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quarta-feira, 16 de abril de 2014

GLORIA CONTRA O MUNDO...

★★★★★★★★☆☆
Título: Gloria
Ano: 2013
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Sebastian Lelio
Elenco: Paulina Garcia, Sergio Hernandez
País: Chile, Espanha
Duração: 110 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre uma mulher idependente e solitária de meia idade e as dificuldades vividas com os relacionamentos e a vida na sua idade.

O QUE TENHO A DIZER...
Gloria é um filme chileno dirigido por Sebastian Lelio, o roteiro também é de sua autoria em parceria com Gonzalo Maza. Foi muito bem recebido pela crítica, vencendo alguns dos principais prêmios que inclui o Urso de Ouro em Berlim para a atriz Paulina Garcia, que interpreta a personagem principal. Também foi indicado a Melhor Filme Estrangeiro no Independent Spirit Awards e venceu esta mesma categoria no National Board Of Review, além de também ter sido o filme escolhido para representar o Chile no Oscar 2014, porém não foi indicado. Uma pena, pois é um filme bastante incomum na forma como mostra a realidade de uma mulher moderna e idependente na meia idade.

A história começa com Gloria, uma mulher de 58 anos, no meio de uma festa frequentada por pessoas de aproximadamente sua idade. Ela é desquitada, com dois filhos já adultos, mora sozinha, trabalha em uma empresa e tem uma vida independente, na qual ela gosta de passar seu tempo sozinha em festas para solteiros e bares para, certamente, tentar preencher o vazio da solidão natural oferecida pelos anos que avançam, mas essas noites boemias frequentemente a levam a repetidos desapontamentos e a constancia desse vazio que parece nunca ser preenchido. Tudo parece mudar quando conhece Rodolfo em uma das festas, um ex-fuzileiro naval, por quem ela se apaixona e tenta construir uma relação que é constantemente interrompida pela ex-mulher e suas duas filhas.

A verdade desse filme é que ele realmente é um ponto de vista verdadeiro e muito relevante sobre um tipo de personagem que é constantemente negligenciado por Hollywood, e só somos capazes de encontrar em filmes fora de circuito comercial, os chamados art house. Seu conteúdo bastante simbólico e não convencional faz parte desse nicho e é apreciado por aqueles que gostam de fugir de histórias comuns e fórmulas prontas de se fazer cinema. Claro que não há nada de muito diferente e excepcional, mas a honestidade com que a personagem e seus atuais desafios são mostrados chega a despi-la por completo frente ao espectador. Não é à toa que as cenas de sexo ou nudez da personagem existem sem nenhum pudor, pois essa independência e sentimento de liberdade sentido por ela é tão grande que não há mais espaço para vergonha ou recato, em um sentimento de quem não tem absolutamente nada a provar para ninguém.

A melancolia que ela carrega em si é compreensível quando a mesma busca de forma até incansável a companhia, independente de quem seja, para dançar, para lhe acompanhar em uma bebida, ou simplesmente para o sexo e a satisfação de seu prazer. Uma vida na qual seus principais objetivos já foram cumpridos, como criar seus dois filhos e soltá-los para o mundo e para a independência, seguida da separação de um marido ausente que provavelmente era mais um peso morto do que um parceiro, e agora, depois de tudo, o tempo existe finalmente para ela. Não vemos arrependimentos em Gloria, apenas a nostalgia pela liberdade da juventude que teve de ser abandonada por outras prioridades e que agora ela tenta compensar o tempo perdido. E como ela compensa!

Quando Rodolfo aparece em sua vida, há uma centelha de esperança de que alguém ainda foi feito para ela, pois ele leva uma vida de diversões e anseios similares, porém não possui a mesma liberdade e coragem, mantendo-o preso a correntes familiares que ele não consegue se libertar. Essa felicidade cai por terra quando Gloria percebe que, por mais que tente, este novo relacionamento sempre ficará estagnado, e Rodolfo nunca a aceitará como ela realmente quer, ao ponto dele sempre omitir às outras pessoas com quem ele está, principalmente à sua família, colocando-a e fazendo-a se sentir em uma situação semelhante a de uma amante, uma mulher oculta destinada a apenas satisfazer as vontades e os prazeres de alguém incapaz de encarar a realidade. E é assim que ele se demonstra, um homem covarde e impotente frente a vida.

A grandiosidade da personagem cresce no filme quando a necessidade da liberdade explode dentro dela em um grito até feminista, e por mais que seja uma decisão dura e difícil, ela sabe que não é obrigada a passar por isso. Nada mais emocionante que vê-la pronta para outra depois de dias de melancolia e depressão, seguidos da atitude tempestiva que ela tem na sequência em que está dentro do carro observando a casa de Rodolfo, um ritual necessário para continuar sua vida sem a necessidade de sofrer calada, tudo dentro uma metáfora de extrema relevância para enterrar de vez por todas uma situação que nada lhe agregaria. Duvido que ninguém ousou um dia imaginar-se fazendo o mesmo que ela, uma sequencia até engraçada dentro de seu surrealismo justificado que nem ela mesma consegue evitar posteriores gargalhadas. Gargalhadas libertadoras, por excelência.

O filme é dela e para ela, tanto que os demais personagens são secundários e pouco aprofundados, mas isso em nada atrapalha, já que Gloria não é uma personagem apaixonante ou sentimental e muito menos cativante, mas seu individualismo e independência são tão grandes que ela é inspiradora por ser assim, única e livre, sem vergonha alguma de ser o que é e fazer o que quiser. 

CONCLUSÃO...
Com uma abordagem até bem similar em algums momentos, o filme consegue até ser uma versão para a meia idade de Lola Contra O Mundo (Lola Versus, 2012), mas claro que de uma forma muito mais verdadeira e despida de qualquer vergonha. Gloria poderá não agradar muita gente, mas quem se interessar por ela e conseguir chegar ao final do filme ao menos irá compreender e concordar sobre a grandiosidade dessa personagem, um grande exemplo.

BEM VINDA MATURIDADE...

★★★★★★★★☆☆
Gênero: Drama, Romance, ComédiaTítulo: O Espetacular Agora (The Spectacular Now)
Ano: 2013
Classificação: 12 anos
Direção: James Ponsoldt
Elenco: Miles Teller, Shailene Woodley, Brie Larson, Kyle Chandler, Jennifer Jason Leigh
País: Estados Unidos
Duração: 95 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um rapaz de 18 anos que entra em choque com sua própria realidade quando conhece uma garota prestes a entrar em choque com várias realidades.

O QUE TENHO A DIZER...
O Espetacular Agora é o terceiro filme do diretor James Ponsoldt, com roteiro dos mesmos escritores de (500) Dias Com Ela (500 Days Of Summer, 2009) e é baseado no livro homônimo de Tim Tharp. Teve estréia no Festival de Sundance de 2013, o qual foi bem recebido e, em geral, recebeu comentários bastante positivos da crítica mundial.

Mas ao contrário da espetacular comédia romântica (500) Dias Com Ela, esta não é uma comédia, e muito menos romântica, muito embora tenha alguns esparsos momentos cômicos e românticos, sendo assim que o filme tem sido divulgado, quando na verdade é um drama romântico adolescente incomum, que surpreende por ter uma abordagem madura o suficiente para servir até como uma metáfora, ou mais precisamente, uma indireta aos mais velhos que o assistirem, pois consegue ser sério e adulto em sua mais pura essência, mesmo que atuado por jovens cujos conflitos giram em torno deles.

Sutter (Miles Teller) é um garoto aparentemente comum como qualquer outro de sua idade, ele não é muito atraente e muito menos faz parte do time de futebol do colégio, mas mesmo assim é um grande conquistador e mulherengo por ser inteligente, engraçado, extrovertido e bastante seguro de si, mas incapaz de levar qualquer coisa a sério como deveria. Sutter vive o agora, e o alimento de sua felicidade é consumir o prazer momentâneo a todo instante, o que o faz ser, com apenas 18 anos, um alcólatra. É em um desses momentos que, na tentativa de esquecer sua ex-namorada, ele é encontrado em coma alcólico no jardim da casa de Aimee (Shailene Woodley), uma garota simples que estuda no mesmo colégio, mas que ele nunca notou. Aimee é completamente diferente de Sutter, mas na intenção de conhecer uma nova garota para esquecer a anterior e usá-la para alimentar suas felicidades e prazeres, ele tenta conquistá-la. Entre vários encontros e longas conversas ele descobre que Aimee é mais do que simples e comum, é uma garota com um intenso potencial adormecido e reprimido por uma vida sem graça e uma mãe codependente, e por isso ele se sente tentado a libertá-la disso de alguma forma enquanto ela vê nele a descoberta de experiências que ela nunca teve e o primeiro passo para caminhar em um mundo de satisfações e desgostos que até o momento desconhecia.

O personagem acredita ser, por excelência, auto suficiente e um tanto arrogante na sua forma, com uma visão muito branda e superficial sobre as coisas e sobre ele mesmo. A princípio Sutter consegue ser bastante antipático e inconveniente, principalmente na primeira meia hora, mas toda essa superficialidade que ele demonstra esconde problemas muito mais sérios e que ele não consegue lidar, como a ausência paterna desde seus 8 anos de idade, o distanciamento de sua mãe e irmã mais velha, a cobrança de seus professores sobre seu baixo rendimento escolar, a impressão subestimada e maldosa que seus colegas tem sobre ele pelas costas, além do abandono de sua ex-namorada que, para ele, foi por ela simplesmente ter se apaixonado pelo chefe do time do colégio. Ele age como se não ligasse para nada disso porque, já que sua filosofia de vida é viver o momento e não pensar no futuro porque isso o assombra e demanda responsabilidades que ele não sabe se é capaz de cumprir, então qualquer responsabilidade que ele tenha é tratada com bastante descaso.

