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sábado, 25 de fevereiro de 2017

LONGO SOFRIMENTO. MUITO LONGO...

★★★★★★☆☆
Título: Manchester À Beira-Mar (Manchester By The Sea)
Ano: 2016
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Kenneth Lonergan
Elenco: Casey Affleck, Michelle Williams, Kyle Chandler
País: Estados Unidos
Duração: 137 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Após a morte do irmão, um testamento é deixado incumbindo que o filho de 17 anos fique aos cuidados de um tio que há muito tempo deixou de se preocupar com responsabilidades.

O QUE TENHO A DIZER...
Manchester À Beira-Mar é uma história trágica por excelência, e que tenta mostrar a beleza embutida nas mudanças através disso. Quando você acha que a vida de Lee Chandler (Casey Affleck) não poderia ficar pior, eis q vem o roteiro e lhe dá uma rasteira. Talvez por isso a narrativa seja desconstruída, para amenizar o impacto e não causar aquela sensação progressiva e constante de eventos tortuosos que aconteceria se fosse linear. Não que isso diminua de fato alguma coisa, mas já começar o filme sabendo que o protagonista, apesar de tudo, conseguiu passar por cima das tragédias, já é um conforto ao espectador, mesmo quando evidente que as feridas não tenham fechado. E o resto, a maneira como Lee irá se reconectar com sua vida e com as pessoas a sua volta que também foram diretamente atingidas pelos acontecimentos, é o que o filme propõe.

Não há muito o que se dizer sobre este filme simples, que ao mesmo tempo que repele, conquista pela sua honestidade. O desenvolvimento a passos lentos que variam entre o presente e o passado por meio de flashbacks aleatórios, como uma memória fragmentada, revelam aos poucos, como camadas de cebola, a razão para o protagonista ter se tornado uma pessoa apática e um tanto inerte da realidade com o tempo, anestesiado pelos constantes e brutais golpes de uma vida cotidiana comum que, de uma hora para outra, vira de cabeça para baixo como um barco em meio a uma tempestade inesperada.

O processo de auto-indulgencia é vagaroso, igualmente penoso ao espectador em um processo de mais de 130 minutos. Um filme um tanto longo e arrastado demais para seu peso dramático, mas que na sua reta final acaba sendo compensador por ficar mais leve e concluir os conflitos de maneira bastante sóbria e sensata, sem lições de moral ou atitudes heróicas. Ao invés disso, o protagonista se mantém firme, fazendo todos compreenderem seu ponto de vista sem grandes justificativas, como realmente deveria ser.

Mesmo que demorado para deixar mais evidente sua proposta, o diretor/roteirista, Kenneth Lonergan, o desenvolve com cuidado, trazendo de suas experiências anteriores, como na comédia Máfia No Divã (Analyze This, 1999) e sua continuação, um sarcástico humor entre um momento e outro para aliviar algumas tensões. E funciona, até mesmo quando achamos que esteja um tanto fora de tom, quando no momento em que Lee está no hospital e recebe a notícia do falecimento do irmão pelo amigo George (C.J. Wilson), o personagem responsável pelos poucos momentos um tanto pastelões na história.

Casey Affleck repete aqui um tipo de personagem que combina com sua persona, mas aprofundado em dores e traumas, num sofrimento contido que não cessa, raramente exposto àqueles que o observam e dependem dele, martirizado na dúvida entre voltar a fugir da realidade ou encará-la de frente, como lhe é propositalmente imputado pelo testamento de seu falecido irmão.

Ao contrário do que se espera ou do que o cartaz pode demonstrar, não é um romance, e Michelle Williams, mesmo que em uma personagem relevante, faz uma participação extremamente pequena. É um drama regular que se passa na pequena cidade litorânea Manchester-by-the-sea (daí o título), e que apesar de seu peso, consegue evitar muitos dos clichês melodramáticos que facilmente poderiam ser usados e abusados, salvo um momento e outro, como na cena em que Lee tenta cometer suicídio. Como um todo, Lonergan faz do filme uma visão interessante sobre a vida e sua continuidade apesar do sofrimento, e a retomada de responsabilidades deixadas para trás, embora não consiga fazer desse tema - um tanto batido - algo realmente grandioso e impactante o suficiente para se diferenciar de todos os similares que existem por aí.

CONCLUSÃO...
Apenas um monte de drama para uma conclusão simples e sincera, que foge da conclusão idealizada que muita gente irá esperar. Assim como os demais filmes que estiveram presentes na temporada de premiações, Manchester não traz nada de inovador, grandioso ou emocionalmente impactante para justificar seu favoritismo. Nada para se lamentar caso seja perdido ou deixado de lado.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

BEM VINDA MATURIDADE...

