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segunda-feira, 26 de maio de 2014

SINGER CONSEGUE SAIR PELA TANGENTE...

★★★★★★★
Título: X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido (X-Men: Days Of Future Past)
Ano: 2014
Gênero: Ação
Classificação: 12 anos
Direção: Bryan Singer
Elenco: James McAvoy, Hugh Jackman, Jennifer Lawrence, Michael Fassbender, Ian McKellen, Patrick Stuart, Ellen Page
País: Estados Unidos
Duração: 131 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Wolverine é enviado de volta para a década de 70 para impedir um assassinato que será responsável por dizimar todos os mutantes no futuro.

O QUE TENHO A DIZER...
Há 51 anos atrás a primeira edição de X-Men foi lançada, super heróis mutantes criados por Stan Lee e Jack Kirby pela Marvel Comics. O sucesso desses heróis é visto até os dias de hoje, valendo sempre dizer que eles, juntamente com o diretor Bryan Singer, foram responsáveis e pioneiros por mostrarem no início de 2000 que havia possibilidades do cinema de ação trabalhar com os quadrinhos de maneira relevante tanto como entretenimento como um produto comercial que não fosse inteiramente descartável. Tanto que 90% dos filmes de ação do verão norteamericano nos últimos anos tem sido apenas de super heróis, sejam eles da Marvel ou da DC.

Os X-Men nos quadrinhos se destacaram por vários motivos, mas um deles era de suas histórias se adaptarem com as épocas e fatos que viviam e até mesmo incoroporá-las em suas tramas, o que também deu certo e funcionou no cinema. Mas com o passar dos anos as histórias publicadas perderam fôlego e ficaram confusas, os personagens começaram a entrar em um loop infinito de erros, discordâncias e anacronismos ao ponto de todo o Universo Marvel ter sofrido imensas transformações principalmente nos anos 90 até culminar com a Era do Apocalipse, um evento que zerou novamente todo o universo, e isso sempre vai acontecer quando tudo bagunçar, como aconteceu no ano passado em que parte da Marvel foi novamente resetada com a chegada do Marvel Now (Nova Marvel, no Brasil).

Com o lançamento do primeiro filme dos X-Men em 2000, Bryan Singer teve boas intenções, porém seu excesso de autoestima e afirmação fez o diretor se precipitar ao pegar a história dos mutantes e recontá-la à sua maneira. Singer se manteve fiel a alguns personagens chaves, mas reinventou a história particular muitos deles a seu bel prazer, o que gerou uma confusão entre aquilo que fãs já conheciam e novos fãs estavam conhecendo, tanto que a Marvel teve que sambar para recontar suas histórias publicadas e diminuir essa grande incoerência do que se viu nas telas com o que existia nos quadrinhos até então.

De uma maneira geral, os dois primeiros filmes de Singer funcionaram nas telas e são as referências em qualidade até hoje, mas o terceiro filme, dirigido por Brett Ratner, deixou a desejar e foi quase um suicídio da franquia. Em 2011, houve uma tentativa de fazer um reboot da série, e Matthew Vaughn foi escalado para dirigir o quarto filme, entitulado Primeira Classe, que seria uma pré-sequencia da trilogia original ao contar como Charles Xavier fundou sua escola de jovens super dotados na década de 60, e como a curiosa relação entre ele e seu amigo Erik Lensherr/Magneto culminou em discordâncias ideológicas e se transformou em uma das mais clássicas e conhecidas rivalidade dos quadrinhos.

E aquilo que era pra ser o reinício de uma franquia e esquecer tudo que foi feito anteriormente, se transformou numa discussão entre a massa de fãs que se perguntava: como dar continuidade a essa história e alinhá-la à história da trilogia original?

Depois de ter abandonado a franquia para uma fracassada tentativa de reviver o ícone da DC em Superman Returns (2006), ninguém seria melhor que Bryan Singer para retornar à direção 10 anos depois justamente para realizar esta ponte entre os filmes e (tentar) consertar todos os erros cometidos no passado, inclusive por ele mesmo.

E funcionou?

Por incrível que pareça, sim.

A habilidade de Singer em administrar um grande número de personagens e de tramas paralelas é inegável e novamente visto aqui. Mas dessa vez Singer não apenas teve de lidar com as tramas paralelas do próprio filme como também com os buracos dos anteriores. Muitos dos erros são consertados de maneira discreta, e embora as referências aos filmes anteriores existam o tempo todo (incluindo também os dois péssimos spinoffs de Wolverine), muitas delas são feitas de maneira indireta justamente para não deixar o novo espectador confuso ou perdido e há até momentos para brincar com algumas situações inusitadas, como mostrar em uma sequencia de onde vem o trauma de Wolverine em viajar de avião.

Claro que isso não significa que seja necessário assistir os filmes anteriores para entender este, muito embora deva ser uma obrigação. Mas essa obrigação é para observar como Singer realmente conseguiu transformar tudo, entre erros e acertos, em um produto condensado, aceitável e grandioso dentro de todos esse complexo mundo confuso que ficou os dos X-Men. Parece que Singer finalmente deixou sua arrogante individualidade de lado e resolveu dar ouvido a base de fãs, pois entre méritos e deméritos, construções e desconstruções, este é o filme mais relevante dos X-Men como uma verdadeira adaptação.

A história se passa dez anos depois do Primeira Classe e 50 anos antes da dizimação dos mutantes na Terra. Esse período é baseado em um episódio dos quadrinhos que leva o mesmo nome e que também já foi adaptado na primeira série animada. Tudo começa com uma boa sequencia de ação no futuro, que teoricamente se passaria nos nossos dias atuais, só que completamente diferente do nosso presente, sendo muito mais tecnológico e apocalíptico. Depois perde o ritmo com piadinhas manjadas e uma crise depressiva de Xavier-jovem que não convence muito até mesmo pela facilidade com que ele é convencido a ajudar o Xavier-velho. Há outros momentos já vistos antes, como novamente Magneto isolado em uma prisão de segurança máxima, ou Wolverine novamente sendo neutralizado por Magneto, a relação de amor e ódio entre Xavier e Magneto, e a sempre clássica dúvida entre tentar viver em harmonia com os humanos ou não. Não há uma cena de batalha realmente impressionante ou de tirar o fôlego como nos filmes anteriores, mas nas poucas que existem, como nas batalhas com os Sentinelas, podemos sentir aquele gostinho muito bom de vê-los trabalhando em equipe, o verdadeiro grande atrativo dos X-Men.

Os personagens mais conhecidos estão presentes, e claro que a história novamente vai se concentrar nos personagens mais populares e nos atores que possuem mais relevancia popular e comercial, como Wolverine (Hugh Jackman, reprisando o papel pela sétima vez), Mística (Jennifer Lawrence, atualmente a atriz mais bem paga do cinema) e Magneto (Michael Fassbender, o alemão de ouro de Hollywood). Alguns que fizeram apenas algumas pontas nos anteriores voltaram com alguma participação maior, como Colossus (que outra vez entra mudo e sai calado), Kitty Pride (Ellen Page novamente fazendo aquela sempre cara de que não está nenhum pouco a fim de fazer o filme) e Bob Drake/Homem Gelo (sempre querendo fazer mais, mas Singer sempre oferecendo de menos). Novos mutantes agora aparecem como Quicksilver (que nos quadrinhos é filho de Magneto), Sunspot (não confundi-lo com o Homem Tocha de Quarteto Fantástico), Blink e Bishop, esses três últimos apenas para incrementar as cenas de ação, já que não possuem qualquer relevância em toda a trama.

Essa mania de concentrar as histórias sempre nos personagens ou nos atores mais populares é, talvez, o grande defeito de todo o filme, porque X-Men não é Wolverine, e essa noção de "trabalho em equipe", que sempre foi um dos fundamentos principais de Xavier, se perde. Diferente de Os Vingadores (The Avengers, 2012), em que o Homem de Ferro se tornou o personagem mais popular por conta de sua franquia e mesmo assim o filme soube dar momentos especiais para todos os demais personagens. Mas isso nunca acontece de maneira satisfatória nesse filme.

Apesar de Singer tentar consertar algumas coisas e encaixar a história com os quadrinhos de uma forma que ele nunca havia feito, ele ainda insiste na mesma tecla de deturpar as histórias dos personagens e criar as suas próprias, como o fato de Bishop (que nos quadrinhos é o verdadeiro viajante do tempo) ser o personagem que menos tem a ver com tudo isso no filme, e agora Kitty Pride ter esse novo poder de transportar a consciência dos mutantes para o passado, quando isso deveria ser uma missão de Xavier, Jean Grey, Emma Frost ou até mesmo uma simples máquina no tempo, como aquelas criadas pelo personagem Forge nos quadrinhos. Essas são, talvez, as maiores heresias cometida por ele, e imperdoáveis no ponto de vista de quem conhece a função de cada um nessa história. Essas gafes colossais realmente deixam os fãs um tanto decepcionados, mas para aqueles que pouco conhecem a fundo a história dos mutantes, nada disso é percebido, nem mesmo serão percebidos os erros de continuidade e questões chaves que não deveriam ter sido ignoradas, como o website SCREENRANT publicou.

Na parte do design de produção e figurino, é notável a queda de qualidade do filme anterior para esse. Se em Primeira Classe a década de 60 foi reproduzida com uma qualidade de encher os olhos e, inclusive, elogiada pela crítica em sua maioria, neste filme a década de 70 nem se parece com ela, principalmente depois do deleite visual de Trapaça (American Hustle, 2013). No filme há até um notebook com tela LCD. Além desse ato falho e absurdamente anacrônico, é engraçado observar a atuação dos figurantes, que de tão mal dirigidos ou dirigidos com pressa, fica evitente a mecânica e a coreografia de organização. Enfim, erros pequenos para quem enxerga pouco, mas bem graves para uma produção de US$200 milhões.

Como um todo, não há como negar que Singer conseguiu, a duras penas, aprender que com os X-Men não se brinca e sair pela tangente de maneira fina. A Marvel estava muito preocupada com o que fazer sobre a terceira franquia mais lucrativa da empresa e um dos principais ícones de sua marca. A sequencia final, por si só, define a razão do filme existir e já vale a pena todos os seus 131 minutos, como também é um final nostálgico, trágico e emocionante, que conseguiu transportar pra tela muito desse misto de angústia e esperança que os quadrinhos e a primeira série animada conseguiram fazer, além de, inclusive, dar gás para novos filmes no futuro (uma nova sequencia já foi anunciada para 2016).

Sorte teve Singer em conseguir encontrar linhas comuns entre todos os individuais filmes e, ironicamente, tal qual como o filme, seus erros do passado justificam os resultados desse novo episódio.

