, um desnecessário cilindro de oxigênio, náuseas e uma vomitada na lata de lixo, a situação do filme piora porque tudo parece apelativo, além de Sandra Bullock repetir pela enésima vez aquele estereótipo de mulher comum e desajustada, vítima de si mesma e de seus próprios contrangimentos. Um tipo que virou sua marca registrada em Miss Simpatia (Miss Congeniality, 2000), mas que depois de tantas vezes repetido, incluindo seu penúltimo filme, As Bem Armadas (The Heat, 2013), a situação já ficou esgotada e cansativa, realmente um retrocesso.

Por alguma razão, esse filme pra mim parecia ser para Sandra Bullock o que Erin Brockovich (2000) foi para Julia Roberts, talvez pela determinação da protagonista e pelo parecido estilo de filmagem. Mas Gordon Green deveria ter seguido os mesmos passos de Steven Soderbergh para fazer desse filme algo melhor apresentável e menos bagunçado. Deveria ter sido mais sutil, e feito adaptações que amenizassem esse deboche que ele carrega consigo, mas que não se encaixam aqui porque tudo é muito comercial e didático, produzido dentro de uma formuleta para chamar atenção com excessos e previsibilidade, implorando para o público rir ou se emocionar, mas sem conseguir nenhum dos dois com efetividade, nem mesmo quando as cenas são invadidas por uma trilha sonora que nada acrescenta até mesmo nos poucos momentos que elas funcionariam sozinhas, apenas no diálogo.

Tirar sarro da política é interessante, mas está muito longe de ser um Segredos do Poder (Primary Collors, 1998), de Mike Nichols, embora tivesse tudo para ser tão interessante quanto porque, apesar dos defeitos, seu tema é atualíssimo. Fica estranho ver tudo de forma tão retorcida, sem eira e nem beira, como se tudo fosse uma grande piada em um grande circo. Desnecessário porque a política em sí já é uma piada pronta, não há necessidade de deixá-la over the top, como dizem os norteamericanos. Sem dúvida faltou uma finesse maior, diálogos mais polidos e menos caricatura. A ironia já seria suficiente para o tom cômico, como acontece, por exemplo, com o personagem de Billy Bob Thorton, que sempre se apresenta e inicia um diálogo amigável e decente, mas sempre sai de cena com uma frase elegantemente desconfortável, deixando óbvio que a rivalidade que ele cultiva é carnal e sexista. Sim, ele consegue ser brilhantemente nojento e provocativo como o filme não consegue ser.

Em um primeiro momento o roteiro tenta levar todo esse assunto para um tom pastiche e satírico, aquele que Gordon Green gosta, mas que de uma hora pra outra deixa de ser assim como se o diretor tivesse cansado de brincar com os carrinhos.

Também era desnecessário levar o tema para a Bolívia para tratar de um assunto em que o próprio Estados Unidos vive no momento. Lugar em que mesmo que o candidato seja antipático e as pessoas tenham medo dele, é aquele que consegue ser o mais popular. O que Jane faz com Castillo no filme é o que Donald Trump tem feito em sua campanha, se aproveitando do medo e da insegurança generalizada para construir seu sucesso. Trump tem se beneficiado do mesmo com as contantes ameaças terroristas, do inchaço imigratório e da revolta coletiva para divulgar sua estratégia política preconceituosa, xenofóbica, violenta e conservadora, e assim conquistar aquela maioria ignorante que esperava por alguém com colhões para representá-los. A crise, como bem diz Jane Bodine entre citações de Shan Tzu, Maquiavel e Warren Baty, tem sido sua marca, aquilo que ele está vendendo muito bem como o bem sucedido marketeiro que é. Tomara que seja apenas marketing, apenas uma imagem enganosa para garantir sua eleição, e que na prática as coisas sejam diferentes, tal qual acontece com Pedro Castillo na história.

Talvez esse discurso que a protagonista faz seja um excelente resumo do cenário político atual, e como a política nada mais é do que uma propaganda idealizada, enganosa e direcionada para o público que quer comprá-la sem questionar. Vence a embalagem mais adequada, e aquela direcionada pelas pesquisas de satisfação.