★★★★★★★★
Gênero: Drama, Romance, ComédiaTítulo: O Espetacular Agora (The Spectacular Now)
Ano: 2013
Classificação: 12 anos
Direção: James Ponsoldt
Elenco: Miles Teller, Shailene Woodley, Brie Larson, Kyle Chandler, Jennifer Jason Leigh
País: Estados Unidos
Duração: 95 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um rapaz de 18 anos que entra em choque com sua própria realidade quando conhece uma garota prestes a entrar em choque com várias realidades.

O QUE TENHO A DIZER...
O Espetacular Agora é o terceiro filme do diretor James Ponsoldt, com roteiro dos mesmos escritores de (500) Dias Com Ela (500 Days Of Summer, 2009) e é baseado no livro homônimo de Tim Tharp. Teve estréia no Festival de Sundance de 2013, o qual foi bem recebido e, em geral, recebeu comentários bastante positivos da crítica mundial.

Mas ao contrário da espetacular comédia romântica (500) Dias Com Ela, esta não é uma comédia, e muito menos romântica, muito embora tenha alguns esparsos momentos cômicos e românticos, sendo assim que o filme tem sido divulgado, quando na verdade é um drama romântico adolescente incomum, que surpreende por ter uma abordagem madura o suficiente para servir até como uma metáfora, ou mais precisamente, uma indireta aos mais velhos que o assistirem, pois consegue ser sério e adulto em sua mais pura essência, mesmo que atuado por jovens cujos conflitos giram em torno deles.

Sutter (Miles Teller) é um garoto aparentemente comum como qualquer outro de sua idade, ele não é muito atraente e muito menos faz parte do time de futebol do colégio, mas mesmo assim é um grande conquistador e mulherengo por ser inteligente, engraçado, extrovertido e bastante seguro de si, mas incapaz de levar qualquer coisa a sério como deveria. Sutter vive o agora, e o alimento de sua felicidade é consumir o prazer momentâneo a todo instante, o que o faz ser, com apenas 18 anos, um alcólatra. É em um desses momentos que, na tentativa de esquecer sua ex-namorada, ele é encontrado em coma alcólico no jardim da casa de Aimee (Shailene Woodley), uma garota simples que estuda no mesmo colégio, mas que ele nunca notou. Aimee é completamente diferente de Sutter, mas na intenção de conhecer uma nova garota para esquecer a anterior e usá-la para alimentar suas felicidades e prazeres, ele tenta conquistá-la. Entre vários encontros e longas conversas ele descobre que Aimee é mais do que simples e comum, é uma garota com um intenso potencial adormecido e reprimido por uma vida sem graça e uma mãe codependente, e por isso ele se sente tentado a libertá-la disso de alguma forma enquanto ela vê nele a descoberta de experiências que ela nunca teve e o primeiro passo para caminhar em um mundo de satisfações e desgostos que até o momento desconhecia.

O personagem acredita ser, por excelência, auto suficiente e um tanto arrogante na sua forma, com uma visão muito branda e superficial sobre as coisas e sobre ele mesmo. A princípio Sutter consegue ser bastante antipático e inconveniente, principalmente na primeira meia hora, mas toda essa superficialidade que ele demonstra esconde problemas muito mais sérios e que ele não consegue lidar, como a ausência paterna desde seus 8 anos de idade, o distanciamento de sua mãe e irmã mais velha, a cobrança de seus professores sobre seu baixo rendimento escolar, a impressão subestimada e maldosa que seus colegas tem sobre ele pelas costas, além do abandono de sua ex-namorada que, para ele, foi por ela simplesmente ter se apaixonado pelo chefe do time do colégio. Ele age como se não ligasse para nada disso porque, já que sua filosofia de vida é viver o momento e não pensar no futuro porque isso o assombra e demanda responsabilidades que ele não sabe se é capaz de cumprir, então qualquer responsabilidade que ele tenha é tratada com bastante descaso.

O filme desenvolve todas essas características do personagem às avessas, começa mostrando-o como um garoto chato e inconsequente, sendo tortuoso pensar em aturar esse comportamento arrogante por todo o filme ao ponto de não acreditarmos em suas atitudes, mesmo quando estas são as mais sinceras possíveis, pois apesar de tudo ele é honesto com as pessoas sobre suas vontades e sua forma de pensar. Mas aos poucos o roteiro quebra a casca em que ele vive, ou melhor, tira tijolo por tijolo da muralha que ele construiu à sua volta. E então todas suas camadas aparecem, e lentamente toda a confusão emocional e sentimental que ele vive se revelam, momento quando finalmente o espectador se sensibiliza, a empatia acontece, Sutter se transforma em um jovem incompreendido que a todo momento luta contra ele mesmo e  (ufa!) o filme finalmente toma sua forma.

