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terça-feira, 5 de janeiro de 2016

IGNORÂNCIA É O MAIOR DEFEITO...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Os Oito Odiados (The Hateful Eight)
Ano: 2015
Gênero: Suspense, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Quentin Tarantino
Elenco: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Demian Bichir, Tim Roth, Michael Madsen, Bruce Dern
País: Estados Unidos
Duração: 167 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Oito pessoas desconhecidas se protegem em um abrigo durante uma nevasca que poderá durar dias, mas as desconfianças entre eles aumentam conforme seus interesses particulares são ameaçados.

O QUE TENHO A DIZER...
Eu sou fã de Tarantino. Mas não sou aquele fã que ficou fã porque Pulp Fiction (1994) é cult e referência do cinema pop moderno. Fiquei fã depois que essa onda passou e saquei que, de fato, ele é (talvez) o único diretor atualmente capaz de transformar a cultura pop e inútil em algo consistente e relevante no cinema. Tá... também temos Guy Ritchie em uma menor escala, que pode ser a versão mais britânica e descomprometida de Tarantino. Mas a diferença entre um e outro é que todos os filmes de Tarantino são atraentes de alguma maneira e tecnicamente muito bem acabados. Pode ter uma ou outra pessoa que goste menos ou até odeie algum título, mas é inegavel que sua meticulosidade em detalhes seja o que se destaque dos demais cineastas de sua geração porque aquele cabeção é uma biblioteca ambulante de referências que nem mesmo o mais consumista dos consumistas conseguiria identificar de onde vem tanta coisa.

Vale também dizer que, tecnicamente, este não é seu oitavo filme, mas o nono. Muita gente errando as contas ao se esquecer que ele dividiu com Robert Rodriguez a direção em Grindhouse para a sessão Prova de Morte (Death Proof, 2007), assim como também muita gente não conta que seu primeiro filme foi O Aniversário do Meu Melhor Amigo (My Best Friend's Birthday, 1987), e não Cães de Aluguel (Reservoir Dogs 1992). Mas para ficar bonito no poster, fantasiosamente este é seu oitavo filme mesmo, aquela coisa autoral, dirigido e escrito por ele e unicamente ele.

Curiosamente a história do filme se passa no mesmo período e universo que se passou seu filme anterior, Django (2012), sendo enfático ao afirmar que não é uma continuação, embora o complemente. Aqui ele novamente traz à tona o estilo Western (faroeste), porque ele é fã do gênero e o referencia em tudo que é possível, até mesmo quando tem nada a ver. O que se tornou sua marca registrada ao longo dos anos, praticamente uma marca d'agua em seu trabalho.

Inspirado nos seriados de faroeste pastiche dos anos 60, como Bonanza (1959-1973), e dos vilões que sempre apareciam neles para capturar o herói e fazer de todos reféns, a idéia de Tarantino foi simples: e se ele pegasse apenas esses bandidos e os colocassem juntos em um mesmo lugar, nada de mocinhos, nada de heróis, apenas os mais abomináveis deles encarcerados por um azar do destino, como uma terrível nevasca tal qual no filme O Enigma de Outro Mundo (The Thing, 1982), onde ninguém confia em ninguém e todos são uma ameaça?

E a idéia que parecia simples e teatral demais se engrandeceu daquela forma tarantinesca de sempre, desenvolvendo a linha narrativa a partir dos próprios personagens, e não a partir de uma história pré concebida. Ou seja, Tarantino nunca irá contar, por exemplo, uma história sobre um assalto a banco. Ele primeiro irá apresentar um personagem que encontrará outros personagens, o qual contará para todos como o assalto ocorreu de forma que cada um deles ficará na dúvida se aquilo de fato aconteceu daquela maneira. Igual história de pescador: verdadeira, mas exagerada. É isso que ele sempre faz, e que volta a fazer aqui.

