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domingo, 14 de outubro de 2018

DESPERDÍCIO DE TUDO...

★★★★☆☆☆☆☆☆
Título: Oito Mulheres e Um Segredo (Ocean's Eight)
Ano: 2018
Gênero: Ação, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Gary Ross
Elenco: Sandra Bullock, Cate Blanchett, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway
País: Estados Unidos
Duração: 110 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Após receber liberdade condicional, uma ladra profissional resolve dar continuidade ao talento familiar quando planeja o furto de um colar de US$150 milhões durante um dos eventos de moda mais conhecidos do mundo.

O QUE TENHO A DIZER...
Steven Soderbergh pode ter se dado muito bem ao fazer o remake de Onze Homens e Um Segredo (Ocean's Eleven, 2001), transformando-o numa franquia de sucesso. Embora Doze Homens (Ocean's Twelve, 2004) tenha sido lançado naquele momento em que o diretor se sentia o rei de Hollywood, fazendo do filme uma reunião particular de amigos, cheio de piadas internas e nada, absolutamente nada interessante para o resto dos espectadores do mundo, ele conseguiu se redimir disso com 13 Homens (Ocean's Thirteen, 2007), que foi exatamente naquela época em que Hollywood começava a dar as costas a ele, mostrando que aquela coroazinha que ele tanto achou que tinha não era mais que um adorno de chocolate que foi bom enquanto não derreteu.

Tanto que hoje Soderbergh é apenas uma mera lembrança de Hollywood. Tentou armar um griteiro em 2014 dizendo que iria se aposentar porque o cinema norte-americano não tinha mais nada a lhe oferecer, ou algo do tipo. Mas voltou atrás ao novamente trabalhar com Channing Tatum em Logan Lucky (2017), e depois com Sharon Stone na fracassada série para a HBO, Mosaic (2017).

Entregando a direção a Gary Ross, ele agora só assina a produção dessa continuação direta de sua franquia, ao mesmo tempo que também é um reboot feminino da série, antes composta em sua maioria por homens famosos e engravatados como George Clooney, Brad Pitt e Matt Damon.

Produzir o filme também não garante as qualidades que Soderbergh tem, pelo contrário, é nítido que seu nome apenas aparece nos créditos para tentar dar ao filme todos os créditos que nele faltam.

A princípio tudo parecia interessante. A proposta do filme com um elenco principal predominantemente feminino, liderado por Sandra Bullock no papel de Debbie Ocean, irmã de Danny Ocean (George Clooney nos filmes anteriores) vinha a calhar numa época em que o movimento feminista no cinema estava a todo vapor.

O problema principal do filme, assim como de sua intenção, é se perder nas situações familiares e politicamente corretas. Isso o fez cair na mesmice de sempre, e tudo aquilo que poderia ser um excelente filme de ação e roubo (o gênero chamado heist), tal qual foram 11 e 13 Homens, se tornou um filme monótono dentro de um cenário feminino comum e batido.

Oras, se dentre várias revindicações femininas, uma delas era o protagonismo de filmes que outrora seriam protagonizados por homens, o filme falha quando novamente as insere em situações típicas da cultura social feminina e do senso comum até machista de que mulheres são movidas por futilidades.

Maquiagens, roupas caras, cabelos estilizados e impecáveis. Marcas famosas e andar de passarela. Escrito por Gary Ross e Olivia Milch, essa é a visão que os roteiristas tem sobre as 8 heroínas da história. A impressão é que assistimos uma versão turbinada de Sex And The City, onde Carrie Bradshaw armaria um grande esquema de vingança contra Mr. Big por tê-la traído.

Mas como se não bastasse tanta esnobação e glamour, o enredo principal, no qual qual Debbie planeja roubar o colar mais caro do mundo do pescoço de uma das mais famosas atrizes durante o Met Gala, aquele famoso evento anual fashionista e beneficente criado por Anna Wintour, a tão temida editora chefe da revista Vogue, se torna apenas uma ironia daquilo que as próprias mulheres tem tanto lutado para se desvincular: a de que os diamantes são sempre seus melhores amigos.

Ok, o cenário e o comportamento comum poderiam não importar caso todo o resto funcionasse. Mas não é o caso. Ao contrário do que aconteceu na franquia de Soderbergh, aqui não existe uma química convincente entre o elenco. As atrizes falham todo instante ao tentar mostrar uma intimidade que não existe, e o roteiro tropeça admiravelmente ao dar uma resolução sentimental, baseada numa vingança amorosa, além de diálogos monossilábicos e onomatopéicos apenas para justificar a presença irrelevante de alguns nomes famosos, como é o caso de Rihanna (péssima como sempre), ou Helena Bonham Carter, que aqui repete o papel da típica esquisitona que costuma ser na vida real, dando a sensação que mais aceitou o papel para pagar as contas do que por verdadeiro engajamento. E essa situação um tanto desconfortável que vemos na tela cria, sem querer, uma competitividade entre as atrizes que não cabe.

