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domingo, 14 de outubro de 2018

DESPERDÍCIO DE TUDO...

★★★★☆
Título: Oito Mulheres e Um Segredo (Ocean's Eight)
Ano: 2018
Gênero: Ação, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Gary Ross
Elenco: Sandra Bullock, Cate Blanchett, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway
País: Estados Unidos
Duração: 110 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Após receber liberdade condicional, uma ladra profissional resolve dar continuidade ao talento familiar quando planeja o furto de um colar de US$150 milhões durante um dos eventos de moda mais conhecidos do mundo.

O QUE TENHO A DIZER...
Steven Soderbergh pode ter se dado muito bem ao fazer o remake de Onze Homens e Um Segredo (Ocean's Eleven, 2001), transformando-o numa franquia de sucesso. Embora Doze Homens (Ocean's Twelve, 2004) tenha sido lançado naquele momento em que o diretor se sentia o rei de Hollywood, fazendo do filme uma reunião particular de amigos, cheio de piadas internas e nada, absolutamente nada interessante para o resto dos espectadores do mundo, ele conseguiu se redimir disso com 13 Homens (Ocean's Thirteen, 2007), que foi exatamente naquela época em que Hollywood começava a dar as costas a ele, mostrando que aquela coroazinha que ele tanto achou que tinha não era mais que um adorno de chocolate que foi bom enquanto não derreteu.

Tanto que hoje Soderbergh é apenas uma mera lembrança de Hollywood. Tentou armar um griteiro em 2014 dizendo que iria se aposentar porque o cinema norte-americano não tinha mais nada a lhe oferecer, ou algo do tipo. Mas voltou atrás ao novamente trabalhar com Channing Tatum em Logan Lucky (2017), e depois com Sharon Stone na fracassada série para a HBO, Mosaic (2017).

Entregando a direção a Gary Ross, ele agora só assina a produção dessa continuação direta de sua franquia, ao mesmo tempo que também é um reboot feminino da série, antes composta em sua maioria por homens famosos e engravatados como George Clooney, Brad Pitt e Matt Damon.

Produzir o filme também não garante as qualidades que Soderbergh tem, pelo contrário, é nítido que seu nome apenas aparece nos créditos para tentar dar ao filme todos os créditos que nele faltam.

A princípio tudo parecia interessante. A proposta do filme com um elenco principal predominantemente feminino, liderado por Sandra Bullock no papel de Debbie Ocean, irmã de Danny Ocean (George Clooney nos filmes anteriores) vinha a calhar numa época em que o movimento feminista no cinema estava a todo vapor.

O problema principal do filme, assim como de sua intenção, é se perder nas situações familiares e politicamente corretas. Isso o fez cair na mesmice de sempre, e tudo aquilo que poderia ser um excelente filme de ação e roubo (o gênero chamado heist), tal qual foram 11 e 13 Homens, se tornou um filme monótono dentro de um cenário feminino comum e batido.

Oras, se dentre várias revindicações femininas, uma delas era o protagonismo de filmes que outrora seriam protagonizados por homens, o filme falha quando novamente as insere em situações típicas da cultura social feminina e do senso comum até machista de que mulheres são movidas por futilidades.

Maquiagens, roupas caras, cabelos estilizados e impecáveis. Marcas famosas e andar de passarela. Escrito por Gary Ross e Olivia Milch, essa é a visão que os roteiristas tem sobre as 8 heroínas da história. A impressão é que assistimos uma versão turbinada de Sex And The City, onde Carrie Bradshaw armaria um grande esquema de vingança contra Mr. Big por tê-la traído.

Mas como se não bastasse tanta esnobação e glamour, o enredo principal, no qual qual Debbie planeja roubar o colar mais caro do mundo do pescoço de uma das mais famosas atrizes durante o Met Gala, aquele famoso evento anual fashionista e beneficente criado por Anna Wintour, a tão temida editora chefe da revista Vogue, se torna apenas uma ironia daquilo que as próprias mulheres tem tanto lutado para se desvincular: a de que os diamantes são sempre seus melhores amigos.

