Translate

Mostrando postagens com marcador Ryan Reynolds. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ryan Reynolds. Mostrar todas as postagens

sábado, 20 de outubro de 2018

PRATO CHEIO PRA QUEM GOSTA...

★★★★★★★★☆
Título: Deadpool 2
Ano: 2018
Gênero: Ação, Comédia, Super Herói
Classificação: 16 anos
Direção: David Leitch
Elenco: Ryan Reynolds, Morena Baccarin, Josh Brolin, Julian Dennison, Zazie Beetz
País: Estados Unidos
Duração: 119 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Deadpool agora se engaja em montar sua própria equipe para proteger um garoto poderoso de um exterminador do futuro.

O QUE TENHO A DIZER...
Deadpool é a paródia e a sátira, o chulo e o escracho. Por esses motivos, consegue ser uma das adaptações de quadrinhos mais fiéis, com os personagens mais fiéis, porque tem a liberdade de ser exagerado na tela sem a necessidade daquela releitura mais realista e humanizada que a linguagem do cinema muitas vezes pede para não soar absurda, por mais absurda que possa ser. Esse é, indiscutivelmente, o maior mérito tanto deste filme, como do anterior.

Desde o primeiro filme, a produção evita ser séria demais e perder suas características, ou ser leve demais e perder todo o teor politicamente incorreto que é a razão de sua existência. Muito questiona-se a necessidade da linguagem chula ou do excesso de violência, mas isso acontece porque Deadpool é, em sua essência, a voz dentro desse universo daqueles que não gostam do estilo, ao mesmo tempo que também expressa o lado pseudo-crítico daqueles que gostam. A metacrítica propriamente dita. Por isso a paródia, o desdém, a sátira e a incredulidade tão presentes.

Mas é possivel sentir nesta continuação que, embora o primeiro filme tenha sido um sucesso inesperado, garantindo esta sequência, não foi possível evitar um banhinho de sutileza.

Quando comparado com o primeiro filme, a boca era muito mais suja, a violência era muito mais explícita e sanguinolenta e absolutamente nada era sério o bastante. Dessa vez, mesmo tendo tudo isso, o volume diminuído. Bem pouco, mas foi. É como dizer: podemos ouvir alto, mas não precisamos ficar surdos.

Para quem esperava mais do mesmo excesso do primeiro, poderá ter alguma decepção. Mas acredito que se a sequência tivesse mantido elevado os mesmos elementos, seria como uma piada contada mil vezes, ao contrário de uma renovação da fórmula que deu certo, que é o que ocorre aqui, pegando o espectador de surpresa muitas vezes.

Reynolds novamente produz, mas agora é creditado como roteirista, coisa que ele não foi no primeiro, mesmo tendo sido peça fundamental. Apesar de pouca coisa ter mudado no comportamento do anti-herói, ele nunca é descaracterizado, e esse é outro mérito.

Não se pode falar muito sobre a história porque qualquer coisa a ser falada é estragar as surpresas mesmo já tendo um bom tempo que o filme foi lançado porque Reynolds fez um trabalho novamente cheio de piadas com referencias diretas e indiretas, seja dentro do universo Marvel, seja no DC, ou da cultura popular em geral. É impossível não achar interessante as referências feitas pois, além de serem bem colocadas, mostram como a própria cultura (util ou inútil) é sempre vulnerável ao humor, algo que até então parecia um tabu em filmes que não fossem estruturalmente uma sátira. Sim, como falei no princípio, Deadpool também é uma sátira, mas ele sobreviveria sem isso, o que não aconteceria com filmes desse gênero, como a série Todo Mundo Em Pânico, Top Gangue, ou a clássica Corra Que a Policia Vem Aí.

O filme perde um pouco do tom em sua primeira parte, pois cria um quase-drama justificável na vida do personagem. Não estraga a história ou a experiência, mas definitivamente a mudança de direção do primeiro para o segundo filme impactaram na dinâmica de algumas coisas.

