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domingo, 16 de junho de 2019

A OUTRA MULHER MARAVILHA...

★★★★★★★
Título: Capitã Marvel (Captain Marvel)
Ano: 2019
Gênero: Ação, Super-Herói
Classificação: 12 anos
Direção: Anna Boden, Ryan Fleck
Elenco: Brie Larson, Samuel L. Jackson, Jude Law
País: Estados Unidos, Austrália
Duração: 123 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Carol Denvers sofreu um acidente no espaço e foi recrutada por uma civilização extraterrestre, agora ela volta para a Terra para descobrir suas origens e que sua terra natal está correndo um iminente perigo.

O QUE TENHO A DIZER...
Capitã Marvel surge com um certo atraso não apenas no Universo Cinematográfico da Marvel, mas no cinema em geral, sempre relutante em adaptar histórias em quadrinhos com protagonistas femininas desde quando o gênero emergiu, no início de 2000.

Não que filmes com heroínas ou filmes de ação com protagonistas mulheres não existissem, mas na História do Cinema, a quantidade de produções com esse enfoque sempre foi infinitamente inferior, e mais oprimido ainda nas adaptações de quadrinhos.

Hollywood sempre deu muito mais ênfase no chamado "cinema testosterona", no intuito de manter incólume a idéia de que mulheres são frágeis e incapazes de protagonizar filmes bate-e-arrebenta como os homens, e da mesma forma são caracterizadas a maioria das coadjuvantes em cena nesses filmes: frágeis, vítimas que precisam de um braço forte para a abraçá-las e defendê-las. Pode? Pode. Mas esse excesso ditou uma regra que deve ser quebrada.

De Ripley a Sarah Connor, de Thelma a Louise, exemplos existem, mas são poucos, e se tornaram icônicos justamente por serem raros. Mas nas últimas décadas tivemos produções muito interessantes que provaram que o cinema "estrogênio" é tão forte quanto, como a saga de vingança de Beatrix Kiddo em Kill Bill (2003), de Quentin Tarantino, com um elenco predominantemente feminino. Podemos citar até a pancadaria gratuita e bem produzida que Steven Soderbergh fez com Haywire (2011), transformando a ex-lutadora de MMA, Gina Carano, numa referência direta a produções antes estreladas por Chuck Norris por um lado, e Cynthia Rothrock por outro, nos anos 80 e 90.

Mas no Universo dos quadrinhos tudo começou na contra-mão, e as infames adaptações de Mulher-Gato (2004) e Elektra (2005) soaram muito mais como um descaso quase proposital do que qualquer outra coisa. Como um autoboicote dos próprios estúdios, para dar a deliberada impressão ao público que heroínas baseada em quadrinhos não oferecem boas histórias, e por isso não valia a pena investir nelas. E a essas atrizes nunca mais foram lhe dadas oportunidades de continuarem no gênero, ao contrário dos homens.

De lá pra cá quase 15 anos se passaram e, no meio desse tempo, mulheres da indústria começaram a questionar a ausência de protagonismo nas tais adaptações, fora outras revindicações legítimas de igualdade numa indústria que historicamente sempre foi desigual em relação a gêneros e raças.

Foi então que a indústria resolveu abraçar esta pauta feminista para seu benefício comercial, e Mulher Maravilha (2017) se tornou o carro chefe dessa nova e atrasada safra, onde a heroína roubou a cena em Batman V Superman (2016). O mesmo havia feito Margot Robbie em Esquadrão Suicida (2016), que embora cheio de defeitos e equívocos, além de um elenco predominantemente masculino, fez de Harley Quinn (Margot Robbie) a verdadeira protagonista, mesmo que o sexismo construído sobre a personagem no filme tenha sido mais presente que sua caricatura. Porém, Robbie consegue driblar esse senso e inverter a situação com classe, e é ela quem protagonizará seu próprio filme agora, ao lado de outras personagens tão fortes quanto do Universo DC.

Em sequência veio Charlize Theron na adaptação de Atômica (Atomic Blonde, 2017), baseado na novela gráfica The Coldest City, apanhando, levantando e batendo, deixando outra vez claro que não existe sexo frágil. E por fim, mas não último, a rendição da Marvel a Capitã Marvel, que finalmente não apenas viu a luz do dia, mas também é a personagem chave para a conclusão de uma era e início de outra nesse Universo criado pelo selo.

A mídia taxou o filme como uma grande representação feminista nos cinemas tal qual Mulher Maravilha. Essa discussão, feita de maneira mais incisiva do que sobre a outra heroína, ocorreu talvez porque a popularidade que a Marvel tem nos cinemas é maior.

Não deixa de ser. Mas feito de maneira bastante discreta e discutida nas entrelinhas do roteiro, que evita explorar o passado da personagem de maneira mais consistente justamente para não erguer bandeiras explícitas e despertar a ira dos conservadores que veem no feminismo uma ameaça ao histórico patriarcado.

A história da personagem é nada além de um retrato muito comum das mulheres na sociedade pelo mundo, que sofrem opressões sociais por todos os lados, até dentro de suas próprias famílias.

Carol Denvers, quando jovem, sonhava em seguir carreira acadêmica, sendo impedida por seu pai, que dava preferência as decisões de seu filho homem. Carol engressou na Universidade sem conhecimento do seu pai e posteriormente se alistou na Força Aérea Americana escondida, só revelando o segredo quando abandonou sua casa para viver na academia aérea, o que gerou desconforto e repúdio de seu pai. Esse desprezo que sofre é o grande motivador de Denvers em querer ser a melhor, acreditando que algum dia seu pai se orgulharia disso e essa barreira machista que existia entre a relação dos dois fosse quebrada algum dia. A necessidade de aprovação dos filhos por seus pais, uma pauta constante nas histórias fantásticas da Marvel.

Essa história pregressa é usada no filme apenas em rápidos flashbacks para justificar sua personalidade de maneira simbólica e resumida, também sobre seu comportamento impositivo e decisões pessoais que emergem ao redor da própria trama. Mas como dito, bastante superficial para não inflamar o ego machista da platéia.

Embora expressa, essa introdução é essencial para compreendermos todo o processo da construção de sua personalidade ao longo dos anos, mas o roteiro desconstruído, ora mostrando o presente, ora o passado, deixa a desejar porque não explora essa fase tão importante da vida da personagem, ficando um tanto vago em esclarecer ao espectador porque Denvers tem posições bastante firmes sobre suas decisões, ou até mesmo seu humor sarcástico ser tão contundente, num oposto ao humor jocoso de Tony Stark, por exemplo.

Para um filme que pretende mostrar a origem da heroína, o roteiro o faz apenas para Denvers como heroína, mas não para Denvers como pessoa e mulher, deixando de construir uma narrativa linear sobre seu passado, deixando de dar uma exclusiva atenção a todas as barreiras e dificuldades que teve de enfrentar na adolescência, que teria sido importante.

Sempre criticada durante seu treinamento no espaço pelo excesso emocional e sentimental por ser humana, ela é a todo momento instruída e motivada a suprimí-los para ser mais poderosa e capaz. E essa crítica é posta a prova e pauta do início ao fim do filme. Isso nada mais é que um paralelo que o roteiro constrói sobre a cultura popular da fragilidade feminina, e que, pelo equivocado senso machista, o lado mais emocional e sentimental das mulheres tende a colocar em risco o sucesso de uma missão.

Esse é o grande conflito interno que Denvers se depara ao longo da trama, que se resolve de maneira muito simples e simbólica e, de fato, desconstrói esse mito popular secular alimentado para inferiorizar a figura feminina. Ser emotivo e sentimental não é um defeito, mas grandes qualidades inerentes do ser humano, oprimidos pelos fracos que não sabem lidar com essas complexidades e usá-las para se tornarem mais fortes.

E é isso que Capitã Marvel significa, se tornando uma resposta contundente de que o sendo comum da fragilidade é apenas uma construção social.

No mais, o filme segue como se deve dentro da proposta da ação. Um tanto lento em sua primeira metade para quem espera aquele ritmo alucinante de outros filmes da Marvel, mas que depois recompensa o público com o festival de efeitos especiais que todo mundo gosta. Recheado de diálogos inteligentes e de um humor refinado tal qual o encontrado em Pantera Negra, o resultado é satisfatório. Para um filme que tem a intenção de contar uma origem, poderia ter sido mais consistente nos quesitos abordados acima.

Enquanto Mulher Maravilha apresenta a força feminina sem sucumbir ao clichê, Capitã Marvel pega o clichê e tira dele o melhor proveito.

sábado, 20 de abril de 2019

HÁ POTENCIAL...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Hanna
Ano: 2019
Gênero: Ação, Supense, Drama, Policial
Classificação: 16 anos
Direção: Vários
Elenco: Esme Creed-Miles, Mireille Enos, Joel Kinnaman, Rhianne Barreto
País: Estados Unidos
Duração: 60 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
A jornada de uma garota altamente treinada que, ao mesmo tempo que terá de encontrar meios para sobreviver uma perseguição de uma organização que pretende capturá-la, também terá de lidar com descobertas que os 14 anos isolada da sociedade lhe privaram de compreender além da teoria.

O QUE TENHO A DIZER...
Hanna, como bem se sabe, é uma série baseada no aclamado filme homônimo de 2011, dirigido por Joe Wright. No filme, a protagonista era interpretada por Saoirse Ronan. Eric Bana fazia o papel de seu pai, e a grande vilã da história, Marissa Wiegler, tomou forma através da indiscutível Cate Blanchett.