CONCLUSÃO...
Novamente é Singer fazendo tudo da sua forma, mas sua habilidade de conseguir lidar com diversos personagens e tramas paralelas fazem desse filme um grande divisor nesta pentalogia. Claro que vai agradar mais os fãs dos filmes do que dos quadrinhos, mas nem por isso vai deixar de emocionar os mais exigentes ao ver seus heróis preferidos personificados na tela, mas também vai despertar o ódio por muitos erros de continuação existirem e questões fundamentais da trilogia original terem sido ignoradas.

domingo, 18 de maio de 2014

O EXTRAORDINÁRIO MUNDO DE JEUNET...

★★★★★★★★★☆
Título: Uma Viagem Extraordinária (The Young And Prodigious T.S. Spivet)
Ano: 2013
Gênero: Aventura, Fantasia
Classificação: 10 anos
Direção: Jean-Pierre Jeunet
Elenco: Kyle Catlett, Helena Bonham Carter, Callum Keith Rennie, Niamh Wilson, Judy Davis, Dominique Pinon
País: França, Canadá
Duração: 105 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre T.S. Spivet, que resolve fazer uma viagem do oeste para o leste dos Estados Unidos para receber um prêmio científico. O que eles não sabiam é que a pessoa a receber o prêmio tem 10 anos de idade.

O QUE TENHO A DIZER...
T.S. Spivet é dirigido pelo magnífico diretor francês Jean-Pierre Jeunet, do qual sou suspeito para escrever, já que sou grande fã. Felizmente tive oportunidade de assistir todos seus filmes e, consequentemente, acompanhar essa brilhante carreira de poucas obras, mas relevantes e de uma riqueza narrativa e visual raros no cinema atual.

Claro que pouca gente conhece Jeunet se você perguntar pelo seu nome, mas todo mundo vai dizer que sabe quem é quando você disser que ele é o diretor de O Fabuloso Destino de Amelie Poulain (Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain, 2001), seu primeiro filme mais famoso e mundialmente conhecido. Ao mesmo tempo, provavelmente, ninguém vai conhecer nada mais além disso, o que é uma grande... grande pena. Por isso, vale mesmo fazer uma breve apresentação do diretor antes de falar do filme, até porque todo novo filme de Jeunet merece um grande comentário.

Jeunet começou a carreira com longas em parceria com seu amigo, Marc Caro. O primeiro filme, Delicatessen (1999), chamou atenção pela sua atmosfera pós-apocalíptica bizarra, mas ao mesmo tempo leve e curiosa pela narrativa diferenciada, o humor pra lá de obscuro e principalmente pela facilidade que o diretor tem em criar empatias entre o público, suas histórias e seus personagens, mesmo quando estes são estranhos, esquisitos, com atores feios ou de uma beleza exótica que fuja completamente de qualquer conveniência. Esta parceria com Marc Caro foi se repetir com o segundo filme, Ladrão de Sonhos (La Cité Des Enfants Perdus, 1995), talvez um dos filmes mais visualmente deslumbrantes do diretor, mais colorido que Delicatessen, um pouco menos sombrio, mas muito mais fantasioso e emocionante. O sucesso do filme rendeu um jogo de video game igualmente belo e fiel à história do filme.

Dois anos depois a parceria entre Jeunet e Caro ficou abalada quando Jeunet aceitou dirigir Alien - A Ressurreição (Alien: Ressurection, 1997) e Caro não viu interesse algum na produção, embora ele tenha auxiliado o amigo por diversas vezes. Mesmo assim o filme não apenas é considerado o pior da franquia como é praticamente um arrependimento do próprio diretor, que sofreu duras críticas pela sua sólida base de fãs. Houve intensas dificuldades na produção, o estúdio mandava e desmandava, fazia e desfazia mil coisas enquanto, ao mesmo tempo, havia um intenso problema de comunicação entre o diretor (que não fala inglês) com o roteiro, os atores e toda a equipe. Tanto foi assim que, propositalmente ou não, ele ficou aproximadamente quatro anos longe das câmeras. Foi quando ele finalmente pegou o mundo de surpresa com Amelie Poulain e a volta de todo seu fabuloso mundo surreal, fantasioso, mas agora mais doce, em um tom mais alegre e cômico que anteriormente, talvez por novamente haver a falta do peso das mãos de Marc Caro.

Como dito, Amelie foi seu filme de maior sucesso, e depois dele Jeunet encontrou em Audrey Tautou sua musa, e a parceria com a atriz se repetiu com o belíssimo e delicado Eterno Amor (Un Long Dimanche de Fiançailles, 2004), seu segundo filme mais famoso e conhecido. Novamente Jeunet recebeu críticas de sua base de fãs, dizendo que ele agora havia se rendido ao cinema comercial por repetir a mesma fórmula de Amelie.

Jeunet sumiu do cinema novamente, mas dessa vez porque ficou preso na produção de As Aventuras De Pi (Life Of Pi, 2012) por dois anos. Segundo o diretor, o filme já estava pronto: o roteiro já havia sido escrito, as locações de filmagem já haviam sido pesquisadas e inclusive o storyboard já havia sido feito. Mas pelos constantes adiamentos do estúdio, Jeunet se demitiu da produção e escreveu a história de Micmacs - Um Plano Complicado (Micmacs à Tire-Larigot), que foi lançado apenas em 2009. O filme não passou nem perto do mesmo sucesso e reconhecimento dos dois anteriores, o que é triste, já que é igualmente fantástico em todos os sentidos em um filme onde todos os personagens foram baseados em personagens de desenhos animados, o que acentuou mais ainda a marca do diretor. Nesse meio tempo, em 2008, Elizabeth Ezra lançou suas análises sobre o diretor contemporâneo para a coleção Contemporary Film Directors, contendo comentários dele mesmo sobre suas obras e inspirações.

Um novo hiato de quatro anos aconteceu até T.S. Spivet chamar sua atenção. O filme é baseado no livro The Selected Works Of T.S. Spivet (2008), do norteamericano Reif Larsen. É o segundo filme em lingua inglesa do diretor, só que ao contrário do que aconteceu em Alien, vemos aqui que não houve problemas de comunicação, nem de roteiro (que foi escrito por ele mesmo em parceria com Guillaume Laurant), e o resultado é um filme redondo, com começo, meio e fim, que segue sem tropeços ou buracos.

O filme conta a história de Tecumseh Sparrow Spivet, um garoto prodígio de dez anos de idade (no livro ele tem doze anos) que mora em uma isolada fazenda no extremo Oeste dos Estados Unidos, que vê em tudo uma oportunidade de estudar as razões físicas de existirem no seu sentido mais científico. Aos quatro anos de idade, ele criou seu primeiro experimento, e aos dez ele conseguiu montar a roda perpétua, um gerador de energia que tem autonomia para funcionar por 400 anos sem consumir qualquer outra energia, que seria responsável por mudar toda a ciência. Por conta disso ele é chamado para receber um importante prêmio da instituição científica Smithsonian, no leste dos Estados Unidos, que daria o direito ao vencedor a um grande discurso em Washington. Dentro de uma precoce crise existencial por conta da perda de seu irmão gêmeo e demais conflitos familiares que ele julga serem por sua culpa, o personagem resolve fugir sozinho, pegando um trem que cortará todo o hemisfério norteamericano para chegar a seu destino.

Assim como todos seus filmes anteriores (com excessão de Alien), T.S. Spivet possui uma linguagem visual forte e que abusa no uso das cores primárias e de designs assimétricos ou de incomum simetria, já que os elementos do cenário e objetos de interação entre o personagem e o meio são mais do que um mero design de produção, mas partes vivas da narrativa, da visão ingênua e da imaginação infantil e particular que Spivet tem sobre o mundo. A angulação das câmeras em planos superiores e inferiores para intensificar a fragilidade ou a hostilidade dos personagens, além da excentricidade de cada um deles também é uma das marcas registradas do diretor, como caricaturas que saem de desenhos animados, que possuem uma simpatia e humor inerentes, responsáveis pela empatia instantânea com o espectador. Há também a forma narrativa em surpreender ou causar um leve suspense apenas omitindo informações chaves, e por isso nunca sabemos (até momentos antes do fim), a verdadeira razão de Spivet se sentir responsável por tantas coisas, ou nunca sabermos quais personagens se tornarão amigos ou vilões em sua trajetória, como no momento em que ele pega carona com o esquisito caminhoneiro, um momento genuíno de Jeunet de nos mostrar como podemos subjulgar alguém apenas pelas suas aparências ou atitudes. Há também referências sobre seus filmes anteriores o tempo todo, como a jornada do personagem principal pela busca ou compreensão de algo, a referência sobre ausências familiares, ou até mesmo sobre a vilania de alguns, como a caricatura da personagem G.H. Jibsen (Judy Davis), que se assemelha muito às irmãs malévolas de Ladrão de Sonhos, vividas pelas atrizes Odile Mallet e Geneviève Brunet, mas aqui de uma forma muito mais cômica e leve. Enfim, é um típico filme de Jean-Pierre Jeunet, que mesmo com todos os mesmos traços de seus filmes anteriores, não deixa de ser deslumbrante e um prazer indescritível, além de também ser emotivo na sua forma simples e ingênua de lidar com os conflitos dos personagens, numa delicadeza rara de se ver no cinema.

Tem sido comparado a A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011), de Martin Scorcese, por também contar em 3D a jornada de um personagem infantil. Mas a comparação, acima de tudo, é por sofrer da mesma crise de identidade em não saber para qual público ele foi feito ou a qual público ele deve ser direcionado. Diferente de Hugo, que pretendeu recontar a história do cinema francês e ter deixado tanto crianças e adultos mais deslumbrados com as imagens e bastante cansados pela longa duração (126 min.), em Spivet esse problema não acontece, pois Jeunet não se utiliza de uma história muito complexa para criar a bela narrativa contada sem cansaços. Os adultos compreenderão e sentirão melhor as nuances dramáticas, enquanto o público infantil ficará deslumbrado com as peripécias do garoto e todo o visual do mundo particular de Spivet. Independente de algumas similaridades com Hugo, é importante saber que o filme de Scorcese foi uma homenagem ao cinema francês, e uma das referências do diretor americano, além de George Meliés por sua excelência, foi Jean-Pierre Jeunet, que sempre foi fiel ao legado de Meliés.

Não há como negar que a maneira adulta como Jeunet conta uma história por um ponto de vista infantil ou ingênuo é marcante e consegue atingir os diferentes públicos sem dificuldade. Reif Larsen, autor do livro, afirmou em uma entrevista que a inspiração de escrever a história veio sobre sua curiosidade sobre o estereótipo do cawboy do Oeste norteamericano, e porque essa imagem é tão forte até os dias de hoje, além de ter se transformado em uma referência mundial do caráter durão, irredutível e pouco adaptável. Durante as pesquisas sobre o Oeste, o escritor acreditou ser interessante mostrar uma história por um ponto de vista infantil, onde a criança fosse completamente diferente das heranças culturais daquela região, mas que ao mesmo tempo mantivesse em suas raízes características que o fizesse sobreviver grandes dificuldades mesmo sendo tão pequeno, o que no fim faria da sua determinação um caráter e aquilo que o caracterizaria definitivamente um "cowboy", mesmo não estando de chapéu e espora sobre um cavalo. O livro recebeu críticas positivas, e sua maior atenção foi voltada ao layout repleto de gravuras e ilustrações que complementam a narrativa. Por isso não é de se espantar que a obra tenha chamado a atenção do diretor, já que também é sua característica utilizar jogo de imagens para ilustrar de forma mais didática e dinâmica a história contada.