A princípio poderá parecer que não estamos assistindo a mesma coisa, mas é na segunda metade que o festival recomeça. As sequências de ação crescem, o humor fica mais universal e os personagens apresentados são tão bem feitos nesse sentido que dispensam desenvolvimento ou profundidade, como é o caso de Cable e Domino. O incômodo é que Colossus não precisava ser um personagem digital o tempo todo. O que salva é sua dublagem e o humor carrancudo do seu texto. Sem isso ele podia ser dispensável. 

Apresentar novos personagens fez outros serem deixados de lado, como é o caso de Negasonic Teenage Warhead (Brianna Hildebrand), que conquistou uma legião de fãs no primeiro filme, mas agora só aparece em uma cena ou outra apenas para dizer que está lá. E só não deixou muita gente desapontada porque Firefist (Julian Dennison) é espetacular e tem presença tal como Negasonic foi no primeiro.

Se tem uma coisa que Deadpool conseguiu fazer é revolucionar o gênero e criar infinitas possibilidades para a história se extender por anos e por sequências sem fim. Conseguiu, principalmente, corrigir erros do passado dentro de sua metacrítica, como na interessantíssima sequência pós-crédito, uma das mais hilárias para os fãs. Sem dúvida a cena que fez a sessão de cinema delirar nas auto-referências tão características do personagem e que Reinolds consegue fazer de maneira certeira.

Nos quadrinhos, o herói surgiu para quebrar a monotonia e tirar a indústria da zona de conforto de maneira desconfortável. Foi uma sacada de gênio dos criadores Fabian Nicieza (escritor) e Rob Liefeld (desenhista), e Reynolds conseguiu se apropriar dessa essência e levá-la com a mesma consistência para a tela.

Deadpool é a diversão do universo mutante que X-Men não foi quando adaptado. Não que os méritos de X-Men não existam. A época era diferente, os receios de adaptações como essa também. Mas não podemos ignorar que seria interessante se algum dia pudéssemos vê-los juntos a Deadpool dessa forma mais cartoonizada e despretenciosa.

Talvez aconteça.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

WHAM! ELE CHEGOU!

★★★★★★★★☆
Título: Deadpool
Ano: 2016
Gênero: Ação, Super Herói
Classificação: 16 anos
Direção: Tim Miller
Elenco: Ryan Reynolds, Morena Baccarin, T.J. Miller, Ed Skrein, Gina Carano
País: Estados Unidos
Duração: 108 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um ex-agende das forças armadas se submete a uma experiência genética na promessa de ser curado de um câncer terminal. A experiência lhe deu superpoderes, mas em compensação o deixou com sequelas físicas e mentais, se tornando um anti herói kamikaze e alienado em busca de vingança.

O QUE TENHO A DIZER...
Desde quando a 20th Century Fox abraçou a Marvel com os X-Men (2000), pouca gente imaginava que 15 anos depois filmes de super heróis não apenas continuariam sendo lucrativos como criaram um novo gênero.

Desde então a mesma fórmula tem sido usada incansavelmente, tudo de forma muito branda para atingir todas as faixas etárias, obviamente serem sucessos de bilheteria e garantirem continuações.

Manter a faixa indicativa baixa sempre destruiu muitos heróis no processo, como aconteceu com o próprio Deadpool em Wolverine (2009).

Mas se a adaptação para o cinema de X-Men dividiu o espaço entre as eras antes e pós o gênero de super-heróis, espera-se que Deadpool agora divida as águas novamente entre filmes desse gênero com censura livre, e aqueles nem tão livres assim.

Isso não significa que seja um filme sério. Pelo contrário, a sério ele não se leva em momento algum a começar pela sequência dos créditos iniciais, tirando sarro de si mesmo, satirizando o gênero da melhor forma possível. Piadas é o que não vão faltar, mas o tom jocoso, chulo e infame realmente não seria o mesmo se o roteiro tivesse sofrido modificações para ser acessível ao público infantojuvenil. O personagem perderia suas características principais que tanto o destaca dos demais.

