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segunda-feira, 13 de março de 2017

DOCE E AMARGO...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Um Limite Entre Nós (Fences)
Ano: 2016
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Denzel Washington
Elenco: Denzel Washington, Viola Davis, Stephen Henderson, Jovan Adepo, Russell Hornsby
País: Estados Unidos
Duração: 139 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um pai tenta manter sua família nos anos 50 enquanto toma decisões que impactarão no futuro e ainda lida com problemas de decisões tomadas no passado.

O QUE TENHO A DIZER...
Denzel Washington dirige e atua neste filme que é uma adaptação da peça homônima de August Wilson, o qual também escreveu o roteiro e veio a falecer pouco tempo depois de completá-lo, em 2005.

Mesmo que alguém o assista sem ter a informação de ser baseado em uma peça, a sensação de adaptação é bastante nítida pela forma como Washington desenvolve a história sem muitas variações de cenário, em um roteiro embasado unicamente em diálogos e poucas ações. A cena inicial já deixa clara essa proposta de ser como uma peça filmada, uma parte considerável de um cotidiano comum e repetitivo, como o protagonista por muitas vezes esclarece. Os 15 minutos iniciais resumem muito aquilo que o filme será, onde o protagonista engaja em um monólogo até cansativo e irritante, permanente até mesmo quando o cenário muda, mas elucidador no sentido das variáveis discussões e dificuldades sociais e familiares vivenciadas desde a infância.

Por mais que Washigton tente driblar os longos diálogos tanto na direção, quanto em sua atuação, a necessidade de um intervalo, ou uma quebra da situação é sentida quando esse excesso toma conta. Esses momentos podem parecer grandes defeitos, mas quando analisados com mais profundidade, são importantes em todo o contexto porque o roteiro não quer desperdiçar tempo, e também quer sempre dar uma progressiva oportunidade de mostrar como o protagonista sofre de um pedantismo incurável, oras depreciativo, oras de exagerado egoísmo e auto-suficiência.

De qualquer forma, é admirável a maneira que o filme, como um todo, é conduzido sem causar aquela sensação monótona que costuma ser em títulos que tentam não apenas se manterem fiéis a uma peça, mas também em sua estrutura narrativa original. A construção é presente e intimista, que se torna cada vez mais distante e desconfortável na medida que a verdadeira personalidade e natureza de cada um se aflora em seus determinados conflitos.

Troy (Denzel Washington) é um lixeiro indignado que se apresenta no filme como um velho contador de histórias, preenchendo suas poucas horas de folga bebendo com seu único amigo e parceiro de trabalho, e contando episódios de sua vida de sacrifícios e desgostos como anedotas particulares. Embora seus relatos sejam embutidos de certo humor e fantasia, ele assim o faz para conseguir superar mágoas e rancores que nunca se vão. É dessa forma como ele também destila sua ríspidez, seu machismo e sua conservadora educação patriarcal em cima das pessoas que ele mais ama, as únicas que fizeram sua vida ter sentido e função nos últimos 18 anos.

Aos poucos, nos sentimos envolvidos na família de Troy, curiosos sobre eles como se fôssemos vizinhos, interessados em suas vidas e segredos. Ele é um personagem que não esconde sua complexidade resultante de uma longa vida de frustrações sociais, familiares e profissionais, e isso é o que dá abertura para o roteiro abordar diversos temas que fizeram parte do cotidiano de sua vida, mas também fazem parte do cotidiano da sociedade como um todo até os dias de hoje.

A história se passa nos anos 50, mas quando o protagonista entra em cena é como se voltássemos ao fim do século XIX e revivêssemos sua adolescência talhada de sonhos e vontades, ao mesmo tempo como tudo ainda soa bastante familiar e atual. E no decorrer da história, aquele personagem que se apresentou amigável e irreverente, gradualmente se transforma em uma pessoa profundamente angustiada e egoísta, que não sabe mais a diferença entre pessoas e posses, sentimentos e obrigações. Seu egoísmo não é deliberado, mas resultado de sacrifícios e difíceis decisões, de oportunidades que não surgiram como escolha, mas como única opção, abraçadas e agarradas com todas as forças, e que para ele não podem ser dadas ou abdicadas a outros a não ser que sejam conquistadas da mesma forma. Então, apesar de toda essa antipatia que ele possa causar, ainda sim conseguimos nos sensibilizar pela maneira bastante simplista como ele define ou compara as coisas em sua vida, tudo baseado em uma vivência de poucas - porém relevantes - experiências.

Sim, há embutida fortes discussões raciais, principalmente porque boa parte da vida do protagonista ainda se passa em uma era de recente pós escravismo, onde a segregação racial nos Estados Unidos atingia níveis de quase guerra civil. Tanto que o filme começa com ele questionando a razão dos negros sempre serem contratados para realizar o trabalho pesado, como catar o lixo, mas nunca para trabalhos mais neutros, como dirigir caminhões; ou também na maneira rigorosa como ele cria seus filhos na cultura de que o negro não tem tempo para sonhos ou oportunidades sobre coisas ou assuntos "que são de brancos".

Por mais desprezível e antipática que é a maneira como a personalidade de Troy emerge ao longo do filme, se torna função de Rose (Viola Davis) nos mostrar o contrário. Viola não é apenas uma coadjuvante no filme, como sua indicação ao Oscar rotulou, ao contrário disso, sua personagem é tão principal quanto o protagonista - se não for até mais importante que a dele - pois será ela a responsável por nos dar o alento que Troy não consegue, sendo o exemplo da tolerância, o redimindo das coisas que ele é incapaz de se redimir aos olhos do espectador. Uma antagonista por excelência, enquanto Troy nos oferece as questões, Rose as responde de diversas e sensatas maneiras.

Sensatas, com certeza. Da mesma forma que não há um momento de redenção de Troy (a não ser de forma indireta na reta final), a personagem de Viola em nenhum momento se inferioriza ou se autovitimiza. Até mesmo no seu ápice dramático, quando revela ter depositado em seu marido 18 anos de sua vida, mas o fez por uma igual necessidade, tanto pessoal, quanto para a manutenção das bases familiares.

