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segunda-feira, 28 de maio de 2018

QUANDO MUITA COISA FALTA...

★★★★★☆☆☆☆☆
Título: Geek
Ano: 2017
Gênero: Documentário, Jornalístico
Classificação: Livre
Direção: Carla Albuquerque
Elenco: Vários
País: Brasil
Duração: 22 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
O que é ser geek? É isso o que a série vai tentar esclarecer ao longo de oito temas que fazem parte deste universo que parece complexo, mas que todo mundo tem um pouco dentro de si.

O QUE TENHO A DIZER...

Geek é o termo atual que define todo aquele tipo de pessoa que se interessa e aprofunda seu conhecimento por coisas específicas, incomuns, complexas, peculiares, pouco difundidas ou até bastante conhecidas, mas compreendidas além do superficial. Seja amador ou entusiasta, embora não sejam assuntos ou comportamentos de massa, mas de nichos, grande parte envolve a cultura pop em geral e que acaba atingindo a massa de uma maneira ou de outra. Jogos de tabuleiro ou eletrônicos, cinema e TV, livros e histórias em quadrinhos, moda, música, culturas, coleções ou época específicas... Não existe limite para aquele que se considera tal.

A série, produzida pela brasileira Medialand, mostra um pouco dessa cultura, mas não consegue desmistificar alguns preconceitos sobre esse universo dominado por assuntos tão específicos que não somente inundam o imaginário de quem se alimenta dele, como também atuam como combustíveis criativos para quem vive dele.

Não significa necessariamente que a produção tinha esse objetivo, mas deveria, já que para se compreender um assunto devemos ser mergulhados em sua origem e concepção. Embora a produtora, encabeçada por Carla Albuquerque e Beto Ribeiro, tenha um vasto currículo de produções, muitas delas são de qualidade bastante duvidosa. É o que acontece com a recém aderida pelo Netflix, Velhas Amigas. Mesmo duas produções de teor completamente diferentes, onde uma é uma mistura debochada de drama e comédia da pior espécie e a outra uma série mais jornalística do que documental, os defeitos e problemas se mostram os mesmos: a falta de um roteiro consistente, de uma produção mais polida e caprichada. Detalhes que definitivamente tirariam essa sensação de produto amador ou improvisado, feito de última hora apenas para entregar algo encomendado e garantir os incentivos e fundos conquistados.

Aqui a coisa se torna até mais séria quando, na falta de um conteúdo mais consistente, a edição reutiliza imagens numa repetitividade que não aconteceria em um produto bem pensado e desenvolvido, como acontece numa frequência até irritante no último episódio, em que no meio de uma entrevista que nunca sai do mesmo lugar, e no meio de uma vasta coleção de action figures que deixaria qualquer geek enlouquecido, o que vemos é mais de 20 minutos de imagens que se repetem na mesma proporção que o entrevistado: um investigador e sua evidente obsessão militar.

Óbvio, não é o entrevistado o culpado, mas a produção que não tinha um briefing consistente para o episódio, um roteiro definido e, muito menos, uma edição efetiva o suficiente pra dar suculência no material e peneirar aquilo que o espectador não precisa saber.

A intenção de se aprofundar no universo Geek nunca se mostra tão consistente como, em partes, a série Brinquedos Que Marcaram Época, também no serviço de streaming, consegue. Uma produção norteamericana igualmente simples, que trata de um tema recorrente desse universo, mas com uma relevância documental muito mais segura e que deveria ter sido levada como referência.

Aqui tudo é tratado com muita superficialidade, baseado apenas em relatos que são interessantes, mas não é criada qualquer introdução ou contexto em volta. Há muita pouca pesquisa, menos ainda sobre a história que envolve o tema abordado em cada episódio, como a origem do assunto, o impacto dele localmente e no mundo, a maneira como a massa é influenciada por aquilo, ou como aquilo chega até a massa, etc.

Tudo começa com o primeiro episódio, em que dão destaque à história profissional de Ivan Reis, mas não mostram nada além do que está exposto ao seu redor. Ivan, que é um dos mais renomados e importantes desenhistas da DC Comics, não deveria ser o único a ser entrevistado, já que temos diversos outros brasileiros respeitadíssimos nessa indústria, como Joe Bennett ou Mike Deodato, só pra citar alguns. Não que apenas a historia de Ivan não seja interessante, mas se aprofundar mais no interesse de saber como o cenário brasileiro começou a fazer parte de um mercado internacional tão complexo e competitivo teria sido motivador e um grande diferencial.

Os demais episódios se perdem da mesma forma. Se esquecem do propósito esclarecedor pra se tornar uma matéria jornalística simplista e comum.

A produção não se atenta em nenhum momento em criar uma narrativa que aproxime o espectador do assunto, e que o faça compreender que além da excentricidade, existe uma grande importância sociocultural que envolve o comportamento. Seja na cultura gamer ou gráfica, cinematográfica ou literária, existe um grupismo ou uma individualidade saudável e produtiva. O que se assiste é algo que parece específico para quem já conhece o assunto, e não um conteúdo, de fato, informativo e agregador.

Não adianta querer se autodenominar uma série documental quando não é sequer esclarecido ao espectador o que seja, por exemplo, a Comic Con, como acontece no terceiro episódio. Ao invés disso, soltaram um personagem de uma das próprias produções B da Medialand para sair entrevistando pessoas aleatórias como uma esquete improvisada. Pode ser cômico, mas não tem coerência, além de zero consistência sobre um evento mundialmente conhecido e que foi se popularizar no país apenas nessa década. Um episódio que poderia ter, sim, tido seu lado cômico, mas uma narrativa documental nele teria sido essencial. Para piorar, o nome da feira sequer é citado no episódio, talvez porque sequer foram atrás de autorização para filmagem, pois é isso que faz parecer.

Essa atitude um tanto aleatória e alienada da série apenas reforça a imagem esquisita e desconexa da realidade que o tema aderiu com o tempo e que tanto se fortalece entre aqueles não familiarizados com ele, ao invés de mostrar que a feira, por exemplo, seja a consequência de indústrias da cultura e do entretenimento que movimentam milhões porque finalmente resolveram dar relevância a um grupo que sobreviveu pelas sombras da exclusão por muito tempo.

O mesmo acontece sobre o episódio que trata dos jogos de tabuleiro e de RPGs de mesa. O que são jogos de tabuleiro? O que são RPGs? Onde essas pessoas se encontram para isso? De onde veio essa cultura ou desde quando ela existe com consistência? Que mercado é esse? Nada disso é respondido. Novamente, o que se vê são pessoas aleatórias relatando experiências que, para quem não é familiarizado, irá interpretar a situação como um bando de gente esquisita, desocupada e hedonista.

Alguma coisa um pouco diferente acontece no episódio em que os fundadores do canal Overloadr e do arcade house VR Games são entrevistados. Eles conseguem dar aquela consistência necessária ao conteúdo por mérito próprio, e não porque a direção ou o roteiro da produção foi efetivo. Eles próprios tomam a iniciativa de não apenas darem seus relatos pessoais, mas contar um pouco da história de como tudo começou, de como as idéias para o arcade house ou para o canal surgiram, a qual nicho eles pertencem e quem é o público atingido. Esclarecedor de uma forma que 80% da produção deveria ser, mas não é.

O resultado de tudo não chega a ser desinteressante ou constrangedor como a maioria das demais produções da Medialand constumam ser, mas está longe de ter uma consistência necessária para corresponder com a proposta informativa que o desconhecido termo exigiria. Seria adequado como um quadro especial do Fantástico, mas não como um conteúdo exclusivo do Netflix, o que demostra que a empresa tenha endossado o projeto mais para inflar a quantidade de produções locais em seu catálogo do que por querer investir em conteúdo de qualidade de fato.

Novamente é uma pena uma produtora independente ter o interesse em produzir conteúdo diferenciado, conseguir captar recursos através de incentivos e fundos governamentais, mas não atingir um nível de qualidade que poderia. Ao invés disso, cai na mesmice e simplicidade dignas de estudantes de cinema realizando um projeto para a média do bimestre.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

SÓ O CAFÉ JÁ ESTARIA BOM...

★★★★★★★☆
Título: Café Com Seinfield (Comedias In Cars Getting Coffee)
Ano: 2012-
Gênero: Talk Show
Classificação: Livre
Direção: Vários
Elenco: Jerry Seinfield
País: Estados Unidos
Duração: 18 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Jerry Seinfield leva seus convidados para passeios de carro e café.

O QUE TENHO A DIZER...
Nunca fui fã de Jerry Seinfield. Sequer fiz questão de acompanhar seu famoso seriado, criado em parceria com Larry David, que levou ele e sua trupe ao estrelato imediato, constituído por Julia Louis-Dreyfuss, Michael Richards e Jason Alexander. Talvez porque na época eu não tivesse maturidade suficiente para entender aquele humor, talvez porque os episódios que eu tenha assistido tenham sido exatamente aqueles que não faziam sentido para outros além deles mesmos, ou talvez porque nunca gostei de fato.

O que sei é que, realmente, o humor de Seinfield nunca foi de piadas prontas, mas de uma vida cotidiana comum onde tudo pode ser o gancho para uma. Foi assim que ele revolucionou o cenário na época, e que junto com Mad About You e Friends, se tornaram referências das sitcoms modernas.

E é exatamente este estilo que ele repete aqui, mas em situações reais e improvisadas, sem roteiro. Um pocket talk-show que ele faz questão de, como ele mesmo diz, não ter todos os elementos chatos de um talk-show tradicional, algo que realmente veio a calhar numa época que este formato de programa parece ser o mesmo, só mudando o apresentador. Depois que, como o título já diz, ele só entrevistará comediantes, em sua maioria (ao menos até o momento), aqueles da mesma geração que a dele, dentro de um carro, num formato parecido com o britânico Carpool, do comediante Robert Llewellyn. A grande diferença aqui é que Seinfield particularmente escolhe o carro que mais se adequa à personalidade de seu entrevistado, além dos episódios serem extremamente condensados a não mais do que 18 minutos.

É um projeto que ele desenvolve desde 2012, a princípio disponível no Crackle (serviço de streaming gratuito que hoje pertence à Sony), mas que acabou migrando para o Netflix agora, em 2018.

