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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

MIL E UMA PERSONAGENS...

★★★★★★★★☆
Título: Orphan Black
Ano: 2013
Gênero: Drama, Ação, Ficção Científica, Policial, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Tatyana Maslany, Jordan Gavaris, Maria Doyle Kennedy, Kristian Bruun, Kevin Hanchard, Dylan Bruce, Evelyne Brochu
País: Canadá
Duração: 44 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Ao ver uma sósia idêntica se suicidar em sua frente, uma mulher rouba sua identidade para fugir da polícia e dar a ela e sua filha uma nova vida, mas isso foi apenas o gatilho de uma grande conspiração no qual será o grande pivô.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando Orphan Black estreou em 2013, ninguém imaginava que o seriado teria a repercurssão que teve. Obviamente que o que mais chamou a atenção foi o fato da atriz principal ser responsável por representar um número respeitável de protagonistas, o que fez a audiência aumentar em mais de 90% em seu segundo ano, dando sustentação para que a história agora caminhe para sua quinta e última temporada, a estrear no primeiro semestre de 2017.

A história, que tem como enredo principal a clonagem humana, não é uma grande novidade. A novidade é como ela é desenvolvida, além do intenso trabalho técnico por parte da produção, quanto por parte das diferentes caracterizações de Tatiana Maslany, uma atriz que, apesar de um longo currículo, era pouco conhecida até conseguir o papel da heroína Sarah Manning e suas demais irmãs-clone.

Muito parecido com o que J.J. Abrams fez em Alias (2001-2005), talvez este tenha sido o grande "precursor" de Orphan Black, já que Jennifer Garner também interpretou diversos personagens distintos nos mais de cem disfarces e caracterizações que fez parte do cotidiano de Sidney Bristow, uma agente da CIA, sua personagem. Por isso que, por muitas vezes, seja pelo próprio desenvolvimento do enredo e o excesso de relação parental que a história de Orphan Black constrói ao longo dos episódios, chega a ser um tanto impossível não fazer associações saudáveis, conseguindo ser um tanto nostálgico e até matando um pouco a saudade da fórmula que Abrams recriou com sucesso para a televisão em 2001 ao mesclar diversos estilos sem sair do contexto, e que os criadores Graeme Manson e John Fawcett repetem aqui. A grande diferença é que Alias foi muito interessante em suas primeiras temporadas, perdendo o gás e o interesse da audiência conforme se aproximou ao fim, o que não acontece em Orphan, já que os criadores afirmam que, desde o princípio, a série foi desenvolvida para ter um começo, meio e fim, o que sabemos que pode ser apenas uma desculpa para justificar o fim, já que a primeira temporada é muito forte e consistente em comparação com as demais. Seguindo essa lógica, já foi anunciado que a quinta temporada será a última, justamente para impedir que a produção corra o risco de ter seu fim adiado para dar lugar a temporadas sem sentido e que possam enfraquecer o que foi construído até então.

Assim como qualquer seriado que sobrevive além de três temporadas, tem muita linguiça no meio para preencher episódios, que apesar de serem poucos (10 por temporada), por vezes parecem arrastados, o que fez com que subtramas fossem abandonadas de última hora ou enfraquecidas até o total desaparecimento, deixando evidente que não tinham forças para serem sustentadas, como acontece quando introduzem o clone transgênero Tony Sawicki, que sai da história tão rápido como entra, ou das idas e vindas da relação entre Cosima (Tatyana Maslany) e Delphine (Evelyne Brochu), esta última que acabou se transformando em uma personagem-muleta para reviravoltas nas tramas. O mesmo ocorreu com o grupo religioso extremista de Proletheans, que surge como uma grandiosa ameaça, mas tem um desenvolvimento bastante insatisfatório, fazendo da segunda temporada a mais fraca delas e um tanto sem sentido.

Personagens também não escapam de alguns desastres criativos, como acontece com Paul (Dylan Bruce), que nunca teve uma identidade definida, sempre empurrado pra lá e pra cá, sem um objetivo aparente, embora sua conclusão na terceira temporada seja extremamente satisfatória e emocionante. O mesmo com Helena (Tatyana Maslany), a grande vilã da primeira temporada e que acaba passando pela velha "gourmetização" de personalidade, ou seja, tendo momentos de redenção na história para conquistar a empatia da audiência, deixando de ser dramática e densa para ter um apelo mais leve e cômico. Realmente, o que fizeram com Helena foi eficaz e funcinou muito no contexto ao transformá-la em uma anti-heroína, mas a personagem em si, uma das mais complexas e impactantes dentre as "sestras" (como ela chama suas irmãs-clone), acabou sofrendo com isso, aparecendo e desaparecendo na terceira e quarta temporadas apenas para amarrar pontas soltas e concluir situações abruptamente. Há também problemas com o Detetive Art (Kevin Hanchard), o parceiro de Beth, e que vem a se tornar o melhor amigo de Sarah, que poderia ter sido muito mais funcional do que foi, ainda mais com tanto poder da lei nas mãos, havendo momentos que sua existência é simplesmente esquecida.

Absurdos também acontecem para dar aquela falsa impressão de que o roteiro é bem amarrado, como no já citado excesso de relação parental. Essa sensação de que "tudo acontece na família" é um artifício cliché da televisão e só é eficaz para quem faz vista grossa, como aconteceram com excesso em Alias, Heroes, True Blood... apenas para citar alguns que me lembro.

Mas ao mesmo tempo muita coisa funciona, como o núcleo cômico de Alison (Tatyana Maslany) e Donnie (Kristian Bruun), o típico casal suburbano que vive de aparências, mas no fundo guardam segredos sórdidos, como se tivessem saído de Wisteria Lane, do falecido Desperate Housewives. Aliás, Alison consegue ser uma excelente referência a Bree Van de Kamp (Marcia Cross) com suas manias perfecionistas e seus transtornos psicóticos. O mesmo a ser dito sobre Krystal (Tatyana Maslany), uma personagem que entrou um pouco tarde e poderia ter sido melhor aproveitada quando apareceu, pois rende hilários momentos tal qual a breve participação de Adele (Lauren Hammersley), a meia-irmã biológica de Felix (Jordan Gavaris), este o qual acaba se tornando um tanto cansativo pelo excesso de estereótipo e exagerado comportamento gay. Mas para esses detalhes de caracterização há motivos, já que, segundo os próprios criadores, todos os personagens são propositalmente estereotipados para serem facilmente identificáveis.

Apesar de tudo, a grande qualidade da série, como um todo, é não demorar para concluir subtramas. Na primeira temporada tudo parece muito complexo, mas como o roteiro não enrola, nada é confuso, sem dúvida ainda é a melhor temporada até então. Eventos e conclusões que poderiam se estender por temporadas são resolvidos em poucos episódios, dando dinamismo sem cansar. Nas demais a mesma estética é seguida, e mesmo perdendo o fôlego em alguns momentos, são pontuais episódios dramáticos e bastante emotivos os responsáveis por atrair novamente o interesse pela história que é contada, momentos que, para as mais derretidas das manteigas, chorar será inevitável.

Mas nada se compara ao desenvolvimento da personagem principal, a engrenagem-mãe de tudo. É bastante interessante o processo de amadurecimento e transformação de Sarah Manning durante as temporadas que seguem, e como de uma mulher comum e inconsequente, ela se torna uma mãe dedicada, uma investigadora sagaz, uma idealista auspiciosa, uma estrategista de guerra, uma chefe de família responsável, para - enfim - se concluir como uma grandiosa heroína propriamente dita, mesmo que cometendo algumas decisões erradas aqui e ali, o que lhe traz uma dose maior de humanidade. A história faz ela ter esse processo de forma bastante natural e sem forçar a barra, e da primeira temporada, que a vemos como alguém sem qualquer perspectiva e que mal consegue segurar uma arma, chegamos à quarta vendo Sarah como uma mulher madura, determinada e corajosa, de um intenso objetivo altruísta.

Sarah não eh uma personagem perfeita como Alison, tão inteligente quanto Cosima, tão perturbada como Helena, fria e calculista como Rachel, ou superficial como Krystal, mas tem a mesma determinação de Beth, uma de suas irmãs-clone, com quem teve um primeiro e desastroso contato quando esta comete suicídio em sua frente, logo no primeiro episódio.

O egoísmo ambicioso de Sarah, bem como suas decisões impensadas - como roubar a identidade de Beth - tem propósitos, e são justificadas pela infância problemática de 'orfã sem origem' (daí o título da série), de sua relação conturbada com sua mãe adotiva, Siobhan (Maria Doyle Kennedy), além de sua insegurança em oferecer à sua única filha um futuro sem os mesmo traumas psicológicos e as mesmas dificuldades de autoaceitação.

O que parecia algo simples, de repente se transforma em um perigoso jogo conspiratório no qual ela se encontra no meio, e os mistérios que passam a atormentá-la a transformam no pivô das intrigas corporativas e uma ameaça a elas, que tentam há décadas dominar a indústria biogenética ao forçar e controlar uma evolução humana sem precedentes.

Quando Sarah descobre ser parte de um experimento, um dos poucos bem sucedidos por conta de uma evolução natural (mutação genética) que ocorreu no processo, é então que toda a trama toma forma, e a jornada da personagem pela busca de seu passado e a preservação do seu futuro - e de toda uma família que, ironicamente, ela adota - dão início em uma trama científica que, como é de se esperar de qualquer tema complexo, como clonagem, DNA e genomas, tende a se perder com o tempo, mas isso, bem como demais defeitos do seriado, pouco importam perto do interessantíssimo trabalho de Tatyana.

Se Mulheres de Areia (1993) já parecia uma grande coisa no Brasil ao ver Gloria Pires interpretar Ruth e Raquel de maneira tão técnica ao ponto de sabermos identificar quem é quem até mesmo quando vestidas iguais, Tatyana excede qualquer limite, conseguindo o mesmo feito (ou até mais) com a mesma categoria. Testada ao limite pelos próprios criadores que se recusavam a retirar alguma personagem quando uma nova entrava na história, ela já afirmou que o processo era cansativo e desafiador, mas sem dúvida o melhor presente que qualquer ator poderia ganhar.

O maior feito dos roteiristas é que todas as personagens que ela interpreta são muito bem escritas, carismáticas e cativantes, e mesmo havendo um processo de caracterização simples, como cabelo e figurino (que são importantes, mas não essencial), é a interpretação técnica da atriz que se destaca e traz identidade única a cada uma delas, merecendo devido respeito. Cada uma tem sua própria maneira de se expressar, de se comportar e gesticular. Todos os clones que ela interpreta não apenas impressionam pela sua diversidade como também são convincentes ao ponto de simplesmente esquecermos que todas são, de fato, a mesma atriz. Há diversos momentos que realmente acreditamos que essas personagens existem e nos sensibilizamos com seus particulares dramas e conquistas, e vê-las interagir umas com as outras é um espetáculo à parte, tanto pela parte visual, quanto pela mera apreciação de ver Maslany interpretar (ou confrontar) com ela mesma. Sua dedicação a cada uma é tão grande que ela consegue um raro feito de ser amada e adoravelmente odiada ao mesmo tempo até em uma única cena, como quando sentimos o extremo otimismo de Cosima ao mesmo tempo que Rachel envenena o ambiente com sua contida crueldade. Sem falar dos momentos em que uma personagem finge ser outra, e mesmo sem sabermos disso, conseguimos perceber qual delas está sob o disfarce. É uma loucura, e não há limites para a ousadia nesse seriado e para a interpretação da atriz, e é isso que a catapultou a um patamar respeitável.