Analisado por esse ponto de vista e pelos poucos momentos em que o roteiro realmente questiona isso, o filme demonstra ter conteúdo e relevância, mas escorrega pelos dedos do diretor e do roteirista, que não quiseram ser mais duros e crus como a realidade para, talvez, conseguirem vender seu produto sem criar polêmicas. Mas nada disso ajudou. Se o filme tivesse um rumo mais realista e interessante, sem floreios ou excesso de tramas paralelas irrelevantes, dando foco unicamente ao jogo de interesses e falsas promessas que é a política, o filme teria fracassado comercialmente de cabeça erguida.

CONCLUSÃO...
Tem conteúdo relevante, mas escorregou pelos dedos do diretor e do roteirista. Poderia ter sido um filme muito mais interessante e uma importante referência ao cenário eleitoral norteamericano atual, mas se perde nas falsas intenções e na intenção de não ser polêmico para ser melhor aceito. Isso só provou que amenizar temas para ser mais vendável nem sempre funciona ou vale a pena. Mas política, propaganda e cinema são assim.

sábado, 9 de janeiro de 2016

TIME QUE GANHA NÃO SE MEXE, MAS CANSA...

★★★★★☆☆☆☆☆
Título: Joy - O Nome do Sucesso (Joy)
Ano: 2015
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: David O. Russell
Elenco: Jennifer Lawrence, Bradley Cooper, Robert De Niro, Diane Ladd, Isabella Rossellini
País: Estados Unidos
Duração: 124 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Levemente baseado na história real de Joy Mangano, uma mulher que saiu da total miséria para se tornar uma empresária de sucesso.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando o diretor David O. Russel trabalhou com a atriz Jennifer Lawrence pela primeira vez, ela ainda não era uma estrela de primeira grandeza em Hollywood. Foi com seu filme, O Lado Bom Da Vida (Silver Linings Playbook, 2012), que ela foi catapultada para o sucesso, pois ele lhe rendeu uma segunda indicação ao Oscar que, consequentemente, veio a ser sua primeira estatueta com apenas 23 anos.

Claro que não foi unicamente isso. Lawrence já vinha caminhando em uma sucessão de boas escolhas, mas foi com Russell que ela se estabeleceu em definitivo, e o mesmo aconteceu com o ator Bradley Cooper.

Portanto, não é à toa que este é o terceiro filme em que Russell, Lawrence e Cooper trabalham juntos novamente (e o quarto em que Lawrence e Cooper atuam juntos). Tudo isso porque, da mesma forma como foi em Trapaça (American Hustle, 2013), o filme anterior do trio, aqui vale novamente a máxima que "time que ganha não se mexe".

Russel está tão seguro disso que a fórmula já está ficando óbvia e cansada, mas ele ainda não percebeu.

Dessa vez ele contará a história de Joy (Jennifer Lawrence), uma jovem que praticamente carrega toda a responsabilidade de sua família e de sua casa hipotecada nas próprias costas (Lawrence fez algo parecido em Inverno D'Alma). Endividada e sem dinheiro para sequer pagar a conta de telefone, um dia ela acorda com a brilhante idéia de inventar um esfregão de chão após ter cortado sua mão com um copo quebrado na hora de limpar a sujeira. Com a ajuda de seu pai (Robert De Niro), de sua nova madrasta empresária (Isabella Rossellini) e de sua irmã invejosa (Dascha Polanco), ela consegue um gordo financiamento para produzir o primeiro lote de sua invenção. Depois de tudo pronto, ela não consegue vender sequer um deles. E depois de uma cascata de desastres, infortúnios e humilhações, ela consegue convencer um diretor de uma empresa a colocar seu mais novo produto em um famoso programa de televendas. E é a partir daí que a história de superação e sucesso realmente começa.

A grosso modo a história parece simples demais ou sem grandes atrativos para um filme com um elenco que conta até mesmo com De Niro (a terceira parceria dos dois também). Só que Russell, tal qual os televendedores no próprio filme, sabe vender seu produto e agregar valor a ele com uma produção de época novamente classuda (mas não tão exuberante como seu filme anterior) e exageros fictícios na história para render cenas que apelam no sentimentalismo ou na motivação, fora o elenco já citado.

