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quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

VALE CADA MINUTO...

★★★★★★★★★☆
Título: O Regresso (The Revenant)
Ano: 2015
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Alejandro Gonzáles Iñárritu
Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Pouter, Forrest Goodluck
País: Estados Unidos
Duração: 156 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um caçador de peles é atacado por um urso. Gravemente ferido e debilitado, é deixado à morte por seus colegas. Motivado pelo sentimento de vingança, trava uma batalha com a própria natureza em luta pela sobrevivência.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando Gravidade (Gravity, 2013) foi lançado, o mexicano Alfonso Cuarón trouxe de volta para o cinema os longos planos sequência (cenas sem cortes) de 5 a 10 minutos. Foi necessário um mexicano fazer isso para a técnica novamente virar tendência em Hollywood, assim como foi necessário outro mexicano, o amigo Alejandro Gonzales Iñárritu, para ultrapassar essa barreira com Birdman (2014), ao realizar um longa aparentemente feito em uma única sequência.

Não que ninguém tivesse feito isso antes. Hitchcock mesmo fez isso com Festim Diabólico (1948), mesmo com todas as limitações tecnológicas da época. A verdade é que o filme tem cortes, sim. Mas são imperceptíveis tal qual o clássico citado.

Birdman surpreendeu e agradou toda a crítica, que o considerou ousado. O que ele realmente é. Tanto que será referência futura assim como Festim Diabólico é até hoje.

Talvez um tanto inflado com o resultado do seu filme anterior, Iñárritu aproveitou o nirvana para mergulhar em um projeto no qual novamente escolhe o caminho mais difícil. Na intenção de que tudo parecesse realista o bastante, realizou cenas e filmagens da maneira mais crua e com o mínimo de equipamentos possível. As filmagens foram realizadas cronologicamente em um total de 80 dias dentro de em um período de 9 meses porque a mirabolante idéia da vez foi utilizar uma estética de filmagem que utilizasse apenas a luz natural em locações reais.

Obviamente que isso deixou a equipe técnica de cabelo em pé porque dependiam da boa vontade da natureza para que tudo desse certo em um cenário onde havia tudo para dar errado. Um único momento em que o tempo não contribuísse, era o suficiente para o dia de trabalho ser perdido. O caso mais grave foi na reta final de filmagem, em que o gelo das locações canadenses derreteu, impossibilitando a continuidade. Toda a equipe teve que se mudar para o sul da Argentina para encontrar situação climática similar, o que felizmente conseguiram em cima da hora, já que o verão se aproximava.

Esse constante de situações inesperadas e estressantes gerou grandes divergências no set, intensificados pelo temperamentalismo e exigência de Iñárritu ao ponto de várias pessoas deixarem o projeto no meio do caminho, ou serem demitidas pelo próprio diretor, como aconteceu com um dos produtores. Houve até discussões entre ele e o ator Tom Hardy por conta da falta de segurança que o ator sentia na realização de algumas cenas.

Excentricidades à parte, no fim tudo valeu a pena porque o resultado é realmente impressionante e o filme é definitivamente de cair os queixos por aí.

A história se passa no começo do século XIX, narrando a história de Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), um caçador de peles que, após ser brutalmente atacado por um urso marrom, é abandonado por seus colegas e deixado para a morte nas florestas gélidas do norte dos Estados Unidos. Ferido, sem suplementos ou armas, e em meio a uma guerra entre brancos e índios da tribo Arikara por conta de domínios territoriais e inclusive pelo direito a exploração de pele, Glass faz uma peregrinação de sobrevivência por mais de 300km com o único intuito de vingar a morte de seu único filho, fruto de uma relação entre ele e uma índia Pawnee no passado, o qual foi assassinado friamente por Fitzgerald (Tom Hardy), um de seus colegas de caça.