Não é à toa que a Academia de Televisão foi duramente criticada pelos fãs por não terem indicado a atriz ao Emmy em 2013, causando um verdadeiro quiprocó no Twitter que, segundo a própria atriz, sempre brinca dizendo que foi a maior publicidade que o seriado teve até então, garantindo seu emprego.

Para Tatyana, o primeiro ano de filmagem foi realmente enlouquecedor porque ela se cobrava demais, chegando ao ponto de confundir as personagens durante as filmagens, o que levou a equipe a contratar uma pessoa específica para fazer anotações e observações sobre cada uma das caracterizações, evitando assim que, se por exemplo, uma personagem tivesse uma maneira de apoiar seu braço na cintura, ela não corresse o risco de repetir o mesmo trejeito com as outras. Ela também tem um orientador vocal, que a assessora nos diferentes sotaques que usa e na identidade vocal de cada personagem, já que cada uma tem entonação, pausa e variações de fala distintas. Enfim, o processo de criação individual das personagens é tecnicamente impecável, e impressiona pela veracidade como ela transmite isso. Por essas e outras que ela ter recebido o Emmy de melhor atriz neste ano foi tão comemorado. Na verdade, como brincou o apresentador Jimmy Fallon no ano passado, Maslany deveria ter uma categoria apenas para ela.

Uma grande pena é não termos a oportunidade de saber mais sobre o passado de cada uma das personagens além do superficial, mas talvez seja melhor assim, ou talvez isso venha a acontecer na última temporada, ou talvez isso nunca aconteça. De qualquer forma, Orphan Black é um seriado diferenciado pela sua ousadia e qualquer excesso de elogio a Maslany realmente é pouco.

CONCLUSÃO...
Obviamente que Orphan Black não foge de defeitos e tem belas escorregadas ao longo dessas quatro temporadas, mas a história pouco importa perto do trabalho desempenhado pela atriz e pelas personagens que, sem excessão, são muito bem desenvolvidas e carismáticas, como se cada uma delas fosse interpretada por alguém diferente. A trama está em sua reta final, e 2017 terá sua última temporada. Aguardaremos para saber se o fim será satisfatório.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

LE FREAK, C'EST CHIC...

★★★★★★★☆☆
Título: The Get Down
Ano: 2016
Gênero: Drama, Comédia, Musical
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Justice Smith, Herizen Guardiola, Shameik Moore, Yahya Abdul-Mateen II, Jimmy Smits, Giancarlo Sposito, Kevin Corrigan
País: Estados Unidos
Duração: 52 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um garoto poeta, uma aspirante a diva Disco e um grafiteiro são impactados pelas importantes mudanças socioculturais no Bronx entre as décadas de 60 e 70, em meio à máfia musical novaiorquina, muita levada Black e cultura Hip Hop.

O QUE TENHO A DIZER...
The Get Down é um projeto que Baz Luhrmann vem esculpindo há dez anos, e percebe-se de maneira bastante clara o motivo de ter demorado tanto tempo para sair do papel, já que lida apenas com a cultura negra norteamericana e como sua relevância tornou-se forte influência no cenário cultural mundial, além de inaugurar um importante espaço para o protagonismo negro no Netflix sem precisar transformá-los em piadas prontas ou vitimizá-los da maneira melodramática ou sensacionalista, como costumamos ver no cinema e na televisão.

A série tem como cenário o bairro do Bronx, mais especificamente sua porção sul, inflada por imigrantes, que sofreu com a pobreza e delinquência durante as décadas de 60 e 70, quando gangs dominavam o bairro durante a recessão econômica, impedindo o desenvolvimento social e urbano, obrigando a própria comunidade a buscar soluções para sua autosobrevivência. A série enaltece a cultura Black da melhor forma possível, só que sempre dentro de um ambiente antagônico entre o glamour e a pobreza, o lixo e o luxo dos guetos.

Luhrmann repete aqui aquele estilo que o consagrou, introduzindo elementos musicais em meio à narrativa, usando a música como uma extensão dela em uma trilha sonora arrebatadora do início ao fim com os mais diversos clássicos que usam e abusam do groove, do scratch, dos samples, dos loops e do black power. "Cheio de mojo, baby", como diria Austin Powers. Só que sem a mesma apoteose carnavalesca de Moulin Rouge! (2001), dessa vez o cenário se torna um pouco mais acessível, identificável, palpável e próximo. Claro que ainda existe um embelezamento nos cenários e situações, um filtro de limpeza que deixa tudo um pouco mais bonito e organizado na tela do que deveria, mas não se pode negar que a cultura negra esteja bem representada em suor e cores. E por essas e outras que The Get Down pode ser visto como o lado B de Vinyl (2016), seriado da HBO cujo tema é também sobre o cenário musical da mesma época.

É impossível não se emocionar ou sentir nos ossos a vibração e o poder da música Black de raiz quando as pistas de dança invadem as cenas em belas coreografias, figurinos e maquiagens de tirar o fôlego como os filmes de Travolta costumavam fazer. A diferença aqui é que não estamos falando do rockabilly, mas do ápice do boom da Disco Music, e do momento em que o verdadeiro Funk (junto com o Disco-Funk) se disseminava pelo underground novaiorquino e começava a tomar conta das ruas para o mundo.

Não me lembro de ter visto uma representação tão imponente dessa atmosfera tal como Luhrmann cria nos três primeiro episódios. E como não admirar a forma como ele insere a máfia dentro disso tudo? Conseguindo dar glamour até mesmo à violência - tal como ele fez em Romeu + Julieta (1996) - além de transformar o cenário musical inexoravelmente o centro de toda a trama.

A história tem a intenção básica de, uma forma bastante didática, contar como a Black Music e a
cultura Hip Hop foram movimentos socioculturais importantes para a compreensão e maturação de uma sociedade segregada e sem perspectivas. Há um tom lúdico em tudo, notado pelo elenco juvenil mais presente do que o adulto, além dos personagens principais lidarem com temas corriqueiros dessa fase da vida, como a descoberta do amor, do sexo, amizade e a concretização de sonhos. E em meio a esses símbolos da juventude são inseridos os perigos sociais, como a violência urbana, o oportunismo, a ambição e o tráfico de drogas. São igualmente estilos do diretor, que adora recriar historietas shakesperianas aguadas de amores impossíveis em meio a rivalidades famíliares ou grupistas, algo que tem aos baldes. Mas mesmo que o roteiro se bagunce um pouco para criar uma coerência com tudo isso, não deixa de ser válida a tentativa de mostrar os processos de escolha e quais são as motivações para se decidir entre o caminho certo ou o errado, e como tudo progride para cada um dos personagens.

É interessante a maneira como a cultura Hip Hop é usada para construir essa narrativa fictícia de maneira respeitosa, ainda que se mantendo pop e acessível, justificando fantasiosamente a origem de estilos e raízes para dar densidade às tramas, como a batalha de rimas e MC's como um processo fundamental para o protagonista; as batalhas de dança, que no contexto é o que empodera os personagens e mostra o seu grau de influência no grupo; a grafitagem, que exterioriza o modo de vida e o pensamento; a discotecagem, que na história representa o domínio da massa e a busca pela fama; a formação de gangues e os atritos entre elas, representando o controle e reinado.

Infelizmente o cuidado do design de produção não foi o mesmo com a escolha de elenco. Há uma incoerência que tende a deixar os melhores atores ao fundo e trazer para destaque aqueles que mal conseguem representar, a começar por Herizen Guardiola, que interpreta a "heroína disco" Mylene, que entre lágrimas que não escorrem e um falso sorriso irritante para tudo quanto é cena, faz a situação parecer um teatro escolar. As atrizes que interpretam suas melhores amigas conseguem fazer um trabalho muito mais surpreendente do que ela própria.

É clara a intenção de Luhrmann em Glee-metizar o seriado para atrair o público mais jovem que adora ver personagens de repente começarem a cantar e dançar na padaria, mas para uma produção que se atentou aos detalhes da época e que até conta com atores de peso pesado como Giancarlo Esposito ou Jimmy Smits, a falta de talento cênico de poucos deprime bastante a qualidade geral de algumas cenas, como a presença apática de Jaden Smith (filho de Will Smih), facilmente dispensável. Talvez tudo poderia ter sido mais interessante e empolgante se a história não tivesse uma mistura etária tão gritante. Luhrmann faz isso como que a mostrar que não importa a idade, é como se todos estivessem dentro de uma caixa com os mesmos objetivos, ou todos fossem tratados como iguais, mas essa discrepância tira aquela pitada de verossimilhança que faria toda a diferença.

A produção de doze capítulos foi divida em duas partes, e os últimos seis episódios serão lançados no primeiro semestre de 2017, uma provável nova estratégia da Netflix de "encurtar" o perído de espera de temporadas, ao invés de soltar todos os episódios de uma vez só e seus assinantes terem que amargar um ano inteiro sem material inédito. Talvez funcione, e com The Get Down a idéia não poderia ser melhor, já que os episódios tem muito para ser apreciado.

CONCLUSÃO...
Luhrmann sem dúvida acerta na maior parte do tempo, até mesmo quando as intenções parecem erradas, como rejuvenecer demais o tom. Mas ao mesmo tempo isso alivia aquele peso dramático e violento que o seriado poderia ter, e deixá-lo um tanto lúdico deu uma característica diferente e apreciável, mesmo que inverossímil e um tanto aguado algumas vezes.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

ESTUPIDEZ SEM LIMITE...

Título: Esquadrão Suicida (Suicide Squad)
Ano: 2016
Gênero: Ação, Super Herói, Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: David Ayer
Elenco: Margot Robbie, Will Smith, Viola Davis, Jared Leto, Cara Delavigne
País: Estados Unidos
Duração: 125 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um grupo formado pelos maiores criminosos e psicóticos do país são recrutados secretamente para tentar impedir um desastre de proporções mundiais. 

O QUE TENHO A DIZER...
A Marvel criou no cinema uma fórmula que deu certo. E dentro de um planejamento de 10 anos, divididos em três fases, concretizou seu Universo Cinemático. Nada do que ela fez dentro desse período foi decidido da noite para o dia. Foi um planejamento de longa data, moldado e adaptado conforme o interesse do público e dos fãs, até encontrar seu tom. Tudo muito sutil, mas feito com cuidado e uma filosofia única em foco: lucrar respeitando o próprio legado.

Demorou para a DC/Warner resolver fazer o mesmo no cinema, já que nos video-games e na televisão, por exemplo, essa universo já existe e é sólido, como os jogos Injustice e DC Universe, e com seriados como Arrow, The Flash e Supergirl. A diferença é que a DC se atrasou demais no processo de expansão desse universo para o cinema, e por isso tem colocado os pés na frente das mãos. 

Mesmo Homem de Aço (Man Of Steel, 2013), de Zack Snyder, ter sido um fracasso de crítica, a Warner se aproveitou do razoável sucesso de público para tão logo divulgar sua continuação direta, e de última hora fazê-la o grito de largada do seu universo cinemático próprio. Os erros de Homem de Aço poderiam ter sido usados como experiências do que não devia ter sido feito em Batman vs. Superman, como manter Zack Snyder na direção, por exemplo. Mas ele não apenas foi mantido e cometeu os mesmos equívocos, como também irá dirigir A Liga da Justiça, o maior investimento do estúdio e a principal razão de existência de todo esse universo que ela tenta criar a tropeços e solavancos. Por isso que tem valido a máxima "errar uma vez é humano, contratar Zack Snyder de novo foi burrice, e mantê-lo será suicídio".