Com certeza é um dos personagens mais complexos a ter sido adaptado no cinema norteamericano nos últimos anos, e de uma forma tão simbólica e relevante que é difícil definí-lo por inteiro, pois ele representa várias situações e fases da vida, sendo a própria adolescência uma pequena fração dela. Pode ser que no livro o personagem não seja tão complexo dessa forma, mas a construção dada nele pelos roteiristas é, e seu desenvolvimento na história ficou brilhante.

Ao contrário dele, Aimee é a verdadeira representação da pureza e ingenuidade prestes a serem corrompidas quando o choque com a realidade acontecer e todas as coisas que um dia pareciam tão belas, se tornarem sujas. Ela é a única personagem com uma atitude mais equivalente com sua idade, e muito embora sabemos desde o início que ela irá sofrer, também sabemos que este sofrimento é necessário para seu crescimento e fortalecimento psicológico e emocional típicos de quem passa por certas dificuldades pela primeira vez.

O roteiro até consegue nos pegar de surpresa quando, confrontado por sua mãe (Jennifer Jason Leigh), o personagem finalmente tem um insight de que o problema não são as coisas ou pessoas a sua volta, mas suas próprias atitudes sugestionadas pela descrença que ele tem por ele mesmo e seu precoce alcolismo que só piora conforme ele se confronta mais e mais com seus problemas. Essa cena dura e emocionante é uma das várias que acontecem, e que mostram por si só que o filme não é um passeio pelo parque, mas uma grande e difícil tarefa de encararmos as dificuldades e aceitar as responsabilidades.

A seriedade até poética com que o filme trata uma fase tão complicada da vida de descobertas, conflitos e desapontamentos se assemelha muito com As Vantagens de Ser Invisível (The Perks Of Being a Wallflower, 2012) no sentido de não subestimar nenhum público e muito menos exagerar em cliches na tentativa de criar uma identificação fácil com um tipo específico, mas enquanto este outro filme trata do tema com adolescentes vivendo suas felicidades e infortúnios típicos da idade e da busca pela maturidade dentro de uma linguagem bastante expressiva e relevante, neste filme essa referência de idade só existe para, talvez, intensificar todos os conflitos dramáticos tratados, que em realidade são universais, atemporais e sem classificação etária.

CONCLUSÃO...
Um drama romântico incomum, que mostra um personagem que sofre com as dificuldades de aceitar as responsabilidades por pontos de vistas tão sérios e conflitantes que, ao contrário do que se supõe, chega a não ser um filme agradável para aqueles que esperam um belo casal romântico no final, mas um filme que conquista aos poucos, e aos poucos revela que há um pouco de Sutter em todos nós.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

PRECONCEITOS DE LADO: É BOM MESMO!