Todo o elenco é americano ou britânico, com excessão do conterrâneo Dominique Pinon, amigo pessoal e que já é regra marcar presença em todos os filmes do diretor. É também a estréia do ator mirim Kyle Catlett no cinema (ele será o protagonista da refilmagem de Poltergeist em 2015) e só deixa a desejar em alguns poucos momentos dramáticos, mas que em nada atrapalha o desenvolvimento, e chega mesmo a surpreender em vários outros. As únicas engasgadas de Jeunet talvez tenha sido colocar alguns flashbacks em lugares indevidos, ou de não ter sido mais firme em momentos dramáticos solo do garoto. A conclusão um tanto rápida talvez quebre um pouco toda a maravilhosa experiência, mas a satisfação como um todo, no fim das contas, não sai prejudicada.

Toda essa imaginação do diretor foi transposta para a tela pela primeira vez com câmeras digitais 3D. Assim como Scorcese fez em Hugo, Jeunet também teve o cuidado e a delicadeza de montar cena a cena de todo o filme dentro da melhor qualidade para que o 3D pudesse oferecer toda a experiência possível de dimensões espaciais e profundidade. E assim Jeunet nos imerge em seus filmes, em um mundo fantasioso e belíssimo, que vaga entre o cinema clássico e o moderno sem fugir das raízes do cinema francês, nos dando oportunidade para sonhar novamente, como imaginava George Meliés.

Embora seja um filme de um diretor francês, ele é americano, para um público americano, mas por um ponto de vista francês, talvez um agradecimento de Jeunet à homenagem que Scorcese fez aos franceses com Hugo. Mesmo assim ele ainda não foi lançado nos Estados Unidos. A Weinstein Company pretende lança-lo no fim do ano, boa época para promover filmes mais artísticos e sérios para serem considerados na temporada de premiações, o que é merecido a Jeunet.

CONCLUSÃO...
Novamente é Jeunet trazendo para as américas seu maravilhoso método fantástico francês de fazer cinema e nos imergir em imagens deslumbrantes e personagens carismáticos. Como uma maravilhosa sobremesa para os olhos, T.S. Spivet pode não ser seu melhor filme, mas ainda está longe de ser ruim, além de ser visualmente grandioso em cores, texturas e nuances dramáticas em igual medida.

terça-feira, 6 de maio de 2014

OS 26 MELHORES FILMES DE 2013 (ATÉ AGORA)...

Aqui vai a lista daqueles que considero os melhores de 2013 dentre os que consegui assistir e/ou ler a respeito. Tem muito, mas não tanto quanto teve em 2012. Volto a ressaltar que é uma lista um tanto pessoal, não há uma ordem específica e a numeração é só pra facilitar o serviço. Muitos ficaram de lado ou porque ainda não assisti e pouco li a respeito, ou porque desconheço, mas no geral foi um ano em que senti que os filmes fora de circuito comercial sofreram bastante para se promoverem e criarem vida própria pela rede, como geralmente acontece. Um ano cheio de bobagens boas, por sinal.

01. PHILOMENA
Stephen Frears conseguiu pegar a dura história real de Philomena Lee e dar leveza a ela, além de também tratar de um tema difícil sem tomar partidos. Mas o material que ele oferece é suficiente para o próprio espectador tirar suas próprias conclusões sobre temas como religião, a força do perdão e a fé, além da grandiosidade da alma desta mulher, muito bem representada por Judi Dench que foge de personas mais sérias e britânicas e apresenta uma senhora doce, ingênua e carismática. Tudo isso faz de Philomena um dos melhores e mais memoráveis de 2013.

02. 12 ANOS DE ESCRAVIDÃO
Depois de Django Livre (Django Unchained, 2012), era necessário que o cinema de Hollywood falasse novamente do mesmo tema, mas dessa vez sem a fantasia e a ironia particular de Tarantino. O resultado disso foi a adaptação de Steve McQueen de uma obra verídica escrita no século XIX por Solomon Northup, o protagonista da história, e que perdeu-se com o tempo por razões desconhecidas. O resultado disso é um filme que, embora tenha uma carga dramática esperada e que explore o tema de maneira previsível, consegue retomar a discussão do tráfico humano, do trabalho escravo e exploratório que ainda existe e, por incrível que pareça, ainda são temas atuais. Além disso, a crueldade sofrida pelos protagonistas vividos pelos atores Chiwetel Ejiofor e Lupita Nyong'O é tão impactante que conseguimos sentir a dor e o cheiro do sofrimento e da crueldade do próprio homem com ele mesmo.

03. HER
Spike Jonze acertou em cheio no seu primeiro roteiro solo. Sua direção impecável, a fotografia fria e distante mostram a possibilidade e a probabilidade de um futuro próximo onde a individualidade e a ausência da relação e interação entre as pessoas será uma das maiores características da humanidade, ao ponto de acreditarmos em um sistema operacional criado e desenvolvido especialmente para suprir as necessidades de afeto e compreensão. Sem criticar as escolhas dos personagens, Jonze cria uma história de amor diferente, ingênua, idílica e, acima de tudo, convincente, pois o sentimento é real.

04. JOGOS VORAZES: EM CHAMAS
Nada mal para uma franquia baseada numa pobre trilogia de livros de Suzanne Collins. O primeiro filme conseguiu preencher a falta de narrativa e perspectiva dos livros, mas perdeu muito tempo em redundâncias e em efeitos especiais exagerados mais para chamar atenção do que incrementar a atmosfera do mundo distópico. Este segundo filme ainda tropeça em não se aprofundar nos esboços das problemáticas mais sociais e políticas mostradas. Mesmo dando mais atenção às cenas de ação e aos dramas da heroína Katniss Everdeen, tudo foi colocado corretamente, e no final das contas o desenvolvimento do filme agrada mais do que o esperado. Poderia ter sido um filme de ação muito mais relevante se o seu conteúdo mais maduro tivesse sido melhor explorado, mas já que o foco é o público jovem, até que o produto oferecido é muito acima da média.

05. MUD
Embora lançado em 2012, só foi chegar aos cinemas e chamar a atenção da crítica em 2013. Esta pequena pérola independente estrelada por Matthew McConaughey não apenas mostra mais uma vez que este ator tem talento nato para representar personagens broncos e sentimentalmente perturbados como também é uma belíssima e honesta história sobre duas perspectivas diferentes e que se interceptam sobre o amor. Temos o ponto de vista ingênuo de um jovem e o ponto de vista traiçoeiro de um adulto. Um tanto longo na narrativa, mas que consegue tratar do assunto sem ser piegas ou cliché.

06. ÁLBUM DE FAMÍLIA
Este filme pouco comentado e também interpretado por muitos por uma visão muito mais simplista do que o roteiro propõe é talvez um dos mais relevantes sobre relações familiares e sobre uma familília tipicamente norteamericana já produzidos em Hollywood, e olha que Hollywood não é um dos melhores lugares quando o assunto são relações familiares, não como é com o cinema Europeu ou Asiático. O roteiro assinado por Tracy Letts, baseado em sua própria peça teatral, embarca na análise estrutural e psicológica de uma família que há quatro gerações repetem os mesmos erros. O simbolismo que cada personagem carrega em si, dentro da sua função familiar e dessa reprodução de atos e erros, é de uma sutileza e de uma brutalidade dramática que só serão mais sentidos por aqueles que já conhecem e estão familiarizado com o estilo psicoanalítico de Letts. Para o público mais comum, o filme será mais um drama familiar com Meryl Streep, para aqueles que realmente se interessarem em compreender essa complexa (porém até verídica) construção familiar, irão encontrar material mais que suficiente para uma tese de mestrado.

07. CLUBE DE COMPRA DALLAS
Este clube que realmente existiu na década de 80 durante o surto pandêmico de HIV nos Estados Unidos foi comandado por um homem que, até então, pouco se conhecia, mas que de um mero canastrão explorador, se transformou em uma das poucas pessoas realmente interessadas na busca de um tratamento realmente efetivo contra a doença, sendo, talvez, um dos primeiros responsáveis por desenvolver um protocolo eficiente de tratamento e que aumentou a expectativa e a qualidade de vida de milhares de pessoas. Além disso, também há Matthew McConaughey mostrando porque sua consagração por este filme foi merecida, bem como a de Jared Letto, em um filme barato, que sofreu grandes problemas de produção e que foi filmado com apenas uma câmera, mas que nem é notado por conta da eficiente e fantástica edição e a sólida visão do produto final do diretor.

08. TRAPAÇA
Não há como negar que este filme tinha o intuito de impactar a crítica como fez e ser TÃO-TÃO o que é. A sua perfeição é tão encomendada que seu propósito é evidente. Apesar disso, a sua trama é tão bem elaborada e construída, e os personagens são tão bem interpretados e desenvolvidos que quando os créditos finais aparecem a satisfação de ter assistido algo tão bom, mesmo que comercial, vem à tona. Jennifer Lawrence pode roubar a cena com alguns exageros e pela superestimação resultante de sua intensa popularidade, mas quem desenvolve o melhor papel é Amy Adams, em uma personagem tão cheia de conflitos, angústias e desprazeres que há momentos em que é nítido que ela mesma parece não conseguir lidar com tantas camadas. Atuação brilhante, além de uma química entre todo o elenco que chega a ser deslumbrante.

09. BLUE JASMINE
Woody Allen e Cate Blanchett não poderiam fazer feio. O humor sarcástico de Allen e a caricatura comportamental de Blanchett dão o tom exato sobre algo que soa até como uma metáfora, e impossível não relacioná-la com a decadência da sociedade norteamericana, bem como novamente é um filme em que o diretor pisa com maestria entre a comédia e a tragédia no seu mais clássico significado.

10. STAR TREK: ALÉM DA ESCURIDÃO
Uma transformação total na franquia para conquistar novos fãs e ao mesmo tempo cheio de referências aos fiéis seguidores da sagrada e consagrada série. É J.J. Abrams mostrando mais uma vez porque se transformou em um dos maiores, mais populares e poderosos diretores e produtores do cinema comercial atual, o novo Spielberg, como dizem alguns. Um filme de ação moderno e que em nenhum momento deixa de lado suas raízes.

