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domingo, 23 de setembro de 2018

EMOCIONALMENTE CONSISTENTE...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Maniac
Ano: 2018
Gênero: Drama, Fantasia, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Jonah Hill, Emma Stone, Justin Theroux, Sonoya Mizuno, Sally Field
País: Estados Unidos
Duração: 60 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Dois estranhos se cadastram em uma empresa farmacêutica para realizarem uma série de testes com um droga em desenvolvimento que promete curar todos seus problemas.

O QUE TENHO A DIZER...
Ao contrário do que se pode imaginar, Maniac não é uma idéia original, mas uma adaptação norteamericana de uma série norueguesa de mesmo nome. Na série original, Espen é o personagem principal, uma pessoa que todo mundo gosta. Um cara agradável e que sempre encontra soluções para tudo. Mas na verdade isso é o que se passa dentro de sua cabeça por conta de um tratamento psiquiátrico no qual está submetido, já que ser Espen na vida real é completamente o oposto.

Com algumas mudanças aqui e ali, mantendo (talvez) a mesma premissa, nesta adaptação conheceremos Owen (Jonah Hill) e Annie (Emma Stone), dois estranhos que não se conhecem e que de alguma forma se encontram desconectados do mundo real. Owen por sofrer de esquizofrênia e despersonalização, e Annie por ter depressão e comportamento autodestrutivo. Os dois vão parar em uma empresa farmacêutica que está recrutando pessoas dispostas a realizar uma série de testes para o desenvolvimento de uma nova droga. Owen porque acredita que possa ser curado de seu problema, e Annie porque simplesmente quer ter acesso à substância e continuar vivendo no mundo do nada.

Maniac, embora possa ser carregado de momentos dramáticos honestos por conta da beleza e sutileza com que desenvolve os protagonistas, e principalmente pela interpretação atenta a detalhes tanto de Emma Stone como de Jonah Hill (o cara simplesmente domina todas as cenas), também tem seus momentos de humor negro. Mas seu foco é, desde o princípio, dissertar sobre a fantasia e imaginação humana, e como de perto realmente nenhuma pessoa é normal, ao mesmo tempo que é essa complexidade que nos faz humanos.

Dirigido e escrito por Cary Fukunaga, criador do premiado True Detective, da HBO, e também por ter dirigido uma das primeiras grandes produções originais do Netflix, Beasts Of No Nation (2015), já podemos imaginar que densidade é o que não vai faltar. Só que ao contrário de seus outros trabalhos, aqui ele alivia a mão da realidade e mergulha de cabeça numa imaginação fundamentada em preceitos psicoanalíticos de transtornos psicóticos e depressivos, como a esquizofrenia, paranóia, pânico, egocentrismo, dentre outros, para desenvolver uma narrativa que, mais do que fantástica, é humana e sobre as diferentes formas que temos de nos encontrar como seres no espaço em que vivemos, e de como nossa mente é capaz de criar esses dispositivos para nos salvar de dores, traumas e angústias, mesmo que para isso se pague o preço caro da incompreensão e do desajuste social.

Há um momento em que um dos personagens diz que ninguém deveria dizer o que a outra pessoa tem antes que ela mesma descubra. A razão nessa afirmação é porque, além de cruel, é como rotular e lacrar aquilo que aquela pessoa será para o resto da vida, ao contrário daquela que, quando descobre por si só, não apenas tenta encontrar as razões, mas aprende a conviver com o problema ao invés de querer encontrar uma cura para ele que não existe, com a própria Annie chega a afirmar em um determinado momento.

O seriado é construído exatamente para uma plataforma streaming, daquela maneira em que ninguém consegue desgrudar os olhos dele enquanto não chegar no último episódio. Não porque ele realmente seja tão intrigante assim ao ponto de fazê-lo naturalmente, mas porque o formato e a maneira como seus episódios se apresentam obriga o espectador a isso.

Os primeiros episódios prendem a atenção, os episódios centrais enchem a linguiça necessária para dar conteúdo a 10 episódios, e os episódios finais vão direto ao ponto que o espectador espera quando a sensação de que nada mais faz sentido, ou de que a história esteja repetindo os mesmos temas, mas com outras roupas, começa a surgir.

E esse é o grande problema da produção que, por se tratar de uma minissérie (com começo e fim declarado, pelo menos até segunda ordem), poderia ter sido mais enxuta. Todos os devaneios das histórias fantasiosas que é desenvolvida nos episódios centrais, que vagam desde O Fantástico Mundo do Dr. Parnassus até Matrix, tem fundamento em suas repetitividades, mas novamente falham, como no filme A Origem, em tentar transportar o espectador para um mundo onde a lógica e a razão não existem, apenas os simbolismos e as emoções. Os sonhos policiais, aventurescos e misteriosos que ocorrem se tornam esquetes com apenas alguns detalhes da vida dos protagonistas que já tínhamos visto antes para sabermos que seus devaneios nada mais são do que resgates disso, ao invés de nos dar uma sensação mais consistente de que alguma compreensão de suas vidas de fato esteja acontecendo. Momentos desconexos de toda a maravilhosa introdução, ou dos muito bem construídos episódios iniciais e finais que, quando agrupados, oferecem um resultado melhor do que a série em toda sua integralidade. Esses devaneios tolos não deixam de ser divertidos e até emocionantes, mas dispersam do delicado e complexo tema principal, aquele que a gente só vai lembrar que existe no fim.

