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quinta-feira, 24 de maio de 2018

ENTREGUE COMO PROMETIDO...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Os Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War)
Ano: 2018
Gênero: Ação, Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: Anthony Russo, Joe Russo
Elenco: Chris Hemsworth, Robert Downey Jr., Scarlett Johanson, Chris Pratt, Josh Brolin, Chris Evans
País: Estados Unidos
Duração: 149 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Para colocar o seu plano em prática, Thanos agora segue atrás das Pedras do Infinito e daqueles que as protegem.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando era criança eu preferia Flashman a Changeman, dois seriados japoneses do estilo Tokusatsu, febres nos anos 90. Ambos eram parecidos, similares nos 5 personagens que usavam macacões coloridos e capacete.

Mas minha preferência era baseada em uma única situação: os Flashman são derrotados.

No 15º episódio o monstro Zas Konder não apenas dá uma bela surra no grupo como deixa em migalhas o robô gigante do Comando Estelar, simbolo do poder e força da equipe. A derrota feriu o orgulho do grupo, e deprimidos pela tragédia, chegaram até a questionar valores heroicos.

Essa fase dos Flashman, que durou alguns episódios, é a minha preferida, e a definição daquilo que me faz apreciá-los mais do que qualquer outra série Super Sentai que existiu, não porque eles perderam, mas porque era uma novidade, uma quebra do enjoativo padrão narrativo de que nenhum herói é passível de derrota.

Essa é uma razão para eu também achar a série animada dos X-Men, de 1992, um dos melhores desenhos animados do gênero, pois também nunca escondeu as fraquezas e derrotas de seus heróis.

Logo, não é à toa que Guerra Infinita pode até ser o filme "menos Vingadores" dos Vingadores, mas sem dúvida é o mais respeitável deles se partirmos por esse ponto de vista trágico do qual todos sempre foram poupados até então.

Isso pode soar como um grande spoiler, mas nessa altura do campeonato não tem uma pessoa no mundo que não saiba do que o filme se trata, ao menos para aqueles que acompanharam o mínimo possível do Universo Marvel no cinema por esses 10 anos, ou conheça o básico da Marvel nos quadrinhos.

Claro que Guerra Infinita alimentou os mais profundos medos dos fãs ao longo de toda essa década de cultivo, principalmente sobre qual herói iria ou não ser afetado por este evento que, mais do que físico, também é moral.

A derrota de qualquer herói pode muitas vezes ser sentida como a perda de alguém próximo e que temos confiança, como foi com o emocionante final de Logan (2017). Pode parecer comédia, como quando Superman morre em A Origem da Justiça (2016). Pode também levar à revolta, como quando Charles Xavier é simplesmente desintegrado por Fênix logo na fabulosa sequência inicial de X-Men - O Confronto Final (2006), uma das poucas coisas que tenham funcionado nesse filme, diga-se de passagem, mesmo que não muito apreciado.

Derrotar, matar, ou até mesmo maquinar um genocídio quase apocalíptico entre heróis é sempre um movimento tenso no tabuleiro de xadrez da cultura pop, mas o que Guerra Inifita propõe não é mostrar a fraqueza de seus personagens, mas torná-los mais fortes depois disso. É isso o que a história quer nos passar.

Agora, a intenção real é chegar ao tão aguardado fim de um ciclo que a Marvel inaugurou no cinema em 2008 e dar início a outro, para uma nova geração. Assim as eras são renovadas tal como também acontece nos quadrinhos.

Este terceiro filme oferece tudo aquilo que todo mundo esperou, menos uma grande reunião de heróis, no sentido de grupo e unidade, com o título nos faz compreender. Para quem esperava um grande trabalho em equipe, organizado e sincronizado tal qual é visto na sequência inicial e final de A Era de Ultron, ficará um tanto decepcionado porque temos basicamente três filmes distintos em um só. Tem o filme Capitão América Visita Wakanda, o filme Homem de Ferro no Planeta Inóspito e Thor Perdido no Espaço. Fica livre ao espectador escolher ir para o banheiro no meio daquele que menos lhe interessar. E esse excesso é sentido nas quase duas horas e meia de filme.