O filme desenvolve todas essas características do personagem às avessas, começa mostrando-o como um garoto chato e inconsequente, sendo tortuoso pensar em aturar esse comportamento arrogante por todo o filme ao ponto de não acreditarmos em suas atitudes, mesmo quando estas são as mais sinceras possíveis, pois apesar de tudo ele é honesto com as pessoas sobre suas vontades e sua forma de pensar. Mas aos poucos o roteiro quebra a casca em que ele vive, ou melhor, tira tijolo por tijolo da muralha que ele construiu à sua volta. E então todas suas camadas aparecem, e lentamente toda a confusão emocional e sentimental que ele vive se revelam, momento quando finalmente o espectador se sensibiliza, a empatia acontece, Sutter se transforma em um jovem incompreendido que a todo momento luta contra ele mesmo e  (ufa!) o filme finalmente toma sua forma.

Com certeza é um dos personagens mais complexos a ter sido adaptado no cinema norteamericano nos últimos anos, e de uma forma tão simbólica e relevante que é difícil definí-lo por inteiro, pois ele representa várias situações e fases da vida, sendo a própria adolescência uma pequena fração dela. Pode ser que no livro o personagem não seja tão complexo dessa forma, mas a construção dada nele pelos roteiristas é, e seu desenvolvimento na história ficou brilhante.

Ao contrário dele, Aimee é a verdadeira representação da pureza e ingenuidade prestes a serem corrompidas quando o choque com a realidade acontecer e todas as coisas que um dia pareciam tão belas, se tornarem sujas. Ela é a única personagem com uma atitude mais equivalente com sua idade, e muito embora sabemos desde o início que ela irá sofrer, também sabemos que este sofrimento é necessário para seu crescimento e fortalecimento psicológico e emocional típicos de quem passa por certas dificuldades pela primeira vez.

O roteiro até consegue nos pegar de surpresa quando, confrontado por sua mãe (Jennifer Jason Leigh), o personagem finalmente tem um insight de que o problema não são as coisas ou pessoas a sua volta, mas suas próprias atitudes sugestionadas pela descrença que ele tem por ele mesmo e seu precoce alcolismo que só piora conforme ele se confronta mais e mais com seus problemas. Essa cena dura e emocionante é uma das várias que acontecem, e que mostram por si só que o filme não é um passeio pelo parque, mas uma grande e difícil tarefa de encararmos as dificuldades e aceitar as responsabilidades.

A seriedade até poética com que o filme trata uma fase tão complicada da vida de descobertas, conflitos e desapontamentos se assemelha muito com As Vantagens de Ser Invisível (The Perks Of Being a Wallflower, 2012) no sentido de não subestimar nenhum público e muito menos exagerar em cliches na tentativa de criar uma identificação fácil com um tipo específico, mas enquanto este outro filme trata do tema com adolescentes vivendo suas felicidades e infortúnios típicos da idade e da busca pela maturidade dentro de uma linguagem bastante expressiva e relevante, neste filme essa referência de idade só existe para, talvez, intensificar todos os conflitos dramáticos tratados, que em realidade são universais, atemporais e sem classificação etária.

CONCLUSÃO...
Um drama romântico incomum, que mostra um personagem que sofre com as dificuldades de aceitar as responsabilidades por pontos de vistas tão sérios e conflitantes que, ao contrário do que se supõe, chega a não ser um filme agradável para aqueles que esperam um belo casal romântico no final, mas um filme que conquista aos poucos, e aos poucos revela que há um pouco de Sutter em todos nós.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

CINEMA TAMBÉM FAZ MÁGICA...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Truque de Mestre (Now You See Me)
Ano: 2013
Gênero: Ação, Fantasia, Comédia
Classificação: Livre
Direção: Louis Leterrier
Elenco: Jesse Eisenberg, Mark Ruffalo, Woody Harrelson, Melanie Laurent, Isla Fisher, Dave Franco, Michael Cane, Morgan Freeman
País: Estados Unidos
Duração: 115 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Quatro mágicos são reunidos por um quinto elemento chamado de O Olho para cumprir uma missão de realizar o maior truque de mágica de suas vidas, a ser testemunhado por todo o mundo.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é diridigo pelo francês Louis Leterrier, o mesmo de filmes de ação como o inferior Carga Explosiva 2 (The Transporter 2, 2005), o precoce e fracassado remake de O Incrível Hulk (The Incredible Hulk, 2008) e o péssimo Fúria de Titãs (Clash Of The Titans, 2010), filmes que pecam na qualidade e no roteiro (com alguma excessão em Hulk), mas que de alguma forma fizeram algum sucesso nas bilheterias, o que garantiu ao diretor continuar sua carreira entre um tropeço e outro até conseguir finalmente acertar com esse filme que nada tinha para ser um grande sucesso.

Não possuia um título atrativo, os trailers eram mornos, e o enredo, que gira em torno do mundo da mágica, não é algo que faz muito a cabeça das pessoas no cinema porque a mágica é facilmente manipulada por truques cinematográficos. Embora possua um elenco de primeira, a maioria são de atores reconhecidos, mas de pouco sucessos, com excessão dos mais antigos como Woody Harrelson, Michael Cane e Morgan Freeman, que finalmente deixou de lado aquele tom de deboche irritante que vem feito nos últimos filmes e parece se divertir aqui. Ou seja, o que é que o filme teria de interessante? Não muito, mas o suficiente bem utilizado.

A história começa com uma breve apresentação de cada um dos quatro personagens principais: Daniel Atlas (Jesse Eisenberg), um mágico ilusionista arrogante; Henley Reeves (Isla Fisher), igualmente ilusionista, mas de apelo mais teatral e espetaculoso, ex-ajudante de Daniel no começo da carreira; Merrit (Woody Harrelson), um mágico hipnotista que se diz sensitivo, mas que na verdade é um excelente dedutor pelo apurado senso de observação; Jack Wilder (Dave Franco), um mágico ruim, mas um mestre punguista, além do dom de despistar facilmente qualquer pessoa que o estiver observando. Todos tem em comum o fato de serem incrivelmente talentosos, mas não terem o devido reconhecimento. Tudo muda quando um quinto personagem indeterminado, chamado de O Olho, os reunem. Em um salto de tempo, os personagens são mostrados como os Quatro Cavaleiros, astros da TV que comandam um programa de grande sucesso. O problema começa quando realizam ao vivo um assalto a um banco francês utilizando apenas a mágica, o que chama a atenção do FBI e da Interpol, pois o assalto é bem sucedido, o dinheiro é jogado às pessoas da platéia, mas os suspeitos não podem ser presos pois não há nenhuma prova contundente, o que faz os agentes Dylan (Mark Ruffalo) e Alma (Melanie Laurent, a eterna Shosanna) ficarem na cola dos Cavaleiros por todo o filme. Há uma tentativa de modernizar a intenção de Robin Hood, mas é só uma humilde referência, nada muito relevante quando toda a trama se conclui.

A história na verdade faz pouco sentido. Não há profundidade na vida de nenhum personagem e pouco ficamos sabendo do passado de cada um além do que é brevemente explicado ou solto aleatoriamente entre um diálogo e outro. Também não sabemos qual o verdadeiro motivo de tudo acontecer ou estar acontecendo. Todos os truques mostrados até tentam ser explicados dentro da sua ficção, mas nada feito para convencer, só para mistificar as ações dos personagens e ter algum sentido no contexto, já que filmes em si são ficções, então ao invés do roteiro perder tempo em convencer o espectador de que tudo tem uma explicação lógica (com excessão da abertura do filme, em que o truque com as cartas realizado é verdadeiro e não criado digitalmente), o mérito fica em realmente fazer de tudo um grandioso espetáculo, como é o esperado por quem vai ao cinema para assistir um filme com esse tema. E mesmo com tanta superficialidade, tudo funciona exatamente por ter essa levada despretenciosa de que aparentemente tudo daria errado. Isso acontece porque o diretor e o roteiro levam à risca a intenção de fazer com que o espectador nunca observe tudo tão de perto (como o personagem Daniel tanto faz questão de dizer) e essa distância que o diretor fluidamente mantém entre a história e o espectador é o que entretém porque, mesmo comercial, consegue, desde o início, realizar essa pequena mágica do cinema de fazer com que o espectador simplesmente esqueça dos absurdos e mergulhe de cabeça em toda a fantasia com naturalidade e sem perceber, deixando a preocupação e a atenção nos mínimos detalhes completamente de lado.

Embora as façanhas realizadas pelos personagens sejam algumas vezes até banais e algumas sequencias até um tanto desnecessárias, como a perseguição de carro, há outras muito bem elaboradas como o breve conflito entre o ladrão Jack e o detetive Dylan, e a forma como ele consegue escapar como um sabonete de toda a situação. Os personagens também são carismáticos, não havendo conflitos banais entre eles para construção de tramas paralelas desnecessárias. O jeitão canastrão de Woody Harrelson, que embora seja sua marca registrada e recorrente, consegue dar o tom cômico exato nas situações, roubando e engrandecendo as cenas, bem como Isla Fisher com seu sexy appeal comportado.

E dessa forma o filme entretém e segura o espectador em basicamente três atos que conseguem superar um ao outro sucessivamente dentro de um limite de nunca querer ser realista, mas também nunca exceder o limite do absurdo, e ao mesmo tempo nunca subestimar o espectador independente da idade, pois também consegue ser um filme leve e familiar.

Uma pena ele não ter sido tão lembrado ou comentado, mesmo tendo feito um grande e silencioso sucesso, arrecadando mais de US$234 milhões no mundo, o que garantiu ao diretor uma continuação, mas que não garante a mesma despretenção, qualidade e entretenimento que esse inesperadamente oferece com muito prazer.

CONCLUSÃO...
É um filme divertido, um dos poucos atuais que mesclam ação e fantasia sem deixar o espectador entediado ou preocupado com tanta idéia mirabolante e desnecessária. Claro que as pistas falsas para enganar o espectador existem, e para aqueles que já estão acostumados com reviravoltas finais, poderá não ficar muito convencido com o final, mas também em nenhum momento o filme tem pretensões de ser levado a sério. 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

APAIXONANTE E INSPIRADORA...