A experiência realista que Iñárritu cria consegue ir muito além de qualquer outro filme de sobrevivência solitária que foi lançado nos últimos anos. Primeiro porque, com excessão de algumas informações fictícias, grande parte do filme é baseado em fatos verídicos. Segundo porque as filmagens com iluminação natural dão uma densidade fotográfica um tanto inédita, um material bruto sem maquiagem visual que chega a surpreender naturalmente com as paisagens sem tratamento digital. Terceiro porque grande parte do que vemos é o que foi filmado de fato, principalmente a respeito dos atores. DiCaprio não é poupado das dificuldades em tempo algum, seja nu em meio a neve, mergulhando nos rios congelados ou comendo figado cru de um búfalo, ele se deixa levar pelo extremo naquilo que pode ser o seu melhor papel porque ele se despe de toda e qualquer zona de conforto. E por último, o diretor ainda mantém os planos sequência por boa parte da história, o que era necessário para se aproveitar o máximo do pouco tempo disponível diariamente para filmagem, mas que certamente intensificam ainda mais o realismo pelas situações se desenvolverem sem cortes ou truques óbvios, como o momento do brutal ataque do urso marrom (uma das sequências mais impressionantes e das poucas que faz excelente uso da computação gráfica a favor da experiência realista), ou quando Glass foge a cavalo enquanto é perseguido por nativos americanos, uma das melhores e mais bem construídas sequências de perseguição do filme que não dura nem 30 segundos, mas tudo é tão meticulosamente ensaiado, numa coerografia perfeita tanto por parte do elenco como da condução da câmera, que a pontualidade capta todos os momentos necessários sem exagero dramático.

Aliás, mesmo sendo um drama espiritual, como o próprio diretor o classificou, além de uma batalha épica entre o homem e a natureza, Iñárritu não apela em momento algum para o drama comum. Ele é muito objetivo e sucinto, até mesmo em situações que qualquer diretor facilmente cairia no apelo fácil, como no momento em que Hawk (Forrest Goodluck) é atacado por Fitzgerald. Esqueça qualquer melodrama similar ao que Robert Zemeckis construiu em Náufrago (Cast Away, 2000) porque Iñárritu acerta ao fugir completamente dos clichés que Hollywood criou ao longo dos anos no gênero. Não há nem mesmo invasão da trilha sonora para sugerir maior impacto sentimental porque tudo isso é desnecessário. O desenvolvimento das situações já é visceral por si só, a realidade existente nas cenas já tem densidade suficiente para sentirmos os ossos congelarem, a carne dilascerar, a fome bater e o desespero nos consumir.

Fazia tempo que eu não via algo baseado em fatos reais com tanto realismo e seriedade. Há violência explícita, tensão e cenas fortes, mas tudo tem coerência e contexto. Só que frente a tantas qualidades em uma situação cujo principal vilão é a própria natureza e sua força devastadora, transformar uma história de sobrevivência em um filme de vingança, como é o que acontece, por algumas vezes não parece fazer sentido. Mas a história real de Glass é contada dessa forma, só não é esclarecido se a verdadeira razão pela sua busca de vingança foi por Fitzgerald tê-lo deixado para a morte, ou se foi por ter roubado seus pertences enquanto debilitado e inconsciente (e não por ter matado seu filho, como acontece no filme). E aproveitando disso, Iñárritu até explora essas outras possibilidades, inclusive há até uma tentativa de "desvilanizar" o personagem de Hardy para que suas atitudes sejam mais consequência de traumas psicológicos do que por uma maldade deliberada, o que é até convincente também por conta do trabalho que Hardy desenvolve.

Com certeza é um filme longo e cansativo nos seus mais de 150 minutos. Cansativo não por ser monótono, mas por perdermos a esperança pelo personagem diversas vezes porque sempre algo pior irá acontecer, inclusive quando acharmos que não há como a situação piorar. E o comprometimento de DiCaprio no papel é estarrecedor. Até mesmo eu, que particularmente nunca fui fã de seus trabalhos, não conseguia vê-lo como um ator em cena, mas como Hugh Glass de verdade, tamanha sua imersão no personagem e no filme.

Assim como em Perdido Em Marte (The Martian, 2015), outro filme de sobrevivência lançado há pouco tempo, são em filmes como esse que percebemos como nós, meros humanos da vida fácil, não teríamos a mínima noção de como sobreviver a uma situação extrema de sobrevivência. E é até bom que filmes assim estejam na moda para que possamos perceber como somos frágeis e despreparados para o inesperado.

CONCLUSÃO...
Se Iñárritu tinha a intenção de se superar depois de Birdman, ele conseguiu. O Regresso não apenas é um dos maiores filmes de 2015 como deve figurar entre os melhores do gênero. É outro filme do diretor que se tornará referência. Um filme que, acima de tudo, é visualmente deslumbrante e que vale cada minuto assistido, mesmo que haja um intervalo de descanso.

domingo, 27 de janeiro de 2013

A "XICA DA SILVA" DE TARANTINO...