Wright fez do filme um thriller controverso por transformar uma adolescente em uma assassina rigorosamente treinada por seu pai desde os dois anos de idade para poder sobreviver em qualquer situação de iminente perigo. Não que ela tenha sido treinada para ser uma assassina de fato, mas matar faria parte da sua cartilha de sobrevivência, já que os humanos serão seus maiores inimigos, como é deixado claro nos diálogos.

Não há muitas difenças na linearidade da história entre o filme e a série. Claro que, no filme, por uma questão de formato e duração, muitos detalhes são deixados de lado e que a série até tenta desenvolver de maneira um pouco mais efetiva ao longo dos oito episódios.

A grande diferença entre o material original de sua adaptação é que o tom do filme era muito mais denso e violento, além do ritmo ser mais acelerado e as cenas de ação muito mais impactantes, havendo uma característica muito peculiar e bastante interessante: Wright trabalhou muito com o contraste de situações sérias e lúdicas para causar impactos mistos e desenvolver uma história que se situa num complexo meio termo, transpondo ao espectador os mesmos sentimentos conflitantes da protagonista de maneira visual e sinestésica, deixando-nos confusos sobre alguém tão jovem ter que agir de maneira tão cruel para sobreviver no meio da crueldade dos outros.

Por exemplo, quando a situação exigia mais maturidade da personagem e um comportamento mais adulto e tático, o cenário muitas vezes era mais lúdico e neutro, causando maior impacto na violência junto com a trilha sonora mais estridente e complexa. Quando a situação exigia um comportamento mais delicado e condizente com a idade da personagem, o cenário era mais sério e ameaçador, intensificando uma fragilidade na personagem que ela constantemente oprimia. Essa contradição entre a ação e o visual, em outras palavras, mostrava os dois lados de sua mesma moeda: o lado adulto que ela teve de desenvolver tão precocemente, e o lado infantil que ela teve de abandonar tão cedo.

No seriado essas nuances não são tão visualmente importantes porque há espaço para desenvolver melhor todos esses conflitos que Hanna se depara ao longo de sua jornada pessoal de sobrevivência, bem como a relação com seu pai é melhor explorada nos momentos de codependencia e nos momentos de negação que surgem conforme as subtramas se revelam.

O seriado oferece aquilo que um thriller de ação deve oferecer e que muitas pessoas pretendem encontrar. Há uma trama principal consistente, drama e certos momentos de alívio cômico, tudo como manda a cartilha. Os personagens são muito bem explorados pelos atores, e não fogem muito da proposta do material original. Claro que preferimos Eric Bana, mas Joel Kinnaman (o mesmo do hit Altered Carbon) tem seus momentos de consistência. Mireille Enos talvez seja o grande destaque, roubando a atenção em todas as cenas que aparece. A sua versão de Marissa não apenas se equivale ao de Blanchett como também explora outras nuances que permitem a ela momentos de redenção sem soarem forçados ou clichés, e momentos bastante sutis de intensa crueldade de uma pessoa condicionada no trabalho desumano que exerce.

A novata Esme Creed-Miles pode não ter a mesma experiência e bagagem de Ronan, atriz que começou sua carreira no cinema aos 13 anos de idade e que com 23 já concorreu a 3 Oscars, enquanto Esme está sendo protagonista pela primeira vez aos 18 anos. Mas ela consegue expressar os sentimentos mistos de maneira efetiva e momentos de sobriedade, doçura, fragilidade e descobertas que o filme não tinha espaço e nem tempo para explorar tão a fundo. Claro que em algumas situações e outras é explícita a inexperiência da atriz, como nos três momentos de quebra cênica que ocorre em três episódios distintos onde ela acidentalmente olha diretamente para a câmera. Não é nada que atrapalhe muita coisa, mas evidencia uma certa falta de cuidado da direção e a inexperiência cênica já citada.

São detalhes que poucas pessoas poderão dar atenção, mas estão lá, e que no fim comprometem o resultado de tudo como um todo, como o excesso de uso de dublês nas cenas de ação com a protagonista, que definitivamente quebram qualquer realismo que a história tente construir, ao contrário do filme, em que Ronan realizou grande parte das cenas de ação e que estão longe do resultado plástico e artificial do seriado.

O roteiro também sofre no decorrer dos episódios, apressando eventos que poderiam ter ocorrido de maneira mais lenta e natural, como a relação de amizade entre Hanna e Sophie (Rhianne Barreto). A relação de amizade incondicional que elas criam da noite para o dia é grosseira, e não sutil como é quando Hanna tem contato com o primeiro garoto assim que sai dos limites do território em que foi criada.

Muitas vezes os diálogos também são sofríveis, numa preocupação óbvia dos roteiristas em criarem mais frases de impacto para impressionar o espectador de forma fácil do que evitar resultados tão caricatos como os de folhetins televisivos.

Portanto, ao contrário do excesso de elogios que a série tem recebido, há defeitos relevantes que tiram da produção toda a consistência que demonstrou ter nos primeiros episódios. A produção também não se atenta a detalhes que em pleno século XXI não fazem o menor sentido, como um grupo tático altamente treinado, armado com metralhadoras, não acertarem uma bala sequer no carro durante um resgate, ou colocar uma personagem enfrentando todos eles com uma mera pistola.

Sim, o material entretém, mas nem por isso devemos fechar os olhos para problemas e defeitos que, caso se tornem recorrentes, podem comprometer e muito o futuro promissor que a série tem.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

DOSES DE PERFEIÇÃO...

★★★★★★★★★☆
Título: Homecoming
Ano: 2018
Gênero: Drama, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Sam Esmail
Elenco: Julia Roberts, Bobby Cannavale, Stephan James, Shea Whigham, Sissy Spacek, Dermot Mulroney
País: Estados Unidos
Duração: 25 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Uma assistente social é contratada por um estabelecimento privado que tem como objetivo ressocializar soldados recém repatriados.

O QUE TENHO A DIZER...
Homecoming é mais uma prova do que tem sido dito há muito tempo sobre os serviços de streaming, de ser o nicho que a indústria do entretenimento precisava para expandir suas ambições de uma forma mais produtiva que o cinema e canais de TV não oferecem com frequência.

Novos diretores e escritores estão saindo das sombras com essa tendência que só tem crescido nos últimos anos, e outros importantes estão migrando para esses serviços pela liberdade criativa oferecida. O mesmo a ser dito sobre uma grande lista de importantes atores descobertos ou já estabelecidos no mercado.

TV deixou de ser um lugar onde atores de Hollywood são contratados por terem sido esquecidos pela indústria como aconteceu nas décadas de 90 e 00 (lembram quando Alicia Silverstone estreou em Miss Match, ou Gleen Close em The Shield?). Também deixou de ser um lugar onde importantes nomes eram contratados para incrementar os valores de produção, como acontecia com frequência em seriados como Plantão Médico e Friends, por exemplo.

Ao invés disso, atores encontraram nesses serviços um importante aliado para enriquecer uma carreira que agora pode ter atingido uma zona de conforto, ou que agora sentem que projetos desafiadores se tornaram raros depois de atingirem certa idade ou patamar de estrelato na profissão. É por isso que nomes importantes como Nicole Kidman, Reese Witherspoon, Emma Stone, Sandra Bullock, e Julia Roberts (apenas para nomear alguns), estão se tornando frequentes em produções como essas, porque agora encontraram espaço e oportunidade de explorar papéis complexos e projetos desafiadores que não seriam possíveis - ou difíceis - de serem produzidos pelos meios comuns.

Esse seriado dirigido por Sam Esmail (Mr. Robot) e disponível no Amazon Prime, é uma adaptação de um podcast homônimo e fictício produzido pela Gimlet Media, cujo brilhantismo é expressado de diversas formas. Julia Roberts afirmou ser uma grande fã do podcast, e demonstrou interesse imediado em participar da produção assim que ficou sabendo que Esmail tinha intenções de dirigí-lo, diretor o qual também é grande fã, tanto que sua única exigência foi que Esmail dirigisse todo o projeto, e que nenhum outro diretor se envolvesse para que a linearidade não fosse comprometida.

Demora alguns episódios para os espectadores compreenderem seu conceito como um todo, mas essa lentidão é a maneira inteligente do roteiro construir pedaço a pedaço uma atmosfera apreensiva de acontecimentos obscuros que envolvem Heidi Bermgan (Julia Roberts), uma assistente social contratada por um estabelecimento privado pertencente a Geist, uma empresa gigante liderada por Colin Belfast (Bobby Cannavale).

Este é o enredo principal, e é interessante não se aprofundar mais diretamente sobre ele para não estragar qualquer experiência que os 10 episódios de 25 minutos cada tem a oferecer.

A atmosfera aqui é construída sobre mínimos detalhes. Da trilha sonora minimalista e progressiva à estranha simetria fotográfica; das performances certeiras dos atores à perfeição artificial do design de produção. A maneira como as câmeras são conduzidas para mistificar um futuro próximo, a edição que nunca se sobrepõe ao ritmo da história, ou até mesmo as mudanças do tamanho da tela que, muito mais do que situarem o espectador nos diferentes tempos, também cria uma impressão efetiva de consciência e espaço limitados do presente. Elementos simples que funcionam em suas formas mais singulares.