Portanto, partindo-se do princípio de que "se a coisa está ruim, vamos piorá-la", é exatamente isso que vemos em cada um dos oito personagens. E o "odiados" do título não é à toa. Eles realmente são isso. Os exemplos da escória da humanidade está em cada um deles, desde a alegoria corrupta à racista, do chefe de quadrilha ao assassino frio e calculista. O niilismo é grande. Não chega a ter um pessimismo tão forte e contundente como em Onde Os Fracos Não Tem Vez (No Country For Old Men, 2007) por conta do humor negro e sarcástico presente, mas por outro lado consegue mostrar que é realmente a ignorância a mãe maior de todos os defeitos, ao qual estaremos condicionados eternamente. Não há espaço para heroismo, embora haja breves momentos de redenção ou até uma singela mudança comportamental, mas nada disso salvará qualquer um deles do fatídico destino.

Quando pensamos que um personagem finalmente terá um momento de luz e bondade, ele se revela um abominável monstro da neve. E isso tudo, na realidade, é a forma que Tarantino tem de, como disse um crítico, soltar mais uma vez o grito de raiva sobre o grandioso problema racial que ainda existe entre os norteamericanos. Um filme que também afirma em Dó Maior de que todos nós nunca superamos a escravidão, nos fazendo pensar se a única maneira para isso será através da crua brutalidade. Não é à toa que este filme complementa Django de alguma forma, pois revela que mesmo apesar de tanto esforço e mudanças, tudo continua quase da mesma forma até hoje. 

Por vezes, o teor sociopolítico chega a ter escalas próximas ao do filme A Floresta Petrificada (The Petrified Forest, 1942), quando este foi uma forte metáfora à Grande Depressão que ocorreu nos EUA logo após a Primeira Guerra. A ambientação inóspita e teatral, o encarceramento, o crescente conflito entre os personagens e seus graus de confiança também tem o mesmo peso. Obviamente o texto de Tarantino não consegue ser tão sério e sutil como o clássico filme de Archie Mayo, até porque, como dito, Tarantino não é clássico. Mas é bastante providencial que a A Floresta está para a Grande Depressão tanto quanto Odiados está para a Guerra Civil.

Que Tarantino sempre exagerou no sangue, transformando a violência em um absurdo cômico, isso é fato. Então a neve chega, a tensão aumenta, as armas são sacadas, o sangue esparramado e as cabeças estouradas. E um pouco diferente do humor sarcástico de seus filmes anteriores, aqui consegue ser mais desconfortável, corrosivo como ácido, construído por vezes na intenção proposital de constranger. Sem dúvida é impossível conter as gargalhadas quando Major Warren (Samuel L. Jackson) conclui a forma como ele tratou o filho do General Smithers (Bruce Dern), pois é de um sadismo tão surreal e justificado que elas saem não porque é engraçado, mas porque nos incomoda, nos desafia e atinge diretamente nossos piores defeitos. Gargalhamos automaticamente não para alivar o peso da situação, mas para aliviar a consequência da ignorância, da vergonha, do ponto em que ambos personagens precisaram chegar para um demonstrar sua razão e o outro seu arrependimento. São gargalhadas de fuga tal qual o sulismo gótico de Killer Joe (2011), quando Matthew McConaughey obriga Gina Gerson a fazer sexo oral em uma coxa de frango.

Brilhante também é a personagem de Jennifer Jason Leigh, que aparentemente parece estar lá apenas para figurar e para todo momento ser humilhada, chacotada e tratada como um animal qualquer. Uma personagem patética do início ao fim que representa, nada mais, nada menos, que todas as pessoas do mundo igualmente patéticas como ela. Talvez a personagem conceitualmente mais forte de todo o elenco no sentido de representação de uma sociedade lamentável, aquela que só abre a boca para dizer o que não presta e mesmo assim é ouvida por muitos. Kurt Russel também oferece uma das suas melhores performances em um anti-herói tão interessante quanto o de Jackson, mas que, dentro de todo o universo pessimista em que está inserido, se torna o elo mais fraco da história.

Não há nada diferente do que Tarantino já fez em seus filmes anteriores, mas o que sempre chama atenção e ainda oferece esse tom de novidade ao ponto de cada novo filme ser um evento é que, para que todo esse universo que ele cria tome forma, os personagens são muito bem construídos, e ele nunca tem preguiça em desenvolvê-los. A riqueza de detalhes é sempre tão grande que ele realmente pinta a característica e a personalidade ao ponto de primeiro nos interessarmos por eles, para depois ouvirmos o que eles têm a contar. Particularmente acho isso brilhante, porque é difícil atrair o interesse do espectador por esse lado no cinema porque demanda tempo e paciência. Por isso que seus personagens são sempre visualmente muito bem caracterizados, até mesmo quando há aquela cafonice de detalhes que simbolizam a marca da maldade, como o tampão de olho de Elle Driver em Kill Bill (2003), ou o refinado sadismo de Landa em Bastardos Inglórios (2009), técnicas clássicas da ficção para fazer um personagem se tornar memóravel tal qual uma marca registrada, ficando fácil associar sua personalidade à característica.