O filme perde um pouco da sua sutileza a partir de sua metade, quando uma inesperada e até chocante reviravolta acontece, não evitando clichés dramáticos e exagerados, extraindo de Viola Davis todas as lágrimas possíveis para obrigar o espectador a se identificar com suas dores e angústias. Bette Davis dizia que Joan Crawford era boa em gritar demais, e sempre faço uma alusão a isso todas as vezes que vejo Viola em cenas dramáticas, pois ela não apenas é boa em chorar, mas também em chorar demais. Não deixam de ser momentos de genuíno sofrimento, mas por vezes apelativos para apenas uma câmera. Não é um drama tenro e familiar como parece, pelo contrário, é um lado bastante entristecedor e obscuro de uma relação construída apenas em necessidades e obrigações ditadas por um período social, mantida a restritas liberdades nas suas mais variadas formas.

É um soco no estômago para quem o assiste, e se aproxima bastante de Moonlight, seu concorrente direto no Oscar 2017, por igualmente abordar diversos temas dentro de uma única narrativa, seguindo a mesma premissa de que somos o resultado daquilo que vivemos. Mesmo não tendo uma construção tão bela quanto o filme de Barry Jenkins, Washington consegue fazer de seu terceiro filme um excelente material questionador sobre aquilo que nos define em sua mais sagrada essência.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

POR TRÁS DOS MEMES DE "VIOLA DAVIS"...

Nos últimos dias tem corrido pelas redes sociais memes ovacionando a terceira indicação de Viola Davis ao Oscar, bem como sua quinta estatueta no Screen Actors Guild (SAG), como um marco "histórico". A intenção é querer promover a idéia de que o cenário artístico tem mudado, e que negros podem, sim, serem bem sucedidos no cinema e lembrados nas premiações com recorrência.

O cenário é Estados Unidos e o Oscar, onde aproximadamente 14% da população se considera negra, não havendo estimativas claras de quantos exercem a função de ator. Sabe-se que, segundo a Directos Guild Of America (DGA) aproximadamente 6% dos diretores em Hollywood são negros. Porém, deve-se lembrar que a situação é similar em diversos outros países, incluindo o Brasil, onde os negros atingem a maioria de aproximadamente 54% da população, mas essa proporção igualmente não é vista na TV ou no cinema.

Segundo um estudo levantado pela Media, Diversity, & Social Change Initiative, de 100 filmes analisados em 2014, 73% dos atores eram brancos, e apenas 12,5% eram negros. Seria proporcional à população norteamericana, porém o estudo pontua que a mistura não é homogênea, já que há total ausência de personagens negros na maioria dos filmes produzidos, e essa porcentagem é atingida por conta de poucas produções com elenco predominantemente negro. O estudo vai muito além, e esse dado é apenas um exemplo macro da dissiparidade racial no cinema.

Compartilhar memes e artigos sobre o feito de Viola Davis pode soar como um incrível serviço social de inclusão, mudança de comportamento e diversidade (só a palavra "inclusão" já reafirma a discriminação), mas o que as pessoas que fazem isso - em sua maioria brancas - pouco sabem (ou não percebem) é que, por trás desta tal celebração, existe uma velada manutenção do racismo e da segregação, porque as indicações a negros sempre soa como um mero prêmio de consolação quando analisamos que, nos últimos 30 anos, apenas 44 negros (homens e mulheres) foram indicados ao prêmio, enquanto os brancos (homens e mulheres) atingem 556. Agora, imaginem essa mesma estatística atualizada em 89 anos da premiação?

Não precisa pensar muito para saber a resposta.

O Oscar existe desde 1929. A primeira negra a concorrer e ganhar a estatueta foi Hattie McDaniel, por ...E O Vento Levou, em 1940. Hattie interpretou uma ex-escrava que, fosse na abastança ou na fome em Tara, adorava servir Scarlet O'hara (Vivian Leigh), pois essa era a forma como Hollywood representava a sociedade naquela época, de que ser um negro servil era agradável, como também se vê em A Canção do Sul (1946), da Disney, na clássica cena racista de um senhor negro cantando uma canção de como era agradável ser escravo. Logo, a atriz se tornou o primeiro grande símbolo racial das grandes premiações, e a partir de então, nomear um negro é sempre um espetáculo à parte até hoje, tamanha a raridade da ocasião, quando esta deveria ser tão corriqueira quanto são com os brancos.

Recentemente o IMDb listou os "12 atores/atrizes mais indicados de todos os tempos". Todos brancos, diga-se de passagem, mas esse termo separatista não existe no título. Nem mesmo Denzel Washington conseguiu figurar na lista, ele que já foi indicado 7 vezes e venceu duas. Talvez ele entre em uma futura lista dos "12 atores/atrizes negros mais indicados de todos os tempos", porque nesse caso, sim, o separatismo será válido.

É uma incógnita o meme da vez ser Viola Davis. Talvez seja pela sua popularidade no seriado How To Get Away With Murder, porque antes dele, quase ninguém sabia de sua existência. Talvez pelo amadrinhamento de Meryl Streep quando esta a elogiou no palco da premiação, em 2009, sobre sua performance em Dúvida (2008), dizendo que a Academia deveria abrir os olhos para o talento de Viola, algo que, diga-se de passagem, funcionou. E a Academia encontrou na atriz o exemplo próspero de seu suposto engajamento racial, e as pessoas comparam a idéia sem titubear.

A única coisa que sabemos é que o compartilhamento massivo de uma idéia rasa emburrece, e ao invés de ajudar, atrapalha.

Viola, além de ser negra, se tornou o adjunto adnominal "mulher negra". Não que ela não seja, mas agora sentem a necessidade de rotulá-la dessa forma, como se ela fosse uma excessão não apenas pela raça, mas também pelo gênero. Esse rótulo divulga a impressão de que ter outra cor não é fácil, mas ter outra cor e ser mulher, é mais difícil ainda. Engraçado porque não rotulam Meryl Streep como a primeira "mulher branca" a concorrer 20 vezes ao Oscar. Claro, porque para o branco essa dificuldade não existe. E é então que o racismo e a segregação grita em algo que parece simples e inofensivo na forma de um termo equivocado.

Assim como Hattie foi rotulada como a primeira "mulher negra" a vencer o Oscar de coadjuvante em 1940, o ciclo agora se repete com Viola sendo rotulada como a primeira "mulher negra" a concorrer 3 vezes, mesmo nunca tendo ganho (ainda). Da mesma forma como esse ciclo igualmente se repetiu quando Halle Barry foi - e ainda é - considerada a primeira "mulher negra" a vencer como atriz principal em 2002.