★★★★★★★★★☆
Título: Philomena
Ano: 2013
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Stephen Frears
Elenco: Judi Dench, Steve Coogan
País: Reino Unido, França, Estados Unidos
Duração: 98 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre uma mulher que, cinquenta anos depois, com a ajuda de um jornalista, resolve ir atrás de seu filho dado para adoção aos 3 anos de idade.

O QUE TENHO A DIZER...
Dirigido por Stephen Frears, aclamado diretor de títulos como Ligações Perigosas (Dangerous Liaisons, 1988), Os Imorais (The Grifters, 1990), Herói Por Acidente (Accidental Hero, 1992), A Rainha (The Queen, 2006) e outros títulos menos ou mais conhecidos, menos ou mais apreciados, com pouco ou grande sucesso.

Independente disso, o estilo do diretor em explorar figuras únicas, martirizadas ou marcadas por grandes situações da vida, ou até mesmo pela relação com tipos oportunistas sórdidos, cruéis e maldosos, bem como a forma como tudo isso é superado, está sempre nos seus filmes, sejam eles com cargas dramáticas mais acentuadas, ou atenuadas por uma leve ironia cômica. Este é o caso de Philomena, que embora conte um drama real e devastador, consegue ser construído de forma muitas vezes motivadora, nunca esquecendo do drama pessoal da personagem de fato, o que também aconteceu em seus filmes anteriores mais recentes como O Retorno de Tamara (Tamara Drewe, 2010) e Chéri (2009).

Curiosamente o filme é baseado na história real de Philomena Lee, uma irlandesa que, na década de 50 e aos 18 anos, engravidou acidentalmente por consequência daquilo que para ela foi apenas um beijo e uma demonstração de afeto, quando, na verdade, foi uma relação sexual casual que ela não se atentou por desconhecimento e inocência. Sem saber que filhos eram feitos assim, a barriga cresceu e, por recomendação do próprio médico da família, seu pai a mandou para a Abadia de Sean Ross, pois naquela época era um insulto e uma vergonha para a família e para os católicos romanos uma mulher solteira engravidar, já que provava um ato sexual consumado antes do casamento e a perda da pureza cristã. Por isso, mulheres como ela eram colocadas longe da sociedade, e assim Philomena foi enclausurada na Abadia juntamente com outras jovens na mesma situação, onde teve seu filho Anthony e sofreu com a severa educação das Freiras do Sagrado Coração de Jesus e Maria. Depois que seu filho nasceu, ela teve direito a visitá-lo uma vez ao dia por apenas uma hora, e quando ele completou três anos, as freiras o entregaram para adoção a uma família norte-americana sem o conhecimento ou consentimento da mãe. O "engraçado" é que Philomena aceitou todo este sofrimento por realmente acreditar que aquilo era uma penitência necessária para o perdão de seus pecados, por ter descoberto o prazer sexual e ter tido um filho, muito embora o prazer sexual ela categoricamente afirma ter sido a maior e melhor descoberta de sua vida. Posteriormente a isso e aproveitando de sua religiosidade, as freiras aterrorizaram Philomena de arder no fogo do inferno caso ela não assinasse um documento que renunciava seu filho e a proibia, para o resto da vida, de procurar seu paradeiro. Como a personagem diz no próprio filme, ela não foi coagida, ela assinou por vontade própria, pois era naquilo que acreditava. Quase dez anos depois, ela saiu da Abadia, casou e mais quarenta anos se passaram para finalmente quebrar o voto de silêncio e aceitar o fato de que nada daquilo foi pecado. Ela contou a verdade para sua filha, que se engajou em descobrir o paradeiro de seu irmão. Na vida real ela afirma que também contou ao seu marido anos antes de revelar a sua filha, mas o mesmo apenas disse que o que está no passado é do passado, e nunca mais comentou sobre isso.

Sua história é realmente impressionante, pois é uma daquelas situações que acreditamos ser parte apenas de um drama fictício exagerado. Obviamente que o filme não é verdadeiramente fiel a história real, como o fato de ter sido Jane, sua filha, quem descobriu o paradeiro de Anthony - que agora se chama Michael Hess - e não o jornalista Martin Sixmith, bem como algumas outras situações mostradas, como a sequência final, que também é apenas uma fictícia interpretação para que o conflito final e esperado da personagem possa ser consumado e o ciclo dramático completado, tal qual expressado por ela mesma em um dos diálogos com o jornalista antes do grand finale.

A importância de Sixmith na biografia é ter sido ele o grande responsável em traçar toda a trajetória de Michael desde sua adoção, e por ter levado a história a conhecimento público com o livro The Lost Child Of Philomena Lee, publicado em 2009, no qual o filme é baseado. Sixmith também afirmou que a forma como ele é interpretado no filme é parcialmente correta, sendo verdadeira a maneira como ele é intolerante com as injustiças, mas que ele não é uma pessoa tão raivosa e grosseira como o filme mostra.

Mas ao comparar o desenvolvimento do filme com a biografia de Philomena, que pode ser encontrada de forma suscinta ou extensa pela internet em diversas versões e websites, o roteiro realmente consegue abraçar todos os principais fatos vividos por ela e encaixá-los na história de maneira simbólica e verdadeira, mesmo que em situações fictícias. Ou seja, embora os roteiristas (que inclui o próprio ator principal) tenham feito algumas livres e anacrônicas interpretações para o bem do desenvolvimento da adaptação, a história de Philomena está na tela o tempo todo e em seus 98 minutos, seja em fatos ou na sua personalidade otimista e marcante.

Como em grande parte dos filmes de Frears, este segue linear e sem pressa, mas o grande diferencial é a pontualidade dos fatos e a forma objetiva com que ele trata o roteiro, utilizando alguns flash backs (sendo muitos deles verdadeiros) apenas para complementar o passado da personagem em um filme com uma duração satisfatória, que carrega o espectador de forma envolvente sem subestimá-lo e comover sem ser piegas ou tendencioso, numa trajetória contada numa narrativa delicada e honesta. Também não é uma comédia, como pressupõe-se pelo marketing, mas emocionante em sua mais pura forma, que realmente levará alguns às lágrimas mais pela pureza e grandiosidade da personagem em lidar com situações tão difíceis do que pela grande tragédia da personagem em si. É um dos melhores filmes do diretor em anos, e que também mantém a mesma situação de dúvida que em A Rainha, por também não ser tendencioso a uma determinada idéia. Neste filme anterior o diretor manteve uma certe imparcialidade de julgamento sobre a culpa ou não da família real na morte de Diana, da mesma forma essa imparcialidade é mantida neste filme em não julgar a igreja católica ou as decisões de seus seguidores. Ele mostra os dois lados da moeda, o lado de uma mulher fiel e o lado do homem ateu e científico, há o conflito de ambos a todo instante, mas é decisão do espectador em escolher o lado.

Mais impressionante ainda é ver Judy Dench oferecer uma das interpretações mais leves, carismáticas e emocionantes em uma carreira cheia de personagens tipicamente londrinos e sisudos. A personagem, que se alto denomina "uma caipira", não é dotada de tanta malícia e sarcasmo como o personagem de Martin Sixmith (Steve Coogan), mas sua pureza e ingenuidade natas conseguem dar outras dimensões a coisas comuns e banais, como no momento em que ela narra empolgadamente para Sixmith um livro de ficção romântica barata, mas que para ela é parte de uma magnífica fantasia inesperada e que se torna bela e incomum pela forma como ela a interpreta. Seu desconhecimento frente a outras coisas também não a transforma em alguém ignorante, mas em uma pessoa com maravilhosos e surpreendentes pontos de vista constantemente adquiridos pela observação e curiosidade pela vida, mesmo que limitados, mas simples, com um olhar até infantil e singelo. A inspiração oferecida pela personagem é vasta, como a sua total incapacidade de vingança, de cultivar a mágoa ou manifestar a raiva até mesmo por pessoas que foram responsáveis por grandes momentos de dor em sua vida. Essa filosofia tão nobre e particular demonstrada por ela é o verdadeiro conceito sobre a crença divina e a busca pela paz espiritual, transcendendo qualquer linha religiosa ou dogmas. Philomena poderia ser uma pessoa amargurada e rancorosa, mas acredita no poder do perdão não porque isso seja fácil ou porque é isso que ela espera das pessoas em troca, mas porque é isso que lhe dá forças para viver, pois como ela mesma diz, a raiva deve ser exaustante.

Não há como não se apaixonar ou se emocionar por uma personagem e uma mulher tão grandiosa como Philomena Lee. Inspiradora e motivadora, uma grande lição de vida, daquilo que chamamos de fé e perdão, mas que raramente sabemos qual o seu verdadeiro significado.

CONCLUSÃO...
Não há dúvidas de que este longa seja um dos grandes destaques e também um dos melhores títulos de 2013, justamente por conta da sua história e da interpretação de Judi Dench ao ponto de, na lista dos melhores, todos os outros demais títulos serem até ser bons, mas Philomena será o único a ficar na memória de quem assistir, e não por ser chocante, pois não é, mas por ser, dentro de toda sua tristeza e tragédia, uma belíssima e inspiradora história de perseverança, amor, perdão e fé.

terça-feira, 1 de abril de 2014

COMO UM ROMANCE AMERICANO...

★★★★★★★★☆☆
Título: Yossi
Ano: 2012
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Eytan Fox
Elenco: Ohad Knoller, Oz Zehavi
País: Israel
Duração: 84 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Dez anos se passaram desde quando Yossi perdeu seu grande amor, muita coisa mudou, mas outras se mantiveram as mesmas, como alguns traumas, dificuldades e decisões.

O QUE TENHO A DIZER...
Dirigido pelo mesmo diretor do primeiro filme, Eytan Fox, esta continuação se passa exatamente dez anos depois dos incidentes do primeiro filme. O personagem principal, vivido novamente por Ohad Knoller, abandonou o exército e agora é um cardiologista conceituado, mas que vive, respira e se alimenta de sua profissão, preso em uma frustração de nunca ter se libertado de um passado traumatizante traçado por decisões erradas e uma tragédia que o marcou emocional e psicologicamente por nunca ter tido a certeza de seu companheiro ter ouvido sua primeira e única declaração de amor enquanto morria em seus braços.