As situações desconexas não convencem que aquele bando de personagens desajustadas conseguiriam dar conta de realizar um dos maiores golpes em meio a um evento tão conhecido e segurado por tecnologia de ponta e equipes altamente treinadas. Tudo bem que pouco importaria o plano, ou pouco importaria a forma de realizá-lo, ou que ignorar os absurdos é quase uma obrigação na série, mas enquanto Soderbergh conseguia distrair o espectador dos defeitos dando ênfase no charme natural do elenco, na química entre eles e no bom humor quase que improvisado, aqui Gary Ross se importa apenas na ênfase da beleza maquiada, acentuando a monotonia e abolindo qualquer resquício de graça ou irreverência que qualquer atriz pudesse ter.

Embora Bullock e Cate Blanchett sempre roubem as cenas por, sem dúvida, serem os maiores nomes do elenco e terem uma presença naturalmente imponente frente as câmeras, é impossível deixar de acreditar que seja o filme mais fraco da carreira de ambas quando os créditos finais aparecem. Estão visualmente desinspiradas, um tanto decepcionadas entre aquilo que parecia uma excelente proposta com aquilo que se tornou o filme de fato, mas que tiveram que seguir até o fim por questões contratuais.

Se ao menos a edição fosse um pouco mais dinâmica, como são os filmes de Soderbergh, se o mesmo formato narrativo com sobreposição e recortes de imagem tivesse sido usado, e o tempo do filme não fosse tão errado, talvez nada soasse tão arrastado ou uma mera tentativa de alguma coisa como ele é.

É aquela sensação de sabotagem que vez ou outra temos, uma impressão de que algo propositalmente errado sempre é feito no meio daquilo que poderia dar muito certo para que o filme seja vendável, mas não se torne memorável para não fortalecer uma idéia.

No caso, a idéia de que um elenco feminino poderia ter feito algo definitivamente melhor.

sábado, 23 de janeiro de 2016

POLÍTICA, DONALD TRUMP E CINEMA SÃO ASSIM...

★★★★☆☆☆☆☆☆
Título: Especialista Em Crise (Our Brand Is Crisis)
Ano: 2015
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: David Gordon Green
Elenco: Sandra Bullock, Joaquim de Almeida, Billy Bob Thorton, Ann Dowd, Zoe Kazan
País: Estados Unidos
Duração: 107 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma estrategista eleitoral norteamericana é contratada para auxiliar na reeleição de um controverso presidente boliviano, ao mesmo tempo que compete com um rival de longa data, que trabalha para o candidato da oposição.

O QUE TENHO A DIZER...
Este filme é baseado no documentário homônimo de Rachel Boyton, lançado em 2005. Enquanto o documentário narrava a campanha presidencial boliviana de 2002, em que concorriam à presidência Gonzalo Lozada e Evo Morales, a história aqui será bem mais fictícia, levando os senãos da história para outros rumos e substituindo alguns personagens por outros.

Os presidentes no roteiro de Peter Straughan não são reais, embora sejam referências a eles, bem como a personagem vivida por Sandra Bullock seja uma referência a Robert "Bob" Shrum, o famoso consultor que prestou serviço a importantes candidatos no Estados Unidos, incluindo Al Gore e John Kerry. Ao longo de sua carreira, Shrum foi estrategista de oito candidatos, e sua fama se deve por nenhum deles ter chegado à presidência, embora sua participação tenha sido bastante relevante no cenário político.

O filme é dirigido por David Gordon Green, mais conhecido pelas comédias escrachadas, linguarudas e politicamente incorretas, como Segurando as Pontas (Pineappel Express, 2008) e o subestimado Sua Alteza? (Your Highness, 2011), que foi muito mal interpretado pela crítica que o destruiu, talvez porque deram muito mais atenção ao teor chulo e pornográfico do que ao satírico, que muito se assemelha ao que Mel Brooks fez no passado, mas obviamente de forma mais branda porque os tempos eram outros.

Uma escolha um pouco inusitada, já que Green é um diretor liberal demais para, talvez, conseguir carregar nas costas um filme político e, na medida do possível, bastante correto. Portanto é notável como ele está comedido, um tanto preso em exigências. 

O filme foi escolhido à dedo por Bullock (que também assina a produção) para tentar manter sua safra de boas escolhas que culminaram com o Oscar de Melhor Atriz por Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009) e uma posterior indicação por Gravidade (Gravity, 2013). Aliás, George Clooney, parceiro neste último, estava cotado para estrelar este filme também, mas acabou ficando apenas na produção.

Mas o resultado foi completamente o oposto daquele que se esperava. A seletiva escolha de Bullock não foi acertiva dessa vez. O filme foi massacrado pela crítica e público. Um verdadeiro fiasco. Isso não é uma novidade na carreira de Bullock, que por duas décadas foi estigmatizada como um atriz de comédias, chegando a ver sua carreira à beira do abismo. Depois de dar a volta por cima com alguns dramas e provar seu talento versátil à duras penas, voltou agora a dar preferência para estilos mistos, como acontece aqui, já que está comprovado que ela consegue ser engraçada e dramática ao mesmo tempo, e vice-versa. E o público comum adora.

Mas por que será que tudo foi tão mal das pernas assim? Ele é tão ruim ou até pior que o horroroso Maluca Paixão (All About Steve, 2009) ou o absurdo Velocidade Máxima 2 (Speed 2, 1997), ambos estrelados por ela?