Esmail afirmou que Hitchcock e De Palma foram suas maiores inspirações para construir o suspense baseado solidamente no desenvolvimento dos personagens e de suas personalidades, e os acontecimentos que os envolvem serem elementos complementares a isso, e não principais. De Palma é homenageado sem floreios quando a clássica divisão de telas acontece, conduzindo o espectador a dinâmicas paralelas e diferentes pontos de vista sobre um mesmo fato, intensificando assim a sensação de passagem de tempo e de que a vida na tela não se resume apenas àquilo que os personagens são conduzidos.

Toda essa fantástica percepção é sentida e compreendida como um todo conforme os episódios finais se aproximam, tal qual a premissa principal do seriado, de que as boas intenções estão espalhadas em todos os lugares, mas quanto mais nos aproximamos delas, mais assustadoras se tornam.

Para aqueles que assistiram Maniac (2018), produção da Netflix, Homecoming poderá não parecer tão original quanto pareceria, mas definitivamente é muito mais sólida e contemporânea, além de um ponto de vista bastante crítico de como os Estados Unidos sempre procura formas de economicamente explorar eles mesmos e aqueles que não se atentam às suas intenções e comportamentos perniciosos, mesmo que o preço disso seja a reinvenção da escravidão para seu próprio benefício, negligenciando a vida humana a favor do tão cobiçado, desconhecido e invisível "bem maior", a base fundamental de sua ultrapolítica. E sobre "escravidão", digo no sentido de obrigar cidadãos a fazerem coisas contra suas vontades, e não na histórica relação entre brancos e negros.

Esmail faz tudo ser desconfortável de alguma forma desde o primeiro episódio. Em uma primeira impressão, muita gente não irá achar nada estranho ou ameaçador mesmo que a sensação esteja presente, e tudo soará como um drama analítico tal como Em Terapia, mas dessa vez entre uma conselheira e ex-soltados que acabaram de retornar ao país e suas dificuldades de transição para a vida civil comum. Mas mesmo assim, como dito, o desconforto é sentido e ouvido da mesma forma, dando a impressão de que há muito mais por detrás além do esperado.

Por diversas vezes me encontrei prendendo a respiração como em um filme de terror, por causa da produção que, cheia de truques técnicos, consegue brincar com todo aspecto emocional e sinestésico de seus espectadores. De repente é possível se sentir confuso, desconfortavelmente tenso, às vezes nervoso, assustado ou apreensivo sem saber ao certo o por quê já que nada está visivelmente óbvio ou explícito. A resposta para isso é que Esmail se utiliza de elementos visuais coadjuvantes e sonoros para engatilhar esses sentimentos sem que o espectador sequer perceba. Algo brilhante porque são diferentes técnicas a favor dos caminhos que o roteiro propõe para construir seu enredo e enfiar as pessoas dentro dele. E quando todos os elementos da história são finalmente revelados, encontramos nossa sanidade um tanto fragmentada por consequência de todo esse desenvolvimento emocional e sensorial criado.

De tempo ao tempo para apreciar essa fantástica produção. Pode não ter a história mais original, mas é desenvolvida de uma maneira que pouquíssimas produções são. É delicado ao mesmo tempo que é denso, esclarecedor mais ao mesmo tempo que é duvidoso. Doses perfeitas de cada, e doses perfeitas de uma perfeição quase metódica.

sábado, 20 de outubro de 2018

PRATO CHEIO PRA QUEM GOSTA...

★★★★★★★★☆
Título: Deadpool 2
Ano: 2018
Gênero: Ação, Comédia, Super Herói
Classificação: 16 anos
Direção: David Leitch
Elenco: Ryan Reynolds, Morena Baccarin, Josh Brolin, Julian Dennison, Zazie Beetz
País: Estados Unidos
Duração: 119 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Deadpool agora se engaja em montar sua própria equipe para proteger um garoto poderoso de um exterminador do futuro.

O QUE TENHO A DIZER...
Deadpool é a paródia e a sátira, o chulo e o escracho. Por esses motivos, consegue ser uma das adaptações de quadrinhos mais fiéis, com os personagens mais fiéis, porque tem a liberdade de ser exagerado na tela sem a necessidade daquela releitura mais realista e humanizada que a linguagem do cinema muitas vezes pede para não soar absurda, por mais absurda que possa ser. Esse é, indiscutivelmente, o maior mérito tanto deste filme, como do anterior.

Desde o primeiro filme, a produção evita ser séria demais e perder suas características, ou ser leve demais e perder todo o teor politicamente incorreto que é a razão de sua existência. Muito questiona-se a necessidade da linguagem chula ou do excesso de violência, mas isso acontece porque Deadpool é, em sua essência, a voz dentro desse universo daqueles que não gostam do estilo, ao mesmo tempo que também expressa o lado pseudo-crítico daqueles que gostam. A metacrítica propriamente dita. Por isso a paródia, o desdém, a sátira e a incredulidade tão presentes.

Mas é possivel sentir nesta continuação que, embora o primeiro filme tenha sido um sucesso inesperado, garantindo esta sequência, não foi possível evitar um banhinho de sutileza.

Quando comparado com o primeiro filme, a boca era muito mais suja, a violência era muito mais explícita e sanguinolenta e absolutamente nada era sério o bastante. Dessa vez, mesmo tendo tudo isso, o volume diminuído. Bem pouco, mas foi. É como dizer: podemos ouvir alto, mas não precisamos ficar surdos.

Para quem esperava mais do mesmo excesso do primeiro, poderá ter alguma decepção. Mas acredito que se a sequência tivesse mantido elevado os mesmos elementos, seria como uma piada contada mil vezes, ao contrário de uma renovação da fórmula que deu certo, que é o que ocorre aqui, pegando o espectador de surpresa muitas vezes.

Reynolds novamente produz, mas agora é creditado como roteirista, coisa que ele não foi no primeiro, mesmo tendo sido peça fundamental. Apesar de pouca coisa ter mudado no comportamento do anti-herói, ele nunca é descaracterizado, e esse é outro mérito.

Não se pode falar muito sobre a história porque qualquer coisa a ser falada é estragar as surpresas mesmo já tendo um bom tempo que o filme foi lançado porque Reynolds fez um trabalho novamente cheio de piadas com referencias diretas e indiretas, seja dentro do universo Marvel, seja no DC, ou da cultura popular em geral. É impossível não achar interessante as referências feitas pois, além de serem bem colocadas, mostram como a própria cultura (util ou inútil) é sempre vulnerável ao humor, algo que até então parecia um tabu em filmes que não fossem estruturalmente uma sátira. Sim, como falei no princípio, Deadpool também é uma sátira, mas ele sobreviveria sem isso, o que não aconteceria com filmes desse gênero, como a série Todo Mundo Em Pânico, Top Gangue, ou a clássica Corra Que a Policia Vem Aí.

O filme perde um pouco do tom em sua primeira parte, pois cria um quase-drama justificável na vida do personagem. Não estraga a história ou a experiência, mas definitivamente a mudança de direção do primeiro para o segundo filme impactaram na dinâmica de algumas coisas.

A princípio poderá parecer que não estamos assistindo a mesma coisa, mas é na segunda metade que o festival recomeça. As sequências de ação crescem, o humor fica mais universal e os personagens apresentados são tão bem feitos nesse sentido que dispensam desenvolvimento ou profundidade, como é o caso de Cable e Domino. O incômodo é que Colossus não precisava ser um personagem digital o tempo todo. O que salva é sua dublagem e o humor carrancudo do seu texto. Sem isso ele podia ser dispensável. 

Apresentar novos personagens fez outros serem deixados de lado, como é o caso de Negasonic Teenage Warhead (Brianna Hildebrand), que conquistou uma legião de fãs no primeiro filme, mas agora só aparece em uma cena ou outra apenas para dizer que está lá. E só não deixou muita gente desapontada porque Firefist (Julian Dennison) é espetacular e tem presença tal como Negasonic foi no primeiro.

Se tem uma coisa que Deadpool conseguiu fazer é revolucionar o gênero e criar infinitas possibilidades para a história se extender por anos e por sequências sem fim. Conseguiu, principalmente, corrigir erros do passado dentro de sua metacrítica, como na interessantíssima sequência pós-crédito, uma das mais hilárias para os fãs. Sem dúvida a cena que fez a sessão de cinema delirar nas auto-referências tão características do personagem e que Reinolds consegue fazer de maneira certeira.

Nos quadrinhos, o herói surgiu para quebrar a monotonia e tirar a indústria da zona de conforto de maneira desconfortável. Foi uma sacada de gênio dos criadores Fabian Nicieza (escritor) e Rob Liefeld (desenhista), e Reynolds conseguiu se apropriar dessa essência e levá-la com a mesma consistência para a tela.

Deadpool é a diversão do universo mutante que X-Men não foi quando adaptado. Não que os méritos de X-Men não existam. A época era diferente, os receios de adaptações como essa também. Mas não podemos ignorar que seria interessante se algum dia pudéssemos vê-los juntos a Deadpool dessa forma mais cartoonizada e despretenciosa.

Talvez aconteça.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

VARIAÇÃO DAS VARIAÇÕES...

★★★★★☆
Título: Jurassic World: Reino Ameaçado (Jurassic World: Fallen Kingdom)
Ano: 2018
Gênero: Ação, Aventura, Fantasia
Classificação: 12 anos
Direção: J. A. Bayona
Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Rafe Spall, Justice Smith
País: Estados Unidos
Duração: 128 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Ameaçada por um vulcão adormecido, uma cientista é incumbida a voltar para a Ilha Nublar e resgatar o maior número de espécies que conseguir para que uma nova extinção seja evitada.

