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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

MAIS PRA "SS" QUE PRA "XXL"...

★★☆☆☆☆☆☆☆☆
Título: Magic Mike XXL
Ano: 2015
Gênero: Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Gregory Jacobs
Elenco: Channing Tatum, Joe Manganiello, Matt Bomer, Adam Rodriguez, Kevin Nash, Jada Pinket Smith, Elizabeth Banks, Andie McDowell
País: Estados Unidos
Duração: 115 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Mike agora leva a vida que sempre quis. Abandonou sua carreira de stripper e, com a boa grana que juntou, montou sua própria oficina de marcenaria, mas algumas coisas faltam, como a sua vontade de ter uma loja de móveis personalizados e... de voltar a dançar.

O QUE TENHO A DIZER...
Que Magic Mike foi a sensação de 2012, isso não é segredo pra ninguém, matando a vontade do público feminino e gay pelo mundo afora de ver os mais sarados atores de Hollywood dançando de jock straps, ou até mesmo sem elas.

Na verdade o primeiro filme foi uma novidade com uma história até interessante, já que o ator Channing Tatum era um stripper antes de ser famoso. Ele cultivava há muito tempo o interesse de produzir um filme baseado na sua história, não uma biografia, mas algo que se assemelhasse às experiências que ele teve nessa época. Sem encontrar diretores para o projeto, foi enquanto trabalhava com Steven Soderbergh no filme Haywire (2011) que o diretor se interessou pela história do ator e resolveu ele mesmo dirigir, porque Soderbergh também é um cara esperto e sabia que um filme sobre strippers profissionais masculinos chamaria a atenção de um público que ele ainda não tinha explorado.

Mesmo com o tamanho do elenco, a produção ficou na bagatela de US$7 milhões, arrecadando pelo mundo um pouco mais de US$167 milhões. Ou seja, ele se pagou, pagou todos os atores que tinham porcentagem de lucros, pagou o diretor e ainda sobrou um monte de grana para o estúdio e distribuidora. Óbvio que não demorou para uma continuação ser encomendada.

Esse segundo filme custou o dobro, mas não conta mais com Matthew McConaughey como o mentor Dallas, o responsável por colocar os garotões na linha e fazê-los serem o desejo numero um da mulherada no primeiro filme. Também não conta mais com Soderbergh na direção, embora ele tenha co-produzido.

Mike agora voltou a dançar porque caiu numa cilada de amigos, e na vontade de curtir com os velhos companheiros, embarca na onda novamente. É essa a história.

O fato é que é um filme ruim, arrastado, forçado e sem nexo algum. Não que o primeiro fosse diferente, mas ao menos tinha Soderbergh que, em toda a sua mais majestosa arrogância, é o mestre em dar embalagens caras a porcarias. Além de diretor, ele é um excelente marketeiro, com ótimos filmes no currículo, mas no geral ele adora ultravalorizar seus produtos sem qualidade, dando tons complexos a coisas simples e dificultando o caminho quando o acesso é muito fácil. As pessoas acreditam e, por incrível que pareça, essa acaba sendo sua maior virtude, tanto que ele figura na lista dos melhores diretores atuais. É por isso que o primeiro filme podia ser vazio, mas era divertido e cheio de cenas que... Enfim, cenas que todo mundo tinha ido pra ver.

Aqui é tudo muito mais artificial, e nem ouso falar do diretor porque mal conheço. Na trama, quem tenta comandar a situação no lugar de Dallas é Big Dick (Joe Manganiello), que no primeiro filme entrava mudo e saia calado, mas agora é piadista, fala mais do que matraca e tem crises de pirraça porque, de longe, é o ator que tem o maior corpão de todos, então tem que valorizar a primeira fila de protagonistas. Até porque o ator se interessou tanto pelo assunto que dirigiu um documentário sobre o mesmo tema chamado La Bare (2014), a respeito do clube mais famoso de strip para mulheres do mundo.

Então todo o filme é cheio de sequências bem fracas e até constrangedoras que nem Showgirls (1995) ou Striptease (1996) chegaram a ter, como no momento que Tatum está em sua oficina e de repente bate aquele tesãozinho nele em dançar sozinho, dando até um de Fred Astaire quando improvisa com os móveis que estão por perto, ou quando todos resolvem participar de um concurso de "nova Drag", em uma boite, ou quando Big Dick faz graça dentro de uma loja de conveniência para tentar redescobrir seu sex appeal. Não, definitivamente não são cenas engraçadas, são cenas mau executadas que, na falta de existir um motivo, qualquer motivo é motivo pra dançar por aí. Ok, o motivo do filme é esse, mas tudo perde a graça quando jogado sem motivo na tela.

