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quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

VALE CADA MINUTO...

★★★★★★★★★☆
Título: O Regresso (The Revenant)
Ano: 2015
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Alejandro Gonzáles Iñárritu
Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Pouter, Forrest Goodluck
País: Estados Unidos
Duração: 156 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um caçador de peles é atacado por um urso. Gravemente ferido e debilitado, é deixado à morte por seus colegas. Motivado pelo sentimento de vingança, trava uma batalha com a própria natureza em luta pela sobrevivência.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando Gravidade (Gravity, 2013) foi lançado, o mexicano Alfonso Cuarón trouxe de volta para o cinema os longos planos sequência (cenas sem cortes) de 5 a 10 minutos. Foi necessário um mexicano fazer isso para a técnica novamente virar tendência em Hollywood, assim como foi necessário outro mexicano, o amigo Alejandro Gonzales Iñárritu, para ultrapassar essa barreira com Birdman (2014), ao realizar um longa aparentemente feito em uma única sequência.

Não que ninguém tivesse feito isso antes. Hitchcock mesmo fez isso com Festim Diabólico (1948), mesmo com todas as limitações tecnológicas da época. A verdade é que o filme tem cortes, sim. Mas são imperceptíveis tal qual o clássico citado.

Birdman surpreendeu e agradou toda a crítica, que o considerou ousado. O que ele realmente é. Tanto que será referência futura assim como Festim Diabólico é até hoje.

Talvez um tanto inflado com o resultado do seu filme anterior, Iñárritu aproveitou o nirvana para mergulhar em um projeto no qual novamente escolhe o caminho mais difícil. Na intenção de que tudo parecesse realista o bastante, realizou cenas e filmagens da maneira mais crua e com o mínimo de equipamentos possível. As filmagens foram realizadas cronologicamente em um total de 80 dias dentro de em um período de 9 meses porque a mirabolante idéia da vez foi utilizar uma estética de filmagem que utilizasse apenas a luz natural em locações reais.

Obviamente que isso deixou a equipe técnica de cabelo em pé porque dependiam da boa vontade da natureza para que tudo desse certo em um cenário onde havia tudo para dar errado. Um único momento em que o tempo não contribuísse, era o suficiente para o dia de trabalho ser perdido. O caso mais grave foi na reta final de filmagem, em que o gelo das locações canadenses derreteu, impossibilitando a continuidade. Toda a equipe teve que se mudar para o sul da Argentina para encontrar situação climática similar, o que felizmente conseguiram em cima da hora, já que o verão se aproximava.

Esse constante de situações inesperadas e estressantes gerou grandes divergências no set, intensificados pelo temperamentalismo e exigência de Iñárritu ao ponto de várias pessoas deixarem o projeto no meio do caminho, ou serem demitidas pelo próprio diretor, como aconteceu com um dos produtores. Houve até discussões entre ele e o ator Tom Hardy por conta da falta de segurança que o ator sentia na realização de algumas cenas.

Excentricidades à parte, no fim tudo valeu a pena porque o resultado é realmente impressionante e o filme é definitivamente de cair os queixos por aí.

A história se passa no começo do século XIX, narrando a história de Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), um caçador de peles que, após ser brutalmente atacado por um urso marrom, é abandonado por seus colegas e deixado para a morte nas florestas gélidas do norte dos Estados Unidos. Ferido, sem suplementos ou armas, e em meio a uma guerra entre brancos e índios da tribo Arikara por conta de domínios territoriais e inclusive pelo direito a exploração de pele, Glass faz uma peregrinação de sobrevivência por mais de 300km com o único intuito de vingar a morte de seu único filho, fruto de uma relação entre ele e uma índia Pawnee no passado, o qual foi assassinado friamente por Fitzgerald (Tom Hardy), um de seus colegas de caça.

A experiência realista que Iñárritu cria consegue ir muito além de qualquer outro filme de sobrevivência solitária que foi lançado nos últimos anos. Primeiro porque, com excessão de algumas informações fictícias, grande parte do filme é baseado em fatos verídicos. Segundo porque as filmagens com iluminação natural dão uma densidade fotográfica um tanto inédita, um material bruto sem maquiagem visual que chega a surpreender naturalmente com as paisagens sem tratamento digital. Terceiro porque grande parte do que vemos é o que foi filmado de fato, principalmente a respeito dos atores. DiCaprio não é poupado das dificuldades em tempo algum, seja nu em meio a neve, mergulhando nos rios congelados ou comendo figado cru de um búfalo, ele se deixa levar pelo extremo naquilo que pode ser o seu melhor papel porque ele se despe de toda e qualquer zona de conforto. E por último, o diretor ainda mantém os planos sequência por boa parte da história, o que era necessário para se aproveitar o máximo do pouco tempo disponível diariamente para filmagem, mas que certamente intensificam ainda mais o realismo pelas situações se desenvolverem sem cortes ou truques óbvios, como o momento do brutal ataque do urso marrom (uma das sequências mais impressionantes e das poucas que faz excelente uso da computação gráfica a favor da experiência realista), ou quando Glass foge a cavalo enquanto é perseguido por nativos americanos, uma das melhores e mais bem construídas sequências de perseguição do filme que não dura nem 30 segundos, mas tudo é tão meticulosamente ensaiado, numa coerografia perfeita tanto por parte do elenco como da condução da câmera, que a pontualidade capta todos os momentos necessários sem exagero dramático.

Aliás, mesmo sendo um drama espiritual, como o próprio diretor o classificou, além de uma batalha épica entre o homem e a natureza, Iñárritu não apela em momento algum para o drama comum. Ele é muito objetivo e sucinto, até mesmo em situações que qualquer diretor facilmente cairia no apelo fácil, como no momento em que Hawk (Forrest Goodluck) é atacado por Fitzgerald. Esqueça qualquer melodrama similar ao que Robert Zemeckis construiu em Náufrago (Cast Away, 2000) porque Iñárritu acerta ao fugir completamente dos clichés que Hollywood criou ao longo dos anos no gênero. Não há nem mesmo invasão da trilha sonora para sugerir maior impacto sentimental porque tudo isso é desnecessário. O desenvolvimento das situações já é visceral por si só, a realidade existente nas cenas já tem densidade suficiente para sentirmos os ossos congelarem, a carne dilascerar, a fome bater e o desespero nos consumir.