Para ser sincero, tudo já não começa bem ao apresentar Jane "Calamidade" Bodine (Sandra Bullock) como uma estrategista política em reclusão há seis anos porque perdeu a última batalha presidencial para seu rival, Pat Candy (Billy Bob Thorton). E seu apelido "calamidade" já explica muita coisa. Ela parou de fumar, parou de beber e vive calmamente em uma cabana fazendo cinzeiros de argila depois de uma temporada em um hospital psiquiátrico. Clássicos e batidos conflitos que se transformam em motivos para fazer um personagem superar um trauma do passado. Então já conseguimos prever que a trajetória da personagem será cheia de obstáculos, mas ela irá se bem suceder no fim. Alguém já viu algo parecido? Sim?

Imaginei.

O candidato à presidência, Castillo (Joaquim de Almeida), é mostrado de forma patética em um programa de televisão, não sabendo dar respostas diretas ou nem mesmo tendo respostas para perguntas mais complexas, o que justifica logo de cara seus 8% de preferência nas pesquisas. Castillo é um político bronco, elitista e antipático que tenta se reeleger (como ele foi eleito no passado sendo assim, não se sabe). Ele tem dificuldade de se aproximar do povo em uma época complicada de crise econômica e segregação social na Bolívia, e isso também é argumento óbvio para que a missão da protagonista seja ainda mais complicada.

Quando Jane chega no país, entre tentativas de humor físico com um tombo ao sair do avião, comentários um pouco preconceituosos de seu assistente sobre o povo boliviano, trombadas, um desnecessário cilindro de oxigênio, náuseas e uma vomitada na lata de lixo, a situação do filme piora porque tudo parece apelativo, além de Sandra Bullock repetir pela enésima vez aquele estereótipo de mulher comum e desajustada, vítima de si mesma e de seus próprios contrangimentos. Um tipo que virou sua marca registrada em Miss Simpatia (Miss Congeniality, 2000), mas que depois de tantas vezes repetido, incluindo seu penúltimo filme, As Bem Armadas (The Heat, 2013), a situação já ficou esgotada e cansativa, realmente um retrocesso.

Por alguma razão, esse filme pra mim parecia ser para Sandra Bullock o que Erin Brockovich (2000) foi para Julia Roberts, talvez pela determinação da protagonista e pelo parecido estilo de filmagem. Mas Gordon Green deveria ter seguido os mesmos passos de Steven Soderbergh para fazer desse filme algo melhor apresentável e menos bagunçado. Deveria ter sido mais sutil, e feito adaptações que amenizassem esse deboche que ele carrega consigo, mas que não se encaixam aqui porque tudo é muito comercial e didático, produzido dentro de uma formuleta para chamar atenção com excessos e previsibilidade, implorando para o público rir ou se emocionar, mas sem conseguir nenhum dos dois com efetividade, nem mesmo quando as cenas são invadidas por uma trilha sonora que nada acrescenta até mesmo nos poucos momentos que elas funcionariam sozinhas, apenas no diálogo.

Tirar sarro da política é interessante, mas está muito longe de ser um Segredos do Poder (Primary Collors, 1998), de Mike Nichols, embora tivesse tudo para ser tão interessante quanto porque, apesar dos defeitos, seu tema é atualíssimo. Fica estranho ver tudo de forma tão retorcida, sem eira e nem beira, como se tudo fosse uma grande piada em um grande circo. Desnecessário porque a política em sí já é uma piada pronta, não há necessidade de deixá-la over the top, como dizem os norteamericanos. Sem dúvida faltou uma finesse maior, diálogos mais polidos e menos caricatura. A ironia já seria suficiente para o tom cômico, como acontece, por exemplo, com o personagem de Billy Bob Thorton, que sempre se apresenta e inicia um diálogo amigável e decente, mas sempre sai de cena com uma frase elegantemente desconfortável, deixando óbvio que a rivalidade que ele cultiva é carnal e sexista. Sim, ele consegue ser brilhantemente nojento e provocativo como o filme não consegue ser.

Em um primeiro momento o roteiro tenta levar todo esse assunto para um tom pastiche e satírico, aquele que Gordon Green gosta, mas que de uma hora pra outra deixa de ser assim como se o diretor tivesse cansado de brincar com os carrinhos.

Também era desnecessário levar o tema para a Bolívia para tratar de um assunto em que o próprio Estados Unidos vive no momento. Lugar em que mesmo que o candidato seja antipático e as pessoas tenham medo dele, é aquele que consegue ser o mais popular. O que Jane faz com Castillo no filme é o que Donald Trump tem feito em sua campanha, se aproveitando do medo e da insegurança generalizada para construir seu sucesso. Trump tem se beneficiado do mesmo com as contantes ameaças terroristas, do inchaço imigratório e da revolta coletiva para divulgar sua estratégia política preconceituosa, xenofóbica, violenta e conservadora, e assim conquistar aquela maioria ignorante que esperava por alguém com colhões para representá-los. A crise, como bem diz Jane Bodine entre citações de Shan Tzu, Maquiavel e Warren Baty, tem sido sua marca, aquilo que ele está vendendo muito bem como o bem sucedido marketeiro que é. Tomara que seja apenas marketing, apenas uma imagem enganosa para garantir sua eleição, e que na prática as coisas sejam diferentes, tal qual acontece com Pedro Castillo na história.

Talvez esse discurso que a protagonista faz seja um excelente resumo do cenário político atual, e como a política nada mais é do que uma propaganda idealizada, enganosa e direcionada para o público que quer comprá-la sem questionar. Vence a embalagem mais adequada, e aquela direcionada pelas pesquisas de satisfação.

