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sábado, 6 de maio de 2017

NENHUM ELOGIO É BOM O BASTANTE...

★★★★★★★★★☆
Título: Feudo: Bette e Joan (Feud: Bette And Joan)
Ano: 2017
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Susan Sarandon, Jessica Lange, Alfred Molina, Judy Davis, Stanley Tucci, Catherine Zeta-Jones, Kathy Bates
País: Estados Unidos
Duração: 45 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
A histórica rivalidade entre Bette Davis e Joan Crawford revelam mais do que simplesmente uma disputa de egos.

O QUE TENHO A DIZER...
Rivalidade existe em todo lugar, mas nunca foi tão saborosa quanto entre Bette Davis e Joan Crawford. Saborosa para quem tinha partido nesse embate (ou pra quem agora tem, assistindo a série). Mas não se pode negar a tristeza bastante desmoralizante pela forma como a mídia inflamou essa fogueira, e como a situação foi explorada.

E com uma abertura bastante similar à animação vetorial de A Favorita, já fica bem evidente que o sucesso, fama, títulos, prêmios e inveja serão os grandes motivadores de uma problemática relação que influenciou toda uma indústria e seus fins trágicos por consequência.

Mas para entender melhor o que a série pretende mostrar, nada melhor do que conhecer um pouco mais da realidade em que ela é baseada.

Então senta, que lá vem história...


Não se sabe ao certo o início de tudo. Acredita-se que a situação tenha começado na década de 30, quando Joan Crawford se casou com Franchot Tone em 1935, ator com quem Bette Davis trabalhou no mesmo ano no filme Perigosa (Dangerous), por quem ficou apaixonada, sofrendo uma terrível derrota amorosa com o casamento.

Joan Crawford já tinha seu lugar profissional estabelecido e respeitado, já que vinha do cinema mudo, principalmente porque, ao contrário de muitas outras atrizes que vieram da mesma época, ela tinha talento e voz (sim, muitas atrizes perderam o emprego pois a voz era terrível). Enquanto isso, Bette Davis concorria ao seu primeiro Oscar por Servidão Humana/Escravos do Desejo (Of Human Bondage, 1934), de uma maneira muito peculiar. A princípio ela não estava entre as três finalistas, mas como sua interpretação foi elogiada pela crítica e pelo público de maneira quase unânime, aconteceu uma forte campanha para a Academia incluí-la, e assim foi feito, sendo esse filme considerado sua grande estréia em Hollywood.

Nos anos seguintes, a situação ficou um pouco mais séria quando os papéis começaram a se inverter: enquanto Davis estava em ascenção constante na carreira, Crawford foi posta de lado, sendo dispensada pela MGM em 1943, enquanto Bette se tornou um dos nomes mais importantes de Hollywood e a principal estrela da Warner. Aceitando um salário reduzido, Crawford foi contratada pela Warner. Davis, incomodada, não gostou da contratação, encarando como uma provocação do estúdio, e a presença da rival na mesma casa como uma ameaça, o que acabou exaltando o humor de todos.

Dentro da Warner, Crawford também demonstrou seu incômodo ao se esforçar de todas as maneiras para tentar conseguir papéis importantes antes deles pararem nas mãos de Davis, mas foi em vão. E ao contrário do que esperava, os papéis que chegavam eram exatamente aqueles que Davis recusava.

Essa situação de "atriz substituta" não foi de todo ruim. De três indicações ao Oscar que Crawford recebeu nos anos de 46, 48 e 53, as duas primeiras foram de papéis recusados por Davis, vencendo apenas em 46 pelo seu papel em Mildred Pierce. Como curiosidade, ela não compareceu à premiação alegando problemas de saúde. Na verdade ela fingiu estar com pneumonia para criar um espetáculo dramático e conquistar a atenção da mídia. Essa curiosidade é importante porque, além de ser um fato presente na cinebiografia Mamãezinha Querida (Mommie Dearest, 1981) e também citado em alguns episódios de Feud, é uma encenação que ela voltou a repetir para prejudicar as filmagens de Com A Maldade Na Alma (Hush, Hust, Sweet Charlotte, 1964), fato que o seriado desenvolve com profundidade lá pelo sexto espisódio.

A intenção de reunir as duas atrizes surgiu primeiramente em 1950 para o filme À Margem da Vida (Caged), mas a recusa de Bette Davis pelo papel não apenas impediu isso de acontecer como também interferiu na contratação de Crawford, que também não foi escalada para ele.

O que se imagina é que, o fato de Davis não gostar de Crawford se tornar algo público, acabou despertando em Crawford uma necessidade de resposta, e a rivalidade entre elas foi plantada. Mais do que isso, esse embate público também criou discussões comparativas dentro da indústria sobre quem era mais talentosa, quem era mais bonita, quem era mais interessante ou inteligente. Isso influenciou negativamente no comportamento de ambas, preparando o terreno para uma guerra criada e alimentada mais pelos outros do que por elas mesmas.

Em seu silêncio, Crawford aparentava sustentar uma grande admiração por Davis, mesmo sendo constantemnte minada pelas pelos comentários ácidos da colega. Ao mesmo tempo invejava seu sucesso e popularidade, e para driblar as comparações inferiores que recebia - inclusive dos próprios chefes da Warner - se esforçava herculeamente para provar ser tão (ou mais) capaz e competente. Por outro lado, quanto mais Davis percebia os esforços de Crawford, mais ela a esnobava, atacando sua moral e inferiorizando suas qualidades como atriz para desestruturá-la psicologicamente, pois Davis sabia que falar do talento de Crawford era atingir seu tendão de Aquiles, e assim continuaria por cima.