Rótulos que emergem para causar a falsa impressão de conquista e de que o negro, finalmente, está tendo as mesmas oportunidades que os brancos. Mas no fundo é apenas a idéia do "esforço dobrado" que se solidificou de maneira inconsciente na sociedade: o ator tem de demonstrar capacidade, mas o ator negro tem de demonstrar o dobro. Em outras palavras: mais do que ganhar um troféu, é um negro ganhar o troféu.

E assim Hollywood concede sucesso não apenas às centenas de brancos, mas às meia dúzias de "homens negros" e "mulheres negras" que assim fizeram por merecer, numa proporção que, para eles, é suficiente. E a sociedade, no geral, julga isso algo saudável porque não analisa a situação além da superficialidade.

Não me espantaria se ano que vem surgisse uma nova "mulher" "negra" "mais jovem" da premiação, assim como aconteceu com Quvenzhané Wallis, em 2013, ou Viola ser lembrada em algum futuro como a primeira "mulher" "negra" "mais velha" a ganhar um troféu. Claro, porque todos os brancos não precisam ser rotulados dessa forma, seja Tatum O'Neal, a primeira atriz mais jovem a vencer, ou Gloria Stuart, a primeira atriz mais velha a concorrer. Mas ambas, sem o rótulo "mulheres brancas", porque é desnecessário.

Celebrar a terceira indicação de Viola pode parecer interessante, mas não é quando também analisamos o fato de que os negros indicados ao prêmio parecem ser sempre os mesmos, como é o caso da própria Viola Davis, de Denzel Washington, Morgan Freeman, Djimon Houson, Will Smith, ou Otavia Spencer, esta que por sinal é da mesma geração de Viola. Eles são as excessões do cenário, os exemplos efetivos e cativos da participação negra nas premiações.

Sério. Não existem outros negros que concorreram ao Oscar mais de uma vez desde o final dos anos 80 além deles, enquanto entre os atores brancos a lista é vasta e atinge a casa dos cem, já que, todo ano, no mínimo um ator/atriz branco já foi indicado no passado. Só esse ano temos 11 artistas brancos que já concorreram anteriormente, e apenas 3 negros que já foram indicados nos últimos 10 anos.

Nesses últimos 30 anos, as únicas 44 indicações de negros nas categorias principais e coadjuvantes, 21 delas é conquista apenas desses seis atores, as demais são de 22 artistas que receberam apenas uma indicação em toda a vida, muitos dos quais hoje amargam em produções esquecíveis ou estão se aposentando aos poucos. Sem contar que esses únicos negros a serem indicados com recorrência são indicados ha tantos anos que já estão até velhos.

Um número inexpressivo e chocante quando novamente comparado com a variedade de atores brancos recorrentes ou não recorrentes nas mesmas categorias.

E então tem gente que justifica dizendo que talento não tem raça, como muito se lê pelas redes sociais, e que a Academia não tem culpa de nomear mais brancos quando estes demonstram maior talento, segundo os mesmos.

O que essas pessoas esquecem é que talento só é visto quando se tem oportunidades. E as oportunidades para os negros é evidentemente escassa, algo que se reflete nas premiações. De 80% a 90% dos filmes produzidos em um ano são escalados apenas atores brancos para os papéis principais, sobrando pouco espaço para os negros. Para os negros, o que geralmente sobra são papéis coadjuvantes estereotipados (escravos, vítimas de preconceito, pastelões cômicos, etc). Basta observar que, nos últimos 30 anos, apenas uma atriz negra venceu o prêmio principal e quatro negras venceram como coadjuvante. Em TRINTA ANOS! Valendo lembrar que, se não for todos, a maioria em papéis que se encaixam nos estereótipos citados, e nisso também inclui os homens.

Não se deve celebrar o fato de uma negra ser indicada pela terceira vez, mas deve-se celebrar aquelas atrizes que chegam à premiação pela primeira vez, como Naomi Harris ou Ruth Nega neste ano. Ou também celebrar o fato de que, 89 anos depois, esta será a primeira edição a ter seis atores negros na disputa, um recorde quando comparado aos anos anteriores. Mas ainda pouco, quando comparado com os outros 24 brancos que os acompanham nessas categorias.

Nos anos de 1987, 1989, 1992, 1996, 1998, 1999, 2001, 2008, 2011, 2015 e 2016 nenhum negro concorreu nas categorias de ator/atriz. Será que não houve nenhuma produção com um ator negro sequer, e com talento suficiente? Ou será que eles foram ignorados pela Academia?

A própria Viola Davis afirmou que o problema do racismo não é o Oscar, mas Hollywood. Será que é só isso mesmo? Ou será que ela afirma isso apenas para manter uma boa política? Porque dos 6 mil membros habilitados a votar na Academia, 94% deles são brancos.

Portanto, em um ano onde muitas pessoas tem ovacionado Viola Davis, resolvi não apenas discursar sobre isso, mas também fazer uma longa estatística para analisar como foi os últimos 30 anos para os atores negros na premiação utilizando o IMDb como fonte, vista ano a ano. A princípio era para eu ter feito apenas dos últimos 10 anos, mas a curiosidade acabou arrastando para três décadas. E os números não mentem, e o problema do racismo no cinema, tanto em Hollywood, quanto em outros países, é preocupante, e não simplesmente uma "questão polêmica banal" ou vitimizante.