Então, no fim das contas, o que se tem é um filme (no mínimo) divertido e empolgante, e o resto é aceitável, porque é tudo muito correto como ele sabe que tem que ser, até nos erros.

Por conta disso, não deixa de ser apelativo, daqueles que pedem pelo amor de deus para receber indicações a prêmios, principalmente para Lawrence. Tanto é assim que ele é cheio de cenas solo da atriz, aquelas típicas cenas para se passar no telão do Oscar. Temos Lawrence chorando com convicção, Lawrence discutindo com ênfase, Lawrence se surpreendendo com emoção, Lawrence quebrando tudo no cenário em frente a filha, Lawrence virando o jogo e saindo de cena desfilando. Enfim, vários momentos que atiram para todo o lado para chamar a atenção de jurados pelo mundo. E essa obviedade na intenção incomoda muito porque tentam fazer disso algo mais interessante do que a própria história, a qual, por si só, é cheia de problemas de continuidade e personagens mal explorados ou desenvolvidos. Os eventos acontecem todos um em cima do outro, sem intervalos que representem transições temporais convincentes, além de conflitos entre personagens que são jogados aleatoriamente na história para acentuar curvas dramáticas.

Tudo isso é feito justamente para dar dinamismo e densidade em uma história que é fraca, mas que foi desenvolvida mesmo assim com o único intuito de manter Lawrence em evidência. Desnecessário, com certeza. Todos já sabemos que ela é talentosa porque é natural e espontânea. Há um momento no filme em que sua personagem se desmonta toda para aparecer no programa de televisão, e então ela justifica dizendo que é daquele jeito que ela é no dia comum: vestindo camisa, calça e cabelo amarrado de qualquer jeito. E na realidade, Lawrence é bem isso, sendo essa a razão de seus papéis terem sempre esse apelo mais despojado, de gente comum, e não algo estrategicamente montado, até mesmo quando tentam, como acontece aqui.

Não é ruim, mas também não consegue agregar alguma coisa porque só floreando muito para levar a história de uma mulher que inventou um esfregão de chão parecer algo interessante no cinema. O que paradoxalmente é até bastante engraçado porque, mesmo no desinteresse que o título ou tema possam despertar em um primeiro momento, ele consegue ser até melhor que o esperado. Só é inevitável notar tantos truques, exageros e situações marcadamente forçadas e previsíveis, um filme literalmente fabricado para atrair uma atenção fácil e garantir seu lugar nas premiações de alguma forma, principalmente em um ano bastante fraco como foi 2015.

CONCLUSÃO...
A empreitada de Russell para transformar o longa em mais um forçado show particular de Lawrence. O bom é que ela é tão espontânea que toda essa presunção acaba caindo por terra e fazendo o filme se transformar em algo bonitinho, motivador e aceitável. Com certeza a parceria de Lawrence com Cooper tem se tornado uma coisa meio Doris Day e Rock Hudson deste século, mas é necessário que Russell deixe de usar isso como uma fórmula fácil, caso contrário o resultado será sempre essa água com açúcar que virou.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

VALE CADA MINUTO...

★★★★★★★★★☆
Título: O Regresso (The Revenant)
Ano: 2015
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Alejandro Gonzáles Iñárritu
Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Pouter, Forrest Goodluck
País: Estados Unidos
Duração: 156 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um caçador de peles é atacado por um urso. Gravemente ferido e debilitado, é deixado à morte por seus colegas. Motivado pelo sentimento de vingança, trava uma batalha com a própria natureza em luta pela sobrevivência.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando Gravidade (Gravity, 2013) foi lançado, o mexicano Alfonso Cuarón trouxe de volta para o cinema os longos planos sequência (cenas sem cortes) de 5 a 10 minutos. Foi necessário um mexicano fazer isso para a técnica novamente virar tendência em Hollywood, assim como foi necessário outro mexicano, o amigo Alejandro Gonzales Iñárritu, para ultrapassar essa barreira com Birdman (2014), ao realizar um longa aparentemente feito em uma única sequência.