De repente o filme envoca um empoderamento feminino que sei lá de onde saiu, mas que muito tem a ver com as declarações dos verdadeiros strippers no documentário de Manganiello e a filosofia de que eles são "curandeiros", ou seja, eles tratam as mulheres como deusas para compensar o tratamento modesto (ou a verdadeira falta dele) dos homens comuns do dia a dia. Tá... ter feito uma sequência sobre isso seria bonitinho, mas passar metade do filme batendo nessa tecla chega a ser esgotante, e contraditório quando, depois de todo esse discurso, durante as cenas de dança eles só colocam as mulheres em situações submissas.

É... realmente o roteirista acreditou ser PhD em mulheres. Errou rude, moleque!

O momento em que Andie McDowell entra em cena talvez seja o único momento que o filme perde o clima amador do "deixar rolar", mas desafina de novo quando um dos personagens começa a fazer uma performance um tanto safada de The Voice. E aí a buzina do constrangimento alheio bate novamente.

Enfim, existem vários momentos tão ruins ao ponto de causarem vergonha alheia, ao contrário de gerar interesse pela certa sensualidade que exalava testosterona do primeiro, naquele humor sulista e cafajeste que McConaughey conseguia puxar tão bem.

O roteirista Reid Carolin até tentou agradar o público gay, já que foram eles a maior porcentagem daqueles que consumiram com água na boca o primeiro filme, mas cai no cliché borrachudo de que gay ou é drag queen ou é travesti, o estereótipo tão fácil de dar bocejo. Ao invés disso ele podia ter feito algum dos dançarinos ser gay de fato e explorar as consequências disso em um ambiente tão machista. Teria sido interessante, por exemplo, ver algum deles finalmente demonstrando interesse por algum colega. Seria um conflito diferente e não teria descaracterizado a proposta.

Infelizmente o filme é intragável porque, convenhamos, não tinha mais história pra contar. Até teria, se tivesse um lado mais dramático como, por exemplo, mostrar que esse mundo não é tão feliz e amigável assim, que existem pessoas que se aproveitam de rapazes desesperados por emprego e dinheiro para explorá-los da mesma forma como acontece com as mulheres. As coisas não são tão bacanas e fáceis como o filme mostra, e no meio desses dançarinos existem garotos de programa, viciados em drogas, pessoas abusivas e com problemas reais. Eles não abordam nada do tipo em momento algum.

Faltou conflito, faltou história, faltou a diversão que Soderbergh criou no primeiro, faltou competência para fazer continuação de filme algum. Tudo é tão bonitinho e parceiro que parece um documentário forjado. Se for pra ser assim, fiquem com La Bare mesmo, disponível no Netflix, e que também é bastante fraco, mas ao menos tem uma realidade mais palpável.

CONCLUSÃO...
Fraco e sem tempero, sem roteiro, sem qualquer coisa que valha a pena. O XXL no título é só no título mesmo.

sexta-feira, 7 de março de 2014

MELHOR QUE O LIVRO DE NOVO...

★★★★★★★
Título: Jogos Vorazes: Em Chamas (The Hunger Games: Catching Fire)
Ano: 2013
Gênero: Ação
Classificação: 12 anos
Direção: Francis Lawrence
Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Jena Malone, Donald Sutherland, Stanley Tucci, Philip Symor Hoffman
País: Estados Unidos
Duração: 146 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Katniss pode ter vencido o Jogos Vorazes, porém se transformou em uma ameaça ao Presidente Snow e ao seu poder totalitário.

O QUE TENHO A DIZER...
Em Chamas foi dirigido por Francis Lawrence, mais conhecido por ter dirigido Eu Sou A Lenda (I'm A Legend, 2007). É a segunda parte da tetralogia de filmes (a trilogia é apenas na série de livros, já que o último episódio, A Esperança, será dividido em duas partes nos cinemas, a serem lançados em 2014 e 2015).