A premissa é a mais pura informalidade, levando os entrevistados para restaurantes, bares ou lanchonetes inusitados. Não importa o lugar, desde que tenha café e comida. Através de perguntas aleatórias sobre a vida ou o trabalho, aquilo que pareceria monótono se torna naturalmente engraçado, cativante e viciante, por menos que você goste do comediante ou do entrevistado.

Seinfield em nenhum momento esconde seu egocentrismo, já que boa parte de seus relatos particulares são para enaltecer sua figura ou indiretamente esperar que o entrevistado o faça, mesmo que ele, por si só, seja uma figura desinteressante. O narcisismo também é forte, porque os entrevistados estão lá a todo momento para dar a ferramenta que ele precisa para ser a estrela de seu próprio entretenimento, e não o inverso. É como se o programa fosse um projeto de férias para contemplarmos a imagem de comediante bem sucedido que ele quer passar, e de quem ficou financeiramente abastado por ter tido uma idéia que todo mundo comprou durante os 10 anos que seu show ficou no ar. Um comportamento similar ao de Chelsea Handler, mas a comparação acaba por aí, porque o egocentrismo e o igual narcisismo de Chelsea consegue entreter por si só, e render boas piadas.

Não importa quem seja, de David Latterman à novata Colleen Ballinger, por maiores que sejam os momentos de intimidade e interação, sempre existe aquele desconforto de que o entrevistado pode ser importante, mas Seinfield é mais. Escolher o carro raro, buscar o entrevistado, levar o entrevistado, pagar a conta com uma gorjeta sempre acima do necessário. Atitudes que algumas vezes até os próprios convidados percebem que o dono do espetáculo não quer ser ofuscado, e que sempre haverá uma saída de emergência toda vez que ele for encurralado por uma piada alheia porque a piada pode ser boa, mas a deixa de Seinfield será sempre melhor.

É interessante que, no meio de todo o estrelismo que emana de sua aura, seu humor é simples, atento sempre a mínimos detalhes e ações que vem em chistes incontroláveis que ele absorve e traduz para uma linguagem compreensível. Um olhar que se faz ao ver a conta do restaurante; um tapa na mesa que o convidado defere para ser enfático; a expressão de alguém ao ouvir uma palavra incomum; um gesto particular de um desconhecido... coisas que geralmente deixamos passar despercebido nos micro-comportamentos de cada um, mas que para ele é a característica particular daquilo observado e que o faz ser único. É quando o espectador se familiariza com a forma que ele vê o mundo que, então, seu humor toma forma, pois conseguimos identificar suas fontes, e tudo passa a fazer muito mais sentido e graça. Até mesmo suas manias e fobias partem de coisas pequenas, e talvez seja por isso que seu humor seja o tal "humor irritado" que ele tanto questiona.

O talk-show é uma consequência óbvia do bloqueio criativo que Seinfield sofreu depois do término de seu programa em 1998, não tendo nada consistente ou que pudesse chamar particularmente de seu nos 14 anos seguintes. Esse seu programa não consegue passar de algo equivalente à síndrome de madame, que entediada no salão, resolve fazer compras. No caso, Seinfield, entediado na sala de casa ou em seu barco particular, resolveu sair por aí fazendo entrevistas. Imagino que ele quis juntar todas suas paixões em uma coisa só quando se viu há anos no mesmo lugar questionando o que fazer da própria vida. Não que todas essas paixões façam sentido quando juntas num pacote só. Carros podem ser complexos e de escolhas muito particulares, ao ponto de ser necessário conhecer muito bem alguém para que aquela escolha faça sentido. Mas não vejo a importância deles no programa ou a ênfase dada aos carros durante as entrevistas mais do que dos entrevistados, e nem sempre me convence que as escolhas do modelo, ou da cor, ou do tipo, tenham sido "coincidentemente certeiras". Assim como as "espontaneidades cênicas", do tipo: "abri sua porta e você não estava me esperando", os carros e lugares escolhidos são elementos que deixam claro que nem tudo é tão espontâneo ou improvisado assim. Excessos que poderiam ter ficado de fora. Se assim como no título nacional o programa fosse apenas um café com o apresentador, tudo seria mais leve e menos dispersivo.

Se tem uma coisa muito interessante é que Seinfield respeita e se importa com o cenário artístico do qual veio, compreendendo perfeitamente que a comédia e o humor nos Estados Unidos é parte imprescindível da cultura como libertação crítica, social e política, e que o humor também dá caráter. Ele não é carismático como muitos dos comediantes que ele convida, como Kristen Wigg, Tina Fey, Jimmy Fallon, ou até mesmo Jim Carrey, o primeiro convidado. Ele também não é engraçado. Seu talento é ser rápido e inteligente, mas acima de tudo, espontâneo, respeitando não apenas o humor de todos, mas a personalidade e as peculiaridades de cada um, deixando completamente de lado qualquer olhar crítico. Sua relação com a comédia é apaixonada, e apesar da abastança, é o humor que realmente o sustenta em pé.

Ao mesmo tempo que ele pode apresentar-se uma pessoa agradável, por outras ele é extremamente desagradável como um sociopata, ao ponto de às vezes até seus convidados chamarem sua atenção sobre isso, sendo nesses momentos que muita gente se lembrará que não gosta dele.

O pocket talk-show de Seinfield não tem nada de inovador ou original, podendo levar alguns episódios até o espectador se acostumar. É um programa com um formato para quem tem pressa, adequado para a vida virtual que todos levam. O que é irônico, já que Seinfield critica constantemente esse estilo de vida.

Mesmo com o esforço hercúleo do comediante querer estar sempre à frente, seus convidados desempenham o maior papel de transformar o programa em algo genuinamente agradável. É curto, rápido e simples. Se a Netflix manterá o mesmo formato, só saberemos quando a nova temporada estrear ainda este ano, mas seria de bom grado aumentar mais uns 20 minutos, porque sempre que a conversa começa a ficar boa e a intimidade entre ele e o convidado finalmente flui, a entrevista acaba.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

FILHA DA ANARQUIA...

★★★★★★★★★☆
Título: Rita
Ano: 2014-2017
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Mille Dinesen, Lise Baastrup, Ellen Hillingsø, Carsten Bjørnlund
País: Dinamarca
Duração: 50 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Uma professora dedicada não consegue ser tão dedicada assim na sua vida particular. O que ela ensina nem sempre é o que ela faz, e já passou da hora de ela aprender muitas coisas.

O QUE TENHO A DIZER...
"Sua mãe é uma das pessoas mais anarquistas que existe", é o que o ex-marido de Rita diz a seu filho em um dos episódios da primeira temporada. E sem dúvida esta é a maneira mais clara e objetiva de definir a protagonista dessa série dinamarquesa, criada, escrita e produzida por Christian Torpe, que poderia ter ficado conhecido por esses cantos se sua adaptação para a TV de O Nevoeiro (2017) tivesse sido boa, o que não foi em nenhum aspecto. O que é até espantoso, porque o material que ele criou e desenvolveu aqui é de uma sensibilidade e relevância que raramente encontramos. O sucesso da série chegou a render a mini-série Hjørdisspinoff sobre a personagem de mesmo nome que acabou ganhando imenso destaque, além das tentativas de duas adaptações estrangeiras, uma holandesa e uma francesa, tamanha a popularidade alcançada.

Para Rita (Mille Dinesen), regras e limites não são bem seus melhores amigos, principalmente se partirem da psicoterapeuta escolar. Suas transgressões tem propósitos, desde os mais justos e coerentes, até os mais inflamados e egoístas, numa rebeldia natural que dificulta a proximidade com adultos, mas que cria fortes laços de afeição com os mais jovens. E por isso que, mesmo a contragosto de muita gente, há aproximadamente 13 anos ela é considerada a melhor e mais respeitada professora da escola Islevgard, em Copenhagen. Mas ao mesmo tempo que por um lado ela deixa o caos por onde passa, por outro conquista o respeito e a admiração de muitos, os quais a enxergam como um grande agente transformador, um modelo de coragem e perseverança por justamente não ter receios de enfrentar desafios e obstáculos. Pessoas que pensam exatamente assim porque um dia já foram auxiliadas pela porção generosa e altruísta de sua personalidade, mesmo que sua ajuda não tenha sido solicitada, colocando-a em situações comprometedoras e incomodando mais gente do que deveria.

E Rita é assim mesmo, uma bonecona que fuma, bebe e não tem filtro (interessante que ela não fala palavrões), mas que possui uma descência humana e um senso de responsabilidade social que muitos outros não tem, se importanto muito mais com problemas alheios do que os seus próprios, não medindo esforços para se intrometer em um assunto quando percebe que a dignidade de alguém está sendo ferida de alguma forma. Ela não chega a ser tão autodestrutiva como a delegada Grace Hanadarko (Holly Hunter), do falecido Saving Grace (2007-2010), mas as similaridades são muitas. O que difere as duas é que Rita não é egoísta, mesmo tendo tido uma infância e uma adolescência rodeada por pessoas que não sabiam manter os valores de suas palavras. E da mesma forma como a vida foi sua melhor escola, é usando esse material que ela se impõe em suas aulas e fora delas.

A complexidade da personagem não é uma novidade. Enquanto Rita tem sua alma "anarquista", ela também impõe regras sem perceber, principalmente aos outros, no velho ditado do "faça o que digo, mas não faça o que faço", porque o maior medo dela, principalmente com seus filhos, é de se tornarem outras versões dela mesma. O próprio fato de sua maior regra de vida ser "não ter regra alguma" já faz dela uma contradição por excelência. Criar dimensões opostas de personalidade é a ferramenta mais eficiente para uma gama de infinitas situações e possibilidades, onde o personagem só terá seu momento de redenção ou resolução quando aquele que o escreve e o desenvolve decidir impor mais um lado que o outro. E a grande angústia da existência de Rita é o constante embate dela com ela mesma: sua ânsia de ser diferente, mas um excesso de cordas e amarras que interrompe o caminho a isso. Há um momento em que ela questiona Ricco, seu filho mais velho, sobre as influências que ele tem sofrido de sua mulher. Ele responde dizendo que ele quer ter essas influências porque ele quer ser diferente, e Rita simplesmente aceita, porque percebe que, no fundo, é o que ela também gostaria. Portanto, ou ela muda, ou suas dificuldades continuarão sendo as mesmas. É este o conflito central de tudo, e o conflito que ela vive há 44 anos.