Não que ninguém tivesse feito isso antes. Hitchcock mesmo fez isso com Festim Diabólico (1948), mesmo com todas as limitações tecnológicas da época. A verdade é que o filme tem cortes, sim. Mas são imperceptíveis tal qual o clássico citado.

Birdman surpreendeu e agradou toda a crítica, que o considerou ousado. O que ele realmente é. Tanto que será referência futura assim como Festim Diabólico é até hoje.

Talvez um tanto inflado com o resultado do seu filme anterior, Iñárritu aproveitou o nirvana para mergulhar em um projeto no qual novamente escolhe o caminho mais difícil. Na intenção de que tudo parecesse realista o bastante, realizou cenas e filmagens da maneira mais crua e com o mínimo de equipamentos possível. As filmagens foram realizadas cronologicamente em um total de 80 dias dentro de em um período de 9 meses porque a mirabolante idéia da vez foi utilizar uma estética de filmagem que utilizasse apenas a luz natural em locações reais.

Obviamente que isso deixou a equipe técnica de cabelo em pé porque dependiam da boa vontade da natureza para que tudo desse certo em um cenário onde havia tudo para dar errado. Um único momento em que o tempo não contribuísse, era o suficiente para o dia de trabalho ser perdido. O caso mais grave foi na reta final de filmagem, em que o gelo das locações canadenses derreteu, impossibilitando a continuidade. Toda a equipe teve que se mudar para o sul da Argentina para encontrar situação climática similar, o que felizmente conseguiram em cima da hora, já que o verão se aproximava.

Esse constante de situações inesperadas e estressantes gerou grandes divergências no set, intensificados pelo temperamentalismo e exigência de Iñárritu ao ponto de várias pessoas deixarem o projeto no meio do caminho, ou serem demitidas pelo próprio diretor, como aconteceu com um dos produtores. Houve até discussões entre ele e o ator Tom Hardy por conta da falta de segurança que o ator sentia na realização de algumas cenas.

Excentricidades à parte, no fim tudo valeu a pena porque o resultado é realmente impressionante e o filme é definitivamente de cair os queixos por aí.

A história se passa no começo do século XIX, narrando a história de Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), um caçador de peles que, após ser brutalmente atacado por um urso marrom, é abandonado por seus colegas e deixado para a morte nas florestas gélidas do norte dos Estados Unidos. Ferido, sem suplementos ou armas, e em meio a uma guerra entre brancos e índios da tribo Arikara por conta de domínios territoriais e inclusive pelo direito a exploração de pele, Glass faz uma peregrinação de sobrevivência por mais de 300km com o único intuito de vingar a morte de seu único filho, fruto de uma relação entre ele e uma índia Pawnee no passado, o qual foi assassinado friamente por Fitzgerald (Tom Hardy), um de seus colegas de caça.

A experiência realista que Iñárritu cria consegue ir muito além de qualquer outro filme de sobrevivência solitária que foi lançado nos últimos anos. Primeiro porque, com excessão de algumas informações fictícias, grande parte do filme é baseado em fatos verídicos. Segundo porque as filmagens com iluminação natural dão uma densidade fotográfica um tanto inédita, um material bruto sem maquiagem visual que chega a surpreender naturalmente com as paisagens sem tratamento digital. Terceiro porque grande parte do que vemos é o que foi filmado de fato, principalmente a respeito dos atores. DiCaprio não é poupado das dificuldades em tempo algum, seja nu em meio a neve, mergulhando nos rios congelados ou comendo figado cru de um búfalo, ele se deixa levar pelo extremo naquilo que pode ser o seu melhor papel porque ele se despe de toda e qualquer zona de conforto. E por último, o diretor ainda mantém os planos sequência por boa parte da história, o que era necessário para se aproveitar o máximo do pouco tempo disponível diariamente para filmagem, mas que certamente intensificam ainda mais o realismo pelas situações se desenvolverem sem cortes ou truques óbvios, como o momento do brutal ataque do urso marrom (uma das sequências mais impressionantes e das poucas que faz excelente uso da computação gráfica a favor da experiência realista), ou quando Glass foge a cavalo enquanto é perseguido por nativos americanos, uma das melhores e mais bem construídas sequências de perseguição do filme que não dura nem 30 segundos, mas tudo é tão meticulosamente ensaiado, numa coerografia perfeita tanto por parte do elenco como da condução da câmera, que a pontualidade capta todos os momentos necessários sem exagero dramático.