O prematuro Universo da DC no cinema tem sido marcado por decisões sem foco, levando essa investida da Warner a um caminho sem rumo, eira ou beira, restando a Esquadrão Suicida e ao aguardadíssimo filme solo de Mulher-Maravilha, a tentativa de capturar um novo fôlego e reacender o interesse de um público que já está desinteressado, mesmo que ainda preencha as salas de cinema por pura curiosidade e minguadas expectativas.

Nada seria mais interessante do que uma história em que grandes criminosos sejam recrutados para missões que heróis deveriam ser poupados. O nome da equipe não seria mais apropriado, e a DC a mais coerente a ter uma equipe assim, já que o selo é marcado por vilões cujas personalidades psicóticas tendem a ser muito mais interessantes do que a de seus heróis.

Aqui a história já entra na proposta do universo, com início a partir dos eventos de Batman vs. Superman, no qual Amanda Waller (Viola Davis) discursa sobre a vulnerabilidade de todos após a suposta morte de Superman. Com a ajuda de Batman e de meta-humanos, como The Flash, conseguiu capturar alguns dos maiores criminosos do país, pois pretende recrutá-los para um programa secreto de segurança do Governo, no qual ela é responsável.

Linear e apresentando brevemente a história de cada um dos recrutados, a introdução é um pouco longa e cansativa, e após isso um tanto repetitiva, já que por várias vezes temos que passar pelo ponto de vista de cada personagem sobre alguma determinada coisa no decorrer da trama. De qualquer forma, o filme acaba e continuamos sabendo nada muito relevante a respeito de ninguém. Ou seja, superficial, pois caso não fosse, estaria na memória.

Mas a impressão maior que se tem com Esquadrão é uma coisa meio óbvia: a de ter sido feita às pressas, assim como aconteceu com Lanterna Verde (Green Lantern, 2011). Sabe-se também que, depois das pesadas críticas negativas que Batman vs. Superman recebeu, o estúdio pressionou para que o filme fosse editado de forma a amenizar o tom violento e não sofrer com a classificação etária. Não é à toa que dezenas de cenas foram deletadas, e muito do palavriado jocoso que poderia ser usado para o bem do contexto dos personagens foi igualmente censurado pelo estúdio. É nessas horas que admiramos Deadpool (2016), sua violência explícita, a boca aberta do anti-herói e suas piadas sujas, outra lição que a Warner deveria ter aprendido, dessa vez, com a Marvel.

O didatismo simplista do roteiro chega a níveis abusivos porque a grande falha, como sempre, é amenizar a carga dramática e a personalidade violenta ou insana dos personagens, deixando tudo politicamente correto. No começo até tentam dar alguma densidade, só que sempre que alguma cena tenta ultrapassar o limite, ela é cortada abruptamente. O maníqueísmo simplista de Hollywood (bem como de boa parte da mídia de entretenimento) parte do princípio de que os espectadores não podem se identificar com vilões ou anti-heróis. Pelo ponto de vista religioso, isso induziria ao mal, já que o mal é relativo ao inferno, e o bem ao paraíso. Por isso que nenhum vilão é bem sucedido. Ou ele morre pelas mãos de um herói e vai para o inferno, ou tem que se redimir de suas atitudes diabólicas para subir aos céus. Essa é a justificativa para existir os momentos clichés de redenção dos vilões ou bandidos, pois assim os espectadores não se sentem culpados por se identificarem com eles, ou simplesmente os acharem mais interessantes do que os heróis ou mocinhos. Por isso que mostram Deadshot (Will Smith) pensar em sua filha constantemente, ou Diablo (Jay Hernandez) ser uma pessoa constantemente arrependida e Arlequina (Margot Robbie) sofrendo de amor como uma donzela virgem e solitária no alto de uma torre. Clichés da redenção para dar motivos fáceis aos espectadores de que o lado humano dos vilões é mais forte.

Esquadrão Suicida surgiu nos quadrinhos para justamente ir contra esse pensamento de que apenas heróis seriam capazes de realizar atitudes heroicas. Foi uma oportunidade que a DC encontrou de fazer com que seus vilões pudessem ser admirados como os heróis, mas sem nunca esquecermos de que eles não são pessoas de boa índole. Por isso, são obrigados a prestarem esses serviços, sofrendo constantemente ameaças e chantagens da impiedosa Amanda Waller. Essa justificativa é o que deixa evidente que, não importa o que façam, eles nunca serão bonzinhos.

Só que isso é algo que não vemos acontecer de fato nessa adaptação, e o resultado é um filme inerte, que falha em todos os aspectos possíveis, pisando em ovos para não ser chocante ou infantil demais, caindo numa cafonice intragável que sobrevive na gambiarra dos péssimos efeitos especiais e da trilha sonora para cobrir os buracos emotivos de cenas apáticas. Nota-se que os efeitos especiais não interagem de maneira convincente com as cenas, sendo tão ruins quanto a maquiagem de Crocodilo. Resultados da pressa, já que todo o processo demorou um ano, desde a pré até a pós produção. Um período de tempo muito curto para uma adaptação como essa ter qualidade.

Não é um filme divertido, sequer empolgante ou engraçado, sem ritmo ou coerência. Em nenhum momento oferece a sensação de que o grupo é formado por aqueles que deveriam estar entre os maiores vilões e criminosos do Universo DC. Ao invés disso, nos passa a impressão de que escolheram aleatoriamente um bando de ladrões de galinha que não terão a mínima idéia do que fazer em um campo de guerra. Então imagine como será quando descobrirem que terão de impedir uma entidade diabólica de destruir o planeta: "vamos explodir uma bomba", pensam eles. Porque é óbvio, é a solução mais prática.

David Ayer, diretor e roteirista, foi responsável por filmes como Corações de Ferro (Fury, 2015) e Marcados Para Morrer (End Of Watch, 2012), o primeiro sobre a Segunda Guerra, e o segundo sobre a violência nas ruas. Dois filmes que receberam críticas positivias, levando a perceber como ele está igualmente deslocado nessa empreitada. Esses personagens poderiam ter sido muito melhor aproveitados em tramas das quais Ayer já estivesse familiarizado, em coisas mais palpáveis até, e condizente com os talentos de cada um, como uma ação política, uma guerra iminente, ou simplesmente sendo obrigados a confrontar outros vilões de igual nível criminoso. Fiquei pensando como poderia ter sido interessante impedirem uma conspiração do Coringa, por exemplo, e como isso teria abalado a relação entre ele e Arlequina e as consequências disso, o que é sempre uma bomba prestes a ser detonada.

Mas não, preferiram dar uma missão fantástica e sobrenatural, como se eles fossem Os Vingadores. Percebe-se aí a intenção barata de atrair o público pelo exagero e não pela qualidade e coerência, errando feio mais uma vez.

É um filme sofrível que causa bocejos em cadeia no cinema. A falta de reação do público constrangia como um grande vazio durante os diálogos sofríveis. Há um momento em que um dos personagens repreende Arlequina, dizendo que ela sempre cria discussões no meio das conversas. Mas que conversas? Que discussões? Não havia tido nenhuma até então, principalmente ela. E por que não discussões? São todos vilões! Enfim, não há diálogo sequer para criar vículos entre eles ou com o público. O que se tem, do início ao fim, são  frases de efeitos para a câmera, como piadas prontas ou bordões. Imediatas como memes de internet que aguardam gargalhadas, mas nunca conseguem.

Deprimente querer transformar um personagem tão cruel como Crocodilo em um piadista estúpido, ou quase arrancarem uma lágrima de Deadshot quando este recebe a notícia que Arlequina morreu (e isso não é um spoiler). Inclusive, não consegui entender até o momento a razão de Will Smith no elenco. Assim como vi alguém dizer, parecia que estava lá para poder pagar o aluguel do mês.

E no meio de tanto desperdício, nem mesmo a caracterização dos atores se salva. Jared Leto ficou longe de conseguir criar uma caricatura mais atual e memorável do Coringa, ele estava mais para um personagem teatral que solta grunhidos estranhos do que para alguém mentalmente perturbado como foram as versões de Jack Nicholson e Heath Ledger. Leto não precisava ser tão exagerado no meio de tanta informação visual, e o resultado foi um bolo de noiva: decoradíssimo por fora, mas sem qualquer sabor ou conteúdo. Até porque sua participação no filme é infame, para não dizer "sem qualquer motivo" além de atrair público e mostrar seu vínculo com Arlequina, esta que, por sinal, poderia ter sido melhor aproveitada.

Margot Robbie tinha uma grande oportunidade de fazer com que a personagem fosse memorável, mas é desperdiçada não porque foi incompetente, mas porque o péssimo roteiro que não soube aproveitar seus potenciais. Quero dizer: ela é o grande destaque, mas isso só é possível porque os demais foram pessimamente desenvolvidos. O filme se preocupa muito mais com sua imagem sexista do que com aquilo que ela poderia oferecer de fato. Não é raro os momentos que aparecem os demais personagens masculinos perdendo o foco em suas curvas, e a câmera parece fazer o mesmo, perdida e sem saber onde ir toda vez que ela aparece. Excesso de planos fechados quando seria mais fácil vê-los aproveitarem melhor os cenários e terem espaço para o improviso e brincarem com suas caricaturas.

Arlequina é um tipo que leva desastres na brincadeira e brinca fazendo desastre. Em nenhum momento, por exemplo, vemos ela pulando e cantarolando enquanto esmaga cabeças com seu porrete e faz piada dos miolos que voam, já que seu nível de perversidade consegue ser maior que o de Coringa. A relação amorosa que criam entre os dois é tão púbere quanto aquelas que vemos em Malhação, enquanto nos quadrinhos é muito mais complexa, destrutiva e psicótica do que se imagina. Coringa faz dela gato e sapato. Arlequina, assim como o filme mostra, era uma psiquiatra que, de tão fascinada pela sua mente criminosa, apaixona-se por ele. De fato, ela elouquece de amor obsessivo enquanto Coringa se aproveita disso, manipulando-a como um brinquedo o tempo todo. Tanto que Arlequina é constantemente violentada por ele. Ela apanha, é humilhada, ameaçada e repudiada, mas continua junto, firme e forte, porque acredita que assim conseguirá receber a aprovação que tanto espera, ou que seja dessa forma como ele corresponde seu amor por ela.

Ao contrário dessa relação doentia, vemos um casal que escorre sacarina toda vez que aparece, dando azia até em Sonrisal quando demonstram suas loucuras de amor um pelo outro, rendendo várias cenas românticas com direito a música de fundo e tudo. Há uma cena sobre eles que só não foi mais ridícula porque tudo que podia ser feito para ela ser melodramática, foi feito. Aliás, amor aqui é justificativa para tudo. Todo mundo morre por amor, todo mundo mata por amor e todo mundo sofre de amor. E todo mundo é vilão por isso. Nada poderia ter sido mais simples e fácil, ou nada poderia ter sido tão pior do que Deadshot receber um abraço de felicidade. O que era pra ser engraçado, não foi. Foi imbecil.