Mas isso tudo, ao mesmo tempo que é uma grande virtude, também é um grande defeito. Tarantino perde muito tempo até chegar ao finalmente de alguma coisa, desenvolvendo tudo de formas que apenas faz sentido na cabeça dele, mas que para o resto das pessoas não faz a mínima diferença ou tem a menor importância, como a longa tomada dos cinco minutos iniciais para enfatizar a trilha original de Ennio Morricone. Cinco minutos com a câmera em cima da neve e de uma imagem de Jesus crucificado até a carruagem passar. Ok... em um minuto pude imaginar dezenas de significados que aquela imagem poderia ter para o filme (ou até não ter), e o resto foi bocejo. No fim, a maior conclusão que se tira disso é que ele não vai ter pressa alguma durante os 160 minutos divididos em seis prolongados capítulos, onde o penúltimo vai servir mais como um interlúdio do que algo realmente necessário para a história.

O capítulo cinco (entitulado Os Quatro Passageiros) podia muito bem não ter existido, não apenas para aliviar o tempo do filme, mas também para não estragar todo o suspense e a ambientação que ele demora horas para construir e convencer o espectador. Podia muito bem ter sido substituído por uma breve explicação por parte de algum outro personagem, já que somos praticamente esclarecidos de tudo muito antes devido à perspicaz observação do personagem de Samuel L. Jackson. Isso faz o capítulo se destoar do resto e empobrecer todo o desenvolvimento quando personagens indeterminados como Minnie e Sweet Dave faziam muito mais sentido no imaginário do espectador do que no do próprio diretor. São nessas horas que Tarantino erra, revelando o que não precisava ser revelado, e falando demais quando poderia ter ficado quieto. Até mesmo sua narração repentinamente entra na história de maneira desnecessária, como se ele percebesse que alguém está perdendo o interesse, servindo mais para recapitular quem cochilou em algum momento do que nos dar a impressão de que o que vemos é um livro interpretado, uma quase representação teatral de seu texto.

É notável a forma como Tarantino tem conseguido desenvolver a crítica social nos seus últimos filmes sem fazer com que as pessoas percam o interesse por ele. Afinal de contas, assim como qualquer artista pop, a função é disseminar uma idéia da maneira mais abrangente possível, por mais que ela seja difícil de ser compreendida. Por essas e outras que seus esforços são louváveis, mas sua pretenção por vezes atrapalha o resultado. Odiados poderia ter sido um de seus melhores filmes por conta de seus personagens alegóricos, das situações metafóricas, do peso crítico embutido, da atualidade e seriedade de sua temática, mas se perde na falta de objetividade e peca pelo excesso. Ainda assim, por algumas e outras razões, merece ser assistido, principalmente porque ele sabe dominar técnicas, rendendo momentos prazerosos como o plano sequencia de dois minutos em que Daisy (Jennifer Jason Leigh) observa seus inimigos beberem o café enquanto toca violão, momentos em que sabemos que Tarantino não erra e que percebemos porque gostamos dele até mesmo quando não concordamos com seus exageros.

CONCLUSÃO...
Poderia ter sido um dos melhores filmes do diretor se não fosse seu excesso de confiança e da costumeira falta de objetividade. Não chega a ser esquecível, mas não tem o mesmo apelo de seus filmes anteriores, embora o teor sociopolítico seja louvável da mesma forma como foi em Bastardos e Django. E entre alguns momentos canseira e outros, há aqueles que realmente valem a pena serem vistos, mas que ficam foram do contexto se vistos isoladamente, o que nos obriga nos arrastar por muita coisa desnecessária e redundante.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O XEQUE MATE DE CRONEMBERG...