★★★★★★★★★☆
Título: Argo
Ano: 2012
Gênero: Ação, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Ben Affleck
Elenco: Ben Affleck, Alan Arkin, John Goodman, Bryan Cranston, Kyle Chandler, Victor Garber
País: Estados Unidos
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Baseado na missão verídica Canadian Caper durante a Crise de Reféns do Irã em 1979, em que um agente da CIA se infiltra no país para resgatar seis diplomatas norte-americanos sem que o governo iraniano perceba. 
O QUE TENHO A DIZER...
O filme é dirigido, escrito, produzido e atuado por Ben Affleck, a produção também é assinada por George Clooney, que é outro ator que vem desempenhando um forte papel como diretor nos últimos anos, e que talvez tenha sido uma grande mão na roda desse filme, já que sua experiência com longas é bem maior.
Tenho que finalmente torcer minha lingua e concordar que é um bom filme, e realmente tem razão de figurar entre os melhores de 2012. É o terceiro longa metragem do ator que se destacou como roteirista ao ganhar o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado (juntamente com seu então amigo Matt Damon) pelo filme Gênio Indomável (Good Will Hunting, 1997) e agora se tornou uma figura poderosa em Hollywood ao se consolidar como um dos novos e bons diretores dessa geração, e Hollywood tem feito de tudo para promovê-lo assim.
O histórico da carreira de Ben Affleck é cheio de altos e baixos. Da noite para o dia ele se tornou um galã, e do dia para a noite sua fama despencou por conta das constantes perseguições da mídia e do frequente esculacho sofrido a respeito da sua limitada capacidade de interpretação e de sua vida pessoal. Demorou para ele voltar a se resguardar, ser esquecido pela mídia sensacionalista e aos poucos se reestabelecer pessoal e profissionalmente. É o novo patinho feio, e agora Hollywood se aproveita disso para pintá-lo dessa forma e, talvez, de também pedir desculpas por tanto escárnio ao longo de boa parte de sua carreira.
Sr. Affleck vem causando surpresa por ter feito arrastões na temporada de premiações de 2013, já recebendo prêmios de Melhor Diretor e/ou Melhor filme em eventos importantes como o Critics Choice, Globo de Ouro, Screen Actors Guild e Directors Guild. O filme também recebeu sete indicações ao Oscar, mas isso não impediu de que ele fosse esnobado pela Academia que não o incluiu na lista de finalistas de Melhor Direção, embora figure na lista de Melhor Filme. Esse fato tem causado bastante polêmica e levado os membros da Academia a sofrerem fortes críticas por isso frente a tanto favoritismo que Argo vem tendo. Há duas grandes fortes razões para isso ter acontecido. A primeira delas pode ter sido pela mudança da data de votação dos finalistas ao Oscar já que foi feito em um período de férias e festas de final de ano, sendo dito por aí que muitos membros do comitê para a categoria de Melhor Direção não tenham tido tempo suficiente para enviar os votos e que, ao mesmo tempo, muitos outros tenham feito suas votações sem ao menos ter assistido os filmes, dando votos cegos. A segunda razão, e talvez a mais plausível, é pelo comitê não engolir a ascenção de Ben Affleck por puro preconceito mesmo. O próprio ator/diretor/roteirista/produtor já desmonstrou seu descontentamento a cerca disso e não vem evitando situações para sutilmente alfinetar a Academia a cada novo prêmio conquistado.
O filme é baseado no fato verídico do plano Canadian Caper, em que o agente da CIA, Tony Mendez (Ben Affleck), liderou o resgate de seis diplomatas norte-americanos que conseguiram escapar da Embaixada Americana do Irã após a invasão de militantes e estudantes islamitas, levando à Crise de Reféns do Irã, que durou entre 1979 e 1981, envolveu o sequestro de 52 norte-americanos que se encontravam na Embaixada e que foram mantidos em cativeiro por 444 dias. Após várias missões de resgate falharem, Tony Mendez surge com a idéia absurda de se infiltrar no país disfarçado de produtor de cinema canadense que trabalha em Hollywood e que está procurando locações no país para a filmagem de um novo longa de ficção científica chamado Argo. O plano principal era encontrar o grupo foragido e igualmente disfarçá-los de cidadãos canadenses que fazem parte da equipe de filmagem para poder extraí-los do país sem que o governo iraniano percebesse.
Embora Argo seja o título do filme e o título do roteiro utilizado no plano que o filme narra, na missão real de extração o título do roteiro utilizado foi de um filme que nunca foi filmado chamado O Senhor da Luz (Lord Of Light), baseado na obra de Roger Zelazny, e aquilo que parecia absurdo, no fim se tornou um sucesso e um exemplo de parceria e cooperação diplomática entre diferentes nações. Foi isso que chamou a atenção de Ben Affleck para adaptar a história originalmente publicada como um artigo em 2007, mas que já havia se tornado pública durante o governo de Clinton.