Aliás, mesmo sendo um drama espiritual, como o próprio diretor o classificou, além de uma batalha épica entre o homem e a natureza, Iñárritu não apela em momento algum para o drama comum. Ele é muito objetivo e sucinto, até mesmo em situações que qualquer diretor facilmente cairia no apelo fácil, como no momento em que Hawk (Forrest Goodluck) é atacado por Fitzgerald. Esqueça qualquer melodrama similar ao que Robert Zemeckis construiu em Náufrago (Cast Away, 2000) porque Iñárritu acerta ao fugir completamente dos clichés que Hollywood criou ao longo dos anos no gênero. Não há nem mesmo invasão da trilha sonora para sugerir maior impacto sentimental porque tudo isso é desnecessário. O desenvolvimento das situações já é visceral por si só, a realidade existente nas cenas já tem densidade suficiente para sentirmos os ossos congelarem, a carne dilascerar, a fome bater e o desespero nos consumir.

Fazia tempo que eu não via algo baseado em fatos reais com tanto realismo e seriedade. Há violência explícita, tensão e cenas fortes, mas tudo tem coerência e contexto. Só que frente a tantas qualidades em uma situação cujo principal vilão é a própria natureza e sua força devastadora, transformar uma história de sobrevivência em um filme de vingança, como é o que acontece, por algumas vezes não parece fazer sentido. Mas a história real de Glass é contada dessa forma, só não é esclarecido se a verdadeira razão pela sua busca de vingança foi por Fitzgerald tê-lo deixado para a morte, ou se foi por ter roubado seus pertences enquanto debilitado e inconsciente (e não por ter matado seu filho, como acontece no filme). E aproveitando disso, Iñárritu até explora essas outras possibilidades, inclusive há até uma tentativa de "desvilanizar" o personagem de Hardy para que suas atitudes sejam mais consequência de traumas psicológicos do que por uma maldade deliberada, o que é até convincente também por conta do trabalho que Hardy desenvolve.

Com certeza é um filme longo e cansativo nos seus mais de 150 minutos. Cansativo não por ser monótono, mas por perdermos a esperança pelo personagem diversas vezes porque sempre algo pior irá acontecer, inclusive quando acharmos que não há como a situação piorar. E o comprometimento de DiCaprio no papel é estarrecedor. Até mesmo eu, que particularmente nunca fui fã de seus trabalhos, não conseguia vê-lo como um ator em cena, mas como Hugh Glass de verdade, tamanha sua imersão no personagem e no filme.

Assim como em Perdido Em Marte (The Martian, 2015), outro filme de sobrevivência lançado há pouco tempo, são em filmes como esse que percebemos como nós, meros humanos da vida fácil, não teríamos a mínima noção de como sobreviver a uma situação extrema de sobrevivência. E é até bom que filmes assim estejam na moda para que possamos perceber como somos frágeis e despreparados para o inesperado.

CONCLUSÃO...
Se Iñárritu tinha a intenção de se superar depois de Birdman, ele conseguiu. O Regresso não apenas é um dos maiores filmes de 2015 como deve figurar entre os melhores do gênero. É outro filme do diretor que se tornará referência. Um filme que, acima de tudo, é visualmente deslumbrante e que vale cada minuto assistido, mesmo que haja um intervalo de descanso.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

IGNORÂNCIA É O MAIOR DEFEITO...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Os Oito Odiados (The Hateful Eight)
Ano: 2015
Gênero: Suspense, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Quentin Tarantino
Elenco: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Demian Bichir, Tim Roth, Michael Madsen, Bruce Dern
País: Estados Unidos
Duração: 167 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Oito pessoas desconhecidas se protegem em um abrigo durante uma nevasca que poderá durar dias, mas as desconfianças entre eles aumentam conforme seus interesses particulares são ameaçados.