É gratificante quando assistimos um filme ou uma série de televisão onde personagens sejam motivadores ao mesmo tempo que enxergamos neles nossos próprios defeitos e virtudes. Não apenas nos motivamos com as atitudes modificadoras de Rita, como também nos simpatizamos com seus erros, falhas, equívocos e acertos. Choramos, rimos, nos surpreendemos e nos revoltamos, porque a interpretação de Mille Dinesen é tão consistente e marcante como qualquer outro personagem que adoramos odiar, como Dexter, Dr. House, ou Saul Goodman. Também nos identificamos com outros personagens, como a vulnerabilidade, insegurança e fidelidade de Hjørdis (Lise Baastrup), a sensibilidade de Rasmus (Carsten Bjørnlund), ou as frustrações profissionais e pessoais de Helle (Ellen Hillingsø). O seriado oferece com esses personagens (assim como outros que surgem no decorrer dos episódios) uma experiência de não apenas conhecê-los, como também participar de um desenvolvimento progressivo e empoderador ao longo das quatro temporadas. Mérito do roteiro, de personagens extremamente bem escritos e de interpretações humanas.

Situar a história em um ambiente escolar soa muito metafórico, como boa parte do que Torpe desenvolveu faz. A noção que carregamos do período escolar ser uma das melhores fases de aprendizados e descobertas é bem explorada, mas de uma maneira tão abrangente e realista ao ponto de nunca terem a intenção de nos convencer disso. Pelo contrário, nos mostra exatamente que não é bem assim que todo mundo pensa, porque as impressões são completamente diferentes para quem sofre. E por isso as dificuldades retratadas não são feitas de maneira idealizada e dicotômica, como professores sempre batalhando contra a ignorância. Pelo contrário, todos tem defeitos. Nem todo o corpo docente é ilustre, assim como nem todo aluno é ignorante. Nem todo diretor é competente, e nem todo mundo tem boas intenções. Os entraves e obstáculos existem tanto para quem ensina, como para quem aprende.

Os esforços incondicionais de professores em querer ser uma referência importante já foi enredo em clássicos como Ao Mestre Com Carinho (1967), ou Sociedade dos Poetas Mortos (1989), este que nada mais é do que uma releitura do primeiro. E também de produtos genéricos e mais modernos, como Mentes Perigosas (1995) e O Sorriso de Monalisa (2003), igualmente releituras, adaptados para suas respectivas épocas. Todos com temáticas onde professores lutam contra a ignorância da juventude ou da sociedade para mostrar que a educação é o melhor futuro da dignidade. Com Rita isso não seria diferente, mas o cativante de sua história é o que a faz ser tão certa na sua vida profissional, mas tão errada na sua vida pessoal.

O roteiro é cheio de diálogos inteligentes e de certa forma reflexivos em situações que se articulam o tempo todo em cima de ironias. Seja a criança do comportamento adulto e do adulto de comportamento infantil, ou do tipo de adulto que uma criança gostaria de ser, a responsabilidade daquilo que passamos aos nossos descendentes é unicamente nossa, e nossas maiores falhas partem de dois principais princípios: do espelhamento de comportamento, de crianças que imitam comportamentos adultos a partir do momento que admiram um modelo, à transferência de responsabilidades, dos pais que fazem seus filhos serem aquilo que eles próprios não conseguiram ser. Duas situações discutidas com exaustão ao longo da série. Além disso, o drama também é construído em cima de sofrimentos sociais e familiares do cotidiano, não sendo à toa que assuntos como assédio moral (bullying), distância familiar, infidelidade e insegurança sejam bastante recorrentes. E embora possa soar repetitivo, se torna muito assertivo ao serem mostrados das mais variadas formas, justamente com o intuito esclarecedor e informativo. E a função de Rita nisso tudo é quebrar paradigmas, ou ao menos tentar. Como ela mesma diz, sua obrigação é salvar os filhos de seus próprios pais, já que são os adultos quem estragam as crianças. Mas como ela consegue nos convencer de que está certa quando ela mesma é o resultado de uma cascata de erros? Pelo simples fato de ter plena consciência de cada um dos erros que comete e não se envergonhar de expô-los em momento algum.

Rita é uma comédia dramática que não usa o humor para aliviar o drama, mas para complementá-lo, e mostrar os lados agridoces e amargos de sua vida sem qualquer rodeio. Os episódios são construídos em cima de temas, como uma aula a ser desenvolvida, e tudo acontecerá em torno daquele assunto do dia, seja de maneira literal ou metafórica. Pode parecer um pouco forçado, mas funciona no propósito de construir uma discussão produtiva, com prováveis morais a serem compreendidas pelo espectador. E embora a vida da protagonista seja uma coletânea de traumas e erros muitas vezes até involuntários, existe um otimismo confortante por trás disso tudo que parte justamente de sua total ausência de medo de tentar, além dos episódios nunca se extenderem nos dramas, sempre interrompendo no momento que a gente pensa que poderia ter um pouquinho mais, mas se assim fosse, perderia completamente sua essência, que é ser duro, seco e emocionalmente limitado como sua personagem.

É um dos melhores seriados na Netflix e que ninguém fala a respeito. Complicado quando percebemos que o público definitivamente está condicionado apenas àquilo que os algorítmos e hashtags propõem, e como também dificilmente não consumimos produções de outras nacionalidades não porque as outras línguas soam estranhas, mas porque não ser em inglês soa estranho. É claro que o fato de ser em uma língua totalmente diferente significa ter uma perda de conteúdo muito grande com diálogos informais que não fazem sentido se traduzidos literalmente, ou piadas que não teriam qualquer coerência nas legendas, mas de qualquer forma, absorver um conteúdo diferente daquilo que estamos habituados engrandece nossa capacidade de observação.

Com mudanças bruscas nos acontecimentos e na estrutura narrativa para preencher buracos e responder dúvidas das temporadas anteriores, a quarta temporada encerra os quatro anos de existência do seriado. É a mais fraca e óbvia de todas, mas esclarecedora o suficiente para complementar muito daquilo que já imaginávamos, mas não tínhamos certeza. Torpe oferece uma conclusão justa e coerente, uma resolução satisfatória com toda a jornada da personagem que finalmente aprende com as surras que a vida lhe deu, e literalmente com a surra física e moral que leva de Hjørdis em um dos momentos mais emocionantes da temporada (e talvez esperada por muita gente).

Um misto de sensações e emoções viciante e que nos mostra pontos de vista sobre a vida de forma bastante única, fugindo da estética norteamericana de se construir uma narrativa, sendo cativante unicamente por ser simples e respeitoso, sem apelações ou sensacionalismos. Se a quarta temporada foi realmente a última, sua conclusão foi sincera e otimista o suficiente como ela nunca escondeu ser, mas também nunca se obrigou a ser. E para aquele que se deixar conquistar por Rita, o velho e conhecido sentimento de vazio, de estar órfão de um seriado e de uma personagem tão inspiradora como ela é, será inevitável.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

SÓ VALVERDE PRA SALVAR...

★★★★☆☆☆☆☆☆
Título: Amor.com
Ano: 2017
Gênero: Comédia, Romance
Classificação: 12 anos
Direção: Anita Barbosa
Elenco: Isis Valverde, Gil Coelho, Joaquim Lopez, Carol Pontes, João Cortês, César Cardadeiro, Alexandra Richter
País: Brasil
Duração: 90min.

SOBRE O QUE É O FILME?
As idas e vindas da relação de dois produtores de conteúdo: ela sobre moda e beleza, e ele sobre jogos eletrônicos.

O QUE TENHO A DIZER...
Amor.com é um comédia romântica bem fraca, uma daquelas com os direitos comprados pela Netflix para preencher a cota de produções nacionais exibidas no serviço, já que passou praticamente despercebida pelo cinema, por razões óbvias.

O filme de estréia da diretora Anita Barbosa parece uma daquelas produções da Globo Filmes que foram engavetadas porque o produto final conseguiu estar aquém daquilo de pior que a empresa já costuma produzir no gênero, e como parece de praxe ir pra mesa da Netflix tudo que um dia já esteve no lixo de algum lugar, não é à toa que essa produção terceirizada agora leva o carimbo do serviço.

Com predominância de atores "globais" e com aquela velha mania de enfiar participações especiais de gente que nada tem a ver com nada na idéia de que um nome famoso atraí mais público do que talento, o perfil de comédia de situações barata está lá o tempo todo. Desde a imagem lavada e do perfeccionismo amador dos cenários, até o elenco coadjuvante e de apoio bastante ensaiado, nada contribui para tirar a sensação de um produto feito especificamente para a televisão, uma característica que diminuiu bastante na última década. Com o avanço tecnológico e a exigência do público pela qualidade, cada vez mais aquele abismo existente com o cinema diminuiu, ao ponto da diferença entre um e outro ficar apenas em pormenores técnicos. Então, quando um filme como esse tem uma qualidade tão inferior ao ponto de explicitamente parecer um produto de televisão nos dias de hoje, é porque a produção é muito barata mesmo, em todos os sentidos, chegando ao quase desleixo.

A história é atual, e pega o momento em que a mídia encontrou um novo nicho de subcelebridades, aqueles os quais ela titula como "influenciadores digitais", um nome genérico para tirar de cada um deles a alcunha de "youtubers", mesmo sendo daí que eles tenham surgido em sua grande maioria. Vloggers, bloggers, podcasters... os tipos mais comuns deles. Hoje em dia tem sido muito frequente o número de casais que se formam a partir de canais digitais, assim como tem sido a tendência de muitos canais também introduzirem seus cônjuges em suas vídeo-postagens para explorar a imagem do casal perfeito e, assim, ampliarem sua área de contato com o público.

A idéia do filme parte daí, tendo como par romântico uma produtora de conteúdo que fala sobre moda e beleza, e um que fala sobre jogos eletrônicos, os dois maiores segmentos em constante crescimento nos canais digitais, grupos que tem movimentado milhões anualmente.