Sabe-se que reuní-las para o filme O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (What Ever Happened To Baby Jane?, 1962) acabou se tornando uma guerra de egos e interesses que quase enlouqueceu o diretor Albert Aldrich, e o estopim da situação foi durante a promoção do filme. Davis viajou por todo o país promovendo o filme praticamente sozinha enquanto Crawford se escondeu em sua mansão em Los Angeles. Durante a promoção, em momento algum Davis elogiou a performance de sua colega de elenco. Este é tido como, talvez, o maior rancor de Crawford depois de ter sido ignorada pelo Oscar em 1964, situações também presentes no seriado.

Crawford chegou a afirmar que teria sido louvável e profissional se Davis tivesse lhe dado um pequeno crédito nas coletivas que precederam o lançamento ao invés de agir como se o filme fosse apenas dela. Um ressentimento compreensível até, independente do difícil convívio nos bastidores.

Bette Davis sempre levou muito a sério a bagagem profissional de atores com quem trabalhou, sendo até um tanto preconceituosa a respeito disso. Ela, que começou sua carreira na Broadway, desdenhava o background profissional de Crawford, que começou a carreira como dançarina de boates antes de estrear no cinema mudo. Em contraponto, Crawford admirava a bagagem teatral de Davis, mas acreditava que essa experiência não era útil no cinema, já que as câmeras demandavam outro tipo de técnica, afirmando que Bette sabia interpretar, mas não sabia entregar personagens (fala também presente na série).

Na tentativa de construir uma imagem popular mais diplomática, Crawford nunca respondia diretamente os ataques recebidos por Davis, ou pela imprensa de fofocas. Ao invés disso, preferia agir de maneira mais indireta e ardilosa pelos bastidores, o que sempre demonstrou uma certa fraqueza emocional e covardia, coisas que Davis repudiava, pois era conhecida por ser bastante direta e desbocada. Daí o fatídico episódios do Oscar em 1963, pelo qual Davis nunca a perdoou, culminando na insustentável situação no início da produção de Com A Maldade na Alma.

Por essas e outras que, enquanto Crawford era conhecida como "a rainha do drama", Davis era conhecida como a "grande megera" de Hollywood. Davis chegou a afirmar que o maior talento de Crawford era chorar demais, como se urinasse pelos olhos, além de dormir com todos os homens de Hollywood, só faltando o cachorro Lassie. Crawford, por sua vez, vestia o papel da dama indiferente e fingia não se incomodar, respondendo que se tirassem os olhos saltados, o cigarro e os maneirismos de Davis, não sobraria talento algum. Farpas públicas recorrentes, e que para a imprensa de fofoca era sempre bastante lucrativo.

Naquela época, a opressão e o abuso da imagem feminina eram grandes. Mulheres eram poderosas nas telas, mas nos bastidores a situação era inversa. Se hoje a discussão de assédio nos bastidores é algo recorrente, na época ninguém tocava no assunto, pois era corriqueiro e dominante entre os homens e os negócios. As atrizes eram assediadas moral e sexualmente, usadas como objetos e mercadorias. Sabe-se, por exemplo, que os grandes chefes de estúdios como MGM, Warner e Fox, trocavam farpas durante o dia, mas a noite se reuniam para carteados e apostas, sendo Bette Davis uma dessas apostas quando Jack Warner aceitou empresta-la à RKO para o filme Pérfida (The Little Foxes, 1941), e assim quitar uma dívida de US$300 mil.

A rivalidade entre as duas era uma coisa natural até um certo ponto, mas a partir do momento que isso se tornou algo vendável, o oportunismo em cima disso forjou situações para piorar a inimizade e gerar essa atmosfera de constantes ataques e aprovações.

É óbvio que grande parte disso tudo era catalisado pela imprensa sensacionalista, encabeçada pela frustrada atriz e colunista de fofocas, Hedda Hooper. Sua coluna no jornal Los Angeles Times era bastante influente na opinião pública, ao mesmo tempo que Hedda era considerada persona non grata nos grupos mais intelectuais. A título de interesse, Hopper foi uma das responsáveis por denunciar possíveis comunistas ligados à indústria cinematográfica durante a era McCartista, entre as décadas de 40 e 50, prejudicando e desempregando dezenas de diretores, atores, roteiristas e demais ligados à indústria, naquilo que veio a ser chamado de "lista negra" de Hollywood.

Até hoje existe uma grande discussão mundial sobre rivalidades que a mídia cria para diminuir a capacidade das mulheres, como uma maneira de controlá-las e transformá-las em indivíduos manípuláveis, fazendo delas estereótipos e rótulos fúteis, vendendo-as pelas polêmicas, e não pelo talento, como bem aconteceu com ambas.

Davis e Crawford podiam ter seus problemas, mas uma coisa elas tinham em comum, o comprometimento com o trabalho. Ambas eram extremamente profissionais e exigiam bons papéis aos donos de Hollywood, além de detestarem serem passadas para trás. Foram, juntamente com poucas outras atrizes, como Katherine Hapburn e Olivia De Haviland, as precursoras de um comportamento femininsta em Hollywood que incomodava os grupos machistas dominantes. Davis chegou a processar a Warner na década de 30 por ter se negado a fazer um filme e estar presa a um contrato que a impedia de escolher seus trabalhos, ou até mesmo trabalhar fora dos EUA por conta própria. A Warner era "dona" dela. Obviamente ela perdeu, sua imagem ficou manchada, mas nunca abaixou a cabeça. De Haviland chegou a mover um processo similar, mas ao contrário de sua amiga, se bem sucedeu, conseguindo uma certa "emancipação" da indústria.