Sem dúvida é um filme que acaba enaltecendo os Estados Unidos em um período difícil que o país passa de descrença entre seus próprios cidadãos e do constante declínio de sua hegemonia e imagem no resto do mundo. Também acaba sendo sem querer um ponto de vista mais bonito, humanitário e contraditório do filme A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, 2012), em que a diretora Kathryn Bigelow e o roteirista Mark Boal não mediram esforços para mostrar o lado mais desumano e anti-diplomático dos Estados Unidos quando o assunto envolve a guerra de interesses. Talvez seja por essa razão que o filme de Affleck esteja sendo ovacionado pela crítica e pelo público, pois é um filme que acaba por promover uma imagem que os EUA agora carece.
Enquanto Argo mostra o lado patriótico e pacífico da CIA, A Hora Mais Escura mostra o lado negro da força da agência de inteligência secreta do país, suas influências perigosas e o abuso de força e poder. Por isso, mesmo os dois filmes se passando em épocas e situações distintas, se tornaram importantes títulos que são interessantes de serem assistidos para essa observação ser feita, pois juntos erguem questões fundamentais que o grande público até então tinha pouco acesso.
Enquanto Bigelow deu um ar mais histórico ao seu filme evitando transformar fatos em cenas de ação comuns do gênero, Affleck oferece um tom mais fictício transformando os fatos em um grande entretenimento, e não há como negar os méritos disso. O filme se destaca exatamente por ser igualmente baseado em pesquisas sólidas para retratar e caracterizar tudo da forma mais histórica possível (como é mostrado durante os créditos finais) e ainda recebe as dosagens exatas de humor, ação convencional e suspense. Por conta dessa união feliz de diferentes fatores que poderiam facilmente cair em um grande besteirol, Argo é um filme de ação incomum e inteiramente verídico, porém dentro de um tom teatral útil que entretém e nunca deixa o espectador entediado.
Obviamente que Affleck usa e abusa de clichés para manter um clima de tensão constante, repetindo aquela mesma tática de segurar as situações e enganar o espectador, fazendo-o acreditar que tudo vai dar errado até o clímax ser atingido e todo mundo finalmente poder dizer "ufa". Essa fórmula é repetida não com frequência, mas seguidamente, o que acaba sendo um pouco cansativo e previsível porque depois da primeira vez que isso acontece a tensão continua existindo, mas não há surpresas. Independente disso, para a proposta do filme, a tática funciona bem até o último minuto.
Grandes pontos positivos também para os atores, que também receberam o prêmio SAG de Melhor Elenco de longa metragem, uma das categorias mais importantes do evento e da temporada de premiações, já que é avaliado as atuações como um todo e sua química em cena. Isso deve ser por conta da maioria do elenco ser formado por atores experientes e gabaritados, mais conhecidos por trabalharem em seriados de televisão como: Bryan Cranston, de Breaking Bad; Victor Garber de Alias, Clea DuVall, de American Horror History; Kyle Chandler de Friday Night Lights; e Tate Donovan, Chris Messina e Zeljko Ivanek, de Damages. Atores que já estão acostumados a trabalhar com grandes equipes e tem uma capacidade maior de interação entre si. O grande defeito de elenco é o próprio Ben Affleck, que ainda insiste em atuar (ou finge atuar) em seus próprios filmes. Mas aqui sua incapacidade nem é tão notada, tudo fica bem camuflado no meio de tanta barba, cabelo e demais atores que conseguem roubar as cenas.
O filme ainda concorre ao Oscar de Melhor Edição, que é bastante pontual e funcional, nunca deixando o clima cair ou desandar. A produção de arte e o figurino também são excelentes, retratando bastante os anos 70, inclusive no tipo de filmagem, já que Ben Affleck fez questão de que a imagem tivesse o mesmo aspecto envelhecido de documentos da época, realizando um processo de filmagem convencional, porém em um tamanho menor de imagem, e depois duplicando seu tamanho na hora da revelação para que essa granulação ficasse mais nítida.
Buscando a história real e os fatos verídicos, há alguns anacronismos e desvios que Affleck fez questão de dizer que foram feitos simplesmente para amarrar o roteiro e manter os climas de tensão, desde as coisas mais supérfluas (como as letras de Hollywood em ruínas, que foram restauradas antes da época em que o filme se passa) até as mais sérias, como o fato do filme afirmar que apenas a Embaixada Canadense ofereceu refúgio aos seis americanos, quando na realidade tanto a Embaixada Britânica quanto a Neozelandesa também ofereceram ajuda.

Enfim, como ator Ben Affleck tem se provado um grande diretor e roteirista. Por um lado confesso que meu preconceito me impede de aceitar que Argo realmente tenha a melhor direção, o melhor roteiro e, por fim, acabe sendo o melhor filme de 2012, mas por outro também tenho que concordar que ele realmente não desaponta em nenhum aspecto, além de ter conseguido fazer uma coisa que nenhum dos filmes que figuram na lista dos melhores das premiações conseguiram até o momento, me deixar empolgado e em nenhum momento me entediar ou querer que acabasse logo.
CONCLUSÃO...
É um filme feito sob medida. Tudo nele funciona como deve e em nenhum momento peca por excessos ou faltas, e mesmo sendo um filme baseado fortemente em fatos verídicos, ele é construído em cima de um clima de ação e tensão que o deixa com um aspecto incomum. Interessante quando assistido junto com A Hora Mais Escura, já que é outro título de 2012 também fortemente baseado em fatos verídicos envolvendo ações da CIA e com uma narrativa completamente diferente, mas que ajuda a erguer questões fundamentais que não devem ser ignoradas. É Affleck sabendo escolher bons trabalhos e excelentes parcerias, como a de Clooney na produção e todo o elenco envolvido. O orgulho e preconceito de alguns pode dificultar, mas realmente ele merece estar entre o Top 5 de 2012.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

POLÊMICAS E BIN LADEN NA HORA MAIS ESCURA...

★★★★★★★
Título: A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty)
Ano: 2012
Gênero: Drama, Ação, Guerra
Classificação: 14 anos
Direção: Kathryn Bigelow
Elenco: Jessica Chastain, Jason Clarke, Kyle Chandler, Jennifer Ehle
País: Estados Unidos
Duração: 157 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Os dez anos de busca e finalmente captura e assassinato de Bin Laden.