★★★★★★★
Título: Django Livre (Django Unchained)
Ano: 2012
Gênero: Ação, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Quentin Tarantino
Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, Samuel L. Jackson
País: Estados Unidos
Duração: 165 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Django está livre e com a ajuda de um caçador de recompensas alemão ele vai atrás de sua mulher para resgatá-la das mãos de um perigoso fazendeiro.

O QUE TENHO A DIZER...
Não é uma tarefa fácil falar de Tarantino, porque o cara enfia tanta coisa em um filme só que o problema não é ficar perdido, mas admirar como é que ele consegue misturar tantas coisas de uma forma coerente que soa fantástica, mas não absurda. Enfim, ele não é simplesmente um cineasta qualquer, ele é uma enciclopédia humana do que existe do melhor e do pior no cinema, na cultura pop e na história. Talvez essa gigantesca capacidade dele de absorver coisas úteis e inúteis como uma esponja justifique a razão dele ter uma cabeça tão grande e uma excentricidade hiperativa que deixa evidente a velocidade com que aquele cabeção funciona.

Tarantino é a Madonna do cinema, já que as polêmicas e o frisson que envolvem cada novo trabalho são sempre as mesmas, o que já ocorre numa frequência injustificável que nem ele mesmo suporta mais ao ponto de, logo no começo do ano, ter discutido ao vivo com o repórter Krishnan Guru-Murthy quando este tentou indiretamente associar a violência de seus filmes com a violência real, como que tentando de forma indireta responsabilizá-lo por incentivar o comportamento violento e da insanidade coletiva frequentes nos Estados Unidos, coisa que a mídia adora fazer, culpando a ficção ao invés de culpar quem realmente é e deve ser culpado. Nesta entrevista o diretor se impôs numa postura ofensiva em um sarcasmo arrogante típico da sua persona e do seu estilo, colocando o entrevistador no lugar devido em um constrangimento seguido do outro. Isso porque Django Livre nem é o mais violento de seus sete longa metragens. Há balas voando por todos os lados, e sangue jorrando como geisers num exagero pastelão que mais causa riso do que assombro.

A grande violência mostrada é a relação brutal e desumana que os brancos tinham com os negros durante o período de escravidão, e mesmo mostrando algumas situações fortes de tortura, abusos e constrangimentos, ao mesmo tempo ele também não mostra mais do que o necessário, o foco é o confronto das situações e suas sobreposições. Por exemplo: grande parte das cenas os escravos estão bem vestidos e arrumados, no mesmo ambiente que seus donos, mas tratados como animais domesticados, porque é nessa caracterização que ele nos faz questionar porque essa diferença existia se a realidade é que não há diferença alguma?

O filme conta a história de Django (Jamie Foxx), um escravo rebelde que foi separado de sua mulher, Broomilda (Kerry Washington), para ser vendido na maior feira de escravos do Mississipi. No caminho ele é interceptado por por Schultz (Christoph Waltz), um caçador de recompensas alemão com ideais abolicionistas que precisa de Django para identificar três foragidos. Shultz compra sua liberdade e, sensibilizado pela história do escravo e de sua mulher, promete ajudá-lo a recuperar sua amada depois do inverno, tempo necessário para que o caçador cumpra suas missões e prepare Django para o ato final do filme.

É uma história de amor e vingança que, a princípio, Tarantino nunca contou, já que o tema principal é a relação entre Django e Broomilda. Mas isso nada mais é do que um motivo para o diretor e roteirista mudar o repertório e adentrar na sua zona de conforto preferida quando o personagem descobre que, se tornando um caçador de recompensa juntamente com seu mentor, ele terá a oportunidade de destruir todos aqueles que fizeram sua vida ser mais miserável do que já era. E assim o filme se transforma naquilo que todos os filmes anteriores de Tarantino são, a da justiça sendo feita pelas próprias mãos custe o que custar.

A vontade de Tarantindo de fazer um Bang Bang moderno, com cavalos, pistolas, botas com espora e o pastelão típico que envolve o estilo, é velha, mas ele sempre foi talhado pelos chefões. Isso não o impediu de fazer experiências e misturar esse estilo nos seus trabalhos no decorrer dos anos, como as constantes referências existentes do estilo em Kill Bill (2003/2004), ou a trilha sonora western e os personagens caricatos de Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009). Logo, Django Livre é a concretização de um sonho antigo, que às vezes dá certo, mas por muitas outras ele erra a mão.