Katrina (Isis Valverde) é uma garota bonita, bem vestida, simpática, educada e que leva seu trabalho a sério porque abraçou a responsabilidade que sua influência tem em milhões de pessoas que a seguem. Comedida em absolutamente tudo e completamente preocupada com sua imagem, monitorando 24h as postagens e os comentários que fazem sobre ela, a personagem é até bem construída nesse aspecto, pois conseguimos entender de maneira bastante simples todas as razões que a motivam a se comportar da maneira como se comporta, muito além da aparência fútil e materialista que ela possa demonstrar por viver em um mundo tão supérfluo. Por outro lado temos Fernando (Gil Coelho), que é completamente o oposto de seu interesse romântico, e de igual forma, o personagem raramente sai de sua unidimensionalidade. O que Katrina tem demais, Fernando tem de menos, e por incrível que pareça, mesmo sendo muito mais formal, ela ainda tem menos preconceitos do que ele.

Ao mesmo tempo que os personagens tentam reproduzir o comportamento genérico de pessoas que fazem o mesmo que eles na vida real, eles também não deixam de ser sátiras por conta do exagero comportamental e do excesso da caricatura daquilo que cada um representa, porque o apelo cômico fácil tem que existir, como o padrão da comédia nacional exige. Tudo um condensado de situações banais, uma Zorra Total na vida de dois jovens influentes da geração digital.

O que faz o casal protagonista ser cativante é que os atores conseguem dar mais profundidade a eles do que o próprio roteiro, mesmo quando Gui Coelho exagera nos comportamentos e caretas. Na verdade, a impressão que se tem é que muito do que eles fazem dá mais certo por improvisos do que por um texto que sequer existe, sensação muito mais presente nas cenas de Isis Valverde, que tem como uma das mais brilhantes qualidades nunca parecer que leva um texto ao pé da letra, seja na televisão ou no cinema, o que sempre faz transparecer um nível de realidade e comprometimento muito maior da sua interpretação por conta de uma qualidade simples: carisma.

Valverde é, sem dúvida, um dos grandes talentos atuais. Para quem assistiu seus trabalhos em mini-séries como O Canto da Sereia e Amores Roubados, ou até em novelas como Avenida Brasil e A Força do Querer, sabe que a garota é versátil e consegue vagar entre o drama e a comédia de maneira quase brilhantes, trazendo uma humanidade tão cativante aos personagens ao ponto de parecerem verdadeiros, como no momento em que recebe a notícia de que uma provável foto nua esteja sendo compartilhada por aí. É uma situação que não teria a menor obrigação de exigir de qualquer ator uma interpretação digna de nota numa produção como essa, mas ela o faz mesmo assim, e entre olhos que naturalmente expressam o pânico em lágrimas que brotam de desespero, ela ainda consegue manter o ritmo cômico sem deixar a peteca cair. Cena simples como diversas outras, mas que funcionam unicamente por autonomia dela, já que até direção a gente percebe que o filme não tem por menos que alguém possa saber o que um diretor faz.

É ela quem consegue ofuscar todos os mais diversos defeitos do longa, e de uma personagem que parecia linear demais, da metade do filme em diante ela consegue transformar toda a porcaria em sua volta com muito charme e técnica. Aliás, nem digo técnica, pois nem a vejo interpretando em cima disso, mas com naturalidade nata, ao ponto de até mesmo o previsível monólogo final não parecer artificial como uma moral pronta, mas um relato doído, magoado por um mundo de aparências e malícias que não sabe mais diferenciar a ficção do fato, ou o virtual do real. 

Em alguns momentos existe a tentativa de discutir de maneira até interessante alguns aspectos relacionados aos grandes problemas que a era digital trouxe consigo, como a perda da privacidade, a ultra-exposição e a vulnerabilidade das pessoas através das dificuldades que o casal passa a enfrentar conforme a relação progride, ao ponto do estopim parecer até banal, que será uma foto absolutamente inocente publicada numa rede social, mas que reflete de maneira bastante sucinta como a sociedade se tornou banal de igual forma.

A idéia não é de toda ruim, mas sua execução foi simples demais para algo simples demais, um susto quando descobrimos que o roteiro foi escrito por três pessoas. Por isso a tal sensação de desleixo, de algo planejado às pressas, como um condensado de um folhetim que nunca vingou, se ancorando em um público imediatista, que já perdeu há tempos a noção de qualidade daquilo que assiste justamente por estar agora mergulhado apenas naquilo que o YouTube pode oferecer. Um filme muito mais interessado em mostrar as dezenas de vloggers que fazem pequenas pontas na história do que em contar tudo de maneira mais fluida e comprometida. Talvez se tivesse sido desenvolvida em um outro formato, como uma mini-série ou uma série limitada, essa sensação de um mero pão-de-ló não fosse tão presente, e aí sim essa estrutura narrativa de situações e causalidades faria mais sentido, e Valverde daria conta da mesma forma como conseguiu não fazer deste filme um total desastre.

domingo, 10 de dezembro de 2017

O LABORATÓRIO DO VOYEUR...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Voyeur
Ano: 2017
Gênero: Documentário
Classificação: 16 anos
Direção: Myles Kane, Josh Koury
Elenco: Gay Talese, Gerald Foos,
País: Estados Unidos
Duração: 96 min.

SOBRE O QUE É O DOCUMENTÁRIO?
Sobre um homem que adquiriu um motel apenas para observar seus hóspedes, algo que fez durante aproximadamente 30 anos sem qualquer pessoa sequer imaginar ou descobrir.

O QUE TENHO A DIZER...
Ser voyeur não é um mérito apenas de fetichistas sexuais. A denominação daquilo que outrora foi estritamente considerado uma desordem sexual, acabou tendo outras derivações ao longo dos tempos, sendo um dos desejos (ou práticas) mais intrínsecos e natos do ser humano que nem o próprio ser humano se dá conta. É engraçado que as pessoas comuns tendem a relacionar a prática diretamente com o sexo, porém ela não é necessariamente isso, mas uma realização de um prazer pessoal, uma satisfação pela observação do comportamento alheio, seja ele qual for. Você pode achar que não seja assim, justamente por essa analogia sexualizada ser tão forte. A verdade é que, no fundo, todo mundo é.

Seja observando as pessoas à sua volta em um ambiente, seja querendo saber o que esteja acontecendo por trás da silhueta em uma janela, seja querendo saber do que se trata o barulho do outro lado da parede ou no quarto vizinho do hotel, seja verificando constamente suas redes sociais nos perfis alheios de pessoas conhecidas ou anônimas, o voyerismo é simplesmente a saciação do desejo de querer saber o que outras pessoas façam. Comumente confundida com a simples curiosidade. Mas quem disse que ser curioso não é ser voyeur?

A prática era muito relacionada à observação anônima de uma situação privada, mas essa denominação também foi perdendo forças, já que ela também pode acontecer em situações onde o(s) indivíduo(s) observado(s) esteja(m) ciente(s) disso, pois assim como existem aqueles que gostam de observar, existem aqueles que gostam de se expor e serem observados, como é bastante explorado no filme De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999), de Kubrick.

A questão é que, a impressão que se tem é que a sociedade relacionou o voyeurismo unicamente ao sexo, à desordem e à perversão, justamente para tentar negar que seja uma prática comum, presente no nosso cotidiano das mais diversas formas, e assim vivemos na hipocrisia de atribuir o fato apenas àqueles que determinamos serem "perturbados" ou sexualmente pervertidos, e assim nos mantemos distantes da realidade.

Foi assim que Alfred Hitchcock abordou a prática em diversos de seus filmes, como Janela Indiscreta (Rear Window, 1954), talvez a maior referência do gênero no cinema comercial. O diretor propositalmente utilizou o voyeurismo não apenas para desenvolver a história, mas também como técnica para criar o crescente suspense e induzir o espectador ao interesse, transformando-o em um voyeur sem ele mesmo perceber, persuadindo-o a ter os mesmos interesses que o os personagens. O interessante desse filme é que o voyeurismo abordado é da forma mais abrangente possível e não restrita apenas a desejos sexuais, pois o personagem de James Stewart não realiza a prática para cultivar sua libido, mas para saciar o desejo pela curiosidade e o prazer/satisfação pessoal que isso lhe proporciona conforme desvenda os interesses e mistérios relacionados ao objeto observado com a progressão dos fatos. Ele passa a se interessar pelo cotidiano alheio por consequência do tédio que se encontra ao estar preso a uma cadeira de rodas, e aos poucos sua rotina de observador oculto igualmente influencia seus amigos que o visitam, atraindo o interesse dos mesmos pela vida do vizinho. O que o protagonista faz com os demais personagens é exatamente o que ele e o diretor fazem com seu espectador, e por isso o filme também é considerado um grande experimento de massa, pois todas as pessoas que o assistem acabam tendo os mesmos desejos e vontades do protagonista, que é um voyeur.

Dar toda essa introdução é importante para que o documentário assinado pela Netflix seja visto por outros olhos. Ele vai contar a história de Gerald Foos, um senhor de 78 anos que, por 30 anos, observou cada um dos hóspedes do motel em que foi proprietário. Foos é um cara comum, inteligente, reservado, eloquente, engraçado e um grande contador de histórias, coisas que não esperaríamos de alguém que pudesse ser mentalmente perturbado, obsessivo ou sexualmente perverso. Foos relata que a vontade de observar as pessoas em um ambiente controlado foi sua grande motivação para comprar a propriedade na década de 60. Segundo ele, o motel era perfeito para tudo aquilo que ele queria, sendo exatamente como ele imaginava. Para ele, observar a todos por cima era como brincar de deus, numa analogia até bastante segura e interessante, já que deus seria o maior voyeur que existe.

É claro que, dentro da cabeça de Foos, algo deve acontecer, não por ser voyeurista, mas por ter alimentado isso por tanto tempo da forma como fez. Seu acervo de inúmeras coleções, seu comportamento metódico, suas anotações detalhadas, o empenho e a dedicação na realização dos processos, até dão indícios maníacos e psicóticos, mas que em nenhum momento interferiram negativamente na sua vida ou na das outras pessoas, até mesmo as observadas, já que os registros de Foos eram apenas manuscritos, numa época que a tecnologia não era tangível como é hoje, além de nunca ter revelado identidades. Dizer que tudo o que ele fez faz parte de uma normalidade social, não é correto, mas também denominá-lo como uma pessoa perturbada também não é. Há um meio termo, algo que acontece entre um e outro, mas que não conseguimos identificar.