O QUE TENHO A DIZER...
Eu sou fã de Tarantino. Mas não sou aquele fã que ficou fã porque Pulp Fiction (1994) é cult e referência do cinema pop moderno. Fiquei fã depois que essa onda passou e saquei que, de fato, ele é (talvez) o único diretor atualmente capaz de transformar a cultura pop e inútil em algo consistente e relevante no cinema. Tá... também temos Guy Ritchie em uma menor escala, que pode ser a versão mais britânica e descomprometida de Tarantino. Mas a diferença entre um e outro é que todos os filmes de Tarantino são atraentes de alguma maneira e tecnicamente muito bem acabados. Pode ter uma ou outra pessoa que goste menos ou até odeie algum título, mas é inegavel que sua meticulosidade em detalhes seja o que se destaque dos demais cineastas de sua geração porque aquele cabeção é uma biblioteca ambulante de referências que nem mesmo o mais consumista dos consumistas conseguiria identificar de onde vem tanta coisa.

Vale também dizer que, tecnicamente, este não é seu oitavo filme, mas o nono. Muita gente errando as contas ao se esquecer que ele dividiu com Robert Rodriguez a direção em Grindhouse para a sessão Prova de Morte (Death Proof, 2007), assim como também muita gente não conta que seu primeiro filme foi O Aniversário do Meu Melhor Amigo (My Best Friend's Birthday, 1987), e não Cães de Aluguel (Reservoir Dogs 1992). Mas para ficar bonito no poster, fantasiosamente este é seu oitavo filme mesmo, aquela coisa autoral, dirigido e escrito por ele e unicamente ele.

Curiosamente a história do filme se passa no mesmo período e universo que se passou seu filme anterior, Django (2012), sendo enfático ao afirmar que não é uma continuação, embora o complemente. Aqui ele novamente traz à tona o estilo Western (faroeste), porque ele é fã do gênero e o referencia em tudo que é possível, até mesmo quando tem nada a ver. O que se tornou sua marca registrada ao longo dos anos, praticamente uma marca d'agua em seu trabalho.

Inspirado nos seriados de faroeste pastiche dos anos 60, como Bonanza (1959-1973), e dos vilões que sempre apareciam neles para capturar o herói e fazer de todos reféns, a idéia de Tarantino foi simples: e se ele pegasse apenas esses bandidos e os colocassem juntos em um mesmo lugar, nada de mocinhos, nada de heróis, apenas os mais abomináveis deles encarcerados por um azar do destino, como uma terrível nevasca tal qual no filme O Enigma de Outro Mundo (The Thing, 1982), onde ninguém confia em ninguém e todos são uma ameaça?

E a idéia que parecia simples e teatral demais se engrandeceu daquela forma tarantinesca de sempre, desenvolvendo a linha narrativa a partir dos próprios personagens, e não a partir de uma história pré concebida. Ou seja, Tarantino nunca irá contar, por exemplo, uma história sobre um assalto a banco. Ele primeiro irá apresentar um personagem que encontrará outros personagens, o qual contará para todos como o assalto ocorreu de forma que cada um deles ficará na dúvida se aquilo de fato aconteceu daquela maneira. Igual história de pescador: verdadeira, mas exagerada. É isso que ele sempre faz, e que volta a fazer aqui.

Portanto, partindo-se do princípio de que "se a coisa está ruim, vamos piorá-la", é exatamente isso que vemos em cada um dos oito personagens. E o "odiados" do título não é à toa. Eles realmente são isso. Os exemplos da escória da humanidade está em cada um deles, desde a alegoria corrupta à racista, do chefe de quadrilha ao assassino frio e calculista. O niilismo é grande. Não chega a ter um pessimismo tão forte e contundente como em Onde Os Fracos Não Tem Vez (No Country For Old Men, 2007) por conta do humor negro e sarcástico presente, mas por outro lado consegue mostrar que é realmente a ignorância a mãe maior de todos os defeitos, ao qual estaremos condicionados eternamente. Não há espaço para heroismo, embora haja breves momentos de redenção ou até uma singela mudança comportamental, mas nada disso salvará qualquer um deles do fatídico destino.