★★★★★★★★☆☆
Título: eXistenZ
Ano: 1999
Gênero: Ação, Suspense, Comédia
Classificação: 16 anos
Direção: David Cronemberg
Elenco: Jennifer Jason Leigh, Jude Law, Willen Dafoe, Iam Holm, Sarah Polley
País: Canadá, Inglaterra
Duração: 97 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma importante projetista de jogos de realidade virtual organica passa a ser perseguida por um grupo de fundamentalistas contrários à biotecnologia utilizada e a deformação da realidade. Durante sua fuga, a única cópia de seu mais recente jogo, chamado eXistenZ, pode ter sido danificado. Para descobrir isso, ela deverá se conectar a ele e jogá-lo para descobrir se algum dano em sua programação tenha ocorrido.

O QUE TENHO A DIZER...
Ao longo de sua carreira, David Cronemberg deixou evidente sua fixação sobre a relação dos homens com a tecnologia numa proporção equivalente ao próprio avanço dela mesma. Isso se tornou praticamente uma obsessão por conta da frequência com que ela é tratada em seus filmes, seja diretamente, como acontece aqui, ou em Videodrome (1983), ou em A Mosca (The Fly, 1986), como também até em outros títulos onde o tema foi abordado indiretamente, como no seu mais recente Cosmopolis (2012).

Portanto, a tecnologia como um assunto corriqueiro e cotidiano não é apenas uma regra como parte de seu estilo, como uma preocupação pandêmica. Raramente, entre um filme com uma abordagem diferenciada ou outra, como Marcas da Violência (A History Of Violence, 2005) ou Senhores do Crime (Eastern Promises, 2007), acaba não havendo espaço para isso, mas não significa que ele tenha esquecido.

eXistenZ surgiu numa época muito propícia e de transição para o novo milênio. Realmente um período onde eram debates mundiais questões sobre a tecnologia, os computadores, a internet, o "boom do milênio", a transformação dos jogos eletrônicos em grandes centros de entretenimento, as realidades virtuais e até que ponto o homem estaria disposto a transformar a tecnologia em uma extensão do seu prazer. Acreditava-se na época que a realidade virtual estava mais próxima do que imaginavam, e algo que também assombrava muita gente por ser um mundo completamente desconhecido. Um tema sempre discutido no cinema, seja em Tron (1982), O Passageiro do Futuro (The Lawnmower Man, 1992), Matrix (1999), O 13º Andar (The 13th Floor, 1999), dentre diversos outros que não me lembro agora.

Das discussões recorrentes nos filmes do diretor canadense, ele sempre pautou de forma um tanto religiosa que o futuro dos homens será buscar novas formas de prazer, ou novas formas de intensificá-lo. Foi o que ele cruelmente fez com Crash (1996), talvez o seu filme mais controverso por ir tão fundo no tema de forma patológica e autodestrutiva.

Cronemberg conseguiu levar para a tela o lado mais insano e perverso do ser humano sobre o prazer sexual, sempre mantendo uma coerência assustadora com a realidade, de forma que os personagens nunca impõem suas vontades aos outros como a doutrinar os inocentes, são eles mesmos quem escolhem se aprofundar neste labirinto fisiológico tão instintivo e primitivo. Seus filmes são complexos, muitas vezes difíceis de serem assistidos, que facilmente tendem a despertar a repulsa, mas ainda sim objetos de discussão coerentes com a contemporaneidade.

eXistenZ é parte disso, e figura entre os clássicos do diretor. Mais visceral e atordoador do que seu colega pop Matrix, lançado no mesmo ano, Cronemberg joga para o público a responsabilidade de uma realidade aumentada e sem limites. A busca de diferentes prazeres através de alternativas responsáveis por fazer os homens perderem o seu próprio controle tal qual uma droga intoxicante qualquer. Não é à toa que no filme todos os equipamentos possuem texturas orgânicas familiares, mas nada convencionais, que se assemelham a protuberâncias ou orifícios humanos. Há também o medo de alguns personagens pela chamada "penetração cirúrgica", já que cientificamente um dos medos natos do homem é a corrupção de seu próprio corpo, ou seja, a invasão de corpos ou objetos estranhos, como um caco de vidro, uma ferpa, uma agulha ou um falo. O estupro propriamente dito. Isso é proposital para que Cronemberg deixasse evidente até que nível o ser humano está disposto a atingir para adquirir novos estímulos além das formas tradicionais de buscar o prazer, que com o tempo perderam a graça (segundo o que ele, talvez, implicitamente propõe).