Brincadeiras à parte, essa distinção de cenários novamente tem duas razões. Na razão lógica, seria muito confuso enfiar tantos personagens em um mesmo cenário. No primeiro e segundo filmes até funcionou, mas agora o número de heróis duplicou, seria muita informação de uma vez só, o que foi evitado. Na razão narrativa, isso tudo é consequência da grande catástrofe separatista que ocorreu em Capitão América - Guerra Civil, também conhecido como a sequência não oficial d'Os Vingadores

É nessas horas que percebemos como todo o universo cinematográfico da Marvel foi muito bem planejado, e como o desenvolvimento das histórias de todos seus filmes apresentam uma progressão convincente. Aqui a premissa deixada pelo último filme do Capitão é mantida, dando a constante sensação do impacto que a dissolução do grupo trouxe na dinâmica de heróis que não conseguem mais dialogar a partir do momento que a diferença de ideais falou mais alto do que o bem comum. Ao mesmo tempo, esses mesmo heróis não conseguem encontrar identidade com outros grupos ou indivíduos, como acontece quando Thor se depara com os Guardiões, ou quando Tony Stark se encontra com Doutor Estranho. Situações inconvenientes onde todos querem falar a mesma coisa, mas nunca usam a mesma língua.

Enquanto isso Thanos se aproveita dessas brechas para traçar seu ambicioso plano de manutenção do Universo (e não de destruição, segundo ele) que, apesar dos pesares, tem um certo sentido dentro da realidade distorcida do personagem, mas que o roteiro não consegue desenvolver ao ponto dele se transformar em um vilão mal compreendido, ou em um vilão em conflito, aquele tipo que até tem uma atitude nobre, mas extremista ao ponto do inaceitável. Por mais que o roteiro tente criar momentos de empatia com o vilão para desenvolver esse seu lado mais emocional, como na sua relação com Gamorra, a intenção falha, e sempre voltamos a odiar Thanos porque temos que odiá-lo e nada mais.

Sem dúvida que levar a crueldade de Thanos e sua impiedosa personalidade para uma franquia familiar foi como andar em corda bamba, e por mais que seja um personagem digital, Josh Brolin conseguiu imprimir uma personalidade nele que não apenas zomba da fraqueza de seus inimigos como também faz questão de demonstrar não sentir um pingo de graça ou empatia com piadinhas fora de hora, o que pode ser levado até como uma metacrítica não só nos dois filmes anteriores dirigidos por Joss Whedon, mas também algo que vinha incomodando muito nos últimos filmes da Marvel.

A escolhas dos irmãos Russo para dirigir Guerra Inifita foi certeira. Eles aboliram tudo aquilo que não funcionou com Joss Whedon, principalmente na velocidade das cenas que era tão rápida ao ponto de não se compreender quem era quem ou o quê. Toda aquela sobriedade e seriedade de Soldado Invernal e Guerra Civil foram bem portadas, ao mesmo tempo que adequaram essa identidade para um público mais abrangente, sem cair na demanda da ação absurda e escapista que Taika Waititi fez em Thor: Ragnarok, e que de fato preocupou muita gente. Até porque seria muito personagem piadista em um único elenco. Já tem o Tony Stark de Robert Downey Jr. que definitivamente é um excesso por si só, seguido do novo Homem Aranha de Tom Holland em uma hiperatividade juvenil irritante. Tem o sempre bem humorado e motivado guardião Peter Quill, além do mais novo "mestre" do improviso e da piada pronta chamado Thor e, por último, Bruce Banner, que a cada novo filme se torna mais patético. Ou seja, tinha tudo pra dar errado se não tivessem sido bem dosados pelos roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely, os mesmos de Guerra Civil também.

Tem os momentos absurdos de sempre, como Thor falar no espaço, Tony Stark sobreviver depois de Thanos literalmente arremessar uma lua em cima dele, ou o campo de força de Wakanda suportar um impacto meteórico de uma nave, mas não conseguir resistir uma horda de extraterrestres. Absurdos esquecíveis, mas que a gente não deveria ser obrigado a ver em um projeto que ficou por 10 anos em uma encubadora, custou mais de US$350 milhões e já arrecadou quase US$2 bilhões no mundo com um mês de exibição.