11. FRANCES HA
Também de 2012, mas que foi chegar aos cinemas em 2013, pode ser visto como uma versão mais pessoal, bem humorada e positivista de Greta Gerwig sobre uma personagem similar já interpretada anteriormente por ela no filme Lola Contra O Mundo (Lola Versus, 2012). A essência desse filme se difere de Lola por conta da constante força de vontade da personagem em superar as duras mudanças de uma vida que ela considerava simples e perfeita, mas que agora virou apenas um sonho no qual ela está determinada a reconquistar, custe o que custar. Motivador em sua completa simplicidade, carregado de diálogos memoráveis e uma trilha sonora grandiosa tanto quanto as vontades da personagem.

12. GRAVIDADE
Se for válido dizer que Kubrick finalmente deixou um legado relevante ao cinema, este é Gravidade. A jornada espacial de Cuarón não apenas impressiona visualmente como também é simbólica e uma metáfora ao renascimento. A interpretação visceral de Sandra Bullock impressiona, e o filme não teria a mesma carga dramática se tudo que é visto na tela com naturalidade não fossem frutos do intenso trabalho da atriz e do diretor juntamente com toda a pesquisa técnica desenvolvida em sua produção. Uma história simples e que pouco agrega, mas um dos maiores espetáculos visuais e sonoros da ficção científica nos últimos 10 ou 20 anos.

13. AS BEM ARMADAS
Sandra Bullock prova que, mesmo aos 45 anos, é uma atriz poderosa e de um profissionalismo ímpar ao dividir todas as cenas com Melissa McCarthy e em nenhum momento querer se sobrepor como é o esperado de grandes estrelas em filmes como esse. Um filme bobo por excelência, mas engraçado pela química perfeita das duas protagonistas e do tempo de comédia de ambas.

14. ANTES DA MEIA NOITE
Terceiro capítulo de uma maravilhosa história de amor que o diretor e roteirista Richard Linklater iniciou em 1995 com Antes do Amanhecer (Before Sunrise) e seguido por Antes do Por do Sol (Before Sunset, 2004). Com uma diferença de 9 anos entre um filme e outro, as histórias também possuem o mesmo intervalo de tempo. Enquanto nos dois primeiros capítulos tudo girou em torno de encontros e desencontros, expectativas e frustrações, desejos e anseios, eis que, finalmente, os protagonistas decidiram viver um para o outro, mas agora, adultos e sem mais grandes sonhos que a juventude propunha, encontram-se numa relação já acostumada e estagnada pela rotina. Agora as discussões relevantes são sobre a vida e o casamento e o que será depois dele. A interação entre os dois protagonistas (e atores) sempre foi o grande atrativo desta série que conseguiu mudar a linguagem das comédias românticas e transformá-las em algo muito além do final feliz. Os fãs poderão perceber uma brusca mudança de narrativa, mas que acompanha com coerência todo o desenvolvimento e amadurecimento de ambos nesta longa história de amor que já dura 18 anos.

15. GUERRA MUNDIAL Z
Talvez um dos filmes com as mais absurdas sequencias e com o maior número de buracos no roteiro de 2013, mas nem por isso deixa de ser um dos melhores filme de ação em seu mais puro significado. Tenso do início ao fim, não há um momento sequer que o espectador possa respirar aliviado sem ser surpreendido por mais uma horda de zumbis destruidores. Afinal, é essa a verdadeira intenção de filmes de ação e horror de sobrevivência. Ou você corre, ou você morre.

16. O QUE RICHARD FEZ?
Também de 2012, mas foi ancorar por esses lados no início de 2013. O filme irlandes é delicado na abordagem sobre o paradoxo entre aquilo que julgamos certo e as coisas erradas que fazemos. Nada mais a dizer, simples e puro assim.

17. SEGREDOS DE SANGUE
Confuso e por vezes até bizarro, consegue ser corajoso e audacioso por tentar fugir de fórmulas hollywoodianas. Não é um tipo de filme que agrada todo público, porque é denso e bastante psicológico, mas a atmosfera por vezes até hitchcockiana que o diretor Chan-Wook Park constrói em cenários limpos e atores que se movimentam de forma ensaiada frente a câmera, não apenas é belo como admirável. De tão bem ensaiadas parecem naturais em seus mínimos detalhes, e a história é uma tensa jornada sobre a progressão de uma sociopatia psicótica. Chega a ter um tema até similar ao de Precisamos Falar Sobre O Kevin (We Need To Talk About Kevin, 2011).

18. MEU NAMORADO É UM ZUMBI
É um grande e excelente besteirol de 2013, principalmente pelo diretor ter pego um tema que já está batido e resolver tirar sarro de tudo isso da melhor maneira possível ao vitimizar os zumbis tal qual foi feito com os alienígenas em Distrito 9 (District 9, 2009). Porém, a diferença é que aqui é uma comédia até pastelão no excelente estilo de Todo Mundo Quase Morto (Shaun Of The Dead, 2004), além do diretor pegar carona para satirizar de maneira indireta outras produções adolescentes e de gosto duvidoso.

19. O LOBO DE WALLSTREET
Ainda não assisti a quinta colaboração entre Scorcese e DiCaprio por pura preguiça mesmo, mas a impressão que tenho sobre as críticas lidas é que essa interminável parceria já apresenta sinais de cansaço, muito embora o filme tenha sido elogiado mundialmente. Ao mesmo tempo o filme também foi bastante criticado por seu conteúdo moral ambíguo, sexual, vulgar e o excesso de drogas. Tudo o que Scorcese sempre utilizou em menores ou maiores graus em seus filmes, o que se torna uma discussão um tanto redundante principalmente quando parte da crítica especializada, como se Scorcese fosse um novato qualquer que nunca fez isso, mas que agora resolveu chocar. DiCaprio recebeu elogios ímpares sobre sua atuação, mas o filme longo demais tem expressado o tédio a muitos. As notas recebidas pelo filme já demonstram por si só que ele naturalmente já figura entre os melhroes.

20. TRUQUE DE MESTRE
Mais um grande besteirol que deu certo. A história do filme é um absurdo e é construída em cima do misticismo em torno da mágica e seus truques, mas se vamos ao cinema esperando fantasia, é claro que não poderíamos esperar seriedade em um tema como esse. O resultado de tudo é um filme que realmente abraça seu espectador, o faz esquecer dos absurdos e o leva por toda a fantasia sem questionar ou querer entender nada. O final não é muito surpreendente, mas há momentos memoráveis e até empolgantes.

21. O ESPETACULAR AGORA
Este filme de personagens adolescentes chega a não ter nada de adolescente. O tema é bastante maduro e abordado por um ponto de vista que não lembro ter visto no cinema tão recentemente. A complexidade do personagem principal e as várias camadas que o compõe vão se revelando aos poucos durante o filme, e de um rapaz antipático e inconsequente, ele se transforma em alguém incompreendido, confuso sobre ele mesmo e sobre as coisas que acontecem a sua volta. O desenvolvimento e a progressão de autoconhecimento que surge conforme o personagem se autodestrói é brilhante, e um dos personagens mais complexos e interessantes a serem adaptados em 2013. Como já disse, pode ser que o personagem no livro não seja tão complexo, mas a densidade e profundidade que os roteiristas deram a ele o fazem ser.

22. GLORIA
Embora seja um filme chileno e pequeno, Gloria é uma mulher de meia idade independente e que gosta de curtir os bons prazeres da vida sem dar a mínima para o que os outros possam pensar sobre ela e de suas atitudes. A personagem também não faz a mínima questão de criar uma empatia com seu espectador, mas independente disso, sua história já é motivante por si só e o espírito livre e desbravador de Gloria chega a ser contagiante e uma grande lição de vida principalmente às mulheres que acreditam que não há mais tempo para qualquer outra coisa.

23. UMA VIAGEM EXTRAORDINÁRIA
Não há como errar com Jean Pierre Jeunet em seu primeiro filme em inglês desde Alien: A Ressurreição (Alien: Ressurection, 1997). Sua essência está toda na tela ao contar a história de uma criança prodígio que parte em uma peregrinação para receber um grande prêmio por sua incrível contribuição à ciência. A forma lúdica como Jeunet costuma incrementar suas histórias com o excesso de cores, personagens esquisitos e carismáticos, e sua incrível mistura do cinema clássico com o moderno, impressionam sempre e fazem de seus filmes um grande prazer de serem assistidos, como comer uma maravilhosa sobremesa depois de um requintado jantar. Jeunet sempre manteve o estilo fantástico francês em seus filmes, seguindo o legado de George Meliés em sempre fazer de suas histórias uma oportunidade para sonhar novamente. Lindo!

24. NEBRASKA
Ainda não assisti a este novo road movie de Alexander Payne, mas foi um daqueles que tomaram a temporada de premiações de surpresa, o que acontece todo ano com algum título. O filme concorreu a 6 Oscars (embora tenha levado nenhum), foi parte da seleção de Cannes e levou a Palma de Ouro de Melhor Ator. A crítica especializada é praticamente unânime na positiva responsividade que o filme teve, informado como o retorno de Payne a uma linguagem mais pessoal e natural, sem contar que a atuação de Bruce Dern é, como dito por muitos, singular e fantástica.

25. O HOBBIT: A DESOLAÇÃO DE SMAUG
Tudo bem que a opinião sobre isso é quase unânime, de que Peter Jackson tenta, a todo custo, fazer um novo O Senhor dos Anéis em cima de um conto praticamente infantil e curto. O primeiro filme agradou os fãs, e o segundo, embora muito longo (como sempre), agradou mais, principalmente por haver uma maior conexão entre os personagens e o espectador. Admirável por Jackson fazer tanto com tão muito-pouco, só mesmo um grande fã de Tolkien pra fazer o que ele fez.

26. FROZEN
Ainda não assisti a essa animação que tenta ser um resgate da Disney aos velhos tempos, mesmo que ainda presa no 3D, e não na forma clássica e bonita, esquecida e perdida no tempo, que muita gente sente falta e ela ainda não percebeu. Mas se o filme arrecadou mais de US$1 bilhão no mundo, sendo a 4ª animação que mais arrecadou e o 6º filme mais assistido na história, significa que agradou muita criança por aí, mesmo tendo música chata para os adultos (como é a maioria das queixas que li por aí).

quarta-feira, 16 de abril de 2014

GLORIA CONTRA O MUNDO...

★★★★★★★★
Título: Gloria
Ano: 2013
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Sebastian Lelio
Elenco: Paulina Garcia, Sergio Hernandez
País: Chile, Espanha
Duração: 110 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre uma mulher idependente e solitária de meia idade e as dificuldades vividas com os relacionamentos e a vida na sua idade.

O QUE TENHO A DIZER...
Gloria é um filme chileno dirigido por Sebastian Lelio, o roteiro também é de sua autoria em parceria com Gonzalo Maza. Foi muito bem recebido pela crítica, vencendo alguns dos principais prêmios que inclui o Urso de Ouro em Berlim para a atriz Paulina Garcia, que interpreta a personagem principal. Também foi indicado a Melhor Filme Estrangeiro no Independent Spirit Awards e venceu esta mesma categoria no National Board Of Review, além de também ter sido o filme escolhido para representar o Chile no Oscar 2014, porém não foi indicado. Uma pena, pois é um filme bastante incomum na forma como mostra a realidade de uma mulher moderna e idependente na meia idade.