Esta continuação é bastante interessante porque além de se abster de todos os defeitos que haviam no primeiro filme, o roteiro se aprofunda em demasia nas dores e frustrações do personagem de forma tão crua que é impossível o espectador não sentir todas as sensações de impotência, angústia, complexos e traumas de uma vida interrompida e solitária tal qual se transformou a vida de Yossi.

Dez anos é um espaço de tempo muito grande na vida de uma pessoa, mas que passa rápido o bastante para que não seja notada as mudanças que ocorrem à sua volta, ou em como problemas que não foram superados se enraizam e se transformam em partes de nós mesmos, como um casco, ou tão fechado quanto a concha de uma ostra. Toda essa percepção no filme é muito nítida quando o ator principal aparece em cena pela primeira vez, carregado em marcas de expressão, fora de forma, ausente de qualquer humor ou sentimento além da frustração. É um choque, mas ao mesmo tempo um sentimento de total compreensão das razões e motivos dele ainda cultivar essas dores.

O mérito desta continuação foi ter usado toda a situação criada pelo primeiro filme e desenvolvê-la de forma verdadeira e emocional em uma densidade que o primeiro filme nunca alcança. Os momentos de introspecção e de solidão do personagem e até mesmo nas suas poucas tentativas de superar as dificuldades e sair do casulo que ele contruiu são tão íntimos e pessoais que chegam a parecer verídicos, como se ele fosse alguém que realmente conhecêssemos há dez anos.

A história vai exatamente contar o final dessa trajetória de dez anos de depressão e sofrimento do personagem, mas nem por isso vai evitar de mostrar situações duras e constrangedoras em diversos momentos de grande verossimilhança, como quando Yossi resolve encontrar uma pessoa que conheceu virtualmente. A situação parece exagerada e uma ficção, mas muito comum e verdadeira entre pessoas que já passaram por situaçõe semelhantes desde quando a internet passou a ser uma oportunidade para os solitários, independente das orientações sexuais.

A maturidade da produção é equivalente ao tempo entre um filme e outro. Se esta continuação tivesse sido realizada dois ou cinco anos depois, talvez ela não tivesse o mesmo impacto ou a mesma densidade e refinamento como a apresentada agora pelo diretor e pelo ator, que embora mantenha a mesma imagem sisuda do começo ao fim, já está experiente e domina a técnica o suficiente para conseguir trasmitir muito com o pouco em momentos sublimes, como quando ele está assistindo a um show e a dor da solidão e de todas as dores que ele sente transcendem com a música, ou na sequencia final e seu visível misto de desconforto e vergonha com o desejo e a vontade de libertação.

A continuação recebeu grandes críticas positivas, mesmo não tendo tido a mesma presença em festivais e premiações como o primeiro. Nem por isso deixa de ser um filme de um apelo emocional profundo para qualquer pessoa. Embora o tema seja sobre as dificuldades comuns vividas pelas diversidades sexuais, ele é, acima de tudo, um filme mais humano do que temático, no qual participamos da vida do personagem de forma tão sincera que torcemos por essa libertação e redenção, e esse momento acontece, mesmo que de forma cliché, mas coerente com toda a trajetória mostrada nas duas produções, necessário e merecido ao personagem, como em um romance americano, assim como Jagger imaginou para Yossi no primeiro filme.

CONCLUSÃO...
Uma excelente continuação que de tão refinada se transforma em um filme único, um drama humano verdadeiro e coerente com uma realidade que ignoramos, mas que está mais próxima de todos nós do que imaginamos.

TENTA SER UM ROMANCE AMERICANO...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Delicada Relação (Yossi & Jagger)
Ano: 2002
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Eytan Fox
Elenco: Ohad Knoller, Yehuda Levi, Ays Steinovitz, Hani Furstenberg
País: Israel
Duração: 65 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre dois soldados que trabalham na fronteira entre Israel e Líbano que mantém uma relação secreta motivada pela solidão e carência da rotina diária de guerra.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme israelense é dirigido por Eytan Fox, e não conta uma história excepcionalmente diferente sobre a relação amorosa de dois jovens, a não ser o fato de serem dois soldados israelenses que convivem diariamente com seus colegas na faixa de guerra na fronteira entre Israel e Líbano.

Essa dificuldade de aceitação e de diferença de ideais já foi explorada diversas vezes e por diferentes maneiras em filmes com temáticas sobre diversidades sexuais nos últimos 20 anos, principalmente em países Europeus. Mas este filme em particular abraça a ideologia e a cultura de um país que se destacou por ser o mais progressista do meio leste asiático (e também no mundo) ao legalizar e a considerar legalmente a união estável homossexual em 1988 (e ainda permanecer como o único país asiático a reconhecer isso), a proibir a discriminação em 1992, a legalmente aceitar adoção de crianças por casais homossexuais em 2008, além da preservação legal de homossexuais poderem servir ao exército livre e abertamente.

A história pega gancho nessas liberdades oferecidas, porém mostra a dificuldade do personagem principal, Yossi (Ohad Knoller), em lidar com essa situação, bem como também suas contradições pessoais quando Jagger (Yehuda Levi) o pressiona para que a relação de ambos seja mais definida para ele e para os outros, para que possam viver sem limitações em um ambiente já naturalmente limitante como é o campo de guerra.

Fora isso, a história mantém o que já é previsto, como a rotina militar, alguns sonhos e vontades de uma juventude abandonada para que a carreira militar possa ser seguida, a dúvida de alguns companheiros e a certeza de outros sobre a relação dos personagens principais e o amor platônico de uma das mulheres por Jagger.

Embora o filme seja de 2002, a relação dos personagens principais ainda é algo muito atual e corriqueiro na sociedade, o que faz com que muitas pessoas que já tiveram ou ainda tem relações similares possam se identificar com eles. A crítica sobre esta hipócrita atitude é clara, mesmo que cliché, quando é demonstrado que a vida é muito curta para que as pessoas vivam sob falsas aparências e indecisões.

Não é um filme melodramático ou que pese no tema para agradar um público homossexual, pelo contrário, é um filme simples e curto (até bastante), e que trata desses problemas sociais de forma muito clara e objetiva, sem rodeios, metáforas ou muita profundidade porque a situação vivida por todos já é clara por si só. Por vezes a produção barata, a inexperiência de atores e até mesmo a direção um tanto amadora do diretor fazem o filme ter enquadramentos e focos que é impossível não associar com as produções de filmes pornográficos, tanto que a princípio achei que, talvez, a experiência do diretor pudesse ter saído dessas produções, o que não é verdade segundo seu currículo, mas infelizmente essa sensação pode ser sentida pelos mais atentos.

Independente de qualquer defeito, a baixa produção até consegue realizar um filme sensível e verdadeiro que tenta criar um romance americano, como diz um dos personagens, mas que não consegue porque a história não vive na mesma ilusão. E é esse seu destaque, tanto que a produção ganhou vários prêmios e foi um dos grandes destaques do Festival de Tribeca de 2003.

CONCLUSÃO...
Uma baixa produção que é sensível e realista, que mostra os problemas ainda enfrentados por casais homossexuais na sociedade de forma verdadeira e objetiva, sem mais ou menos.

domingo, 23 de março de 2014

PEDAÇOS QUE FALTAM...

★★★★★★★★☆☆
Título: Ferrugem e Osso (Rust And Bone)
Ano: 2012
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Jacques Audiard
Elenco: Matthias Schoenaerts, Marion Cotillard, Céline Sallette
País: França, Bélgica
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um ex-lutador de box desempregado que de forma inesperada conhece uma treinadora de baleias, com a qual desenvolve uma relação de confiança, porém de uma estranha e confusa dependência.

O QUE TENHO A DIZER...
Dirigido pelo francês Jacques Audiard, o qual já foi bastante premiado por dois filmes anteriores: De Tanto Bater Meu Coração Parou (De Battre Mon Coeru Sést Arrêté, 2005) e O Profeta (Un Prophète, 2009), o qual também concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010. Com este filme o reconhecimento não foi diferente, chegando a competir pela Palma de Ouro no Festival de Cannes, além de ter sido indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e a Melhor Atriz para Marion Coutillard, e foi por pouco que a atriz também não concorreu ao Oscar em 2013, ficando de fora das finalistas por, talvez, a outra francesa Emmanuelle Riva ter sido indicada.

A história do filme gira em torno do ex-lutador de box, Ali (Matthias Schoenaerts), que agora está desempregado e que migra para Antibes, no sul da França, junto com seu filho de 5 anos, com o qual pouco teve contato até decidir assumir a paternidade já que aparentemente a criança era explorada como mula para tráfico de drogas. Sem dinheiro para nada, Ali vai morar de favor na casa de usa irmã Anna (Céline Sallette), e passa a trabalhar provisoriamente como segurança de uma casa noturna, onde conhece a treinadora de baleias assassinas, Stéphanie (Marion Cotillard), ao apartar uma briga entre ela e outra pessoa. De segurança do clube ele passa a realizar trabalhos ilegais, pois pagam bem, como instalar câmeras ocultas para espionar trabalhadores de empresas ou participar de torneios de lutas de rua. Ali é um homem rústico e temperamental, que não sabe lidar muito bem com seu lado mais sentimental e humano até ser novamente procurado por Stéphanie, que teve parte das duas pernas amputadas devido ao grave ataque de uma das baleias que treinava.