Analisado por esse ponto de vista e pelos poucos momentos em que o roteiro realmente questiona isso, o filme demonstra ter conteúdo e relevância, mas escorrega pelos dedos do diretor e do roteirista, que não quiseram ser mais duros e crus como a realidade para, talvez, conseguirem vender seu produto sem criar polêmicas. Mas nada disso ajudou. Se o filme tivesse um rumo mais realista e interessante, sem floreios ou excesso de tramas paralelas irrelevantes, dando foco unicamente ao jogo de interesses e falsas promessas que é a política, o filme teria fracassado comercialmente de cabeça erguida.

CONCLUSÃO...
Tem conteúdo relevante, mas escorregou pelos dedos do diretor e do roteirista. Poderia ter sido um filme muito mais interessante e uma importante referência ao cenário eleitoral norteamericano atual, mas se perde nas falsas intenções e na intenção de não ser polêmico para ser melhor aceito. Isso só provou que amenizar temas para ser mais vendável nem sempre funciona ou vale a pena. Mas política, propaganda e cinema são assim.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

"I CAN'T BREATH..."

★★★★★★★★★★
Título: Gravidade (Gravity)
Ano: 2013
Gênero: Ficção Científica, Suspense, Drama
Classificação: 12 anos
Direção: Alfonso Cuarón
Elenco: Sandra Bullock, George Clooney
País: Estados Unidos
Duração: 91 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Dois astronautas devem confiar um no outro para sobreviverem no espaço após sua nave ser atingida por destroços de um satélite russo que fora destruído.

O QUE TENHO A DIZER...
Em produção desde 2009, o filme foi apenas anunciado em 2010. É dirigido, produzido e escrito por Alfonso Cuarón (o roteiro em parceria com seu filho, Jonas Cuarón), e causou grande expectativa principalmente depois que seu teaser foi lançado no meio do primeiro semestre de 2013 e após a excelente receptividade pelo YouTube a distribuidora encontrou alí um forte caminho para o marketing, lançado logo em seguida o trailer e mais alguns vignettes, que foram imediatamente assistidos em massa. O grande diretor Mexicano e amigo pessoal de James Cameron (o qual também se considera um grande fã de Cuarón), conseguiu esta grande e rara oportunidade após dirigir os bem elogiados Harry Potter E O Prisioneiro de Azkaban (Harry Potter And The Prisioner Of Azkaban, 2004) - considerado pelos críticos o melhor da série - além da também bem elogiada ficção Filhos da Esperança (Children Of Men, 2006).

Mas o excelente currículo do diretor não é válido apenas por esses dois filmes. Sua grande estréia foi com o lúdico e emocionante A Princesinha (A Little Princess, 1995), que embora infantil, foi muito bem apreciado principalmente pelos mais velhos. Depois dele veio a refilmagem do clássico de Charles Dickens, Grandes Esperanças (Great Expectations, 1998), seguido por E Sua Mãe Também (Y Tu Mamá También, 2001), filmado em terras natais no qual ele concorreu ao Oscar de Melhor Roteiro Original. Portanto, Cuarón é atualmente um nome estrangeiro forte no cenário cinematográfico nos EUA, se estabelecendo em uma lista de diretores naquilo que vem sendo uma discreta mudança de paradigmas em Hollywood, principalmente na última década, em expandir suas fronteiras com talentos estrangeiros que não a descaracterize totalmente.

Cuarón aparentemente escolhe a dedos seus projetos ao invés de simplesmente sair fazendo filmes para que seu nome seja reconhecido pela quantidade, por isso acaba surpreendendo mais do que o esperado, pois seu nome não é alarmante como é, por exemplo, como o do seu amigo Cameron, portanto o elemento surpresa é sempre mais impactante, e por isso Gravidade supera ou, no mínimo, corresponde qualquer expectativa.

Há muito o que se falar sobre o filme, mas pouco que deve ser dito para não estragar qualquer experiência, pois sem dúvida é um dos melhores dentro do gênero de ficção espacial realizado nas duas ou três últimas décadas, e isso não é exagero. Temos uma lista de grandes títulos de odisséias que em hipótese alguma devem ser ignorados, que claramente tem seu início com o pai de todos, chamado 2001 (1968), de  Stanely Kubrick. A lista de referências segue com Solaris (1974), do russo Andrei Tarkovsky e Alien/Aliens (1979/1986), respectivamente de Ridley Scott e James Cameron. Há outros, com certeza, mas é notório que filmes relevantes neste tema são raros. Poucos atualmente conseguem ter uma originalidade relevante, mesmo que concebidos através de outras referências (principalmente de Kubrick), como ocorre com os excelentes e ignorados Sunshine (2007), de Danny Boyle e Lunar (Moon, 2009), de Duncan Jones. A maioria são tentativas frustradas e pretenciosas fadadas a caírem na mesmice e no cliché de reproduções mal feitas que não acrescentam nada, como o atual e até ridículo Oblivion (2013). Felizmente temos a felicidade de, vez ou outra, sermos agraciados com jóias raras como é o filme de Cuarón. Mas o melhor de seu filme é exatamente se abster dessas referências e criar - na medida do possível - uma narrativa própria e que, por isso, o anula de qualquer comparação, mesmo que o enredo seja simples. O que o difere dos anteriores é a idéia única e principal do diretor em manter toda a situação bem próxima do nível de realidade daquilo que hipoteticamente seria uma verdadeira tentativa de sobrevivencia em uma cadeia de situações catastróficas no espaço, colocando até cenas em primeira pessoa para causar um impacto mais subjetivo em determinadas situações. Metaforicamente, segundo o próprio diretor, seria o renascimento depois de uma diversidade de fatos desastrosos vividos dentro das leis da vida e da sobrevivência. Tanto é assim que o filme se desenvolve em referências à geração, à gestação e ao nascimento, demonstrados claramente em cenas chaves.