Fazia tempo que eu não via algo baseado em fatos reais com tanto realismo e seriedade. Há violência explícita, tensão e cenas fortes, mas tudo tem coerência e contexto. Só que frente a tantas qualidades em uma situação cujo principal vilão é a própria natureza e sua força devastadora, transformar uma história de sobrevivência em um filme de vingança, como é o que acontece, por algumas vezes não parece fazer sentido. Mas a história real de Glass é contada dessa forma, só não é esclarecido se a verdadeira razão pela sua busca de vingança foi por Fitzgerald tê-lo deixado para a morte, ou se foi por ter roubado seus pertences enquanto debilitado e inconsciente (e não por ter matado seu filho, como acontece no filme). E aproveitando disso, Iñárritu até explora essas outras possibilidades, inclusive há até uma tentativa de "desvilanizar" o personagem de Hardy para que suas atitudes sejam mais consequência de traumas psicológicos do que por uma maldade deliberada, o que é até convincente também por conta do trabalho que Hardy desenvolve.

Com certeza é um filme longo e cansativo nos seus mais de 150 minutos. Cansativo não por ser monótono, mas por perdermos a esperança pelo personagem diversas vezes porque sempre algo pior irá acontecer, inclusive quando acharmos que não há como a situação piorar. E o comprometimento de DiCaprio no papel é estarrecedor. Até mesmo eu, que particularmente nunca fui fã de seus trabalhos, não conseguia vê-lo como um ator em cena, mas como Hugh Glass de verdade, tamanha sua imersão no personagem e no filme.

Assim como em Perdido Em Marte (The Martian, 2015), outro filme de sobrevivência lançado há pouco tempo, são em filmes como esse que percebemos como nós, meros humanos da vida fácil, não teríamos a mínima noção de como sobreviver a uma situação extrema de sobrevivência. E é até bom que filmes assim estejam na moda para que possamos perceber como somos frágeis e despreparados para o inesperado.

CONCLUSÃO...
Se Iñárritu tinha a intenção de se superar depois de Birdman, ele conseguiu. O Regresso não apenas é um dos maiores filmes de 2015 como deve figurar entre os melhores do gênero. É outro filme do diretor que se tornará referência. Um filme que, acima de tudo, é visualmente deslumbrante e que vale cada minuto assistido, mesmo que haja um intervalo de descanso.

terça-feira, 30 de junho de 2015

AGORA SÃO ELAS...

★★★★★★★★☆☆
Título: Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road)
Ano: 2015
Gênero: Ação, Ficção
Classificação: 16 anos
Direção: George Miller
Elenco: Tom Hardy, Charlize Theron, Nicholas Hoult, Hugh Keays-Byrne
País: Austrália, Estados Unidos
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Max está de volta, e tão enraivecido como antes, mas agora para ajudar um grupo de mulheres que de frágil elas tem nada.

O QUE TENHO A DIZER...
Antes de existir Velozes e Furiosos, Jogos Vorazes, Divergente, Maze Runner e qualquer outra história que envolva vinganças ou um mundo distópico, consumidos como água nos cinemas pelos adolescentes, existiu Mad Max, que era consumido por adolescentes e adultos em uma época que o cinema de ação sujo e pesado não tinha medo de ousar e ir sempre um pouco mais além dos limites.

Tanto que 1979 o cinema comercial australiano se destacou no mundo com o primeiro filme da série contando a história de Max Rockatansky, um oficial que trabalhava pela paz e justiça, mas de repente se vê tomado pelo ódio e vingança após sua família ser assassinada pelas gangues que ele perseguia. Max se transformou no símbolo da frieza, da fúria e do sangue que escorria dos olhos, um errante solitário que, com nada a perder, jogou sua vida na roleta da sorte enquanto se embrama em situações suicidas na busca de sua paz interior e humanidade de volta.

É... até parece um monte de baboseira, mas o que realmente chamou a atenção foi como George Miller, autor e diretor de toda a série, construiu o universo baseado na força motriz da violência, que é o poder acima de qualquer coisa, e fazê-lo de maneira supreendente através de simbologias e linguagem própria. Mad Max é em plena Terra o que Guerra nas Estrelas é no espaço, ou seja, um épico de ficção que construiu um universo de vida própria.

O herói é um daqueles icônicos personagens que tem uma personalidade tão marcante que é como se ele realmente existisse. O fato de ter um passado traumático que o fez se jogar no mundo, sem rumo e sem destino, ajudando pessoas que acabam cruzando seu caminho, dá liberdade para que ele seja inserido em qualquer situação. Seja cinco anos depois da história original para ajudar os habitantes que sofrem com as guerras em meio à crise energética do segundo filme, ou quinze anos depois para ajudar a comunidade jovem do terceiro filme enquanto tenta, em meio a tudo, o respeito de Bartertown. Ou seja, Max é o Chuck Norris de Miller, e ele se dará bem seja fazendo uma torta, seja em uma briga de foice no escuro.

A quarta continuação da série esteve em um inferno de decisões por anos. Sinal verde era dado, projeto era engavetado. O projeto voltava em pauta, engavetavam de novo. E isso desde 1998. O atentado de 11 de Setembro, problemas com o orçamento, as polêmicas envolvendo Mel Gibson, a Guerra do Iraque, tudo isso foi razão para esse vai e vem da produção que, por fim, foi abandonada.

Em 2010 as coisas finalmente engatilharam, e a produção teve início em 2011. Mel Gibson foi trocado por Tom Hardy e Charlize Theron foi incluída no elenco para trazer força e renovar o interesse, mas tudo sempre mantido em segredo. As filmagens terminaram em 2012, mas algumas cenas precisaram ser refeitas em 2013, e só agora o filme foi lançado.

Embarcando na atual onda das franquias que pararam no tempo, esse novo filme é um reboot ao mesmo tempo que também é uma continuação direta ao primeiro filme, logo após Max perder sua família. Mas não é especificado a ordem cronológica dos fatos além disso justamente para dar liberdade para que esse universo pudesse ser ampliado sem limitações para futuras continuações, o que já foi confirmado pelo próprio Miller que afirmou ter outras duas histórias prontas e que manterão Hardy como protagonista.

Não é necessário ter assistido nenhum dos filmes anteriores para compreender ou se interessar por esse, muito embora (re)assistir o primeiro é interessante para compreender melhor de onde vem a personalidade bruta e solitária do protagonista, além das referências visuais pós apocalipticas que são bastante utilizadas aqui. Mas é sempre bom e interessante saber e ver de onde tudo veio, principalmente aqueles que acharem que é simplesmente mais um filme de ação violento qualquer.