O filme não é ruim, mas peca pelo excesso, a começar pelos exagerados 165 minutos, que chegam a isso por conta de inúmeras sequências tarantinescas desnecessárias e a constante necessidade que ele tem de incrementar situações com piadinhas fora de hora e situações patéticas para deixar explícito que tudo que ele faz é uma fantasia do seu circo particular.

Não há como negar que ele consegue fazer isso muito bem, mas esse excesso de auto-confiança às vezes é seu maior defeito, pois essas situações são propositais para quebrarem a expectativa coletiva e são os ganchos necessários pra ele brincar com o inusitado como ele sempre faz, mas isso se torna frustrante muito mais por não serem coerentes com a narrativa e situação do momento, do que pela concretização da expectativa do espectador em si. Isso é evidente, por exemplo, na sequencia em que Django é revelado a Broomilda. O reencontro dos dois é o ápice do filme, o momento mais esperado, e a tensão nessa sequencia cresce de maneira tão natural e emocionante que de repente esse clima todo construído é jogado no lixo como uma facada no peito, numa frustração brochante tal qual a do assassinato de Hitler no seu filme anterior, um momento de igual catarse e tensão que se tornou banal e só soltou um "não acredito que o filme inteiro foi pra ser simples assim", do público.

A tentativa de Tarantino de reproduzir seus sucessos anteriores também é bem evidente, como a narrativa épica de Kill Bill, tanto que há diversas sequências muito similares entre os dois filmes, só mudando o sexo do personagem principal e colocando uma pistola no lugar da katana. O mesmo pode ser dito sobre a cena do jantar, em que Calvin Candie (Leonardo DiCaprio) realiza um discurso no mesmo tom perverso ao de Hans Lanza em Bastardos Inglórios, um deja vu que teria sido muito apropriado se não fosse tão recente. Sem falar no teor "gangsta" e a cultura negra que sempre foram presentes desde Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992), Pulp Fiction (1994) e o estilo blaxploitation de Jackie Brown (1997).

Essas similaridades do filme com os anteriores fizeram fãs divulgarem massivamente a teoria de que todos os filmes do diretor se passam dentro de um mesmo universo e que há relacões diretas que ligam uns aos outros. Mas segundo o próprio Tarantino sobre o filme, a construção, o desenvolvimeto e a narrativa de Django é muito similar ao de Bastardos Inglórios, e por isso, sem querer, ele se viu dentro de uma idéia de uma trilogia de vinganças históricas que irá se completar com seu próximo filme, que ainda não tem título ou data de produção, mas que a idéia existe e que talvez se passe durante a invasão da Normandia, o Dia D. Talvez seja por isso que a sensação de "eu já vi essa cena antes" seja bem recorrente nesse filme.

Os personagens são bem construídos e os atores bem caracterizados. Leonardo DiCaprio está bem convincente como o vilão, mas Tarantino fez escola quando criou o personagem Hans Lanza para Christoph Waltz, que foi o responsável por dar uma caricatura ao personagem que posteriormente virou referência para a construção de outros como Charles Rakes (Guy Pearce) de Os Infratores (Lawless, 2012) e até mesmo Raoul Silva (Javier Bardem), de 007: Operação Skyfall (Skyfall, 2012), personagens bastante similares e igualmente brilhantes. Mas esses vilões com sexualidade duvidosa, que agem com delicadeza para atrair a simpatia do espectador para depois surpreendê-los com a perversidade oculta, agora mostra sinais de cansaço com DiCaprio. O ator Christoph Waltz, que agora faz um personagem do lado dos mocinhos, é de longe um dos mais interessantes, juntamente com Samule L. Jackson, que só vai aparecer mais no final do filme no papel do negro racista, o Sr. Stephens.

Mesmo cansativo e cheio de momentos frustrantes, Django tem lá as qualidades natas do diretor, como os enquadramentos perfeitos das cenas, posicionamento de atores e toda a perfeição cenográfica que ele faz questão, além do dinamismo de filmagem referente aos clássicos japoneses que ele nunca escondeu ser um grande admirador, ou o estilo "pastiche mexicano" que também é uma forte referência no seu estilo. Sem contar que o roteiro é sempre o grande trunfo das suas produções, já que ele não é somente um roteirista, mas um autor que preza pela construção de personagens e diálogos inteligentes que são sempre a atração principal do grande mundo sarcástico que ele vive... o grande problema são as páginas extras desnecessárias.