Ok, o cenário e o comportamento comum poderiam não importar caso todo o resto funcionasse. Mas não é o caso. Ao contrário do que aconteceu na franquia de Soderbergh, aqui não existe uma química convincente entre o elenco. As atrizes falham todo instante ao tentar mostrar uma intimidade que não existe, e o roteiro tropeça admiravelmente ao dar uma resolução sentimental, baseada numa vingança amorosa, além de diálogos monossilábicos e onomatopéicos apenas para justificar a presença irrelevante de alguns nomes famosos, como é o caso de Rihanna (péssima como sempre), ou Helena Bonham Carter, que aqui repete o papel da típica esquisitona que costuma ser na vida real, dando a sensação que mais aceitou o papel para pagar as contas do que por verdadeiro engajamento. E essa situação um tanto desconfortável que vemos na tela cria, sem querer, uma competitividade entre as atrizes que não cabe.

As situações desconexas não convencem que aquele bando de personagens desajustadas conseguiriam dar conta de realizar um dos maiores golpes em meio a um evento tão conhecido e segurado por tecnologia de ponta e equipes altamente treinadas. Tudo bem que pouco importaria o plano, ou pouco importaria a forma de realizá-lo, ou que ignorar os absurdos é quase uma obrigação na série, mas enquanto Soderbergh conseguia distrair o espectador dos defeitos dando ênfase no charme natural do elenco, na química entre eles e no bom humor quase que improvisado, aqui Gary Ross se importa apenas na ênfase da beleza maquiada, acentuando a monotonia e abolindo qualquer resquício de graça ou irreverência que qualquer atriz pudesse ter.

Embora Bullock e Cate Blanchett sempre roubem as cenas por, sem dúvida, serem os maiores nomes do elenco e terem uma presença naturalmente imponente frente as câmeras, é impossível deixar de acreditar que seja o filme mais fraco da carreira de ambas quando os créditos finais aparecem. Estão visualmente desinspiradas, um tanto decepcionadas entre aquilo que parecia uma excelente proposta com aquilo que se tornou o filme de fato, mas que tiveram que seguir até o fim por questões contratuais.

Se ao menos a edição fosse um pouco mais dinâmica, como são os filmes de Soderbergh, se o mesmo formato narrativo com sobreposição e recortes de imagem tivesse sido usado, e o tempo do filme não fosse tão errado, talvez nada soasse tão arrastado ou uma mera tentativa de alguma coisa como ele é.

É aquela sensação de sabotagem que vez ou outra temos, uma impressão de que algo propositalmente errado sempre é feito no meio daquilo que poderia dar muito certo para que o filme seja vendável, mas não se torne memorável para não fortalecer uma idéia.

No caso, a idéia de que um elenco feminino poderia ter feito algo definitivamente melhor.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

NÃO DESCE NEM COM GRAVIDADE...

★★★★
Título: Interestelar (Interstellar)
Ano: 2014
Gênero: Drama, Ficção Científica
Classificação: 14 anos
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, David Oyelowo, Michael Caine, Matt Damon, Jessica Chastain
País: Estados Unidos
Duração: 169 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A Terra se voltou contra os próprios humanos, as plantações morrem e tudo está sendo tomado pela poeira. A única alternativa para preservar a vida humana é enviar um aposentado piloto da NASA para sua última missão espacial que não terá qualquer perspectiva de volta.

O QUE TENHO A DIZER...
"O universo é cheio de fatos facinantes. Cheio de coisas impressionantes para contemplar como, por exemplo, o tamanho de nossa Galaxia. A luz viaja a 300.000km/s e mesmo assim demora 100.000 anos para um simples feixe atravessar toda a Via Lactea. Nossa Galaxia, como bem disse Carl Sagan, é apenas uma entre bilhões e bilhões. A imensidão do espaço é inimaginável".

Esse trecho acima, de outro comentário publicado sobre o filme, resume muito do que Interestelar deixa de ser. Toda a imensidão do universo e suas belezas admiráveis são coadjuvantes. É como ter Sex And The City sem Nova York, Ginger Rogers sem Fred Astaire, ou Gravidade sem Sandra Bullock.

Dirigido, escrito e produzido por Christopher Nolan. O roteiro é em parceria com seu irmão Jonathan. É uma ficção científica dramática espacial que discutirá, dentre várias coisas, viagem no tempo, física quântica, dimensões paralelas e o futuro da exploração espacial. O diretor acabou incluindo o físico teórico Kip Thorne na produção para servir como consultor sobre o tempo espacial, já que é o tema mais recorrente no filme. Dessa forma ele manteria as reproduções sobre o Buraco Negro ou sobre o Buraco de Minhoca os mais próximos possíveis daquilo deduzido na intenção de serem criados e mostrados no filme com base na ciência e não na imaginação dos roteiristas.