O filme já começa de forma um tanto nostálgica nos créditos iniciais com as fontes em vermelho que destacam os nomes dos protagonistas, parecido como era antigamente. Logo em seguida notamos a reestilização da série com a fotografia saturada para detalhar a beleza das paisagens inóspitas e os contrastes entre tons mais frios e quentes, aumentando bastante a sensação quente, seca e desértica, ao ponto de dar muita sede em quem assiste. Se trata de um filme atual, com linguagem visual moderna, dinâmica e expressiva, mas a intenção de ser quase um "western sobre rodas", como o próprio Miller descreve, é bastante óbvia por conta da rustidez dos personagens, da poeira que chega a fazer o olhos lacremejarem, da hostilidade do ambiente que Max está, e da luta pela sobrevivência ser uma filosofia de vida.

O ambiente árido de sempre, de um futuro esgotado de água e reservas energéticas, a clássica jaqueta, o Pursuit Special (seu carro original), os vilões mascarados, armaduras e equipamentos biomecânicos que se misturam entre tecnologias arcaicas e modernas, veículos estilizados, com improvisadas adaptações em cima de equipamentos saqueados pelas gangues, explosões, sangue e areia... tudo isso é o Universo visual único de Mad Max que funciona e impressiona do começo ao fim. É incômodo, e foi feito para ser, tal qual os anteriores. É um tipo de ação hiper realista que o cinema esqueceu como se faz, e da mesma forma esqueceram as pessoas de como ele é.

Tudo já começa tão intenso que 60 minutos se passam e a impressão que se tem é que o filme ainda está em sua sequência inicial. Boa parte dela quem comanda é Furiosa, enquanto Max está acorrentado em um carro como um parachoque humano.

Mas vale dizer que, embora o título leve seu nome, Max na verdade é um coadjuvante, e a personagem de Charlize é tanto quem participa mais ativamente na história como também quem rouba as cenas, funcionando como mais uma inclusão feminina importante na série tanto quanto Tina Turner foi no terceiro episódio. Furiosa se engrandece tanto no filme que só sabemos que Max existe porque o título do filme tem seu nome, e isso não é ruim porque faz parte da expansão desse mundo pós apocaliptico, além de incluir no cinema mais uma heroína no hall das mulheres fodas que qualquer homem pode ter medo, justamente numa época em que elas questionam com muita razão suas participações em filmes de gênero (considerados) "masculinos", como são os de ação violentos como essa série.

Isso não vira mérito apenas de Furiosa, mas das outras personagens também, como o grupo que a protagonista defende, de belas mulheres que parecem tiradas da grécia antiga. Isso pareceria cliché sexista, já que existiriam para agradar o público masculino, mas a situação fica bastante engraçada quando eles (incluindo os espectadores) são facilmente manipulados pela imagem frágil que elas passam. Também é interessante quando aparece uma jovem indefesa gritando por socorro e aparecem seus capangas no momento em Furiosa se aproxima dela, cena memorável.

Esse jogo em cima de clichés sexistas é muito forte, feito de forma sutil e inteligente, que não queima sutiã algum, única e simplesmente mostra que fragilidade não existe quando não se quer ter.

Miller não poupa na violência e nem no "politicamente incorreto" pra deixar o filme mais "leve", pelo contrário... ele mantém forte o renascimento do ozploitation que ocorreu na Austrália nos anos 70, em que filmes sangrentos foram produzidos em massa após a adesão das classificações etárias no país. O diretor coloca grávidas e idosas apanhando em cena e até uma sequência com um feto que vai fazer muita mãe chocada desistir e achar o filme de mau gosto. Pois é... Assim como o universo de Frozen é lindo, fofo e mágico, o de Max é um verdadeiro inferno, e ele fala algo equivalente a isso logo no começo. Por isso sua classificação etária é 16 anos.

As cenas de ação se desenvolvem muito bem. São exageradas, bem feitas, dentro dos níveis aceitáveis do absurdo, só que o desenvolvimento da história deixa a desejar. Por vezes chega a ser superfical demais, e muitas das coisas que não são explicadas se transformam em uma certa "mitologia" dentro do mundo de Max que não dá pra entender bem porque está lá. Isso atrapalha? Não. Até porque se tivessem explicado detalhadamente qualquer pormenor, ele deixaria de ser esse filme de estrada sem estrada que só faz você respirar por um momento. Tempo necessário pra levantar e ir ao banheiro, se você não quiser pausar.

Mais do que um filme de ação, o novo filme da franquia inflama alguns orgulhos machistas masculinos que ironicamente dão aquilo que os americanos chamam de U Turn na situação, e agora o protagonista tem de entregar o rifle para a mulher da história porque, das três balas, conseguiu errar dois tiros.

Muito bem mandado Miller.

CONCLUSÃO...
Para os homems amantes de violenta ação, Max está de volta. Para as mulheres que acompanham os homens amantes de violenta ação, Max está muito bem acompanhado, e ela rouba o filme dele.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

ONDE AS ROSAS SELVAGENS DE NICK CAVE NASCEM...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Os Infratores (Lawless)
Ano: 2012
Gênero: Drama, Ação, Suspense, Policial
Classificação: 16 anos
Direção: John Hillcoat
Elenco: Tom Hardy, Shia LaBeouf, Jason Clarke, Guy Pearce, Jessica Chastain, Mia Wasikowska, Dane DeHaan, Gary Oldman
País: Estados Unidos
Duração: 116 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Na terceira década do século 20, durante a "Lei Seca" nos Estados Unidos, uma cidade no sul da Virgínia se transformou em um dos maiores centros de produção e comercialização ilegal de bebida alcólica, onde a lei deixou de existir para dar lugar à máfia do álcool. Nessa cidade vive a família Bondurant, conhecida por sua austeridade, pela qualidade de seu whisk branco, e outras lendas urbanas que os rodeiam. Tudo era um caos controlado, até a chegada de um Agente Especial enviado pelo Promotor do Estado, que irá a todo custo ignorar a falta das leis para impor as suas próprias e derrubar a qualquer custo a família mais dura da cidade, os Bondurant.