CONCLUSÃO...
Novamente digo que não é um filme ruim, mas o excesso faz ele ser frustrante diversas vezes numa narrativa que a princípio começa muito bem, mas da metade em diante parece desandar e desenvolver aos tropeços, perdendo a identidade e não sabendo onde se colocar. Está longe de ser um dos melhores filmes do diretor, e Django nada mais é do que um punhado de cenas e sequencias que Tarantino já fez nas suas últimas produções e que poderia soar nostálgico se não fossem tão recentes.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

EU PREFIRO MEUS SONHOS...

★★★★★★
Título: A Origem (Inception)
Ano: 2010
Gênero: Ação, Ficção
Classificação: 14 anos
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Lewitt, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Cillian Murphy, Tom Berenger, Marion Cotillard, Pete Postlethwaite, Michael Caine
País: Estados Unidos, Reino Unido
Duração: 148 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Em um futuro não muito distante, a tecnologia passa a ser usada para invadir a mente das pessoas e controlá-las, habilidade de poucos espiões corporativos para investigar e roubar idéias do subconsciente das pessoas durante o sono profundo, quando a mente está mais vulnerável a ataques. Essa habilidade fez um desses espiões sofrer conseqüências graves com isso e até perder tudo aquilo que ele mais amou. Após uma condenação, ele tem a oportunidade de se redimir realizando um último trabalho, mas ao contrário de roubar uma idéia, ele terá de fazer o contrário, implantar uma.

O QUE TENHO A DIZER...
Todo ano eu pego um filme pra Cristo, principalmente quando são esses blockbusters ovacionados pela crítica e que arrecadam milhões e milhões em bilheteria, porque eles são responsáveis por fazer o que esse filme diz muito bem: implantar uma idéia. São esses filmes que plantam aquela sementinha da tendência das próximas temporadas. O que de novo terá nesses filmes? A narrativa, histórias, efeitos inovadores, mais ou menos explosões... o quê? Alguns chegam a não ser originais, inovam uma idéia.

A Origem pode ser o filme mais bem sucedido de 2010, mas não para mim. Não questiono a qualidade do filme como um gênero de ação, mas como um filme de ficção que, depois de Matrix, este aqui parece muito mais ilógico exatamente pelo fato de tentar ser realista e extremamente coeso e coerente, o que nunca cabe em uma fantasia, principalmente quando ela trata diretamente da imaginação. O que quero dizer com isso é que o diretor e roteirista Christopher Nolan tenta tratar do assunto como uma realidade possível, dando tantas explicações sobre os fatos mas com fundamentos que ele tirou mais da sua cabeça do que de qualquer outro lugar. Ele mesmo declarou que a idéia de A Origem surgiu de filmes como O 13º Andar (The 13th Floor, 1999) e Cidade das Sombras (Dark City, 1998), além do já citado Matrix. Ele é tão inspirado por eles que algumas referências são muito claras, principalmente do já clássico dos irmãos Wachowski, como: os botões vermelho e azul (assim como as pílulas vermelha e azul), o arquiteto sendo a figura mestre, o grupo em que cada um tem uma habilidade específica, a idéia (significando o vírus), os soldados dos sonhos (como os anti-virus), o totem (como o telefone), entre outros...

Isso tudo, fora outros acontecimentos, deixa claro que é apenas mais uma cópia modificada, o que faz desse filme, para mim, uma grande farsa.

Quem presta atenção nos sonhos ou está familiarizado com o básico desse processo natural do (in)consciente do ser humano sabe que o filme está correto em alguns pontos, mas algumas outras características sólidas e fundamentais falham no processo de reprodução disso. Os sonhos possuem, sim, diferentes níveis de consciência, como o filme orienta. Quando estamos em um sonho lúcido, somos capazes de controlá-lo e direcionar eventos e acontecimentos, e isso vai depender da habilidade e do controle de cada um. É por isso que somos capazes de ter um sonho lúcido e, mesmo se acordarmos, conseguir voltar para ele até mesmo de onde paramos se quisermos.