O diretor não chega a discutir o prazer em suas formas perversas como o masoquismo, a laceração e submissão da forma como fez em Crash, ao contrário disso, ele sugere que o prazer carnal não existirá mais no futuro. No lugar disso, iremos atrás de outras experiências que possam nos satisfazer constantemente de outras formas, como as possibilidades de criar e destruir, mandar e desmandar, ter o controle e o poder de absolutamente tudo. E o único lugar onde podemos ter tanta autonomia é apenas no mundo virtual, considerado pelo diretor um espaço democrático, pois dá oportunidade a todos de serem e experimentarem o que quiserem, algo que se mostrou verdadeiro com o âmbito que a internet tomou no cotidiano das pessoas.

Ao longo do filme os personagens já não sabem mais se o que acontece é parte do jogo ou da realidade, essa situação não apenas é imersiva como confusa por conta da irresponsabilidade de ultrapassar os limites que eles mesmos desconhecem e a possibilidade de serem tão onipotentes. Por isso, de certa forma, o filme também lida com a religiosidade e o poder no questionamento do ser humano ser ou não capaz de se aproximar de seu próprio criador. É por essa razão que um dos objetivos principais do jogo eXistenZ dentro da história do filme é a "morte ao demônio", que se refere ao projetista desenvolvedor daquela realidade virtual. Ou seja, morte ao humano que se passa por deus. Tanto que a referência a isso está no próprio título do filme, onde "isten" significa "deus" em hungaro.

O que é mais interessante de toda a produção é que, mesmo sendo de 1999 e falando de um futuro tecnologico ainda bastante distante, não há aquela sensação de produção datada. Toda a direção de arte é bastante neutra, e Cronemberg foi inteligente o bastante ao falar do futuro e da tecnologia utilizando a nossa própria realidade para isso. É como se ele também quisesse nos mostrar que o nível de fidedignidade com a nossa realidade será tão grande ao ponto de ser impossível distinguir onde está a linha que separa os dois mundos. Além disso, ele também utiliza suas esquisitas angulações de câmera para dar um certo tom de deboche, uma sátira surreal da nossa realidade, como sonhos desconexos, responsáveis também por destacar devaneios que o mundo virtual possa apresentar, como erros, ou "bugs" do sistema, algo similar ao gato preto em Matrix.

Há também um humor negro muito presente dentro deste contexto satírico no intuito de enfatizar absurdos que realmente não fazem parte de nosso cotidiano, como o nojento e ao mesmo tempo engraçado momento em que o personagem de Jude Law monta uma arma orgânica com restos encontrados em um ensopado e a carrega com os dentes de uma prótese que ele tira de sua própria boca e diz: "eu não uso ponte, meus dentes são perfeitos". São esses elementos que diferenciam as realidades sobrepostas e situam o espectador dentro dos diferentes mundos (além do próprio cabelo da personagem principal, que é liso quando no mundo real e frisado nos mundos virtuais, mas isso você pode fingir que não leu).

Se o diretor é ou não um jogador de verdade, não dá pra saber, mas ele soube encaixar elementos muito característicos de jogos que obrigam a interação do jogador com personagens não jogáveis. Um dos momentos mais evidentes disso é quando é citado o looping de ação de um dos personagens "não jogáveis" da história, que entra numa sequência de ação repetida até que o personagem principal dê o comando exato para que o sistema compreenda que uma ação foi realizada e seja dada uma ordem para a próxima etapa. O diretor é tão meticuloso nos detalhes que o filme também é um prato cheio para qualquer gamer nerd de plantão. E acreditem, na época em que o filme foi feito, eram pouquíssimos os jogos de mundo aberto como é proposto no filme, e os que existiam ainda eram muito limitados. Muitos jogos hoje chegaram bem próximos ao sistema proposto no filme de um mundo aberto, interativo e com objetivos a serem alcançados, aumentando a interatividade de ações entre jogadores e o mundo virtual ao ponto de perdermos a completa noção de tempo e espaço, tamanha a imersão. Ou seja, sem querer, Cronemberg conseguiu levar para a tela boa parte daquilo que os jogos se transformaram hoje. Claro que para chegar ao nível de realidade do filme, há muito futuro pela frente ainda, mas a essência interativa dele já existe de certa forma.