O QUE TENHO A DIZER...
Dirigido por John Hillcoat, o mesmo dos ótimos A Estrada (The Road, 2009) e A Proposta (The Proposition, 2005). Ele ficou conhecido dirigindo vídeos de música para importantes artistas do rock como Nick Cave, Siouxie & The Banshees, Deepeche Mode, Manic Street Preachers, Placebo, Muse, dentre outros, antes do reconhecimento ganho com filmes bem recepcionados pela crítica. Amigo pessoal de Nick Cave, a amizade rendeu bons trabalhos ao longo de sua carreira como diretor de longas metragens, sendo este filme o terceiro na parceria do diretor com o multitalentoso artista australiano que assina o roteiro.
Cantor, músico, compositor, escritor, roteirista e eventualmente ator, Nick Cave é mais conhecido por trabalhos às vezes obscuros, densos ou cruéis, mas sempre mantendo uma linha poética e refinada que aliviam essas características em seus trabalhos.
Por isso este é um daqueles poucos filmes que conseguem realmente surpreender e impressionar não apenas por ter qualidades ímpares e que funcionam com coerência, mas também por ser, de certa forma, baseado em um material histórico que pouca gente tem conhecimento a respeito: a máfia do álcool que tomou conta dos Estados Unidos durante praticamente uma década (1919-1933) com a Lei Seca instaurada em todos os estados do país.
A Lei Seca foi uma ação apoiada fortemente por Protestantes e mulheres, instaurada ainda durante a Primeira Guerra. Dentre as razões dos movimento sociais a favor da proibição da venda de bebidas alcólicas (não podiam ser vendidas bebidas com mais de 2,5% de álcool) estavam: destruir a corrupção existente nos Saloons; acabar com a política dominante de indústria cervejeira alemã; a diminuição da violência doméstica; e aumentar a estocagem de grãos e cereais para o consumo na guerra. Não adiantou muito, já que o consumo do álcool aumentou significantemente em alguns locais específicos, assim como a criminalidade relacionada à sua produção e distribuição, principalmente nos estados da Califórnia e Virgínia.
Por ter se tornado um produto ilegal, obviamente houve o surgimento e crescimento da máfia e guerra entre gangues produtoras e distribuidoras para o domínio do comércio ilegal. Por mais de dez anos os Estados Unidos viveu sob a sombra da emenda proibitiva, e com o passar dos anos, principalmente durante a Grande Depressão, a Lei Seca se tornou impopular, criticada e um exemplo da hipocrisia e da destruição do país e de suas liberdades.

A anti-proibição foi liderada por uma das mulheres que, a princípio, apoiavam a Proibição. Pauline Sabin passou a discursar contra e apoiar uma grande reforma, afirmando que a derrubada da Lei não apenas poderia favorecer o governo com a cobrança de taxas e impostos às produtoras, que seriam muito importantes para o país, como também diminuiria consideravelmente a violência e a "terra de ninguém" que alguns lugares haviam se transformado. O discurso coerente de Pauline foi apoiado principalmente por Franklin Roosevelt, que ao se tornar presidente dos EUA em 1933, assinou a derrocada da proibição no país, deixando a cargo dos estados decidirem suas leis sobre isso.
No meio desse "breve" e pouco conhecido quiprocó (ao menos por aqui) na história norte-americana estava a família dos irmãos John, Howard e Forrest Bondurant, destiladores clandestinos que moravam no Condado de Franklin, no sul da Virgínia, conhecida como "a capital mundial do whisk branco", ou moonshine, como a bebida é popularmente conhecida por lá. Esse termo deriva de sua forma de produção ilegal, já que as destilarias clandestinas funcionavam durante a noite e madrugada (sob a "moon shine", ou seja, o "brilho da lua"). Esses destiladores utilizavam um processo usando radiadores de carro para a condensação do produto. O chumbo, bem como a ferrugem, presente nos ligamentos tubulares, e também o metanol, por conta da fermentação dos grãos ou cereais utilizados na produção, comumente estavam presentes. Embora não em quantidades letais, com excessão de destiladores inescrupulosos que aumentavam a quantidade de metanol barato para enganosamente fortificar o produto, as substâncias tóxicas ainda eram presentes devido a precariedade de algumas produções.
Havia um teste popular feito para descobrir a pureza e a procedência, ao encher uma colher e atear fogo. O destilado confiável deveria queimar uma chama azul, enquanto o adulterado queimaria amarelo. Se houvesse a presença de óleos tóxicos dos radiadores, a chama queimaria em um tom avermelhado, sendo então descartado por sua alta toxidade. Era um método popular seguro, mas que não evitava descobrir a presença do metanol, já que sua chama é invisível.
E assim a família Bondurant sobrevivia e, de certa forma, comandava o condado, alimentando a sede da população com destilados de qualidade ao mesmo tempo que a austeridade, dureza e frieza dos irmãos Forrest e Howard se transformaram em lenda, dando a eles a fama de "invencíveis" não apenas no condado, como nos arredores, o que evitava a aproximação de homens da lei e intimidava inimigos que evitavam inimizades ou confrontos a qualquer custo.
Tudo muda quando, no auge da Lei Seca, o promotor do estado envia para o Condado o agente especial Charlie Rakes (Guy Pearce), com a finalidade de por fim ao tráfico de bebida e destruir todas as destilarias clandestinas existentes, bem como qualquer gangue que dominasse o local. Rakes invade o território dos Bondurant e não apenas os ameaça diretamente como espanca o irmão mais novo, Jack (Shia LaBeouf), como um aviso a Forrest e Howard de que desistam da tentativa de obstruir a lei. O episódio não apenas revolta os irmãos como também é o ponto de partida para uma guerra que dividirá o condado entre aqueles que acreditam em um país livre e aqueles que acreditam nas incoerentes punições da lei.
Sem dúvida o roteiro de Nick Cave e a direção de  John Hillcoat se sobressaem não apenas por estabelecer sucintamente todos os fatos históricos descritos acima, como também pincela as biografias do trio de irmãos baseadas no livro The Wettest County In The World (2008), de Matt Bondurant, decendente direto da família, já que ele é neto de Jack Bondurant, o mais novo dos irmãos. Violento do início ao fim, foi geralmente bem recebido pela crítica especializada e em grande maioria pela leiga, mas muita gente tem saído do cinema um tanto chocada com a crueldade de algumas cenas, que de fato são extremamente impactantes pelo diretor não esconder a brutalidade e o medo coletivo pelo qual aquela população passou. É também de um suspense angustiante, mesmo quando alivia. O psicológico de quem assiste está tão afetado que continua em estado de alerta, apreensivo por alguma coisa que possa acontecer, mesmo que não aconteça.
O elenco sem dúvida alguma é estelar. Shia LeBeouf finalmente perdeu aquela cara de garoto atrapalhado e consegue convencer como o caçula que se sente inferior por não ter o sangue frio e a determinação dos outros irmãos, numa evolução de garoto frágil e apaixonado que deve passar pelos tortuosos caminhos que seus irmãos já passaram para finalmente encontrar em si aquilo que ele acreditava não existir. Jessica Chastain, que ficou reconhecida e roubou a cena com uma interpretação pra lá de cativante em Vidas Cruzadas (The Help, 2011), impressiona mais uma vez como uma ex-dançarina de cabaré que foge para o interior da Virgínia para tentar escapar da brutalidade machista de Chicago. Tom Hardy, que agora está conseguindo alguma ascenção e reconhecimento em Hollywood graças a sua participação como o vilão Bane em O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, 2012), pode ser muito expressivo em toda sua truculência, mas tal qual o vilão Bane, parece que ele está deixando de lado a sutileza que ele tinha antes da fama e entrando numa atuação caricata e viciada, num misto exagerado de Dirty Harry e Duke Mantee, rosnando com uma frequência irritante e desencessária para construir um personagem que naturalmente dispensa exageros. Uma pena, já que esses exageros são os únicos pontos que, quando acontecem, estragam o filme como um arranhado na vitrola durante um tango. Mas quem rouba a cena é Guy Pearce, como o agente de sexualidade duvidosa, em um vilanismo e crueldade fria, cheia de um sórdido requinte tal qual o nazista interpretado por Christopher Waltz em Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009).