A história começa com Gloria, uma mulher de 58 anos, no meio de uma festa frequentada por pessoas de aproximadamente sua idade. Ela é desquitada, com dois filhos já adultos, mora sozinha, trabalha em uma empresa e tem uma vida independente, na qual ela gosta de passar seu tempo sozinha em festas para solteiros e bares para, certamente, tentar preencher o vazio da solidão natural oferecida pelos anos que avançam, mas essas noites boemias frequentemente a levam a repetidos desapontamentos e a constancia desse vazio que parece nunca ser preenchido. Tudo parece mudar quando conhece Rodolfo em uma das festas, um ex-fuzileiro naval, por quem ela se apaixona e tenta construir uma relação que é constantemente interrompida pela ex-mulher e suas duas filhas.

A verdade desse filme é que ele realmente é um ponto de vista verdadeiro e muito relevante sobre um tipo de personagem que é constantemente negligenciado por Hollywood, e só somos capazes de encontrar em filmes fora de circuito comercial, os chamados art house. Seu conteúdo bastante simbólico e não convencional faz parte desse nicho e é apreciado por aqueles que gostam de fugir de histórias comuns e fórmulas prontas de se fazer cinema. Claro que não há nada de muito diferente e excepcional, mas a honestidade com que a personagem e seus atuais desafios são mostrados chega a despi-la por completo frente ao espectador. Não é à toa que as cenas de sexo ou nudez da personagem existem sem nenhum pudor, pois essa independência e sentimento de liberdade sentido por ela é tão grande que não há mais espaço para vergonha ou recato, em um sentimento de quem não tem absolutamente nada a provar para ninguém.

A melancolia que ela carrega em si é compreensível quando a mesma busca de forma até incansável a companhia, independente de quem seja, para dançar, para lhe acompanhar em uma bebida, ou simplesmente para o sexo e a satisfação de seu prazer. Uma vida na qual seus principais objetivos já foram cumpridos, como criar seus dois filhos e soltá-los para o mundo e para a independência, seguida da separação de um marido ausente que provavelmente era mais um peso morto do que um parceiro, e agora, depois de tudo, o tempo existe finalmente para ela. Não vemos arrependimentos em Gloria, apenas a nostalgia pela liberdade da juventude que teve de ser abandonada por outras prioridades e que agora ela tenta compensar o tempo perdido. E como ela compensa!

Quando Rodolfo aparece em sua vida, há uma centelha de esperança de que alguém ainda foi feito para ela, pois ele leva uma vida de diversões e anseios similares, porém não possui a mesma liberdade e coragem, mantendo-o preso a correntes familiares que ele não consegue se libertar. Essa felicidade cai por terra quando Gloria percebe que, por mais que tente, este novo relacionamento sempre ficará estagnado, e Rodolfo nunca a aceitará como ela realmente quer, ao ponto dele sempre omitir às outras pessoas com quem ele está, principalmente à sua família, colocando-a e fazendo-a se sentir em uma situação semelhante a de uma amante, uma mulher oculta destinada a apenas satisfazer as vontades e os prazeres de alguém incapaz de encarar a realidade. E é assim que ele se demonstra, um homem covarde e impotente frente a vida.

A grandiosidade da personagem cresce no filme quando a necessidade da liberdade explode dentro dela em um grito até feminista, e por mais que seja uma decisão dura e difícil, ela sabe que não é obrigada a passar por isso. Nada mais emocionante que vê-la pronta para outra depois de dias de melancolia e depressão, seguidos da atitude tempestiva que ela tem na sequência em que está dentro do carro observando a casa de Rodolfo, um ritual necessário para continuar sua vida sem a necessidade de sofrer calada, tudo dentro uma metáfora de extrema relevância para enterrar de vez por todas uma situação que nada lhe agregaria. Duvido que ninguém ousou um dia imaginar-se fazendo o mesmo que ela, uma sequencia até engraçada dentro de seu surrealismo justificado que nem ela mesma consegue evitar posteriores gargalhadas. Gargalhadas libertadoras, por excelência.

O filme é dela e para ela, tanto que os demais personagens são secundários e pouco aprofundados, mas isso em nada atrapalha, já que Gloria não é uma personagem apaixonante ou sentimental e muito menos cativante, mas seu individualismo e independência são tão grandes que ela é inspiradora por ser assim, única e livre, sem vergonha alguma de ser o que é e fazer o que quiser. 

CONCLUSÃO...
Com uma abordagem até bem similar em algums momentos, o filme consegue até ser uma versão para a meia idade de Lola Contra O Mundo (Lola Versus, 2012), mas claro que de uma forma muito mais verdadeira e despida de qualquer vergonha. Gloria poderá não agradar muita gente, mas quem se interessar por ela e conseguir chegar ao final do filme ao menos irá compreender e concordar sobre a grandiosidade dessa personagem, um grande exemplo.

BEM VINDA MATURIDADE...

★★★★★★★★
Gênero: Drama, Romance, ComédiaTítulo: O Espetacular Agora (The Spectacular Now)
Ano: 2013
Classificação: 12 anos
Direção: James Ponsoldt
Elenco: Miles Teller, Shailene Woodley, Brie Larson, Kyle Chandler, Jennifer Jason Leigh
País: Estados Unidos
Duração: 95 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um rapaz de 18 anos que entra em choque com sua própria realidade quando conhece uma garota prestes a entrar em choque com várias realidades.

O QUE TENHO A DIZER...
O Espetacular Agora é o terceiro filme do diretor James Ponsoldt, com roteiro dos mesmos escritores de (500) Dias Com Ela (500 Days Of Summer, 2009) e é baseado no livro homônimo de Tim Tharp. Teve estréia no Festival de Sundance de 2013, o qual foi bem recebido e, em geral, recebeu comentários bastante positivos da crítica mundial.

Mas ao contrário da espetacular comédia romântica (500) Dias Com Ela, esta não é uma comédia, e muito menos romântica, muito embora tenha alguns esparsos momentos cômicos e românticos, sendo assim que o filme tem sido divulgado, quando na verdade é um drama romântico adolescente incomum, que surpreende por ter uma abordagem madura o suficiente para servir até como uma metáfora, ou mais precisamente, uma indireta aos mais velhos que o assistirem, pois consegue ser sério e adulto em sua mais pura essência, mesmo que atuado por jovens cujos conflitos giram em torno deles.

Sutter (Miles Teller) é um garoto aparentemente comum como qualquer outro de sua idade, ele não é muito atraente e muito menos faz parte do time de futebol do colégio, mas mesmo assim é um grande conquistador e mulherengo por ser inteligente, engraçado, extrovertido e bastante seguro de si, mas incapaz de levar qualquer coisa a sério como deveria. Sutter vive o agora, e o alimento de sua felicidade é consumir o prazer momentâneo a todo instante, o que o faz ser, com apenas 18 anos, um alcólatra. É em um desses momentos que, na tentativa de esquecer sua ex-namorada, ele é encontrado em coma alcólico no jardim da casa de Aimee (Shailene Woodley), uma garota simples que estuda no mesmo colégio, mas que ele nunca notou. Aimee é completamente diferente de Sutter, mas na intenção de conhecer uma nova garota para esquecer a anterior e usá-la para alimentar suas felicidades e prazeres, ele tenta conquistá-la. Entre vários encontros e longas conversas ele descobre que Aimee é mais do que simples e comum, é uma garota com um intenso potencial adormecido e reprimido por uma vida sem graça e uma mãe codependente, e por isso ele se sente tentado a libertá-la disso de alguma forma enquanto ela vê nele a descoberta de experiências que ela nunca teve e o primeiro passo para caminhar em um mundo de satisfações e desgostos que até o momento desconhecia.

O personagem acredita ser, por excelência, auto suficiente e um tanto arrogante na sua forma, com uma visão muito branda e superficial sobre as coisas e sobre ele mesmo. A princípio Sutter consegue ser bastante antipático e inconveniente, principalmente na primeira meia hora, mas toda essa superficialidade que ele demonstra esconde problemas muito mais sérios e que ele não consegue lidar, como a ausência paterna desde seus 8 anos de idade, o distanciamento de sua mãe e irmã mais velha, a cobrança de seus professores sobre seu baixo rendimento escolar, a impressão subestimada e maldosa que seus colegas tem sobre ele pelas costas, além do abandono de sua ex-namorada que, para ele, foi por ela simplesmente ter se apaixonado pelo chefe do time do colégio. Ele age como se não ligasse para nada disso porque, já que sua filosofia de vida é viver o momento e não pensar no futuro porque isso o assombra e demanda responsabilidades que ele não sabe se é capaz de cumprir, então qualquer responsabilidade que ele tenha é tratada com bastante descaso.

O filme desenvolve todas essas características do personagem às avessas, começa mostrando-o como um garoto chato e inconsequente, sendo tortuoso pensar em aturar esse comportamento arrogante por todo o filme ao ponto de não acreditarmos em suas atitudes, mesmo quando estas são as mais sinceras possíveis, pois apesar de tudo ele é honesto com as pessoas sobre suas vontades e sua forma de pensar. Mas aos poucos o roteiro quebra a casca em que ele vive, ou melhor, tira tijolo por tijolo da muralha que ele construiu à sua volta. E então todas suas camadas aparecem, e lentamente toda a confusão emocional e sentimental que ele vive se revelam, momento quando finalmente o espectador se sensibiliza, a empatia acontece, Sutter se transforma em um jovem incompreendido que a todo momento luta contra ele mesmo e  (ufa!) o filme finalmente toma sua forma.

Com certeza é um dos personagens mais complexos a ter sido adaptado no cinema norteamericano nos últimos anos, e de uma forma tão simbólica e relevante que é difícil definí-lo por inteiro, pois ele representa várias situações e fases da vida, sendo a própria adolescência uma pequena fração dela. Pode ser que no livro o personagem não seja tão complexo dessa forma, mas a construção dada nele pelos roteiristas é, e seu desenvolvimento na história ficou brilhante.

Ao contrário dele, Aimee é a verdadeira representação da pureza e ingenuidade prestes a serem corrompidas quando o choque com a realidade acontecer e todas as coisas que um dia pareciam tão belas, se tornarem sujas. Ela é a única personagem com uma atitude mais equivalente com sua idade, e muito embora sabemos desde o início que ela irá sofrer, também sabemos que este sofrimento é necessário para seu crescimento e fortalecimento psicológico e emocional típicos de quem passa por certas dificuldades pela primeira vez.