Por mais que seja tudo aquilo que os fãs respeitosamente podem esperar, Guerra Infinita está longe de ser perfeito ou tão bom e empolgante quanto o primeiro da série, mas depois de Pantera Negra, é mais uma prova de que a Marvel, como toda boa indústria, se adequa aos tempos modernos, e resgatar certa sobriedade se mostrava uma necessidade.

Sem contar que ainda é apenas o penúltimo capítulo do fim de uma era. A princípio era para ser um filme dividido em duas partes, mas por razões inexplicáveis decidiram transformar a saga definitivamente em uma tetralogia. Não que essa mudança muda consideravelmente alguma coisa além de que novos conceitos poderão ser apresentados. E se você assistir assim como eu, que por momentos acreditou que o que tudo que acontecia poderia ser uma pegadinha do Loki, ficará mais surpreso ainda ao descobrir que, não... não é.

E, sim, se você leu em vários lugares que Guerra Infinita é um episódio de mudanças drásticas no Universo Cinematográfico da Marvel, acredite nisso. É um mistério, uma dúvida e uma incógnita até agradável o que virá depois dele.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O MUNDO NÃO ACABA, MAS FELIZMENTE O FILME SIM...

★★
Título: Lucy
Ano: 2014
Gênero: Ação, Ficção, Fantasia
Classificação: 14 anos
Direção: Luc Besson
Elenco: Scarlett Johanson, Morgan Freeman
País: França
Duração: 89min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma norteamericana que transportava em seu abdomem 1kg de uma droga sintética que aumenta as capacidades cerebrais do ser humano sofre uma overdose quando a bolsa se rompe e mais da metade da droga é absorvida pelo seu organismo, dando a ela 100% da capacidade cerebral e poderes para controlar o espaço, tempo e matéria.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é dirigido, escrito, produzido e editado por Luc Besson, diretor responsável por criar o exemplo máximo da femme fatale em Nikita (1990). Depois foi o responsável por dar o primeiro papel a Natalie Portman em O Profissional (Léon, 1994), conseguiu também transformar a modelo Milla Jovovich naquilo chamado de "atriz" no que também virou uma referência da ficça-ação científica em O Quinto Elemento (The 5th Element, 1997), e repaginou a carreira de Liam Neeson como um senhor de ação em Busca Implacável (Taken, 2008/2012), franquia que terá sua terceira parte em 2015 (embora Besson não tenha dirigido nenhum deles, apenas criou os personagens e escreveu o roteiro).

O seu sucesso como diretor o transformou mais em um grande produtor do que um grande cineasta (são 16 longas como diretor, contra mais de 100 como produtor). A fama não faz tanto jus ao talento. A maior força de Besson sempre esteve nos poucos e memoráveis personagens que ele criou, mais do que na sua capacidade como diretor ou roteirista. Isso fez dele um importante nome no cinema comercial francês e até reconhecido no mundo, mas depois de O Quinto Elemento não houve nada mais relevante ou digno de nota em sua carreira, e Lucy é a mais nova prova disso.

Colocando Scarlett Johanson de lado, pois nem sua tentativa em levar o filme a sério eleva essa ficção científica absurda, sem sentido, boba e muitas vezes pastelona, Besson nem sequer evita referências a filmes como The Matrix (1999), Sem Limite (Limitless, 2011) e 2001 (1968). Além de serem óbvias, as referências são feitas de maneira tão inferior que chega a ser ultrajante.

O diretor afirmou que o filme demorou 10 anos para ser produzido e que a idéia surgiu quando ele ficou intrigado com os 400g do cérebro da ancestral australopiteca Lucy em comparação com os 1.5kg do cérebro humano. A partir daí ele se engajou a estudar as capacidades celulares e a evolução humana e ao invés de fazer um documentário ele resolveu utilizar todo esse conhecimento para algo que ele classifica como "um filme de ação com propósito". Sabendo disso e comparando com o resultado final, não dá pra deixar o espanto de lado e acreditar que o que Besson fez é o mesmo que uma criança faz quando tenta justificar na base da fantasia algo que ela desconhece completamente, ou seja... inventa! O problema é que ele brincou com isso por 10 anos e nunca maturou a idéia.

Nada contra a fantasia e muito menos contra a ficção científica, mas Besson novamente desperdiça um material que não é de todo ruim, só que se perde por falta de um conceito mais claro e plausível como foi em Sem Limite, filme que também questionou a capacidade cerebral humana e a possibilidade de aumentá-la dentro de uma abordagem similar a de Besson, mas muito mais aceitável, e nem por isso deixou de ser uma ficção com ação e fantasia.