Embora fosse evidente para ambas que a mídia era uma grande responsável por manipular essa rivalidade, Bette nunca escondeu seu desapreço, enquanto Crawford nunca afirmou odiá-la, mas também não deixava barato. Apesar de tudo, Davis nunca negou admirar o profissionalismo e a pontualidade de Crawford, também dizendo que grande parte dos problemas que Crawford teve na indústria foram basicamente os mesmos que também teve, justamente por serem extremamente exigentes e críticas.

Hoje em dia há muitas idéias de que a mídia tenha criado esse campo de batalha para evitar que Davis e Crawford unissem forças para combater o sistema dominante da época. Era certo que, se as duas se tornassem aliadas contra os esquemas que reduziam as mulheres como carnes de açougue, isso pudesse dar margem a um movimento que seria desmoralizante para a indústria e obrigaria Hollywood a grandes mudanças. Mudanças as quais - algumas - aconteceram com o passar dos anos, como os estúdios hoje em dia não serem mais "donos" de artistas ou diretores, e proibidos de exigirem contratos restritos ou que se extendam por mais de 7 anos.

A imprensa da época era movida a "frases de impacto", tal como acontece no primeiro episódio, quando Hedda Hopper (Judy Davis) diz a Crawford (Jessica Lange) que ela só precisa de um "catch phrase" sobre Marilyn Monroe, ou seja, aquela frase de efeito pronta para ser publicada na primeira página, que se propagasse facilmente. Tanto é assim que existem diversas frases memoráveis (e verdadeiras) tanto de Joan quanto de Bette, aproveitadas no seriado em meio aos diálogos, como as mais conhecidas de Davis sobre Crawford: "Não mijaria em Crawford nem se ela estivesse pegando fogo", ou a mais polêmica delas: "Não devemos falar mal dos mortos, apenas coisas boas. Crawford está morta, isso é coisa boa".

Alfinetadas irônicas e perniciosas como Twittes nos dias atuais, nada que ultrapassasse 140 caracteres nas manchetes de fofocas. Enfim, todo o ringue era planejado e montado por aqueles que tinham interesse.

Portanto, é basicamente em cima dessas idéias e acontecimentos que Ryan Murphy irá desenvolver a primeira temporada de sua nova série de antologias, assim como é seu filho pródigo, American Horror History, onde cada temporada tem uma história única.

É por essa razão que a série irá abordar dois momentos importantes: os batidores de Baby Jane, e os bastidores de Com A Maldade Na Alma, pois são capítulos que marcam o início e o fim de uma era de rivalidade.

A idéia de Feud começou há seis anos atrás. Murphy sempre foi um grande fã de Davis, e após ler a biografia de Shaun Considine, narrando o complicado bastidor de O Que Terá Acontecido A Baby Jane?, quis fazer um filme sobre o assunto. Afirmou sempre ter tido em mente Susan Sarandon e Jessica Lange nos papéis, mas as dificuldades de transformar o projeto em filme acabaram levando-o a optar por um projeto para a televisão, algo que Sarandon chegou a afirmar em entrevistas recentes ter sido a opção mais interessante, pois haveria tempo para explorar assuntos em oito episódios que em um longa metragem não seria possível.

A biografia de Considine é um dos materiais principais de todo o roteiro, mas não apenas isso... relatos, boatos, fofocas, informações de bastidores... tudo isso igualmente incrementa e traz à tona uma rivalidade que permeou o imaginário das pessoas, alimentadas por todo o espetáculo midiático que se criou em torno disso. Claro que algumas informações distorcidas aparecem, como a série afirmar no primeiro episódio que Baby Jane teve seu roteiro escrito pelo próprio Albert Aldrich, e não por Lukas Heller (que também foi o responsável pelo roteiro de Com A Maldade Na Alma). Há também algumas controversas, como o polêmico anúncio que Bette Davis publicou em 1963 procurando emprego. A publicação, na realidade, foi uma piada criada por ela mesma para criticar o etarismo da indústria ao ignorar atrizes depois de uma certa idade, e acredita-se que foi depois de vê-lo que o diretor Robert Aldrich contatou a atriz para o papel principal em Baby Jane, e não muito bem da forma como o seriado mostra. 

Independente disso, Murphy faz uma construção muito sólida de tudo. A pesquisa realizada, o material coletado de diversas fontes videográficas (a maioria delas encontradas no próprio YouTube) reproduzem tudo com tanta atenção a detalhes que é surpreendente (há diversos vídeos comparando as reproduções da série com os materiais reais). O mais impressionante é a forma como ele conseguiu encaixar tudo dentro de uma cronologia possível e ainda criar uma história consistente em meio a tantas referências e informações dispersas.

O roteiro se utiliza basicamente de duas narrativas principais: A narrativa mais objetiva, mostrando o cotidiano das atrizes e seus conflitos pessoais, dando justificativas e arco dramático necessários para sustentar a conflituosa relação entre elas e suas respectivas vidas privadas cheias de altos e baixos, bem como a narrativa mais documental, com relatos de Olivia De Haviland (Catherine Zeta-Jones) e Joan Blondell (Kathy Bates), amigas íntimas de Davis, para dar consistência aos fatos por pontos de vistas externos e mais pessoais.

O resultado - e não tem como dizer outra coisa - é brilhante.