O QUE TENHO A DIZER...
De volta em 1993, era um tanto óbvio que Jurassic Park se tornaria uma franquia. Mas a primeira trilogia mostrou que, embora o universo seja cativante, não havia história suficiente para tanto. O terceiro filme sofreu enormes críticas negativas, e a promessa de uma quarta aventura foi enterrada junto com o falecimento do autor Michael Crichton, em 2008.

Somente em 2010 as coisas voltaram a ser discutidas, e o sinal verde foi dado depois do 20º aniversário do primeiro filme. Foi então que Jurassic World surgiu, trazendo uma mudança emblemática no nome, pois era tanto uma continuação direta da série, como também um reboot.

O sucesso foi além do imaginado, e o filme arrecadou mais de US$ 1,6 bilhões no mundo todo, superando as expectativas e fazendo tanto estúdio, quanto produtores, confirmarem uma continuação em menos de um mês de exibição.

A tão aguardada continuação se deu principalmente pelo sucesso e química dos protagonistas, interpretados por Chris Pratt e Bryce Dallas Howard. A história em si, que sofreu transformações interessantes, agora partia do princípio que o tão sonhado parque finalmente havia se tornado realidade, e dava um ar de frescor a tudo que já havia sido abordado até então.

O melhor de Jurassic World foi em conseguirem fazer tudo parecer novo mesmo tendo muitas idéias requentadas. As referências constantes, principalmente aos dois primeiros filmes, conseguiram fazê-lo parecer inédito aos olhos dessa geração, mas uma grande homenagem aos olhos da geração que assistiu ao primeiro filme nos cinemas e saiu de queixos caídos com o festival de efeitos especiais e práticos que mudaram para sempre a História do Cinema e de quem presenciou uma experiência que foi única.

A empolgação que cresceu nas pessoas assim que os créditos finais de Jurassic World rolaram, foi a mesma empolgação com a qual Reino Ameaçado foi aguardado ao longo dos três anos que separa um do outro. Mas quando ele foi lançado, muita gente pareceu não ter tido tanta expectativa correspondida como se esperava.

Só que vamos ser verdadeiros e aceitar que já era esperado que, com tanta reciclagem de situações ao longo da série, era inevitável cair nas mesmas fórmulas e nos mesmos clichés que a própria série criou ao longo dos filmes. Aquela impressão de novidade que se teve no filme anterior, agora deu lugar a uma recorrência de deja vus que mais transformaram este segundo filme em uma refilmagem do que qualquer outra coisa.

A repetição de situações, cenas e idéias é tão grande quanto criar uma nova ilha quando a idéia acaba (como eles propõem aqui), ou destruir uma ilha com algum desastre natural para ter um novo ponto de partida na história (como fazem com o vulcão na Ilha Nublar agora, ou como já fizeram com o furacão na Ilha Sorna).

Aquela química interessante que existia entre os protagonistas se foi no momento que Bryce Dallas abandonou os saltos por um par de coturnos. O que acontece entre eles agora é uma tensão sexual infantil e absolutamente sem graça porque o número de personagens é tão grande quanto o número de situações paralelas para, assim, a impressão de dinamismo e ritmo acelerado da história seja mantido mesmo que não se tenha conteúdo suficiente para isso.

Sem falar dos diálogos óbvios na maior parte do tempo, como se o espectador fosse uma pessoa completamente demente e incapaz de assistir um filme sozinho, sem que seja carregado pela mão o tempo todo. Momentos onde muitas vezes só falta um saco de risadas no fundo para sinalizar a hora do espectador achar a situação engraçada, de tão sem graça que era.

Os dinossauros agora também são muito mais simpáticos e não mais répteis de comportamento primitivo. Tem cenas cômicas com dinossauros, cenas fofas com dinossauros, cenas tristes com dinossauros, cenas dramáticas e até uma lágrima de dinossauro que escorre. Dinossauros agora fazem graça, se comunicam com a câmera como se estivessem em um stand up, fingem que estão dormindo e desdenham de suas prezas com um sorriso maroto. Um verdadeiro festival de propagandas clássicas de como enfofar esses animais e fazer as pessoas morrerem de vontade de correr no pet shop mais próximo de casa para comprar um assim que o filme acabar.

Uma ridícula gourmetização para espremer emoção do espectador, risos fáceis daqueles que gostam de humor tonto e assim termos a idéia de que os bichos não são tão ruins assim. Eleva-se o tom cômico e fantasioso e ameniza-se o lado aterrorizante dos dois primeiros filmes originais, e dessa forma cria-se uma fantasia familiar inerte e desinspirada.

Existem momentos intragáveis por conta deste excesso de açúcar. Tudo isso acontece porque, no decorrer da série, os animais passaram a ser tratados como vilões, e não como espécies que simplesmente reagem ao se sentirem ameaçados. E assim como vilões, eles agora precisam de momentos de redenção, como agora ser de praxe o T-Rex sempre salvar o protagonista do perigo (resultando na manjada cena do "rugido do rei"), ou quando o Velociraptor adestrado resolve ficar "do lado do bem" e combater o "dinossauro do mau".

Esse maniqueísmo foi o que definitivamente estragou a série, sua narrativa e várias propostas interessantes que pudessem surgir. Algo que não ofendeu diretamente o que o primeiro Jurassic World apresentou, mas que aqui ofende porque é usado como saída fácil, e não como uma alternativa, um elemento de dispersão raro.

Os verdadeiros vilões da história, que são os humanos, aqui são tratados como cientistas malucos, inescrupulosos, dominados pela ira da ambição capitalista. Exagerados na caricatura, quase memes deles mesmos para serem mais engraçados do que vilões de fato.

Para quem resolver assistir ao menos os dois primeiros filmes originais para relembrar de como foram bons, irão perceber as inúmeras cenas similares que existem entre eles. Na época que foi lançado, o segundo filme já havia sido taxado como uma variação do primeiro, pois tanto seu desenvolvimento quanto diversas cenas eram muito similares. Mas aqui não existe vergonha nisso, sequer na composição do elenco, sempre tendo crianças para darem trabalho, sempre tendo aqueles que ficam pra trás, sempre tendo aqueles que ferem a perna, e (quase) sempre tendo apenas um ator negro para dizer que existe diversidade.

Mas outras referências boas também são perceptíveis, como Indiana Jones e o Templo da Perdição, (o momento em que estão escondidos, assistindo o leilão do alto, assim como vários acontecimentos posteriores, são muito parecidos com a cena em que Indiana assiste ao sacrifício no Templo). Talvez esta seja a referência mais (propositalmente ou não) óbvia delas porque o próprio personagem de Chris Pratt é uma releitura do Professor Jones. Também não pude evitar encontrar similaridades até mesmo nos jogos Resident Evil/Dino Crisis, por levar a situação de sobrevivência para dentro de uma mansão com laboratórios e outras instalações subterrâneas, como acontece nesses jogos, o que deixou a situação interessante.

Como um todo, é o mais fraco filme da franquia. Ainda consegue ser um evento grandioso como sempre é, cheio de espetáculos visuais e assim divertir como pode. Mas tal qual os anos, conseguiu também se distanciar do misto sutil entre ação e fantasia que os primeiros conseguiram ser, ao mesmo tempo que nenhuma, ou qualquer sagacidade deles foi mantida. Tudo poderia ter sido melhor, ou mais palatável, se não tivesse uma linguagem verbal e visual tão infantilizada e didática, elementos que sempre empobrecem filmes que tem o objetivo de atingir o maior número de pessoas possível.

É complicado quando é nítido que algo foi feito em cima de idéias esgotadas e de uma forma que tenta forçar uma conexão com o público que em nenhum momento consegue desenvolver naturalmente, porque todo o encanto se quebra, e a expectativa se afoga. Isso só fortaleceu a idéia de que Michael Crichton deixou um legado importante na ficção científica, mas que não consegue ser longevo.

O terceiro filme desta nova trilogia já foi anunciado, e agora resta saber o que de novo eles podem apresentar, ou se será apenas mais um festival de variação das variações.

domingo, 14 de outubro de 2018

DESPERDÍCIO DE TUDO...

★★★★☆
Título: Oito Mulheres e Um Segredo (Ocean's Eight)
Ano: 2018
Gênero: Ação, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Gary Ross
Elenco: Sandra Bullock, Cate Blanchett, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway
País: Estados Unidos
Duração: 110 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Após receber liberdade condicional, uma ladra profissional resolve dar continuidade ao talento familiar quando planeja o furto de um colar de US$150 milhões durante um dos eventos de moda mais conhecidos do mundo.

O QUE TENHO A DIZER...
Steven Soderbergh pode ter se dado muito bem ao fazer o remake de Onze Homens e Um Segredo (Ocean's Eleven, 2001), transformando-o numa franquia de sucesso. Embora Doze Homens (Ocean's Twelve, 2004) tenha sido lançado naquele momento em que o diretor se sentia o rei de Hollywood, fazendo do filme uma reunião particular de amigos, cheio de piadas internas e nada, absolutamente nada interessante para o resto dos espectadores do mundo, ele conseguiu se redimir disso com 13 Homens (Ocean's Thirteen, 2007), que foi exatamente naquela época em que Hollywood começava a dar as costas a ele, mostrando que aquela coroazinha que ele tanto achou que tinha não era mais que um adorno de chocolate que foi bom enquanto não derreteu.

Tanto que hoje Soderbergh é apenas uma mera lembrança de Hollywood. Tentou armar um griteiro em 2014 dizendo que iria se aposentar porque o cinema norte-americano não tinha mais nada a lhe oferecer, ou algo do tipo. Mas voltou atrás ao novamente trabalhar com Channing Tatum em Logan Lucky (2017), e depois com Sharon Stone na fracassada série para a HBO, Mosaic (2017).