Tecnicamente o filme chega aos limites da perfeição em um espetáculo visual e sonoro impressionantes, o que é até paradoxal no último quesito, pois o filme se abstém do som, já que no espaço ele não existe e é dito logo na abertura - o contrário do que é mostrado no trailer, onde a sonosplastia foi utilizada apenas como um truque para causar maior impacto no espectador fácil, mas nem por isso o engana dentro de um resultado total. Preconceitos surgiram quando foi divulgado pelo boca a boca que o filme não teria sonoplastia, fazendo algumas pessoas acreditarem que seria algo tedioso, antiquado e ruim, ou seja, fora do exemplo comercial comumente esperado. Mas para driblar essa ausência, o diretor utilizou fortemente (e de forma bastante inteligente) uma trilha sonora que se encaixa perfeitamente nas situações, e embora o barulho de explosões e de ações em deriva espacial não exista (o pouco que se ouve é apenas o que os astronautas ouviriam dentro de suas roupas), a trilha sonora os substituem e impactam da mesma forma, pois obviamente Cuarón não teria sido tolo o suficiente de realizar um projeto desse porte da maneira mais alternativa que pudessem imaginar, por mais alternativo e até experimental que ele já naturalmente fosse, jogando pela janela US$100 milhões investidos. Isso tudo volta a seu favor, conseguindo unir a linguagem popular com a alternativa, levando para o público comum o moderno e fácil sem precisar se abster de detalhes óbvios que fizeram total diferença e agradam - até em excesso - o público tecnicamente mais exigente. 

A ousadia não para por aí. Cuarón fez questão de que as tomadas fossem longas. A sequencia inicial, por exemplo, tem mais de dez minutos sem cortes, e essa método pouco utilizado no cinema por conta de limitações técnicas e até mesmo falta de interesse dos diretores em explorar este estilo, é desenvolvido repetidamente durante todo o filme, dando uma sensação de continuidade fluida e realista, praticamente em tempo real. Sim, isso não é novidade. Diretores como Hitchcock, Kubrick, Brian DePalma, Woody Allen, Von Trier, Martin Scorcese e até Spielberg, são grandes fãs e realizadores desse método, mas a grande diferença é que neste filme não havia cenários, não havia elenco ensaiado e marcado, havia um espaço qualquer e um ator (ou dois) em cena contracenando em um chroma key que resultou naquilo já dito por outros críticos como interpretações que aparentam espontâneas, mas que foram exaustivamente ensaiadas e coreografadas em um verdadeiro balé espacial, que se mostra natural por conta do excesso de perfeição e treinamento. Realizar a junção perfeita de cenas inteiramente realizadas em computação gráfica juntamente com cenas e atores reais em sequencias longas e sem cortes como as que são vistas não apenas abraça o espectador para o momento como também faz dessa uma das melhores experiências em assistí-lo. Embora curto (apenas 90 minutos), as tomadas longas, toda a ação lenta e meticulosa e a total ausência de referências temporais e espaciais passa a sensação de ser um filme de duração maior, e de forma alguma tedioso ou cansativo.

O mérito também se vale nas atuações. Embora George Clooney ofereça aquele mesmo arquétipo do ator canastrão, que surge em cena apenas para aliviar as cargas dramáticas, Sandra Bullock novamente consegue carregar o filme com absoluta noção técnica e total coerência com os conflitos vividos pela personagem tal como vem demonstrando nos últimos anos nos poucos filmes mais dramáticos que participou. A maior preocupação da atriz foi em como representar as sensações e emoções da personagem com tão pouco. Ela se preparou fisicamente para o filme por seis meses enquanto revisava o roteiro com o diretor em minúcias. Eles chegaram então a um ponto crucial de como deveria ser a entonação e a frequencia respiratória da personagem em cada situação, já que seria a mesma respiração que ofegaria por conta do stress em alguns momentos e pela falta de oxigênio em outros, ou a respiração que oscilaria entre a euforia, o medo, angustia e sofrimento, já que boa parte do filme é apenas isso que se ouve da personagem Ryan Stone. Foram semanas ensaiando exaustivamente com o diretor em como realizar os momentos de forma precisa ao ponto dele mesmo comparar os ensaios como uma rotina de dança, que no fim resultou em puro realismo e emoção, tanto que James Cameron considerou a atuação da atriz mais impressionante do que qualquer tecnologia que suporta todo o filme.