O bom é que, mesmo com muitos desenvolvimentos desnecessários, existe um charme visual na produção que é o atrativo extra de um mundo que soa esquisito, mas identificável; simplório e distante, mas confortável. Nada de ficções científicas e biotecnologia invasiva. A inteligência artificial existe e está difundida como estão nos celulares, mas a maneira devastadora como ela é retratada em outros filmes é amenizada até mesmo quando a impressão que se tem é que veremos novamente mais uma assustadora sabotagem, como a do computador Hal em 2001.

Seja nos equipamentos eletrônicos datados, porém com funcionalidades extremamente atuais, numa total contravenção ao cyberpunk 80tista; seja uma homenagem os seriados japoneses igualmente dos anos 80 (os conhecidos Tokusatsus), cheios de personagens caricatos, expressividade exagerada e cientistas malucos mergulhados em laboratórios cobertos de botões e fios elétricos; serão esses elementos, assim como o proposital amadorismo de algumas cenas, que fazem o seriado ser uma divagação leve sobre a psiquê e o comportamento humano, e não aquela masturbação mental massante e cansativa. Até os raros momentos violentos não soam violentos, mas sátiras desse gênero, como no episódio em que um personagem vira uma peneira com tantos tiros. A situação é tão caricata que é impossível conter a gargalhada.

Agora, nada melhor para complementar o cuidado visual do que uma trilha sonora memorável. E nesse quesito, Dan Romer, o compositor responsável, consegue o maior êxito (e um dos maiores cartões de visita do seriado) que é, obviamente, unir o som e a imagem, amarrando com coerência e transformando tudo isso em uma enxurrada sinestésica, onde as diferentes sensações são sentidas desde aquele crescente instrumental que parece que vai arrebentar o peito, até aquele violino de arrepiar o fio do cabelo. Momentos que aumentam a tensão e a expectativa, da mesma forma que aumentam sentimentos dramáticos e motivantes. A trilha sonora é realmente mágica na sua simplicidade e em toda a excêntrica fotografia.

E são essas coisas que, apesar de Maniac muitas vezes escorregar no seu timing e até mesmo exagerar no seu conteúdo, ainda sim consegue ser um entretenimento delicado e emocionalmente consistente sem ser piegas ou melodramático. Uma viagem com um esquisito glamour sobre a dificuldade de ser o que somos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

DEIXE-SE LEVAR...

★★★★★★★★☆☆
Título: La La Land
Ano: 2016
Gênero: Comédia, Romance, Musical
Classificação: 12 anos
Direção: Damien Chazelle
Elenco: Ryan Gosling, Emma Stone, J.K. Simons, John Legend
País: Estados Unidos
Duração: 128 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um pianista se apaixona por uma aspirante a atriz, e ambos tentam conciliar o romance que cresce ao mesmo tempo que os sonhos individuais se engrandecem.

O QUE TENHO A DIZER...
Logo no começo do filme é óbvio e notório sua intenção de resgatar uma época ao aparecer a conhecida marca "Filmado em CinemaScope", tecnologia utilizada nas décadas de 50 e 60 para capturar imagens em widescreen, formato que hoje é acessível até mesmo na televisão. Época, inclusive, da grande era comercial dos musicais de Hollywood.

De Fred Astaire a Gene Kelly, de Bob Fosse a Rob Marshall, de Mary Poppins a Glee... Damien Chazelle não hesita em mostrar logo no início que o seu produto é o resultado de todo esse background. E que, de alguma forma, aquilo é a evolução natural dos musicais: o hoje definitivo daquilo que o gênero um dia iria se tornar.

Mesmo que a intenção seja resgatar/homenagear/referenciar uma época, essa época nunca é definida de fato, tanto no filme, quanto nas suas referências. Sim, há celulares e Toyota Prius, mas sempre algum objeto, uma roupa, uma música, ou uma situação estão dispostos a contradizer isso, como no momento da festa 80tista, em que há uma banda tocando synthpop, e logo na sequência os protagonistas estão em um mirante, como se tivessem voltado aos anos 50.

Essa mistura de tempos e épocas é observado na longa sequência sem cortes de sua abertura, com diferentes carros que, assim como mencionei antes, vagam em referências que atravessam décadas. E nos diferentes estilos, cores e formas, o cenário é uma ponte congestionada em Los Angeles, num misto de veículos que outrora marcaram um período, mas que estão no cenário agora para simbolicamente representar uma história que pretende ser atemporal. E então, de algumas batidas eletrônicas que saem de um SUV branco até desaparecerem completamente numa outra introdução musical, uma garota resolve sair do carro cantarolando e fazendo de tudo uma grande festa, arrastando com ela todas as pessoas entediadas em seus carros para celebrar a vida em mais um dia, em um surrealismo típico dos mais comerciais dos musicais.