De forma alguma seria desmerecer ou diminuir o talento de Jessica Lange, mas o trabalho desenvolvido por Sarandon é arrebatador. Ela consegue incorporar a essência de Davis em todos os aspectos, do modo de falar ao modo de agir. Ao ver sua performance, é como se a víssemos pensando como Davis. Segundo a atriz, sua maior preocupação foi fugir o máximo que pudesse da caricatura, já que a própria Davis era uma pessoa bastante caricata, como no momento em que ela se apresenta como Baby Jane pela primeira vez, conseguindo ser tão engrandecedor e chocante como é relatado ter sido na realidade.

Assim como o primeiro episódio mostra, Davis decidiu fazer sua própria maquiagem, recusando profissionais. A idéia que ela teve para Baby Jane é que ela era uma pessoa que aparentava ser como uma boneca velha, maquiada em cima da maquiagem do dia anterior. Quando ela se apresentou daquela forma a Bob Aldrich, ela não apenas arrancou o choque da equipe, como também de sua própria filha e igualmente de Joan Crawford, ao mesmo tempo que, por outro lado, foi parabenizada pelo próprio autor do livro, que afirmou que ela estava exatamente como ele imaginava Baby Jane enquanto escrevia. Essa relação de Davis com a maquiagem já rendeu outras situações, como no filme Pérfida, quando o diretor William Wyler disse que sua maquiagem parecia de um Kabuki, e que ele não a filmaria daquele jeito. E, no fim, Pérfida é igualmente uma de suas maiores performances de sua carreira.

Embora a performance de Sarandon tenha grandes virtudes, principalmente porque seus diálogos sarcásticos e de objetividade cirúrgica reproduzem com assustadora fidedignidade a irônica rispidez, o humor sarcástico e a afiada eloquência de Davis, Lange não é ofuscada, mas também não se destaca como se espera, ficando a todo momento sob as sombras.

Mas isso não é demérito do roteiro e muito menos um erro, mas algo que se mostra proposital pela própria personalidade da atriz referenciada. Crawford, assim como publicamente taxada, era sempre dramática demais. Uma mulher que tinha diversos problemas pessoais e psicológicos, como inferioridade, baixa auto-estima, depressão, mania e alcoolismo. Não é à toa que seus móveis encapados era uma das coisas mais bizarras de sua persona, já que tinha obsessão por limpeza. Dita como uma pessoa difícil de se conviver, era inteligente e determinada, mas não tinha a mesma sagacidade de Davis. Por ter dado tanta atenção a comentários e comparações de terceiros, seu único objetivo, por muito tempo, foi se sobrepor à sua rival, e a consequência disso foi ter se tornado uma coadjuvante de sua própria história. Isso é o que é realmente entristecedor de toda essa rincha, e esse lado dramático pode até ter o melodrama sempre característico de Crawford empersonado por Lange, mas não deixa de ser verdadeiro e sofrido. A forma como Crawford absorveu a situação e transformou tudo isso em um objetivo vazio, é uma batalha que ela trava com ela mesma sem qualquer trégua, resultando em uma vida solitária, um final de carreira decadente e uma morte anunciada. 

A manipulação existente em volta das duas atrizes, até mesmo na de Aldrich sobre elas, alguém que se mostrou presente e amigo, considerado por elas como alguém de confiança e um mediador necessário, é desmoralizante. Mas assim como a série constrói, Aldrich também foi uma vítima dessa manipulação, sendo igualmente inferiorizado e um objeto/ferramenta de concretização dessa novela, tamanha a gigante proporção do domínio da indústria sobre eles, já que os estúdios passaram a depender de toda essa má publicidade para garantir o sucesso de bilheteria dos filmes numa fase que lançou o estilo "hag movies" (ou hagsploitation), ou seja, filmes que exploravam a imagem de "bruxas velhas", em referência ao gênero de suspense/horror com atrizes acima dos 50 anos interpretando vilãs caricatas.

Numa época em que fala-se muito da igualdade das mulheres e de seu empoderamento, a série ergue discussões fundamentais sobre isso sem soar doutrinadora ou didática, como no momento em que Pauline Jameson (Alison Wright) expressa suas intenções em dirigir um filme que ela mesma escreveu pensando em Crawford no papel principal, mas é desmotivada pela forte presença masculina em um período em que não havia mulheres diretoras em Hollywood. Claro que o cenário hoje é um pouco diferente, mas ainda existe um grande desfalque feminino nesta categoria, e uma das grandes razões da maioria dos episódios terem sido dirigido por mulheres.

Embora superficialmente a série aparente sustentar a rivalidade apenas em cima da inveja sobre a beleza de uma e o talento de outra, é possível perceber que havia muito mais por trás de tudo. Murphy conseguiu criar um material respeitoso, além de uma grandiosa homenagem às duas atrizes, entregando ao público um final esperado, mesmo que diferente da realidade, mas desenvolvido de maneira tão delicada, expressiva, e justificada de forma tão simples e honesta que encerrou satisfatoriamente a temporada, servindo como um possível pedido de desculpas póstumas uma à outra. Um final emotivo e nostálgico, uma fantasia poética possível caso tudo tivesse sido diferente, além de mostrar que ambas tinham muito mais em comum do que elas próprias imaginavam.

Como um todo, Feud se mostrou mais que uma série, mas um resumo histórico de uma fatia da História do Cinema e de Hollywood, além de ser, até o momento, a melhor temporada de séries de 2017. Curta, expressiva, relevante e emotiva.

Nenhum elogio é bom o bastante.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A IGREJA VERSUS O JORNALISMO INVESTIGATIVO...