Também é a firmação de Jennifer Lawrence como a grande e atual "Namoradinha da América", já que os dois primeiros filmes já arrecadaram mais de US$1,5 bilhão no mundo até o momento, além do Oscar que já recebeu em 2013 por O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, 2012) e outras duas indicações, sendo a segunda este ano por Trapaça (American Hustle, 2013).

É engraçado como o cinema às vezes nos surpreende, pois a maioria dos filmes baseados em livros bons costumam ser de medíocres a constrangedores, como, por exemplo, grande parte das adaptações das obras de Stephen King. Algumas outras conseguem fazer jus às obras que são baseadas, como a série Harry Potter ou O Senhor dos Anéis. Raras são as vezes em que livros tão pobres em narrativa ou descrição conseguem resultar produtos válidos de entretenimento, como acontece com esta série.

É nítido observar nos livros que a escritora Suzanne Collins utiliza uma narrativa em primeira pessoa para se abster de uma ação mais descritiva, talvez porque ela não tivesse idéia do que estava fazendo, ou também porque ela realmente não tenha talento o suficiente para descrever Panem e seus conflitos de forma tão detalhada como seria de costume em uma série épica, tanto que o roteiro que ela co-escreveu para o primeiro filme amplia o mundo distópico e compensa todas as faltas de criatividade literária que ela apresenta nos livros (com excessão da violência, que nos filmes é muito mais suave).

Claro, não podemos negar o fato de falarmos de uma série infanto-juvenil que conseguiu consquistar até jovens adultos nos Estados Unidos, país onde ele foi mais popular até o lançamento do primeiro filme, mas isso não justifica narrativa tão pobre e fácil, esquecível e que muitas vezes deveria ser dada a pré adolescentes para iniciação à leitura.

Com o fim das séries Harry Potter e Crepúsculo, adolescentes ficaram sedentos a procura por alguma nova série popular que pudesse compensar o buraco e a falta de assunto nas escolas. Eles encontraram em Jogos Vorazes algo que chamasse a atenção. De fato, o livro, embora pobre, possui uma idéia interessante, mas sabemos que de originalidade ele pouco (ou quase nada) tem.

Aparenta-se que a verdade é que Suzanne Collins se apropriou de uma obra japonesa escrita por Koushun Takami, chamada Batalha Real (Batoru Rowaiaru), lançada em 1999, sete anos antes de Collins lançar o primeiro livro de sua saga. Muito do que Collins utiliza em seus livros é bastante similar ao utilizado por Takami, há apenas algumas diferenciações de narrativa, culturas e ações, tudo de forma muito mais acessível para o ocidente. Mas a premissa, o tema e o conceito principal são os mesmos. Claro que hoje em dia há uma rivalidade entre os dois livros, mas não podemos ignorar o fato de que a obra de Takami é original por ter sido lançada antes, além de muito mais densa, melhor elaborada e descrita do que a de que a pobreza literária de Collins.

Seguindo a história do primeiro filme, agora Katniss Everdeen, a heroína que conseguiu sobreviver ao Jogos Vorazes juntamente com seu "suposto" amado, agora se transformou em uma ameaça ao governo de Panem, que abusa de seus cidadãos que vivem sobre uma repressão política e ditatorial presidida pelo temido Snow. Katniss virou um símbolo de liberdade e mudança de paradigmas para toda a população, e agora, tanto ela, quanto o povo, serão mais oprimidos do que nunca. Para mostrar que quem manda é o Governo, a nova edição dos Jogos Vorazes contará com a presença de todos os vencedores de todas as edições ainda vivos, e toda e qualquer ameaça de manisfetação por parte do povo será retaliada severamente.

Nos livros toda essa discussão política e social nunca é citada diretamente, já que, como dito, a narrativa é em primeira pessoa e bastante pobre em ações descritivas por parte da personagem principal. O grande atrativo, tanto do primeiro filme, quanto desta continuação, é que muito foi feito com tão pouco. No filme tudo faz mais sentido e há menos melodramas, clichés ou discurso inútil como nos livros, e a relação entre o Governo e o povo toma proporções revolucionárias que chegam até a ser bastante familiares com acontecimentos atuais pelo mundo.