Entregando a direção a Gary Ross, ele agora só assina a produção dessa continuação direta de sua franquia, ao mesmo tempo que também é um reboot feminino da série, antes composta em sua maioria por homens famosos e engravatados como George Clooney, Brad Pitt e Matt Damon.

Produzir o filme também não garante as qualidades que Soderbergh tem, pelo contrário, é nítido que seu nome apenas aparece nos créditos para tentar dar ao filme todos os créditos que nele faltam.

A princípio tudo parecia interessante. A proposta do filme com um elenco principal predominantemente feminino, liderado por Sandra Bullock no papel de Debbie Ocean, irmã de Danny Ocean (George Clooney nos filmes anteriores) vinha a calhar numa época em que o movimento feminista no cinema estava a todo vapor.

O problema principal do filme, assim como de sua intenção, é se perder nas situações familiares e politicamente corretas. Isso o fez cair na mesmice de sempre, e tudo aquilo que poderia ser um excelente filme de ação e roubo (o gênero chamado heist), tal qual foram 11 e 13 Homens, se tornou um filme monótono dentro de um cenário feminino comum e batido.

Oras, se dentre várias revindicações femininas, uma delas era o protagonismo de filmes que outrora seriam protagonizados por homens, o filme falha quando novamente as insere em situações típicas da cultura social feminina e do senso comum até machista de que mulheres são movidas por futilidades.

Maquiagens, roupas caras, cabelos estilizados e impecáveis. Marcas famosas e andar de passarela. Escrito por Gary Ross e Olivia Milch, essa é a visão que os roteiristas tem sobre as 8 heroínas da história. A impressão é que assistimos uma versão turbinada de Sex And The City, onde Carrie Bradshaw armaria um grande esquema de vingança contra Mr. Big por tê-la traído.

Mas como se não bastasse tanta esnobação e glamour, o enredo principal, no qual qual Debbie planeja roubar o colar mais caro do mundo do pescoço de uma das mais famosas atrizes durante o Met Gala, aquele famoso evento anual fashionista e beneficente criado por Anna Wintour, a tão temida editora chefe da revista Vogue, se torna apenas uma ironia daquilo que as próprias mulheres tem tanto lutado para se desvincular: a de que os diamantes são sempre seus melhores amigos.

Ok, o cenário e o comportamento comum poderiam não importar caso todo o resto funcionasse. Mas não é o caso. Ao contrário do que aconteceu na franquia de Soderbergh, aqui não existe uma química convincente entre o elenco. As atrizes falham todo instante ao tentar mostrar uma intimidade que não existe, e o roteiro tropeça admiravelmente ao dar uma resolução sentimental, baseada numa vingança amorosa, além de diálogos monossilábicos e onomatopéicos apenas para justificar a presença irrelevante de alguns nomes famosos, como é o caso de Rihanna (péssima como sempre), ou Helena Bonham Carter, que aqui repete o papel da típica esquisitona que costuma ser na vida real, dando a sensação que mais aceitou o papel para pagar as contas do que por verdadeiro engajamento. E essa situação um tanto desconfortável que vemos na tela cria, sem querer, uma competitividade entre as atrizes que não cabe.

As situações desconexas não convencem que aquele bando de personagens desajustadas conseguiriam dar conta de realizar um dos maiores golpes em meio a um evento tão conhecido e segurado por tecnologia de ponta e equipes altamente treinadas. Tudo bem que pouco importaria o plano, ou pouco importaria a forma de realizá-lo, ou que ignorar os absurdos é quase uma obrigação na série, mas enquanto Soderbergh conseguia distrair o espectador dos defeitos dando ênfase no charme natural do elenco, na química entre eles e no bom humor quase que improvisado, aqui Gary Ross se importa apenas na ênfase da beleza maquiada, acentuando a monotonia e abolindo qualquer resquício de graça ou irreverência que qualquer atriz pudesse ter.

Embora Bullock e Cate Blanchett sempre roubem as cenas por, sem dúvida, serem os maiores nomes do elenco e terem uma presença naturalmente imponente frente as câmeras, é impossível deixar de acreditar que seja o filme mais fraco da carreira de ambas quando os créditos finais aparecem. Estão visualmente desinspiradas, um tanto decepcionadas entre aquilo que parecia uma excelente proposta com aquilo que se tornou o filme de fato, mas que tiveram que seguir até o fim por questões contratuais.

Se ao menos a edição fosse um pouco mais dinâmica, como são os filmes de Soderbergh, se o mesmo formato narrativo com sobreposição e recortes de imagem tivesse sido usado, e o tempo do filme não fosse tão errado, talvez nada soasse tão arrastado ou uma mera tentativa de alguma coisa como ele é.

É aquela sensação de sabotagem que vez ou outra temos, uma impressão de que algo propositalmente errado sempre é feito no meio daquilo que poderia dar muito certo para que o filme seja vendável, mas não se torne memorável para não fortalecer uma idéia.

No caso, a idéia de que um elenco feminino poderia ter feito algo definitivamente melhor.

domingo, 23 de setembro de 2018

EMOCIONALMENTE CONSISTENTE...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Maniac
Ano: 2018
Gênero: Drama, Fantasia, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Jonah Hill, Emma Stone, Justin Theroux, Sonoya Mizuno, Sally Field
País: Estados Unidos
Duração: 60 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Dois estranhos se cadastram em uma empresa farmacêutica para realizarem uma série de testes com um droga em desenvolvimento que promete curar todos seus problemas.

O QUE TENHO A DIZER...
Ao contrário do que se pode imaginar, Maniac não é uma idéia original, mas uma adaptação norteamericana de uma série norueguesa de mesmo nome. Na série original, Espen é o personagem principal, uma pessoa que todo mundo gosta. Um cara agradável e que sempre encontra soluções para tudo. Mas na verdade isso é o que se passa dentro de sua cabeça por conta de um tratamento psiquiátrico no qual está submetido, já que ser Espen na vida real é completamente o oposto.

Com algumas mudanças aqui e ali, mantendo (talvez) a mesma premissa, nesta adaptação conheceremos Owen (Jonah Hill) e Annie (Emma Stone), dois estranhos que não se conhecem e que de alguma forma se encontram desconectados do mundo real. Owen por sofrer de esquizofrênia e despersonalização, e Annie por ter depressão e comportamento autodestrutivo. Os dois vão parar em uma empresa farmacêutica que está recrutando pessoas dispostas a realizar uma série de testes para o desenvolvimento de uma nova droga. Owen porque acredita que possa ser curado de seu problema, e Annie porque simplesmente quer ter acesso à substância e continuar vivendo no mundo do nada.

Maniac, embora possa ser carregado de momentos dramáticos honestos por conta da beleza e sutileza com que desenvolve os protagonistas, e principalmente pela interpretação atenta a detalhes tanto de Emma Stone como de Jonah Hill (o cara simplesmente domina todas as cenas), também tem seus momentos de humor negro. Mas seu foco é, desde o princípio, dissertar sobre a fantasia e imaginação humana, e como de perto realmente nenhuma pessoa é normal, ao mesmo tempo que é essa complexidade que nos faz humanos.

Dirigido e escrito por Cary Fukunaga, criador do premiado True Detective, da HBO, e também por ter dirigido uma das primeiras grandes produções originais do Netflix, Beasts Of No Nation (2015), já podemos imaginar que densidade é o que não vai faltar. Só que ao contrário de seus outros trabalhos, aqui ele alivia a mão da realidade e mergulha de cabeça numa imaginação fundamentada em preceitos psicoanalíticos de transtornos psicóticos e depressivos, como a esquizofrenia, paranóia, pânico, egocentrismo, dentre outros, para desenvolver uma narrativa que, mais do que fantástica, é humana e sobre as diferentes formas que temos de nos encontrar como seres no espaço em que vivemos, e de como nossa mente é capaz de criar esses dispositivos para nos salvar de dores, traumas e angústias, mesmo que para isso se pague o preço caro da incompreensão e do desajuste social.

Há um momento em que um dos personagens diz que ninguém deveria dizer o que a outra pessoa tem antes que ela mesma descubra. A razão nessa afirmação é porque, além de cruel, é como rotular e lacrar aquilo que aquela pessoa será para o resto da vida, ao contrário daquela que, quando descobre por si só, não apenas tenta encontrar as razões, mas aprende a conviver com o problema ao invés de querer encontrar uma cura para ele que não existe, com a própria Annie chega a afirmar em um determinado momento.

O seriado é construído exatamente para uma plataforma streaming, daquela maneira em que ninguém consegue desgrudar os olhos dele enquanto não chegar no último episódio. Não porque ele realmente seja tão intrigante assim ao ponto de fazê-lo naturalmente, mas porque o formato e a maneira como seus episódios se apresentam obriga o espectador a isso.

Os primeiros episódios prendem a atenção, os episódios centrais enchem a linguiça necessária para dar conteúdo a 10 episódios, e os episódios finais vão direto ao ponto que o espectador espera quando a sensação de que nada mais faz sentido, ou de que a história esteja repetindo os mesmos temas, mas com outras roupas, começa a surgir.