Tudo é um erro fatal, que desperdiçou a possibilidade de ser o melhor filme de super heróis sem ser de heróis. Já que tinha intenções e foi promovido desde o princípio como algo despretencioso, ousado e diferente tal como foi Deadpool, na realidade conseguiu ser o pior de todos eles. Apelar para o humor barato e na amenização do tom fez aquilo que é o erro número um de adaptações: não ser fiel ao material original. David Ayer tinha mil caminhos a seguir para ser fiel sem sofrer o talhe da censura do estúdio. Sim, era possível o filme até manter um tom mais leve e humorado, mas não precisava ser estúpido e vazio. Ao invés disso, Ayer seguiu para um caminho mais fantástico para impressionar, dando para Esquadrão Suicida uma missão que caberia à Liga da Justiça.

CONCLUSÃO...
Aquele que poderia ter sido um dos melhores filmes do gênero, tanto quanto foi com Deadpool, consegue ser o pior de todos eles por justamente pegar personagens politicamente incorretos e darem a todos eles um gandre banho de moral. O resultado é um filme inerte e estúpido, que não consegue sequer fazer o mais simples: divertir.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

MERECE TODOS OS CRÉDITOS...

★★★★★★★★★☆
Título: Stranger Things
Ano: 2016
Gênero: Terror, Fantasia, Mistério, Suspense, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Winona Ryder, David Harbour, Matthew Modine, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Natalia Dyer, Charlie Heaton
País: Estados Unidos
Duração: 54 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
O desaparecimento de um garoto leva seu grupo de amigos a investigar seu paradeiro, em paralelo, sua mãe desesperada acredita que ele esteja vivo em algum lugar, enquanto um desacreditado delegado encontra pistas que o motivam a solucionar o mistério, convergendo para um outro ponto chave da história.

O QUE TENHO A DIZER...
O fenômeno em torno de Stranger Things não foi algo previsível. Os comentários em torno do "retorno" de Winona Ryder começaram cedo, já que ela não é protagonista de algo realmente interessante há praticamente uma década. Então, aquilo que parecia ser o marketing principal, acabou se ofuscando no meio de outras coisas muito mais interessantes e que as pessoas deram mais atenção, e isso foi o surpreendente. Não que "o retorno de Winona" seja esquecível, mas esse sensacionalismo se tornou um mero detalhe em um seriado que conseguiu o mérito do sucesso próprio, um produto que já nasceu com qualidades natas, mesmo que estas sejam baseadas em releituras do entretenimento popular.

Confesso que, a princípio, esse súbito sucesso me preocupou, já que a intensa popularização de algo tende a gerar uma superestimação que nem sempre significa qualidade. Evitei ao máximo ler o que quer que fosse enquanto não assistisse os oito episódios justamente para não ficar sugestionado, e felizmente foi assim. A minha nula expectativa sobre ele fez eu ser surpreendido da mesma forma que muitas outras pessoas foram, e que igualmente não tinham idéia do que as aguardavam.

Se você não nasceu nos anos 80 e nada absorveu sobre essa década, nada conhece dela, ou sequer assistiu Os Goonies (The Goonies, 1985), então pode ter certeza que Stranger Things pode até parecer legal, mas grande parte da experiência imersiva é perdida porque é uma produção inteiramente nostálgica, recheada de referências a cult classics da época em que Xuxa era da Rede Manchete, SBT ainda era TVS e tudo que era industrial tinha muita gordura saturada, e por isso que a maionese era muito mais gostosa.

Então, nunca é tarde para correr atrás do prejuízo, pois se tem uma coisa - dentre várias - que o seriado proporciona, é essa centelha de curiosidade que ele desperta, sendo obrigatório dizer mais uma vez (mesmo depois de tanto que foi dito) que os grandes homenageados aqui é o cineasta Steven Spielberg e o escritor Stephen King, grandes ícones dos anos 80 em suas determinadas especialidades, referências vivas até hoje. Portanto, o grande clássico infanto juvenil de Spielberg é o principal trabalho revisitado, assim como Carrie (1974), O Iluminado (1977) e A Incendiária (1984), de King, três livros que, se você também não leu, pouco vai compreender de onde vem essa perfeita sincronia entre o trash classudo e do terror psicológico típicos de sua literatura, reproduzidos com bastante competência aqui, inclusive na forma como os episódios são divididos, entitulados da mesma forma como ele costuma separar os capítulos de suas obras. Por essas e outras que King, pessoalmente, elogiou o seriado, como em agradecimento a esta grande e declarada homenagem.

Dirigido e produzido pelos Duffer Brothers (Matt e Ross), o enredo gira em torno do sumiço de um garoto. Isso levará seus amigos igualmente nerds e excluídos da escola, apaixonados por jogos de RPG, a se aventurarem numa misteriosa investigação que contará com outros personagens caricatos, como uma mãe esquisita que é tida como maluca, um delegado de passado familiar perturbado, e uma estranha garota com poderes telecinéticos que foge de um grande vilão corporativo.

Desde os anos 80, nenhum diretor conseguiu influenciar tanto a cultura pop infanto-juvenil no cinema e o senso de amizade e companheirismo de maneira tão motivadora e agregante como Spielberg fez, seja com Os Goonies, ou E.T. (1982), outra importante referência aqui. Essa fórmula que ele inventou "por acaso" se tornou algo tão autoral como uma marca registrada, fazendo com que qualquer outro diretor que tentasse algo parecido soasse como mera cópia. Não é à toa que o público sempre cobrou Spielberg por continuações desses títulos, algo que sempre recusou por acreditar que quebraria a magia que esses filmes proporcionam. O que é verdade, e louvável. Da mesma forma, King foi responsável por popularizar um gênero literário que estava decadente, mas sua capacidade de fazer importantes analogias com a sociedade e a cultura norteamericana de repente o transformaram em um dos mais influentes autores de sua geração, marcando o terror contemporâneo, popularizado principalmente na cultura jovem sem ser cliché.

É por isso que, nos últimos anos, produções com intenção de resgatar essa assinatura de Spielberg tem sido lançadas, pois a distância dos anos agora oferecesse essa dissociação e possibilidade. Por isso que ele nunca é esquecido como influência primordial, sendo esta a razão de recentes produções serem sempre vistas como grandes homenagens tal como propositalmente aconteceu com Super 8 (2011), de J.J. Abrams, que tem exatamente a mesma premissa inclusive estética, embora falhe em vários aspectos. Há também mais recentes, como o pouco conhecido e subestimado Terra Para Echo (Earth To Echo, 2014), que consegue ser, de longe, juntamente com Poder Sem Limites (Chronicle, 2012), os melhores filmes de fantasia para este público lançados nos últimos anos e que seguem essas mesmas referências clássicas que marcaram os anos 80.

Portanto, Stranger Things não é, em sua grande essência, ou até mesmo na sua intenção de resgate de gênero, uma novidade. A novidade parte na inusitada união da fantasia de Spielberg com o fantástico de King, e como o cinema e a TV careceram por tantos anos de produções como essa, e tão pouco ainda foi feito em cima de idéias assim, que o prazer ao assisti-lo é como o de uma primeira vez.

A nostalgia e o bom uso dela é sentida logo na abertura simplista, de vetores que aos poucos revelam o título, algo muito utilizado nas décadas de 70 e 80 quando computação gráfica era uma precária novidade e se fazia isso manualmente na película, além da trilha sonora original sintetizada, que outrora foi uma novidade na revolução eletrônica, mas até hoje proporciona sonoridades únicas e distintas, responsáveis por amplificar atmosferas fictícias e apreensivas daquilo que é desconhecido.

As referências não param por aí, propositais ou não, estão tão enraizadas na nossa cultura que são facilmente identificadas mesmo assim, e esse é o grande diferencial da produção dos Duffer, pois essa mistura de influências vagam pela cultura pop clássica das mais diferentes maneiras, formas e mídias.

Eles abusam de todos elementos possíveis, seja pela literatura, pelo cinema, pelos quadrinhos e até mesmo video-game e desenhos animados. Os personagens excêntricos de King, como dito, são as referências mais óbvias e diretas, mas existem elementos da ficção científica sombria de Ridley Scott e Alien (1979); ao suspense omissivo e o medo pelo desconhecido de Spielberg em Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977) e Poltergeist (1982); ao horror mais explícito de Wes Craven ou John Carpenter para as horas de susto deliberado como em A Hora do Pesadelo (1984) e Halloween (1978); e também ao terror mais gótico de Sam Raimi em Uma Noite Alucinante (1981), transformando ambientes em personagens vivos e ameaçadores, como as florestas da cidade de Hawkins ou a casa que se comunica e se transforma conforme os eventos. E por que não, até pitadas de Cronemberg em composições de cena e trilha sonora, e Kubrick na estética um tanto simétrica em algumas sequências. Não se pode esquecer da influência de Stan Lee e seus X-Men, que embora sejam heróis atualmente populares, surgiram em 1963 e até mesmo dos garotos perdidos do clássico Caverna do Dragão. Mas, para aqueles da cultura mais recente, o jogo Silent Hill e sua reincidente idéia de dimensões paralelas e o mundo invertido que se materializa também tem sua importância. Ou seja, tem material de sobra para cinéfilos, seriadomaníacos, devoradores literários e tudo aquilo referente à cultura escapista e fantástica.

Para amenizar o peso desses sub-gêneros, há momentos para sátiras juvenis entre os três amigos protagonistas e alguns dramas sociais para dar densidades mais realistas, como a descoberta da sexualidade no triângulo formado entre Nancy (Natalia Dyer), Steve (Joe Keery) e Jonathan (Carlie Heaton); no assédio escolar; nas tensões familiares que se formam, seja entre os Byer ou entre os Wheeler; e tragédias pessoais que resultam em atos de bravura, como bem acontece com o Delegado Hooper (David Harbour) e Joyce (Winona Ryder). Tudo muito bem organizado de forma que não esqueçamos que, acima de tudo, é uma história de pura fantasia como aquelas que assistíamos em seriados como Twilight Zone ou Amazing Stories, este último, por sinal, também produção de Spielberg.

Isso é apenas o pouco que pode ser observado em toda a produção, mas para aqueles que respiram a cultura 70/80tista, há muito mais por meio daquilo que se vê e ouve. Recheados de easter eggs, não será à toa que até os menos atentos notarão os cartazez de Tubarão (Jaws, 1975) ou Uma Noite Alucinante (Evil Dead, 1981) pendurados nos cenários, ou da foto do próprio Stephen King na contra-capa de um livro a ser lido por um segurança no quarto episódio. E além da interessante fotografia de época, os mais importantes momentos são marcados com grandes clássicos da música pop, aqueles que tocavam nas rádios e fitas K7 dos walkmans pendurados na cintura. Por isso que este obsoleto objeto tem seu momento de devida importância na história, tanto no começo, quanto no fim.

Não há exagero em nenhuma parte, e quando há, não está fora de contexto. Tudo se encaixa tão bem que a impressão que temos é de um produto original. Logo no primeiro episódio o Delegado Hopper percebe que o desaparecimento é algo sério quando a bicicleta do garoto é encontrada abandonada pois, segundo ele, nenhum garoto daquela idade abandonaria aquilo que é seu maior troféu de liberdade, e numa busca desesperada para compensar uma tragédia vivida (que não vale a pena comentar para não estragar a história), é isso que o motiva a ir até as últimas consequências para desvendar um mistério que naturalmente o levará a outro. Então, é basicamente em cima dessa metáfora da liberdade e da libertação que tudo é construído, e terem se atentado a uma época específica deixa tudo mais empolgante, já que nos aventuramos junto com os personagens de forma muito mais presente e próxima, numa experiência que não seria a mesma se ambientado em um período mais atual, onde os aparatos tecnológicos como celulares, tablets e computadores atrapalhariam com muita facilidade essa intenção mais grupista, fraternal e de explorar o espaço que se vive.