★★★★★★★★★☆
Título: Spotlight - Segredos Revelados (Spotlight)
Ano: 2015
Gênero: Drama, Investigação, Biografia
Classificação: 14 anos
Direção: Tom McCarthy
Elenco: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Liev Schreiber, John Slattery, Stanley Tucci
País: Estados Unidos
Duração: 128 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um grupo de jornalistas investigativos do jornal Boston Globe é interceptado por informações que levam a um grandioso esquema de abuso sexual dentro da Igreja Católica.

O QUE TENHO A DIZER...
Em 2002 o jornal The Boston Globe publicou uma matéria bombástica sobre os casos de abuso sexual infantil ocorridos na arquidiocese de Boston, no Estados Unidos, repercutindo mundialmente, tirando até mesmo a Irlanda e outros países do silêncio.

A história começou quando houve uma pequena publicação em uma coluna do jornal sobre alguns casos envolvendo cinco padres católicos locais em 2001. Impulsionado pelo novo editor chefe, Martin Borton, o assunto acabou indo parar nas mãos de uma equipe dentro do jornal conhecida como Spotlight, um grupo específico responsável por matérias investigativas de grande foco e de alta confidencialidade, onde cada matéria pode demorar de um a dois anos para ser publicada, tamanha a minusciosa busca de informações e confirmação de fontes. Isso acabou trazendo para a mesa editorial uma série de outros casos correlacionados envolvendo vítimas das quais muitas haviam cometido suicídio, e as que estavam vivas apresentavam severos traumas psicológicos.

As investigações levaram a descobrir que o que acontecia não eram casos isolados, mas um padrão recorrente e de conhecimento do próprio Vaticano, comprovados pelo psiquiatra e ex-monge beneditino, Richard Sipe, que trabalhou de 1965 a 1970 no Instituto Psiquiátrico de Seaton, lugar mantido pela própria Igreja Católica. Foi lá que ele se deparou com seus primeiros casos de abuso e, a partir dalí e por conta própria, montou uma equipe que estudou isso por trinta anos, naquilo que ele considerou como um "fenômeno psiquiátrico" por conta dos padrões de ocorrência que partiam desde o comportamento sexual dos assediadores dentro da Congregação Católica, até nos padrões de escolha das vítimas, que geralmente são crianças e adolescentes com disturbios psicológicos já estabelecidos, ou com problemas familiares, como pais divorciados ou orfandade. Os estudos de Sipe chegaram a uma estatística de que 6 a 7% da comunidade mundial de padres e bispos da Igreja Católica são pedófilos, o que leva a um número exorbitante que foge da idéia comum de que os casos são apenas algumas "maçãs podres", como é dito varias vezes no filme. Sipe também conseguiu comprovar que os casos de pedofilia não ocorrem necessariamente entre padres homossexuais, e que o assédio envolvendo crianças do sexo feminino é muito maior do que se acreditava.

As investigações da Spotlight levaram a descobertas assustadoras com, no mínimo, trinta anos de recorrência envolvendo mais de 70 representantes locais (o que corrobora com as estatísticas traçadas por Sipe), além de centenas de vítimas. A maioria dos casos judiciais nunca foram julgados publicamente, ou simplesmente foram encerrados por conta de acordos de confidencialidade entre as vítimas e a igreja, o que ajudou a abafar possíveis escândalos e manter a situação controlada.

Descobriu-se mais, que também havia alí um forte esquema de corrupção envolvendo a instituição católica, a mídia e o setor judiciário, tanto por parte da promotoria quanto da defesa. O próprio Boston Globe chegou a ignorar o assunto na década de 90, quando recebeu materiais e denúnicas a respeito, fato que o filme também não esconde, o que até surpreende, já que poderiam simplesmente ter omitido essa situação para favorecer o heroísmo das intenções.

E é sobre tudo isso que este excelente filme biográfico e investigativo, dirigido por Tom McArthy e escrito por ele em parceria com Josh Singer, irá tratar. Mas o mais interessante é que houve um grande cuidado na abordagem do tema e uma sólida pesquisa para sua produção, e seu desenvolvimento é feito pelo ponto de vista da equipe editorial do jornal, onde presenciamos de forma bastante realista todo o processo de prospecção, além das dificuldades e obstáculos encontrados por cada um deles até a publicação que, inclusive, precisou ser temporariamente engavetada e sem prazo de retomada por conta dos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001. 

É um daqueles poucos filmes biográficos que realmente se embasam em fatos reais para construir sua história, tanto que todos os personagens interpretados com integridade pelo elenco são reais, incluindo suas identidades. Tudo é muito ponderado e bem feito, desde a direção que evita momentos clichés de abuso dramático até o roteiro que constói gradativamente um clima de tensão e interesse nos bastidores, que mostra de forma sucinta a importância do jornalismo investigativo como um serviço de informação social, principalmente em casos como esse, de um esquema criminoso gigantesco e abafado de causar repulsa, revolta e indignação. E acredite, quanto mais o filme caminha, mas chocados ficamos com seus acontecimentos e a conspiração existente em torno do assunto.

Não é à toa que tem sido considerado o melhor filme de 2015 e um dos melhores do gênero, pois consegue ser interessante e até com um certo nível de suspense sem necessidade alguma de ser apelativo. Nem há momentos de conflitos entre corpo editorial e chefes, como é de praxe nesses temas, onde criam-se dificuldades aleatórias para no fim os jornalistas empenhados provarem que estavam corretos. Só há um ou outro momento em que a efetividade e publicação da matéria é questionada, mas tudo é contornado rapidamente e as dificuldades encontradas são mais por fatores externos do que internos.