Deadpool é um anti herói, um mercenário que basicamente surgiu pela admiração do desenhista Rob Liefeld pelos Jovens Titãs, da DC, por isso sua aparência um tanto similar com a do vilão Deathstroke. Quando ele ganhou sua própria revista, seu futuro era incerto, e a constante possibilidade de seu cancelamento fez o roteirista Joe Kelly transformá-lo em uma sátira e uma paródia de todo o universo dos quadrinhos, naquela idéia de que "já que não tem futuro, a gente arregaça". Mas o que aconteceu é que todo esse tom autodestrutivo foi o que chamou atenção, e de repente as revistas de Deadpool começaram a sumir das bancas e a base de fãs havia se consolidado.

Ao ser cobaia de um experimento, o personagem ficou imortal e mentalmente instável, o que fez desse fato uma excelente justificativa para o excessivo uso de palavrões e atitudes que ridicularizam seus inimigos, vítimas das mais mirabolantes e sanguinárias formas de execução, e também de suas piadas chulas recheadas de referências da cultura pop. Aquele tipo de personagem que literalmente samba na carcaça, seja sua ou dos outros, feito para ser irritante e autodepreciativo, que fala o tempo todo até mesmo com seus leitores, quebrando aquilo definido por Denis Diderot no século XIX de "quarta parede".

Essa "quebra" acontece quando um personagem se volta para seu público, falando diretamente com ele, como a que chamar atenção para um fato específico. O uso desse elemento tem várias funcionalidades narrativas, como acontece no recente A Grande Aposta (The Big Short, 2015). É comumente usado na comédia por dar oportunidade para o personagem fazer um parenteses sobre a situação, um comentário extra, esclarecendo um pensamento que os demais personagens desconhecem. Portanto, é qualquer ação em que o personagem dialoga diretamente com o observador, e é o que Deadpool faz com frequência nos quadrinhos quando fala com seus leitores, e que agora também faz com seus espectadores no cinema, lembrando a todo instante que próprio cinema esqueceu que esse elemento existia.

Em planejamento desde 2000, o projeto para o filme sofreu diversas modificações ao longo dos anos, engavetado várias vezes, e o ator Ryan Reynolds entrou nessa história um tanto por acaso. Ele ficou obcecado pelo personagem em 2004, quando lhe deram uma edição dos quadrinhos e ele abriu exatamente na página em que Deadpool se autodescrevia como "o cruzamento de Ryan Reynolds com um cão shar-pei". Aquilo chamou sua atenção, e segundo ele mesmo afirmou, a princípio achou que fosse uma pegadinha ou um sinal divino de que seu futuro seria interpretá-lo. Ele se identificou demais com o humor das histórias, e quando descobriu que o personagem seria incluído no filme Wolverine (2009), convenceu os produtores a darem o papel a ele. Mas a descaracterização foi tão grande que os fãs reagiram negativamente, e desde então Reynolds promoveu a idéia de que Deadpool tivesse um filme próprio para que o erro fosse consertado.

A idéia de um spinoff sempre existiu, mas o produtor Lauren Donner queria que o filme solo do herói fosse o mais fiel possível dos quadrinhos, o que exigia ignorar o que foi apresentado sobre ele em Wolverine e que a classificação etária não fosse menor do que 16 anos, fato que deixou o estúdio relutante porque não era esse o objetivo. Reynolds declarou que quando interpretou o personagem pela primeira vez, sua idéia era completamente diferente, mas que por decisões maiores precisou modificar, e que ele nada pode fazer porque era apenas um ator contratado.

Foi então que em 2012 a equipe de efeitos especiais produziu um curta para testes de pré-produção, e em 2014 esse vídeo vazou na internet. Os fãs foram à loucura, e enquanto o estúdio tentava descobrir quem foi o responsável pelo vazamento do material, a reação positiva foi monstruosa nas redes sociais. A Fox recebeu uma avalanche de e-mails solicitando a realização do filme, e aquilo que parecia um erro se transformou no maior acerto, porque o sucesso do vídeo foi a razão para o estúdio finalmente liberar a verba, dando total independencia e liberdade criativa para a produção. Segundo o ator, os chefes do estúdio basicamente deram o sinal verde não porque realmente queriam fazer o filme, mas porque queriam que os deixassem em paz.