Outro grande defeito do filme é não ter aproveitado mais o ator Gary Oldman. Sua participação é bastante pequena e seu personagem era interessante e podia ter tido um maior desenvolvimento na história do que algo tão breve, frente à grande apresentação que o personagem teve e que, posteriormente, parece ter sido esquecido.
Não dá pra ignorar o fato de que é um dos filmes mais expressivos do ano, uma história forte e duplamente real, tanto pelos fatos históricos quanto pelas biografias envolvidas. Segundo o próprio roteirista, Nick Cave, muitas das cenas mais violentas do livro tiveram que ficar de fora, mas que ele tentou ao máximo manter a atmosfera um tanto lírica do livro e que repentinamente é desconstruída numa violência brutal como um tapa na cara. E é exatamente dessa forma como o diretor faz o espectador se sentir. É também sobre uma máfia diferente, de gangues poderosas e de um mundo corrupto e sem leis, numa ironia estranha, mas verdadeira. Diferente de outros filmes e do certo niilismo presente nesse gênero, como os filmes de Scorcese e sua constante pregação determinista de que gângsters devem pagar pelos seus pecados ou serem punidos duramente por seus crimes, aqui a situação é inversa, e mostra que definitivamente muitas vezes os fins justificam os meios para a esperança ser mantida. 
Nick Cave também assina a trilha sonora juntamente com Warren Ellis, acrescentando sua identidade ao estilo bluegrass, deixando de lado a raiz norte-americana de realizá-lo e fazendo-o soar moderno e ousado, ao mesmo tempo que mantém as características básicas do estilo, em um poder sonoro com letras densas e poéticas, em total coerência com as cenas. Um trabalho tipicamente Nick Cave.

Também acredito que o fim poderia ter sido menos corrido, e perto de tanta perversidade mostrada, deveria ter sido algo mais elaborado e construído para a satisfazer a sede de vingança que o público alimenta por duas horas.
CONCLUSÃO...
Impressionante e tenso, ao mesmo tempo que pode surpreender em sequências inusitadamente delicadas e cômicas no meio de tanta violência brutal que sutilmente inspira uma esperança difícil, mas alcançável. Uma produção caprichada, cheia de atenção a pequenos detalhes historicos e biográficos. Uma pena que, embora uma história tipicamente norte-americana, o filme não foi feito da forma norte-americana esperada, e provavelmente será esquecido na temporada de premiações. Pra mim, os únicos defeitos que se destacam no filme é a atuação caricata e viciada de Tom Hardy, bem como não ter aproveitado melhor um elenco de apoio que podia ter sido melhor explorado. De qualquer forma, suas qualidades ofuscam os poucos defeitos, e o resultado é satisfatório e surpreendente. Uma história típica para um diretor como Scorcese, mas que Scorcese mesmo não teria dado uma identidade tão peculiar, mesmo com os defeitos que ele com certeza teria um cuidado fundamental.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

BATMAN E SEUS AMIGOS...

★★★★★★★★☆☆
Título: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises)
Ano: 2012
Gênero: Ação, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Christian Bale, Tom Hardy, Anne Hathaway, Gary Oldman, Marion Cotillard, Joseph Gordon-Levitt, Michael Caine, Morgan Freeman, Matthew Modine
País: Estados Unidos, Reino Unido
Duração: 164 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Depois da morte de Harvey Dent no segundo filme, Batman assumiu todas as culpas do político corrupto, e posteriormente vilão, para que a Gothan visse em um cidadão comum um herói de verdade. Alguns anos se passaram e os tempos de guerra também, até uma nova ameaça ultrapassar os limites da cidade e os tempos de paz acabarem novamente, colocando em xeque não apenas sua resistência física, mas também psicológica.

O QUE TENHO A DIZER...
De todas as trilogias lançadas ultimamente, nenhuma chegou no nível alcançado por Batman. O Senhor dos Anéis (The Lord Of The Rings, 2001/2002/2003) consegue ser um exemplo único de excelência, mas nenhuma adaptação de quadrinhos conseguiu os méritos que Nolan conseguiu com Batman.