Que os casos de abuso sexual envolvendo a Igreja Católica tenha recorrência histórica e não seja mais segredo para ninguém, é notório. Hollywood mesmo já abordou esse tema, como no sutil e ponderadíssimo Dúvida (Doubt, 2008). Mas aqui a situação é levada para outro patamar, aquele de que ainda ignoramos os fatos e nos mantemos cegos frente àqueles que direcionam a fé, nos deixando sem a capacidade de enxergar os sinais com clareza de que nada é realmente aquilo que parece ser, numa perversidade que foge completamente da proporção que imaginamos. Transformando a Igreja em um reduto de crimes encobertos por eles mesmos, como uma irmandante, além de deterem poderes que se sobrepõem a qualquer outra instituição.

Claro que o filme acaba sem um grande conflito direto entre a Igreja e o jornal, deixando aquela vontade de querer saber mais, ou quais as consequências catastróficas que a publicação trouxe aos fiéis e ao Vaticano, mas ao mesmo tempo isso teria fugido do foco de contar a história pelo ponto de vista daqueles que se empenharam em peitar uma das instituições religiosas mais influentes do mundo. A única coisa que se sabe é que houve a resignação do arcebispo Bernard Francis Law, com alguns pedidos de desculpas públicas aqui e alí para amenizar a situação, mas que em 2004 foi readmitido pelo Papa João Paulo II como arcebispo da Basílica de Santa Maria Maggiore, em Roma. Ou seja, tudo voltou a ser como era. E se talvez catorze anos depois o mundo tenha se esquecido desse fato (o que não é de se espantar), esse filme é uma grande oportunidade de nos relembrar de tudo novamente e não deixar dúvidas de que para ser representante da fé não é necessário batina, mas integridade.

Apesar do favoritismo público em meio a críticas boas e medianas que acabam sobrepondo e direcionando a opinião das pessoas mais influenciáveis, e embora seja um filme com todo o perfil possível para a temporada de premiações, a verdade é que a inteção da história e dos acontecimentos já é relevante por sí só. Sua execução funciona e é esclarecedora. Algumas coisas não dá para serem explicadas, como a indicação de Rachel McAdams ao Oscar de Coadjuvante, ou da preferência de Mark Ruffalo quando Michael Keaton fez um trabalho igualmente memorável, mas tudo é esquecível em uma história que, como li em um comentário, se transforma em um dos piores filmes de terror dos últimos tempos.

CONCLUSÃO...
Um relevante e ponderado filme sobre os bastidores e a importância do jornalismo investigativo na sociedade que carece de instituições íntegras, ao mesmo tempo que nos relembra de um dos maiores escândalos sexuais e religiosos da história, além de evidenciar em como a igreja católica não apenas é omissa como condescendente dos crimes envolvendo seus representantes.

sexta-feira, 7 de março de 2014

MELHOR QUE O LIVRO DE NOVO...

★★★★★★★
Título: Jogos Vorazes: Em Chamas (The Hunger Games: Catching Fire)
Ano: 2013
Gênero: Ação
Classificação: 12 anos
Direção: Francis Lawrence
Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Jena Malone, Donald Sutherland, Stanley Tucci, Philip Symor Hoffman
País: Estados Unidos
Duração: 146 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Katniss pode ter vencido o Jogos Vorazes, porém se transformou em uma ameaça ao Presidente Snow e ao seu poder totalitário.

O QUE TENHO A DIZER...
Em Chamas foi dirigido por Francis Lawrence, mais conhecido por ter dirigido Eu Sou A Lenda (I'm A Legend, 2007). É a segunda parte da tetralogia de filmes (a trilogia é apenas na série de livros, já que o último episódio, A Esperança, será dividido em duas partes nos cinemas, a serem lançados em 2014 e 2015).

Também é a firmação de Jennifer Lawrence como a grande e atual "Namoradinha da América", já que os dois primeiros filmes já arrecadaram mais de US$1,5 bilhão no mundo até o momento, além do Oscar que já recebeu em 2013 por O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, 2012) e outras duas indicações, sendo a segunda este ano por Trapaça (American Hustle, 2013).

É engraçado como o cinema às vezes nos surpreende, pois a maioria dos filmes baseados em livros bons costumam ser de medíocres a constrangedores, como, por exemplo, grande parte das adaptações das obras de Stephen King. Algumas outras conseguem fazer jus às obras que são baseadas, como a série Harry Potter ou O Senhor dos Anéis. Raras são as vezes em que livros tão pobres em narrativa ou descrição conseguem resultar produtos válidos de entretenimento, como acontece com esta série.

É nítido observar nos livros que a escritora Suzanne Collins utiliza uma narrativa em primeira pessoa para se abster de uma ação mais descritiva, talvez porque ela não tivesse idéia do que estava fazendo, ou também porque ela realmente não tenha talento o suficiente para descrever Panem e seus conflitos de forma tão detalhada como seria de costume em uma série épica, tanto que o roteiro que ela co-escreveu para o primeiro filme amplia o mundo distópico e compensa todas as faltas de criatividade literária que ela apresenta nos livros (com excessão da violência, que nos filmes é muito mais suave).

Claro, não podemos negar o fato de falarmos de uma série infanto-juvenil que conseguiu consquistar até jovens adultos nos Estados Unidos, país onde ele foi mais popular até o lançamento do primeiro filme, mas isso não justifica narrativa tão pobre e fácil, esquecível e que muitas vezes deveria ser dada a pré adolescentes para iniciação à leitura.

Com o fim das séries Harry Potter e Crepúsculo, adolescentes ficaram sedentos a procura por alguma nova série popular que pudesse compensar o buraco e a falta de assunto nas escolas. Eles encontraram em Jogos Vorazes algo que chamasse a atenção. De fato, o livro, embora pobre, possui uma idéia interessante, mas sabemos que de originalidade ele pouco (ou quase nada) tem.