Com certeza o desenvolvimento desta segunda parte é muito melhor realizado, talvez pelo roteiro, que não é mais assinado de forma bastante amadora pela escritora como foi o primeiro filme, mas, sim, por dois roteiristas já gabaritados como Simon Beaufoy e Michael Arndt. Esta segunda parte também ameniza o surto tecnológico do primeiro filme, com o uso exacerbado de efeitos especiais inúteis para cobrir buracos na história e no roteiro (muito embora este filme tenha sido mais caro, talvez pelos cachês). A sensação de sobrevivência dos personagens e de perigo eminente também são muito mais efetivos, e a história tem um crescente de fatos realizados de forma tão interessante, linear e coesa que, se nada fosse amenizado para o bem do público adolescente, o filme sem dúvida seria uma grande obra de ação adulta e até uma crítica política relevante. Tudo está muito bem colocado dentro das possibilidades. A história se desenvolve quando deve e as cenas de ação ocorrem quando precisam, muito embora os conflitos e dramas sejam desenvolvidos de forma muito ruim como a relação entre Katniss, Gale e Peeta, além da ainda dificuldade dos roteiristas em saber lidar com tantos personagens ao mesmo tempo. Mas no fim tudo culmina a uma sequencia final que realmente pega o espectador de surpresa e o deixa frustrado pela falta de resolução, deixando-o também ansioso para que a terceira parte chegue logo.

É impossível negar que grande parte da efetividade do filme é por conta de Jennifer Lawrence, sendo a atriz o enorme diferencial entre Jogos Vorazes e demais franquias para adolescentes lançado nos últimos anos.

Mas nada é muito perfeito. O segundo filme tenta dar uma introdução no início da revolução popular contra o Governo, além da história girar em torno de um enorme reality show assistido por toda a população para que eles sejam constantemente lembrados de que é o Governo de Snow quem manda, oprime, decide e obriga, só que pouco disso é mostrado ou explorado pelo ponto de vista do povo. Todo o foco fica apenas sobre a personagem principal e alguns outros poucos que a circundam, como se os roteiristas tivessem definitivamente esquecido o que está acontecendo fora da enorme redoma e de que o filme, na verdade, é uma ficção sobre uma releitura do romano pão e circo. Não temos a noção de como é para o povo assistir ao evento transmitido enquanto o medo se alastra pelas ruas, e tampouco vemos essa "tal" revolução popular evoluir, ou como todos estejam lidando com esta situação. Tudo ocorre de maneira muito subliminar e oculta no filme, o que é um dos grandes erros da produção e que dá a sensação de que as mais de duas horas de duração poderiam ter sido melhor aproveitadas.

Não dá pra dizer que Em Chamas é um filme excepcionalmente para o público jovem. O público mais maduro e que busca entretenimento e pipoca pode se satisfazer muito bem com este filme (mais do que com o primeiro), até mesmo porque, como dito, a atriz principal eleva o nível da produção, bem como demais coadjuvantes como Woody Harrelson, Elizabeth Banks (em uma participação merecidamente maior) e a inclusão de Jena Malone, que aqui repete um pouco do que foi feito em Sucker Punch (2011), mas dá um empurrão interessante no filme.

É sentar e aproveitar.

CONCLUSÃO...
Fora os pequenos defeitos do subaproveitamento das tramas paralelas e alguns excessos direcionados ao público juvenil, o longa consegue entreter e cumprir o que propõe, e mais ainda em dar densidade a uma série de livros que excede o reciclável e esquecível. Ou seja, o cinema Hollywoodiano ainda consegue e tem poderes suficientes para fazer uma grande arte com o lixo, mas nem sempre há desempenho suficiente para isso.

domingo, 23 de setembro de 2012

DRAMA DE NOVELA...

★★★★
Título: People Like Us
Ano: 2012
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Alex Kurtzman
Elenco: Chris Pine, Elizabeth Banks, Olivia Wilde, Michelle Pfeiffer
País: Estados Unidos
Duração: 114 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sam (Chris Pine) recebe a notícia de sua namorada, Hannah (Olivia Wilde), que seu pai ausente e irresponsável morreu. Mesmo relutante, ele vai para a casa de sua mãe, Lillian (Michelle Pfeiffer). Lá descobre, por intermédio de um testamenteiro, que ele tem uma irmã e um sobrinho, do qual nunca ouviu falar, e agora ele terá que lidar com esses dois lados da família e suas escolhas.