E sobre o "tal" retorno de Winona?

Ela que foi uma das mais icônicas e rentáveis atrizes nos anos 90, sempre taxada como "a esquisitona" por conta de seus papéis que fugiam da zona de conforto que esperavam, já passou por poucas e boas, inclusive por um surto cleptomaníaco que a levou para um julgamento em 2001, criando um movimento mundial chamado "Free Winona". Além de ter sido um dos primeiros grandes memes da época (quando a palavra "meme" sequer existia), o episódio mostrou um lado preocupante da fama, a qual Winona se distanciou cada vez mais com o passar dos anos ao ponto do quase esquecimento. Não que ela seja uma atriz completa, mas sua aparência frágil e fisionomia que iam na contra mão de padrões sempre trouxeram maior simplicidade a papéis complexos, e uma honestidade que os filmes, por vezes, careciam. Não é à toa, então, que Joyce Byer seja sua melhor personagem em anos, de um tipo que tudo tem a ver tanto com sua vida pessoal como com seu currículo de personagens perturbados. A ansiosa que é vista à beira da loucura pelo sumiço de seu filho não apenas se torna cômica na tragédia, mas também é a liga, o glútem de toda a história, já que é ela quem, no fim, agregará tudo. Não tem como evitar as gargalhadas todas as vezes em que ela aparece, no seu jeitão estridente, estabanado, de passo apertado e braços que não conseguem acompanhar o ritmo. Joyce é uma bagunça de pessoa, mas existe uma alma tão bem construída nela e um senso de responsabilidade tão forte que é difícil não se sensibilizar ou simpatizar, seja com sua histeria caricata ou com o honesto desespero de uma mãe que desacredita na morte do filho. E são os momentos mais engraçados que fazem os outros raros e pequenos momentos dramáticos serem tão impactantes, e dentre tantas excelentes qualidades que o seriado tem, a atriz merece um destaque especial, até porque é bastante interessante a maneira como fazem uma personagem que parecia ser tão coadjuvante crescer e se tornar tão dominante.

Mesmo promovido como um horror, a produção vaga por gêneros distintos, sendo dramático, cômico, surpreendente, apreensivo e assustador. Nunca um gênero domina mais que os outro, tal como os terrores dramáticos espanhóis assinados por Guilhermo del Toro como O Labirinto do Fauno (2006), O Orfanato (2007) ou Os Olhos de Julia (2010). Claro que as estéticas são bastante diferentes, mas a intenção sensitiva e a sinergia dessas diferentes camadas é efetiva da mesma maneira.

Essa qualidade narrativa é o que dá dinamismo em tudo, e a opção pela linearidade das tramas e subtramas (com raros flashbacks para embasar alguns fatos) apenas ajuda, promovendo espaço e oportunidade para todos personagens crescerem em seus defeitos e qualidades, mesmo que por alguns momentos o passado de alguns não seja muito bem explorado ou desenvolvido. Mas nada atrapalha a maneira como três pontos de vistas, de três gerações diferentes, se interceptam em um determinado ponto. Por um lado a história mostra a visão mais infantil e fantasiosa sobre o mundo, que se contrapõe com a visão mais trágica e realista da vida adulta, e no meio termo, aqueles meros sonhos juvenis que ainda transitam entre uma fase e outra, sem regras ou foco, havendo oportunidades para arrependimentos sinceros em um acontecimento central que fortalecerá e trará a maturidade que falta a todos, precoce ou tardia.

Assistí-lo definitivamente é como entrar numa pequenina máquina do tempo e sentir as emoções de como o modo de vida e os sonhos eram completamente diferentes de hoje. Isso não quer dizer que naquela época tudo parecia melhor, mas é um resgate necessário para observarmos como em tão pouco tempo, dentro de uma linha histórica, tudo se modificou tão depressa, seja no sentido tecnológico, seja no sentido social. É aquele tipo de situação em que gritar "vamos, amigos!" deixa de ser uma brincadeira de quintal para ter uma importância verdadeira, e no fim de cada episódio tudo ter uma moral como os episódios de He-Man.

Por essas e outras que, assim como os filmes já citados, o que se encontra aqui, em suma, também é uma grande ode à amizade e ao companheirismo e à consciência de que nenhum indivíduo está sozinho, por mais diferente que ele seja ou se sinta. E como uma obra de ficção e fantasia, ele já se firmou como um interessante produto que, no futuro, provavelmente terá marcado uma geração.

CONCLUSÃO...
Stranger Things merece todos os créditos que leva, sendo, de longe, uma das coisas mais interessantes que surgiram no gênero nos últimos saturados anos de vampiros mirins e lobisomens descamisados. Esqueça das fadas e da violência gratuita de True Blood, dessa vez estamos falando de um tipo de fantasia acessível a qualquer faixa etária, que diverte e emociona, e que nos relembra a razão de existência do cinema e da TV, que é nos transportar para outras dimensões sem sair do mesmo lugar.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

TARDIAS DESCOBERTAS...

★★★★★★★☆
Título: Queda Livre (Freier Fall)
Ano: 2013
Gênero: Drama, Romance
Classificação: 14 anos
Direção: Stephan Lacant
Elenco: Hanno Koffler, Max Riemelt, Katharina Schüttler
País: Alemanha
Duração: 100 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um policial que está prestes a se tornar pai se envolve com seu colega gay, obrigando-o a tomar decisões enquanto sua vida parece desmoronar no meio de novas descobertas.

O QUE TENHO A DIZER...
Este curioso filme alemão atualmente disponível no Netflix é o segundo do diretor Stephan Lacant, que também escreveu o roteiro em parceria com Karsten Dahlem.

Mesmo que não fuja muito de clichés de filmes com temática homossexual, o que chama a atenção aqui é a abordagem mais trágica da descoberta sexual tardia de um homem que, além de estar prestes a ser pai, tem uma promissora carreira dentro da academia de polícia em meio a uma sociedade preconceituosa e machista.

Sim, a maneira como a história entre Marc Borgmann (Hanno Koffler) e Kay Engel (Max Riemelt) se desenvolve chega a ter muitas similaridades com Brokeback Mountain (2005), a diferença é se passar em um tempo mais atual, em um cenário menos bucólico (mas ainda sim provinciano) e sem tantos melismas românticos do que o filme de Ang Lee. Ao contrário, como em um staccato, o romance entre os dois ocorre aos solavancos e golpes. Por um lado temos Kay, um homem bem resolvido sexualmente e que se declara amorosamente sem medos, e por outro Marc, que a princípio toma sua nova descoberta sexual como uma grande ofensa pessoal, a autêntica expressão da negação.

O comportamento confuso e dicotômico de Marc é compreensível, principalmente em uma sociedade cujas regras machistas são dominantes, e a certa violência física com a qual ele reage a isso em alguns momentos não apenas é resultado deste comportalmento social como também uma exteriorização do conflito e aceitação, da brutalidade masculina na qual cresceu condicionado. Para piorar a situação do protagonista, sua mulher está grávida. Apaixonado por ela e ansioso pelo nacimento do filho, todos os sentimentos e anseios começam a desmoronar quando Kay faz despertar um sentimento que, até então, estava adormecido ou ignorado. Aquilo que a princípio parecia um escape sexual se torna em algo mais complexo, a tal "paixão proibida" sustentada pela ignorância.

Lacant tem um cuidado especial em não estereotipar demais nem o filme, nem sua história ou personagens, até mesmo em cenas de sexo, eróticas e bastante naturais sem serem ofensivas, e uma das coisas que mais chamam a atenção é esse relacionamento autodestrutivo que ambos desenvolvem, dos quais nenhum dos dois tem culpa. Existe uma tendência de tentar transferir essa culpa ao outro ou a demais de alguma forma, e acaba sendo este o grande inimigo de decisões sensatas por todas as partes.

É interessante também como o roteiro aborda a violência doméstica entre casais homossexuais. Embora no filme essa violência esteja inserida em um contexto específico, não é ingorado que ela exista por situações similares de aceitação, ciúmes ou mera instabilidade psicológica momentânea, engatilhada pela tensão vivida. A violência social também tem uma grande participação na história, seja pela homofobia presente no ambiente de trabalho assediador em que Marc e Kay estão inseridos, ou no latente preconceito da sociedade que não exita em discriminar, ofender e isolar, não importa quem seja ou o grau de parentesco ou intimidade. Violências que, apesar de serem respostas da intolerância, nunca se justificam.

É triste o total isolamento em que Marc aos poucos se encontra. O comportamento de sua mulher ao descobrir que ele tem um caso com Kay torna a repulsa dela sobre ele clara mais pelo fato dele ter tido um caso com um homem do que pela traição em si, uma traição que, vale-se dizer, não foi deliberada. O distanciamento de seus amigos, colegas e parentes também é um processo doloroso, momento em que todos ignoram a pessoa que ele é e sempre foi para darem importância a uma mera conveniência social.

Assim como em comédias românticas tradicionais em que o mocinho deve conquistar a mocinha, em dramas envolvendo casais homossexuais a aceitação e os conflitos gerados por ela se tornam basicamente um cliché, mas cabe ao diretor levar a situação a sério ou não, ridicularizá-la ou não, reforçar estereótipos ou não, e a qualidade final será totalmente dependente disso. Lacant leva o tema a sério, e algumas metáforas ou situações genéricas que ele usa fazem de Queda Livre um pedaço triste da vida sexual cotidiana, comum a milhares de pessoas. As atuações não chegam a ser impecáveis, mas convincentes, tanto dos coadjuvantes quanto dos dois atores principais, com destaque a Max Riemelt, que ficou famoso em 2015 com a popularização do seriado Sense8, no qual, por sinal, interpreta o personagem sexualmente mais liberal de todos.

Reafirmando, a história não tenta ir para o caminho mais romântico e sentimental como a de Yossi e Jagger no filme israelense Delicada Relação (2002), de Eytan Fox, mas a dificuldade de aceitação de uma das partes é a mesma, pois é real, e quando a escolha finalmente se torna algo imprescindível e a consciência mais clara e óbvia, tudo parece um tanto tardio e perdido, mas um excelente ponto de partida para o recomeço.

É dessa forma como o filme termina, nos dando uma sensação um pouco amarga de como a opressão social nos obriga a seguir caminhos que muitas vezes não desejamos, e nessa trajetória, as maiores vítimas somos nós mesmos. Por essas e outras que foi anunciada uma continuação, ainda sem data de lançamento, mas que virá a calhar para concluir as doloridas pontas soltas deixadas nesta primeira parte, e claro, porque existe o interesse em saber qual será o futuro de Marc e Kay.

CONCLUSÃO...
Nada muito profundo ou sentimental, mas consegue ser sincero em meio à brutalidade social que vivemos. Lacant consegue captar elementos comuns e até mesmo simbólicos no processo de descoberta sexual tardia e a bagagem aderida a ela sem precisar de estereótipos para isso.

IGUAL, MAS DIFERENTE...