Mas o diretor liga o ventilador na potência máxima para "gleematizar" o ambiente e atrair o público atual mais pelo gigante espetáculo do que pela sua consistência. Gente jovem, colorida, feliz e reunida, cantando e amassando capôs de carros, talvez como seus próprios pais um dia fizeram em Grease junto com Travolta e Newton John. A experiência é megalomaníaca, com centenas de figurantes numa coreografia que remete muito mais a um massivo flash mob do que algo mais fluido e natural que se esperaria numa fantasia musical. E de repente o baú de um caminhão é aberto, e lá está uma banda que toca para uma roda de pessoas improvisando no street dance. Da dança de salão à dança contemporânea e urbana, as coreografias também se diversificam.

Não há como ignorar que tudo se recusa a ser mantido em um padrão. A intenção de Chazelle é atirar para todos os lados, pois a premissa é a mesma em todos os quesitos: escolher exemplos extremos e trabalhar com tudo que existe entre um e outro. Isso acaba sendo um grande trunfo para a experiência nostálgica, mas ao mesmo tempo um grande defeito, pois não há identidade própria. Tudo tenta forçar uma mágica, porque nada nele é de fato genuíno, embora consiga ser uma experiência prazerosa mesmo assim.

E então os letreiros aparecem para mostrar o título do filme, situando o espectador de que ele está numa terra movida à música e sonhos, incluindo Mia (Emma Stone), a heroína da história. Uma aspirante a atriz que, ao contrário dos demais, se manteve dentro do carro decorando as falas para um teste, enquanto o músico Sebastian (Ryan Gosling), o perturbado herói, buzina freneticamente para que ela lhe dê passagem. E tão inusitado quanto os eventos musicais, é assim que a epopéia romântica dos dois tem início, ao mesmo tempo que cada um deles busca seu sonho particular em Hollywood: ela em ser famosa, ele em ter uma casa de Jazz.

Mesmo com um início bastante tumultuado e exagerado para impressionar, a verdade é que o filme . nada manterá disso tudo, sendo bastante diferente daquilo que vem sido promovido ou comentado. Longe de ser um Across The Universe (2007), ou um Mama Mia! (2008), onde cada frase é motivo para um grande video clip, se você não é do tipo que gosta de musicais, não se deixe enganar pelo preconceito, dê oportunidade para se deixar levar, descobrindo o seu charme e perceber que, na verdade, os números musicais se enfraquecem ao longo dos 128 minutos, pois não são os elementos principais, mas apenas artifícios fantasiosos para complementar a história e deixar a narrativa mais leve e simpática.

Há um momento no filme em que é dito que, se não há evolução de um gênero para que o público atual possa apreciá-lo, então o gênero morre. E Chazelle segue isso à risca, e por isso esse excesso de referências a clássicos, para mostrar ao público atual e imediatista de que esses gêneros não morreram, apenas se transformam com o tempo. Uma idéia que realmente se opõe aos mais tradicionalistas, e talvez seja por isso que o filme tenha gerado gostos e desgostos por aí. 

A repercussão do filme começou por parte dos críticos, quando o longa não tinha perspectiva alguma de sucesso. Eles entenderam essa grande homenagem e os esforços do diretor em realizá-lo aos moldes clássicos, com cenas musicais em plano sequência, coreografias que interagem com espaçosos cenários, e uma história simples e bonitinha que cativa o público. O ponto de vista mais contemporâneo funciona, tornando-se uma surpresa inesperada tal como foi com Moulin Rouge em 2001, e o ressurgimento do estilo musical que acontece de tempos em tempos desde então.

Mas acima de tudo, La La Land ainda contém muito daquele ranso que Hollywood adora ovacionar, referenciando ela mesma de maneira exuberante para se mostrar bonita no comércio um tanto decadente de idéias. É a reciclagem sustentável, o exercício narcisístico no qual ela sempre se propõe, e que o público compra e engole sem digerir.

A produção se beneficia do casal protagonista, já que os dois atores são hoje considerados as grandes estrelas de suas gerações. São talentosos de fato, e isso é válido. Seja Emma Stone que se esforça para sair de suas zonas de conforto, tal qual fez em Birdman (2014), seja Ryan Gosling, que sempre deu preferência a papéis desafiadores àqueles que pudessem aumentar seu caché. Aqui, em particular, Gosling fez questão de decorar as sequências em piano para tocar de verdade, sem dublês ou truques.

Nenhum dos dois atores são exuberantes e de rara beleza plástica. Nenhum dos dois canta bem, tanto que suas canções são sempre sussuradas, às vezes até difícil de entender, abolindo notas muito altas para evitar o desafino. Nenhum dos dois também são Fred Astaire e Ginger Rogers na dança. Mas existe o elemento natural que cativa. Não vemos na tela duas grandes estrelas escaladas para fingir um espetáculo de sucesso, mas duas pessoas comuns em plena sintonia, dando o melhor de si para tudo funcionar e fazer algo comum ser visto como um sucesso. Mia e Sebastian são dois personagens frágeis, humanos e verdadeiros. E se tem uma coisa bela em La La Land, são exatamente os momentos em que ele é simples.