Assim como Nolan fez em seus filmes anteriores, como na trilogia Cavaleiro das Trevas e no superestimado A Origem (2010), há referências bastante diretas de outros filmes, como Wall-E (2008), Contato (Contact, 1997), Alien (1979), e claro, 2001 (1968), que evidentemente é uma regra referencial em toda ficção científica que se preze.

O que os roteiristas fazem é pegar os elementos mais importante de cada um desses filmes (e outros também), juntar tudo em uma coisa só e dar uma nova roupagem. É exatamente o mesmo processo criativo que Nolan utilizou em A Origem, que na verdade é uma cópia bem modificada de Matrix (1999).

Toda a produção foi mantida em sigilo contratual, ninguém envolvido na produção poderia comentar sobre o filme. Essa é uma velha tática do cinema para aumentar aquilo chamado de "buzz" e superlotar as salas de cinema para arrecadar na bilheteria o valor mais próximo possível de seu orçamento logo na estréia. Tudo isso aconteceu, e as pessoas compraram muito bem toda a idéia um tanto desnorteada e sem a mesma desenvoltura narrativa da trilogia do diretor sobre o homem morcego. Tanto que Interestelar tem hoje uma pontuação média de 8.6 no IMDb, com mais de 430 mil avaliações. Como bem disse Rubens Ewald: "O espectador ocasional é que decretará a sentença (do filme ser bom ou ruim). Preguiçoso como ele costuma ser". E a preguiça é no fato do público leigo ou ocasional pouco se importar em analisar os pormenores daquilo que assiste e também pelos fãs se deixarem levar pela extrema parcialidade. Essa pontuação é (pasmem) maior que de seu antecessor mais próximo, Gravidade, no qual Interestelar tenta ser visual e tecnicamente bastante similar, mas está anos luz de ter o mesmo grandioso impacto e ser o mesmo grandioso espetáculo.

O filme começa muito bem e muito ruim ao mesmo tempo. Inicia num tom meio documentado por conta de alguns depoimentos que deixam um suspense meio obscuro no ar, além de toda a ambientação rural norteamericana e as casas vulneráveis nos milharais ajudarem na ambientação distópica e um tanto sinistra. Essa atmosfera inicial é muito parecida com a que M. Night Shyamalan fez em Sinais (Signs, 2002), naquela sensação de que parece que os personagens estão sendo observados o tempo todo, de que algo está próximo, mas não se vê. Até a trilha sonora com poucas variações, baixa e constante ao fundo pra deixar a atenção do espectador mais desperta é utilizada da mesma maneira. Mas nada incomoda, tudo é feito muito bem e se fosse pra ser um filme de terror, ele teria começado de forma brilhante.

Mas aí algumas gafes começam a aparecer logo nos primeiros vinte minutos de filme, como o personagem de Matthew McConaughey ter diversas colheitadeiras gigantes e automáticas, mas sem qualquer explicação (nenhuma mesmo), elas deixam de realizar o trabalho programamado para terem vontade própria, como um poltergeist, só pra causar um frisson paranormal que não existe. Depois disso o protagonista descobre uma base ultra secreta que ninguém poderia achar. Ninguém! Ele pergunta o que é tudo aquilo mesmo com uma bandeira gigantesca escrita em letras garrafais "NASA", bem do seu lado direito. Outro problema é que o filme se passa em um futuro onde a tecnologia é tão evoluída que o protagonista consegue invadir o sistema de um drone militar e dominá-lo com apenas um touchpad, mas um dos integrantes da equipe da NASA custa a acreditar que alguém pudesse encontrar a base ultra secreta situada ao ar livre no meio de uma planície. Então pra este caso vamos julgar (apenas julgar) que o Google Earth ainda não tivesse sido inventado no futuro do filme. Aí tem a NASA, que dispõe de umas caixas de fósforo gigantes que eles chamam de robôs, que se locomovem como se estivessem sobre muletas quando um par de rodinhas podia ter facilitado muito a vida dessas máquinas e da equipe de efeitos especiais porque é pra isso que a roda foi inventada. Mais engraçado é que, quando o personagem se apresenta, todos da equipe sabem que ele foi um antigo piloto da NASA, mas todo mundo faz boquinha de siri e trata ele como um meliante só pra ter aquele momento "TE PEGUEI EM HOLLYWOOD, VAMOS PARA O ESPAÇO".