O QUE TENHO A DIZER...
Esse filme é a estréia do roteirista e produtor Alex Kurtzman na direção, que teve êxito ao produzir alguns episódios de seriados como Xena - A Princesa Guerreira (1995-2001), Alias (2001-2006) e Fringe (2008), além de dois filmes que foram de enorme sucesso comercial para seu currículo como o reboot de Jornada Nas Estrelas (Star Trek, 2009) e a comédia romântica A Proposta (The Proposal, 2009). O roteiro é assinado por ele em colaboração com mais dois autores, Roberto Orci e Jody Lambert. Roberto Orci parece ser colaborador de longa data, já que ambos possuem vários trabalhos em comum, enquanto o outro roteirista deve ter sido um tipo de estagiário, já que não possui algo muito relevante.

Esse drama, ainda inédito no país, atraiu minha curiosidade por ter um elenco bastante forte que é encabeçado por Chris Pine, ator atualmente em ascenção. O filme começa com Sam, um negociador corporativo egoísta, ambicioso e mentiroso, tendo problemas em sua empresa depois de uma das suas negociações violar leis federais de troca de produtos. Seu chefe o obriga a contornar a situação subornando os agentes responsáveis pela investigação com seu próprio dinheiro, ou ele será responsabilizado por todas as irregularidades. Ao mesmo tempo, Sam volta para casa e recebe a notícia da morte de seu pai. Relutante, acaba voando para Los Angeles para visitar sua mãe, Lillian (Michelle Pfeiffer). Por intermédio de um testamenteiro, descobre que seu pai deixou uma quantia de US$150 mil para um garoto chamado Josh, de 11 anos. Determinado a ficar com o dinheiro e resolver os seus atuais problemas, ele acaba descobrindo que Josh é, na verdade, seu sobrinho, filho de uma meia-irmã paterna, Frankie (Elizabeth Banks), da qual ele nunca ouviu falar. Sam se aproxima de Frankie, mas não consegue contar a verdade em momento algum.

O enredo do filme é do típico drama que norte-americano adora, envolvendo a difícil relação familiar e da dificuldade de aceitação dos erros dos pais pelos filhos depois que eles já estão adultos. Começa com a redundante e desnecessária informação de que é baseado em fatos reais, talvez para aumentar o vínculo entre o público e o drama. A verdade é que o que o protagonista vive com sua família, mesmo não sendo comum, é bastante recorrente não apenas no cinema como também na vida real, pois sabemos que acontece e existe por aí. Ao mesmo tempo isso também não significa que o filme seja carregado desse apelo pessoal que nos identifique a todo o tempo com a realidade, pois embora o título do filme tenha essa intenção, a história não fala de pessoas como nós, nem no sentido de conexão com os personagens e nem no sentido de que os protagonistas do filme sejam pessoas tão comuns quanto a gente, e os roteiristas não conseguem em momento algum criar esse vínculo.

Há um momento no filme que Frankie diz que você identifica uma mentira quando a pessoa carrega os fatos em detalhes desnecessários. O exagero do filme em "carregar" a história com paralelos inúteis é o que transforma tudo em um drama fictício e inverossímel, contradizendo a informação dada no começo. Os problemas profissionais que Sam está passando não tem nenhuma finalidade no filme além de tentar dar profundidade à sua personalidade egocêntrica e covarde que já são exploradas bastante nas suas relações familiares, deixando essa trama paralela suspensa e sem resolução, aparecendo aleatoriamente durante o filme para criar momentos de indecisão forçadas e que não levam a nada. Demora para os personagens e a história encontrar seu tom, e isso só vai acontecer depois de uma hora de filme.

Esse desenvolvimento confuso do roteiro é o que estraga uma história que poderia ter sido mais sincera e realista se tivesse mantido o foco apenas na relação familiar e nas dificuldades de administrar descobertas que levam a escolhas importantes e definitivas para todos. As tramas e complexidades dispersas não dão oportunidade a personagens e atores crescerem, como acontece com Michelle Pfeiffer, que faz o papel da mãe, se tornando uma personagem esquecida tanto quanto a personagem de Olivia Wilde.

A cena de reencontro entre Lillian e Sam mostra que ambos tem uma relação de um passado aparentemente conturbado e difícil, mas que nunca é desenvolvido ou explicado, envolvendo até um tapa no rosto de Sam, sem muita lógica ou nexo. A própria atriz insistiu que essa cena fosse deletada, alegando que que seria difícil para o espectador compreender o motivo e posteriormente ter compaixão por ela. E realmente fica difícil compreender essa sequência, porque a relação entre ambos segue como se nada disso tivesse acontecido, ignorando um passado turbulento que exista entre eles.