O longa tem seus méritos, suas belezas e particularidades, e apesar de um começo pretencioso, consegue achar seu tom e seguir fiel na sua proposta romântica e sonhadora, mas muito dele funciona melhor quando não cantado, algo que felizmente é sua maior parte. Sem percebermos La La Land passa de um musical para uma comédia romântica tradicional, e desencadeia para um ato final dramático diferente, que irá contra a expectativa de muitos, mas ainda tem seu "quê" poético e a liberdade do espectador dar sua própria continuidade. As canções, quando surgem, em geral são fracas e descartáveis, no sentido de funcionarem apenas para aquele momento e nada mais. Não é algo que se mantém vivo, de sair do filme cantarolando trechos. O que fica na memória é, sem dúvida, a melodia que se torna a vida de ambos.

Assim como O Artista (The Artist, 2011) resgatou o cinema mudo aos dias atuais para ser uma grande homenagem e auto-referência de Hollywood, o novo filme de Damien Chazelle faz o mesmo com os musicais e as comédias românticas de situações dos anos 50. mas não consegue se bem suceder em alguma delas com efetividade, até porque não há nenhum desses estilos feito com efetividade. Mas de alguma forma tem seu encanto.

Como dito, não soa original, e comparado a outros concorrentes, La La Land talvez seja o mais água com açucar deles, mas é exatamente aquilo que Hollywood gosta, e exatamente aquilo que toca o público que o procura.

CONCLUSÃO...
O favoritismo do filme é grande e seu número recorde de indicações ao Oscar se justifica facilmente porque ele realmente tem qualidade em todas as 14 categorias, mas não signifca que seja o melhor em todas elas. É uma produção trabalhosa por excelência, um belo filme, cheio de momentos bastante satisfatórios muito mais por conta dos atores e da agradável fotografia. Nada mais que um bolo simples, mas bem feito, com apenas uma cereja no topo.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A VIRTUDE DA IGNORÂNCIA...

★★★★★★★★★☆
Título: Birdman - A Inexperada Virtude da Ignorância
Ano: 2014
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 16 anos
Direção: Alejandro Gonzáles Iñárritu
Elenco: Michael Keaton, Emma Stone, Edward Norton, Naomi Watts, Zack Galifianakis
País: Estados Unidos
Duração: 119 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um ator decadente que ficou famoso por interpretar um icônico super herói no passado, e agora deve lutar contra seu próprio ego e problemas familiares conforme produz sua nova peça teatral na Broadway.

O QUE TENHO A DIZER...
Que Alfonso Cuaron e Alejandro Iñarritu são amigos de longa data, isso todo mundo já sabe. Se não sabia aqui vai uma ótima oportunidade pra saber. Junto a dupla podemos colocar Guilermo Del Toro no grupo e a entourage mexicana está pronta.

Em 2013 Cuaron supreendeu com Gravidade (Gravity), dando ao filme elementos experimentais e ao mesmo tempo comerciais que atingiram a perfeição técnica e elogios pelo mundo todo. Cuaron elevou o nível de experiência das ficções científicas de tal forma que ele pode ser considerado um grande clássico moderno do gênero e da história do cinema, tal qual foi 2001 (1968). Suas cenas coreografadas como um balé espacial em planos sequências de até 15 minutos foram grandes passos à frente daquilo que até então conheciamos como uma odisséia espacial. E precisou ser um diretor mexicano para fazer isso na meca do cinema chamada Hollywood.

Ok. Agora é a vez de Iñarritu, que pegou a proposta inicial de Cuaron e elevou à 10ª potência, dirigindo, escrevendo e produzindo aquilo que vemos em uma tomada só. Bom, ao menos é a impressão que ele passa, já que foi incrivelmente bem editado e um desafio herculeo aos atores que em algumas ocasiões tiveram que não apenas decorar mais de 15 páginas de texto como marcações precisas dos cenários. Segundo Iñarritu, seria como Phillippe Petit andando em uma corda bamba entre as Torres Gêmeas, se algo desse errado, tudo estaria perdido.

De fato, a experiência angustiante e aflitiva que o filme passa são méritos desse estilo de filmagem que Iñarritu de certa forma desenvolveu ao longo de sua carreira e que hoje em dia caem muito bem na tendência que o cinema demonstrou bastante em 2014 em dar atenção a produções que focam o lado mais intimista e realista dos personagens com câmeras na mão, ausência de maquiagem e locações reais ao invés de estúdios. Enfim, tudo aquilo que o cinema independente e europeu já traçou há quase 20 anos atrás, mas apenas agora o público mais popular está aceitando.

O roteiro, também de Iñarritu, é digno de prêmios. De fato a complexidade que se vê na tela só seria possível se muito bem detalhada a cada ponto final e a cada nova linha. Não há espaço para erros, muito embora o ambiente claustrofóbico dos corredores do teatro St. James, e tantas idas e vindas dos personagens por esses caminhos tortuosos e apertados acabam por algumas vezes excedendo a paciência de quem assiste, mas isso também faz parte da angústia do personagem que desenvolveu uma paranóia depois de tantos fracassos. As incertezas de sua nova peça teatral, na qual ele mesmo dirige e também atua, estão levando-o a loucura, fazendo-o confundir realidade e fantasia, tendo disturbios delirantes um tanto esquizofrênicos com Birdman, o herói que o deixou famoso nos anos 90 em uma trilogia de ação. O personagem agora se transformou no seu alter-ego, já que Riggan Thomson passa a agir e tomar decisões de acordo com o que Birdman faria.