A contratação da atriz para o papel foi praticamente por acidente, já que Angelina Jolie havia sido originalmente contratada, mas abandonou o projeto ainda em pré-produção. Natalie Portman era a segunda opção, mas desistiu logo depois de anunciar que estava grávida. Sandra foi escolhida depois de uma fila de outras atrizes gabaritadas serem testadas para o papel como Marion Cotillard, Carey Mulligan, Rachel Weisz e Naomi Watts. E não há dúvidas de que a sutileza de sua atuação e seu comprometimento no papel são impressionantes e dificilmente teria atingido um nível equivalente por alguma outra.

Novamente 2013 se repete como o ano da atriz, assim como foi em 2009, já que Gravidade foi uma produção que não havia pretensões em ser o sucesso de crítica e público que tem sido tal qual foi o drama Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009), e que também foi lançado logo após outro filme feito para ser sucesso comercial e que ainda está nos cinemas, a comédia As Bem Armadas (The Heat, 2013), igualmente como ocorreu com A Proposta (The Proposal) em 2009. Até o momento, o filme já arrecadou mais de US$615 milhões no mundo, impressionante para um gênero que anda em baixa e está sofrendo pela falta de público nos últimos anos. No IMDb o filme já foi avaliado por mais de 168 mil usuáros (a avaliação não pode ser repetida por um mesma pessoa) e atingiu uma pontuação média de 8,5. Ou seja, estatísticamente a aprovação é quase unânime.

É um filme tenso do início ao fim, desesperador e até claustrofóbico, que atiça a curiosidade por ser imprevisível, além de visualmente deslumbrante. Vale ser visto em cópias 3D (o filme foi feito para essa tecnologia), para conseguir ter apenas o mínimo possível e imaginável da sensação de imensidão espacial e profundidade por nós, meros terráqueos. Claro que o roteiro sofre de poucos clichés hollywoodianos em frases heróicas de efeito, que poderiam ter sido evitadas, mas são tão poucas que se ofuscam frente a tanta perfeição tecnica e cuidado. Teria sido impossível realizar o longa em outra época, e dificilmente terá uma qualidade superada em um futuro próximo.

Atenção para a temporada de premiações que começará no final de Novembro, sem dúvida alguma Gravidade é o primeiro grande e forte candidato do ano, e um filme marcante que já é uma referência para filmes futuros.

CONCLUSÃO...
Finalmente uma grande odisséia espacial atual e que impressiona por tratar tudo da forma mais realista possível dentro do fantástico. A perfeição técnica da direção e pós produção, bem como da atuação ímpar da atriz fazem do filme um dos melhores do gênero, e muito possivelmente o melhor do gênero das últimas duas décadas.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

QUANTO MAIS FEIAS MELHOR...

★★★★★★★☆☆☆
Título: As Bem Armadas (The Heat)
Ano: 2013
Gênero: Comédia, Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Paul Feig
Elenco: Sandra Bullock, Melissa McCarthy
País: Estados Unidos
Duração: 117 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sarah Ashburn é uma agente do FBI arrogante e metódica que não consegue trabalhar em grupo já que ninguém segue e trabalha dentro dos mesmos procedimentos que ela. Ela é então transferida para investigar um crime em Boston, onde conhece a durona e egoísta agente do departamento local Shannon Mullins.

O QUE TENHO A DIZER...
Obviamente o filme foi realizado com intenções de ser sucesso de alguma forma, já que conta com a direção e produção de Paul Feig, que havia dirigido anteriormente Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids, 2011). Também tem aquela antiga fórmula de comédias que juntam uma dupla de atores famosos em situações absurdas para gerar o riso fácil dentro dos clichés. Mesmo atualmente essas comédias abraçarem um confortável "politicamente incorreto" com o uso exagerado de palavrões, piadas escatológicas e/ou sexualizadas, e personagens exageradamente estranhos e caricatos, isso também já se transformou em uma fórmula que raramente surpreende.

É o primeiro filme de Sandra Bullock em um hiato de dois anos depois de redescobrir o sucesso com o seu Oscar pelo filme Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009), e o quinto filme de Melissa McCarthy em apenas dois anos depois do sucesso alcançado por Missão Madrinha.

Quando o trailer do filme foi lançado, comparações com Miss Simpatia/Miss Simpatia 2 (Miss Congeniality/Miss Cogeniality 2, 2000/2005), foram inevitáveis, e muita gente chegou a considerá-lo uma terceira continuação não autorizada, já que aparentemente Sandra reprisaria um mesmo tipo de papel e McCarthy seria a coadjuvante durona tal qual Regina King fez no segundo filme. A verdade é que essas pessoas não estão erradas, pois grossamente nenhuma das duas atrizes fazem algo diferente do que já foi feito na franquia mencionada, e nenhuma das atrizes também criaram personagens muito diferentes das que já fizeram antes.