Vale muito ser assistido mais de uma vez para que a atenção seja dada a pequenos detalhes antes ignorados. Dezesseis anos depois ainda entramos na atmosfera do filme como entramos nos jogos de hoje, mas Cronemberg vai além e nos leva a uma paranóia crescente desenvolvidas com efetividade até os créditos finais numa realidade sufocante. Só não sabemos qual realidade é essa, e esse é o grande cheque mate de Cronemberg sobre nossas percepções. Será que um dia chegaremos a este ponto?

CONCLUSÃO...
Embora esquisito, surreal e confuso como sempre, eXistenZ é o Cronemberg autoral e brilhante, completamente contrário à convencionalidade. Ousado e um tanto visionário, ele questiona os limites da criação, a religiosidade e o vício pelo poder, a droga prazerosa mais fatal que o ser humano descobriu.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

BEM VINDA MATURIDADE...

★★★★★★★★☆☆
Gênero: Drama, Romance, ComédiaTítulo: O Espetacular Agora (The Spectacular Now)
Ano: 2013
Classificação: 12 anos
Direção: James Ponsoldt
Elenco: Miles Teller, Shailene Woodley, Brie Larson, Kyle Chandler, Jennifer Jason Leigh
País: Estados Unidos
Duração: 95 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um rapaz de 18 anos que entra em choque com sua própria realidade quando conhece uma garota prestes a entrar em choque com várias realidades.

O QUE TENHO A DIZER...
O Espetacular Agora é o terceiro filme do diretor James Ponsoldt, com roteiro dos mesmos escritores de (500) Dias Com Ela (500 Days Of Summer, 2009) e é baseado no livro homônimo de Tim Tharp. Teve estréia no Festival de Sundance de 2013, o qual foi bem recebido e, em geral, recebeu comentários bastante positivos da crítica mundial.

Mas ao contrário da espetacular comédia romântica (500) Dias Com Ela, esta não é uma comédia, e muito menos romântica, muito embora tenha alguns esparsos momentos cômicos e românticos, sendo assim que o filme tem sido divulgado, quando na verdade é um drama romântico adolescente incomum, que surpreende por ter uma abordagem madura o suficiente para servir até como uma metáfora, ou mais precisamente, uma indireta aos mais velhos que o assistirem, pois consegue ser sério e adulto em sua mais pura essência, mesmo que atuado por jovens cujos conflitos giram em torno deles.

Sutter (Miles Teller) é um garoto aparentemente comum como qualquer outro de sua idade, ele não é muito atraente e muito menos faz parte do time de futebol do colégio, mas mesmo assim é um grande conquistador e mulherengo por ser inteligente, engraçado, extrovertido e bastante seguro de si, mas incapaz de levar qualquer coisa a sério como deveria. Sutter vive o agora, e o alimento de sua felicidade é consumir o prazer momentâneo a todo instante, o que o faz ser, com apenas 18 anos, um alcólatra. É em um desses momentos que, na tentativa de esquecer sua ex-namorada, ele é encontrado em coma alcólico no jardim da casa de Aimee (Shailene Woodley), uma garota simples que estuda no mesmo colégio, mas que ele nunca notou. Aimee é completamente diferente de Sutter, mas na intenção de conhecer uma nova garota para esquecer a anterior e usá-la para alimentar suas felicidades e prazeres, ele tenta conquistá-la. Entre vários encontros e longas conversas ele descobre que Aimee é mais do que simples e comum, é uma garota com um intenso potencial adormecido e reprimido por uma vida sem graça e uma mãe codependente, e por isso ele se sente tentado a libertá-la disso de alguma forma enquanto ela vê nele a descoberta de experiências que ela nunca teve e o primeiro passo para caminhar em um mundo de satisfações e desgostos que até o momento desconhecia.