Tim Burton tentou fazer de Batman uma trilogia nos anos 90. Apesar do estrondoso sucesso do primeiro filme (arrecadou mais de US$400 milhões no mundo na época), o estúdio reprovou o clima sombrio e fantasioso que estavam muito mais fortes no segundo filme e que assustou um pouco a audiência, não repetindo o mesmo sucesso do primeiro filme. Pesadas críticas caíram sobre ele na época e os chefões exigiriam que o terceiro filme fosse mais leve e colorido. Burton, fiel ao seu estilo, recusou e gerou conflitos, se afastando do projeto para nunca mais voltar. Ele alegou que sua visão artística sobre as coisas é diferente da maioria das pessoas e que sua adaptação nada mais foi do que a forma como ele via o personagem. Na intenção de não ferir a visão comum novamente, além das pressões por todos os lados serem exaustantes, Burton prometeu nunca mais adaptar qualquer história em quadrinhos que fosse (ele havia recebido inúmeras propostas depois de Batman). E assim o fez e vem cumprindo.

Nolan conseguiu colocar as adaptações de quadrinhos em outro nível, justamente em um nível que Tim Burton havia tentado lá atrás. E é bastante irônico Burton ter sido duramente criticado quando, na verdade, ele foi um dos grandes responsáveis por ter traduzido o personagem numa linguagem mais popular e oferecido mudanças significativas que o herói teve tanto em caracterização, como em personalidade, aderidas em todas as mídias nos anos posteriores. Quem não se lembra da febre que foi os brinquedos do "Batman preto", como era chamado. O Batman do uniforme cinza e azul havia morrido, dando lugar a figura moderna e atualizada de Burton. Christopher Nolan aderiu muito da interpretação de Burton. A figura retraída, deprimida e soturna do personagem e o uniforme são bastante similares ao proposto por Burton no passado. Com excessão da arquitetura monocromática e biomecânica, a Gothan City de Nolan não é diferente da de Burton, já que a atmosfera gótica, fria e distante é a mesma. O foco de Nolan foi manter a fantasia dos quadrinhos e a realidade numa proximidade tangível, abordando fatos e personagens de maneira mais humana e menos extraordinária, dando explicações realistas para aquilo que antes era apenas justificativas fantasiosas e exageradas. Dessa forma, hoje podemos compreender melhor e de maneira mais verossímil porque Espantalho é um dos vilões mais assustadores, ou Coringa é o mais insano, ou Bane ser o mais forte e resistente. Até mesmo as "orelhas" da Mulher-Gato tem um fundamento e uma razão de existir na visão de Nolan.

O terceiro filme fecha um ciclo de história e de expectativa para aqueles que queriam um verdadeiro grand finale. Ele é grandioso nos seus 160 minutos praticamente imperceptíveis, com locações e cenários caóticos, muitos efeitos especiais e, principalmente, muita trama e conspiração que se enlaça perfeitamente com os filmes anteriores. Portanto, ter conhecimento dos dois primeiros filmes não é imprecindível, mas quem tiver terá uma experiência muito mais interessante.

Como foi dito em algum dos filmes anteriores e que não me lembro qual: "isso nunca tem fim". Essa frase é reafirmada de maneira diferente, mas o entendimento é o mesmo. O que não tem fim é o caos, e a proporção do crime, da corrupção e da passividade da população são ampliados como em uma lupa ao ponto de, em determinados momentos, entendermos de maneira clara as razões dos vilões fazerem o que fazem, pois essa ampliação nos deixa evidente os defeitos e as virtudes de seus atos. As justificativas dadas por eles também nos colocam em um muro sobre as atitudes do herói, nos levando a questionar se Batman existe para manter a ordem ou para manter o caos. Ele é um herói ou mais um perturbado que acredita estar fazendo o bem? Se ele é herói, por que ele sempre ajuda a manter a sociedade dentro de um platô de ignorância, ou dentro de uma mentira, como a de que Harvey Dent era um herói? Essas questões são levantadas em momentos chaves pelo mordomo Alfred, pelo detetive Blake e até mesmo por Bane e Selina.

Todos nós sabemos que o grande atrativo de Batman não é o personagem em si, que é sempre o mesmo depressivo, mimado e calculista que deixou de surpreender. A maioria das pessoas gostam do herói por causa de seus vilões que fogem dos padrões da insanidade, mas que sempre tem suas ações justificadas e até mesmo com fundos filosóficos e existencialistas. Outro ponto muito importante na franquia de Nolan é que ele soube não apenas escolher os vilões como desenvolvê-los nos filmes, dando espaço para apenas um de cada vez, ao invés de dois ou três como em outras adaptações de super heróis.

Dessa vez o sorteado foi Bane. Esse vilão surgiu nos quadrinhos em 1993. Para um herói que tem mais de 70 anos de história, Bane é um vilão relativamente novo a estar na lista dos mais grandiosos, poderosos e difíceis. Sua aceitação foi tão grande que o vilão ganhou preferência entre os fãs de forma quase que imediata nos quadrinhos. Ele chegou a aparecer pela primeira vez no filme Batman & Robin (1997), mas embora sua caracterização fosse bastante fiel à dos quadrinhos, sua personalidade era ridiculamente diferente. Nos quadrinhos Bane é um dos vilões mais inteligentes e cultos do mundo Batman, além de um exímio estrategista dependente de Venom, uma droga anabolizante que dá a ele naõ apenas a força e o tamanho que tem, mas também as alterações sensoriais e de comportamento. Mas no filme de Joel Schumacher ele foi retratado como um bombado paspalho de mentalidade limitada, o que revoltou por completo os fãs. A caracterização de Bane no filme de Nolan é forte porque Tom Hardy consegue fazer muito com pouco, mas não chega a ser impressionante e assustadora como deveria. Fisicamente concordo que Tom Hardy não tenha sido uma boa escolha para um papel que exigia um ator com largura e estatura verdadeiramente impressionantes, coisa que ele não tem, e por isso tentam a todo momento disfarçar a baixa estatura do ator com truques de câmera e angulações, mas isso pouco ajuda. Nem mesmo sua voz, que tenta ser uma releitura da cavernosa voz de Darth Vader, consegue causar um grande impacto. Em um filme com tanto cuidado técnico, deixaram passar um detalhe tão importante como esse. Logo na primeira fala do personagem o som destoa de todos os demais de maneira nítida. Não houve uma edição de som boa o suficiente para que, ao invés de colar a voz do personagem no filme, a inserisse dentro dele. A impressão que se tem é que a voz do personagem é uma gravação à parte. E realmente é. A voz do ator foi gravada, alterada digitalmente e inserida na pós-produção. Pra mim, foi um grande erro, porque quebra muito a proximidade entre o que está na tela e quem assiste.