___________________


Em 30 anos, de 600 indicados (100%):
.556 brancos (92,66%)
.44 negros (7,33%)

Em 30 anos, de 600 indicados (100%):
.135 homens brancos indicados a Melhor Ator (22,5%)
.15 homens negros indicados a Melhor Ator (2,5%)
.144 mulheres brancas indicadas a Melhor Atriz (24%)
.6 mulheres negras indicadas a Melhor Atriz (1%)
.138 homens brancos indicados a Melhor Ator Coadjuvante (23%)
.12 homens negros indicados a Melhor Ator Coadjuvante (2%)
.139 mulheres brancas indicadas a Melhor Atriz Coadjuvante (23,16%)
.11 mulheres negras indicadas a Melhor Atriz Coadjuvante (1,83%)

Em 30 anos, de 300 homens indicados (100%):
.273 brancos (91%)
.27 negros (9%)

Em 30 anos, de 300 mulheres indicadas (100%):
.283 mulheres brancas (94,33)
.17 mulheres negras (5,66%)

Em 30 anos, de 60 vencedores homens (100%):
.56 brancos (93%)
.4 negros (7%)

Em 30 anos, de 60 vencedoras mulheres (100%):
.55 brancas (91,66%)
.5 negras (8,3%)

Em 30 anos, de 30 vencedores de Melhor Ator (100%):
.28 brancos (93,33%)
.2 negros (6,66%)

Em 30 anos, de 30 vencedores de Melhor Ator Coadjuvante (100%):
.28 brancos (93,33%)
.2 negros (8,3%)

Em 30 anos, de 30 vencedoras de Melhor Atriz (100%):
.29 brancas (96,66%)
.1 branca (3,33%)

Em 30 anos, de 30 vencedoras de Melhor Atriz Coadjuvante (100%):
.26 brancas (86,66%)
.4 negras (13,33%)

Em 30 anos, dos 44 negros indicados (100%):
.7 indicações a Denzel Washington (16,27%)
.5 indicações a Morgan Freeman (11,62%)
.3 indicações a Viola Davis (6,97%)
.2 indicações a Djimon Hounsou (4,65%)
.2 indicações a Will Smith (4,65%)
.2 indicações a Octavia Spencer (4,65%)
.22 indicações não repetidas (51,16%)

LISTA DE ATORES NEGROS INDICADOS (E VENCEDORES), NOS ÚLTIMOS 30 ANOS
Melhor Ator (15 indicados = 5 Denzel Washington; 3 Morgan Freeman; 2 Will Smith; 5 variações; 2 vencedores):
-2017: Denzel Washington
-2016: -
-2015: -
-2014: Chiwetel Ejiofor
-2013: Denzel Washington
-2012: -
-2011: -
-2010: Morgan Freeman
-2009: -
-2008: -
-2007: Forest Whitaker (Vencedor)
            Will Smith
-2006: Terrence Howard
-2005: Jamie Foxx (Vencedor)
-2004: -
-2003: -
-2002: Denzel Washington (Vencedor)
            Will Smith
-2001: -
-2000: Denzel Washington
-1999: -
-1998: -
-1997: -
-1996: -
-1995: Morgan Freeman
-1994: Laurence Fishburne
-1993: Denzel Washington
-1992: -
-1991: -
-1990: Morgan Freeman
-1989: -
-1988: -
-1987: -

Melhor Atriz (6 indicadas = 6 variações; 1 vencedora):
-2017: Ruth Negga
-2016: -
-2015: -
-2014: -
-2013: Quvenzhané Wallis
-2012: Viola Davis
-2011: -
-2010: Gabourey Sidibe
-2009: -
-2008: -
-2007: -
-2006: -
-2005: -
-2004: -
-2003: -
-2002: Halle Berry (Vencedora)
-2001: -
-2000: -
-1999: -
-1998: -
-1997: -
-1996: -
-1995: -
-1994: Angela Bassett
-1993: -
-1992: -
-1991: -
-1990: -
-1989: -
-1988: -
-1987: -

Melhor Ator Coadjuvante (12 indicados = 2 Denzel Washington; 2 Morgan Freeman; 2 Djimon Hounsou; 6 variações; 2 vencedores)
-2017: Mahershala Ali
-2016: -
-2015: -
-2014: Barkhad Abdi
-2013: -
-2012: -
-2011: -
-2010: -
-2009: -
-2008: -
-2007: Djimon Hounsou
-2006: -
-2005: Morgan Freeman (Vencedor)
-2004: Djimon Hounsou
-2003: -
-2002: -
-2001: -
-2000: Michael Clarke Duncan
-1999: -
-1998: -
-1997: Cuba Gooding Jr.
-1996: -
-1995: Samuel L. Jackson
-1994: -
-1993: Jaye Davidson
-1992: -
-1991: -
-1990: Denzel Washington (Vencedor)
-1989: -
-1988: Morgan Freeman
            Denzel Washington
-1987: -

Melhor Atriz Coadjuvante (11 indicadas = 2 Viola Davis; 2 Octavia Spencer; 7 variações; 4 vencedoras:
-2017: Viola Davis
            Naomi Harris
            Octavia Spencer 
-2016: -
-2015: -
-2014: Lupita Nyong'o (Vencedora)
-2013: -
-2012: Octavia Spencer
-2011: -
-2010: Mo'Nique (Vencedora)
-2009: Viola Davis
-2008: -
-2007: Jennifer Hudson (Vencedora)
-2006: 
-2005: Sophie Okonedo
-2004: 
-2003: Queen Latifah
-2002: -
-2001: -
-2000: -
-1999: -
-1998: -
-1997: -
-1996: -
-1995: -
-1994: -
-1993: -
-1992: -
-1991: Whoopi Goldberg (Vencedora)
-1990: -
-1989: -
-1988: -
-1987: -

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

ESTUPIDEZ SEM LIMITE...

Título: Esquadrão Suicida (Suicide Squad)
Ano: 2016
Gênero: Ação, Super Herói, Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: David Ayer
Elenco: Margot Robbie, Will Smith, Viola Davis, Jared Leto, Cara Delavigne
País: Estados Unidos
Duração: 125 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um grupo formado pelos maiores criminosos e psicóticos do país são recrutados secretamente para tentar impedir um desastre de proporções mundiais. 

O QUE TENHO A DIZER...
A Marvel criou no cinema uma fórmula que deu certo. E dentro de um planejamento de 10 anos, divididos em três fases, concretizou seu Universo Cinemático. Nada do que ela fez dentro desse período foi decidido da noite para o dia. Foi um planejamento de longa data, moldado e adaptado conforme o interesse do público e dos fãs, até encontrar seu tom. Tudo muito sutil, mas feito com cuidado e uma filosofia única em foco: lucrar respeitando o próprio legado.

Demorou para a DC/Warner resolver fazer o mesmo no cinema, já que nos video-games e na televisão, por exemplo, essa universo já existe e é sólido, como os jogos Injustice e DC Universe, e com seriados como Arrow, The Flash e Supergirl. A diferença é que a DC se atrasou demais no processo de expansão desse universo para o cinema, e por isso tem colocado os pés na frente das mãos. 