★★★★★★★☆
Título: Marcella
Ano: 2016
Gênero: Drama, Policial, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Anna Friel, Ray Panthaki, Nina Sosanya, Nicholas Pinnock, Harry Lloyd
País: Reino Unido
Duração: 60 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Quando seu marido resolve abandonar sua família, Marcella resolve solicitar sua readmissão como detetive de polícia, se deparando com um caso bastante familiar e perturbador.

O QUE TENHO A DIZER...
O multinacionalismo da Netflix tem rendido séries como Marcella, feita para o público britânico, com narrativa e tramas tipicamente britânicas, mesmo que a série tenha sido criada, escrita e produzida pelo sueco Hans Rosenfeldt.

Todos que acompanham seriados já viram a história de Marcella antes: uma detetive que é readmitida quando uma série de assassinatos leva a crer que um serial killer do passado aparentemente voltou à ativa. Também já vimos dramas similares, como a do casamento falido da protagonista, do marido infiel e dos filhos distantes. Também já vimos crises psicológicas rotineiras, como a cegueira histérica desencadeada por surtos nervosos e violentos pela qual a personagem passará algumas vezes, fora outras coisas já banalizadas em outras produções do gênero, mas que aqui soam naturais na maior parte do processo.

Ou seja, nada na vida de Marcella é novidade, seja profissional ou pessoal. Nada também é novidade para o espectador. Então o que faz dessa série algo interessante?

São raras as vezes que o uso intensivo de clichés resulta em uma boa e bem desenvolvida história, e o que acontece nesse seriado é que, mesmo todas as situações mostradas tenham um sabor requentado, elas mais se apresentam como um cansativo cotidiano do que simplesmente um reaproveitamento (ou reciclagem) de tudo aquilo que o cinema ou a televisão já usaram a abusaram nos últimos anos.

Como o próprio título induz, o seriado é apenas sobre Marcella, mas não por aquele ponto de vista objetivo e simplista, mas subjetivo e intimista. É ela quem realmente dominará todas as tramas que trajetam adequadamente entre o drama, o policial e o suspense. Ela pode ser uma heroína, mas é uma mulher comum, uma detetive que anda desleixada e desarmada, cheia de problemas e defeitos, que segue suas deduções baseando-se em evidências, assombrada pelos problemas profissionais e pessoais que a atormentam. Interpretada por Anna Friel, a atriz mostra uma faceta completamente diferente da que mostrou na comédia romântica Pushing Daisies (2007-2009), e sua personagem agora tem um desenvolvimento mais sombrio, progressivo e bem interessante no decorrer dos oito episódios, mesmo que por vezes o roteiro pareça deixar a desejar em situações em que coadjuvantes pudessem servir muito mais como elementos para complementar o arco dramático da protagonista do que simplesmente servirem como obstáculos, que olham torto, discordam ou contestam qualquer tomada de decisão.

Como dito, não é uma produção que tenha uma grande diferença de outras similares, mas tudo nela tende a um propósito narrativo para o inesperado, ou até para o esperado, mas que não é banal, ou que subestime a inteligência do espectador. Existem buracos, como os minutos iniciais do primeiro episódio que nunca são explicados de maneira clara, ou como Marcella conseguiu tirar um corpo da cena do crime, ou as verdadeiras razões para isso além de uma leve suspeita de que ela o fez para confundir o assassino.

Mas como um todo, é pelo repertório neo-noir que ele apresenta que está o grande diferencial dos demais. É mergulharmos dentro da vida de Marcella episódio a episódio, sem pressa, e tentar resolver uma leva de problemas junto com ela e com demais personagens que agem e reagem com realismo uns com os outros, sem floreios ou diálogos dispensáveis. Tudo é muito prático, com excessão, obviamente, da narrativa desconexa que tem a intenção de soltar iscas falsas para precipitadas deduções.

Por ter várias tramas que abrangem vários personagens, essa constante entrada e saída deles de cena pode causar um pouco de confusão no começo, até porque, por uma coincidência um tanto bizarra, a maioria deles são físicamente parecidos, o que intensifica essa sensação de que tudo está levando a lugar algum. Fica difícil identificar quem é quem e qual sua função, e é aí que é necessário ser paciente. Isso tudo só vai tomar forma lá pela metade da história, quando cada um deles se define em sua determinada trama paralela, levando todos a um eixo central que pode não surpreender, mas não deixa de ser interessante, já que tudo se define numa pontualidade tipicamente britânica.

Por essas e outras que a história só se torna interessante de fato em seus episódios finais, quando tudo já está um pouco mais famíliar e a história oferece momentos um tanto tensos e até um tanto pesados, como no momento em que Marcella encontra uma vítima de seis anos, ou confronta o assassino pela primeira vez.

Todo esse intrincado de situações é para descobrirmos junto com a protagonista todos os mistérios que a história oferece, sem ferir a inteligência, e sem transformar o cliché em uma mera ferramente previsível. É um tanto cansativo vermos a protagonista ser constantemente reprimida ou ignorada por seus colegas e superiores que não acreditam em suas deduções, um cliché que definitivamete poderia ter sido evitado no meio de tantos, mas isso também não fere o fato de que cada um deles tem sua função específica.

A sensação de confusão nada mais é do que tentar transferir ao espectador a sensação que a protagonista tem de que peças do quebra-cabeça faltam, nos fazendo levar a suspeitas, mas nunca a certezas. Funciona, e na dose exata. Pena que muita gente pode abandonar o barco antes mesmo de perceber isso. Para aqueles que se aventurarem plenamente na vida de Marcella, a experiência será bem diferente, interessante, e parte de um desenvolvimento bem narrado e natural em todo seu processo investigativo.

CONCLUSÃO...
Marcella pode não ter nada de novo, mas sua qualidade se dá pelo fato de tudo ser usado para um propósito, por mais cliché e banal que possa ser, dando muito mais uma sensação de vida cotidiana do que simplesmente de repetição do mesmo tema, além dos personagens serem bastante verossímeis e os diálogos não excederem o necessário. A resolução pode parecer simples, mas o caminho até ela pode ser uma experiência interessante.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

COMENTANDO A SITUAÇÃO: CINEMA vs. JOGOS

Essa semana o IMDb resolveu dar um certo destaque a filmes adaptados de jogos de video-game, fazendo uma lista com os 10 melhores avaliados pelos usuários. Claro, depois do sucesso mundial de Warcraft, um dos jogos de RPG mais bem sucedidos da história, há outras adaptações vindo por aí, como a de Assassin's Creed, uma das séries mais rentáveis desse universo.

Muito se sabe que a imaginação dos roteiristas de jogos voa solta, seguindo uma linha lógica para não parecer banal, muito mais coerente e linear do que vemos na maioria de filmes por aí. Por muito, jogadores pensam: "por que esse jogo não vira filme"? E quando vira, perguntam: "por que é tão ruim"?

Assim como X-Men abriu novas portas aos quadrinhos nos cinemas em 2000, cada nova adaptação de jogo é vista como uma nova esperança, aquela desejada borracha para passar no passado da década de 90 e de desastres, como Mario Bros. (1993), Double Dragon (1994), Street Fighter (1994) ou Mortal Kombat (1995), adaptações que mais causam constrangimento do que qualquer coisa. Foi assim que pensaram quando Tomb Raider (2001) foi lançado, depois com Resident Evil (2002), com Silent Hill (2006), Hitman (2007) e Prince Of Persia (2010), apenas como exemplos. Todos fracassados, e aquela tão desejada borracha foi roída porque era colorida e cheirosa.

O problema é que se o filme é sucesso de público, não é de crítica; se é de crítica, não é de público. É o que aconteceu com a série Resident Evil, tida pelos fãs mais rebeldes como um total massacre ao legado dos jogos, já que o diretor e roteirista Paul W. S. Anderson fez com a série o que Bryan Singer fez com X-Men: adaptou a história e seus personagens à sua maneira, ignorando completamente a cronologia e a própria história do material original. A diferença entre Anderson e Singer é que, Singer, apesar dos pesares, é um bom diretor.

Resident Evil, que vai para o sexto filme da série ainda este ano, é a mais rentável que se tem notícia, mas isso não significa que é boa. A razão disso acontecer, mesmo com tantas críticas negativas, ainda é um mistério. Um mistério que não explica, por exemplo, porque adaptações de Silent Hill (2006 e 2012), talvez uma das mais fiéis que o cinema já ousou fazer sobre algum jogo, foi tão mal das pernas e duramente criticada. A crítica, hoje bem sabe, foram de pessoas que sequer jogaram qualquer um dos títulos, desconhecendo completamente que toda a ambientação, a atmosfera fantasmagórica e obscura dos jogos foram reproduzidas com bastante fidelidade no cinema, tanto que a censura de ambos filmes foi alta, o que dificultou bastante o desempenho nas bilheterias. O trabalho desenvolvido nos dois filmes chega a ser bem impressionante, talvez até mais no segundo, que soube usar muitas das referências de Clive Barker esquecidas e empoeiradas pelo tempo em sua icônica série Hellraiser, e que tudo tinham a ver com os trevosos personagens da sombria cidade de Silent Hill. Embora as opiniões sobre o segundo filme sejam bastante controversas, visualmente ele faz um trabalho que raramente é visto em filmes de horror, e apenas isso já me faz considerá-lo acima da média, tanto como uma adaptação, como um filme psicologicamente perturbador.

Final Fantasy (2001) foi outra adaptação bastante subestimada e criticada. Na verdade, não foi bem um filme, tampouco uma adaptação. Na verdade, a idéia de Hironobu Sakaguchi, criador da série, foi de expandir a franquia de jogos para o cinema. Cada jogo da série tem uma história única, e o mesmo foi imaginado para o cinema. O problema é que os fãs esperaram participações especiais de personagens icônicos ou alguma relação direta com qualquer título mais relembrados da série, como o sétimo jogo. Com esses pré-conceitos e expectativas, o filme foi uma decepção para essas pessoas, e para os críticos que igualmente nunca experimentaram jogar um título sequer, consideraram o filme chato, entediante, sem pé nem cabeça. O que poucos sabem é que o filme é uma importante continuidade daquilo que o universo de Final Fantasy significa nos games, sem falar que, assim como os jogos foram muito importantes para grandes inovações tecnologicas no segmento, o mesmo aconteceu com o filme, que revolucionou a computação gráfica e a forma como passou a ser usada.

Há também o problema daqueles jogos que não conseguíamos imaginar que poderiam ter um resultado tão ruim no cinema, como Tomb Raider, um jogo tipicamente de ação e que poderia render sequências eletrizantes no cinema. A história dos jogos é simples, e já estava prontíssima para ser adaptada, era só jogar na tela. Não havia muitas diferenças entre Lara Croft e Indiana Jones, a não ser Lara ser do sexo feminino e uma ginasta capaz de saltos e malabarismos que Indiana nunca conseguiria fazer sem ajuda de seu chicote. Portanto, readaptar uma fórmula já pronta era fácil. Mas parece que quanto mais simples parecia tudo, mais estragam. O primeiro filme, dirigido por Simon West, foi uma coisa infame. Determinado desde o princípio a valorizar muito mais as curvas, caras e bocas de Angelina Jolie do que a ação, o resultado foi vergonhoso. Pior ainda na continuação dirigida por Joel Schumacher, diretor que, no passado, já nos proporcionou delírios com Velocidade Máxima (1994) e Twister (1996), referências da ação explosiva, mas errou a mão feio, tanto que a franquia no cinema parou no segundo filme.