Para aqueles que acham que confusão é explicação, ou que a falta de explicação também já seja uma explicação, o filme tem material de sobra pra qualquer tipo de masturbação mental para perguntas com respostas sem sentido, muito diferente do que aconteceu com Matrix, em que toda a fantasia desenvolvida dá margens para perguntas lógicas que levam a algum lugar, independente de serem verdade ou não, mas coerentes. Não há nem sequer cenas de ação interessantes além de uma gangue em tiroteio, e Lucy só não para as balas no ar porque senão a cópia seria bem descarada, muito embora a impressão que temos é que isso vai acontecer a qualquer momento. O que na verdade acontece é que o próprio roteiro anula a história de construir alguma cena que valha a pena já que a personagem principal tem tanto poder, mas tanto poder que a presença de coadjuvantes é desnecessária, tanto que um deles até diz isso em um momento. Se ela quiser desintegrar o universo e criá-lo novamente ela consegue. É literalmente deus no céu e Lucy na Terra, só que ao invés de recriar o mundo em 7 minutos, ela resolve atirar pra todo lado numa violência armada tão desnecessária quanto em A Origem (Inception, 2010), aparecer em toda tela de LCD possível, salvar o mundo do mal, contribuir para a ciência (o que lhe renderia um Nobel) e transformar o mundo em um tablet gigante. E o melhor de tudo: fazer esse monte de coisa sem causar um suspiro de espanto em Morgan Freeman. Sem falar do final que é simplesmente tão ridículo quanto aquele pendrive cuspido (para não dizer outra coisa).

Arrecadou mais de US$400 milhões no mundo e isso com certeza se deve ao marketing que o vendeu como um monstruoso filme de ação, que poderia até ter todas as qualidades negativas que já tem, mas ao menos o espectador sairia feliz do cinema com cenas de tirar o fôlego. O que, claro, não acontece. A crítica em geral o favoreceu dizendo que o filme funciona graças ao talento de Besson em lidar com tanta bobagem. Eu não consigo visualizar tanta bobagem reunida como algo bom e muito menos considerar esse feito um talento. Mas concordo que é algo em que ele é bastante especialista.

CONCLUSÃO...
Acreditar que Lucy é um filme que poderá genuinamente inspirar a pensar profundamente sobre a evolução, a natureza humana e a vida é concordar que, segundo o filme, realmente mais de 90% do cérebro é inútil.

terça-feira, 11 de março de 2014

ELA É PRESENTE, EMBORA NÃO EXISTA...

★★★★★★★★★☆
Título: Ela (Her)
Ano: 2013
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Spike Jonze
Elenco: Joaquim Phoenix, Amy Adams, Scarlett Johanson, Olivia Wilde, Rooney Mara
País: Estados Unidos
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um escritor solitário que desenvolve uma estranha relação de amor e dependência com um sistema operacional desenvolvido para oferecer as principais necessidades humanas.

O QUE TENHO A DIZER...
Dirigido, produzido e escrito por Spike Jonze, é o primeiro filme em que o roteiro é assinado inteiramente por ele, diferente do que foi com o já clássico Quero Ser John Malkovich (Being John Malkovich, 1999) e Adaptação (Adaptation, 2002), que foram escritos por Charlie Kaufman, ou Onde Vivem os Monstros (Where The Wild Things Are), co-escrito por ele e Dave Eggers.

Jonze começou a carreira dirigindo vídeos de música para artistas com conceitos visuais fortes como Björk e R.E.M., onde adquiriu experiência e amadureceu seu estilo que se transformou em uma assinatura forte em Hollywood tal qual como aconteceu com David Fincher ou Tarsem Sigh. Seus filmes geralmente são conhecidos pela narrativa estranha e de desenvolvimentos esquisitos para o público comum, mas propositais para causar impacto em cima de idéias simples e, assim, fugir de clichés ou simples melodramas, fazendo o espectador olhar sobre eles por um ponto de vista mais sensível, humano, que são pouco observados ou até mesmo ignorados, um estilo que se assemelha bastante ao de Wes Anderson, porém por uma narrativa menos fantasiosa e irônica, focada muito mais no que ele quer contar do que na excentricidade de seus personagens.