Mesmo Homem de Aço (Man Of Steel, 2013), de Zack Snyder, ter sido um fracasso de crítica, a Warner se aproveitou do razoável sucesso de público para tão logo divulgar sua continuação direta, e de última hora fazê-la o grito de largada do seu universo cinemático próprio. Os erros de Homem de Aço poderiam ter sido usados como experiências do que não devia ter sido feito em Batman vs. Superman, como manter Zack Snyder na direção, por exemplo. Mas ele não apenas foi mantido e cometeu os mesmos equívocos, como também irá dirigir A Liga da Justiça, o maior investimento do estúdio e a principal razão de existência de todo esse universo que ela tenta criar a tropeços e solavancos. Por isso que tem valido a máxima "errar uma vez é humano, contratar Zack Snyder de novo foi burrice, e mantê-lo será suicídio".

O prematuro Universo da DC no cinema tem sido marcado por decisões sem foco, levando essa investida da Warner a um caminho sem rumo, eira ou beira, restando a Esquadrão Suicida e ao aguardadíssimo filme solo de Mulher-Maravilha, a tentativa de capturar um novo fôlego e reacender o interesse de um público que já está desinteressado, mesmo que ainda preencha as salas de cinema por pura curiosidade e minguadas expectativas.

Nada seria mais interessante do que uma história em que grandes criminosos sejam recrutados para missões que heróis deveriam ser poupados. O nome da equipe não seria mais apropriado, e a DC a mais coerente a ter uma equipe assim, já que o selo é marcado por vilões cujas personalidades psicóticas tendem a ser muito mais interessantes do que a de seus heróis.

Aqui a história já entra na proposta do universo, com início a partir dos eventos de Batman vs. Superman, no qual Amanda Waller (Viola Davis) discursa sobre a vulnerabilidade de todos após a suposta morte de Superman. Com a ajuda de Batman e de meta-humanos, como The Flash, conseguiu capturar alguns dos maiores criminosos do país, pois pretende recrutá-los para um programa secreto de segurança do Governo, no qual ela é responsável.

Linear e apresentando brevemente a história de cada um dos recrutados, a introdução é um pouco longa e cansativa, e após isso um tanto repetitiva, já que por várias vezes temos que passar pelo ponto de vista de cada personagem sobre alguma determinada coisa no decorrer da trama. De qualquer forma, o filme acaba e continuamos sabendo nada muito relevante a respeito de ninguém. Ou seja, superficial, pois caso não fosse, estaria na memória.

Mas a impressão maior que se tem com Esquadrão é uma coisa meio óbvia: a de ter sido feita às pressas, assim como aconteceu com Lanterna Verde (Green Lantern, 2011). Sabe-se também que, depois das pesadas críticas negativas que Batman vs. Superman recebeu, o estúdio pressionou para que o filme fosse editado de forma a amenizar o tom violento e não sofrer com a classificação etária. Não é à toa que dezenas de cenas foram deletadas, e muito do palavriado jocoso que poderia ser usado para o bem do contexto dos personagens foi igualmente censurado pelo estúdio. É nessas horas que admiramos Deadpool (2016), sua violência explícita, a boca aberta do anti-herói e suas piadas sujas, outra lição que a Warner deveria ter aprendido, dessa vez, com a Marvel.

O didatismo simplista do roteiro chega a níveis abusivos porque a grande falha, como sempre, é amenizar a carga dramática e a personalidade violenta ou insana dos personagens, deixando tudo politicamente correto. No começo até tentam dar alguma densidade, só que sempre que alguma cena tenta ultrapassar o limite, ela é cortada abruptamente. O maníqueísmo simplista de Hollywood (bem como de boa parte da mídia de entretenimento) parte do princípio de que os espectadores não podem se identificar com vilões ou anti-heróis. Pelo ponto de vista religioso, isso induziria ao mal, já que o mal é relativo ao inferno, e o bem ao paraíso. Por isso que nenhum vilão é bem sucedido. Ou ele morre pelas mãos de um herói e vai para o inferno, ou tem que se redimir de suas atitudes diabólicas para subir aos céus. Essa é a justificativa para existir os momentos clichés de redenção dos vilões ou bandidos, pois assim os espectadores não se sentem culpados por se identificarem com eles, ou simplesmente os acharem mais interessantes do que os heróis ou mocinhos. Por isso que mostram Deadshot (Will Smith) pensar em sua filha constantemente, ou Diablo (Jay Hernandez) ser uma pessoa constantemente arrependida e Arlequina (Margot Robbie) sofrendo de amor como uma donzela virgem e solitária no alto de uma torre. Clichés da redenção para dar motivos fáceis aos espectadores de que o lado humano dos vilões é mais forte.

Esquadrão Suicida surgiu nos quadrinhos para justamente ir contra esse pensamento de que apenas heróis seriam capazes de realizar atitudes heroicas. Foi uma oportunidade que a DC encontrou de fazer com que seus vilões pudessem ser admirados como os heróis, mas sem nunca esquecermos de que eles não são pessoas de boa índole. Por isso, são obrigados a prestarem esses serviços, sofrendo constantemente ameaças e chantagens da impiedosa Amanda Waller. Essa justificativa é o que deixa evidente que, não importa o que façam, eles nunca serão bonzinhos.

Só que isso é algo que não vemos acontecer de fato nessa adaptação, e o resultado é um filme inerte, que falha em todos os aspectos possíveis, pisando em ovos para não ser chocante ou infantil demais, caindo numa cafonice intragável que sobrevive na gambiarra dos péssimos efeitos especiais e da trilha sonora para cobrir os buracos emotivos de cenas apáticas. Nota-se que os efeitos especiais não interagem de maneira convincente com as cenas, sendo tão ruins quanto a maquiagem de Crocodilo. Resultados da pressa, já que todo o processo demorou um ano, desde a pré até a pós produção. Um período de tempo muito curto para uma adaptação como essa ter qualidade.

Não é um filme divertido, sequer empolgante ou engraçado, sem ritmo ou coerência. Em nenhum momento oferece a sensação de que o grupo é formado por aqueles que deveriam estar entre os maiores vilões e criminosos do Universo DC. Ao invés disso, nos passa a impressão de que escolheram aleatoriamente um bando de ladrões de galinha que não terão a mínima idéia do que fazer em um campo de guerra. Então imagine como será quando descobrirem que terão de impedir uma entidade diabólica de destruir o planeta: "vamos explodir uma bomba", pensam eles. Porque é óbvio, é a solução mais prática.