O roteiro bobo e furado, e a direção que só leva um nome pois tecnicamente não foge do trivial, são todos compensados unicamente pelas atrizes principais, em situações e diálogos hilários trocado entre ambas como chumbo. Geralmente filmes que unem dois grandes nomes estão fadados a cair no pastiche e no bocejo, mas o mérito (ou demérito) nesses casos são muito mais pelos próprios atores do que de qualquer outro elemento técnico. Todos já sabem que Sandra Bullock é talentosa, talento que ela teve que provar a duras penas numa trajetória com tantos altos e baixos, enquanto Melissa foi ter o talento reconhecido há apenas dois anos atrás, sendo finalmente reconhecida mundialmente como uma atriz e persona naturalmente cômica depois de tantos anos no mercado. Sandra também é uma atriz de comédias, e as faz muito bem, mas aqui ela realmente mostra que seu status de estrela não é em vão, pois ela brilha e oferece situções hilárias com pouco, além de se manter respeitosamente em seu lugar sem qualquer pretensão de roubar a cena ou ofuscar o show particular de McCarthy, que brilha dentro de sua espontaneidade exagerada e bem explorada também sem invadir o espaço da colega. E é exatamente isso que faz o filme funcionar e ter um nível elevado, pois a parceria de ambas gera uma química convincente e equilibrada, e não funcionaria mais com uma do que com outra, tanto que desde a primeira cena juntas, elas não se separam mais nem mesmo nos créditos finais. O interessante é que, embora o filme queira ter uma alto teor feminista, ele não é encarado como um filme de gênero, atraindo tanto o público masculino quanto o feminino em igual medida e agradando ambos por também ter esse equilíbrio entre os dois gêneros tanto na personalidade das personagens quanto pelas situações que elas se encontram.

Como dito, foi um filme feito para ter sucesso comercial por utilizar elementos manjados para conquistar o objetivo de forma fácil. E conseguiu. O filme arrecadou mundialmente US$226 milhões (US$150 mi só nos Estados Unidos, já que é uma comédia tipicamente norte-americana), mas apesar do sucesso e do grande desempenho das atrizes, não chega a ser um filme marcante por não ter um enredo que se destaque, e por ter personagens que soam reprisados, mesmo que bem construídos. Ele nem bem havia sido lançado e uma continuação já foi anunciada. Se Sandra Bullock aprendeu com a experiência, ela saberá que por mais tentador que possa ser, isso não soa uma boa idéia.

CONCLUSÃO...
Uma reunião bem realizada entre Bullock e McCarthy, mas não chega a ser um filme marcante e memorável justamente por se manter dentro de uma fórmula segura de se produzir um sucesso. Um tanto longo nas suas mais de duas horas, um exagero em um filme desse gênero. Os pontos altos da comédia são nas piadas espontâneas e internas que obviamente puderam ser aproveitadas e que fogem do óbvio, e também quando as personagens fazem piadas de si próprias ou são chacotadas pelos outros, como quando no momento em que é dito que a cada vez que elas aparecem, elas estão mais feias. O que é verdade, e talvez um dos poucos elemento mais originais de toda e qualquer piada do longa, que deve ser visto e apreciado pelo talento do elenco.

sábado, 11 de agosto de 2012

LÁ VEM ELE COM SEU PANDEIRO...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Tão Forte e Tão Perto (Extremely Loud & Incredibly Close)
Ano: 2011
Gênero: Drama
Classificação: 12 anos
Direção: Stephen Daldry
Elenco: Thomas Horn, Tom Hanks, Sandra Bullock, Max Von Sydow, Viola Davis,
País: Estados Unidos
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um garoto de nove anos que sofre de um transtorno autista e com fortes inclinações políticas e sociais, encontra uma chave que pertencia ao seu pai, uma das vítimas dos atentados de 11 de Setembro de 2001. Acreditando que esta chave pode ter um sentido maior, ele desesperadamente sai em busca da fechadura que ela possa abrir e, talvez, manter a memória e a presença de seu pai.

O QUE TENHO A DIZER...
Este filme é uma adaptação do livro homônimo do escritor Jonathan Safran Foer, escritor que com apenas 35 anos já tem dois títulos de grande sucesso. Seu outro livro, Uma Vida Iluminada (Everything Is Illuminated), também ganhou uma excelente adaptação em 2005 e que infelizmente passou despercebido pelos cinemas (é fácil encontrá-lo em home video), filme que foi escrito, dirigido e produzido pelo ator Liev Schreiber, que se identificou com a história e a tragetória do personagem principal (que é até bastante similiar com a do personagem de Tão Forte e Tão Perto, mas em uma situação e em um conflito bastante diferente).

Dirigo por Stephen Daldry, mais conhecido por dramas como o delicado Billy Elliot (2000), por ter dado o papel que premiou Nicole Kidman por As Horas (The Hours, 2002), e por ter feito o mesmo com Kate Winslet por O Leitor (The Reader, 2008). Daldry chegou a concorrer na categoria de Melhor Direção por todos esses mesmos filmes, o que o faz encabeçar a lista não de melhores diretores atuais, mas dos respeitáveis, pois seus filmes costumam ser conduzidos com uma sutileza que poucos diretores conseguem em um gênero que é muito fácil pesar a mão e transformar em um dramalhão comum. Óbvio que, assim como Tão Perto e Tão Forte, todos seus filmes possuem seqüencias que chegam a ser apelativas às lágrimas, principalmente porque ele gosta de escolher mártirs, focalizando suas dores, ou isolando-os no cenário para transpor o sentimento de sofrimento e incompreensão. Tudo sempre muito regado a uma trilha sonora simples, com notas chorosas de piano e/ou violino. Apesar de tudo são cenas que funcionam no propósito e poderiam ser um desastre em mãos mais pesadas.