Quando pensamos que um personagem finalmente terá um momento de luz e bondade, ele se revela um abominável monstro da neve. E isso tudo, na realidade, é a forma que Tarantino tem de, como disse um crítico, soltar mais uma vez o grito de raiva sobre o grandioso problema racial que ainda existe entre os norteamericanos. Um filme que também afirma em Dó Maior de que todos nós nunca superamos a escravidão, nos fazendo pensar se a única maneira para isso será através da crua brutalidade. Não é à toa que este filme complementa Django de alguma forma, pois revela que mesmo apesar de tanto esforço e mudanças, tudo continua quase da mesma forma até hoje. 

Por vezes, o teor sociopolítico chega a ter escalas próximas ao do filme A Floresta Petrificada (The Petrified Forest, 1942), quando este foi uma forte metáfora à Grande Depressão que ocorreu nos EUA logo após a Primeira Guerra. A ambientação inóspita e teatral, o encarceramento, o crescente conflito entre os personagens e seus graus de confiança também tem o mesmo peso. Obviamente o texto de Tarantino não consegue ser tão sério e sutil como o clássico filme de Archie Mayo, até porque, como dito, Tarantino não é clássico. Mas é bastante providencial que a A Floresta está para a Grande Depressão tanto quanto Odiados está para a Guerra Civil.

Que Tarantino sempre exagerou no sangue, transformando a violência em um absurdo cômico, isso é fato. Então a neve chega, a tensão aumenta, as armas são sacadas, o sangue esparramado e as cabeças estouradas. E um pouco diferente do humor sarcástico de seus filmes anteriores, aqui consegue ser mais desconfortável, corrosivo como ácido, construído por vezes na intenção proposital de constranger. Sem dúvida é impossível conter as gargalhadas quando Major Warren (Samuel L. Jackson) conclui a forma como ele tratou o filho do General Smithers (Bruce Dern), pois é de um sadismo tão surreal e justificado que elas saem não porque é engraçado, mas porque nos incomoda, nos desafia e atinge diretamente nossos piores defeitos. Gargalhamos automaticamente não para alivar o peso da situação, mas para aliviar a consequência da ignorância, da vergonha, do ponto em que ambos personagens precisaram chegar para um demonstrar sua razão e o outro seu arrependimento. São gargalhadas de fuga tal qual o sulismo gótico de Killer Joe (2011), quando Matthew McConaughey obriga Gina Gerson a fazer sexo oral em uma coxa de frango.

Brilhante também é a personagem de Jennifer Jason Leigh, que aparentemente parece estar lá apenas para figurar e para todo momento ser humilhada, chacotada e tratada como um animal qualquer. Uma personagem patética do início ao fim que representa, nada mais, nada menos, que todas as pessoas do mundo igualmente patéticas como ela. Talvez a personagem conceitualmente mais forte de todo o elenco no sentido de representação de uma sociedade lamentável, aquela que só abre a boca para dizer o que não presta e mesmo assim é ouvida por muitos. Kurt Russel também oferece uma das suas melhores performances em um anti-herói tão interessante quanto o de Jackson, mas que, dentro de todo o universo pessimista em que está inserido, se torna o elo mais fraco da história.

Não há nada diferente do que Tarantino já fez em seus filmes anteriores, mas o que sempre chama atenção e ainda oferece esse tom de novidade ao ponto de cada novo filme ser um evento é que, para que todo esse universo que ele cria tome forma, os personagens são muito bem construídos, e ele nunca tem preguiça em desenvolvê-los. A riqueza de detalhes é sempre tão grande que ele realmente pinta a característica e a personalidade ao ponto de primeiro nos interessarmos por eles, para depois ouvirmos o que eles têm a contar. Particularmente acho isso brilhante, porque é difícil atrair o interesse do espectador por esse lado no cinema porque demanda tempo e paciência. Por isso que seus personagens são sempre visualmente muito bem caracterizados, até mesmo quando há aquela cafonice de detalhes que simbolizam a marca da maldade, como o tampão de olho de Elle Driver em Kill Bill (2003), ou o refinado sadismo de Landa em Bastardos Inglórios (2009), técnicas clássicas da ficção para fazer um personagem se tornar memóravel tal qual uma marca registrada, ficando fácil associar sua personalidade à característica.