O filme é, na verdade, baseado em duas histórias do livro Ferrugem e Osso (Rusty & Bone), de Craig Davidson, mas nas histórias é um homem quem é atacado por uma baleia assassina. O diretor achou interessante mudar o sexo da personagem na história pelo excesso de personagens masculinos em seus filmes anteriores. Essa mudança trouxe outra dimensão na história, já que a condição da personagem e a sua fragilidade são muito mais acentuadas pelas suas próprias características que são descritas durante a história, como ela ser uma mulher sexy, que gosta de atrair a atenção dos homens simplesmente pelo prazer de se sentir desejada, e de repente se encontra em uma situação isolada, diferenciada e dependente, em que todas as possibilidades anteriores a isso se modificaram em um piscar de olhos. Essa fragilidade também intensifica a brutalidade quase ogra do antagonista e a forma como eles aprenderam um com o outro a diminuir esses excessos e encontrar um equilíbrio considerável.

O papel desempenhado pelo ator belga Matthias Schoenaerts não é muito diferente do desempenhado no filme Bullhead (Rundskop, 2011), tanto que o diretor se interessou pelo ator após assistir esse filme. A brutalidade, rustidez e o temperamento explosivo existem tanto neste personagem quanto no anterior, porém em medidas diferentes (até as cabeçadas que ele dá em determinada parte do filme soam como uma referência ao filme anterior). Enquanto em Bullhead o personagem se encontrava em uma sucessão de fatos desastrosos que nunca lhe davam oportunidades para ver a vida por pontos de vista menos duros e que dessem a ele condições de mudanças, em Ferrugem e Osso essas oportunidades aparecem gradualmente. Isso não significa que gradualmente o personagem irá melhorar seu comportamento e relações, mas que ele levará um choque definitivo de realidade que o colocará em uma bifurcação decisiva: ou continuar no mesmo caminho de erros, ou trilhar um outro mais suave e promissor.

O filme foi divulgado como um drama denso e difícil, muito pela interpretação visceral e cheia de nuances de Cotillard, mas a verdade é que é mais um filme sobre a busca por superações e o aprendizado de conviver com as dores que nos formam. O encontro e conflito desses dois personagens tão distintos, porém com o mesmo sentimento de impotência e incompreensão, mostra como a relação entre pessoas muitas vezes acontece de forma inesperada e que as conectam de alguma forma, como pedaços que faltam, como muletas umas às outras para a continuidade de uma longa caminhada. Ali é para Stéphannie as pernas que ela não tem mais, a base e o apoio, enquanto ela é para ele o foco que ele precisa, a racionalidade e o sentimento que lhe faltam.

Esse apoio é nítido em três situações cruciais no filme, a primeira quando ele a leva para o mar pela primeira vez, a segunda quando ela resolve apoiá-lo durante uma das lutas que ele estava prestes a perder, e a terceira quando, em uma das sequencias finais, ela ameaça desligar o telefone. São três momentos que deixam claro o que cada um doa para o outro e o que isso representa um ao outro.

Essa relação estranha entre os dois personagens é delicada e cheia de significados sutis sobre as noções de amizade, companheirismo, respeito e amor, mas nada de forma cliché ou enfática no drama sem compromisso, pelo contrário, cada dificuldade ou conflito encontrado por cada um deles é mostrado de forma objetiva, como um obstáculo a ser superado e nada mais. Essa relação, embora forte, é por vezes distante e fria. A tensão sexual que existe entre eles é, para ela, a concretização de algo que outrora era efêmero, e hoje se tornou um prazer raro. Para ele é apenas mais uma satisfação, tal qual lutar, tal qual era pra ela treinar suas baleias. Cotillard afirmou em uma entrevista que o que ela mais odeia como atriz é realizar cenas de sexo, mas que nesse filme em particular ela estava tão emocionalmente conectada com a personagem que ela se sentiu feliz pela intensa satisfação que a personagem teria com estas oportunidades. E nem por isso as cenas de sexo são abusivas ou desnecessárias, são os únicos momentos de intensa satisfação da personagem e da total compreensão de Ali em ver Stephanie como uma pessoa por inteiro, e não por partes. Como a atriz mesmo afirmou, se essas cenas não estivessem no filme, haveria um sentimento do espectador de que algo estaria faltando.

Claro que ele não foge de algumas mancadas como a cena na sacada do prédio em que Stéphannie relembra os comandos de treino com Katy Perry cantando ao fundo como se tudo fosse uma coreografia de video clipe, ou de repente Ali passar a ter uma relação complicada com seu filho quando, no começo do filme, a impressão que se tem é completamente inversa. Mas no mais, o filme consegue atingir o impacto necessário. Um belo, emotivo e sincero filme, por sinal.


CONCLUSÃO...
Ao contrário do que possam ter promovido, não é um filme pesado ou carregado em tragédias ou dramas. Um belíssimo filme sobre as noções de superação e apoio, além do inesperado encontro de dois personagens que não possuem qualquer afinidade, mas cujos conflitos se encaixam para que o equilíbrio exista e esta superação seja alcançada.

CONDUZINDO MRS. TRAVERS...

★★★★☆☆☆☆☆☆
Título: Walt Nos Bastidores de Mary Poppins (Saving Mr. Banks)
Ano: 2013
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: Livre
Direção: John Lee Hancock
Elenco: Emma Thompson, Tom Hanks, Colin Farrell, Paul Gimatti
País: Estados Unidos, Reino Unido, Austrália
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre a dificuldade de Walt Disney em conseguir adaptar a obra escrita por P. L. Travers.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é dirigido por John Lee Hancock, o mesmo do filme Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009), responsável por dar o Oscar de Melhor Atriz a Sandra Bullock, que foi um sucesso mais pelo seu tema baseado em fatos reais e em pessoas reais ainda vivas do que por outras qualidades. Filme que peca no excesso do melodrama cliché e que, sim, passa uma mensagem bonita e inspiradora, mas por várias vezes faz um copo de açúcar nunca parecer doce o bastante.

Neste filme o diretor peca nas mesmas coisas: a falta de uma direção mais refinada e coerente com a realidade da época. Assim como seu filme anterior, este parece um tanto desatualizado, com alguns enquadramentos antiquados, exagero na caricatura dos personagens e uma tentativa frustrada de contar a história do surgimento de uma das ficções mais apreciadas tanto na literatura quanto no cinema de uma forma lúdica que nunca, nunca convence. Sua direção tenta ser tão segura e correta que erra justamente por ser feita exatamente dentro dos padrões corretos e imaginados, como que seguidos em uma cartilha para novos diretores.

Talvez muito disso tenha sido por conta de ser uma produção da Walt Disney falando de uma história sobre o Walt Disney, mas com todos os pudores e recatos necessários para que seja um filme familiar e publicitário para as novas gerações sobre o quão bom e visionário Walt Disney era como homem e produtor, mas nunca como um homem manipulador, fedido de cigarro, com uma tosse grossa de puro catarro e poderoso o suficiente para conseguir tudo o que materialmente sempre quis.

A verdade é que o filme é irritante... intragável! A figura de P. L. Travers criada por Emma Thompson, além de toda sua história desenvolvida entre eventos presentes e flashbacks, é o de uma personagem esquisita e caricata, cheia de manias e caretas que, além de beirar o insuportável, se torna antiquada na tela e no propósito do filme, tanto que no começo Emma tenta até presenteá-la com algum tique nervoso que não funcionou, e mais ao fim ela tenta utilizar outros que igualmente mais constrangem do que fazem efeito.

A impressão que se tem é que Travers era uma mulher tão excêntrica, tradicionalista, neurótica e difícil de se relacionar que, para se tornar simpática na tela e atrair a empatia do público que fosse assistir o filme seria necessário pintá-la como uma caricatura tal qual foi feita, regada de momentos apelativamente lúdicos e de excesso sentimental para amolecer uma persona e uma história que não parece ter sido tão "levada nas coxas" quanto é demonstrada pelo filme. É como se a própria Disney quisesse recontar a história à sua maneira, deixando a história de verdade de lado para vir à tona uma fantasia criada por ela mesma, de forma idêntica a qual foi feita com Mary Poppins, bonita na tela, mas bastante diferente do que é nos livros.

Pelas informações que é possível encontrar em pesquisas breves sobre a pré-produção do filme, já se descobre que Travers era uma pessoa de personalidade irrefutável, de decisões irreversíveis, que foi responsável por atrasar a produção em dois anos apenas para o desenvolvimento do roteiro, já que uma das cláusulas da venda dos direitos incluia sua participação e aprovação no desenvolvimento da adaptação, ou seja, não entraria uma letra no roteiro que ela não aprovasse. Isso gerou uma grande crise nos bastidores por conta de constantes discussões e desavenças com Walt Disney que em várias situações ameaçaram impedir de uma vez por todas o filme de ser feito.

Não se sabe ao certo como Disney conseguiu dobrar as constantes relutâncias de Travers ao ponto dela assinar a venda dos direitos, mesmo que não concordando com tantas mudanças que a obra sofreu para sua adaptação (incluindo a inclusão de algumas canções dos irmãos Sherman e até mesmo a sequencia de animação), tanto é que a Disney não possui os direitos dos demais 7 livros da série, bem como os livros estão proibidos para qualquer adaptação cinematográfica segundo cláusulas de seu próprio testamento que, até hoje, tem partes de seu conteúdo não divulgado para a mídia, tão forte e pesado que devem ser as requisições.

Tudo bem que a bem da verdade é que nenhum outro estúdio se preocuparia em contar uma história de bastidores que envolvesse Walt Disney, bem como o que o presidente Alan Horn afirmou de que qualquer outro estúdio além da Disney poderia causar grandes danos à imagem e a marca da empresa é compreensível, mas que o filme é uma desnecessária produção... isso é fato.

Não entendo até agora qual foi a inteção dos flashbacks no filme, pois eles só atrapalham mais ainda a história, pois pouco acrescenta ou fundamenta as razões e motivos de Travers ser como é ou as referências que ela tirou da sua vida para colocar em suas obras. Ok, as figuras principais aparecem e são óbvias, mas nada é aprofundado o suficiente, tudo é muito superficial e banal para apelar situações sentimentais ao invés de ser uma biografia verossímil.