Gerald Foos sempre tratou o assunto como um grande experimento, tanto que ele se refere ao seu lado voyeurista em terceira pessoa, apenas como "O Voyeur". Existe uma ética que ele cumpre à risca, que o distancia daquilo, como a querer valorizar o olhar científico do que faz e impedir a influência pessoal sobre o que exerce, mesmo que ele tenha quebrado essas regras em algumas situações. Tanto que, por diversas vezes, ele criou ambientes adversos para observar o comportamento das pessoas, como o experimento que fez com a maleta de dinheiro, algo que, dentro de toda a situação controversa e polêmica, acabou sendo até genial. Mas errou quando o lado pessoal resolveu interferir diretamente em um momento que envolveu um hóspede traficante de drogas.

Sim, a história de Gerald é interessante, e ele sabia disso. Por essa razão, na década de 80, ele procurou Gay Talese, um renomado jornalista do The New York Post que havia acabado de publicar um de seus maiores best sellers, A Mulher do Próximo (1980), um grande marco do Novo Jornalismo, que além de ser investigativo, também é participativo, revelando o painel contemporâneo dos costumes sexuais que surgiram nos anos 60 e 70 nos Estados Unidos. Após ler o livro, Foos acreditava que Talese era o jornalista perfeito para o qual ele deveria contar sua história e publicá-la. E foi por uma carta que a relação entre eles teve início.

Toda essa relação entre Foos e Talese é bem desenvolvida e explorada no documentário, bem como os pormenores que acabaram levando a reviravoltas interessantes na história. Tudo baseado na omissão de informações por parte de Foos, como o exagero da auto-confiança narcisística e egocêntrica de Talese. Quando esses dois grandes defeitos se chocam, a bomba atômica é lançada numa sequência de desastres que afeta a todos de uma só vez.

Mas o documentário não passa disso. Ele raramente entra em pormenores sobre o que de fato é interessante ao espectador, que são as observações de Foos. A conclusão que ele tirou depois de anos como um voyeur ativo, ou os motivos de ter vendido a propriedade na década de 90, nada disso parece ser relevante. Foos não é tratado com humanidade, apenas como um objeto que observa objetos. A produção se atenta apenas em mostrar quem é o voyeur e quem é o jornalista, ambos em um duelo de quem é que fala mais a verdade, criando até momentos interessantes de dúvida, já que Foos é a fonte de informação dele mesmo. E como diz Talese em um momento: para um jornalista, uma única fonte de informação sempre é perigoso demais.

Pode ser que Foos aumente um ponto aqui e invente uma coisa alí porque toda a história é baseada apenas naquilo que ele mesmo documentou, mas não é possível acreditar que tudo seja uma ficção criada por ele mesmo, até mesmo porque o motel realmente existiu, Gay Talese o conheceu e confirmou a existência não apenas das estruturas e adaptações construídas pelo próprio Foos, como também os blocos de anotações detalhadas dos hóspedes e das observações feitas. O documentário ignora insistentemente que a mulher de Foos também é uma fonte, já que ela tinha conhecimento de tudo e participava ativamente do dia a dia do marido no motel e de sua rotina de observação.

É um documentário bem raso perto da profundidade do assunto que ele aborda. Não há relações tangíveis do voyeurismo com a nossa realidade para que a situação se torne mais próxima e compreensível, não há uma explicação clara do que é ser voyeur e o impacto que este comportamento gera na sociedade, elementos que seriam cruciais para a construção da base narrativa do documentário. Na verdade, a real intenção dele é de promover tardiamente o livro The Voyeur's Motel (2016), cujas razões ficarão bastante evidentes na reta final do documentário que a todo momento abstém-se de dar maiores detalhes sobre todos os fatos descritos por Talese para que o espectador sinta-se influenciado a ir atrás da fonte bibliográfica, tanto que por vários momentos é possível notar um corte brusco na edição em situações onde as informações começam a ficar mais interessantes e consistentes.

Claro que a produto final não deixa de mostrar até que ponto a obsessão de uma pessoa pode chegar, mesmo que isso não traga consequências negativas de nenhum tipo a nenhuma pessoa, como foi o caso de Gerald Foos. Mas se Foos realmente era um cientista amador ou não, não temos como julgar. E por mais maluca que a idéia possa parecer, não deixa de ser interessante e igualmente intrigante.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

DESDE O PRIMEIRO EPISÓDIO...

★★★★★★★★☆☆
Título: The Sinner
Ano: 2017
Gênero: Drama, Suspense, Mistério
Classificação: 16 anos
Direção: Vários
Elenco: Jessica Biel, Bill Pulman, Christopher Abbott
País: Estados Unidos
Duração: 60 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Após assassinar um homem desconhecido, uma mulher tenta descobrir o que a levou ter esta atitude violenta.

O QUE TENHO A DIZER...
Chelsea Handler uma vez disse em seu programa que, ao conhecer Jessica Biel, se surpreendeu pela sua beleza, talento, inteligência e espirituosidade. De fato, quando a atriz chamou a atenção no remake de O Massacre da Serra Elétrica (2003), sabíamos que ela não era apenas mais um rostinho bonito colocado lá apenas para chamar atenção. Mas seguindo um caminho totalmente inverso ao esperado, ela nunca abraçou o título de estrela que Hollywood quis, com tanta insistência, condecorá-la. Uma carreira sempre muito comedida e discreta, que tenta se manter relevante fora do grande circuito comercial, produzindo sua estréia no primeiro seriado em que é protagonista. Ela já havia se aventurado como produtora antes, como no filme O Homem das Sombras (2012), cuja personagem de personalidade igualmente desfragmentada mostra a predileção da atriz por temas psicologicamente complexos.

Ler a sinopse de The Sinner, sobre uma mulher que comete um crime sem se lembrar dos motivos que levaram a isso, pode não parecer novidade. Afinal, quantos filmes e séries existem por aí com um argumento parecido?

Mas quando damos a série uma oportunidade é que descobrimos que, ao longo dos episódios, a história pode soar similar e a sua construção, feita através de flashbacks e memórias desconexas, pode parecer genérica, mas seu diferencial é sair da obviedade de maneira inteligente e, no fim, nada ser aquilo que imaginávamos.

O primeiro episódio é surpreendente por si só, e serve como uma poderosa ferramenta de persuasão, já que instantaneamente irá conquistar o interesse do espectador em compreender os motivos e razões para Cora Tannetti (Jessica Biel) ser a personagem perturbada e multidimensional que é. E se tem uma coisa que esta nova produção selada pela Netflix faz com categoria é nos dar a mesma agonizante sensação que a própria personagem tem de que, conforme os fatos se revelam, mais complexo o desenvolvimento fica e menos ainda percebemos saber sobre tudo, embrenhando todos em um labirinto que não parece ter fim ou saída, e é por isso que a protagonista, desde o princípio, é tão enfática sobre sua própria culpa.

É essa consciência de culpa que irá criar uma empatia imediata dela com o público, por mais brutal e doloso que seu crime possa parecer, porque a princípio o roteiro não se interessa em convencer o espectador do contrário. O que é um grande ponto de partida, já que facilmente poderíamos deliberadamente condená-la e julgá-la a nossa própria maneira caso seu arco dramático não tivesse sido bem construído, ou oferecesse perspectivas diferentes do que aquela que o roteiro constrói a passos lentos e densos.

Enquanto Cora está convicta de que nada é capaz de retirar dela a responsabilidade de seus atos e que ela deve ser punida por isso (o que a princípio concordamos e de estranha maneira nos sensibilizamos), é óbvio que, como observadores, sabemos que existe mais na história do que aquilo que espelha em sua superfície. É com esse objetivo esclarecedor que entra em cena o delegado Ambrose (Bill Pulman), que quer a todo custo compreender as motivações que levaram Cora ao homicídio, por mais que os testemunhos e a própria confissão de culpa dela já fossem o suficiente para sua sentença e encerramento do caso.

Ambrose se dedica na investigação por diversos motivos. Assim como ela, ele também carrega consigo culpas e complexos resultantes de uma vida pessoal e profissional falida em uma cidade pacata e socialmente doente. Ele se sente inferiorizado, estagnado, preso em um ciclo contínuo de dúvidas e buscas, submisso ao meio em que vive. Sua incondicional dedicação ao caso de Cora deixa de ser uma obrigação para se tornar uma punição, uma necessidade quase obsessiva de se redimir das próprias culpas que carrega. 

Fazia muito tempo que não assistia um seriado tão intrigante como esse. De igual valor, ele se assemelha bastante à primeira temporada de Damages (2007-2012) na maneira surpreendente em que as tramas e subtramas se revelam através de fatos presentes e flashbacks. Mas enquanto em Damages a intenção era criar um suspense criminal e jurídico consistente e cheio de reviravoltas, aqui existem diversas camadas dramáticas que se sobrepõem umas às outras, desconstruídas de tal forma a reproduzirem de maneira eficiente a confusão em que a protagonista se encontra, numa complexidade psicológica convincente, que irá justificar absolutamente todos os comportamentos dos personagens, seus traumas, complexos e vulnerabilidades. Por isso se enquadra nas séries com os personagens mais ricos a estar disponível no serviço atualmente. E por conta de seu enredo e de algumas construções, é um tanto impossível também não perceber certas similaridades narrativas com Alias Grace, outra mini-série recente da Netflix, já que ambas protagonistas, mesmo convictas de suas próprias culpas, sejam consequências decorrentes de diversas situações delicadas de abusos familiares e traumas sociais.