Sério, tudo isso em menos de 20 minutos...

Para um filme que quis ser muito sisudo, todas essas pequenas faltas de atenção chegam a ser ultrajantes, diminuindo bastante sua credibilidade pra quem é mais atento, e toda a excelente ambientação do início é logo esquecida. A partir daí o filme deixa a atmosfera Shyamalan de lado pra entrar na ficção científica de fato, o que é sempre um grande desafio.

Há um risco muito grande em falar sobre algo que se desconhece. Sobre o que desconhecemos, ou deduzimos com bases científicas, ou inventamos com base na imaginação. No caso desse filme, Nolan deduz e se baseia em teorias científicas apenas quando o filme precisa apertar o passo pra se resolver, e inventa a maioria das coisas na maior parte do tempo com muita pouca coerência com a realidade para preencher minutos extras. Inventa e inventa feio! Inventa rude com explicações que explicam nada porque ninguém vai entender metade do que eles teorizam em cena. Quando o roteiro para de inventar, ele cai no melodrama, como na cena em que o protagonista discute com a personagem de Anne Hathaway qual a melhor decisão tomar entre os planos A e B. Outra coisa que se percebe é que, como dito acima, toda essa imensidão do universo é desperdiçada em subtramas paralelas que se passam na Terra para evidentemente encomizar nos efeitos especiais e dar saltos temporais na ambientação espacial.

Tudo se torna uma bagunça que pode ter algum certo fundamento para os aspirantes a físicos quânticos espalhados por aí, mas para a audiência leiga é tudo simplesmente um festival impressionante de "qualquer coisa no espaço". 

Os personagens muitas vezes não fazem sentido, como a rebeldia interminável da filha do protagonista, a resolução extremamente banal do personagem de Matt Damon que entra e sai do filme como se tivesse no início de carreira, ou a incrível determinação do protagonista em querer salvar a humanidade a qualquer custo (a figura do "pai herói", também sempre explorada nos filmes de Shyamalan). Se o fim do mundo fosse inevitável e você tivesse que escolher entre salvar a humanidade ou passar o resto desses dias com o que resta de sua família, o que você faria? É uma pergunta bastante complexa que o protagonista em momento algum pensa a respeito.

Acredito que nada dói tanto quanto os exageros espaciais e clichés do gênero como as viagens que eles fazem entre um planeta e outro como se fosse algo do tipo "OK, vamos dar uma paradinha lá no shopping". E claro... o combustível que sempre está no fim no trajeto da volta. O momento "let it go", bem similar ao de Gravidade também deixa nítido que, direta ou indiretamente, a produção tenta pegar carona no sucesso do colega. Mas nada é tão impressionante como tudo ser resolvido e descoberto no último minuto, até as mais absurdas e inacreditáveis coisas, como as feitas pela personagem de Jessica Chastain.  E mais... se os humanos do futuro ficam tão poderosos ao ponto de conseguirem controlar o poder da gravidade como cordas de piano entre as diferentes dimensões, como é que não fizeram isso para evitar a Terra de se voltar contra os humanos do passado? Pensando nas teorias que o próprio filme mostra, seria tudo super simples assim, não é? Pois é... mas Nolan prefere complicar pra enganar tonto. E é por essas razões que eu passei a maior parte do filme me questionando: "Isso é sério mesmo?"

Na narrativa confusa, nos altos e baixos dramáticos pra tentar manter o espectador atento e um final bastante sentimental do jeito que o cinema Hollywoodiano está acostumado a fazer, muita gente vai terminar o filme com lágrimas e sem ar, igual quando Titanic foi lançado, mas depois de alguns dias é muito provável que a ficha caia no fato de que ele é uma das grandes bobagens de 2014.

De qualquer forma é um filme com algumas concepções visuais bem interessantes, mas a nuvem congelada... olha... aquilo é a gota d'agua, principalmente em um filme que fala incansavelmente sobre a física e a gravidade. Só não parei de assistir neste momento porque eu queria ver até onde a desgraça ia.

E foi longe. Nolan literalmente se perdeu nas idéias e acreditou no maravilhoso potencial da ignorância alheia de consumir bem qualquer coisa. O resultado é um filme desagradável, longo demais, que mais se perde do que se encontra, e desperdiça conceitos interessantes para divagar no absurdo para o bem do drama espacial e da redundancia.