Mas isso tudo, ao mesmo tempo que é uma grande virtude, também é um grande defeito. Tarantino perde muito tempo até chegar ao finalmente de alguma coisa, desenvolvendo tudo de formas que apenas faz sentido na cabeça dele, mas que para o resto das pessoas não faz a mínima diferença ou tem a menor importância, como a longa tomada dos cinco minutos iniciais para enfatizar a trilha original de Ennio Morricone. Cinco minutos com a câmera em cima da neve e de uma imagem de Jesus crucificado até a carruagem passar. Ok... em um minuto pude imaginar dezenas de significados que aquela imagem poderia ter para o filme (ou até não ter), e o resto foi bocejo. No fim, a maior conclusão que se tira disso é que ele não vai ter pressa alguma durante os 160 minutos divididos em seis prolongados capítulos, onde o penúltimo vai servir mais como um interlúdio do que algo realmente necessário para a história.

O capítulo cinco (entitulado Os Quatro Passageiros) podia muito bem não ter existido, não apenas para aliviar o tempo do filme, mas também para não estragar todo o suspense e a ambientação que ele demora horas para construir e convencer o espectador. Podia muito bem ter sido substituído por uma breve explicação por parte de algum outro personagem, já que somos praticamente esclarecidos de tudo muito antes devido à perspicaz observação do personagem de Samuel L. Jackson. Isso faz o capítulo se destoar do resto e empobrecer todo o desenvolvimento quando personagens indeterminados como Minnie e Sweet Dave faziam muito mais sentido no imaginário do espectador do que no do próprio diretor. São nessas horas que Tarantino erra, revelando o que não precisava ser revelado, e falando demais quando poderia ter ficado quieto. Até mesmo sua narração repentinamente entra na história de maneira desnecessária, como se ele percebesse que alguém está perdendo o interesse, servindo mais para recapitular quem cochilou em algum momento do que nos dar a impressão de que o que vemos é um livro interpretado, uma quase representação teatral de seu texto.

É notável a forma como Tarantino tem conseguido desenvolver a crítica social nos seus últimos filmes sem fazer com que as pessoas percam o interesse por ele. Afinal de contas, assim como qualquer artista pop, a função é disseminar uma idéia da maneira mais abrangente possível, por mais que ela seja difícil de ser compreendida. Por essas e outras que seus esforços são louváveis, mas sua pretenção por vezes atrapalha o resultado. Odiados poderia ter sido um de seus melhores filmes por conta de seus personagens alegóricos, das situações metafóricas, do peso crítico embutido, da atualidade e seriedade de sua temática, mas se perde na falta de objetividade e peca pelo excesso. Ainda assim, por algumas e outras razões, merece ser assistido, principalmente porque ele sabe dominar técnicas, rendendo momentos prazerosos como o plano sequencia de dois minutos em que Daisy (Jennifer Jason Leigh) observa seus inimigos beberem o café enquanto toca violão, momentos em que sabemos que Tarantino não erra e que percebemos porque gostamos dele até mesmo quando não concordamos com seus exageros.

CONCLUSÃO...
Poderia ter sido um dos melhores filmes do diretor se não fosse seu excesso de confiança e da costumeira falta de objetividade. Não chega a ser esquecível, mas não tem o mesmo apelo de seus filmes anteriores, embora o teor sociopolítico seja louvável da mesma forma como foi em Bastardos e Django. E entre alguns momentos canseira e outros, há aqueles que realmente valem a pena serem vistos, mas que ficam foram do contexto se vistos isoladamente, o que nos obriga nos arrastar por muita coisa desnecessária e redundante.
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