O foco fica sempre na relação entre Sam e Frankie, sua meia-irmã, uma alcólatra em reabilitação que também tem dificuldades com seu filho adolescente e rebelde, personagem que só tem a intenção de acentuar o apelo dramático e de como sua personagem é uma mãe esforçada e trabalhadora, que além de ter tido uma infância traumática e uma adolescencia problemática, também tem que lidar com o filho que não se adapta na escola por conta da ausência de uma figura paterna. A relação construída nesse núcleo é um tanto forçada, já que Sam invade a vida de ambos sem pedir licença e Frankie aceita de bom grado sem nem ao menos questionar em qualquer momento suas origens ou intenções, como se nenhuma experiência de vida a tivesse ensinado alguma coisa, se extendendo até a uma tensão sexual desnecessária que ocorre no ápice da relação dos dois, momento que, aí sim, ela resolve questioná-lo sobre tudo.

A inexperiência do diretor e o roteiro vago esquecem que a inteção do filme é mostrar como é difícil para todos lidar com as diferenças da instituição familiar e como as escolhas são importantes para que esses laços sejam mantidos independente dos graus de proximidade e de diferenças, além da posição que devemos tomar para a manutenção desses vínculos. Por conta disso o filme nunca atinge esse vínculo pessoal com o espectador, que vai absorver muito pouco ou achar pouca coisa relevante para ser interpretada como uma grande moral ou lição a ser aprendida.

CONCLUSÃO...
Sem dúvida é um filme sofrível de ser assistido por conta do péssimo desenvolvimento e de uma direção perdida. O pouco êxito se dá por conta da experiência dos atores, que nem precisaram ser dirigidos pelo visto, e a grande intenção que tiveram de fazer tudo funcionar como deve. Mas o produto final não agrada, virando um filme com uma traminha aguada de novela.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

MELHOR QUE O LIVRO...

★★★★★★
Título: Jogos Vorazes (The Hunger Games)
Ano: 2012
Gênero: Ação, Aventura
Classificação: 12 anos
Direção: Gary Ross
Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Stanley Tucci, Elizabeth Banks
País: Estados Unidos
Duração: 142 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre tantas coisas... Mas vou tentar ser bastante simples: em um futuro muito, muito distante, depois da Terra ter sobrevivido a diversas guerras, em um lugar conhecido como Panem (onde seriam os Estados Unidos), os humanos vivem em situações precárias com pouca comida e recursos, e além disso, como forma de punição aos civis que se rebelaram contra o governo no passado e fazer com que todos se lembrem de que quem manda é quem pode, todos os anos é sorteado um casal de jovens de cada distrito (há um total de 13) para participarem dos Hunger Games, um evento transmitido em rede nacional onde todos os participantes são postos em uma arena e devem lutar até restar apenas um vivo.

O QUE TENHO A DIZER...
Adaptado do livro homônimo de Suzanne Collins, sendo a primeira parte da trilogia de sua série de ficção para jovens adultos. A direção e o roteiro é de Gary Ross, que dirigiu o belo Pleasantville - A Vida em Preto e Branco (Pleasantville, 1998) e o interessante Nascido Para Ganhar (Seabiscuit, 2003).

A versão cinematográfica consegue ser mais interessante que o livro. A impressão que se tem é que a própria autora (que também assina o roteiro) tentou consertar a simplicidade da sua obra, porque embora o livro seja curto, tem uma narrativa em primeira pessoa bastante simplória. Esse tipo de narrativa muitas vezes é bastante interessante por mostrar pontos de vista objetivos através do narrador sobre os acontecimentos, mas também é um recurso bastante utilizado por aqueles que não conseguem transcrever de forma efetiva um mundo imaginário. Ok, podemos pensar que é um livro direcionado a uma faixa etária dos 15-20 anos e que a tradução em português talvez o empobreça, mas isso não justifica uma literatura tão simplista frente a outras superiores e que também tiveram adaptações cinematográficas, como Harry Potter, de J. K. Rowlings, ou até mesmo O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, que foi um livro originalmente intencionado para adolescentes.