E esse é o grande problema da produção que, por se tratar de uma minissérie (com começo e fim declarado, pelo menos até segunda ordem), poderia ter sido mais enxuta. Todos os devaneios das histórias fantasiosas que é desenvolvida nos episódios centrais, que vagam desde O Fantástico Mundo do Dr. Parnassus até Matrix, tem fundamento em suas repetitividades, mas novamente falham, como no filme A Origem, em tentar transportar o espectador para um mundo onde a lógica e a razão não existem, apenas os simbolismos e as emoções. Os sonhos policiais, aventurescos e misteriosos que ocorrem se tornam esquetes com apenas alguns detalhes da vida dos protagonistas que já tínhamos visto antes para sabermos que seus devaneios nada mais são do que resgates disso, ao invés de nos dar uma sensação mais consistente de que alguma compreensão de suas vidas de fato esteja acontecendo. Momentos desconexos de toda a maravilhosa introdução, ou dos muito bem construídos episódios iniciais e finais que, quando agrupados, oferecem um resultado melhor do que a série em toda sua integralidade. Esses devaneios tolos não deixam de ser divertidos e até emocionantes, mas dispersam do delicado e complexo tema principal, aquele que a gente só vai lembrar que existe no fim.

O bom é que, mesmo com muitos desenvolvimentos desnecessários, existe um charme visual na produção que é o atrativo extra de um mundo que soa esquisito, mas identificável; simplório e distante, mas confortável. Nada de ficções científicas e biotecnologia invasiva. A inteligência artificial existe e está difundida como estão nos celulares, mas a maneira devastadora como ela é retratada em outros filmes é amenizada até mesmo quando a impressão que se tem é que veremos novamente mais uma assustadora sabotagem, como a do computador Hal em 2001.

Seja nos equipamentos eletrônicos datados, porém com funcionalidades extremamente atuais, numa total contravenção ao cyberpunk 80tista; seja uma homenagem os seriados japoneses igualmente dos anos 80 (os conhecidos Tokusatsus), cheios de personagens caricatos, expressividade exagerada e cientistas malucos mergulhados em laboratórios cobertos de botões e fios elétricos; serão esses elementos, assim como o proposital amadorismo de algumas cenas, que fazem o seriado ser uma divagação leve sobre a psiquê e o comportamento humano, e não aquela masturbação mental massante e cansativa. Até os raros momentos violentos não soam violentos, mas sátiras desse gênero, como no episódio em que um personagem vira uma peneira com tantos tiros. A situação é tão caricata que é impossível conter a gargalhada.

Agora, nada melhor para complementar o cuidado visual do que uma trilha sonora memorável. E nesse quesito, Dan Romer, o compositor responsável, consegue o maior êxito (e um dos maiores cartões de visita do seriado) que é, obviamente, unir o som e a imagem, amarrando com coerência e transformando tudo isso em uma enxurrada sinestésica, onde as diferentes sensações são sentidas desde aquele crescente instrumental que parece que vai arrebentar o peito, até aquele violino de arrepiar o fio do cabelo. Momentos que aumentam a tensão e a expectativa, da mesma forma que aumentam sentimentos dramáticos e motivantes. A trilha sonora é realmente mágica na sua simplicidade e em toda a excêntrica fotografia.

E são essas coisas que, apesar de Maniac muitas vezes escorregar no seu timing e até mesmo exagerar no seu conteúdo, ainda sim consegue ser um entretenimento delicado e emocionalmente consistente sem ser piegas ou melodramático. Uma viagem com um esquisito glamour sobre a dificuldade de ser o que somos.

sábado, 22 de setembro de 2018

E O TRIOZINHO VOLTA...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Tully
Ano: 2018
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Jason Reitman
Elenco: Charlize Theron, Mackenzie Davis, Ron Livingston, Mark Duplass
País: Estados Unidos
Duração: 95 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma babá noturna é contratada para ajudar com o filho recém nascido de uma mãe de três.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando Jason Reitman leu o roteiro de Juno (2007), ele quis dirigí-lo imediatamente. O filme foi um sucesso surpresa na carreira do diretor, e catapultou Diablo Cody de ex-stripper e jornalista a uma das roteiristas mais promissoras de Hollywood ao ganhar o Oscar por Melhor Roteiro Original em sua estréia.

Com um seriado premiado (United States Of Tara, 2009) e um filme de horror adolescente fracassado depois (Jennifer's Body, 2009), Cody não parecia ter a ascenção que esperavam. Reitman continuou acreditando, e persistiu na parceria, dirigindo em seguida Jovens Adultos (2011), também estrelado por Charlize Theron.

Aqui o trio Cody, Reitman e Theron se repete pela segunda vez. O que não é ruim, pois embora o filme anterior acabe tendo seus momentos claudicantes, Theron sempre (e sempre mesmo) sabe o que fazer em frente uma câmera; Reitman sempre sabe ser dirigido pelos seus atores mais do que ele dirigí-los; e Cody...

... bom, Diablo Cody é uma roteirista que sabe criar personagens complexos (ou ao menos tenta). Multifacetados, cheios de camadas dramáticas, que vagam entre o cativante e o antipático nas mesmas passadas. Todos sempre baseados em figuras reais e experiências pessoais. Eles nunca sofrem glamourizações desnecessárias, ou um excesso de banho Hollywoodiano para serem aquilo que não pretendem e não devem ser. Em nenhum momento seus personagens forçam empatia com o público.

Não é à toa que a personagem de Theron em Jovens é irritante, inconveniente e afrontosa, mas nem por isso deixa de ser cativante porque seus comportamentos vem de traumas e experiências desagradáveis que teve na vida, o que a faz ser compreensível, mas não necessariamente simpática, mas naturalmente cria uma conexão com o espectador em algum momento ou outro. Até mesmo no grande erro que é Ricki And The Flash (2015), a personagem de Meryl Streep é bem dosada nos mesmos princípios, ou Juno, a menina dos olhos de Cody, de uma petulância que consegue tirar qualquer um do eixo por ser inteligente, porém adolescente. E para quem assistiu United States Of Tara, essas multicamadas são explicitas na satírica e metafórica dissociação de personalidades da personagem de Toni Collette. E nessas construções conseguimos entender as motivações e desmotivações de cada um.

Mas ao mesmo tempo que na teoria tudo parece muito bem estruturado, a execução nem sempre é tão virtuosa assim porque Cody costuma desviar seus focos de atenção para situações um tanto peculiares, querendo muitas vezes construir análises observacionais de uma sociedade norteamericana esquizofrênica, histérica, estereotipada, acomodada, preguiçosa e pessimista. Pois é, uma complexidade bonita no tema, mas que ela não consegue valorizar como deveria por imprimir visões bastante particulares, ao invés de trabalhar dentro de uma linguagem mais universal e linear para uma assimilação que não precisa ser didática, mas poderia ser mais direta.

As idéias e os comportamentos contraditórios dos personagens conseguem exercer esse papel autoreflexivo, e suas histórias, que sempre são representações de um pedaço da vida do personagem (o estilo narrativo conhecido como "slice of life"), muitas vezes tentam seguir tão à risca essa premissa que as rotinas daquele momento da vida escolhido para construir a narrativa não só é dispensável como também se tornam monótonas. E quando ela arrisca se aprofundar mais em algum drama ou alguma situação mais consistente e que fuja do cotidiano de pessoas comuns, como acontece aqui, a resolução não se mostra tão grandiosa quanto poderia, porque não se encaixam com a realidade que ela cria.

Como dito, Theron sabe o que fazer. Aqui ela não está irreconhecível como em Monster (2003), mas faz questão de sair da pose de estrela ao se ultra caracterizar para a personagem, engordado 20 quilos, usando moletom e pouca maquiagem, tentando ser como a mais comum das pessoas que você poderia encontrar no dia a dia. E mesmo assim, é impossível desgrudar os olhos dela e de seu talento que é nato e hipnotizante (sem falar da beleza) que chega a ser constrangedor comentar porque parece tietagem avulsa, mas não é.

Marlo (Theron) é mãe de três filhos: uma garota mais velha, um filho do meio com um grau brando de autismo ou algo do tipo, e uma recém nascida. Ela é a típica mãe e dona de casa norteamericana, que ama seu marido e que faz de tudo para seus filhos. Mas depois de ter sofrido de depressão pós-parto com o segundo filho, ela agora tem indícios de stress cumulativo. É nesse momento que entra Tully, a personagem de Mackenzie Davis, uma babá noturna que seu irmão rico deu de presente para que ela tenha, ao menos, noites bem dormidas.

Nesse momento a virtude de Cody entra, porque ela realmente aborda temas extremamente atuais e que a sociedade recrimina, como a depressão pós parto, a sobrecarga feminina dentro do conceito familiar, a imposição social de que mães nunca devem criticar a maternidade, dentre outros subtemas importantes, como o despreparo e a falta de informação da sociedade e até mesmo da própria família frente a um filho problemático, porque em nenhum momento o filme diz o que seu filho tem, e tampouco a protagonista sabe, como chega a demonstrar em um determinado momento.

É também uma analise feminina sobre a mulher moderna que não evoluiu na mesma dinâmica que a sociedade, que abriu mão de valores essenciais que cultivava por auto negação e até um pouco pela falta de indulgência própria. E ela o faz até com bastante delicadeza, mostrando que tudo isso, somado e multiplicado, pode ser uma bomba relógio na vida de uma mãe e de uma mulher que até pode ser casada e acreditar ser feliz na situação que está, mas faz uma caminhada isolada e solitária de sustentação familiar dentro de uma cultura ultrapassada sem sequer notar nada disso.