Peraí. O personagem é um ator que foi famoso nos anos 90 por interpretar um super herói e agora tenta ressurgir depois do fracasso... isso me lembra Michael Keaton depois de Batman. Sim. Uma ironia (com certa paródia) talvez à própria vida do ator, e que lhe caiu como uma luva.

A moral principal do filme, e também um dos diversos significados do subtítulo poético, é exatamente como a futilidade e superficialidade reinam sobre todos nós e a nossa incansável busca pela aprovação alheia e o sucesso de alguma forma, nem que seja demonstrado por apenas um indivíduo. Todos os personagens são insatisfeitos e todos os personagens buscam aprovações, levando-os a atitudes vazias e impensadas.

É um filme visceral, uma comédia dramática negra que nos leva cruelmente para o caminho mais fácil da ignorância e que, por vezes, pode soar uma virtude, pois estar consciente e na tentativa de controlar tudo o tempo todo muitas vezes pode ser a sua própria auto-destruição. Não que ser ignorante seja nossa natureza, mas é isso que nos fazem ser o tempo todo não nos dando o direito dela ser apenas uma opção, nos dando produtos vazios e descartáveis para consumirmos a todo instante. Não é à toa que em um determinado momento vemos várias pessoas vestidas de super heróis brigando umas com as outras, ou quando Birdman diz que as pessoas gostam de explosões e sangue. Ou, principalmente, na já clássica cena de Michael Keaton correndo pelas ruas apenas de cueca, o momento que ele é mais notado de todo o filme, justamente por parecer um otário para aqueles que não sabem o motivo (apenas nós, espectadores, sabemos).

O filme não podia vir em melhor hora, colocando Michael Keaton novamente em um lugar que ele havia esquecido onde era. Vem muito a calhar depois de sua consagração no Globo de Ouro e depois da observação pontual de Gerge Clooney de que o sucesso só dura enquanto se está no tapete vermelho. Muito certeiro também depois do retorno do seriado The Comeback e da personagem Valerie Cherish na sua desesperada maratona ao sucesso.

Do sucesso ao fracasso e do fracasso ao sucesso em apenas um instante. É nessas horas que a virtude da ignorância é inexperada, e muito que bem desejada. Somos livres para fazermos o que gostamos e aquilo que desejamos fazer, independe das aprovações, porque elas são só aprovações, não significam nada no fim do dia.

CONCLUSÃO...
E mais um mexicano consegue fazer uma nova revolução técnica de filmagem. Sim, roteiro complexo e difícil para filmagens muito mais complexas e difíceis que resultaram em uma das experiências cinematográficas mais realistas de 2014 nessa onda que tem tomado força no cinema Hollywoodiano. O filme foi muito bem recebido pela crítica e já ganhou vários prêmios, entre eles o Globo de Ouro de Melhor Ator e Roteiro. Um grande concorrente ao Oscar, e um prêmio de direção a Iñarritu não cairia nada mal.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

PODE RIR, SAM RAIMI...

★★★★★☆☆☆☆☆
Título: O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man)
Ano: 2012
Gênero: Ação
Classificação: Livre
Direção: Marc Webb
Elenco: Andrew Garfield, Emma Stone, Rhys Ifans, Sally Field, Denis Leary, Martin Sheen
País: Estados Unidos
Duração: 136 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Conta novamente a mesma história de como um simples estudante que vive solitário, ignorado e zombado por todos, se transforma em um híbrido entre homem e aranha, passando a usar suas novas habilidades para ajudar a combater os crimes e os vilões da cidade.

O QUE TENHO A DIZER...
É difícil começar a escrever sobre esse reboot da série porque o tempo no cinema corre muito mais devagar do que na vida real. O primeiro filme da trilogia de Sam Raimi tem apenas 10 anos de idade, e o terceiro e último episódio tem apenas 5 anos. São raros os filmes que são considerados clássicos praticamente de maneira instantânea, mas, geralmente, além de ser obrigatório a qualidade e alguma certa originalidade em vários quesitos, o tempo também ajuda, já que os clássicos também costumam ser difíceis de ser superados e o público é exigente nesse aspecto.

Ultimamente o cinema hollywoodiano tem sofrido de uma falta de criatividade e ousadia, já que o público que hoje frequenta os cinemas é diferente, tem interesse por pouco e se dispersa muito rápido. A velocidade da informação foi fundamental para as mudanças, e para chamar esse novo público ao cinema foi necessário mudar os padrões, transformando qualquer tema comum em uma grande catástrofe, encontrando nos super-heróis a saída perfeita para conseguir dinheiro fácil já que eles oferecem muita ação recheada por boas histórias, quando antigamente era o contrário. Além disso, voltamos a era das continuações infinitas e também inauguramos uma outra era, a era dos chamados reboots, termo que, traduzido literalmente, significa "reiniciar".