Igual a outros produtos do mesmo gênero, a série se destaca por nada ser aquilo que parece ser. Existem os elementos dispersivos, como em qualquer outra produção que se utiliza da mesma fórmula construtiva, mas ao contrário do que comumente costuma ser, não são elementos enganosos soltos aleatoriamente para distrair ou confundir o espectador gratuitamente, os chamados red herrings. O desenvolvimento da história tem sua linearidade na narrativa presente, mas não linear na sua narrativa passada conforme as memórias de Cora se encaixam como um quebra-cabeças, e em momento algum isso é um artifício barato de tentar trazer falsa densidade. Como dito, os níveis de complexidade dos personagens são construídos de forma vagarosa, camada a camada, e tudo o que é mostrado terá sua devida importância no momento certo, resultando em um produto bem pensado, organizado e tecnicamente correto.

Há diversas situações surpreendentes e reviravoltas inesperadas justamente pela maneira cirúrgica como as subtramas são sobrepostas. Existem momentos bastante chocantes em outros núcleos, havendo até mesmo uma sequência um tanto perturbadora se vista de forma superficial e preconceituosa, mas realizada de maneira tão delicada e bem justificada que deixa de ser um simples incesto para se tornar um situação singular de extrema compaixão. A trajetória paralela de descobertas e buscas em que Cora e Ambrose traçam, um se tornando a metáfora do outro, confinados cada um dentro de seus próprios complexos, gera entre eles um nível de mútua cumplicidade, confiança e dependência que nenhum deles havia se disposto até então, aflorando sentimentos honestos de maneira natural e emotiva que os ajudam a superar os obstáculos e adversidades ao longo do caminho.

The Sinner é explícito em todos os sentidos, seja na sua brutalidade física ou psicológica, sendo intrigante, chocante e provocativo nos temas que aborda em medidas certas, uma experiência bem diferente e satisfatória dentro de um enredo que parece simples, mas construído com tanto cuidado e atenção a mínimos detalhes que falar qualquer coisa dele além de questões técnicas é estragar completamente a experiência surpreendente que ele oferece em diversos momentos.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

PRECISAMOS FALAR SOBRE GRACE...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Alias Grace
Ano: 2017
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Marry Harron
Elenco: Sarah Gadon, Edward Holcroft, Zachary Levy, Paul Gross, Anna Paquin, Rebecca Liddiard, David Cronemberg
País: Canadá
Duração: 60 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Baseado na história real de Grace Marks, uma serviçal que é condenada a prisão perpétua por duplo homicídio.

O QUE TENHO A DIZER...
Em 1843, Thomas Kinnear e sua governanta, Nancy Montgomery, foram brutalmente assassinados na região do Alto Canadá, hoje sul da província de Ontário. Grace Marks e James McDermott, serviçais de Kinnear, foram acusados do crime. McDermott foi condenado à forca, e Grace acabou sendo sentenciada à prisão perpétua por, na época, ter apenas 16 anos, e porque a sua participação no crime tinha pontos inconclusivos.

A sentença foi controversa, pois por um lado a investigação concluiu que McDermott foi o principal responsável pelo crime por conta da brutalidade e da força necessária para tal, mas sua confissão afirmava que Grace não apenas participou, como também foi a mandante. Durante os 30 anos encarcerada, Grace afirmou não se lembrar de absolutamente qualquer coisa relacionada ao crime, e sua amnésia pós-traumática ergueu diversos questionamentos sobre o fato. Para piorar as dúvidas já existentes, o advogado de defesa dos réus orientou-os à uma confissão elaborada perante o juri. A confissão tinha apenas o intuito de aliviar a pena, já que a sentença havia sido determinada antes mesmo do julgamento. Logo, a confissão elaborada serviu, por fim, apenas para criar maior confusão sobre o que realmente aconteceu ou não, o que o seriado também consegue estruturar muito bem.

Por conta do excelente comportamento e conduta de Grace, além da relevância de ter sido presa tão jovem e passado boa parte da sua vida encarcerada, mesmo com um julgamento inconclusivo, com 46 anos de idade ela foi perdoada pelo Governador. Com a liberdade ela se mudou para Nova York. Após isso, nunca mais se teve registros sobre seu paradeiro, sequer data oficial de morte, e sua história, ao mesmo tempo que é uma dúvida, também se tornou lenda. Portanto, o final do seriado é fictício, e apenas uma forma da autora concluir a história de maneira que todas as discussões relevadas durante os episódios tomassem uma forma definitiva, deixando explícito que, para a personagem conquistar pequenas coisas que sempre deu valor, teve de aceitar continuar sendo subserviente.

O livro homônimo de Margaret Atwood, no qual o seriado é baseado, foi publicado em 1996, e utilizava como base a biografia de Grace Marks a partir das publicações de Susanna Moodie, de 1970. Segundo Atwood, o trabalho de Moodie foi uma grande inspiração, mas com o tempo percebeu, através de pesquisas, que muito do descrito sobre o assassinato não era verídico, o que a fez mudar sua opinião sobre a culpabilidade de Grace Marks, e então a idéia sobre o romance que trajeta entre o verídico e o fictício, criou forma.

A mini-série de 6 episódios (e será somente isso) tem prioridade na mesma narrativa em primeira pessoa da protagonista, cuja história se desenvolve através de diálogos com um personagem que não existiu na vida real, justamente para alguns fatos se manterem próximo dos acontecimentos verídicos, mas ao mesmo tempo dar liberdade para diversas outras interpretações.

O personagem fictício em questão é Dr. Simon Jordan (Edward Holcroft), um psiquiatra jovem, engajado em estudos sobre doenças mentais numa época em que a psiquiatria começava a dar maior atenção ao empirismo. Nas primeiras sessões, Dr. Simon tenta resgatar a memória de Grace através de sugestões sobre coisas e sensações que pudessem remeter ao momento do homicídio, mas a paciente não corresponde da maneira como ele espera. É quando ele solicita que ela conte toda sua história desde sua infância até o momento mais recente, acreditando que, dessa forma, a memória perdida possa aos poucos ser recuperada. E dia após dia, durante as tardes na sala de costura da casa do Governador, é onde as sessões ocorrerão em meios a flash-backs sobre as memórias da protagonista conforme sua narração progride.

Atwood tem sido um nome bastante comentado ultimamente por conta da aclamada série The Handmaid's Tale, disponível pelo serviço de streaming Amazon Prime, série igualmente baseada no livro homônimo da autora de 1985. Embora os dois livros e as duas séries tenham temas bem distintos, a alma central de ambas é basicamente a mesma: utilizar um acontecimento específico como gatilho para explorar de maneira abrangente diversas questões sócio-culturais, políticas, espirituais e religiosas.

O roteiro aqui, assinado pela própria Atwood em parceria com Sarah Polley (criadora e produtora da série), tenta manter as mesmas características do gênero gótico no qual o livro se propõe. Essas características incluem a expressão das doenças sociais da época, explicitando a corrupção moral e a hipocrisia aristocrática, adicionando a isso elementos sobrenaturais e a possibilidade de comunicação espiritual com os mortos, o que foi, de fato, uma catarse de interesse científico durante a era vitoriana (por isso que o episódio da sessão de hipnose é assistida por um pequeno grupo formado por religiosos, intelectuais e estudiosos).

O foco do roteiro se mantém fiel ao do livro, que não é questionar a culpabilidade de Grace no duplo homicídio, mas de utilizar a personagem como uma forte ferramenta de expressão e estudo de comportamento. Tanto é assim que a história pisa em ovos para não ser tendenciosa para nenhum dos lados, seja para sua culpa, seja para sua inocência. Mas independente disso, o que vale é a perfeita costura dos fatos com observações sociais que ainda continuam mais atuais do que nunca.

A narrativa da protagonista, que tem início desde sua imigração da Irlanda para os Estados Unidos aos 12 anos, não esconde em nenhum momento as dificuldades que teve com sua família ao saírem de seu país natal em busca do Novo Mundo. Sua história é uma incrível sucessão de desastres e infortúnios. Das desgraças da pobreza às dificuldades sofridas por ela e suas irmãs por conta de um pai alcoólatra e abusivo, sendo obrigada a deixar aquilo que restou de sua família para trabalhar como serviçal em regimes de trabalho semi-escravo, sem qualquer perspectiva de independência ou mobilidade, como qualquer outra pessoa no mesmo patamar social que o dela.

As roteiristas conseguem retratar uma época onde as mulheres eram obrigadas a serem subservientes aos homens, em uma sociedade machista que as impediam de decisões além do espaço doméstico. Ao proletário, a subserviência incondicional aos detentores do dinheiro e do poder.

A ingenuidade de Grace a leva a acreditar que todos os sofrimentos, perdas e desastres de sua vida sejam coisas comuns e naturais por essas terem sido a realidade que sempre viveu, e essa consciência fica explícita na maneira indiferente como ela relata sua trágica história como fatos corriqueiros, partindo do princípio fatalista e conformista de que as coisas assim são porque devem ser e nada há de ser feito para ser mudado, um ponto de vista triste e melancólico para quem observa, mas que foi (e ainda é) a realidade de uma grande maioria. Mesmo assim, as observações simplistas e tácitas da personagem sobre a vida cotidiana e submissa, e de sua função irrelevante e passageira na sociedade, ao mesmo tempo que soam poéticas, narram a crueldade social de maneira cirúrgica e arrebatadora.

Aos poucos a história de diversos acontecimentos trágicos nos revela que ela nada mais é que um produto determinado pelo meio em que vive, mas que de certa forma evolui tal como as mariposas de Darwin, obrigando-a criar escapes psicológicos para conseguir sobreviver às adversidades sociais em que está inserida, oprimindo suas vulnerabilidades e desencadeando mecanismos de defesa inconscientes. Daí o significado do título, pois "alias", numa tradução livre, significa "codinome", já que ela desenvolve personas ao longo de sua vida para conseguir superar os obstáculos e dificuldades, o que é explicado após a já citada sessão de hipnose, sequência que poderá ser facilmente confundida como um elemento sobrenatural na série quando, na verdade, é o mecanismo de defesa da personagem que se manifesta. Um momento em que toda a atenção deve ser dada, pois é ele que irá esclarecer absolutamente muitas das dúvidas semeadas ao longo dos episódios, sem tirar do espectador o seu próprio julgamento.

Se torna óbvio que o maior ponto de toda a trama é escancarar a opressão e a submissão feminina na sociedade, e que tudo o que estamos vendo nos dias atuais nada mais é do que o resultado histórico disso. E Grace Marks, sendo ou não uma metáfora, é igualmente uma consequência.