Mas obviamente que a personagem mais aguardada pela maioria foi, sem dúvida, Selina Kyle, dessa vez interpretada por Anne Hathaway. Selina Kyle é a Mulher-Gato, mas neste filme ela não é chamada pelo nome de guerra em momento algum. São feitas apenas referências à figura da personagem, como as orelhas que ela usa durante o baile de máscaras (e seus óculos que, quando não usados, também parecem orelhas), seu uniforme que se assemelha bastante ao utilizado por Julie Newmar no sériado dos anos 60, e a forma como ela luta, que é bastante similar à de Michelle Pfeiffer em Batman, O Retorno (Batman Returns, 1992). Mulher-Gato é uma das personagens mais misteriosas e provocantes não apenas da DC Comics, mas da história dos quadrinhos. Ela não é uma heroína e nem uma vilã, ela é uma personagem solitária, feminista e contra o sistema, que rouba apenas para deixar os ricos com menos e não para proveito próprio. Tanto no filme de Tim Burton como agora, no filme de Nolan, essas características essenciais da personagem são mantidas, mas a abordagem tanto de Michelle Peiffer quanto de Anne Hathaway são bastante diferentes dentro de cada contexto. Fiquei um pouco desapontado e também concordo com quem não gostou da mudança de personalidade e direcionamento que ela sofre no decorrer do filme. Remorso, compaixão e companheirismo estão longe de ser adjetivos da personagem, e são qualidades que ela se aproxima bastante no filme de Nolan. De qualquer forma, mesmo sua personagem começando muito forte e perdendo a força no decorrer do filme, Anne Hathaway surpreende diversas vezes e conseguiu superar as expectativas, não tentando copiar ou disputar com nenhuma das anteriores, mas criando uma Mulher-Gato própria. Certamente ela já se tornou uma referência tanto quanto é Michelle Pfeiffer ou Julie Newmar. Corre a boca pequena que, entre Batman e Bane, Mulher-Gato é a personagem com maior índice de popularidade no filme, o que tem deixado o estúdio uriçado para tocar um novo projeto apenas dela e apagar o fiasco de Hale Barry da memória de todos.

Nolan já havia se consagrado um grande diretor com O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), mas neste filme sua qualidade é impecável. Em nenhum momento ele tenta fazer dessa terceira parte algo melhor que os anteriores, da mesma forma que em nenhum momento também podemos dizer que é inferior. Com a última parte da trilogia ele definitivamente conseguiu criar uma história única dividida em três partes, o que não o livra de críticas, mas que dá o mérito que pouquíssimos diretores conseguem: manter o nível de uma série. É a noção exata do que ter em mente, saber como passar para o papel e conseguir traduzir em imagens. O domínio do processo criativo.

O filme começa com a frase: "eu acreditava em Harvey Dent". E por toda e ignorante Gothan City acreditar em Harvey Dent, Batman preferiu que assim fosse ao invés de desmentir o homem de duas caras. E a partir disso o filme se desenvolve, e também ajuda a mostrar a outra face de cada um, trazendo à tona importantes revelações que chegam até a surpreender algumas vezes. Há até algumas referências e brincadeiras que ninguém esperaria. O baile de máscaras e a abordagem de Bruce Wayne e Selina Kylie oferece um leve e interessante deja vu de uma cena similar em Batman, O Retorno, ou a participação de Cillian Murphy como o Juíz, após a explosão do presídio, que também é um episódio presente nos quadrinhos.

Particularmente eu esperava uma resolução mais trágica ou uma grande batalha de fato, tanto quanto foi nos quadrinhos, mas isso só teria acontecido se não fosse o fim de uma trilogia. De qualquer forma, não posso dizer muito mais sobre o filme porque ele consegue surpreender bastante, e apesar de algumas coisas que considerei desagradáveis, saí do cinema bastante satisfeito e nenhum pouco enganado. Embora a trilogia seja baseada fortemente na série de Frank Miller, O Cavaleiros das Trevas Ressurge (1986), este último filme também tem grandes referências de um período nos quadrinhos entitulado A Queda do Morcego (Kinightfall). Logo, quem conhece ao menos o básico desses dois períodos não só vai prever muito do que acontece no filme como também vai encontrar várias outras similaridades e referências que eu poderia contar, mas seria estragar as surpresas que não apenas Nolan, mas como todos os atores conseguiram guardar tão bem.

CONCLUSÃO...
Um dos raros momentos em que é possível sair do cinema satisfeito com o fim de uma trilogia. Há uma linearidade e coerência entre os três filmes que só é compreendida depois de terminar de assistir esta terceira e última parte. Não chega a ser perfeito, mas os defeitos ficam facilmente debaixo da sombra das qualidades que aparecem porque, depois dos dois primeiros filmes, não estamos mais interessados muito no que há para mostrar, mas no que há para ser contado e como tudo vai terminar. Há o fato de podermos ter a oportunidade de interpretar outras facetas do herói frente a seus constantes erros.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

EU PREFIRO MEUS SONHOS...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: A Origem (Inception)
Ano: 2010
Gênero: Ação, Ficção
Classificação: 14 anos
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Lewitt, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Cillian Murphy, Tom Berenger, Marion Cotillard, Pete Postlethwaite, Michael Caine
País: Estados Unidos, Reino Unido
Duração: 148 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Em um futuro não muito distante, a tecnologia passa a ser usada para invadir a mente das pessoas e controlá-las, habilidade de poucos espiões corporativos para investigar e roubar idéias do subconsciente das pessoas durante o sono profundo, quando a mente está mais vulnerável a ataques. Essa habilidade fez um desses espiões sofrer conseqüências graves com isso e até perder tudo aquilo que ele mais amou. Após uma condenação, ele tem a oportunidade de se redimir realizando um último trabalho, mas ao contrário de roubar uma idéia, ele terá de fazer o contrário, implantar uma.

O QUE TENHO A DIZER...
Todo ano eu pego um filme pra Cristo, principalmente quando são esses blockbusters ovacionados pela crítica e que arrecadam milhões e milhões em bilheteria, porque eles são responsáveis por fazer o que esse filme diz muito bem: implantar uma idéia. São esses filmes que plantam aquela sementinha da tendência das próximas temporadas. O que de novo terá nesses filmes? A narrativa, histórias, efeitos inovadores, mais ou menos explosões... o quê? Alguns chegam a não ser originais, inovam uma idéia.