David Ayer, diretor e roteirista, foi responsável por filmes como Corações de Ferro (Fury, 2015) e Marcados Para Morrer (End Of Watch, 2012), o primeiro sobre a Segunda Guerra, e o segundo sobre a violência nas ruas. Dois filmes que receberam críticas positivias, levando a perceber como ele está igualmente deslocado nessa empreitada. Esses personagens poderiam ter sido muito melhor aproveitados em tramas das quais Ayer já estivesse familiarizado, em coisas mais palpáveis até, e condizente com os talentos de cada um, como uma ação política, uma guerra iminente, ou simplesmente sendo obrigados a confrontar outros vilões de igual nível criminoso. Fiquei pensando como poderia ter sido interessante impedirem uma conspiração do Coringa, por exemplo, e como isso teria abalado a relação entre ele e Arlequina e as consequências disso, o que é sempre uma bomba prestes a ser detonada.

Mas não, preferiram dar uma missão fantástica e sobrenatural, como se eles fossem Os Vingadores. Percebe-se aí a intenção barata de atrair o público pelo exagero e não pela qualidade e coerência, errando feio mais uma vez.

É um filme sofrível que causa bocejos em cadeia no cinema. A falta de reação do público constrangia como um grande vazio durante os diálogos sofríveis. Há um momento em que um dos personagens repreende Arlequina, dizendo que ela sempre cria discussões no meio das conversas. Mas que conversas? Que discussões? Não havia tido nenhuma até então, principalmente ela. E por que não discussões? São todos vilões! Enfim, não há diálogo sequer para criar vículos entre eles ou com o público. O que se tem, do início ao fim, são  frases de efeitos para a câmera, como piadas prontas ou bordões. Imediatas como memes de internet que aguardam gargalhadas, mas nunca conseguem.

Deprimente querer transformar um personagem tão cruel como Crocodilo em um piadista estúpido, ou quase arrancarem uma lágrima de Deadshot quando este recebe a notícia que Arlequina morreu (e isso não é um spoiler). Inclusive, não consegui entender até o momento a razão de Will Smith no elenco. Assim como vi alguém dizer, parecia que estava lá para poder pagar o aluguel do mês.

E no meio de tanto desperdício, nem mesmo a caracterização dos atores se salva. Jared Leto ficou longe de conseguir criar uma caricatura mais atual e memorável do Coringa, ele estava mais para um personagem teatral que solta grunhidos estranhos do que para alguém mentalmente perturbado como foram as versões de Jack Nicholson e Heath Ledger. Leto não precisava ser tão exagerado no meio de tanta informação visual, e o resultado foi um bolo de noiva: decoradíssimo por fora, mas sem qualquer sabor ou conteúdo. Até porque sua participação no filme é infame, para não dizer "sem qualquer motivo" além de atrair público e mostrar seu vínculo com Arlequina, esta que, por sinal, poderia ter sido melhor aproveitada.

Margot Robbie tinha uma grande oportunidade de fazer com que a personagem fosse memorável, mas é desperdiçada não porque foi incompetente, mas porque o péssimo roteiro que não soube aproveitar seus potenciais. Quero dizer: ela é o grande destaque, mas isso só é possível porque os demais foram pessimamente desenvolvidos. O filme se preocupa muito mais com sua imagem sexista do que com aquilo que ela poderia oferecer de fato. Não é raro os momentos que aparecem os demais personagens masculinos perdendo o foco em suas curvas, e a câmera parece fazer o mesmo, perdida e sem saber onde ir toda vez que ela aparece. Excesso de planos fechados quando seria mais fácil vê-los aproveitarem melhor os cenários e terem espaço para o improviso e brincarem com suas caricaturas.

Arlequina é um tipo que leva desastres na brincadeira e brinca fazendo desastre. Em nenhum momento, por exemplo, vemos ela pulando e cantarolando enquanto esmaga cabeças com seu porrete e faz piada dos miolos que voam, já que seu nível de perversidade consegue ser maior que o de Coringa. A relação amorosa que criam entre os dois é tão púbere quanto aquelas que vemos em Malhação, enquanto nos quadrinhos é muito mais complexa, destrutiva e psicótica do que se imagina. Coringa faz dela gato e sapato. Arlequina, assim como o filme mostra, era uma psiquiatra que, de tão fascinada pela sua mente criminosa, apaixona-se por ele. De fato, ela elouquece de amor obsessivo enquanto Coringa se aproveita disso, manipulando-a como um brinquedo o tempo todo. Tanto que Arlequina é constantemente violentada por ele. Ela apanha, é humilhada, ameaçada e repudiada, mas continua junto, firme e forte, porque acredita que assim conseguirá receber a aprovação que tanto espera, ou que seja dessa forma como ele corresponde seu amor por ela.

Ao contrário dessa relação doentia, vemos um casal que escorre sacarina toda vez que aparece, dando azia até em Sonrisal quando demonstram suas loucuras de amor um pelo outro, rendendo várias cenas românticas com direito a música de fundo e tudo. Há uma cena sobre eles que só não foi mais ridícula porque tudo que podia ser feito para ela ser melodramática, foi feito. Aliás, amor aqui é justificativa para tudo. Todo mundo morre por amor, todo mundo mata por amor e todo mundo sofre de amor. E todo mundo é vilão por isso. Nada poderia ter sido mais simples e fácil, ou nada poderia ter sido tão pior do que Deadshot receber um abraço de felicidade. O que era pra ser engraçado, não foi. Foi imbecil.

Tudo é um erro fatal, que desperdiçou a possibilidade de ser o melhor filme de super heróis sem ser de heróis. Já que tinha intenções e foi promovido desde o princípio como algo despretencioso, ousado e diferente tal como foi Deadpool, na realidade conseguiu ser o pior de todos eles. Apelar para o humor barato e na amenização do tom fez aquilo que é o erro número um de adaptações: não ser fiel ao material original. David Ayer tinha mil caminhos a seguir para ser fiel sem sofrer o talhe da censura do estúdio. Sim, era possível o filme até manter um tom mais leve e humorado, mas não precisava ser estúpido e vazio. Ao invés disso, Ayer seguiu para um caminho mais fantástico para impressionar, dando para Esquadrão Suicida uma missão que caberia à Liga da Justiça.