O roteiro até consegue nos pegar de surpresa quando, confrontado por sua mãe (Jennifer Jason Leigh), o personagem finalmente tem um insight de que o problema não são as coisas ou pessoas a sua volta, mas suas próprias atitudes sugestionadas pela descrença que ele tem por ele mesmo e seu precoce alcolismo que só piora conforme ele se confronta mais e mais com seus problemas. Essa cena dura e emocionante é uma das várias que acontecem, e que mostram por si só que o filme não é um passeio pelo parque, mas uma grande e difícil tarefa de encararmos as dificuldades e aceitar as responsabilidades.

A seriedade até poética com que o filme trata uma fase tão complicada da vida de descobertas, conflitos e desapontamentos se assemelha muito com As Vantagens de Ser Invisível (The Perks Of Being a Wallflower, 2012) no sentido de não subestimar nenhum público e muito menos exagerar em cliches na tentativa de criar uma identificação fácil com um tipo específico, mas enquanto este outro filme trata do tema com adolescentes vivendo suas felicidades e infortúnios típicos da idade e da busca pela maturidade dentro de uma linguagem bastante expressiva e relevante, neste filme essa referência de idade só existe para, talvez, intensificar todos os conflitos dramáticos tratados, que em realidade são universais, atemporais e sem classificação etária.

CONCLUSÃO...
Um drama romântico incomum, que mostra um personagem que sofre com as dificuldades de aceitar as responsabilidades por pontos de vistas tão sérios e conflitantes que, ao contrário do que se supõe, chega a não ser um filme agradável para aqueles que esperam um belo casal romântico no final, mas um filme que conquista aos poucos, e aos poucos revela que há um pouco de Sutter em todos nós.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

CINEMA TAMBÉM FAZ MÁGICA...

★★★★★★★
Título: Truque de Mestre (Now You See Me)
Ano: 2013
Gênero: Ação, Fantasia, Comédia
Classificação: Livre
Direção: Louis Leterrier
Elenco: Jesse Eisenberg, Mark Ruffalo, Woody Harrelson, Melanie Laurent, Isla Fisher, Dave Franco, Michael Cane, Morgan Freeman
País: Estados Unidos
Duração: 115 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Quatro mágicos são reunidos por um quinto elemento chamado de O Olho para cumprir uma missão de realizar o maior truque de mágica de suas vidas, a ser testemunhado por todo o mundo.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é diridigo pelo francês Louis Leterrier, o mesmo de filmes de ação como o inferior Carga Explosiva 2 (The Transporter 2, 2005), o precoce e fracassado remake de O Incrível Hulk (The Incredible Hulk, 2008) e o péssimo Fúria de Titãs (Clash Of The Titans, 2010), filmes que pecam na qualidade e no roteiro (com alguma excessão em Hulk), mas que de alguma forma fizeram algum sucesso nas bilheterias, o que garantiu ao diretor continuar sua carreira entre um tropeço e outro até conseguir finalmente acertar com esse filme que nada tinha para ser um grande sucesso.

Não possuia um título atrativo, os trailers eram mornos, e o enredo, que gira em torno do mundo da mágica, não é algo que faz muito a cabeça das pessoas no cinema porque a mágica é facilmente manipulada por truques cinematográficos. Embora possua um elenco de primeira, a maioria são de atores reconhecidos, mas de pouco sucessos, com excessão dos mais antigos como Woody Harrelson, Michael Cane e Morgan Freeman, que finalmente deixou de lado aquele tom de deboche irritante que vem feito nos últimos filmes e parece se divertir aqui. Ou seja, o que é que o filme teria de interessante? Não muito, mas o suficiente bem utilizado.

A história começa com uma breve apresentação de cada um dos quatro personagens principais: Daniel Atlas (Jesse Eisenberg), um mágico ilusionista arrogante; Henley Reeves (Isla Fisher), igualmente ilusionista, mas de apelo mais teatral e espetaculoso, ex-ajudante de Daniel no começo da carreira; Merrit (Woody Harrelson), um mágico hipnotista que se diz sensitivo, mas que na verdade é um excelente dedutor pelo apurado senso de observação; Jack Wilder (Dave Franco), um mágico ruim, mas um mestre punguista, além do dom de despistar facilmente qualquer pessoa que o estiver observando. Todos tem em comum o fato de serem incrivelmente talentosos, mas não terem o devido reconhecimento. Tudo muda quando um quinto personagem indeterminado, chamado de O Olho, os reunem. Em um salto de tempo, os personagens são mostrados como os Quatro Cavaleiros, astros da TV que comandam um programa de grande sucesso. O problema começa quando realizam ao vivo um assalto a um banco francês utilizando apenas a mágica, o que chama a atenção do FBI e da Interpol, pois o assalto é bem sucedido, o dinheiro é jogado às pessoas da platéia, mas os suspeitos não podem ser presos pois não há nenhuma prova contundente, o que faz os agentes Dylan (Mark Ruffalo) e Alma (Melanie Laurent, a eterna Shosanna) ficarem na cola dos Cavaleiros por todo o filme. Há uma tentativa de modernizar a intenção de Robin Hood, mas é só uma humilde referência, nada muito relevante quando toda a trama se conclui.

A história na verdade faz pouco sentido. Não há profundidade na vida de nenhum personagem e pouco ficamos sabendo do passado de cada um além do que é brevemente explicado ou solto aleatoriamente entre um diálogo e outro. Também não sabemos qual o verdadeiro motivo de tudo acontecer ou estar acontecendo. Todos os truques mostrados até tentam ser explicados dentro da sua ficção, mas nada feito para convencer, só para mistificar as ações dos personagens e ter algum sentido no contexto, já que filmes em si são ficções, então ao invés do roteiro perder tempo em convencer o espectador de que tudo tem uma explicação lógica (com excessão da abertura do filme, em que o truque com as cartas realizado é verdadeiro e não criado digitalmente), o mérito fica em realmente fazer de tudo um grandioso espetáculo, como é o esperado por quem vai ao cinema para assistir um filme com esse tema. E mesmo com tanta superficialidade, tudo funciona exatamente por ter essa levada despretenciosa de que aparentemente tudo daria errado. Isso acontece porque o diretor e o roteiro levam à risca a intenção de fazer com que o espectador nunca observe tudo tão de perto (como o personagem Daniel tanto faz questão de dizer) e essa distância que o diretor fluidamente mantém entre a história e o espectador é o que entretém porque, mesmo comercial, consegue, desde o início, realizar essa pequena mágica do cinema de fazer com que o espectador simplesmente esqueça dos absurdos e mergulhe de cabeça em toda a fantasia com naturalidade e sem perceber, deixando a preocupação e a atenção nos mínimos detalhes completamente de lado.

Embora as façanhas realizadas pelos personagens sejam algumas vezes até banais e algumas sequencias até um tanto desnecessárias, como a perseguição de carro, há outras muito bem elaboradas como o breve conflito entre o ladrão Jack e o detetive Dylan, e a forma como ele consegue escapar como um sabonete de toda a situação. Os personagens também são carismáticos, não havendo conflitos banais entre eles para construção de tramas paralelas desnecessárias. O jeitão canastrão de Woody Harrelson, que embora seja sua marca registrada e recorrente, consegue dar o tom cômico exato nas situações, roubando e engrandecendo as cenas, bem como Isla Fisher com seu sexy appeal comportado.

E dessa forma o filme entretém e segura o espectador em basicamente três atos que conseguem superar um ao outro sucessivamente dentro de um limite de nunca querer ser realista, mas também nunca exceder o limite do absurdo, e ao mesmo tempo nunca subestimar o espectador independente da idade, pois também consegue ser um filme leve e familiar.

Uma pena ele não ter sido tão lembrado ou comentado, mesmo tendo feito um grande e silencioso sucesso, arrecadando mais de US$234 milhões no mundo, o que garantiu ao diretor uma continuação, mas que não garante a mesma despretenção, qualidade e entretenimento que esse inesperadamente oferece com muito prazer.

CONCLUSÃO...
É um filme divertido, um dos poucos atuais que mesclam ação e fantasia sem deixar o espectador entediado ou preocupado com tanta idéia mirabolante e desnecessária. Claro que as pistas falsas para enganar o espectador existem, e para aqueles que já estão acostumados com reviravoltas finais, poderá não ficar muito convencido com o final, mas também em nenhum momento o filme tem pretensões de ser levado a sério. 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

APAIXONANTE E INSPIRADORA...

★★★★★★★★★☆
Título: Philomena
Ano: 2013
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Stephen Frears
Elenco: Judi Dench, Steve Coogan
País: Reino Unido, França, Estados Unidos
Duração: 98 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre uma mulher que, cinquenta anos depois, com a ajuda de um jornalista, resolve ir atrás de seu filho dado para adoção aos 3 anos de idade.

O QUE TENHO A DIZER...
Dirigido por Stephen Frears, aclamado diretor de títulos como Ligações Perigosas (Dangerous Liaisons, 1988), Os Imorais (The Grifters, 1990), Herói Por Acidente (Accidental Hero, 1992), A Rainha (The Queen, 2006) e outros títulos menos ou mais conhecidos, menos ou mais apreciados, com pouco ou grande sucesso.

Independente disso, o estilo do diretor em explorar figuras únicas, martirizadas ou marcadas por grandes situações da vida, ou até mesmo pela relação com tipos oportunistas sórdidos, cruéis e maldosos, bem como a forma como tudo isso é superado, está sempre nos seus filmes, sejam eles com cargas dramáticas mais acentuadas, ou atenuadas por uma leve ironia cômica. Este é o caso de Philomena, que embora conte um drama real e devastador, consegue ser construído de forma muitas vezes motivadora, nunca esquecendo do drama pessoal da personagem de fato, o que também aconteceu em seus filmes anteriores mais recentes como O Retorno de Tamara (Tamara Drewe, 2010) e Chéri (2009).

Curiosamente o filme é baseado na história real de Philomena Lee, uma irlandesa que, na década de 50 e aos 18 anos, engravidou acidentalmente por consequência daquilo que para ela foi apenas um beijo e uma demonstração de afeto, quando, na verdade, foi uma relação sexual casual que ela não se atentou por desconhecimento e inocência. Sem saber que filhos eram feitos assim, a barriga cresceu e, por recomendação do próprio médico da família, seu pai a mandou para a Abadia de Sean Ross, pois naquela época era um insulto e uma vergonha para a família e para os católicos romanos uma mulher solteira engravidar, já que provava um ato sexual consumado antes do casamento e a perda da pureza cristã. Por isso, mulheres como ela eram colocadas longe da sociedade, e assim Philomena foi enclausurada na Abadia juntamente com outras jovens na mesma situação, onde teve seu filho Anthony e sofreu com a severa educação das Freiras do Sagrado Coração de Jesus e Maria. Depois que seu filho nasceu, ela teve direito a visitá-lo uma vez ao dia por apenas uma hora, e quando ele completou três anos, as freiras o entregaram para adoção a uma família norte-americana sem o conhecimento ou consentimento da mãe. O "engraçado" é que Philomena aceitou todo este sofrimento por realmente acreditar que aquilo era uma penitência necessária para o perdão de seus pecados, por ter descoberto o prazer sexual e ter tido um filho, muito embora o prazer sexual ela categoricamente afirma ter sido a maior e melhor descoberta de sua vida. Posteriormente a isso e aproveitando de sua religiosidade, as freiras aterrorizaram Philomena de arder no fogo do inferno caso ela não assinasse um documento que renunciava seu filho e a proibia, para o resto da vida, de procurar seu paradeiro. Como a personagem diz no próprio filme, ela não foi coagida, ela assinou por vontade própria, pois era naquilo que acreditava. Quase dez anos depois, ela saiu da Abadia, casou e mais quarenta anos se passaram para finalmente quebrar o voto de silêncio e aceitar o fato de que nada daquilo foi pecado. Ela contou a verdade para sua filha, que se engajou em descobrir o paradeiro de seu irmão. Na vida real ela afirma que também contou ao seu marido anos antes de revelar a sua filha, mas o mesmo apenas disse que o que está no passado é do passado, e nunca mais comentou sobre isso.