Só que quando Tully entra em cena, e que deveria ser o momento em que a história poderia incrementar seu ritmo e dar consistência em tudo aquilo que ela já havia apresentado, ou até mesmo a questionar a própria existência da protagonista de maneira mais direta e funcional, o filme perde seu tom. É Cody voltando a divagar sobre coisas que nada agregam. Discussões tolas sobre o dia a dia e desenvolvimentos banais que vão e vêm sobre uma rotina que o espectador podia construir na imaginação, sendo desnecessário esse didatismo. Funciona sobre o ponto de vista da personagem, mas não funciona diretamente sobre o ponto de vista do espectador.

O que posso dizer é que quando o filme atinge o ápice da sua história tudo isso fará mais de sentido, mas o espectador já está tão entediado que a resolução não chega a ser surpreendente como poderia.

Tully, que deveria ser uma personagem motivadora, que confrontasse os medos e receios de Marlo e que definitivamente mostrasse que nunca é tarde demais para resgatar coisas que se perderam com o tempo, é apenas uma faceta linear, sem grande expressividade, que apenas se mostra cansativa e intrometida quando em cena, e seus reais propósitos na trama se apagam, quando deveriam fazer exatamente o oposto.

Não é um filme ruim, mas tem aquele cansaço de Diablo Cody que sempre permeia suas histórias, e assim como Reitman sempre permite nos seus filmes com ela.

Outra vez uma história definitivamente maternal, sobre a maternidade e sobre o comportamento feminino. Se em Juno ela divaga sobre a maternidade precoce ao mesmo tempo que a adolescente se descobre mulher, aqui ela divaga sobre a maternidade tardia pelo lado de fora do arco-íris e sobre a redescoberta feminina. E claro, sobrando espaço para reflexões humanas, mesmo que por vezes banais, mas fundamentais para a sociedade.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

QUANDO MUITA COISA FALTA...

★★★★★☆☆☆☆☆
Título: Geek
Ano: 2017
Gênero: Documentário, Jornalístico
Classificação: Livre
Direção: Carla Albuquerque
Elenco: Vários
País: Brasil
Duração: 22 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
O que é ser geek? É isso o que a série vai tentar esclarecer ao longo de oito temas que fazem parte deste universo que parece complexo, mas que todo mundo tem um pouco dentro de si.

O QUE TENHO A DIZER...

Geek é o termo atual que define todo aquele tipo de pessoa que se interessa e aprofunda seu conhecimento por coisas específicas, incomuns, complexas, peculiares, pouco difundidas ou até bastante conhecidas, mas compreendidas além do superficial. Seja amador ou entusiasta, embora não sejam assuntos ou comportamentos de massa, mas de nichos, grande parte envolve a cultura pop em geral e que acaba atingindo a massa de uma maneira ou de outra. Jogos de tabuleiro ou eletrônicos, cinema e TV, livros e histórias em quadrinhos, moda, música, culturas, coleções ou época específicas... Não existe limite para aquele que se considera tal.

A série, produzida pela brasileira Medialand, mostra um pouco dessa cultura, mas não consegue desmistificar alguns preconceitos sobre esse universo dominado por assuntos tão específicos que não somente inundam o imaginário de quem se alimenta dele, como também atuam como combustíveis criativos para quem vive dele.

Não significa necessariamente que a produção tinha esse objetivo, mas deveria, já que para se compreender um assunto devemos ser mergulhados em sua origem e concepção. Embora a produtora, encabeçada por Carla Albuquerque e Beto Ribeiro, tenha um vasto currículo de produções, muitas delas são de qualidade bastante duvidosa. É o que acontece com a recém aderida pelo Netflix, Velhas Amigas. Mesmo duas produções de teor completamente diferentes, onde uma é uma mistura debochada de drama e comédia da pior espécie e a outra uma série mais jornalística do que documental, os defeitos e problemas se mostram os mesmos: a falta de um roteiro consistente, de uma produção mais polida e caprichada. Detalhes que definitivamente tirariam essa sensação de produto amador ou improvisado, feito de última hora apenas para entregar algo encomendado e garantir os incentivos e fundos conquistados.

Aqui a coisa se torna até mais séria quando, na falta de um conteúdo mais consistente, a edição reutiliza imagens numa repetitividade que não aconteceria em um produto bem pensado e desenvolvido, como acontece numa frequência até irritante no último episódio, em que no meio de uma entrevista que nunca sai do mesmo lugar, e no meio de uma vasta coleção de action figures que deixaria qualquer geek enlouquecido, o que vemos é mais de 20 minutos de imagens que se repetem na mesma proporção que o entrevistado: um investigador e sua evidente obsessão militar.

Óbvio, não é o entrevistado o culpado, mas a produção que não tinha um briefing consistente para o episódio, um roteiro definido e, muito menos, uma edição efetiva o suficiente pra dar suculência no material e peneirar aquilo que o espectador não precisa saber.

A intenção de se aprofundar no universo Geek nunca se mostra tão consistente como, em partes, a série Brinquedos Que Marcaram Época, também no serviço de streaming, consegue. Uma produção norteamericana igualmente simples, que trata de um tema recorrente desse universo, mas com uma relevância documental muito mais segura e que deveria ter sido levada como referência.

Aqui tudo é tratado com muita superficialidade, baseado apenas em relatos que são interessantes, mas não é criada qualquer introdução ou contexto em volta. Há muita pouca pesquisa, menos ainda sobre a história que envolve o tema abordado em cada episódio, como a origem do assunto, o impacto dele localmente e no mundo, a maneira como a massa é influenciada por aquilo, ou como aquilo chega até a massa, etc.

Tudo começa com o primeiro episódio, em que dão destaque à história profissional de Ivan Reis, mas não mostram nada além do que está exposto ao seu redor. Ivan, que é um dos mais renomados e importantes desenhistas da DC Comics, não deveria ser o único a ser entrevistado, já que temos diversos outros brasileiros respeitadíssimos nessa indústria, como Joe Bennett ou Mike Deodato, só pra citar alguns. Não que apenas a historia de Ivan não seja interessante, mas se aprofundar mais no interesse de saber como o cenário brasileiro começou a fazer parte de um mercado internacional tão complexo e competitivo teria sido motivador e um grande diferencial.

Os demais episódios se perdem da mesma forma. Se esquecem do propósito esclarecedor pra se tornar uma matéria jornalística simplista e comum.

A produção não se atenta em nenhum momento em criar uma narrativa que aproxime o espectador do assunto, e que o faça compreender que além da excentricidade, existe uma grande importância sociocultural que envolve o comportamento. Seja na cultura gamer ou gráfica, cinematográfica ou literária, existe um grupismo ou uma individualidade saudável e produtiva. O que se assiste é algo que parece específico para quem já conhece o assunto, e não um conteúdo, de fato, informativo e agregador.

Não adianta querer se autodenominar uma série documental quando não é sequer esclarecido ao espectador o que seja, por exemplo, a Comic Con, como acontece no terceiro episódio. Ao invés disso, soltaram um personagem de uma das próprias produções B da Medialand para sair entrevistando pessoas aleatórias como uma esquete improvisada. Pode ser cômico, mas não tem coerência, além de zero consistência sobre um evento mundialmente conhecido e que foi se popularizar no país apenas nessa década. Um episódio que poderia ter, sim, tido seu lado cômico, mas uma narrativa documental nele teria sido essencial. Para piorar, o nome da feira sequer é citado no episódio, talvez porque sequer foram atrás de autorização para filmagem, pois é isso que faz parecer.

Essa atitude um tanto aleatória e alienada da série apenas reforça a imagem esquisita e desconexa da realidade que o tema aderiu com o tempo e que tanto se fortalece entre aqueles não familiarizados com ele, ao invés de mostrar que a feira, por exemplo, seja a consequência de indústrias da cultura e do entretenimento que movimentam milhões porque finalmente resolveram dar relevância a um grupo que sobreviveu pelas sombras da exclusão por muito tempo.

O mesmo acontece sobre o episódio que trata dos jogos de tabuleiro e de RPGs de mesa. O que são jogos de tabuleiro? O que são RPGs? Onde essas pessoas se encontram para isso? De onde veio essa cultura ou desde quando ela existe com consistência? Que mercado é esse? Nada disso é respondido. Novamente, o que se vê são pessoas aleatórias relatando experiências que, para quem não é familiarizado, irá interpretar a situação como um bando de gente esquisita, desocupada e hedonista.

Alguma coisa um pouco diferente acontece no episódio em que os fundadores do canal Overloadr e do arcade house VR Games são entrevistados. Eles conseguem dar aquela consistência necessária ao conteúdo por mérito próprio, e não porque a direção ou o roteiro da produção foi efetivo. Eles próprios tomam a iniciativa de não apenas darem seus relatos pessoais, mas contar um pouco da história de como tudo começou, de como as idéias para o arcade house ou para o canal surgiram, a qual nicho eles pertencem e quem é o público atingido. Esclarecedor de uma forma que 80% da produção deveria ser, mas não é.

O resultado de tudo não chega a ser desinteressante ou constrangedor como a maioria das demais produções da Medialand constumam ser, mas está longe de ter uma consistência necessária para corresponder com a proposta informativa que o desconhecido termo exigiria. Seria adequado como um quadro especial do Fantástico, mas não como um conteúdo exclusivo do Netflix, o que demostra que a empresa tenha endossado o projeto mais para inflar a quantidade de produções locais em seu catálogo do que por querer investir em conteúdo de qualidade de fato.