É muito triste quando gamers veem seus jogos preferidos darem frutos tão podres como o que o cinema proporciona. Essa dor é sentida porque são jogos nos quais pessoas dedicaram horas, que gradualmente mergulharam na história e na "vida" de personagens por tanto tempo. É como se cada um desses jogadores fosse o próprio personagem, assumindo um papel dominante na história. Existe essa personificação, ou esse espelhamento, depois de tantas horas afundado em um mundo que não é representado da mesma forma quando filmado. É impossível não imaginar épicos como God Of War ou Mass Effect inundar os cinemas com efeitos especiais deslumbrantes e cenas de ação intensas de tirar o fôlego, ou deixar de imaginar um jogo tão cinematográfico e delicado quanto The Last Of Us ser fielmente adaptado nos cinemas apenas para aproxima-lo mais ainda da realidade e imortalizar pelas lentes de uma câmera personagens tão cativantes, complexos e ao mesmo tempo compreensíveis na sua relação.

Salvo algumas excessões, em que o esdrúxulo e o cafona fizeram de Mortal Kombat ou Dead Or Alive sucessos, e o absurdo de Street Fighter o transformar tardiamente em um cult da ação trash, a proposta desses filmes nunca foi ser mais sério do que Power Rangers, ao contrário dos outros títulos deliberadamente desrespeitados.

Todo jogador tem um jogo preferido e que adoraria vê-lo adaptado, mas a cultura cinematográfica de destruir excelentes materiais ajuda para que esses mesmos jogadores façam campanhas contra isso. A nota média dos 10 filmes selecionados pelo IMDb é de 6.5, isso porque foram selecionados "os melhores avaliados". Então imaginem os piores avaliados, em que patamar se encontram. E vale-se dizer que, com excessão de Warcraft, nenhum dos demais desse top 10 é digno de nota ou qualquer respeito. Hitchman, talvez... mas ainda sim, faltou muito para que o protagonista do filme chegasse próximo ao que é o protagonista dos jogos de fato.

Então, como melhorar essa relação? Seria possível fazer excelentes adaptações?

Sim. Em primeiro lugar porque Hollywood tem de descobrir que quando se adapta um jogo para o cinema, estamos falando de uma história e de personagens que já existem em um universo paralelo (o dos jogos) e que eles devem ser respeitados em sua essência. Segundo lugar, os roteiristas e criadores dos jogos originais devem ser consultados, ninguém mais do que eles para saber direcionar o desenvolvimento que personagens e o próprio enredo devem ter. Terceiro lugar, diretores e roteiristas dos filmes devem ser imersos nesses materiais antes de adaptá-los para saber qual é a sensação de um gamer ao interagir com aquele mundo virtual e a jornada que esse mundo oferece. São coisas que evidentemente nenhum diretor ou roteirista de cinema fizeram até hoje, com excessão, talvez, de Duncan Jones, o diretor de Warcraft. Quarto ponto é que o cinema tem que parar com essa horrorosa mania de dar um choque de moral e bons costumes a protagonistas ou histórias para o bem da empatia. Existem muitos jogos onde os esses elementos não são simpáticos, não são legais, são rudes, grosseiros, amorais, nojentos ou grotescos. Isso tem que ser mantido, faz parte da personalidade designada a eles. Essa penosa mania de sempre quererem melhorar traços de personalidade ou exagerarem nas sequências de auto-redenção para forçar uma empatia com o público não apenas é desgastante como fere em completo o resultado final. Isso é um dos erros mais graves do cinema atual. O espectador tem que aprender a ver um filme sobre a ótica do protagonista, seja pelo bem, ou pelo mal, e cabe ao diretor saber conduzí-lo a isso.

O fato é que o cinema desperdiça o material oferecido por centenas de jogos. Para uma arte que atualmente sofre de inovação e ousadia, nada seria mais interessante do que abraçar um mundo para dentro do outro. Os jogos já se transformaram em experiências cinematográficas fantásticas, como os já citados The Last Of Us e God Of War, Alan Wake, a trilogia de Ezio Auditore da Firenze, em Assassin's Creed, dentre outros. Só que o cinema insiste em ignorar jogos como uma interessante fonte de experiência imersiva como são capazes de ser, como já aconteceu com Matrix (1999), ou como acontece no mais recente Hardcore Henry, um filme sem qualquer contexto ou história, mas é impressionante, empolgante, dinâmico e de deixar qualquer espectador fascinado unicamente por ter sequências que integralmente transferem para as telas a experiência de um jogo em primeira pessoa, e tudo feito de forma brilhante e focada do diretor.

Não haveria segredo em adaptar jogos caso o cinema não ignorasse os materiais originais. E aproveitar material original não é caracterizar um ator com figurino e maquiagem e joga-lo em um chroma key, mas transformar aquela história contada em passos lentos em um video-game em uma narrativa cinematográfica que tenha sentido. A cada novo ano tem-se a sensação de que alguma nova adaptação possa ser a luz do fim desse túnel, para só depois percebermos que o fim desse túnel ainda está muito longe. Warcraft pode ser uma das raríssimas coisas realmente boas que tenha saído dessa cansável safra de tentativas, mas ainda não representa a mudança do segmento e do pensamento coletivo de cineastas e suas visões sobre o que seria uma adaptação de sucesso.

sábado, 4 de junho de 2016

O APOCALIPSE DOS HERÓIS...

★★★★☆
Título: X-Men - Apocalipse
Ano: 2016
Gênero: Super Herói, Ação
Classificação: 12 anos
Direção: Bryan Singer
Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Oscar Isaac, Rose Byrne, Nicholas Hoult, Olivia Munn
País: Estados Unidos
Duração: 144 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Os heróis agora se unem para combater um inimigo ancestral que ressurge com o objetivo de aniquilar a raça humana, dominar os mutantes e destruir os mais fracos.

O QUE TENHO A DIZER...
Em um Egito antigo, com uma tecnologia aparentemente alienígena, nos é apresentado En Saban Nur (A Luz da Manhã, em arábico), mais conhecido como Apocalipse, um dos maiores supervilões dos X-Men e um importante personagem responsável por diversas mudanças dentro do Universo tanto dos heróis, quanto da Marvel, ao longo das décadas. Imortal e invencível, é um personagem curiosamente criado por uma mulher em 1986, Louise Simonson, e uma inteligente sacada da empresa porque ele é a metáfora do ciclo e da renovação, sendo sempre essa a intenção de suas ressurgências e reaparições de época em época. A criação do personagem se deu por uma necessidade, já que foi percebido que algo deveria estar acima de qualquer coisa e que justificasse, inclusive, até mesmo a razão de outros vilões existirem. 

É por isso que Apocalipse é narrado nos quadrinhos como o primeiro da espécie mutante (The First One), sendo ele o início da transição do homo sapiens ao homo superior em uma época em que a humanidade não estava preparada para isso, e nunca esteve. Para o vilão, que respira e transpira a crença da sobrevivência dos mais fortes, todos aqueles considerados fracos devem ser destruídos, não importa quem seja. Seu comportamento impiedoso é evidentemente o lado mais extremista, cruel e determinante daquilo que outros vilões pensam, e ao invés de convergir para o lado mais simples do maniqueísmo segregando ou extinguindo humanos, a intenção e existência dele é forçar a constante evolução selecionando os mais fortes através da guerra, obrigando todos a viverem em um constante caos para a sua própria renovação e preservação.

Por conta de seus poderes e tirania, Saban Nur dominava o Egito no ano de 3600aC, mas foi traído por seus súditos, que soterraram-no em sua própria tumba, enquanto seus Quatro Cavaleiros se sacrificaram para que ele pudesse ser preservado vivo. E é assim que o sexto filme começa, em uma narrativa rápida, escura e confusa o bastante pra deixar muita gente sem saber de fato o que aconteceu ou porquê. O que interessa é que Apocalipse agora está a salvo nos escombros de uma pirâmide soterrada no Cairo há mais de 5 mil anos, esperando um motivo para ser desperto.

Logo em seguida, entre rompantes da trilha sonora e uma breve ilustração que resume historicamente importantes acontecimentos durante os séculos, os créditos iniciais aparecem no típico estilo Bryan Singer de começar seus espetáculos.

É emocionante, principalmente para quem acompanha a trajetória dos heróis no cinema desde 2000. Mas ao mesmo tempo traz uma certa dúvida: será que Singer irá fazer jus à imagem e importância de um personagem tão grandioso e importante nesse universo quanto é Apocalipse?

Este novo capítulo é uma continuação direta do anterior, embora não haja qualquer referência. É o quarto de Singer na direção, e seria respeitável porque foi com os X-Men que ele se tornou o precursor do sucesso da nova leva de filmes de super heróis, e também de toda a renovação da Marvel nos cinemas e nos quadrinhos. Seu único grande erro foi o excesso de liberdade ao adaptá-los, fugindo completamente de certas origens e bagunçando importantes cronologias ao recontar histórias e recriar personagens à sua própria vontade.

Foi em cima dessa crítica comum que Dias de Um Futuro Esquecido (Days Of Future Past, 2014) foi feito, tentando corrigir erros passados e justificar prováveis erros futuros. Embora o filme anterior também tenha alguns buracos e confusões cronológicas dentro da própria franquia, no geral, o objetivo foi alcançado: o de sair dos becos sem saída nos quais a série havia se enfiado. Foi a oportunidade única e bem pensada de Singer para uma renovação geral e, assim, colocar tudo nos eixos novamente e em coerência com os quadrinhos, algo que ele nunca teve. Por isso, nenhuma outra sequência parecia calhar tão bem quanto Apocalipse, exatamente por conta do vilão em si ser o símbolo da mudança, o fim de um ciclo para a contemplação e firmação de outro. Parecia ser um excelente argumento para terminar mais uma trilogia e dar abertura para outra.

Mas não foi assim.

Não se pode esquecer que Primeira Classe (First Class, 2011) surgiu com o o intuito de dar um reboot na franquia que havia acabado na primeira trilogia, e Dias foi como um reboot desse reboot, como que a zerar o universo cinemático dos heróis.

Então, quando Apocalipse foi anunciado, a impressão de ser a segunda parte de uma saga de mudanças fundamentais soava coesa e madura, mas que emplodiram como a pirâmide de Saban Nur quando Singer não resistiu a si mesmo e a sua prepotência. Do filme anterior ele e seu roteirista, Simon Kimberg, nada mantiveram, nem mesmo um tema de fundo que justificasse essa continuação, por isso aparenta ser um reboot do reboot do reboot, como se a intenção agora fosse fazer de X-Men filmes com histórias individuais, sem contexto lógico, apenas para garantir à Fox o uso e exploração dos direitos e da marca, lucrando com a exaltação de fãs que apenas querem ver seus heróis preferidos nas telas, mesmo que eles estejam completamente fora de contexto, como é o caso de Jubileu, ou a própria Psylocke.

Os fãs que se irritaram com Singer ao longo dos anos e aceitaram seu indireto "pedido de desculpas" em Dias, terão outra vez os mesmos motivos para se irritarem.