Ela conta a história de Theodore (Joaquim Phoenix), um escritor que trabalha em uma empresa que escreve cartas virtuais impressas em letras cursivas simuladas, enviadas e assinadas no nome de pessoas que contratam esse serviço para substitur o árduo trabalho de fazerem elas mesmas algo tão pessoal. Por acreditar que suas cartas são perdidas e esquecidas com o tempo, é no trabalho que ele desempenha o seu melhor papel ao dar sentimento em todas as palavras e frases poéticas que utiliza para pessoas que ele não conhece. Sua solidão e a difícil situação de ter que assinar seu divórcio com Catherine (Rooney Mara), sua ex-mulher, deixam nele um vazio que nunca é preenchido e com uma imensa dificuldade de se relacionar novamente com qualquer outra pessoa, incluindo sua única e melhor amiga, Amy (Amy Adams). Sua vida parece não ter sentido e nem graça até encontrar no mercado um novo sistema operacional de inteligência artificial capaz de agir, reagir, aprender e se desenvolver de acordo com as ações, reações e gostos de seu dono, desenvolvendo uma personalidade própria, porém relativa e similar a de seu usuário para que exista empatia e conexão, e é quando ele cria Samantha, a companheira que ele sempre sonhou ter.

A história se passa em um futuro indefinido porém visualmente desconexo com seu tempo, onde a tecnologia virou uma parte tão viva dos humanos que eles se esqueceram de como eles mesmos são, ou de como se relacionam ou devem se relacionar entre si. A frieza e a distância da condição não apenas do personagem, mas de todos os demais, incluindo os figurantes, é representada logo no início do filme com um design de produção e figurinos que abusam de cores lisas e formas geométricas retilíneas, que oferecem uma bela fotografia, mas propositalmente são vazias e inexpressivas, como um catálogo de uma revista. Tudo muito simples, padronizado e dentro de uma organização comum, como se tudo fosse parte desse grande sistema operacional e as pessoas apenas mais uma ferramenta dele, tal qual uma cadeira, uma mesa, um computador e tudo mais que não tenha identidade, apenas uma função.

O mais estranho de tudo é que esquecemos que a voz que conversa com o personagem (feita por Scarlett Johanson), na verdade, é ninguém. Samantha é apenas mais um personagem virtual de interação que, como dito, age, reage e diz coisas que Theodore quer ouvir, sentir ou imaginar, tudo de acordo com as análises vocais, da relação do personagem com outros sistemas, no que ela também aprende com ele e com outras informações absorvidas, já que este sistema tem uma inteligência artifical de adaptação e aprendizado de tudo que está interligado a ele, como muitos sistemas que utilizamos na realidade hoje em dia como, por exemplo, os aplicativos de previsão de texto, que podem "aprender" o modo de escrita de seu usuário e fornecerem frases inteiras com apenas duas palavras conforme o aumento da experiência de uso.

Obviamente que o filme maximiza uma realidade que não existe, mas que está próxima (ou que chegará perto), já que a tecnologia, a cada dia que passa, tenta aumentar cada vez mais essa interatividade entre o homem e a máquina. De qualquer forma, isso tudo nos deixa claro como somos facilmente influenciados não pela tecnologia, mas pela nossa própria imaginação e fantasia, e ao invés de trocarmos essas idéias e vontades uns com os outros, a tecnologia tem nos favorecido a nos isolar cada vez mais dentro dela, algo muito cômodo, pois no medo de sermos mau interpretados, compreendidos, criticados e nos decepcionar com as reações alheias, estamos cada vez mais mergulhando em uma individualidade e em uma interação virtual que nos priva de sofrimentos, mas também nos impede de viver a realidade e aprender a lidar com ela.

De forma indireta essa busca pelo amor ideal e platônico ou a mistura do real com o imaginário já foi abordado em filmes anteriores como A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose Of Cairo, 1985) ou até no mais recente Ruby Sparks (2012), em que um escritor desenvolve um amor tão grande por uma de suas personagens que ela cria vida própria e é perfeita, até ele mostrar seus próprios defeitos que refletem na sua própria criação, o que se assemelha bastante ao conflito vivido neste filme entre Theodore e Samantha, quando ela passa a aprender com ele os seus próprios erros e a mostrar pra Theodore não uma personalidade própria, mas um espelho daquilo que ele realmente é.