Os custos foram estimados em aproximadamente US$50 milhões, muito inferior do que costuma ser para filmes do gênero. Mas Reynolds estava tão engajado e interessado no personagem há tantos anos que aceitou reduzir seu cachê para favorecer os custos e também entrou como um dos produtores para ter a mesma liberdade criativa e poder interferir no material sempre que achasse necessário.

E não podia ter acontecido coisa melhor. 

O filme é violento, sangrendo, cheio de palavrões e referência sexuais, mas na história das adaptações de quadrinhos na tela, isso nunca caiu tão bem como acontece aqui. Tanto que Reynolds, junto com os roteiristas, deram aos atores liberdade para improviso. São imperceptíveis, pois são naturais como é a linguagem de Deadpool nos quadrinhos.

E se você pensa que o modesto orçamento limita a qualidade, puro engano. Com pouco foi feito muito. As cenas de ação não deixam a dever para nenhum outro filme de grande orçamento, sempre recheadas de efeitos especiais e de câmera, havendo até a inclusão de uma versão digitalizada de Colossos. Colossos pode não ser o melhor exemplo de personagem digital que existe, mas o visual um tanto tosco e cartoonizado neste filme - quando comparado com suas aparições na franquia X-Men - se encaixam muito bem nessa despretenção do filme de ser algo sério.

Ao contrário daquilo que poderia ser com o excesso de piadas, diálogos e quebras de quarta parede, Deadpool não é irritante como consegue ser nos quadrinhos, se transformando em um personagem bastante carismático. Não havia obrigação em desenvolverem uma trama a partir do romance dele com Vanessa (Morena Baccarin), mas o cliché romântico funciona muito bem dentro dessa meta sátira que o personagem vive, ao mesmo tempo que deu oportunidade para Reynolds embutir no personagem uma camada emotiva sutil, como quando descobre estar doente, ou quando é abordado para fazer parte da experiência genética. Essa trama romântica em nada atrapalha a história de vingança e no filme essencialmente de ação que ele é, aliás, nos faz torcer ainda mais para que ela aconteça.

Sem dúvida o persongem boca suja, irreverente, impiedoso e fã do grupo Wham! está lá como está nos quadrinhos. É um filme incorreto por excelência, com coadjuvantes tão incorretos como ele, como seu interesse romântico, que é uma prostituta; seu melhor amigo Weasel (T.J. Miller), que é dono de um bar frequentado por mercenários e criminosos; ou a cega Al (Leslie Uggams), uma senhora viciada em cocaína que divide apartamento com o protagonista. Mas os pontos altos, além da personalidade bipolar e assexuada do personagem (rendendo até uma breve cena de sexo que vai deixar muito machão bolado), sem dúvida são as constantes referências usadas o tempo todo em diálogos ou situações, como quando Wade pede que não lhe deem um traje verde ou digitalizado, em referência a Lanterna Verde, personagem que Reynolds também interpretou e que foi igualmente um fiasco reconhecido até mesmo por ele.

Para quem não tem uma cultura popular muito abrangente, algumas piadas podem não fazer muito sentido, mas tudo foi construído de forma que o humor exista mesmo assim. Até em piadas manjadas e classicas do personagem, como o famoso "murro no saco", conseguem sair daquele pastiche de comédias B. Uma pena que as legendas empobrecem bastante as piadas na tradução, então para quem entende a língua, a experiência será completamente outra.

Acima de tudo é um filme feito para fãs do herói e da cultura pop em geral, mas para quem assitir apenas no interesse de se entreter por ser mais um filme de ação ficará surpreso por Deadpool ser uma antítese ousada e escapista daquilo que ficamos acostumados a ver em filmes de super heróis, tudo ao ponto de querermos que, daqui pra frente, qualquer adaptação siga a mesma despretenção para que a diversão seja garantida até mesmo quando o personagem corta a própria mão para se ver livre de algemas.

Com uma estratégia de marketing inovadora que rendeu aproximadamente 20 vignettes (pequenos vídeos) no YouTube, o resultado de tudo isso é um filme que já rendeu mais de US$260 milhões no mundo em seu primeiro final de semana, o que garantiu sua continuação. O que vem muito a calhar porque ele realmente deixa aquele gosto de quero mais.