Sua história é realmente impressionante, pois é uma daquelas situações que acreditamos ser parte apenas de um drama fictício exagerado. Obviamente que o filme não é verdadeiramente fiel a história real, como o fato de ter sido Jane, sua filha, quem descobriu o paradeiro de Anthony - que agora se chama Michael Hess - e não o jornalista Martin Sixmith, bem como algumas outras situações mostradas, como a sequência final, que também é apenas uma fictícia interpretação para que o conflito final e esperado da personagem possa ser consumado e o ciclo dramático completado, tal qual expressado por ela mesma em um dos diálogos com o jornalista antes do grand finale.

A importância de Sixmith na biografia é ter sido ele o grande responsável em traçar toda a trajetória de Michael desde sua adoção, e por ter levado a história a conhecimento público com o livro The Lost Child Of Philomena Lee, publicado em 2009, no qual o filme é baseado. Sixmith também afirmou que a forma como ele é interpretado no filme é parcialmente correta, sendo verdadeira a maneira como ele é intolerante com as injustiças, mas que ele não é uma pessoa tão raivosa e grosseira como o filme mostra.

Mas ao comparar o desenvolvimento do filme com a biografia de Philomena, que pode ser encontrada de forma suscinta ou extensa pela internet em diversas versões e websites, o roteiro realmente consegue abraçar todos os principais fatos vividos por ela e encaixá-los na história de maneira simbólica e verdadeira, mesmo que em situações fictícias. Ou seja, embora os roteiristas (que inclui o próprio ator principal) tenham feito algumas livres e anacrônicas interpretações para o bem do desenvolvimento da adaptação, a história de Philomena está na tela o tempo todo e em seus 98 minutos, seja em fatos ou na sua personalidade otimista e marcante.

Como em grande parte dos filmes de Frears, este segue linear e sem pressa, mas o grande diferencial é a pontualidade dos fatos e a forma objetiva com que ele trata o roteiro, utilizando alguns flash backs (sendo muitos deles verdadeiros) apenas para complementar o passado da personagem em um filme com uma duração satisfatória, que carrega o espectador de forma envolvente sem subestimá-lo e comover sem ser piegas ou tendencioso, numa trajetória contada numa narrativa delicada e honesta. Também não é uma comédia, como pressupõe-se pelo marketing, mas emocionante em sua mais pura forma, que realmente levará alguns às lágrimas mais pela pureza e grandiosidade da personagem em lidar com situações tão difíceis do que pela grande tragédia da personagem em si. É um dos melhores filmes do diretor em anos, e que também mantém a mesma situação de dúvida que em A Rainha, por também não ser tendencioso a uma determinada idéia. Neste filme anterior o diretor manteve uma certe imparcialidade de julgamento sobre a culpa ou não da família real na morte de Diana, da mesma forma essa imparcialidade é mantida neste filme em não julgar a igreja católica ou as decisões de seus seguidores. Ele mostra os dois lados da moeda, o lado de uma mulher fiel e o lado do homem ateu e científico, há o conflito de ambos a todo instante, mas é decisão do espectador em escolher o lado.

Mais impressionante ainda é ver Judy Dench oferecer uma das interpretações mais leves, carismáticas e emocionantes em uma carreira cheia de personagens tipicamente londrinos e sisudos. A personagem, que se alto denomina "uma caipira", não é dotada de tanta malícia e sarcasmo como o personagem de Martin Sixmith (Steve Coogan), mas sua pureza e ingenuidade natas conseguem dar outras dimensões a coisas comuns e banais, como no momento em que ela narra empolgadamente para Sixmith um livro de ficção romântica barata, mas que para ela é parte de uma magnífica fantasia inesperada e que se torna bela e incomum pela forma como ela a interpreta. Seu desconhecimento frente a outras coisas também não a transforma em alguém ignorante, mas em uma pessoa com maravilhosos e surpreendentes pontos de vista constantemente adquiridos pela observação e curiosidade pela vida, mesmo que limitados, mas simples, com um olhar até infantil e singelo. A inspiração oferecida pela personagem é vasta, como a sua total incapacidade de vingança, de cultivar a mágoa ou manifestar a raiva até mesmo por pessoas que foram responsáveis por grandes momentos de dor em sua vida. Essa filosofia tão nobre e particular demonstrada por ela é o verdadeiro conceito sobre a crença divina e a busca pela paz espiritual, transcendendo qualquer linha religiosa ou dogmas. Philomena poderia ser uma pessoa amargurada e rancorosa, mas acredita no poder do perdão não porque isso seja fácil ou porque é isso que ela espera das pessoas em troca, mas porque é isso que lhe dá forças para viver, pois como ela mesma diz, a raiva deve ser exaustante.

Não há como não se apaixonar ou se emocionar por uma personagem e uma mulher tão grandiosa como Philomena Lee. Inspiradora e motivadora, uma grande lição de vida, daquilo que chamamos de fé e perdão, mas que raramente sabemos qual o seu verdadeiro significado.

CONCLUSÃO...
Não há dúvidas de que este longa seja um dos grandes destaques e também um dos melhores títulos de 2013, justamente por conta da sua história e da interpretação de Judi Dench ao ponto de, na lista dos melhores, todos os outros demais títulos serem até ser bons, mas Philomena será o único a ficar na memória de quem assistir, e não por ser chocante, pois não é, mas por ser, dentro de toda sua tristeza e tragédia, uma belíssima e inspiradora história de perseverança, amor, perdão e fé.

terça-feira, 1 de abril de 2014

COMO UM ROMANCE AMERICANO...

★★★★★★★★
Título: Yossi
Ano: 2012
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Eytan Fox
Elenco: Ohad Knoller, Oz Zehavi
País: Israel
Duração: 84 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Dez anos se passaram desde quando Yossi perdeu seu grande amor, muita coisa mudou, mas outras se mantiveram as mesmas, como alguns traumas, dificuldades e decisões.

O QUE TENHO A DIZER...
Dirigido pelo mesmo diretor do primeiro filme, Eytan Fox, esta continuação se passa exatamente dez anos depois dos incidentes do primeiro filme. O personagem principal, vivido novamente por Ohad Knoller, abandonou o exército e agora é um cardiologista conceituado, mas que vive, respira e se alimenta de sua profissão, preso em uma frustração de nunca ter se libertado de um passado traumatizante traçado por decisões erradas e uma tragédia que o marcou emocional e psicologicamente por nunca ter tido a certeza de seu companheiro ter ouvido sua primeira e única declaração de amor enquanto morria em seus braços.

Esta continuação é bastante interessante porque além de se abster de todos os defeitos que haviam no primeiro filme, o roteiro se aprofunda em demasia nas dores e frustrações do personagem de forma tão crua que é impossível o espectador não sentir todas as sensações de impotência, angústia, complexos e traumas de uma vida interrompida e solitária tal qual se transformou a vida de Yossi.

Dez anos é um espaço de tempo muito grande na vida de uma pessoa, mas que passa rápido o bastante para que não seja notada as mudanças que ocorrem à sua volta, ou em como problemas que não foram superados se enraizam e se transformam em partes de nós mesmos, como um casco, ou tão fechado quanto a concha de uma ostra. Toda essa percepção no filme é muito nítida quando o ator principal aparece em cena pela primeira vez, carregado em marcas de expressão, fora de forma, ausente de qualquer humor ou sentimento além da frustração. É um choque, mas ao mesmo tempo um sentimento de total compreensão das razões e motivos dele ainda cultivar essas dores.

O mérito desta continuação foi ter usado toda a situação criada pelo primeiro filme e desenvolvê-la de forma verdadeira e emocional em uma densidade que o primeiro filme nunca alcança. Os momentos de introspecção e de solidão do personagem e até mesmo nas suas poucas tentativas de superar as dificuldades e sair do casulo que ele contruiu são tão íntimos e pessoais que chegam a parecer verídicos, como se ele fosse alguém que realmente conhecêssemos há dez anos.

A história vai exatamente contar o final dessa trajetória de dez anos de depressão e sofrimento do personagem, mas nem por isso vai evitar de mostrar situações duras e constrangedoras em diversos momentos de grande verossimilhança, como quando Yossi resolve encontrar uma pessoa que conheceu virtualmente. A situação parece exagerada e uma ficção, mas muito comum e verdadeira entre pessoas que já passaram por situaçõe semelhantes desde quando a internet passou a ser uma oportunidade para os solitários, independente das orientações sexuais.

A maturidade da produção é equivalente ao tempo entre um filme e outro. Se esta continuação tivesse sido realizada dois ou cinco anos depois, talvez ela não tivesse o mesmo impacto ou a mesma densidade e refinamento como a apresentada agora pelo diretor e pelo ator, que embora mantenha a mesma imagem sisuda do começo ao fim, já está experiente e domina a técnica o suficiente para conseguir trasmitir muito com o pouco em momentos sublimes, como quando ele está assistindo a um show e a dor da solidão e de todas as dores que ele sente transcendem com a música, ou na sequencia final e seu visível misto de desconforto e vergonha com o desejo e a vontade de libertação.

A continuação recebeu grandes críticas positivas, mesmo não tendo tido a mesma presença em festivais e premiações como o primeiro. Nem por isso deixa de ser um filme de um apelo emocional profundo para qualquer pessoa. Embora o tema seja sobre as dificuldades comuns vividas pelas diversidades sexuais, ele é, acima de tudo, um filme mais humano do que temático, no qual participamos da vida do personagem de forma tão sincera que torcemos por essa libertação e redenção, e esse momento acontece, mesmo que de forma cliché, mas coerente com toda a trajetória mostrada nas duas produções, necessário e merecido ao personagem, como em um romance americano, assim como Jagger imaginou para Yossi no primeiro filme.

CONCLUSÃO...
Uma excelente continuação que de tão refinada se transforma em um filme único, um drama humano verdadeiro e coerente com uma realidade que ignoramos, mas que está mais próxima de todos nós do que imaginamos.