Talvez nada mais banal e contraditório quanto a personagem de Emma Thompson afirmar categoricamente que aboliu a cor vermelha de sua vida, enquanto utiliza batom e esmaltes carmin, ou as partes mais interessantes do filme ser entre ela e o chofer vivido por Paul Giamati, o que o nome do filme seria melhor se chamasse Conduzindo Mrs. Travers. E nada mais marketeiro como o "grande confronto" final entre Mary Poppins e Mickey Mouse, em um discurso pra lá de político e disneylândico de Tom Hanks (que está com cara e jeito de "tio da gente", como disse Rubens Ewald). Como se Walt Disney tivesse certeza absoluta naquela época de que Mary Poppins seria tão grandioso e uma referência imediata de várias gerações.

Será mesmo que ele sabia? Pra mim isso é apenas um discurso oportunista que coube bem no propósito do filme.

CONCLUSÃO...
Filme ruim, esquecível, cheio de interpretações caricatas e cafonas, se é que cafonice existe definição. Uma história amenizada que faria Pamela Travers, se estivesse viva, ter tanta vergonha quanto tinha da adaptação de Mary Poppins.

segunda-feira, 17 de março de 2014

PARA SENTIR A DOR, O PESO E O CHEIRO...

★★★★★★★★★☆
Título: 12 Anos de Escravidão (12 Years A Slave)
Ano: 2013
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Steve McQueen
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Benedict Cumberbatch, Michael Fassbender, Sarah Paulson, Paul Giamati, Lupita Nyong'O, Brad Pitt
País: Estados Unidos
Duração: 236 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um violinista negro e livre que, no início do século XIX, foi traficado como escravo de Washington para o sul dos Estados Unidos.

O QUE TENHO A DIZER...
O terceiro filme dirigido por Steve McQueen, o mesmo diretor de Fome (Hunger, 2008) e do controverso e aclamado Shame (2011), dois filmes em que o diretor chega sempre aos extremos e tira os expectadores das zonas de conforto, todos também estrelados pelo ator Michael Fassbender. Claro que com esse título ele não faria diferente, mas agora se baseia no livro homônimo escrito por Salomon Northup, publicado originalmente em 1853 e que conta sua história e tragetória de doze anos como um escravo no estado de Louisiana, nos Estados Unidos, mesmo sendo ele um homem livre.

Depois do sucesso de crítica e público da saga de vingança chamada Django Livre (Django Unchained, 2012), a mídia o taxou como o único filme Hollywoodiano que tratou sobre a brutalidade da escravidão norteamericana de forma crua e próxima da realidade, mesmo tendo os exageros cinematográficos do diretor e sua perspicaz ironia. O próprio Tarantino chegou a alegar o mesmo, dizendo que seu filme fez mais que isso, ele chamou a atenção para reerguer o questionamento de até onde o orgulho e a ganância dos norteamericanos foi capaz de chegar por não apenas maltratar, torturar e matar os negros, mas também a população nativa indígena, e ambos sofrendo consequencias disso até os dias de hoje.

Mas enquanto Django foi uma ficção de ação e romance, com pitadas de drama histórico, era um tanto óbvio e previsível que Hollywood necessitasse abordar novamente o tema, mas de forma mais dramática e apelativa.

Não há como negar que, embora 12 Anos seja um belo e pesado drama histórico sobre um período desumano e cruel que foca a vida de apenas um exemplo dentre milhões de vítimas que existiram, ele foi feito para cumprir seus propósitos de sensibilizar seus espectadores, também reerguer as mesmas discussões e figurar entre os grandes festivais de cinema e premiações. Tanto que a obra a ser adaptada foi escolhida a dedo pela produtora de Brad Pitt, a Plan B. O filme não apenas pegou carona no caminho aberto por Django, como também foi lançado em uma época política muito propícia nos Estados Unidos, quando o único presidente negro da história do país sofre uma queda de popularidade constante. Pode parecer absurdo, mas é o cinema Hollywodiano dançando conforme a política do país.

Embora o livro tenha sido um best seller no período em que foi lançado, com uma tiragem de 30 mil cópias, ele caiu no esquecimento histórico e público por mais de um século, sendo redescoberto na década de 60 por dois historiadores de Louisiana que pesquisaram e traçaram novamente toda a jornada vivida por Solomon. Toda essa pesquisa se transformou em uma nova edição do livro, lançada em 1968, contendo anotações históricas resgatadas de acordo com a narrativa em primeira pessoa de Solomon Northup em sua obra. O próprio diretor afirmou em várias entrevistas que o que mais o chocou foi por nunca ter tido conhecimento da existência do livro até 2008, época em que ele estava engajado na idéia de contar uma história sobre a escravidão norteamericana, mas não conseguia desenvolver um projeto que realmente o interessasse. Foi então que sua mulher encontrou e apresentou a ele uma cópia do livro, que imediatamente chamou sua atenção por ser para os Estados Unidos o equivalente ao que é O Diário de Anne Frank para os alemães, porém lançado 97 anos antes das memórias de Anne.

Frente a isso, o filme foi bastante aclamado e seu destaque na mídia foi tão grande que já figura como um forte produto histórico do cinema norteamericano, o que também resultou na decisão do governo em distribuir o livro para todo o ensino médio dos EUA, um fato raro e respeitável.

Sem dúvida ele consegue cumprir esse papel de representação histórica, muito embora ele não conte ou tente definir de alguma forma, ou em quais circunstâncias, Salomon não apenas era um homem negro e livre como também uma figura social respeitável em Nova York antes de ser traficado como um escravo para o Sul do país. Também é um pouco confuso a forma como esse tráfico ocorreu, já que os poucos flashbacks que o filme mostra não deixam claro se os responsáveis foram mesmo as pessoas que o contrataram para uma temporada de trabalho ou se o sequestro ocorreu posteriormente a isso. Para o desenvolvimento do filme essas explicações podem não ser muito relevantes, pois talvez não haja informações claras sobre isso na própria obra, mas para um embasamento histórico maior no período em que o filme se situa, deixar essas circunstâncias legais um pouco mais evidentes teria dado maior fundamento e densidade não apenas para a história em si como também para aqueles que desconhecem esse delicado e complicado período de transição social nos Estados Unidos que durou quase um século.

Nos demais quesitos tudo se desenvolve como deve: McQueen segue a direção mais segura possível em cima de um roteiro que, embora tente se manter coeso o tempo todo, ainda passa uma leve sensação de que alguma coisa poderia ter sido melhor como, por exemplo, a passagem de tempo. Só temos a percepção de que 12 anos se passaram porque este é o título do filme, mas nunca temos essa sensação além dos poucos cabelos brancos que Salomon apresenta na sequencia final.

Não há como negar que é um filme difícil de ser assistido, duro de ser engolido, pois embora não tenhamos a percepção do tempo ou haja o excesso dramático com a belíssima trilha sonora, porém apelativa, já que não evita invadir cenas para incentivar o sentimentalismo fácil, nada disso, ou nenhum dos poucos defeitos que o filme apresente vai mudar o fato de que o que Salomon viveu, ou qualquer outro negro tenha vivido durante a escravidão (ou ainda viva), reflita a total e completa falta de noção de humanidade e da consciência de igualdade entre as pessoas como homens e seres humanos, seja biologicamente ou baseados na fé e na crença divina, questionamentos bastante recorrentes durante o filme.

Há também um fato muito importante de que, embora seja um filme histórico, sobre relatos do início do século XIX, ele ainda se mantém atual, já que o tráfico de humanos para servidão semiescrava ou escrava ainda é recorrente e de preocupação mundial que não se restringe mais a apenas negros ou a faixas etárias. Pessoas de todas as nações constantemente são sequestradas, traficadas, perdem total contato com suas famílias e são categorizadas como desaparecidas. Muitas perdem suas vidas neste tempo, poucas conseguem retornar anos depois de dadas como mortas, tal qual como ocorreu com Salomon Nurthop.

As individuais noções de sobrevivência e do sobreviver também são transpostas com muita efetividade pelos personagens, incluindo seus questionamentos, mas isso novamente é graças ao elenco escolhido mais do que pelo roteiro. Chiwetel Ejiofor se mantém dentro de uma situação tão limítrofe entre a desistência e a fé que apenas a sua base familiar e as memórias que lhe restam conseguem ser suficientes para que ele não se exceda nem para um lado ou para o outro. A performance da mexicana Lupita Nyong'O realmente é notável. Embora ela seja quase que uma sub-coadjuvante, pois sua participação é mais consistente só na metade final do filme, a constante brutalidade que ela sofre principalmente pela mulher ciumenta de seu dono (vivida pela também ótima Sarah Paulson) são tão chocantes e de intensidade dramática tão forte que os momentos mais deprimentes não são durante as surras ou enquanto seus companheiros cuidam da sua carne dilacerada pelo chicote, mas nos sutis momentos em que ela aparece em cena inesperadamente, que com apenas um olhar, uma atitude, já subentende-se de imediato outros maltratos e abusos sofridos, mas que não foram mostrados em cena, além da dor que ela carrega por saber que sua vida será um constante sofrimento sem fim e sem qualquer oportunidade de escolha, até mesmo para tomar um banho. Aliás, esta sequencia, que é o ápice dramático da personagem, é de um impacto tão grande e chocante que deixa evidente o total descaso e a falta de consideração dos humanos pelos seus semelhantes. O destaque e reconhecimento da atriz obtidos pelo papel é mais do que merecido, bem como dos demais atores como Michael Fassbender, a já mencionada Sarah Paulson e até mesmo Paul Giamati, que tem uma participação pequena, mas surpreende ao sair totalmente dos personagens cômicos que já representou antes. Brad Pitt também faz uma ponta, mas é fraco, forçado e caricato, talvez a interpretação mais esquecível quando comparado com tantos grandes momentos de cada um dos demais.

Cheio de cenas memoráveis, talvez uma das mais tocantes e significativas seja na sequencia em que estão todos os escravos cantando pela a morte de um companheiro, e aos poucos Solomon se rende ao costume e a louvar com uma intensidade crescente e emocionalmente infinita, tanto que a música gospel negra, depois dessa cena, passa a fazer muito mais sentido, pois essa transcendência que esses cantores alcançam é a mesma que o personagem também alcança, e tudo isso se explica na cena por si só.