CONCLUSÃO...
Se os filmes de heróis já pareciam não ter nenhuma novidade, Deadpool chegou em tempo para provar o contrário e dar abertura para aquilo que faltava no gênero: ousadia e despretensão independente da faixa etária. É um dos raros filmes que provam que uma boa adaptação não precisa de um orçamento exorbitante, mas criatividade, interesse e fidelidade ao material original. Sem dúvida há muito para falar sobre o personagem, mas o filme em si já dispensa maiores detalhes.

sábado, 19 de dezembro de 2015

O PIOR DO ANO...

Título: Sem Retorno (Self/Less)
Ano: 2015
Gênero: Drama, Ação, Ficção
Classificação: 14 anos
Direção: Tarsem Singh
Elenco: Ben Kingsley, Ryan Reynolds, Natalie Martinez, Victor Garber
País: Estados Unidos
Duração: 117 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um poderoso empresário resolve participar de uma experiência biotecnológica em que sua mente será realocada em um outro corpo.

O QUE TENHO A DIZER...
Tarsem é um daqueles diretores que começou a carreira dirigindo vídeos publicitários para marcas como Nike, Motorola, Pepsi, Levi's, dentre outros. Depois foi para vídeos musicais, como o clássico do R.E.M, Losing My Religion. Com essa bagagem ele então estreou no cinema com o filme A Cela (The Cell, 2000), que pode não ser lá grande coisa, mas chamou atenção pela sua luxúria visual, tanto que concorreu ao Oscar de Melhor Maquiagem.

Nascido na Índia, seus trabalhos sempre tiveram influências diversas, principalmente mitológicas, criando mundos à parte em meio a uma surrealidade original que saia de sua cabeça e se materializava magnificamente através dos trabalhos da designer Eiko Ishioka, que faleceu em 2012, pouco tempo depois de finalizar seu último trabalho com o diretor no filme Espelho, Espelho Meu (Mirror, Mirror, 2012), que lógico, concorreu ao Oscar de Melhor Figurino.

Ele também faz parte de uma pequena lista de diretores em atividade que utilizam o surrealismo para fazer disso um elemento narrativo. É fato que Tarsem nunca foi um bom contador de histórias como é Tim Burton ou Wes Anderson, diretores que visualmente se aproximam bastante do mesmo estilo, mas em contraponto sempre teve competência na hora de compor imagens e cenários ricos em cores e formas para complementar os roteiros rasos, como acontece em Imortais (Immortals, 2011), que mesmo fraco não deixa de ser visualmente orgásmico. Mas vale lembrar de Dublê de Anjo (The Fall, 2006), seu filme menos conhecido, mas de longe o melhor por conseguir unir o visual deslumbrante com uma história extremamente lúdica e cheia de sutilezas.

Que a perda de Ishioka impactou diretamente o trabalho de Tarsem, isso é inegável. E infelizmente esse impacto é visto de forma até brutal em Sem Retorno, o produto mais fraco e desprezível que o diretor algum dia ousou fazer porque, em toda sua carreira, seu estilo sempre foi criticado por ser visualmente rico, mas pobre em história e desenvolvimento. E sem ela ele não consegue entregar nem uma coisa e nem outra.

Aqui o diretor se esforça para fugir desse estigma e provar que consegue evoluir sem ostentações visuais. O problema é que tentar isso é fugir de seu estilo, não no sentido de zona de conforto, mas no de identidade. É como se ele estivesse em uma crise de personalidade, tal qual os personagens do filme, e tal qual o filme como um todo.

Tudo começa muito bem enquanto somos apresentados a Damien (Ben Kingsley), um megalomaníaco empresário que tem apenas mais alguns meses de vida em sua mansão onde tudo é banhado a ouro. Isso é só pra deixar claro ao espectador que ele tem dinheiro de sobra para investir em uma secreta biotecnologia capaz de transferir a sua mente para um novo corpo. Mesmo sem muita profundidade, o clima frio e psicológico consegue até fazer uma boa apresentação dos personagens e da situação, e fuciona bem até o momento em que o roteiro resolve, sem qualquer motivo, inserir ação à monotonia coerente de antes. E em uma situação um tanto Jason Bourne, o novo Damien (Ryan Raynolds) começa a ser assombrado por memórias estranhas que o transformam espontaneamente em uma máquina de guerra porque, em questão de segundos, ele consegue eliminar uma gangue ao ser encurralado, sem ter idéia de onde surgiram todas essas habilidades táticas e de autodefesa.