Demorei muito tempo para assistir o filme por puro preconceito mesmo, pois sendo uma adaptação de um livro que foi muito bem aceito pelo público, principalmente o norte-americano, o filme teve recepção muito mista tanto pela crítica especializada quanto pela leiga. Eu não li o livro, então não poderia traçar um paralelo bom entre ambos, mas por diversos materiais que li, cheguei à conclusão de que o grande defeito que encontrei no filme também é a grande insatisfação da maioria dos que leram o livro. Os críticos (especializados e leigos), em sua maioria alegam que, embora o filme tenha sequências bastante emocionantes, é difícil se sentir completamente conectado a elas, como se ouvesse um obstáculo o tempo todo.

O grande obstáculo entre a mensagem e o sentimento é, sem dúvida, o ator Thomas Horn, que interpreta o personagem principal de 9 anos e que sofre de um transtorno autista conhecido como Síndrome de Asperger. Por isso a dificuldade de socialização e comunicação, que são descritos logo no começo do filme, do comportamento ora atencioso e carinhoso, ora nervoso e agressivo, e da obsessão por tarefas metódicas e repetitivas até sua conclusão e o auto-flagelamento quando ele não consegue atingir seus objetivos da forma esperada.

O filme desmonstra os transtornos do personagem muito bem, mas pouco explica sobre isso (porque obviamente não é o tema central da história). Para quem não conhece a doença ou pouco deu atenção nos raros momentos em que ela foi citada no filme, acabarão encontrando em Oskar um personagem chato, mimado e irritante, mas por demérito do próprio ator. Ele não consegue atingir um ponto de transição convincente entre o comportamento infantil e os repentes do transtorno que o personagem sofre, simplesmente tentando imitar uma atuação adulta conforme o roteiro indicava. Isso é justificável pelo fato de Thomas ser um ator novato e o filme ter sido seu primeiro trabalho em atuação. Portanto, sua interpretação é crua e baseada naquilo que ele acreditava ser uma atuação e não no que ele acreditava que o personagem estivesse passando e sentindo, oferecendo uma presença petulante e inconveniente em várias situações, chamando mais a atenção de quem assiste pelo tom arrogante que ele impõe do que pela tragetória de adaptação e superação de traumas que o personagem está passando. Para piorar, o personagem anda o filme todo com um pandeiro barulhento e irritante, que ajuda mais ainda na antipatia pelo ator, que poderia ter usado o instrumento apenas em situações simbólicas e não durante as duas horas de filme.

De qualquer forma, o filme tenta ser sutil na abordagem dos atentados de 11/09 para não usar os fatos de forma abusiva e apelativa, já que ainda é um assunto delicado para muitos norte-americanos e sempre impactante para muitas pessoas. Os curtos momentos em que há a relação direta dos personagens com o fato são suficientes para ter apenas um traço do sentimento de impotência, desespero e fragilidade das pessoas que vivenciaram isso. A condição traumática de Oskar e de sua mãe, e a relação difícil que ambos desenvolveram após o incidente, são apenas um exemplo da confusão e reação psicológica que inflingiu milhares de famílias.

As demais atuações são brilhantes. Sandra Bullock se mantém em um nível seguro e comedido, e sua presença é sempre forte o bastante com pouco. Para quem não assistiu seu filme anterior pelo qual ela ganhou o Oscar de Melhor Atriz, Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009), ou até mesmo seus outros poucos papéis dramáticos como em Confidencial (Infamous, 2006) ou Crash (2004), pode ficar um pouco surpreso caso esteja acostumado com as comédias românticas pelas quais ela ficou estereotipada, mas quem já assistiu sabe que sua atuação dramática é sutil, e nesse filme, mesmo se escondendo em uma cabeleira mal cuidada ou com as mãos no medo da personagem expressar suas fraquezas, confesso que o filme encontra o tom exato que buscou o tempo todo apenas próximo ao fim, quando sua personagem entra efetivamente na história e conta a sua perspectiva sobre o que estava acontecendo. Max Von Sydow, que faz um velho mudo e rabugento, tem presença bastante coadjuvante e todas suas cenas juntas não somam 20 minutos, mas ele é genial e com certeza subutilizado em uma adaptação em que ele poderia ter tido uma participação maior. Mas nem por isso isso o diminui e suas poucas cenas são gratificantes e emocionantes, naquele balanço entre a sutileza, o drama e a sinceridade típicos de experientes atores como ele. O mesmo pode ser dito sobre Viola Davis, que em apenas 10 minutos de cena eleva o filme de maneira que o ator principal nunca consegue. E o show do filme são mesmo os coadjuvantes e suas histórias paralelas, algumas poucas surpresas e o desfecho que parece decepcionante no propósito egoísta do personagem, mas que agrada com a excelente moral.

CONCLUSÃO...
É um filme que mostra uma jornada que poderia ter sido muito mais gratificante se o personagem principal tivesse sido interpretado de forma mais delicada e complacente. Mas quem não prestar atenção nisso vai conseguir ver uma história emocionante, simples e com muitos significados numa perspectiva dentro de um tema delicado como é os atentados de 11/09 em Nova York. A maioria dos comentários por aí de pessoas que leram o livro dizem que a experiência literária é melhor, mas como disse antes, os atores coadjuvantes e suas pequenas participações elevam o nível de um filme que por muitas vezes é difícil de encontrar uma conexão por conta da falta de simpatia não do personagem principal, mas da forma como ele é interpretado.
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