Algumas séries de filmes tiveram razões para ter um reinício como, por exemplo, a série Batman, que foi destruída pela falta de visionarismo do diretor Joel Schumacher, que não soube manter o legado deixado pelas duas primeiras adaptações de Tim Burton, e que são hoje consideradas clássicas. O diretor Christopher Nolan surgiu com uma idéia fantástica de manter o tom obscuro de Tim Burton, deixando-o mais denso e pesado, mas em um tom mais realista e menos fantasioso. Essa repaginada deu mais humanidade aos personagens, o que funcionou muito bem na nova trilogia que termina neste ano. O reboot de Batman teve uma razão e sentido muito fortes, já que Nolan quis recomeçar do zero e fazer das continuações não o carnaval que havia se transformado antes, mas uma história única em três partes que foi baseado fortemente na mini-série de quadrinhos O Cavaleiro das Sombras.

Essa mesma tentativa está sendo feita com Homem-Aranha, mas não parece ter sido muito inteligente, pois é como se quisessem apagar da memória das pessoas que houve uma série anterior e de superior qualidade em todos os aspectos, além de deixar evidente que esse reboot nada mais é do que um caça níqueis sem freios.

Os dois primeiros filmes da trilogia de Sam Raimi também já são considerados clássicos, pois o diretor, que também era fã do personagem e dos quadrinhos, tentou ser o mais fiel possível. Algumas mudanças foram feitas, mas necessárias para uma melhor aproximação não apenas do personagem para os cinemas, mas também para o nível de aproveitamento de detalhes que haviam nos quadrinhos para a realidade. Tanto que essas poucas mudanças posteriormente foram incorporadas nas novas versões dos quadrinhos.

Na adaptação de Sam Raimi, a construção do personagem e o desenvolvimento de sua história, desde quando Peter Parker era apenas um estudante até sua transformação em um super-herói, foi gradual, coerente e sem tropeços. Quando Peter é picado pela aranha, desde a forma como isso aconteceu, sua transformação, até as descoberta de suas habilidades, foi tudo justificado e realista. Este foi o grande mérito do experiente roteirista David Koepp que, unido à forma como Raimi contou a história, era como se estivéssemos lendo os quadrinhos, havendo sempre um leve suspense no ar sobre o que é que iria acontecer em seguida. No segundo filme, mas com roteiro de Alvin Sargent, Peter estava em dúvidas entre ser um super-herói ou ter uma vida normal com sua tão amada Mary Jane. Novamente os méritos do diretor e do roteirista se destacam quando pudemos sentir o sofrimento do personagem por não conseguir encontrar um meio termo entre seus dois grandes objetivos. O terceiro filme da série, como Sam Raimi mesmo já chegou a afirmar, foi um grande erro, pois foi feito muito mais pela pressão do estúdio e dos fãs do que por sua própria vontade. Houve a troca de vários profissionais, o tempo entre a pré-produção e o lançamento do filme foi extremamente curto e a queda da qualidade foi nítida, mas nem por isso podemos desmerecer as qualidades dos dois primeiros filmes.

Nesse novo início da série, que agora incorpora o ESPETACULAR no nome, mas de espetacular há nada. O diretor Marc Webb demonstrou não haver experiência suficiente para conduzir um filme que ousou ser melhor que o de Sam Raimi, até mesmo porque ele possui apenas um filme em seu currículo, o delicioso, realista e sutil 500 Dias Com Ela (500 Days Of Summer, 2009), mas realismo e sutileza não se enquadram aqui. O roteiro foi desenvolvido a seis mãos por James Vanderbilt, Alvin Sargent e Steve Kloves. Os mais conhecidos são Steve Kloves e Alvin Sargent, o primeiro escreveu o roteiro de vários filmes da série Harry Potter, e o segundo foi o roteirista dos dois últimos filmes da série de Sam Raimi.

Eu sempre digo que é necessário desconfiar de roteiros que são escritos por mais de uma pessoa. Quando isso acontece geralmente o restuldado não é bom, pois costuma significar que o roteiro não tinha qualidade suficiente, tendo que sofrer várias transformações até o produto final. A regra é clássica e cai como uma luva aqui. A construção do personagem é perdida e a coerência dos acontecimentos não existe. Tudo acontece de forma precipitada e falsa. Tudo bem que já conhecíamos a história, já que ela é a mesma do primeiro filme da trilogia anterior (só muda alguns elementos), mas não era necessário tratar tudo com tanta superficialidade para dar mais atenção às cenas de ação.

Peter Parker, que antes era um jovem bitolado que usava óculos, camisa de cores lisas e engomadas, apaixonado pela vizinha, por fotografias e com os hormônios explodindo pela pele, agora se transformou em um adolescente um pouco rebelde, que passou a usar jaquetas e calça rasgada, trocou os óculos por lentes de contato, sua paixão por skate agora é maior do que pela fotografia, adora internet e pouco demonstra seus sentimentos pela colega de sala que se derrete toda vez que o vê. E o Homem-Aranha... bom, o Homem-Aranha agora pratica pakur com mochila nas costas.