Então as coisas se perdem brutalmente com um vilão sem causa e que caça suas vítimas sem motivo, uma família que cai de paraquedas para tentar dar densidade nos fatos e uma conclusão que definitivamente não vale a pena ser assistida. Até mesmo o protagonista não é muito bem desenvolvido, e nunca sabemos exatamente qual o verdadeiro motivo dele querer manter sua mente viva, já que ele não vai poder ter qualquer ligação com sua vida passada depois do procedimento. Não sabe se é uma ficção científica, um suspense psicológico, um filme de ação, uma aventura, ou um drama. A história nem oferece background para que Tarsem pudesse ousar de alguma forma. É tudo tão comum, cliché e banal que o interesse se perde. Tudo parece muito barato, mal organizado, feito de qualquer jeito, e uma trilha sonora chata, irritante e amadora. O trailer é enganoso e o público detestou o resultado com muita razão, principalmente sua base de fãs, que esperavam, no mínimo, uma viagem ao mundo dos sonhos e da fantasia como seus filmes costumam ser.

Chega um ponto que dá até tristeza ver os atores se darem ao trabalho de algo tão pobre e ruim. Mais impressionante ainda é o diretor ter aceito rodar um filme que definitivamente não faz parte de sua personalidade artística. E é então que percebemos que o Tarsem sem um bom roteiro é perdoável, mas sem conceito visual é intragável.

CONCLUSÃO...
É um filme que se perde na pretensão do diretor em querer provar que consegue ser competente sem um conceito visual. O problema é que Tarsem fazer isso é o mesmo que um cantor querer fazer um show sem voz.

sábado, 2 de julho de 2011

O MELHOR PERSONAGEM MAIS DESVALORIZADO AINDA CONTINUA SENDO O MAIS DESVALORIZADO...

★★★★
Título: Lanterna Verde (Green Lantern)
Ano: 2011
Gênero: Ação, Ficção Científica
Classificação: 12 anos
Direção: Martin Campbell
Elenco: Ryan Reynolds, Blake Lively, Peter Sarsgaard, Mark Strong, Tim Robbins, Angela Bassett
País: Estados Unidos
Duração: 114 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um piloto de testes ganha de uma raça alienígena um anel com poderes, assim como também o caracteriza como membro de uma esquadrão intergaláctica que tem como objetivo manter a paz no universo.

O QUE TENHO A DIZER...
Sinceramente não sei muito sobre o Lanterna Verde mais do que era mostrado nos desenhos animados da Liga da Justiça. Fãs tem considerado o filme uma adaptação aceitável e que se espelha bastante aos primeiros anos do personagem nos quadrinhos. Mas para mim a sensação é de que algo está faltando, e há diversas razões para isso.
Sendo um filme dirigido por Martin Campbell, o mesmo de excelentes filmes de ação como 007 Contra Goldeneye (Goldeneye, 1995), A Máscara do Zorro (The Mask Of Zorro, 1998), Limite Vertical (Vertical Limit, 2000) e Cassino Royale (Casino Royale, 2006), sinceramente eu esperava algo menos óbvio, mais interessante, cheio de ações intensas, diálogos bem construídos e cenas melhores realizadas, já que os fãs do personagem dizem que Lanterna Verde é um dos melhores e mais desvalorizados personagens da DC Comics. O roteiro foi escrito por quatro pessoas, que já é um número pra lá de necessário para saber que as coisas não estavam boas o bastante, e que do mesmo jeito não ficaram boas no fim.

A intensa produção industrial de filmes baseados em histórias em quadrinhos está criando uma situação como o próprio vilão do filme para a própria industria cinematográfica. Quero dizer: está sendo destrutivo para ela mesma, devorando tudo o que está perto, adaptando tudo e qualquer coisa possível apenas para encher as contas bancárias, dando zero atenção à qualidade.