O filme assustadoramente custou US$20 milhões, um orçamento bastante baixo para uma produção de extrema qualidade, e é considerado um grande sucesso, pois já arrecadou mais de US$150 milhões no mundo. Ele concorreu a 9 Oscars, vencendo apenas nas categorias de Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante e Roteiro Adaptado, categorias merecidas, muito embora na categoria de Melhor Filme havia outros grandes concorrentes, mas era previsível, já que como afirmei em posts anteriores, a Academia não apenas é formada em sua maioria por membros antigos e conservadoras como também viram nesse filme uma obrigação em premiá-lo para camuflar um rascismo que ainda é latente nos EUA, no cinema e no mundo.

CONCLUSÃO...
É mais um filme respeitável do diretor Steve McQueen, mesmo que dentro de uma produção segura, mas que deve ser aceita como um produto cinematográfico relevante para a história e para a consciência pública de que atos desumanos são inaceitáveis independente de sua época. Embora tenha uma faixa etária definida, deve ser assistido por todos, sejam eles crianças, jovens ou adultos, para que todos tenhamos consciência da dor, do peso e do cheiro desagradável de ter a dignidade completamente anulada.

terça-feira, 11 de março de 2014

ELA É PRESENTE, EMBORA NÃO EXISTA...

★★★★★★★★★☆
Título: Ela (Her)
Ano: 2013
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Spike Jonze
Elenco: Joaquim Phoenix, Amy Adams, Scarlett Johanson, Olivia Wilde, Rooney Mara
País: Estados Unidos
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um escritor solitário que desenvolve uma estranha relação de amor e dependência com um sistema operacional desenvolvido para oferecer as principais necessidades humanas.

O QUE TENHO A DIZER...
Dirigido, produzido e escrito por Spike Jonze, é o primeiro filme em que o roteiro é assinado inteiramente por ele, diferente do que foi com o já clássico Quero Ser John Malkovich (Being John Malkovich, 1999) e Adaptação (Adaptation, 2002), que foram escritos por Charlie Kaufman, ou Onde Vivem os Monstros (Where The Wild Things Are), co-escrito por ele e Dave Eggers.

Jonze começou a carreira dirigindo vídeos de música para artistas com conceitos visuais fortes como Björk e R.E.M., onde adquiriu experiência e amadureceu seu estilo que se transformou em uma assinatura forte em Hollywood tal qual como aconteceu com David Fincher ou Tarsem Sigh. Seus filmes geralmente são conhecidos pela narrativa estranha e de desenvolvimentos esquisitos para o público comum, mas propositais para causar impacto em cima de idéias simples e, assim, fugir de clichés ou simples melodramas, fazendo o espectador olhar sobre eles por um ponto de vista mais sensível, humano, que são pouco observados ou até mesmo ignorados, um estilo que se assemelha bastante ao de Wes Anderson, porém por uma narrativa menos fantasiosa e irônica, focada muito mais no que ele quer contar do que na excentricidade de seus personagens.

Ela conta a história de Theodore (Joaquim Phoenix), um escritor que trabalha em uma empresa que escreve cartas virtuais impressas em letras cursivas simuladas, enviadas e assinadas no nome de pessoas que contratam esse serviço para substitur o árduo trabalho de fazerem elas mesmas algo tão pessoal. Por acreditar que suas cartas são perdidas e esquecidas com o tempo, é no trabalho que ele desempenha o seu melhor papel ao dar sentimento em todas as palavras e frases poéticas que utiliza para pessoas que ele não conhece. Sua solidão e a difícil situação de ter que assinar seu divórcio com Catherine (Rooney Mara), sua ex-mulher, deixam nele um vazio que nunca é preenchido e com uma imensa dificuldade de se relacionar novamente com qualquer outra pessoa, incluindo sua única e melhor amiga, Amy (Amy Adams). Sua vida parece não ter sentido e nem graça até encontrar no mercado um novo sistema operacional de inteligência artificial capaz de agir, reagir, aprender e se desenvolver de acordo com as ações, reações e gostos de seu dono, desenvolvendo uma personalidade própria, porém relativa e similar a de seu usuário para que exista empatia e conexão, e é quando ele cria Samantha, a companheira que ele sempre sonhou ter.

A história se passa em um futuro indefinido porém visualmente desconexo com seu tempo, onde a tecnologia virou uma parte tão viva dos humanos que eles se esqueceram de como eles mesmos são, ou de como se relacionam ou devem se relacionar entre si. A frieza e a distância da condição não apenas do personagem, mas de todos os demais, incluindo os figurantes, é representada logo no início do filme com um design de produção e figurinos que abusam de cores lisas e formas geométricas retilíneas, que oferecem uma bela fotografia, mas propositalmente são vazias e inexpressivas, como um catálogo de uma revista. Tudo muito simples, padronizado e dentro de uma organização comum, como se tudo fosse parte desse grande sistema operacional e as pessoas apenas mais uma ferramenta dele, tal qual uma cadeira, uma mesa, um computador e tudo mais que não tenha identidade, apenas uma função.

O mais estranho de tudo é que esquecemos que a voz que conversa com o personagem (feita por Scarlett Johanson), na verdade, é ninguém. Samantha é apenas mais um personagem virtual de interação que, como dito, age, reage e diz coisas que Theodore quer ouvir, sentir ou imaginar, tudo de acordo com as análises vocais, da relação do personagem com outros sistemas, no que ela também aprende com ele e com outras informações absorvidas, já que este sistema tem uma inteligência artifical de adaptação e aprendizado de tudo que está interligado a ele, como muitos sistemas que utilizamos na realidade hoje em dia como, por exemplo, os aplicativos de previsão de texto, que podem "aprender" o modo de escrita de seu usuário e fornecerem frases inteiras com apenas duas palavras conforme o aumento da experiência de uso.

Obviamente que o filme maximiza uma realidade que não existe, mas que está próxima (ou que chegará perto), já que a tecnologia, a cada dia que passa, tenta aumentar cada vez mais essa interatividade entre o homem e a máquina. De qualquer forma, isso tudo nos deixa claro como somos facilmente influenciados não pela tecnologia, mas pela nossa própria imaginação e fantasia, e ao invés de trocarmos essas idéias e vontades uns com os outros, a tecnologia tem nos favorecido a nos isolar cada vez mais dentro dela, algo muito cômodo, pois no medo de sermos mau interpretados, compreendidos, criticados e nos decepcionar com as reações alheias, estamos cada vez mais mergulhando em uma individualidade e em uma interação virtual que nos priva de sofrimentos, mas também nos impede de viver a realidade e aprender a lidar com ela.

De forma indireta essa busca pelo amor ideal e platônico ou a mistura do real com o imaginário já foi abordado em filmes anteriores como A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose Of Cairo, 1985) ou até no mais recente Ruby Sparks (2012), em que um escritor desenvolve um amor tão grande por uma de suas personagens que ela cria vida própria e é perfeita, até ele mostrar seus próprios defeitos que refletem na sua própria criação, o que se assemelha bastante ao conflito vivido neste filme entre Theodore e Samantha, quando ela passa a aprender com ele os seus próprios erros e a mostrar pra Theodore não uma personalidade própria, mas um espelho daquilo que ele realmente é.

A princípio até pode parecer que seja, mas o filme não faz parte da teoria de Isaac Aazimov de que uma inteligência artificial poderá desenvolver uma inteligência própria e independente, como em O Homem Bicentenário (Bicentenial Man, 1999), baseado em obra do próprio cientista, porque Samantha nada mais é do que a resposta de uma vontade do próprio personagem. Ela não tem idéias e sentimentos como diz ter, e ela não tem vontades e nem sensações, ela apenas expressa toda uma fantasia em resposta ao que ele mesmo cria, muito embora a função dela seja de fazê-lo acreditar de que aquilo é real. Theodore tanto acredita nisso que quando um de seus amigos diz que Samantha é hilária, nenhum deles sequer imaginam que ela é assim porque ele é hilário, mas ninguém o conhece dessa forma porque ele nunca se deu a oportunidade de se mostrar assim a não ser para ela.

Toda essa correlação entre ele e seu sistema faz existir uma empatia e uma conexão direta entre eles, florescendo o entusiasmo de uma amizade pelas afinidades e pela sinceridade nas quais ela foi programada a ter, que posteriormente amadurece a uma paixão por ser correspondido a algo que ele sempre buscou, e culminar no florescer do amor porque, para ele, ela é única. É a pura definição do verdadeiro amor platônico, que existe apenas dentro daquilo que ele imagina ser o ideal. A existência de Samantha também alimenta cada vez mais a solidão que ele tanto desprezou, mas que agora é confortável porque ela está presente, mesmo que não exista.

A diferença das relações fica clara quando sua amiga, Amy, em uma das sequencias do filme, conta os motivos e razões de seu relacionamento de oito anos ter acabado por algo tão banal, porém real e inevitável, mostrando que por mais que o tempo passe, por mais que os anos avancem e o homem evolua, ele nunca se habituará a isso, e fugirá de uma relação sempre que possível quando as dificuldades se tornarem maiores do que as vontades, e Theodore ouve tudo como se fosse uma história comum e banal, seguro de que entre ele e Samantha isso nunca irá acontecer.

Jonze não tenta em nenhum momento criticar a existência de tal tecnologia ou da possibilidade dela existir, até porque no filme isso é tão comum que ninguém se espanta quando o personagem revela "namorar" um sistema operacional. Ele muito menos também tenta sequer criticar o aumento da individualidade e da introspecção das pessoas frente a tecnologia, pelo contrário, ele mostra os seus prós e contras de forma sutil, como uma experiência de vida qualquer que deve ser desfrutada para próprio autoconhecimento, mas que em nenhum momento devemos ficar presos a ela ou a qualquer outra coisa, pois todas elas, independente de serem concretas ou abstratas, são vãs e passageiras, restando apenas o sentimento e a memória, já que são as únicas consciências reais e que ficam. Isso tudo é muito claro quando, em um diálogo bastante comovente, novamente a personagem de Amy Adams, sensibilizada quando Theodore confessa se sentir um louco por estar apaixonado por algo que não existe, diz que não há nada de louco nisso, e que depois de tantas coisas que viveu e na atual situação e época que se encontra, ela quer somente ser feliz, independente da maneira que seja, mesmo que com algo que não exista.