Se é angustiante ver Grace ser abusada pelo próprio pai e depois escurraçada de casa por não ter sido conivente com o incesto, isso irá parecer até pouca coisa perto de outros momentos bastante chocantes, como quando sua melhor amiga decide realizar um aborto com medo de ser despejada da casa na qual trabalha e evitar viver da prostituição para sustentar um filho indesejado. De igual forma a condição pela qual Nancy Montgomery (Anna Paquin) se submete, obrigada a se manter em uma relação abusiva para não ter o mesmo fim, descontando em Grace suas frustrações e delírios resultantes de dúvidas e incertezas, num terrorismo psicológico cultivado pelo próprio patrão para que sua vulnerabilidade esteja constantemente exposta e ele possa abusar disso sempre que lhe for conveniente. E se existem vilões na história, eles são os próprios homens, independente de sua classe social, pois a ignorância é democrática.

Apesar de toda essa brutalidade, por outro lado existe uma delicadeza, ou uma sobriedade, na forma como tudo é conduzido, justamente para amenizar situações tão indigestas, contrabalanceando momentos que poderiam facilmente se sobrepor à história de fato e saírem do contexto se tivessem seguido para um caminho mais explícito e sensacionalista.

Mérito de uma equipe formada em sua grande maioria por mulheres que compõem os principais núcleos, seja no roteiro, na direção, produção e elenco, fazendo o produto final ter um olhar feminino bastante honesto de mulheres falando sobre mulheres, e não homens falando sobre aquilo que acham ou acreditam ser sobre mulheres.

Para quem já conhece os trabalhos da canadense Sarah Polley, seja como atriz, roteirista ou diretora, sabe que seu engajamento político e feminista é bastante presente naquilo que faz, mas sem ser extremista ou doutrinante, ela apenas explora personagens femininas com o intuito de mostrar lados e situações que, tanto a sociedade, como a indústria do entretenimento, insistem em esconder ou deturpar. E ao juntar forças com Atwood, em uma produção que, segundo a própria Polley, demorou 20 anos para se concretizar, Alias Grace surpreende pelo desenvolvimento lento e detalhado de um drama psicológico que escancara a responsabilidade da sociedade sobre a maneira que ela mesma enxerga e compreende os gêneros, e que o empoderamento feminino e a constante busca pela igualdade que tanto tem ganho força nos últimos anos não é uma necessidade de auto-afirmação ou de promoção sexista, como muitos daqueles que não compreendem a necessidade dessas mudanças costumam contra-argumentar, mas uma dura batalha necessária contra uma herança cultural secular opressora e abusiva, ainda existente porque a História nos mostra que taxar um sexo de frágil, e criar uma cultura conivente a isso, sempre foi benéfico para aqueles que se sustentam disso, e sempre será enquanto essa deturpada consciência existir.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

DIVERSÃO AO QUADRADO...

★★★★★★★★☆
Título: Stranger Things 2
Ano: 2017
Gênero: Ação, Fantasia, Ficção Científica, Drama, Suspense, Terror
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard, Noah Schnapp, Millie Bob Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughling, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Joe Keery, Sadie Sink, Dacre Montgomery
País: Estados Unidos
Duração: 55 min.

O QUE TENHO A DIZER...
A segunda temporada de Stranger Things vem recheada de pura nostalgia 80tista. O número 2 que agora acompanha o título para caracterizá-lo mais como uma continuação do que como uma segunda temporada, se tivesse sido usado de forma sobrescrita (²), faria muito mais sentido, porque tudo o que o espectador experimentou na primeira temporada, agora é elevado ao quadrado.

Não que esta segunda parte seja melhor que a primeira, mas ela não fica atrás. Tudo aquilo que se esperava foi oferecido com grande estilo. O interessante da primeira temporada foram as surpresas que a série proporcionou, além do fator novidade ao resgatar a infância, o companheirismo e a amizade com uma fidedignidade que havíamos visto apenas no cinema até aquele momento, tão bem representados pelos filmes dirigidos ou produzidos por Spielberg como E.T.Os Goonies. Para quem nasceu nos anos 80, o seriado foi um túnel no tempo de boas memórias e lembranças vividas num período em que a vida conectada só existia por telefone fixo e walk talkies, e a interação pessoal, as ruas, os jogos de tabuleiro, os brinquedos manipuláveis, a bicicleta como principal meio de transporte e o grande símbolo da independência infantil, além da exploração da imaginação e da fantasia eram muitos mais consistentes.

As mesmas referências da temporada anterior são utilizadas aqui, com a soma de outras, mas sempre mantendo Stephen King e Steven Spielberg como grandes inspirações. Para os mais atentos, haverá até algumas boas referências a Indiana Jones e o Templo da Perdição, como quando os personagens Nancy (Natalya Dyer) e Jonathan (Charlie Heaton) se encontram num momento de intensa tensão sexual, cada um em um quarto, tal como Willie e Indy; quando Max dirige o carro; quando Hopper volta correndo para pegar o emblemático chapéu do chão. George Lucas também tem seus momentos de homenagem quando Eleven/Onze aprimora o domínio de seus poderes, tal como com Luke Skywalker em Star Wars - Episódio IV.

É esse o grande trunfo dos irmãos Matt e Ross Duffer, criadores, produtores e roteiristas, de fazer que esse imenso conglomerado de referências diretas ou indiretas atinja o público das mais diversas maneiras, seja compreendendo as fontes de origem, seja apenas apreciando o produto como um entretenimento comum, sem querer perder tempo desmembrando, observando e degustando as centenas referências da cultura de época, das produções cinematográficas e televisivas daquela década e da trilha sonora, que dessa vez vem muito mais pop, rock e nostálgica do que na temporada passada.

A Netflix não poupou esforços para que sua mais famosa, popular e aclamada produção original mantivesse o mesmo nível de qualidade. Não era para menos. A expectativa pela segunda temporada aumentou em proporções geométricas ao longo dos mais de 450 dias que separaram uma temporada da outra.

E é por aí que a segunda parte começa sua história, aproximadamente um ano depois dos acontecimentos do primeiro. E mesmo com apenas um ano de diferença, os atores mirins cresceram. Perderam aquela fisionomia infantil para adquirirem uma mais adolescente e, de igual tamanho, seus comportamentos. O núcleo adolescente formado pelo respeitoso triângulo Nancy-Jonathan-Steve, agora embarcam para o início da vida adulta, com maiores responsabilidades, interesses e planos. Já os adultos, continuam os mesmos, apenas menos perdidos, mais decididos e com menos conflitos porque a temporada anterior já havia oferecido situações o suficiente para colocar nos eixos todos aqueles que estavam com parafusos frouxos, como foi o caso de Joyce (Winona Ryder) e Hopper (David Harbour).

O elenco sofreu um leve aumento com a inclusão dos personagens Bob Newby (Sean Astin, o eterno Samwise Gamgee), o novo namorado bacana de Joyce; Max Mayfield (Sadie Sink), a nova e misteriosa aluna da escola Hawkins; Billy (Dacre Montgomery), o rebelde irmão postiço de Max; e Kali (Linnea Berthelsen), uma vingadora com poderes e intenções anarquistas, com um passado correlacionado com o de Eleven. Personagens novos que, ao contrário do que se imagina, quando analisados dentro do universo estrutural de Stranger Things e das tramas e subtramas já consolidadas desde a primeira temporada, seriam naturalmente irrelevantes. E realmente são. A única função de todos é apenas gerar um maior número de conflitos de um lado (Max, Billy e Kali) e aumento de determinadas situações dramáticas de outro (Bob).

Não são personagens ruins. São bem construídos e com arcos interessantes, mas que entram e saem de cena sem grandes progressões narrativas. Apenas inflam um elenco principal que já começou inflado na primeira temporada. Considerando que cada um desses novos personagens agregam, em média, de 5 a 10 minutos de cada episódio, não é de se espantar que sejam utilizados exatamente na função de tapa-buracos, mas sem parecerem como tais.

A presença de Bob na história é apenas de criar uma breve férias pouco convincente na confusa relação entre Joyce e Hopper, postergando a resolução desse núcleo o máximo possível. Para Bob ter o fim que teve, ficou incoerente sua inclusão na história. Esse fim era óbvio quando se analisa a construção de um roteiro, seus elementos necessários e desnecessários: a relação entre Joyce e Hopper é necessária, e Bob um excesso. Max surge para repetir a tensão que Eleven criou entre os 4 amigos na primeira temporada, dando oportunidade a mais um deles de descobrir seu primeiro amor juvenil tal como aconteceu com Mike, deixando outros frustrados no processo. A Billy sobrou a função de semear a discórdia, não apenas servindo como um antagonista direto de Max, como também uma forma do roteiro abordar de maneira bastante sutil prováveis abusos e violências domésticas que poderiam ter tido um maior foco numa temporada que se absteve de grandes momentos dramáticos como a primeira teve. Kali, que começa tendo destaque logo na introdução do primeiro capítulo, entra tardiamente na história de fato, e sai dela como se não tivesse entrado, em um daqueles comuns momentos que é nítida a mudança da direção da trama pelos roteiristas, que de última hora - e por falta de tempo - devem ter resolvido deixar a personagem ser melhor desenvolvida em temporadas futuras.

A segunda temporada definitivamente foca muito mais na ação e na expressão do suspense e do medo através dos elementos de ficção científica que novamente abusam de referências à franquia Alien do que no drama, antes tão bem desenvolvido por Winona Ryder e na busca frenética de sua personagem pelo seu filho desaparecido, numa linha tênue entre a loucura e sanidade, entre a comédia e a angústia, que renderam à atriz uma justa indicação ao Globo de Ouro. Numa evolução natural em consequência dos acontecimentos anteriores, Joyce agora é uma personagem mais forte e menos emotiva, e para isso acontecer foi sacrificado boa parte de sua cômica excentricidade, mas que de nenhuma forma diminui sua importância que novamente é garantida em um importante momento de decisão.