TENTA SER UM ROMANCE AMERICANO...

★★★★★★
Título: Delicada Relação (Yossi & Jagger)
Ano: 2002
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Eytan Fox
Elenco: Ohad Knoller, Yehuda Levi, Ays Steinovitz, Hani Furstenberg
País: Israel
Duração: 65 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre dois soldados que trabalham na fronteira entre Israel e Líbano que mantém uma relação secreta motivada pela solidão e carência da rotina diária de guerra.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme israelense é dirigido por Eytan Fox, e não conta uma história excepcionalmente diferente sobre a relação amorosa de dois jovens, a não ser o fato de serem dois soldados israelenses que convivem diariamente com seus colegas na faixa de guerra na fronteira entre Israel e Líbano.

Essa dificuldade de aceitação e de diferença de ideais já foi explorada diversas vezes e por diferentes maneiras em filmes com temáticas sobre diversidades sexuais nos últimos 20 anos, principalmente em países Europeus. Mas este filme em particular abraça a ideologia e a cultura de um país que se destacou por ser o mais progressista do meio leste asiático (e também no mundo) ao legalizar e a considerar legalmente a união estável homossexual em 1988 (e ainda permanecer como o único país asiático a reconhecer isso), a proibir a discriminação em 1992, a legalmente aceitar adoção de crianças por casais homossexuais em 2008, além da preservação legal de homossexuais poderem servir ao exército livre e abertamente.

A história pega gancho nessas liberdades oferecidas, porém mostra a dificuldade do personagem principal, Yossi (Ohad Knoller), em lidar com essa situação, bem como também suas contradições pessoais quando Jagger (Yehuda Levi) o pressiona para que a relação de ambos seja mais definida para ele e para os outros, para que possam viver sem limitações em um ambiente já naturalmente limitante como é o campo de guerra.

Fora isso, a história mantém o que já é previsto, como a rotina militar, alguns sonhos e vontades de uma juventude abandonada para que a carreira militar possa ser seguida, a dúvida de alguns companheiros e a certeza de outros sobre a relação dos personagens principais e o amor platônico de uma das mulheres por Jagger.

Embora o filme seja de 2002, a relação dos personagens principais ainda é algo muito atual e corriqueiro na sociedade, o que faz com que muitas pessoas que já tiveram ou ainda tem relações similares possam se identificar com eles. A crítica sobre esta hipócrita atitude é clara, mesmo que cliché, quando é demonstrado que a vida é muito curta para que as pessoas vivam sob falsas aparências e indecisões.

Não é um filme melodramático ou que pese no tema para agradar um público homossexual, pelo contrário, é um filme simples e curto (até bastante), e que trata desses problemas sociais de forma muito clara e objetiva, sem rodeios, metáforas ou muita profundidade porque a situação vivida por todos já é clara por si só. Por vezes a produção barata, a inexperiência de atores e até mesmo a direção um tanto amadora do diretor fazem o filme ter enquadramentos e focos que é impossível não associar com as produções de filmes pornográficos, tanto que a princípio achei que, talvez, a experiência do diretor pudesse ter saído dessas produções, o que não é verdade segundo seu currículo, mas infelizmente essa sensação pode ser sentida pelos mais atentos.

Independente de qualquer defeito, a baixa produção até consegue realizar um filme sensível e verdadeiro que tenta criar um romance americano, como diz um dos personagens, mas que não consegue porque a história não vive na mesma ilusão. E é esse seu destaque, tanto que a produção ganhou vários prêmios e foi um dos grandes destaques do Festival de Tribeca de 2003.

CONCLUSÃO...
Uma baixa produção que é sensível e realista, que mostra os problemas ainda enfrentados por casais homossexuais na sociedade de forma verdadeira e objetiva, sem mais ou menos.

domingo, 23 de março de 2014

PEDAÇOS QUE FALTAM...

★★★★★★★★
Título: Ferrugem e Osso (Rust And Bone)
Ano: 2012
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Jacques Audiard
Elenco: Matthias Schoenaerts, Marion Cotillard, Céline Sallette
País: França, Bélgica
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um ex-lutador de box desempregado que de forma inesperada conhece uma treinadora de baleias, com a qual desenvolve uma relação de confiança, porém de uma estranha e confusa dependência.

O QUE TENHO A DIZER...
Dirigido pelo francês Jacques Audiard, o qual já foi bastante premiado por dois filmes anteriores: De Tanto Bater Meu Coração Parou (De Battre Mon Coeru Sést Arrêté, 2005) e O Profeta (Un Prophète, 2009), o qual também concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010. Com este filme o reconhecimento não foi diferente, chegando a competir pela Palma de Ouro no Festival de Cannes, além de ter sido indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e a Melhor Atriz para Marion Coutillard, e foi por pouco que a atriz também não concorreu ao Oscar em 2013, ficando de fora das finalistas por, talvez, a outra francesa Emmanuelle Riva ter sido indicada.

A história do filme gira em torno do ex-lutador de box, Ali (Matthias Schoenaerts), que agora está desempregado e que migra para Antibes, no sul da França, junto com seu filho de 5 anos, com o qual pouco teve contato até decidir assumir a paternidade já que aparentemente a criança era explorada como mula para tráfico de drogas. Sem dinheiro para nada, Ali vai morar de favor na casa de usa irmã Anna (Céline Sallette), e passa a trabalhar provisoriamente como segurança de uma casa noturna, onde conhece a treinadora de baleias assassinas, Stéphanie (Marion Cotillard), ao apartar uma briga entre ela e outra pessoa. De segurança do clube ele passa a realizar trabalhos ilegais, pois pagam bem, como instalar câmeras ocultas para espionar trabalhadores de empresas ou participar de torneios de lutas de rua. Ali é um homem rústico e temperamental, que não sabe lidar muito bem com seu lado mais sentimental e humano até ser novamente procurado por Stéphanie, que teve parte das duas pernas amputadas devido ao grave ataque de uma das baleias que treinava.

O filme é, na verdade, baseado em duas histórias do livro Ferrugem e Osso (Rusty & Bone), de Craig Davidson, mas nas histórias é um homem quem é atacado por uma baleia assassina. O diretor achou interessante mudar o sexo da personagem na história pelo excesso de personagens masculinos em seus filmes anteriores. Essa mudança trouxe outra dimensão na história, já que a condição da personagem e a sua fragilidade são muito mais acentuadas pelas suas próprias características que são descritas durante a história, como ela ser uma mulher sexy, que gosta de atrair a atenção dos homens simplesmente pelo prazer de se sentir desejada, e de repente se encontra em uma situação isolada, diferenciada e dependente, em que todas as possibilidades anteriores a isso se modificaram em um piscar de olhos. Essa fragilidade também intensifica a brutalidade quase ogra do antagonista e a forma como eles aprenderam um com o outro a diminuir esses excessos e encontrar um equilíbrio considerável.

O papel desempenhado pelo ator belga Matthias Schoenaerts não é muito diferente do desempenhado no filme Bullhead (Rundskop, 2011), tanto que o diretor se interessou pelo ator após assistir esse filme. A brutalidade, rustidez e o temperamento explosivo existem tanto neste personagem quanto no anterior, porém em medidas diferentes (até as cabeçadas que ele dá em determinada parte do filme soam como uma referência ao filme anterior). Enquanto em Bullhead o personagem se encontrava em uma sucessão de fatos desastrosos que nunca lhe davam oportunidades para ver a vida por pontos de vista menos duros e que dessem a ele condições de mudanças, em Ferrugem e Osso essas oportunidades aparecem gradualmente. Isso não significa que gradualmente o personagem irá melhorar seu comportamento e relações, mas que ele levará um choque definitivo de realidade que o colocará em uma bifurcação decisiva: ou continuar no mesmo caminho de erros, ou trilhar um outro mais suave e promissor.

O filme foi divulgado como um drama denso e difícil, muito pela interpretação visceral e cheia de nuances de Cotillard, mas a verdade é que é mais um filme sobre a busca por superações e o aprendizado de conviver com as dores que nos formam. O encontro e conflito desses dois personagens tão distintos, porém com o mesmo sentimento de impotência e incompreensão, mostra como a relação entre pessoas muitas vezes acontece de forma inesperada e que as conectam de alguma forma, como pedaços que faltam, como muletas umas às outras para a continuidade de uma longa caminhada. Ali é para Stéphannie as pernas que ela não tem mais, a base e o apoio, enquanto ela é para ele o foco que ele precisa, a racionalidade e o sentimento que lhe faltam.

Esse apoio é nítido em três situações cruciais no filme, a primeira quando ele a leva para o mar pela primeira vez, a segunda quando ela resolve apoiá-lo durante uma das lutas que ele estava prestes a perder, e a terceira quando, em uma das sequencias finais, ela ameaça desligar o telefone. São três momentos que deixam claro o que cada um doa para o outro e o que isso representa um ao outro.

Essa relação estranha entre os dois personagens é delicada e cheia de significados sutis sobre as noções de amizade, companheirismo, respeito e amor, mas nada de forma cliché ou enfática no drama sem compromisso, pelo contrário, cada dificuldade ou conflito encontrado por cada um deles é mostrado de forma objetiva, como um obstáculo a ser superado e nada mais. Essa relação, embora forte, é por vezes distante e fria. A tensão sexual que existe entre eles é, para ela, a concretização de algo que outrora era efêmero, e hoje se tornou um prazer raro. Para ele é apenas mais uma satisfação, tal qual lutar, tal qual era pra ela treinar suas baleias. Cotillard afirmou em uma entrevista que o que ela mais odeia como atriz é realizar cenas de sexo, mas que nesse filme em particular ela estava tão emocionalmente conectada com a personagem que ela se sentiu feliz pela intensa satisfação que a personagem teria com estas oportunidades. E nem por isso as cenas de sexo são abusivas ou desnecessárias, são os únicos momentos de intensa satisfação da personagem e da total compreensão de Ali em ver Stephanie como uma pessoa por inteiro, e não por partes. Como a atriz mesmo afirmou, se essas cenas não estivessem no filme, haveria um sentimento do espectador de que algo estaria faltando.

Claro que ele não foge de algumas mancadas como a cena na sacada do prédio em que Stéphannie relembra os comandos de treino com Katy Perry cantando ao fundo como se tudo fosse uma coreografia de video clipe, ou de repente Ali passar a ter uma relação complicada com seu filho quando, no começo do filme, a impressão que se tem é completamente inversa. Mas no mais, o filme consegue atingir o impacto necessário. Um belo, emotivo e sincero filme, por sinal.


CONCLUSÃO...
Ao contrário do que possam ter promovido, não é um filme pesado ou carregado em tragédias ou dramas. Um belíssimo filme sobre as noções de superação e apoio, além do inesperado encontro de dois personagens que não possuem qualquer afinidade, mas cujos conflitos se encaixam para que o equilíbrio exista e esta superação seja alcançada.
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