Em um mundo onde as pessoas contratam uma empresa para escreverem e forjarem suas próprias cartas à mão, quando elas mesmas estão tão vazias de sentimento e vontade que é necessário que alguém faça isso para elas, Jonze não economiza em mostrar que a busca pelo reconhecimento e do amor são como drogas, e que todos nós temos necessidade vital de tê-la e consumi-la, não importa como.

CONCLUSÃO...
Merecidamente Jonze levou todos os principais prêmios que concorreu por Roteiro Original, que é brilhante no seu desenvolvimento e no levantamento de questões sentimentais e existenciais, sincero nos sentimentos que carrega e uma lição de que experiências devem ser vividas intensamente para o crescimento e desenvolvimento do caráter, e que o amor é uma grande escola, pois é o sentimento mais sincero e humano que apenas os humanos tem, muito embora pouco sabemos lidar com ele.

sexta-feira, 7 de março de 2014

MELHOR QUE O LIVRO DE NOVO...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Jogos Vorazes: Em Chamas (The Hunger Games: Catching Fire)
Ano: 2013
Gênero: Ação
Classificação: 12 anos
Direção: Francis Lawrence
Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Jena Malone, Donald Sutherland, Stanley Tucci, Philip Symor Hoffman
País: Estados Unidos
Duração: 146 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Katniss pode ter vencido o Jogos Vorazes, porém se transformou em uma ameaça ao Presidente Snow e ao seu poder totalitário.

O QUE TENHO A DIZER...
Em Chamas foi dirigido por Francis Lawrence, mais conhecido por ter dirigido Eu Sou A Lenda (I'm A Legend, 2007). É a segunda parte da tetralogia de filmes (a trilogia é apenas na série de livros, já que o último episódio, A Esperança, será dividido em duas partes nos cinemas, a serem lançados em 2014 e 2015).

Também é a firmação de Jennifer Lawrence como a grande e atual "Namoradinha da América", já que os dois primeiros filmes já arrecadaram mais de US$1,5 bilhão no mundo até o momento, além do Oscar que já recebeu em 2013 por O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, 2012) e outras duas indicações, sendo a segunda este ano por Trapaça (American Hustle, 2013).

É engraçado como o cinema às vezes nos surpreende, pois a maioria dos filmes baseados em livros bons costumam ser de medíocres a constrangedores, como, por exemplo, grande parte das adaptações das obras de Stephen King. Algumas outras conseguem fazer jus às obras que são baseadas, como a série Harry Potter ou O Senhor dos Anéis. Raras são as vezes em que livros tão pobres em narrativa ou descrição conseguem resultar produtos válidos de entretenimento, como acontece com esta série.

É nítido observar nos livros que a escritora Suzanne Collins utiliza uma narrativa em primeira pessoa para se abster de uma ação mais descritiva, talvez porque ela não tivesse idéia do que estava fazendo, ou também porque ela realmente não tenha talento o suficiente para descrever Panem e seus conflitos de forma tão detalhada como seria de costume em uma série épica, tanto que o roteiro que ela co-escreveu para o primeiro filme amplia o mundo distópico e compensa todas as faltas de criatividade literária que ela apresenta nos livros (com excessão da violência, que nos filmes é muito mais suave).

Claro, não podemos negar o fato de falarmos de uma série infanto-juvenil que conseguiu consquistar até jovens adultos nos Estados Unidos, país onde ele foi mais popular até o lançamento do primeiro filme, mas isso não justifica narrativa tão pobre e fácil, esquecível e que muitas vezes deveria ser dada a pré adolescentes para iniciação à leitura.

Com o fim das séries Harry Potter e Crepúsculo, adolescentes ficaram sedentos a procura por alguma nova série popular que pudesse compensar o buraco e a falta de assunto nas escolas. Eles encontraram em Jogos Vorazes algo que chamasse a atenção. De fato, o livro, embora pobre, possui uma idéia interessante, mas sabemos que de originalidade ele pouco (ou quase nada) tem.

Aparenta-se que a verdade é que Suzanne Collins se apropriou de uma obra japonesa escrita por Koushun Takami, chamada Batalha Real (Batoru Rowaiaru), lançada em 1999, sete anos antes de Collins lançar o primeiro livro de sua saga. Muito do que Collins utiliza em seus livros é bastante similar ao utilizado por Takami, há apenas algumas diferenciações de narrativa, culturas e ações, tudo de forma muito mais acessível para o ocidente. Mas a premissa, o tema e o conceito principal são os mesmos. Claro que hoje em dia há uma rivalidade entre os dois livros, mas não podemos ignorar o fato de que a obra de Takami é original por ter sido lançada antes, além de muito mais densa, melhor elaborada e descrita do que a de que a pobreza literária de Collins.

Seguindo a história do primeiro filme, agora Katniss Everdeen, a heroína que conseguiu sobreviver ao Jogos Vorazes juntamente com seu "suposto" amado, agora se transformou em uma ameaça ao governo de Panem, que abusa de seus cidadãos que vivem sobre uma repressão política e ditatorial presidida pelo temido Snow. Katniss virou um símbolo de liberdade e mudança de paradigmas para toda a população, e agora, tanto ela, quanto o povo, serão mais oprimidos do que nunca. Para mostrar que quem manda é o Governo, a nova edição dos Jogos Vorazes contará com a presença de todos os vencedores de todas as edições ainda vivos, e toda e qualquer ameaça de manisfetação por parte do povo será retaliada severamente.

Nos livros toda essa discussão política e social nunca é citada diretamente, já que, como dito, a narrativa é em primeira pessoa e bastante pobre em ações descritivas por parte da personagem principal. O grande atrativo, tanto do primeiro filme, quanto desta continuação, é que muito foi feito com tão pouco. No filme tudo faz mais sentido e há menos melodramas, clichés ou discurso inútil como nos livros, e a relação entre o Governo e o povo toma proporções revolucionárias que chegam até a ser bastante familiares com acontecimentos atuais pelo mundo.

Com certeza o desenvolvimento desta segunda parte é muito melhor realizado, talvez pelo roteiro, que não é mais assinado de forma bastante amadora pela escritora como foi o primeiro filme, mas, sim, por dois roteiristas já gabaritados como Simon Beaufoy e Michael Arndt. Esta segunda parte também ameniza o surto tecnológico do primeiro filme, com o uso exacerbado de efeitos especiais inúteis para cobrir buracos na história e no roteiro (muito embora este filme tenha sido mais caro, talvez pelos cachês). A sensação de sobrevivência dos personagens e de perigo eminente também são muito mais efetivos, e a história tem um crescente de fatos realizados de forma tão interessante, linear e coesa que, se nada fosse amenizado para o bem do público adolescente, o filme sem dúvida seria uma grande obra de ação adulta e até uma crítica política relevante. Tudo está muito bem colocado dentro das possibilidades. A história se desenvolve quando deve e as cenas de ação ocorrem quando precisam, muito embora os conflitos e dramas sejam desenvolvidos de forma muito ruim como a relação entre Katniss, Gale e Peeta, além da ainda dificuldade dos roteiristas em saber lidar com tantos personagens ao mesmo tempo. Mas no fim tudo culmina a uma sequencia final que realmente pega o espectador de surpresa e o deixa frustrado pela falta de resolução, deixando-o também ansioso para que a terceira parte chegue logo.

É impossível negar que grande parte da efetividade do filme é por conta de Jennifer Lawrence, sendo a atriz o enorme diferencial entre Jogos Vorazes e demais franquias para adolescentes lançado nos últimos anos.

Mas nada é muito perfeito. O segundo filme tenta dar uma introdução no início da revolução popular contra o Governo, além da história girar em torno de um enorme reality show assistido por toda a população para que eles sejam constantemente lembrados de que é o Governo de Snow quem manda, oprime, decide e obriga, só que pouco disso é mostrado ou explorado pelo ponto de vista do povo. Todo o foco fica apenas sobre a personagem principal e alguns outros poucos que a circundam, como se os roteiristas tivessem definitivamente esquecido o que está acontecendo fora da enorme redoma e de que o filme, na verdade, é uma ficção sobre uma releitura do romano pão e circo. Não temos a noção de como é para o povo assistir ao evento transmitido enquanto o medo se alastra pelas ruas, e tampouco vemos essa "tal" revolução popular evoluir, ou como todos estejam lidando com esta situação. Tudo ocorre de maneira muito subliminar e oculta no filme, o que é um dos grandes erros da produção e que dá a sensação de que as mais de duas horas de duração poderiam ter sido melhor aproveitadas.

Não dá pra dizer que Em Chamas é um filme excepcionalmente para o público jovem. O público mais maduro e que busca entretenimento e pipoca pode se satisfazer muito bem com este filme (mais do que com o primeiro), até mesmo porque, como dito, a atriz principal eleva o nível da produção, bem como demais coadjuvantes como Woody Harrelson, Elizabeth Banks (em uma participação merecidamente maior) e a inclusão de Jena Malone, que aqui repete um pouco do que foi feito em Sucker Punch (2011), mas dá um empurrão interessante no filme.

É sentar e aproveitar.

CONCLUSÃO...
Fora os pequenos defeitos do subaproveitamento das tramas paralelas e alguns excessos direcionados ao público juvenil, o longa consegue entreter e cumprir o que propõe, e mais ainda em dar densidade a uma série de livros que excede o reciclável e esquecível. Ou seja, o cinema Hollywoodiano ainda consegue e tem poderes suficientes para fazer uma grande arte com o lixo, mas nem sempre há desempenho suficiente para isso.
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