A personagem de Millie Bob Brown, uma das maiores revelações mirins de 2016, perdeu um pouco daquele charme andrógino e misterioso, e junto com isso boa parte da sua natureza infantil e ingênua. Grande parte disso também se deve ao próprio comportamento precoce da atriz, que na vida real já tem uma postura mais austera e um tanto prodígio que se distancia bastante dos colegas de sua idade. O roteiro também força um amadurecimento precoce de Eleven, uma "adultalização" sentida não apenas nela, mas também nos demais personagens mirins, principalmente ao tentarem dar grande foco nos interesses amorosos entre eles, conflitos e dramas que ainda não eram o momento para serem abordados, impactando no próprio comportamento de cada um deles na ficção e na vida real. Tanto que houve até uma breve polêmica a respeito do beijo entre Max e Lucas, momento que, segundo a própria atriz Sadie Sink, se sentiu obrigada pelos irmãos Duffer a fazê-lo, mesmo recusando por conta do beijo não estar no roteiro. Sadie e Millie também revelaram que as cenas de beijo de cada uma não apenas foram o primeiro beijo técnico de ambas, como também o primeiro beijo delas na vida real. Complicado quando colocamos crianças e adolescentes em situações que não condizem com seu momento de vida ou interesse, contribuindo com a cultura atual que cada vez mais exige e cobra deles comportamentos mais adultos e responsabilidades que não lhes cabem, contrariando a premissa principal da série de abordar essas fases da vida da maneira mais livre, espontânea e fantasiosa possível.

Tirando um ou outro elemento excessivo, ou que, como dito, contradiz com o próprio propósito de Stranger Things, a série conseguiu voltar tão forte quanto esperado, com fôlego suficiente para agradar até os mais exigentes e aqueles que tinham as maiores expectativas. Vale questionar se as próximas temporadas continuarão tendo fontes de inspirações tão consistentes e relevantes como apresentaram até o momento, já que a série foi automaticamente renovada para mais duas temporadas, com promessas para exceder esse número, segundo preveem os produtores.

O direcionamento que terá no futuro é incerto, mas uma coisa é garantida: será muito interessante ver todo esse elenco crescer frente a nossos olhos, tal como foi interessante ver as crianças em Harry Potter crescerem e amadurecerem ao longo dos seis filmes, e o melhor, tendo suas fases respeitadas. Que os irmãos Duffer sigam o mesmo exemplo.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

STEPHEN KING OUTRA VEZ...

★★★★★★★★☆
Título: 1922
Ano: 2017
Gênero: Horror, Suspense, Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Zak Hilditch
Elenco: Thomas Jane, Molly Parker, Dylan Shmid, Neal McDonough
País: Estados Unidos
Duração: 102 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um fazendeiro arquiteta um plano macabro de assassinar sua mulher, convencendo o próprio filho a fazer parte disso.

O QUE TENHO A DIZER...
Que 2017 é o ano das atuais gerações (re)descobrirem Stephen King, isso já está mais do que claro. E depois da Netflix produzir a (péssima) série O Nevoeiro (The Mist, 2017), mas em contraponto também produzir o interessante Jogo Perigoso (Gerald's Game, 2017), o público foi pego de surpresa com essa nova e fresquinha adaptação, que também leva o selo do serviço.

Stephen King rende bons filmes quando bem adaptado, mas o difícil é encontrar quem o faça com categoria, pois suas obras são cheias de nuances, referências e metáforas embrenhadas em toda sua cabeça fantástica e macabra. Eclético e variado, por mais que alguns temas sejam recorrentes em suas obras, se distanciam umas das outras pelas diferentes abordagens, pela narrativa, pelas referências e analogias distintas. Enfim, é um autor que possui qualidades até mesmo nos menores contos, ou nos livros menos conhecidos.

1922 chega para provar que suas melhores adaptações são aquelas sem pretensões de impressionar ou serem grandes blockbusters. Baseado em uma história publicada na coletânea Escuridão Total Sem Estrelas (Full Dark, No Stars, 2010), a adaptação é uma produção pequena e contida, dirigida, escrita e produzida pelo desconhecido australiano Zak Hilditch, um filme considerado pelo pelo próprio autor uma das melhores adaptações de suas obras em 2017.

Não é por menos. A produção é recheada de qualidades que faltam em muitos de seus outros títulos já adaptados, extraindo da história todos os elementos e características do autor de uma forma bastante homogênea, linear e densa, diferente, por exemplo, de Jogo Perigoso, que tropeça várias vezes, mas sem cair.

Aqui a história gira em torno de Wilfred (Thomas Jane) e Arlette (Molly Parker), e da dificuldade de ambos em levar adiante uma relação infeliz e indesejada, já que cada um deles possuem objetivos e vontades diferentes, mas continuaram juntos apenas para criarem e educarem o único filho, a verdadeira razão de terem se casado.

Enquanto Arlette quer vender os 100 acres herdados de seu falecido pai e abandonar a vida rural que tanto detesta, Wilfred deseja agregar a herança de sua mulher à fazenda que já possuem, e assim terem um território generoso e produtivo que garantirá o futuro de seu filho e de futuros netos. Arlette recusa a proposta e ameaça seu marido com o divórcio e também em levar seu filho com ela para a cidade caso ele persista na idéia de permanecer na fazenda. Desesperado, Wil quer tanto manter a fazenda como seu filho por perto, o qual também não tem vontades de se mudar para a cidade principalmente porque está apaixonado por sua vizinha. Sem encontrar alternativas, Wil começa a voltar seu filho contra sua própria mãe, e assim cultivar nele o ódio necessário para que ele o ajude em um cruel e diabólico plano de assassiná-la.

A década de 20 nos Estados Unidos foi marcada por um extenso crescimento industrial que avançava com bastante força e rapidez para o oeste e sul do país, ainda consequências da Guerra Civil (Secessão) e da Primeira Guerra Mundial, marcando a ascensão americana como grande potência não apenas bélica, mas política e econômica até a Grande Depressão devastar o país em 29 e perdurar pela década de 30. Na parte central, no interior do estado de Nebraska, onde a história se passa, a chegada de fazendeiros corporativistas e de indústrias alimentícias marcava o fim da vida pacata e autosuficiente dos fazendeiros e da vida rural simples e comum, mostrando a todos que o futuro finalmente havia chegado e, junto com ele, o progressismo comercial e suas consequências.

A princípio, e de maneira bastante superficial, pode parecer que o enredo se trate apenas de um jogo macabro de interesses e oportunismos, porém é aí que a mente brilhante de King começa a tomar forma, porque podemos enxergar nos personagens o conflito que o avanço tecnológico e industrial trouxe para aquela época. Não é à toa que Arlette quer abandonar a vida rural para ir atrás de um futuro promissor, no sonho de ter sua própria boutique, numa época que a moda começava a abandonar sua rigidez e a modestamente mostrar uma personalidade mais ousada e consumista (como no momento em que são citadas as calças jeans, por serem mais confortáveis às mulheres em "longas viagens"), enquanto Wil pretende a todo custo manter sua tradição enraizada no mesmo lugar, longe de coisas que possam corromper seu bucolismo (como no momento que sente ter inveja de seu vizinho pelas coisas que possui). E o filho, no meio de tudo, ligado a meros valores ingênuos que serão interrompidos com a cruel realidade em algum momento, tão rápido e fácil quanto dar a partida em um carro.

A resistência de Wil em migrar para a cidade é de igual intensidade a Arlette em permanecer com ele, algo que, quando visto por essa metáfora, se reflete na brutal cena de seu assassinato, na dificuldade de Wil em matá-la e na resistência dela em morrer, como a querer mostrar que o futuro pode ser postergado, mas é inevitável, e o lado mais forte sempre vence. Tanto que Wil é constantemente obrigado a ceder a necessidades mais cosmopolitas, aos poucos deixando suas origens e cortando (literalmente) suas raízes e ferramentas de trabalho, chegando a um triste fim, preso em um quarto de hotel, refém de suas próprias escolhas.

O diretor e roteirista tem êxito a transpor para a tela essas delicadas referências responsáveis por dar razões subliminares aos conflitos sem parecerem que foram simplesmente jogados na história sem qualquer razão. E a partir dessas sólidas fundações, o horror, o sofrimento psicológico e a punição passam a ser construídos. E Tomas Jane, numa caricatura um tanto similar a de Duke Mantee, imortalizado por Humphrey Bogart no clássico A Floresta Petrificada (1936), embarca numa jornada quase cíclica de consequências e culpas, e como o peso de um homicídio gradativamente retorce a consciência e consome a alma de quem o comete.

Ao contrário de nos depararmos com um protagonista tendo atitudes heróicas, como aconteceu com o próprio Jane na adaptação de Frank Darabont de O Nevoeiro (2007), aqui presenciamos totalmente o inverso: o nascimento de um genuíno vilão concebido pela sua própria ambição, do qual somos incapazes de encontrar qualquer simpatia até mesmo nos momentos de honesto e tardio arrependimento, e dessa forma, toda a atmosfera sombria se desenvolve como delírios de Edgard Alan Poe, autor também bastante referenciado, já que o conto de King também é visto por muitos como uma releitura de O Coração Revelador (The Tell-Tale Heart, 1843), por possuir os mesmos elementos góticos.

Hilditch conduz tão bem a narrativa e seus pormenores que a sensação de assistir a adaptação de um conto é nítida. Não pelo seu tempo ou aparente simplicidade, mas pela forma condensada como é construído, focado em um pequeno número de personagens, em espaços sucintos, sem obviedades desnecessárias ou qualquer outro elemento que desvie a atenção do espectador. E embora a fotografia seja belíssima até mesmo nos momentos mais indigestos, a saturação da imagem não favorece a sensação de época que o longa poderia ter tido. E por alguns momentos o filme se estende demais em situações que poderiam ter sido mais curtas, e assim ter dado oportunidade para os personagens nos darem maiores motivos para entendermos melhor suas intenções.

De qualquer forma, como um todo, é sem dúvida uma das melhores adaptações de King até hoje, que obviamente poderá não agradar aqueles que preferem os filmes baseados em suas histórias de terror mais físicas e óbvias. Não causa medo e nem sustos baratos, mas há material de sobra para ser apreciado como um genuíno conto macabro que progride de maneira bastante correta em sua proposta, além de bastante ousado numa época em que os filmes mais comerciais tem abusado de clichés levianamente para se manterem confortáveis e igualmente sem surpresas.

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