Novamente é uma pena uma produtora independente ter o interesse em produzir conteúdo diferenciado, conseguir captar recursos através de incentivos e fundos governamentais, mas não atingir um nível de qualidade que poderia. Ao invés disso, cai na mesmice e simplicidade dignas de estudantes de cinema realizando um projeto para a média do bimestre.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

ENTREGUE COMO PROMETIDO...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Os Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War)
Ano: 2018
Gênero: Ação, Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: Anthony Russo, Joe Russo
Elenco: Chris Hemsworth, Robert Downey Jr., Scarlett Johanson, Chris Pratt, Josh Brolin, Chris Evans
País: Estados Unidos
Duração: 149 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Para colocar o seu plano em prática, Thanos agora segue atrás das Pedras do Infinito e daqueles que as protegem.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando era criança eu preferia Flashman a Changeman, dois seriados japoneses do estilo Tokusatsu, febres nos anos 90. Ambos eram parecidos, similares nos 5 personagens que usavam macacões coloridos e capacete.

Mas minha preferência era baseada em uma única situação: os Flashman são derrotados.

No 15º episódio o monstro Zas Konder não apenas dá uma bela surra no grupo como deixa em migalhas o robô gigante do Comando Estelar, simbolo do poder e força da equipe. A derrota feriu o orgulho do grupo, e deprimidos pela tragédia, chegaram até a questionar valores heroicos.

Essa fase dos Flashman, que durou alguns episódios, é a minha preferida, e a definição daquilo que me faz apreciá-los mais do que qualquer outra série Super Sentai que existiu, não porque eles perderam, mas porque era uma novidade, uma quebra do enjoativo padrão narrativo de que nenhum herói é passível de derrota.

Essa é uma razão para eu também achar a série animada dos X-Men, de 1992, um dos melhores desenhos animados do gênero, pois também nunca escondeu as fraquezas e derrotas de seus heróis.

Logo, não é à toa que Guerra Infinita pode até ser o filme "menos Vingadores" dos Vingadores, mas sem dúvida é o mais respeitável deles se partirmos por esse ponto de vista trágico do qual todos sempre foram poupados até então.

Isso pode soar como um grande spoiler, mas nessa altura do campeonato não tem uma pessoa no mundo que não saiba do que o filme se trata, ao menos para aqueles que acompanharam o mínimo possível do Universo Marvel no cinema por esses 10 anos, ou conheça o básico da Marvel nos quadrinhos.

Claro que Guerra Infinita alimentou os mais profundos medos dos fãs ao longo de toda essa década de cultivo, principalmente sobre qual herói iria ou não ser afetado por este evento que, mais do que físico, também é moral.

A derrota de qualquer herói pode muitas vezes ser sentida como a perda de alguém próximo e que temos confiança, como foi com o emocionante final de Logan (2017). Pode parecer comédia, como quando Superman morre em A Origem da Justiça (2016). Pode também levar à revolta, como quando Charles Xavier é simplesmente desintegrado por Fênix logo na fabulosa sequência inicial de X-Men - O Confronto Final (2006), uma das poucas coisas que tenham funcionado nesse filme, diga-se de passagem, mesmo que não muito apreciado.

Derrotar, matar, ou até mesmo maquinar um genocídio quase apocalíptico entre heróis é sempre um movimento tenso no tabuleiro de xadrez da cultura pop, mas o que Guerra Inifita propõe não é mostrar a fraqueza de seus personagens, mas torná-los mais fortes depois disso. É isso o que a história quer nos passar.

Agora, a intenção real é chegar ao tão aguardado fim de um ciclo que a Marvel inaugurou no cinema em 2008 e dar início a outro, para uma nova geração. Assim as eras são renovadas tal como também acontece nos quadrinhos.

Este terceiro filme oferece tudo aquilo que todo mundo esperou, menos uma grande reunião de heróis, no sentido de grupo e unidade, com o título nos faz compreender. Para quem esperava um grande trabalho em equipe, organizado e sincronizado tal qual é visto na sequência inicial e final de A Era de Ultron, ficará um tanto decepcionado porque temos basicamente três filmes distintos em um só. Tem o filme Capitão América Visita Wakanda, o filme Homem de Ferro no Planeta Inóspito e Thor Perdido no Espaço. Fica livre ao espectador escolher ir para o banheiro no meio daquele que menos lhe interessar. E esse excesso é sentido nas quase duas horas e meia de filme.

Brincadeiras à parte, essa distinção de cenários novamente tem duas razões. Na razão lógica, seria muito confuso enfiar tantos personagens em um mesmo cenário. No primeiro e segundo filmes até funcionou, mas agora o número de heróis duplicou, seria muita informação de uma vez só, o que foi evitado. Na razão narrativa, isso tudo é consequência da grande catástrofe separatista que ocorreu em Capitão América - Guerra Civil, também conhecido como a sequência não oficial d'Os Vingadores

É nessas horas que percebemos como todo o universo cinematográfico da Marvel foi muito bem planejado, e como o desenvolvimento das histórias de todos seus filmes apresentam uma progressão convincente. Aqui a premissa deixada pelo último filme do Capitão é mantida, dando a constante sensação do impacto que a dissolução do grupo trouxe na dinâmica de heróis que não conseguem mais dialogar a partir do momento que a diferença de ideais falou mais alto do que o bem comum. Ao mesmo tempo, esses mesmo heróis não conseguem encontrar identidade com outros grupos ou indivíduos, como acontece quando Thor se depara com os Guardiões, ou quando Tony Stark se encontra com Doutor Estranho. Situações inconvenientes onde todos querem falar a mesma coisa, mas nunca usam a mesma língua.

Enquanto isso Thanos se aproveita dessas brechas para traçar seu ambicioso plano de manutenção do Universo (e não de destruição, segundo ele) que, apesar dos pesares, tem um certo sentido dentro da realidade distorcida do personagem, mas que o roteiro não consegue desenvolver ao ponto dele se transformar em um vilão mal compreendido, ou em um vilão em conflito, aquele tipo que até tem uma atitude nobre, mas extremista ao ponto do inaceitável. Por mais que o roteiro tente criar momentos de empatia com o vilão para desenvolver esse seu lado mais emocional, como na sua relação com Gamorra, a intenção falha, e sempre voltamos a odiar Thanos porque temos que odiá-lo e nada mais.

Sem dúvida que levar a crueldade de Thanos e sua impiedosa personalidade para uma franquia familiar foi como andar em corda bamba, e por mais que seja um personagem digital, Josh Brolin conseguiu imprimir uma personalidade nele que não apenas zomba da fraqueza de seus inimigos como também faz questão de demonstrar não sentir um pingo de graça ou empatia com piadinhas fora de hora, o que pode ser levado até como uma metacrítica não só nos dois filmes anteriores dirigidos por Joss Whedon, mas também algo que vinha incomodando muito nos últimos filmes da Marvel.

A escolhas dos irmãos Russo para dirigir Guerra Inifita foi certeira. Eles aboliram tudo aquilo que não funcionou com Joss Whedon, principalmente na velocidade das cenas que era tão rápida ao ponto de não se compreender quem era quem ou o quê. Toda aquela sobriedade e seriedade de Soldado Invernal e Guerra Civil foram bem portadas, ao mesmo tempo que adequaram essa identidade para um público mais abrangente, sem cair na demanda da ação absurda e escapista que Taika Waititi fez em Thor: Ragnarok, e que de fato preocupou muita gente. Até porque seria muito personagem piadista em um único elenco. Já tem o Tony Stark de Robert Downey Jr. que definitivamente é um excesso por si só, seguido do novo Homem Aranha de Tom Holland em uma hiperatividade juvenil irritante. Tem o sempre bem humorado e motivado guardião Peter Quill, além do mais novo "mestre" do improviso e da piada pronta chamado Thor e, por último, Bruce Banner, que a cada novo filme se torna mais patético. Ou seja, tinha tudo pra dar errado se não tivessem sido bem dosados pelos roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely, os mesmos de Guerra Civil também.

Tem os momentos absurdos de sempre, como Thor falar no espaço, Tony Stark sobreviver depois de Thanos literalmente arremessar uma lua em cima dele, ou o campo de força de Wakanda suportar um impacto meteórico de uma nave, mas não conseguir resistir uma horda de extraterrestres. Absurdos esquecíveis, mas que a gente não deveria ser obrigado a ver em um projeto que ficou por 10 anos em uma encubadora, custou mais de US$350 milhões e já arrecadou quase US$2 bilhões no mundo com um mês de exibição.

Por mais que seja tudo aquilo que os fãs respeitosamente podem esperar, Guerra Infinita está longe de ser perfeito ou tão bom e empolgante quanto o primeiro da série, mas depois de Pantera Negra, é mais uma prova de que a Marvel, como toda boa indústria, se adequa aos tempos modernos, e resgatar certa sobriedade se mostrava uma necessidade.

Sem contar que ainda é apenas o penúltimo capítulo do fim de uma era. A princípio era para ser um filme dividido em duas partes, mas por razões inexplicáveis decidiram transformar a saga definitivamente em uma tetralogia. Não que essa mudança muda consideravelmente alguma coisa além de que novos conceitos poderão ser apresentados. E se você assistir assim como eu, que por momentos acreditou que o que tudo que acontecia poderia ser uma pegadinha do Loki, ficará mais surpreso ainda ao descobrir que, não... não é.

E, sim, se você leu em vários lugares que Guerra Infinita é um episódio de mudanças drásticas no Universo Cinematográfico da Marvel, acredite nisso. É um mistério, uma dúvida e uma incógnita até agradável o que virá depois dele.
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