De qualquer forma o livro tenta nos transportar para um mundo futurista que mescla tecnologia com sistemas arcaicos. Quem detém a tecnologia são os ricos, e os pobres sobrevivem em métodos um tanto quanto medievais, caçando, vivendo de subsistência, trocando produtos e vendendo a vida para comprar um punhado de farelo de milho, além, claro, de ter que contribuir constantemente com impostoso e viver sobre a sombra do medo de ter um filho, parente, ou amigo, sorteado para participar dos tais Jogos Vorazes.

A mistura das batalhas de gladiadores durante o ápice do Império Romano com aquilo que hoje conhecemos como reality show sem sombra de dúvidas foi o resgate mais interessante da autora para a cultura pop dos últimos anos, tentando criticar de alguma forma o atual sistema de entretenimento, trazendo para os dias atuais aquilo que era conhecido como panem et circus (pão e circo), atualizado como um programa de televisão líder absoluto de audiência e ovacionado por todos, por mais cruel, inaceitável e absurdo que possa ser. Nessa questão o filme sucede e consegue até realizar essa crítica, nunca escondendo de quem assiste que tudo que acontece é falso e uma grande e perversa tragédia disfarçada de espetáculo e entretenimento.

O diretor e roteirista, juntamente com a própria autora, conseguem ampliar tudo o que é limitado no livro, como o mundo e o espaço em que a história se passa, os personagens que fazem parte e as dificuldades e obstáculos que cada um deve superar, mas perde muito tempo mostrando o solitário sofrimento da personagem principal e seus dias perdida na floresta, quando deveria ter utilizado esse tempo para reproduzir mais fielmente toda a voracidade existente nas batalhas travadas entre os participantes do jogo, o que não é feito, dando a impressão que tudo nada mais é do que um bando de adolescentes chatos assediando moralmente uns aos outros e não duelando como animais e matando uns aos outros como máquinas de guerra num jogo de sobrevivência, uma das poucas coisas que são melhores descritas no livro. Mas também sabemos que isso é uma imposição do próprio estúdio que não queria que o filme fosse violento demais e a censura ultrapasse os treze anos de idade, o que limitaria muito a arrecadação na bilheteria. E funcionou bem, pois o filme teve um custo de US$72 milhões (mediano para o tamanho da produção), e já arrecadou mais de US$646 milhões no mundo, além de estar em 6º lugar no ranking dos filmes que mais arrecadaram no seu dia de estréia, conseguindo pagar antecipadamente as próximas duas seqüencias que, segundo o estúdio, só seriam feitas caso isso acontecesse.

De qualquer forma, dentre os atuais filmes baseados em série de livros, Jogos Vorazes consegue ser melhor que a série que o antecedeu, Crepúsculo, principalmente ao colocar como atriz principal a talentosa Jennifer Lawrence, já indicada ao Oscar por Inverno Da Alma (Winter's Bone, 2010), que ao contrário da heroína da outra série, consegue manter sua boca fechada, ser expressiva, convincente e elevar a qualidade do filme, fazendo-o deixar de ser apenas um produto direcionado a adolescentes fãs dos livros, mas também agradar o público adulto por ser madura e carismática o suficiente pra isso.

Os demais personagens coadjuvantes conseguem ser bastante fiéis ao livro em sua caricatura, com o apresentador Caesar Flickerman (Stanley Tucci e suas imensas próteses dentárias expostas em gargalhadas exageradas) e Effie Trinket (Elizabeth Banks, irreconhecível com tanta maquiagem). A narrativa do filme varia entre câmeras fixas e livres, e embora as cenas com câmera livre sejam interessantes por tentar reproduzir a narrativa em primeira pessoa do livro, acaba se tornando cansativa, confusa e enjoativa no meio de tantas explosões e fugas.

O filme não fez tanto sucesso no Brasil já que a série de livros só passou a ser divulgada e mais conhecida pouco antes do filme estreiar no país, mas a legião de fãs e de curiosos tende a aumentar.

CONCLUSÃO...
Poderia ser melhor e mais ousado, mas não chega a ser tão ruim quanto o livro. Para as pessoas com pouco senso crítico o filme cumpre seu papel como um produto de ação fantasioso e que também consegue, da sua maneira, criticar a cultura pop descartável e emburrecente da mídia atual. As atuações e a produção caprichada salvam o filme da superficialidade dominante em outros filmes de ação voltado ao público adolescente.
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