CONCLUSÃO...
Christopher Nolan tem se especializado em dar grande complexidade desnecessária a seus filmes para enganar gratuitamente o espectador e faze-lo ter a sensação de que o assunto é realmente muito sério e complexo. 

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

BATMAN E SEUS AMIGOS...

★★★★★★★★
Título: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises)
Ano: 2012
Gênero: Ação, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Christian Bale, Tom Hardy, Anne Hathaway, Gary Oldman, Marion Cotillard, Joseph Gordon-Levitt, Michael Caine, Morgan Freeman, Matthew Modine
País: Estados Unidos, Reino Unido
Duração: 164 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Depois da morte de Harvey Dent no segundo filme, Batman assumiu todas as culpas do político corrupto, e posteriormente vilão, para que a Gothan visse em um cidadão comum um herói de verdade. Alguns anos se passaram e os tempos de guerra também, até uma nova ameaça ultrapassar os limites da cidade e os tempos de paz acabarem novamente, colocando em xeque não apenas sua resistência física, mas também psicológica.

O QUE TENHO A DIZER...
De todas as trilogias lançadas ultimamente, nenhuma chegou no nível alcançado por Batman. O Senhor dos Anéis (The Lord Of The Rings, 2001/2002/2003) consegue ser um exemplo único de excelência, mas nenhuma adaptação de quadrinhos conseguiu os méritos que Nolan conseguiu com Batman.

Tim Burton tentou fazer de Batman uma trilogia nos anos 90. Apesar do estrondoso sucesso do primeiro filme (arrecadou mais de US$400 milhões no mundo na época), o estúdio reprovou o clima sombrio e fantasioso que estavam muito mais fortes no segundo filme e que assustou um pouco a audiência, não repetindo o mesmo sucesso do primeiro filme. Pesadas críticas caíram sobre ele na época e os chefões exigiriam que o terceiro filme fosse mais leve e colorido. Burton, fiel ao seu estilo, recusou e gerou conflitos, se afastando do projeto para nunca mais voltar. Ele alegou que sua visão artística sobre as coisas é diferente da maioria das pessoas e que sua adaptação nada mais foi do que a forma como ele via o personagem. Na intenção de não ferir a visão comum novamente, além das pressões por todos os lados serem exaustantes, Burton prometeu nunca mais adaptar qualquer história em quadrinhos que fosse (ele havia recebido inúmeras propostas depois de Batman). E assim o fez e vem cumprindo.

Nolan conseguiu colocar as adaptações de quadrinhos em outro nível, justamente em um nível que Tim Burton havia tentado lá atrás. E é bastante irônico Burton ter sido duramente criticado quando, na verdade, ele foi um dos grandes responsáveis por ter traduzido o personagem numa linguagem mais popular e oferecido mudanças significativas que o herói teve tanto em caracterização, como em personalidade, aderidas em todas as mídias nos anos posteriores. Quem não se lembra da febre que foi os brinquedos do "Batman preto", como era chamado. O Batman do uniforme cinza e azul havia morrido, dando lugar a figura moderna e atualizada de Burton. Christopher Nolan aderiu muito da interpretação de Burton. A figura retraída, deprimida e soturna do personagem e o uniforme são bastante similares ao proposto por Burton no passado. Com excessão da arquitetura monocromática e biomecânica, a Gothan City de Nolan não é diferente da de Burton, já que a atmosfera gótica, fria e distante é a mesma. O foco de Nolan foi manter a fantasia dos quadrinhos e a realidade numa proximidade tangível, abordando fatos e personagens de maneira mais humana e menos extraordinária, dando explicações realistas para aquilo que antes era apenas justificativas fantasiosas e exageradas. Dessa forma, hoje podemos compreender melhor e de maneira mais verossímil porque Espantalho é um dos vilões mais assustadores, ou Coringa é o mais insano, ou Bane ser o mais forte e resistente. Até mesmo as "orelhas" da Mulher-Gato tem um fundamento e uma razão de existir na visão de Nolan.

O terceiro filme fecha um ciclo de história e de expectativa para aqueles que queriam um verdadeiro grand finale. Ele é grandioso nos seus 160 minutos praticamente imperceptíveis, com locações e cenários caóticos, muitos efeitos especiais e, principalmente, muita trama e conspiração que se enlaça perfeitamente com os filmes anteriores. Portanto, ter conhecimento dos dois primeiros filmes não é imprecindível, mas quem tiver terá uma experiência muito mais interessante.