Aparenta-se que a verdade é que Suzanne Collins se apropriou de uma obra japonesa escrita por Koushun Takami, chamada Batalha Real (Batoru Rowaiaru), lançada em 1999, sete anos antes de Collins lançar o primeiro livro de sua saga. Muito do que Collins utiliza em seus livros é bastante similar ao utilizado por Takami, há apenas algumas diferenciações de narrativa, culturas e ações, tudo de forma muito mais acessível para o ocidente. Mas a premissa, o tema e o conceito principal são os mesmos. Claro que hoje em dia há uma rivalidade entre os dois livros, mas não podemos ignorar o fato de que a obra de Takami é original por ter sido lançada antes, além de muito mais densa, melhor elaborada e descrita do que a de que a pobreza literária de Collins.

Seguindo a história do primeiro filme, agora Katniss Everdeen, a heroína que conseguiu sobreviver ao Jogos Vorazes juntamente com seu "suposto" amado, agora se transformou em uma ameaça ao governo de Panem, que abusa de seus cidadãos que vivem sobre uma repressão política e ditatorial presidida pelo temido Snow. Katniss virou um símbolo de liberdade e mudança de paradigmas para toda a população, e agora, tanto ela, quanto o povo, serão mais oprimidos do que nunca. Para mostrar que quem manda é o Governo, a nova edição dos Jogos Vorazes contará com a presença de todos os vencedores de todas as edições ainda vivos, e toda e qualquer ameaça de manisfetação por parte do povo será retaliada severamente.

Nos livros toda essa discussão política e social nunca é citada diretamente, já que, como dito, a narrativa é em primeira pessoa e bastante pobre em ações descritivas por parte da personagem principal. O grande atrativo, tanto do primeiro filme, quanto desta continuação, é que muito foi feito com tão pouco. No filme tudo faz mais sentido e há menos melodramas, clichés ou discurso inútil como nos livros, e a relação entre o Governo e o povo toma proporções revolucionárias que chegam até a ser bastante familiares com acontecimentos atuais pelo mundo.

Com certeza o desenvolvimento desta segunda parte é muito melhor realizado, talvez pelo roteiro, que não é mais assinado de forma bastante amadora pela escritora como foi o primeiro filme, mas, sim, por dois roteiristas já gabaritados como Simon Beaufoy e Michael Arndt. Esta segunda parte também ameniza o surto tecnológico do primeiro filme, com o uso exacerbado de efeitos especiais inúteis para cobrir buracos na história e no roteiro (muito embora este filme tenha sido mais caro, talvez pelos cachês). A sensação de sobrevivência dos personagens e de perigo eminente também são muito mais efetivos, e a história tem um crescente de fatos realizados de forma tão interessante, linear e coesa que, se nada fosse amenizado para o bem do público adolescente, o filme sem dúvida seria uma grande obra de ação adulta e até uma crítica política relevante. Tudo está muito bem colocado dentro das possibilidades. A história se desenvolve quando deve e as cenas de ação ocorrem quando precisam, muito embora os conflitos e dramas sejam desenvolvidos de forma muito ruim como a relação entre Katniss, Gale e Peeta, além da ainda dificuldade dos roteiristas em saber lidar com tantos personagens ao mesmo tempo. Mas no fim tudo culmina a uma sequencia final que realmente pega o espectador de surpresa e o deixa frustrado pela falta de resolução, deixando-o também ansioso para que a terceira parte chegue logo.

É impossível negar que grande parte da efetividade do filme é por conta de Jennifer Lawrence, sendo a atriz o enorme diferencial entre Jogos Vorazes e demais franquias para adolescentes lançado nos últimos anos.

Mas nada é muito perfeito. O segundo filme tenta dar uma introdução no início da revolução popular contra o Governo, além da história girar em torno de um enorme reality show assistido por toda a população para que eles sejam constantemente lembrados de que é o Governo de Snow quem manda, oprime, decide e obriga, só que pouco disso é mostrado ou explorado pelo ponto de vista do povo. Todo o foco fica apenas sobre a personagem principal e alguns outros poucos que a circundam, como se os roteiristas tivessem definitivamente esquecido o que está acontecendo fora da enorme redoma e de que o filme, na verdade, é uma ficção sobre uma releitura do romano pão e circo. Não temos a noção de como é para o povo assistir ao evento transmitido enquanto o medo se alastra pelas ruas, e tampouco vemos essa "tal" revolução popular evoluir, ou como todos estejam lidando com esta situação. Tudo ocorre de maneira muito subliminar e oculta no filme, o que é um dos grandes erros da produção e que dá a sensação de que as mais de duas horas de duração poderiam ter sido melhor aproveitadas.

Não dá pra dizer que Em Chamas é um filme excepcionalmente para o público jovem. O público mais maduro e que busca entretenimento e pipoca pode se satisfazer muito bem com este filme (mais do que com o primeiro), até mesmo porque, como dito, a atriz principal eleva o nível da produção, bem como demais coadjuvantes como Woody Harrelson, Elizabeth Banks (em uma participação merecidamente maior) e a inclusão de Jena Malone, que aqui repete um pouco do que foi feito em Sucker Punch (2011), mas dá um empurrão interessante no filme.

É sentar e aproveitar.

CONCLUSÃO...
Fora os pequenos defeitos do subaproveitamento das tramas paralelas e alguns excessos direcionados ao público juvenil, o longa consegue entreter e cumprir o que propõe, e mais ainda em dar densidade a uma série de livros que excede o reciclável e esquecível. Ou seja, o cinema Hollywoodiano ainda consegue e tem poderes suficientes para fazer uma grande arte com o lixo, mas nem sempre há desempenho suficiente para isso.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

FE-FI-FO-FLOP!