A Origem pode ser o filme mais bem sucedido de 2010, mas não para mim. Não questiono a qualidade do filme como um gênero de ação, mas como um filme de ficção que, depois de Matrix, este aqui parece muito mais ilógico exatamente pelo fato de tentar ser realista e extremamente coeso e coerente, o que nunca cabe em uma fantasia, principalmente quando ela trata diretamente da imaginação. O que quero dizer com isso é que o diretor e roteirista Christopher Nolan tenta tratar do assunto como uma realidade possível, dando tantas explicações sobre os fatos mas com fundamentos que ele tirou mais da sua cabeça do que de qualquer outro lugar. Ele mesmo declarou que a idéia de A Origem surgiu de filmes como O 13º Andar (The 13th Floor, 1999) e Cidade das Sombras (Dark City, 1998), além do já citado Matrix. Ele é tão inspirado por eles que algumas referências são muito claras, principalmente do já clássico dos irmãos Wachowski, como: os botões vermelho e azul (assim como as pílulas vermelha e azul), o arquiteto sendo a figura mestre, o grupo em que cada um tem uma habilidade específica, a idéia (significando o vírus), os soldados dos sonhos (como os anti-virus), o totem (como o telefone), entre outros...

Isso tudo, fora outros acontecimentos, deixa claro que é apenas mais uma cópia modificada, o que faz desse filme, para mim, uma grande farsa.

Quem presta atenção nos sonhos ou está familiarizado com o básico desse processo natural do (in)consciente do ser humano sabe que o filme está correto em alguns pontos, mas algumas outras características sólidas e fundamentais falham no processo de reprodução disso. Os sonhos possuem, sim, diferentes níveis de consciência, como o filme orienta. Quando estamos em um sonho lúcido, somos capazes de controlá-lo e direcionar eventos e acontecimentos, e isso vai depender da habilidade e do controle de cada um. É por isso que somos capazes de ter um sonho lúcido e, mesmo se acordarmos, conseguir voltar para ele até mesmo de onde paramos se quisermos.

No sonho inconsciente você é incapaz de controlar, assim como você é incapaz de lembar detalhes, apenas fragmentos. É por isso que geralmente acordamos quando morremos ou caímos, porque nos sonhos inconscientes somos incapazes de nos "defender", e nosso cérebro entende a situação como emergencial e de fuga, havendo liberação de adrenalina e todas aquelas substâncias malucas que a gente produz em situações de perigo.

O mundo do sonho inconsciente, onde a maior parte do filme se passa e tenta reproduzir já que os personagens estão em um estado de pré-coma (estado em que não temos consciência), é muito mais confuso e caótico do que parece. Poderia ter sido muito mais explorado se não tivesse sido dada tanta atenção às sequências de ação. A única parte do filme que realmente se parece com um sonho caótico é quando o trem atravessa uma avenida. Naquele momento eu pensei que as coisas passariam a ser visualmente interessantes, mas não foi.

Dando mais atenção a ação do que para a ciência, os personagens possuem uma mala mágica que conecta várias pessoas no sonho de alguém sem fundamento algum. Em Matrix existe aquela máquina gigante que é conectada no cérebro para transferí-los a um mundo imaginário previamente construído por uma máquina, fazendo com que duas ou mais pessoas dividam o mesmo ambiente virtual. Isso faz Matrix ser muito mais aceitável na explicação do que A Origem, pois cientistas acreditam que dividir um mesmo sonho seja possível já que o cérebro é movido por impulsos elétricos. Logo, se tivermos uma placa mestre capaz de unificar e decodificar esses impulsos, isso seria possível. Mas em A Origem o que realmente os conecta? Apenas um poderoso sedativo? Eles são super-heróis ou o quê? Não existe uma base científica, mesmo que posteriormente fosse transformada para o bem da ficção.

Enquanto Matrix trata de um mundo gerado eletronicamente, em A Origem eles tratam de sonhos que possuem cidades, pessoas, telefones celulares que funcionam, explosivos, batidas de carro, pessoas morrendo e sangrando e tudo mais... mas nunca há o poder da imaginação. Trabalhar com o tema da implantação de uma idéia, de como fazê-la ser uma semente que cresça na mente e se transforme em algo real, é muito interessante, e as barreiras para impedir isso poderiam ter sido qualquer coisa além de um monte de soldados armados atirando e explodindo o que tivesse pela frente. Poderia ter sido um dinossauro, um escudo invisível, um Pokemon, ou até mesmo a avó de calcinha. Estamos falando de SONHOS e da IMAGINAÇÃO, e não da Guerra do Golfo. Há uma seqüencia do filme em que eles precisam estar em determinado lugar em um tempo determinadíssimo e que os personagens acreditam que não terão tempo para isso. Oras, estamos falando de sonhos, e no sonho, se eu quiser estar em qualquer lugar AGORA, eu vou sem precisar lutar com todo mundo antes.

É inegável que seja uma idéia refeita, a mesma coisa que Avatar é para Pochahontas. Mas este filme não me acrescentou nada novo ou incrivelmente interessante que eu não tenha visto anteriormente. Filmes com temáticas semelhantes sobre o poder da imaginação como Dublê de Anjo (The Fall, 2006), Mácara de Espelho (Mirror:Mask, 2005), ou até mesmo A Cela (The Cell, 2002), que não tem uma história tão boa, mas possui seqüências surrealistas que conseguem dar uma idéia mais fiel sobre como são os sonhos inconscientes, conseguem ter muito mais sucesso nessa tentativa do que A Origem, o que é uma vergonha, já que são filmes de orçamento muito menores e nem por isso deixam de ser visualmente muito mais deslumbrantes. Tudo que este filme poderia ter sido, mas não é.

A mídia considerou o filme como um dos melhores de 2010 e um dos melhores do gênero de todos os tempos, e isso sinceramente insulta minha inteligência porque não há nada novo, e o que poderia ser novo é tão absurdo que vejo como é fácil enganar o público mais leigo. Mas a indústria necessita produzir dinheiro de algo tempos em tempos, e acharam em A Origem uma grante máquina de dinheiro.

CONCLUSÃO...
Tecnicamente é fantástico e um excelente filme de ação, mas como ficção científica é uma enganação. Muita coisa para nada, ou, talvez, muita coisa para, no fim, o filme explicar que é extremamente difícil plantar uma idéia tanto quanto eu convencer você de que o filme não é tão bom quanto parece.
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