Como foi dito em algum dos filmes anteriores e que não me lembro qual: "isso nunca tem fim". Essa frase é reafirmada de maneira diferente, mas o entendimento é o mesmo. O que não tem fim é o caos, e a proporção do crime, da corrupção e da passividade da população são ampliados como em uma lupa ao ponto de, em determinados momentos, entendermos de maneira clara as razões dos vilões fazerem o que fazem, pois essa ampliação nos deixa evidente os defeitos e as virtudes de seus atos. As justificativas dadas por eles também nos colocam em um muro sobre as atitudes do herói, nos levando a questionar se Batman existe para manter a ordem ou para manter o caos. Ele é um herói ou mais um perturbado que acredita estar fazendo o bem? Se ele é herói, por que ele sempre ajuda a manter a sociedade dentro de um platô de ignorância, ou dentro de uma mentira, como a de que Harvey Dent era um herói? Essas questões são levantadas em momentos chaves pelo mordomo Alfred, pelo detetive Blake e até mesmo por Bane e Selina.

Todos nós sabemos que o grande atrativo de Batman não é o personagem em si, que é sempre o mesmo depressivo, mimado e calculista que deixou de surpreender. A maioria das pessoas gostam do herói por causa de seus vilões que fogem dos padrões da insanidade, mas que sempre tem suas ações justificadas e até mesmo com fundos filosóficos e existencialistas. Outro ponto muito importante na franquia de Nolan é que ele soube não apenas escolher os vilões como desenvolvê-los nos filmes, dando espaço para apenas um de cada vez, ao invés de dois ou três como em outras adaptações de super heróis.

Dessa vez o sorteado foi Bane. Esse vilão surgiu nos quadrinhos em 1993. Para um herói que tem mais de 70 anos de história, Bane é um vilão relativamente novo a estar na lista dos mais grandiosos, poderosos e difíceis. Sua aceitação foi tão grande que o vilão ganhou preferência entre os fãs de forma quase que imediata nos quadrinhos. Ele chegou a aparecer pela primeira vez no filme Batman & Robin (1997), mas embora sua caracterização fosse bastante fiel à dos quadrinhos, sua personalidade era ridiculamente diferente. Nos quadrinhos Bane é um dos vilões mais inteligentes e cultos do mundo Batman, além de um exímio estrategista dependente de Venom, uma droga anabolizante que dá a ele naõ apenas a força e o tamanho que tem, mas também as alterações sensoriais e de comportamento. Mas no filme de Joel Schumacher ele foi retratado como um bombado paspalho de mentalidade limitada, o que revoltou por completo os fãs. A caracterização de Bane no filme de Nolan é forte porque Tom Hardy consegue fazer muito com pouco, mas não chega a ser impressionante e assustadora como deveria. Fisicamente concordo que Tom Hardy não tenha sido uma boa escolha para um papel que exigia um ator com largura e estatura verdadeiramente impressionantes, coisa que ele não tem, e por isso tentam a todo momento disfarçar a baixa estatura do ator com truques de câmera e angulações, mas isso pouco ajuda. Nem mesmo sua voz, que tenta ser uma releitura da cavernosa voz de Darth Vader, consegue causar um grande impacto. Em um filme com tanto cuidado técnico, deixaram passar um detalhe tão importante como esse. Logo na primeira fala do personagem o som destoa de todos os demais de maneira nítida. Não houve uma edição de som boa o suficiente para que, ao invés de colar a voz do personagem no filme, a inserisse dentro dele. A impressão que se tem é que a voz do personagem é uma gravação à parte. E realmente é. A voz do ator foi gravada, alterada digitalmente e inserida na pós-produção. Pra mim, foi um grande erro, porque quebra muito a proximidade entre o que está na tela e quem assiste.