No sonho inconsciente você é incapaz de controlar, assim como você é incapaz de lembar detalhes, apenas fragmentos. É por isso que geralmente acordamos quando morremos ou caímos, porque nos sonhos inconscientes somos incapazes de nos "defender", e nosso cérebro entende a situação como emergencial e de fuga, havendo liberação de adrenalina e todas aquelas substâncias malucas que a gente produz em situações de perigo.

O mundo do sonho inconsciente, onde a maior parte do filme se passa e tenta reproduzir já que os personagens estão em um estado de pré-coma (estado em que não temos consciência), é muito mais confuso e caótico do que parece. Poderia ter sido muito mais explorado se não tivesse sido dada tanta atenção às sequências de ação. A única parte do filme que realmente se parece com um sonho caótico é quando o trem atravessa uma avenida. Naquele momento eu pensei que as coisas passariam a ser visualmente interessantes, mas não foi.

Dando mais atenção a ação do que para a ciência, os personagens possuem uma mala mágica que conecta várias pessoas no sonho de alguém sem fundamento algum. Em Matrix existe aquela máquina gigante que é conectada no cérebro para transferí-los a um mundo imaginário previamente construído por uma máquina, fazendo com que duas ou mais pessoas dividam o mesmo ambiente virtual. Isso faz Matrix ser muito mais aceitável na explicação do que A Origem, pois cientistas acreditam que dividir um mesmo sonho seja possível já que o cérebro é movido por impulsos elétricos. Logo, se tivermos uma placa mestre capaz de unificar e decodificar esses impulsos, isso seria possível. Mas em A Origem o que realmente os conecta? Apenas um poderoso sedativo? Eles são super-heróis ou o quê? Não existe uma base científica, mesmo que posteriormente fosse transformada para o bem da ficção.

Enquanto Matrix trata de um mundo gerado eletronicamente, em A Origem eles tratam de sonhos que possuem cidades, pessoas, telefones celulares que funcionam, explosivos, batidas de carro, pessoas morrendo e sangrando e tudo mais... mas nunca há o poder da imaginação. Trabalhar com o tema da implantação de uma idéia, de como fazê-la ser uma semente que cresça na mente e se transforme em algo real, é muito interessante, e as barreiras para impedir isso poderiam ter sido qualquer coisa além de um monte de soldados armados atirando e explodindo o que tivesse pela frente. Poderia ter sido um dinossauro, um escudo invisível, um Pokemon, ou até mesmo a avó de calcinha. Estamos falando de SONHOS e da IMAGINAÇÃO, e não da Guerra do Golfo. Há uma seqüencia do filme em que eles precisam estar em determinado lugar em um tempo determinadíssimo e que os personagens acreditam que não terão tempo para isso. Oras, estamos falando de sonhos, e no sonho, se eu quiser estar em qualquer lugar AGORA, eu vou sem precisar lutar com todo mundo antes.

É inegável que seja uma idéia refeita, a mesma coisa que Avatar é para Pochahontas. Mas este filme não me acrescentou nada novo ou incrivelmente interessante que eu não tenha visto anteriormente. Filmes com temáticas semelhantes sobre o poder da imaginação como Dublê de Anjo (The Fall, 2006), Mácara de Espelho (Mirror:Mask, 2005), ou até mesmo A Cela (The Cell, 2002), que não tem uma história tão boa, mas possui seqüências surrealistas que conseguem dar uma idéia mais fiel sobre como são os sonhos inconscientes, conseguem ter muito mais sucesso nessa tentativa do que A Origem, o que é uma vergonha, já que são filmes de orçamento muito menores e nem por isso deixam de ser visualmente muito mais deslumbrantes. Tudo que este filme poderia ter sido, mas não é.

A mídia considerou o filme como um dos melhores de 2010 e um dos melhores do gênero de todos os tempos, e isso sinceramente insulta minha inteligência porque não há nada novo, e o que poderia ser novo é tão absurdo que vejo como é fácil enganar o público mais leigo. Mas a indústria necessita produzir dinheiro de algo tempos em tempos, e acharam em A Origem uma grante máquina de dinheiro.

CONCLUSÃO...
Tecnicamente é fantástico e um excelente filme de ação, mas como ficção científica é uma enganação. Muita coisa para nada, ou, talvez, muita coisa para, no fim, o filme explicar que é extremamente difícil plantar uma idéia tanto quanto eu convencer você de que o filme não é tão bom quanto parece.
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