O QUE TENHO A DIZER...
Este filme é dirigido por Kathryn Bigelow, aquela que em 2010 surgiu do "nada" com o filme Guerra Ao Terror (The Hurt Locker, 2008) e abocanhou o Oscar de Melhor Filme e Direção, entrando para a história da premiação como a primeira mulher a receber o prêmio nas duas categorias. Eu felizmente tive a oportunidade de assistí-lo pouco tempo depois de seu lançamento, ainda no começo de 2009, e sempre o considerei um filme bom e um grande concorrente antes mesmo da sua fama. Na época fiquei bastante surpreso e feliz com sua presença no Oscar 2010, já que ele só foi entrar na premiação quase um ano e meio depois do seu lançamento.

Muita gente não se conforma com isso, já que ela derrubou o favoritismo de Avatar (2009) que, por sinal, é do seu todo-poderoso-ex-marido-James-Cameron, o qual também foi responsável até mesmo por convencê-la a realizar aquele filme. Hoje em dia críticos alegam que os prêmios dados a ela foi a oportunidade que tiveram para esnobar a arrogância de James Cameron e também para dizer que a Academia não é machista, misógina ou preconceituosa, e que mesmo o filme tendo sido, a princípio, um grande fracasso de bilheteria (ele foi conseguir se recuperar apenas 1 ano depois por conta da publicidade adquirida no Oscar), ele tinha suas qualidades. E ele realmente tem.

Por isso que vale dizer que Guerra Ao Terror é um excelente filme. Ele não deve ser diminuído (como foi na época) por não ser uma grande produção (custou apenas US$15 milhões, o filme mais barato a receber o prêmio da Academia de Melhor Filme). Tecnicamente é um filme complexo, que sofreu grandes problemas de produção por conta das dificuldades de filmagem no Iraque, do perigo por toda a equipe ter trabalhado em um território hostil, além de seu orçamento limitadíssimo ao ponto de várias pessoas, tanto da equipe técnica quanto de atores, terem desistido no meio das filmagens. Mas ao mesmo tempo vários atores importantes acreditaram no projeto e fizeram questão de participar, como Guy Pearce, Ralph Fiennes e David Morse, sem contar que o filme revelou Jeremy Renner.

O prêmio de direção recebido por Kathryn foi merecido, ela soube unir diferentes estilos de filmagem para construir um filme de poucos diálogos e cenas de ação, mas tenso, carregado de um terrorismo psicológico realista ao mostrar a vida difícil de soldados do esquadrão antibombas. Tem gente por aí que diz que ela só se tornou alguma coisa por causa de James Cameron. Que seja. Se foi com ele que ela aprendeu algo, ela soube fazer direitinho as lições de casa, e isso deve ser levado como um mérito, assim como vários outros bons e atuais diretores também tiveram grandes mentores dentro da própria família, como Sophia Coppola e Jason Reitman. E sozinha ela conseguiu fazer sua história e um currículo de filmes que a crítica diz serem "tipicamente masculinos", o que também é um grande diferencial de seu estilo.


Em A Hora Mais Escura, ela dá uma certa continuidade ao filme anterior, voltando para os territórios hostis do Oriente Médio, trabalhando novamente com o jornalista e roteirista Mark Boal, o mesmo de Guerra Ao Terror.

As polêmicas começaram logo na fase de pré-produção e a possibilidade de uma parceria partidária, já que o filme estava agendado para ser lançado um mês antes das eleições norte-americanas, o que poderia favorecer a re-eleição de Barack Obama. Isso foi negado pela distribuidora Sony, que afirmou que a data de lançamento foi escolhida porque era a época mais favorável para o gênero do filme, e até mesmo o roteirista foi a público negar qualquer parceria. Por conta dessa polêmica o filme acabou tendo lançamento limitado para críticos e para a consideração de premiações, e o lançamento público e oficial foi reagendado para Dezembro de 2012.

O filme recebeu críticas positivas e o favoritismo para a temporada de premiações foi imediato, mas outras polêmicas envolvendo o desenvolvimento do roteiro acabaram denegrindo tudo isso. O roteirista e a diretora sempre foram claros ao dizer que o filme é baseado em fatos reais e que as cenas de tortura foram feitas em cima de fontes primárias. Isso ajudou o Senado a acusar a CIA e a adminsistração de Obama de ter oferecido informações confidenciais à diretora e ao roteirista, o que colocou a própria CIA e o Departamento de Segurança a investigar se isso realmente aconteceu.