É inacreditável a habilidade do diretor em desvirtuar histórias já concebidas e consagradas nos quadrinhos para deturpar personagens e suas funções. Nem mesmo o cuidado visual é o mesmo dos filmes anteriores. Se em Primeira Classe um dos pontos mais elogiados no filme de Matthew Vaughn foi a reprodução do final dos anos 60, nesta história, que se passa no início dos anos 80, as relações com a época são pífias. O anacronismo em vestuário, comportamento e tecnologia chegam a ser absurdos, na proposital intenção de deixar tudo o mais acessível possível, adequando o filme e uma época a um público mais jovem e desinformado, e não o contrário. Períodos históricos e suas respectivas épocas sempre tiveram importâncias fundamentais na Marvel, e com X-Men não seria diferente, mas Singer se esqueceu disso por completo, e nesse filme ele usa muita areia, concreto e deserto para disfarçar defeitos e  não obrigar a equipe técnica a se aprofundar em detalhes.

Nunca gostei da forma como Singer caracterizou os personagens ou narrou eventos, e o mesmo pensa muito daqueles que conhecem os materiais originais. Mas ainda sim havia algo a ser admirado, como sua habilidade de conseguir lidar com um grande elenco, de trazer humanidade e naturalidade para o fantástico, além de manter a essência aceitável e complacente das relações metafóricas da sociedade com os mutantes, que nada mais são do que uma metáfora aos diversos grupos sociais discriminados. Seus dois primeiros filmes foram produções que souberam construir uma história, mesmo que própria, sem deixar de entreter ou fugir deliberadamente do contexto no qual estavam inseridos nos quadrinhos. Ou seja, fato e fantasia, tudo aquilo que X-Men sempre soube fazer bem nas bancas e que no cinema, até então, tinha sido bem representado.

Quando Apocalipse desperta de seu sono milenar, ele afirma já ter sido chamado de várias coisas por diferentes eras, pois foi ele quem deu a centelha da vida e espalhou o fogo das civilizações. É nesse momento que você tem certeza que ele seria capaz de erguer uma montanha com um dedo e esmagar Magneto com um suspiro. Ele é alguém para se temer ou borrar as calças apenas de pensar, e é exatamente isso que ele faz quando empareda um homem com o olhar, ou faz o chão engolir dezenas de pessoas apenas com seu desdém. É dele o poder de dar vida ao pó, e ao pó fazer retornar quando bem quiser. Mas tanto poder assim eleva as possibilidades de tudo não parecer tão bom quanto deveria. Não havia necessidade de mostrar tanta onipotência em um filme só. Para que tanto poder se sua derrota é previsível desde o início? Para que insistir em batalhas quando o filme deu tantos poderes a um vilão que poderia desintegrar qualquer um com o estalar dos dedos, mas não o faz? Não houve em momento algum um crescente de acontecimentos desastrosos que levasse a um confronto justificável. Nos quadrinhos, todo esse vasto poder de Apocalipse é aperfeiçoado durante suas hibernações e despertares, portanto, definitivamente, não fazia sentido ele ter tanto poder concentrado para uma primeira aparição.

A grande graça de um vilão como ele é sua inteligência e manipulação. Sua convicção de que aquilo que ele faz tem um propósito eficaz é tão grande que muitas vezes, tenha sido nos quadrinhos ou na série animada, ele conseguia fazer o espectador questionar se ele realmente tinha razão. Isso não acontece no filme. Tudo é muito banal, grosseiro e sem inteligência. É difícil aceitar que Ororo Munroe, a Tempestade, tenha visto ele decaptar pessoas em sua frente e mesmo assim convidá-lo para entrar em sua casa, ou que Psylocke tenha se unido a ele quando, nos quadrinhos, ela sistematicamente lutou contra ele como uma X-Men. Enquanto isso, Mística, uma das mais importantes vilãs, é transformada na principal heroína da história para garantir a Jennifer Lawrence a imagem de queridinha, quando deveria ser a grande oportunidade que Singer tinha nas mãos para mudá-la de lado e fazer crescer a vilania que vimos da personagem nos três primeiros filmes.

O desenvolvimento da história não convence. A forma como ele recruta seus cavaleiros; a falta de um melhor argumento para ele "dominar o mundo"; o comprometimento amador dos heróis em salvar a humanidade; até os interlúdios - como a ridícula aparição de Wolverine, apenas para novamente agradar aos fãs e dizer que ele está lá, bagunçando mais ainda a cronologia - é tudo muito incoerente e mais uma vez desrespeitoso ao legado dos heróis e daquilo que o próprio diretor já fez. Digo isso porque, no objetivo de derrotar ou exilar Apocalipse, sempre foi necessário nos quadrinhos um exército de heróis e vilões que tréguam suas rivalidades para isso, tamanho o medo que ele desperta a todos. Mas nesse filme, não. Aqui, se tiver meia dúzia comprometido pra isso, é muito, e para Singer foi suficiente. Basta lembrar do esforço hercúleo de todos para neutralizar Jean Grey em Confronto Final (The Last Stand, 2006) e comparar com a chacota de Mercúrio surrando o vilão para entenderem o que digo.

Singer parece esgotado de idéias, ou com uma visão borrada por estar mergulhado no mesmo projeto há tantos anos, numa coisa similar a um escritor que, de tanto ler o mesmo texto, não enxerga mais erros de ortografia. O novo longa nada mais é do que um punhado de coisas que não fazem sentido apenas para dizer aos fãs que lá as coisas estão, dando a falsa ilusão de qualidade por corresponder expectativas, mas não por oferecer uma narrativa coerente, consistente. Muita gente argumenta que filmes de heróis são entretenimento e que não é cinema sério, mas a questão não é essa. A questão é levar a sério e respeitar o material pelo qual ele é baseado, só isso daria crédito suficiente.

O filme parecia bem em seu caminho até o momento em que o vilão, para evitar interferências externas, aciona todos os mísseis nucleares do mundo. Naquele instante, pensei, "isso é Apocalipse". Pensei isso porque imaginei que alguns dos mísseis retornariam para atacar algumas nações e todo o conflito ter início, pois é a natureza desse vilão atacar inimigos com suas próprias armas, criando guerras, buscando a destruição em massa para a reconstrução fortalecida. Naquele instante do filme, parecia que Singer havia compreendido todo o potencial da história, mas quando todos os mísseis desarmados ficaram a deriva no espaço, o que parecia certo ficou muito errado.

Tudo é muito óbvio e fácil. Os motivos para o vilão de repente acordar e sair destruindo tudo são rasos. Sim, ele quer dominar o planeta, disso todos sabemos. Mas não há uma razão aprofundada que o motive para isso, que tente convencer e abraçar o espectador para dentro da história e suas convicções. Quem conhece o vilão dos quadrinhos já conhece sua personalidade e sua maneira de agir, mas quem está nos cinemas não, e para essas pessoas, Apocalipse é apenas um cara mau que deve ser aniquilado. E para os fãs, vê-lo nas telas foi apenas uma realização porque, apesar de tudo, Oscar Isaac fez um bom trabalho mesmo com tão pouco. Então, é por essas e outras que muitos dos críticos taxaram este como o pior filme da série, enquanto muitos fãs que apenas queriam ver o vilão nas telas ficaram indgnados com tanta negatividade e tem feito campanhas para que as pessoas ignorem essas críticas.

Não é possível ignorar. No geral houve uma construção muito mal feita dos personagens, bem como suas relações no roteiro. Já havíamos perdoado o fato dos filmes nunca terem mencionado que Vampira é filha adotiva de Mística, mas não se pode perdoar que Noturno e Mística lutem lado a lado como dois adolescentes quando, originalmente, ela é sua mãe biológica. É muita negligência em um filme só frente a tantas outras de Singer esquecidas com o tempo.

Tá, mas e se ignorássemos os quadrinhos, e se eu tivesse que comentar apenas sobre o filme em si, ele seria bom do mesmo jeito? Não. Por mais de duas horas o roteiro leva tudo a lugar algum, há até momento para Singer novamente apelar para o holocausto e nos infortúnios de Magneto no intuito de trazer falsa densidade. É só na última meia hora que o grande confronto ocorre, onde todas as cenas de suposta ação aparecem, aquelas todas que estão no trailer. Mesmo assim essas cenas nem tão boas são porque os efeitos especiais, bem como a movimentação dos atores durante sequências circenses, são tão artificiais que é difícil até mesmo compará-los com o primeiro filme da série, que custou menos da metade e ainda são visualmente melhores.

Desperdiçaram muita coisa para dar atenção às cenas em câmera lenta de Mercúrio. Enquanto em Dias a cena do herói foi um dos momentos ápices por ter pego espectadores de surpresa, foi engraçada principalmente por ser breve e sutil. Dessa vez turbinaram o repeteco, na idéia de que exagerar na reprise o deixaria melhor. E isso não é verdade. Dessa vez, ao som de Eurythmics, a sequência de Mercúrio não teve o mesmo impacto e não funcionou da mesma forma, sequer foi melhor. Ficou longe de causar a mesma hilária surpresa da primeira vez, e o exagero na tiração de sarro apenas desperdiçou tempo e dinheiro. Para realizar essa sequência, sacrificaram os outros heróis e o próprio enredo. Magneto sequer entra em combate, apenas aparece ora aqui, ora alí, erguendo objetos e mais uma vez (MAIS UMA VEZ) destruindo pontes. Mística é poupada de seus poderes frente a câmera sempre que possível, até mesmo da maquiagem. Se em 2000, Rebecca Romjin impressionou com uma maquiagem e caracterização convincentes, nesse filme, Lawrence, A Estrela, é poupada de horas e horas de cadeira, jato de tinta e próteses, tanto que sua maquiagem ao longo dos últimos três filmes apenas piorou, virando algo tão grotesco quanto amador, que seria reprovado em qualquer reality show do tema. É por esse motivo que o número de vezes que Lawrence aparece caracterizada-de-fato consegue ser menor que no filme anterior, ao ponto de ser tão insignificante quanto sua participação na história.

Talvez seja o filme mais sofrível da série, pois empobreceu essências para valorizar tudo que é descartável. Apocalipse é um personagem grandioso, um super vilão por excelência, mas sua ode pela destruição tem uma ordem de complexidade, e assim como a Saga da Fênix, abordada no terceiro filme da série, e novamente abordada aqui como se Fênix fosse parte dos poderes de Jean e não uma entidade, são histórias que não cabem em um único filme porque demandam desenvolvimento gradual e maturação. Não é à toa que nos quadrinhos essas fases não são episódios, mas sagas (ou eras), porque não é apenas sobre a vilania, mas também sobre as consequências disso no mundo que estão inseridos.

O resultado de tudo é a receptividade amena que o filme teve nos cinemas. No primeiro final de semana já arrecadou mais de US$280 milhões no mundo. Já se pagou, mas está longe de atingir o mesmo sucesso de público dos anteriores, e a tendência é cair nas próximas semanas. E pela crítica, até mesmo O Confronto Final nem parece mais ser tão ruim ou desrespeitoso quanto esse, pelo contrário, hoje vejo que Brett Ratner tentou, na medida do seu possível, ter sido mais fiel que Singer jamais foi, e que Jean Grey, possuída pela Fênix, causou muito mais medo nas sequências iniciais e finais do que Apocalipse jamais conseguiu nesse filme.

CONCLUSÃO...
Os personagens que já conhecemos se tornaram vazios, jogados aleatoriamente com relações sem qualquer propósito para bagunçar mais ainda o que já estava bagunçado, como a intromissão de Striker, que não acrescenta nada na história além de garantir a já citada e desnecessária participação de Wolverine. É um filme que sequer consegue ser empolgante, e assim como A Origem da Justiça (Dawn Of Justice, 2016), sofre no seu desenvolvimento, arrastando o espectador em qualquer coisa para um fim trivial.
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