Mas obviamente que a personagem mais aguardada pela maioria foi, sem dúvida, Selina Kyle, dessa vez interpretada por Anne Hathaway. Selina Kyle é a Mulher-Gato, mas neste filme ela não é chamada pelo nome de guerra em momento algum. São feitas apenas referências à figura da personagem, como as orelhas que ela usa durante o baile de máscaras (e seus óculos que, quando não usados, também parecem orelhas), seu uniforme que se assemelha bastante ao utilizado por Julie Newmar no sériado dos anos 60, e a forma como ela luta, que é bastante similar à de Michelle Pfeiffer em Batman, O Retorno (Batman Returns, 1992). Mulher-Gato é uma das personagens mais misteriosas e provocantes não apenas da DC Comics, mas da história dos quadrinhos. Ela não é uma heroína e nem uma vilã, ela é uma personagem solitária, feminista e contra o sistema, que rouba apenas para deixar os ricos com menos e não para proveito próprio. Tanto no filme de Tim Burton como agora, no filme de Nolan, essas características essenciais da personagem são mantidas, mas a abordagem tanto de Michelle Peiffer quanto de Anne Hathaway são bastante diferentes dentro de cada contexto. Fiquei um pouco desapontado e também concordo com quem não gostou da mudança de personalidade e direcionamento que ela sofre no decorrer do filme. Remorso, compaixão e companheirismo estão longe de ser adjetivos da personagem, e são qualidades que ela se aproxima bastante no filme de Nolan. De qualquer forma, mesmo sua personagem começando muito forte e perdendo a força no decorrer do filme, Anne Hathaway surpreende diversas vezes e conseguiu superar as expectativas, não tentando copiar ou disputar com nenhuma das anteriores, mas criando uma Mulher-Gato própria. Certamente ela já se tornou uma referência tanto quanto é Michelle Pfeiffer ou Julie Newmar. Corre a boca pequena que, entre Batman e Bane, Mulher-Gato é a personagem com maior índice de popularidade no filme, o que tem deixado o estúdio uriçado para tocar um novo projeto apenas dela e apagar o fiasco de Hale Barry da memória de todos.

Nolan já havia se consagrado um grande diretor com O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), mas neste filme sua qualidade é impecável. Em nenhum momento ele tenta fazer dessa terceira parte algo melhor que os anteriores, da mesma forma que em nenhum momento também podemos dizer que é inferior. Com a última parte da trilogia ele definitivamente conseguiu criar uma história única dividida em três partes, o que não o livra de críticas, mas que dá o mérito que pouquíssimos diretores conseguem: manter o nível de uma série. É a noção exata do que ter em mente, saber como passar para o papel e conseguir traduzir em imagens. O domínio do processo criativo.

O filme começa com a frase: "eu acreditava em Harvey Dent". E por toda e ignorante Gothan City acreditar em Harvey Dent, Batman preferiu que assim fosse ao invés de desmentir o homem de duas caras. E a partir disso o filme se desenvolve, e também ajuda a mostrar a outra face de cada um, trazendo à tona importantes revelações que chegam até a surpreender algumas vezes. Há até algumas referências e brincadeiras que ninguém esperaria. O baile de máscaras e a abordagem de Bruce Wayne e Selina Kylie oferece um leve e interessante deja vu de uma cena similar em Batman, O Retorno, ou a participação de Cillian Murphy como o Juíz, após a explosão do presídio, que também é um episódio presente nos quadrinhos.

Particularmente eu esperava uma resolução mais trágica ou uma grande batalha de fato, tanto quanto foi nos quadrinhos, mas isso só teria acontecido se não fosse o fim de uma trilogia. De qualquer forma, não posso dizer muito mais sobre o filme porque ele consegue surpreender bastante, e apesar de algumas coisas que considerei desagradáveis, saí do cinema bastante satisfeito e nenhum pouco enganado. Embora a trilogia seja baseada fortemente na série de Frank Miller, O Cavaleiros das Trevas Ressurge (1986), este último filme também tem grandes referências de um período nos quadrinhos entitulado A Queda do Morcego (Kinightfall). Logo, quem conhece ao menos o básico desses dois períodos não só vai prever muito do que acontece no filme como também vai encontrar várias outras similaridades e referências que eu poderia contar, mas seria estragar as surpresas que não apenas Nolan, mas como todos os atores conseguiram guardar tão bem.

CONCLUSÃO...
Um dos raros momentos em que é possível sair do cinema satisfeito com o fim de uma trilogia. Há uma linearidade e coerência entre os três filmes que só é compreendida depois de terminar de assistir esta terceira e última parte. Não chega a ser perfeito, mas os defeitos ficam facilmente debaixo da sombra das qualidades que aparecem porque, depois dos dois primeiros filmes, não estamos mais interessados muito no que há para mostrar, mas no que há para ser contado e como tudo vai terminar. Há o fato de podermos ter a oportunidade de interpretar outras facetas do herói frente a seus constantes erros.
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