CONCLUSÃO...
Aquele que poderia ter sido um dos melhores filmes do gênero, tanto quanto foi com Deadpool, consegue ser o pior de todos eles por justamente pegar personagens politicamente incorretos e darem a todos eles um gandre banho de moral. O resultado é um filme inerte e estúpido, que não consegue sequer fazer o mais simples: divertir.

sábado, 10 de outubro de 2015

COMO ESCAPAR DA MESMICE...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: How To Get Away With Murder
Ano: 2014
Gênero: Drama, Policial, Crime
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Viola Davis, Billy Brown, Charlie Weber, Liza Weil, Alfred Enoch, Karla Souza, Jack Falahee, Aja Naomi King, Matt McGorry
País: Estados Unidos
Duração: 43 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Uma brilhante advogada criminalista recruta cinco estudantes de direito para trabalharem com ela. Porém um crime acontece, envolvendo todos em uma trama que irá mudar o curso de suas histórias e colocar em teste a confiança de cada um.

O QUE TENHO A DIZER...
Muito tem sido comentado a respeito deste seriado que teve estréia no final de 2014 e que já está em sua segunda temporada (estreou em Setembro). Percebe-se que a maioria dos comentários é a respeito da presença de Viola Davis no papel de Annalise Keating (pelo qual venceu o Emmy na categoria principal pelo papel neste ano) e também sobre a mirabolante trama envolvendo ela, seus cinco estagiários e outros personagens por aí.

O seriado foi criado por Peter Nowalk, e dentre os produtores temos a toda poderosa Shonda Rhimes, a mesma que criou o big hit Grey's Anatomy (2005) e o aclamado Scandal (2012). Peter, por sua vez, também foi o produtor de Shonda nesses dois shows. Então percebe-se que aqui, além de uma troca de favores, também é aquela velha máxima de que "time que vence não se mexe".

É um seriado com o formato típico daquilo que a rede ABC costuma produzir. Cada episódio tem uma história única, enquanto a trama principal se desenvolve de forma secundária. Assim o espectador esporádico consegue acompanha-lo sem se sentir perdido na história, o que evita a grande flutuação de audiência para a emissora. A edição é dinâmica e não há enrolação em cenas longas e profundas, mas há muito espaço para o cliché, frases de efeito e cenas prontas pra tentar quebrar a seriedade ou até distrair a audiência de absurdos e da superficialidade. A trilha sonora atual é para abraçar a audiência mais jovem e moderna. Enfim... há até um mix interessante de atores maduros e gabaritados (como a própria Viola Davis) com um elenco mais jovem, como Jack Falahee (que muito pode ser confundido com Milo Ventimiglia, do falecido Heroes), Karla Souza e Alfred Enoch.

Confesso que o episódio piloto chegou até a me causar certo constrangimento ou vergonha alheia, tamanha sua falta de ordem, o excesso dramático sem lógica e uma trilha sonora invasiva que não dá descanso. Padrões ABC que realmente incomodam. Muita gente pode ter achado legal Annalise entrar na sala de aula já esparramando sua personalidade autoritária, numa verborragia típica e desnecessária, escrevendo no quadro negro a forma como ela chama o Direito Criminal (e o qual dá o nome ao seriado). Mas é inverossímil, forçado, exagerado. E são cenas assim que recheiam todos os episódios. Elementos bem baratos quando comparados a outras produções de canais menores, como foi o caso de Damages (2007-2012), do FX (e que posteriormente foi para a DirecTV).

Aliás, Nowalk afirmou ter se inspirado em Damages, e ele realmente bebeu muito da fonte. Substitua a loiríssima Glen Close pela negra Viola Davis, porque o temperamento, o egocentrismo e a falta de escrúpulos é muito latente em ambas, a única diferença é que Annalise muitas vezes expressa sua humanidade pelas sombras, como no icônico quinto episódio em que ela retira sua maquiagem em frente ao espelho, literalmente despindo sua máscara para a audiência. Isso é algo que muito raramente víamos em Patty Hewes, que enganava não apenas a audiência como a si mesma. Desmembre a protégée Ellen Parsons (Rose Byrne) em cinco partes, e assim teremos os 5 estagiários de Annalise. Mantenha um crime como trama linear, alguns conflitos familiares nas subtramas para encher linguiça e a idéia principal de que tudo é mentira e ninguém é confiável, como Patty diz a Ellen logo nos primeiros episódios de Damages (e como Annalise também diz a seus estagiários). Até a arma do crime é a mesma de Damages: uma estátua. Sem contar na característica principal da trama se desenvolver através de flashbacks e flashfowards, ponto alto do desenvolvimento não linear de Damages, elogiadíssimo na época.

O problema é que a qualidade de produção do falecido seriado do FX era muito mais refinada, praticamente cinematográfica quando comparada com o barateio de custos que se percebe em Murder. A trama da primeira temporada de Damages foi absolutamente intrigante e bem desenvolvida em um roteiro enxuto, maduro e ousado, enquando aqui a vontade de continuar assistindo é simplesmente na curiosidade de saber o que aconteceu, e não porque o espectador está imerso na história, conquistado e direcionado a desvendar os mistérios e de se encontrar em situações constantes de dúvida ao montar o difícil quebra-cabeça junto com os protagonistas. É difícil pontuar exatamente os elementos que fazem o seriado muitas vezes parecer cafona, exagerado, como um novelão norte-americano. Talvez seja realmente esse excesso de elementos para chamar a atenção ao inútil, distraindo as pessoas dos pormenores e da falta de um roteiro mais denso e consistente. Essa é a enlatada impressão que se tem porque, na realidade, é disso que a audiência popular gosta, já que ABC é um canal aberto nos EUA.