O personagem acredita ser, por excelência, auto suficiente e um tanto arrogante na sua forma, com uma visão muito branda e superficial sobre as coisas e sobre ele mesmo. A princípio Sutter consegue ser bastante antipático e inconveniente, principalmente na primeira meia hora, mas toda essa superficialidade que ele demonstra esconde problemas muito mais sérios e que ele não consegue lidar, como a ausência paterna desde seus 8 anos de idade, o distanciamento de sua mãe e irmã mais velha, a cobrança de seus professores sobre seu baixo rendimento escolar, a impressão subestimada e maldosa que seus colegas tem sobre ele pelas costas, além do abandono de sua ex-namorada que, para ele, foi por ela simplesmente ter se apaixonado pelo chefe do time do colégio. Ele age como se não ligasse para nada disso porque, já que sua filosofia de vida é viver o momento e não pensar no futuro porque isso o assombra e demanda responsabilidades que ele não sabe se é capaz de cumprir, então qualquer responsabilidade que ele tenha é tratada com bastante descaso.

O filme desenvolve todas essas características do personagem às avessas, começa mostrando-o como um garoto chato e inconsequente, sendo tortuoso pensar em aturar esse comportamento arrogante por todo o filme ao ponto de não acreditarmos em suas atitudes, mesmo quando estas são as mais sinceras possíveis, pois apesar de tudo ele é honesto com as pessoas sobre suas vontades e sua forma de pensar. Mas aos poucos o roteiro quebra a casca em que ele vive, ou melhor, tira tijolo por tijolo da muralha que ele construiu à sua volta. E então todas suas camadas aparecem, e lentamente toda a confusão emocional e sentimental que ele vive se revelam, momento quando finalmente o espectador se sensibiliza, a empatia acontece, Sutter se transforma em um jovem incompreendido que a todo momento luta contra ele mesmo e  (ufa!) o filme finalmente toma sua forma.

Com certeza é um dos personagens mais complexos a ter sido adaptado no cinema norteamericano nos últimos anos, e de uma forma tão simbólica e relevante que é difícil definí-lo por inteiro, pois ele representa várias situações e fases da vida, sendo a própria adolescência uma pequena fração dela. Pode ser que no livro o personagem não seja tão complexo dessa forma, mas a construção dada nele pelos roteiristas é, e seu desenvolvimento na história ficou brilhante.

Ao contrário dele, Aimee é a verdadeira representação da pureza e ingenuidade prestes a serem corrompidas quando o choque com a realidade acontecer e todas as coisas que um dia pareciam tão belas, se tornarem sujas. Ela é a única personagem com uma atitude mais equivalente com sua idade, e muito embora sabemos desde o início que ela irá sofrer, também sabemos que este sofrimento é necessário para seu crescimento e fortalecimento psicológico e emocional típicos de quem passa por certas dificuldades pela primeira vez.

O roteiro até consegue nos pegar de surpresa quando, confrontado por sua mãe (Jennifer Jason Leigh), o personagem finalmente tem um insight de que o problema não são as coisas ou pessoas a sua volta, mas suas próprias atitudes sugestionadas pela descrença que ele tem por ele mesmo e seu precoce alcolismo que só piora conforme ele se confronta mais e mais com seus problemas. Essa cena dura e emocionante é uma das várias que acontecem, e que mostram por si só que o filme não é um passeio pelo parque, mas uma grande e difícil tarefa de encararmos as dificuldades e aceitar as responsabilidades.

A seriedade até poética com que o filme trata uma fase tão complicada da vida de descobertas, conflitos e desapontamentos se assemelha muito com As Vantagens de Ser Invisível (The Perks Of Being a Wallflower, 2012) no sentido de não subestimar nenhum público e muito menos exagerar em cliches na tentativa de criar uma identificação fácil com um tipo específico, mas enquanto este outro filme trata do tema com adolescentes vivendo suas felicidades e infortúnios típicos da idade e da busca pela maturidade dentro de uma linguagem bastante expressiva e relevante, neste filme essa referência de idade só existe para, talvez, intensificar todos os conflitos dramáticos tratados, que em realidade são universais, atemporais e sem classificação etária.

CONCLUSÃO...
Um drama romântico incomum, que mostra um personagem que sofre com as dificuldades de aceitar as responsabilidades por pontos de vistas tão sérios e conflitantes que, ao contrário do que se supõe, chega a não ser um filme agradável para aqueles que esperam um belo casal romântico no final, mas um filme que conquista aos poucos, e aos poucos revela que há um pouco de Sutter em todos nós.
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