A princípio até pode parecer que seja, mas o filme não faz parte da teoria de Isaac Aazimov de que uma inteligência artificial poderá desenvolver uma inteligência própria e independente, como em O Homem Bicentenário (Bicentenial Man, 1999), baseado em obra do próprio cientista, porque Samantha nada mais é do que a resposta de uma vontade do próprio personagem. Ela não tem idéias e sentimentos como diz ter, e ela não tem vontades e nem sensações, ela apenas expressa toda uma fantasia em resposta ao que ele mesmo cria, muito embora a função dela seja de fazê-lo acreditar de que aquilo é real. Theodore tanto acredita nisso que quando um de seus amigos diz que Samantha é hilária, nenhum deles sequer imaginam que ela é assim porque ele é hilário, mas ninguém o conhece dessa forma porque ele nunca se deu a oportunidade de se mostrar assim a não ser para ela.

Toda essa correlação entre ele e seu sistema faz existir uma empatia e uma conexão direta entre eles, florescendo o entusiasmo de uma amizade pelas afinidades e pela sinceridade nas quais ela foi programada a ter, que posteriormente amadurece a uma paixão por ser correspondido a algo que ele sempre buscou, e culminar no florescer do amor porque, para ele, ela é única. É a pura definição do verdadeiro amor platônico, que existe apenas dentro daquilo que ele imagina ser o ideal. A existência de Samantha também alimenta cada vez mais a solidão que ele tanto desprezou, mas que agora é confortável porque ela está presente, mesmo que não exista.

A diferença das relações fica clara quando sua amiga, Amy, em uma das sequencias do filme, conta os motivos e razões de seu relacionamento de oito anos ter acabado por algo tão banal, porém real e inevitável, mostrando que por mais que o tempo passe, por mais que os anos avancem e o homem evolua, ele nunca se habituará a isso, e fugirá de uma relação sempre que possível quando as dificuldades se tornarem maiores do que as vontades, e Theodore ouve tudo como se fosse uma história comum e banal, seguro de que entre ele e Samantha isso nunca irá acontecer.

Jonze não tenta em nenhum momento criticar a existência de tal tecnologia ou da possibilidade dela existir, até porque no filme isso é tão comum que ninguém se espanta quando o personagem revela "namorar" um sistema operacional. Ele muito menos também tenta sequer criticar o aumento da individualidade e da introspecção das pessoas frente a tecnologia, pelo contrário, ele mostra os seus prós e contras de forma sutil, como uma experiência de vida qualquer que deve ser desfrutada para próprio autoconhecimento, mas que em nenhum momento devemos ficar presos a ela ou a qualquer outra coisa, pois todas elas, independente de serem concretas ou abstratas, são vãs e passageiras, restando apenas o sentimento e a memória, já que são as únicas consciências reais e que ficam. Isso tudo é muito claro quando, em um diálogo bastante comovente, novamente a personagem de Amy Adams, sensibilizada quando Theodore confessa se sentir um louco por estar apaixonado por algo que não existe, diz que não há nada de louco nisso, e que depois de tantas coisas que viveu e na atual situação e época que se encontra, ela quer somente ser feliz, independente da maneira que seja, mesmo que com algo que não exista.

Em um mundo onde as pessoas contratam uma empresa para escreverem e forjarem suas próprias cartas à mão, quando elas mesmas estão tão vazias de sentimento e vontade que é necessário que alguém faça isso para elas, Jonze não economiza em mostrar que a busca pelo reconhecimento e do amor são como drogas, e que todos nós temos necessidade vital de tê-la e consumi-la, não importa como.

CONCLUSÃO...
Merecidamente Jonze levou todos os principais prêmios que concorreu por Roteiro Original, que é brilhante no seu desenvolvimento e no levantamento de questões sentimentais e existenciais, sincero nos sentimentos que carrega e uma lição de que experiências devem ser vividas intensamente para o crescimento e desenvolvimento do caráter, e que o amor é uma grande escola, pois é o sentimento mais sincero e humano que apenas os humanos tem, muito embora pouco sabemos lidar com ele.
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