Só nessa construção já observamos muito bem que há nisso uma tentativa de acesso ao público adolescente mais atual e que não enxergava na caracterização de Tobey Maguire um exemplo. Um grande erro, já que a personalidade e as características de Peter Parker nos quadrinhos clássicos é a mais próxima e fiel feita na primeira trilogia. Por isso que a escolha de Tobey foi certeira, porque ele não precisava vestir uma roupa social para mostrar que não se enquadrava entre seus colegas, isso era visível só de olhar para a feição de garoto ingênuo e bonzinho do ator, da mesma forma que só de olhar para os cabelos de Andrew Garfield percebemos que ele faz parte da geração punk-pop.

Portanto, o approach do filme é especificamente para o público adolescente e que agora acompanha as novas aventuras do herói nos quadrinhos e na televisão, e não mais para todos os públicos, como foi na versão de Sam Raimi, havendo uma desconstrução de tudo para o bem do lucro. O que nunca se mostrou necessário, já que a primeira trilogia arrecadou mais de 2,5 bilhões de dólares pelo mundo.

O mesmo pode ser dito para as cenas de ação e aos efeitos especiais. Nenhuma cena de ação supera às dos filmes de Raimi, que souberam fazer jus à geração pós-Matrix e misturar malabarismos e câmera lenta num balé de efeitos que dá prazer aos olhos, mostrando os detalhes das acrobacias do herói e que não eram apenas as teias o grande motivo dele ser considerado um homem aranha. Nesta versão de Marc Webb, não há nada prazeroso ou espetacular além do estiligue humano, coisa que já havia sido mostrada antes. Nem mesmo os malabarismos em primeira pessoa foram usados com tanta intensidade como foi proposto no trailer, o que é bastante frustrante para quem esperava muito por isso, como eu, me sentindo enganado quando o filme acabou.

Os fãs sempre quiseram o Lagarto para ser um dos vilões na época em que Sam Raimi era responsável pela franquia. Ele mesmo chegou a declarar que embora Lagarto fizesse parte da lista dos grandes vilões clássicos do herói, ele não seria interessante na adaptação para o cinema pois não teria a grandiosidade que merecia devido a dificuldade da construção de sua história e da sua caracterização. Raimi estava certo. A construção da história do personagem até sua transformação como vilão é banal, sendo desenvolvida como se fosse apenas uma angústia adolescente de fazer o que não deve de pirraça por conta da castração de uma vontade. A caracterização feita inteiramente por computação gráfica é estranha, parecendo um boneco de plástico tal qual aconteceu com Hulk, com uma feição mais parecida com a de uma múmia mascarada do que de um lagarto assustador e nojento, como era nos quadrinhos. Sem contar que qualquer semelhança entre o desenvolvimento das histórias dele e do Duente Verde no primeiro filme de Raimi é mera coincidência (!).

E na boa, nenhum vilão pode ser levado a sério quando sua primeira frase de impacto é: "você me deteve uma vez, mas não vai me deter de novo", como é a primeira frase do Lagarto ao estar cara a cara com o herói.

Sem contar das várias situações de deja vu. Como a inspiração da máscara, ou as frases: "você terá muitos inimigos", "pegue sua máscara, você precisará dela" e "a cidade precisa de você".

A única sequencia que achei genuinamente interessante é quando Stan Lee faz uma aparição com fones de ouvido, ouvindo uma música clássica. Sem dúvida a melhor das aparições que ele já fez nos filmes. Para quem não sabe, Stan Lee é o criador dos grandes heróis da Marvel, e é sempre o velhinho que aparece rapidamente nos filmes que tenham seus super-heróis.

Mas as atuações valem o filme. Embora Andrew Garfield mostre uma faceta mais atual, ele é convincente como um adolescente incompreendido e traumatizado. Emma Stone, como Gwen Stacy, o primeiro grande amor de Peter Parker, é a verdadeira mocinha, e mesmo Emma sendo uma das novas estrelas em ascenção por ser boa atriz e não ter uma beleza padrão, ela não se sobrepõe sobre os demais quando aparece. Claro que Sally Field, como a Tia May, dispensa comentários, mesmo Tia May tendo 20 anos a menos nessa versão, o que Raimi provou que idade não limita nada quando Dr. Octopus sequestra a velhinha no seu segundo filme.

Marvel e Sony já declararam que haverá mais duas continuações, mas acho que já ficou muito claro que a minha preferência não é pela trilogia anterior, mas pelos dois primeiros filmes de Raimi, já que, além de ter sido uma excelente adaptação bastante fiel em sua essência, também foi dirigido por um grande diretor que conhecia a fonte, sabia desde o princípio como tudo deveria ser feito, para quais públicos direcionar e soube conduzir com maestria cenas e seqüencias que dificilmente serão superadas.