★★★★★★
Título: Jack, O Caçador de Gigantes (Jack, The Giant Slayer)
Ano: 2013
Gênero: Ação, Aventura, Fantasia
Classificação: 10 anos
Direção: Brian Synger
Elenco:
País: Estados Unidos
Duração: 114 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Jack é um jovem plebeu que cresceu ouvindo história de gigantes que devoravam humanos e foram expulsos para um território entre o céu e a terra. Um dia o destino lhe coloca nas mãos um punhado de feijões que podem mudar o curso de toda a humanidade caso germinem. E acreditem, um deles germina.

O QUE TENHO A DIZER...
Jack, O Caçador de Gigantes é dirigido pelo ganacioso e orgulhoso Bryan Singer. O filme é baseado no conto inglês por aqui conhecido como João e o Pé de Feijão e foi um dos maiores imediatos fracassos de bilheteria do ano, entrou para um dos maiores da história e é o grande primeiro fracasso da vida do diretor. O filme custou aproximadamente US$195 milhões, e arrecadou "apenas", e com muito sacrifício, um pouco mais de US$ 65 milhões só nos EUA. Ou seja, nem ao menos a metade. Isso para um diretor qualquer seria um suicídio na carreira, bem como já aconteceu com tantos outros, porém Singer tem a sorte de estar ligado a uma franquia que pode ressucitar sua carreira quando ele quiser, a dos X-Men. Isto é... se tudo correr bem.

Aliás, foi a partir dessa franquia que o diretor ficou famoso, mas chegou a esnobá-la ao abandonar a FOX e migrar para a concorrente Warner para dirigir o esquecível Superman, O Retorno (Superman Returns, 2006), no interesse grandioso de transformá-lo em uma grande nova referência dos filmes de super-heróis. Com um sucesso mediano e bastante aquém do que a Warner esperava, o diretor foi posto na geladeira por um tempo. Ao mesmo tempo, X-Men - O Confronto Final (X-Men: The Last Stand, 2006), a terceira parte da franquia que Singer desistiu de dirigir, também não foi lá grandes coisas e recebeu um jorro de críticas negativas principalmente pelos fãs.

Foi por conta disso que, em 2008, o diretor foi convidado para dirigir o reboot dos mutantes, X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class, 2011). Singer diz para a mídia que negou o convite por conflitos de agenda, pois estava "mergulhado" na produção de João, um projeto pessoal que há muito ele queria fazer, porém a impressão que se tem vai além disso, e aparenta que a concorrente Warner não aceitou dispensá-lo para voltar a FOX sem antes lhe render mais um produto descartável para uma leva de filmes baseados em contos de fada (tanto que após a conclusão de João, Singer retomou as rédeas dos mutantes e dirigirá o próximo capítulo do reboot, Dias De Um Passado Esquecido).

Ok, João não desaponta, e dentre os filmes baseados em contos de fada, ele é de longe o mais considerável. O personagem principal é interpretado por Nicholas Hoult, o zumbi simpático de Meu Namorado É Um Zumbi (Warm Bodies, 2013), ele não precisa de muito para convencer, mas tem um bom desempenho mesmo assim. O filme já começa grandioso, do jeito que Singer aprendeu a gostar, espetaculoso, com uma narrativa de abertura semalhante a de O Senhor Dos Anéis, cheio de efeitos e trilha sonora orquestrada recheada de rompantes sonoros estridentes para motivar e chamar a atenção logo no começo até mesmo os pouco interessados.

A história parte do princípio de que a história dos gigantes é uma história. Entenderam? Essa história era lida por duas pessoas muito distintas: uma rainha, que contava a história para sua filha, e um plebeu, que contava a história para seu filho. Isso já deixa claro que, em algum momento do filme o destino os unirá, e isso acontece quando o feijão germina e leva para a terra de gigantes a casa de João com a princesa dentro, e João fica na terra dos pequenos, inconsciente depois de ter caído do pé enquanto ele crescia. O rei, apavorado, envia uma leva de pessoas para resgatar a princesa, e João se voluntaria porque está apaixonado (óbvio).

O enredo é infantil, mas não há como negar que Singer sabe conduzir uma história, por mais banal que seja, dando um dinamismo e uma versatilidade que deixa tudo muito interessante mesmo nas situações mais banais. Os efeitos especiais são deslumbrantes, e ficam mais interessantes por não terem a intenção de ser perfeito, já que os gigantes são desformes de forma caricata, e com uma postura assustadora apenas para deixar criancinhas de olhos esbugalhados, vidrados no filme. Enfim, a gente vê na tela de forma explícita onde os US$195 milhões foram usados.

Mas é aquela coisa... conto de fada é conto de fada e essas histórias já fazem parte de um consciente coletivo que já demonstrou que não estã interessado em visões particulares sobre ela. Uma coisa é você ouvir ou ler uma delas, outra coisa é você tentar engolir uma imaginação já pronta. É a mesma coisa que a vida toda você acreditar que Chapeuzinho Vermelho tem os cabelos castanhos escuros, e de repente aparece Amanda Seyfried mais loura que palha de milho. É difícil.

CONCLUSÃO...
Por melhores que tenham sido as intenções de Singer, o filme é grandioso e não chega a ser uma perda de tempo, mas é um fracasso considerável e que nos faz questionar se adaptações de contos de fadas são realmente necessárias em um mundo onde novos contos podem surgir.
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