Tanto o roteirista quanto a diretora negaram a participação do governo, mas a veracidade pela qual o tema é tratado no filme convence o serviço de inteligência secreta norte-americano de que houve vazamento de informações secretas e classificadas como altamente confidenciais, o que acabou sendo bombástico para sua reputação. A CIA inclusive chegou a se reportar em público, contradizendo veementemente ao negar, sem qualquer escrúpulo, de que ela não utiliza métodos violentos de interrogatório para obter informações de seus inimigos (podemos rir dessa piada?). Há inclusive um momento no filme em que aparece uma reportagem com Obama na televisão fazendo a mesma afirmação, o que é um tanto irônico e o grande ponto de mudança do filme.

O governo agora realiza uma caça às bruxas para abafar isso, e Kathryn Bigelow e Mark Boal passam por maus bocados, já que o Governo agora exige a retratação dos fatos e a verdadeira fonte dessas informações confidenciais, o que é proibido nos EUA até mesmo sob leis de liberdade de expressão, pesquisa jornalística, ou coisas desse tipo. Parece que todos os envolvidos na produção ainda correm o risco de serem julgados e até mesmo presos se nada disso for contornado. Ou seja, é uma situação complicada e que fez com que a mídia virasse a casaca e passasse a atacar o filme. Tanto foi assim que foi uma surpresa a diretora não estar entre os cinco finalistas na categoria de Melhor Diretor no Oscar 2013, o que aparenta ter sido uma medida tomada de última hora pelos membros da Academia para se absterem de qualquer partido nisso que se tornou uma guerra pública e política.


Também não é mais segredo para ninguém que o filme narra a histórica caça a Osama Bin Laden, que durou 10 anos. Mark Boal já tinha um roteiro pronto para o filme, que narraria os anos de uma busca infeliz e frustrada, que matou milhares de inocentes, colocou a economia americana e mundial em risco e que não teve sucesso algum. Mas pouco antes da pré-produção do filme ter início, Osama foi encontrado e assassinado pela CIA, e o roteirista teve que mudar toda a história. O filme também mostra a obsessão de uma agente da CIA em chegar até as últimas consequências em descobrir seu paradeiro, já que ela dedicou toda sua carreira nisso. Mostrada no filme pelo nome fictício de Maya, ela é real, mas ainda permanece disfarçada e é proibida de dar entrevistas a jornalistas por motivos de segurança. Alguns colegas que realmente trabalharam com ela afirmam que a caracterização dada pela atriz Jessica Chastain é bem próximo da realidade, principalmente a respeito da sua dedicação e temperamento.

Sem dúvida é um filme bem feito, e ao contrário do que a crítica aponta, ele não favorece a tortura. Ele apenas mostra que a tortura foi uma das atitudes tomadas pelos agentes, uma atitude desesperada até, já que a pressão sobre eles era constante e se tornou cada vez maior e mais pesada com o passar dos anos. Também não são cenas tão chocantes quanto a mídia pinta. Eu realmente assisti preparado para ver o pior, e o pior não é nem tão chocante assim, não com imagens. O choque é muito mais psicológico, porque a situação é lidada de forma bem crua, ao ponto de dar a impressão de poder sentir até o cheiro do ambiente. Não vemos chicotamento, laceração, queimaduras, nada disso... é apenas o confronto entre uma pessoa que se fortifica com a constante fragilização do outro. Em nenhum momento o filme se posiciona sobre o uso da tortura, mas ele deixa a situação duvidosa por vários momentos.


O crítico Rubens Ewald Filho acredita que se a personagem Maya tivesse verbalizado uma opinião que desaprovasse as situações, por mais curta que fosse, teria diminuído o peso sobre o filme. Mas isso não é necessário, a própria postura da personagem e seu semblante já demonstram isso a todo instante, incluindo uma sequencia em que ela mesma incita a tortura, mas logo em seguida se martiriza sozinha no banheiro pela ação extrema tomada. Portanto, sobre isso, é o que a própria diretora afirmou, o filme é duvidoso quando a própria história é duvidosa - como o uso da tortura, e acertivo quando a própria história é acertiva - como o assassinato de Bin Laden.

Na verdade o filme pode ser macro-dividido em duas partes, a primeira que mostra o uso da tortura e nenhum avanço nas buscas, e a segunda parte em que é usado a pesquisa e investigação, o que leva diretamente a Bin Laden. Por causa disso Michael Moore chegou a até ironizar, dizendo como é engraçado oito anos de tortura não levarem a nada e dois anos de investigação levar diretamente ao terrorista. Essa "mudança de planos" que ocorre no filme é outra questão que fundamenta que ele não deve ser taxado como pró-tortura. Enfim... essa questão é muito mais sensacionalismo da mídia e de críticos que assistem filmes igual fazem leitura dinâmica, apenas cinco minutos do começo, do meio e do fim, apenas para dar um parecer.