CONCLUSÃO...
Para os fãs ou aqueles que tem conhecimento dos quadrinhos clássicos e se sentiu satisfeito pelo menos com algum dos filmes da trilogia anterior, essa nova versão da mesma história é fraca e insossa, deixando de lado um personagem com características incomuns de lado para dar e chamar atenção de um público novato e que desconhece suas origens em uma história vazia e com a cenas de ação que não impressionam tanto quanto muita gente imaginou. Além do fato evidente de que esse reboot é só para gerar mais alguns milhões de dólares e nada mais.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

UM DOS MELHORES TÍTULOS DE 2011...

★★★★★★★★☆☆
Título: Histórias Cruzadas (The Help)
Ano: 2011
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: Tate Taylor
Elenco: Emma Stone, Viola Davis, Octavia Spencer, Bryce Dallas Howard, Jessica Chastain
País: Estados Unidos, Índia, Emirados Árabes Unidos
Duração: 146 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre uma novata escritora branca que resolve escrever um livro contado a vida das empregadas domésticas negras e seus pontos de vista sobre o racismo que sofrem dentro das famílias que trabalham, e o tratamento que recebem daqueles que um dia eram crianças e que elas ajudaram a cuidar e dar a educação.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é baseado no best seller homônimo de Kathryn Stockett e dirigido pelo novato Tate Taylor, sendo este seu segundo trabalho como diretor de longa metragem, por isso a sensação de que o filme funciona mais pelas experientes atrizes que dominam todas as cenas do que pela direção.

A história toma carona na grande revolução social que ocorreu no estado do Mississipi na década de 60 a respeito da segregação racial existente e muito rígida no estado naquela época, onde os negros eram obrigados a ter uma vida social diferente e separada dos brancos, com igrejas, escolas próprias e lugares públicos diferenciados, além de diversas outras regras que eram impostas como leis, com direito a punição a quem descumprisse. Havia regras, por exemplo, que impediam os negros de conversarem com os brancos em lugares públicos, e os negros eram punidos legalmente caso isso acontecesse, como um crime, mesmo que a atitude tivesse partido dos brancos. O Movimento dos Direitos Civis neste estado durou aproximadamente 10 anos e a segregação só teve "fim" com decisão da Suprema Corte em 1969. "Fim" entre aspas porque, embora fosse proibido a distinção de raças em locais públicos, obviamente o racismo ainda continuou forte.

É um daqueles raros filmes sobre mulheres e forte conteúdo social que é prazeroso e gostoso de assistir, quando não deveria ser assim. Como dito, todos os créditos vão para o grandioso elenco que sabia exatamente o que fazer, dando o tom exato que cada personagem precisava de uma forma tão brilhante e expressiva que a presença do diretor parece ter sido dispensada.

Viola Davis (Aibileen Clark) mais uma vez surpreende com uma atuação simples e sutil que transcende uma carga dramática forte apenas com a presença, sobre uma mulher com um coração fragilizado e machucado pelos tempos difíceis, pelo preconceito e ignorância. O mesmo pode ser dito a Octavia Spencer (Mnny Jackson), o que faz das duas personagens principais uma parceria tão intensa e perfeita quanto Thelma & Louise. Bryce Dallas Howard, embora fazendo um papel que tem sua cara, esta bem diferente de seus trabalhos anteriores, tendo sido uma perfeita escolha para o papel da arrogante e racista Hilly Holbrook, que às vezes é carismática e compreensiva, e às vezes é a pior pessoa e mais ignorante que você poderia conhecer, sua atuação é um misto de pequenas e exageradas boas doses, fazendo rir, mas muitas vezes desejando o pior. Jessica Chastain é certamente a personagem mais carismática e engraçada, mas ser engraçada não significa que sua personagem só está lá para alivar o drama, mas mostrar o outro lado dele. Emma Stone é uma boa e jovem atriz, mas sua atuação é um tanto moderna para o filme, não se enquadrando na história e em todo o contexto daquela época. Talvez sua performance tenta tido esse propósito, já que a personagem é jovem e à frente de seu tempo, mas de qualquer forma parece deslocada em um filme que se preocupou demais com importantes detalhes.

É um filme um tanto longo e cansativo (Chris Columbus é um dos produtores, então isso já era experado), oferece cenas hilárias seguidas de outras de dar nó na garganta. A história poderia ter sido mais elaborada e não tratada com o teor simplório como foi, mas a sua importância de mostrar uma outra parte da história norte-americana existe e é real, esclarecendo muitas coisas sobre a cultura não apenas norte-americana, mas ocidental no geral. Os problemas raciais que ocorreram no estado do Mississipi é apenas um fragmento quando comparado com outros lugares e nações, sendo o filme um sinal de emergência para algo que ainda é extremamente atual quando analisamos o progresso social pelo mundo e concluímos que muito do que é mostrado continua acontecendo nos dias de hoje, mesmo que disfarçadamente.

CONCLUSÃO...
Não é um uma comédia romântica comum e muito menos um filme de garotas, como alguns podem pensar. Ele não tenta em nenhum momento fazer quem assiste se sentir enganado com um mágico final feliz. É um filme sincero e frágil tanto quanto suas personagens que são uma importante parte da história não apenas dos Estados Unidos, mas dos direitos humanos mundial.
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