Quando a nova geração de adaptações de quadrinhos chegou aos cinemas no começo de 2000, os filmes eram ótimos porque haviam sido planejados há anos. Só que o maior medo de todos era: até onde ou quando isso iria? Era apenas uma questão de tempo até essas adaptações virarem algo comum e habitual. E agora esta intensa produção está finalmente mostrando sinais de cansaço. O tempo entre a roteirização e pré-produção, até seu lançamento, está cada vez mais curto, algo em torno de 6 a 8 meses, e não podemos ignorar o fato de que isso acaba refletindo a qualidade. X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class, 2011), por exemplo, estava sendo planejado há anos e se tornou a melhor adaptação de quadrinhos de 2011 até o momento.

Quando vão fazer um filme, os estúdios tentam atingir o maior número de pessoas possível, o que justifica que as histórias não sejam nem adultas o bastante e nem ingênuas demais. Ao mesmo tempo também não pode ser inteligente em demasia e nem estúpido o bastante. Tudo tem que estar NO MEIO. Às vezes funciona, mas às vezes não, como nesse filme. Há também o fato da indústria ter criado um padrão e uma fórmula de adaptar quadrinhos que não está funcionando mais, e isso está ficando preocupante, pois a atenção pela qualidade não está mais como era antes.

Depois de uma hora de filme nada acontece e o vilão Parallax está apenas há algumas horas antes de engolir toda a Terra. É então que você se dá conta de que Lanterna Verde ainda não sabe nada da vida e dos poderes, e ele terá apenas 30 minutos de filme para se transformar no melhor super-herói possível com apenas 2 minutos de treino, conquistar a garota, lutar contra o Homem Elefante e destruir um monstro espacial que nem mesmo o melhor dos Lanternas foi capaz de destruir, como também matou o rei dos Lanternas, chamado Abin Sur. Isso é absurdo! Nem mesmo no desenho animado o Lanterna Verde é tão onipotente.

A melhor parte do filme é quando Parallax diz que Hall (Ryan Reynolds) é nada sem o anel, porque é a pura verdade e essa vulnerabilidade do personagem é o que o coloca junto aos demais na categoria de "heróis que ficam covardes quando perdem os poderes". Dos atores, Peter Sasgard é o único que oferece o tom sério que falta em todo o filme, mas seu talento também é desperdiçado. Os demais oferecem atuações irritantes, como Ryan Reynolds, que mais parece um retardado que descobre que tem poderes do que um adulto irresponsável. Além disso, não há uma única cena que eu pudesse ficar estarrecido ou sem fôlego porque nem mesmo os efeitos especiais são bons o bastante, parecendo muito mais um trabalho corrido feito por um estagiário do que qualquer outra coisa. Talvez isso seja o resultado do curto período de pós-produção e a falta de tempo para testes, como comentei acima.

Isso tudo significa que o filme não é bom porque força no argumento e nos acontecimentos, e as coisas acontecem incrivelmente rápidas apenas nos últimos 20 minutos em um filme de quase duas horas de duração. É difícil aceitar isso. Tem também uma cena de 5 segundos sobre o Anel Amarelo que não tem conexão com coisa alguma, algo do tipo: "Oh, esquecemos de dar um argumento sobre o Anel Amarelo! Tudo bem, vamos colocar essa cena e tudo vai ficar bem e talvez resolvemos esse assunto no segunod filme. As pessoas nem vão notar!"

CONCLUSÃO...
Um filme chato e mal feito. Poderia ter sido excelente, mas nem mesmo 4 roteiristas foram suficientes para dar o tom. Os fãs podem aceitá-lo como uma adaptação fiel pelos elementos usados para definir o personagem e seus poderes, mas como um filme é uma das piores adaptações feitas nos últimos 10 anos, aparentando muito mais uma adptação meia-boca dos anos 90. No fim é apenas mais um caça-níqueis, um filme para satisfazer fãs dos quadrinhos que se entusiasmam fácil e para pessoas que se satisfazem com qualquer coisa, mas não para despertar o interesse daqueles que não conhecem os quadrinhos ou que buscam assistir um filme de ação de qualidade.

Add to Flipboard Magazine.