É mais um daqueles filmes lentos, que demoram pra desenvolver, além de longo. Muito longo. São 157 minutos que parecem durar o dobro pela falta de cenas mais dinâmicas e algo que realmente prenda a atenção. Mas é um filme histórico, não é um filme intencionado a descarregar adrenalina. Apesar disso, Bigelow consegue manter um clima de perigo constante ao soltar em momentos imprevisíveis os diversos atentados terroristas que ocorreram durante os 10 anos, e nisso ela tem muito êxito, pois ficamos paranóicos tanto quanto os personagens, acreditando que a qualquer momento algo pode acontecer. É ela novamente trabalhando com o terrorismo psicológico, tal qual feito em Guerra Ao Terror, em um clima que já é tenso logo quando a apresentação silenciosa do filme termina e algumas das gravações feitas entre vítimas do atentado de 11/09 são ouvidas em uma tela preta.


Embora Maya seja baseada em uma figura real e cuja participação na busca tenha sido crucial, achei a personagem bastante comum e sem uma grande participação no filme, o que é estranho. A figura na qual a personagem é baseada é tida como uma mulher determinada, chamada de "a assassina de Washington". Mas não vemos muito disso, aliás, quase nada. Pelo contrário, grande parte do filme a vemos como uma pessoa frágil, submissa, perdida, de poucas palavras. Há apenas uma cena e outra em que ela se impõe um pouco mais numa histeria desesperada, mas em definitivo não é nada que verdadeiramente justifique o favoritismo de Jessica Chastain ao Oscar, estando longe de ser um grande papel cativante como o que ela desempenhou em Vidas Cruzadas (The Help, 2011).

O filme poderia ter salvo um pouco de tempo para abordar outras situações que não foram sequer citadas como, por exemplo, o treinamento tático que os agentes tiveram em uma réplica da fortaleza de Bin Laden construída na Carolina do Norte, nos EUA, para justificar como é que o ataque foi realizado com tanta precisão, como é mostrado no final do filme, sendo uma das melhores sequências. Filmado de forma documentada, é a sequência que justifica o título original do filme, que se refere ao termo dado ao horário mais escuro da noite, às 0h30, horário no qual ocorreu o ataque (o relógio marcando esse horário pode ser visto logo no início dessa sequencia). É a única parte em que o filme é realmente escuro e que usa com excesso câmeras noturnas, mas é de uma tensão e de um tempo de filmagem preciso, em uma edição perfeitamente sincronizada, tanto que o filme tem concorrido nesta categoria em várias premiações, incluindo o Oscar. Bigelow fez questão de que essa cena fosse a mais realista possível, tanto que o tempo de ataque no filme dura 25 minutos, um pouco menos do que durou na realidade.

Em nenhum momento Bigelow apela para o sentimentalismo ou o excesso de drama. O tiro é dado na cabeça. Pronto! Não há dramatização em cima, não há trilha sonora, não há floreios. É ela agindo de forma certeira e fazendo seus personagens agirem de forma mais humana e realista possível. A bomba explodiu, tudo vai pelos ares. O foco muda e o filme continua. Até mesmo no assassinato de Bin Laden, uma cena que poderia ter sido o uso e abuso do cliché em mãos de diretores como Spielberg ou Terrence Malick, mas em nenhum momento ela faz disso um espetáculo ou um grande mérito da nação norteamericana, como é esperado. É um filme que tenta evitar partidos e posicionamentos.

Polêmicas à parte, vale ser visto por fazer um bom apanhado dos 10 anos e revelar importantes situações que são desconhecidas publicamente. A trama e os acontecimentos históricos são bem costurados ao ponto de transformar o espectador em uma parte daquilo tudo e fazê-lo pensar várias vezes "eu lembro de quando isso aconteceu" ou "eu lembro de ter lido algo a respeito disso", um espectador ativo e vivo dentro da história. O que é sempre muito interessante.

CONCLUSÃO...
Bigelow acerta mais uma vez em um filme mais tático do que de guerra, tal qual seu filme anterior Guerra Ao Terror. Aqui os grandes pontos positivos são o desenvolvimento da história, que amarra bem os fatos reais com os (possivelmente) fictícios, e o tom humano e verdadeiro da direção precisa e direta de Bigelow, sem dramatizar ou sentimentalizar demais situações em que outros diretores poderiam facilmente ter exagerado para o bem do drama. Também é um filme que coloca em discussão a polêmica do uso da força versus inteligência, e deve ser visto assim, e não como um filme que favoreça a tortura, como a mídia e críticos tem esboçado sobre ele.
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