Uma pena, pois ele não é ruim, só é barato e popularizado demais, quando poderia ter sido mais peneirado para valorizar seu bom elenco e uma trama linear que é até interessante, cheia de reviravoltas e surpresas, mas que se apaga com as histórias individuais de cada episódio, não havendo um crescente realmente empolgante e apreensivo, como foi na primeira e última temporada de Damages. Nada chega a surpreender realmente, por conta do tom um tanto colegial com que tudo é levado. Isso fica ruim para a protagonista, que embora tenha um nome de peso e eleve a qualidade de tudo sempre que aparece, por vezes soa um tanto deslocada e fora do tom porque o resto não consegue ser equivalente ao seu nível. O que, obviamente, não a impediu de conquistar a crítica, porque realmente Viola faz um trabalho interessantíssimo, principalmente nos momentos em que há mudanças sentimentais ou de humor muito brucas nas cenas. As transições são expressivas com pouco, e são nessas horas que ela brilha e até esquecemos dos defeitos a sua volta.

A dúvida que fica é se as temporadas seguintes terão gás suficiente para se manterem tão interessantes quanto a primeira temporada demonstrou, ou se cairá na mesma confusão de Damages que, com excessão da primeira e última temporadas, complicaram tanto as tramas para dar a falsa impressão de serem mais intrigantes, mas que no fim das contas apenas subestimaram a inteligência do espectador e causaram frustração. Isso é comum em seriados que restringem suas histórias a um grupo de pessoas ou a um acontecimento grandioso (como em Murder), e os roteiristas terão de sambar para não surgirem repetição de situações. Veremos como vai ser.

CONCLUSÃO...
Seriado que não apenas foi inspirado em Damages, mas basicamente copiado e colado com fontes e cores diferentes. A sensação de deja vu é grande, mas a qualidade da produção deixa a desejar com excessos de elementos e técnicas de filmagem e edição para distrair o espectador de detalhes que o seriado carece. O que não deixa de ser um entretenimento para aqueles que só querem um produto para se distrair. Mas já que a "inspiração" em Damages foi bastante grande, poderiam também ter colocado na lista do que fazer o refinamento e a qualidade, deixando de lado o apelo populesco e de linguagem fácil, extremamente acessível que Murder carrega.

domingo, 18 de janeiro de 2015

FERIDA QUE DÓI E NÃO SE SENTE...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Dois Lados do Amor (The Disappearance Of Eleanor Rigby)
Ano: 2014
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Ned Benson
Elenco: Jessica Chastain, James McAvoy, William Hurt, Isabelle Hupert, Viola Davis
País: Estados Unidos
Duração: 123

SOBRE O QUE É O FILME?
A história de um casal que tenta retomar a vida e o amor que um dia tiveram juntando os pedaços de um passado que pode ter ido embora há muito tempo.

O QUE TENHO A DIZER...
O Desaparecimento de Eleanor Rigby seria o nome do filme se traduzido literalmente em português, o que teria sido um título muito melhor do que o atual dado por aquelas pessoas que a gente não sabe quem são. Um título tendencioso, que remete a uma comédia romântica fajuta qualquer, quando este não é o propósito do filme, e está muito longe de qualquer coisa parecida.

O desaparecimento de Eleanor que se fala é apenas um sentido figurado, já que a personagem está presente o tempo todo. A ausência é de sua essência, daquilo que a deixava viva e autêntica, pois hoje Eleanor nada mais é do que uma carcaça ambulante, apática, que sofre de uma culpa que não se sabe de onde vem e de um vazio que não há conteúdo que o preencha.

Dirigido e escrito por Ned Benson, é também sua estréia com longas metragens. A princípio o filme foi lançado em duas partes, a parte Ele, contada pela perspectiva de Conor (James McAvoy), e a parte Ela, contada pela perspectiva de Eleanor (Jessica Chastain). As duas partes foram lançadas no Festival de Cannes e posteriormente o diretor fez uma terceira edição entitulada Eles, que é a edição final distribuida em maior circuito pela Weinstein Company.

Dois Lados do Amor mostra de forma muito realista e sensível os rumos inesperados de um casamento após um trágico episódio e das sinceras dores de se seguir em frente depois disso. Este acontecimento será o grande responsável por abalar todas as fundações da relação de ambos ao ponto de não haver solução para estancar a sangria desenfreada.

Benson até tenta criar um clima de mistério no ar que por alguns momentos nos leva a acreditar que a culpa pode ser tanto de um quanto de outro, dependendo do grau de empatia do espectador com cada personagem, mas em nenhum momento ele força essas situações e muito menos demora a revelar o que de fato aconteceu, ele apenas evita falar sobre isso, pois é isso que os personagens fazem o tempo todo: evitar lidar com a realidade.

É quando a história se torna muito mais densa, pois é muito triste notar conforme ela se desenvolve que nenhum dos dois possui de fato uma culpa sobre a situação que se encontram. Eles até tentam, com muita sinceridade, encontrar alguma solução, um meio termo em consideração ao amor e carinho genuínos que possuem um pelo outro, mas há um gosto amargo no ar sobre algo que não se vê, mas se sente mesmo assim. A atmosfera pesa, o ar fica denso e a presença um do outro é cada vez mais incômoda, como uma vergonha, numa situação insustentável a cada nova tentativa de reaproximação e uma necessidade de se ouvir desculpas de quem não tem desculpas para dar. Esse desenvolvimento lento e doloroso feito pelo diretor/roteirista funciona como a deixar a ferida exposta ao tempo, e por mais que ele tente nos mostrar que ainda possa haver esperanças, no fundo sabemos que não há alternativas. Embora os clichés sejam usados, a construção de tudo é tão honesta, emotiva e instrospectiva que não há outra impressão sobre o filme como um triste olhar sobre um jovem casal que poderia ter dado muito certo caso não fosse o acaso de seus próprios destinos.

Impressionante como a atriz Jessica Chastain tem escolhido filmes com muita acertividade, preferindo papéis mais densos e em produções menores do que ir para o caminho mais óbvio da fama, tanto que ela desistiu de O Homem de Ferro 3 para fazer este filme, que exige dela muito mais sutileza do que seus papéis anteriores porque a dor de Eleanor vem de dentro, de um lugar que nem mesmo o coração dela sabe onde está. Um alguém que a todo momento tenta se fixar em algum lugar na tentativa de recomeçar outra vez, mas não consegue fazê-lo de forma alguma.

CONCLUSÃO...
Uma pena que esse filme vai passar despercebido no grande circuito, pois as atuações são bastante impressionantes e por parte de todo elenco, além de ser uma história sutil, delicada e verdadeira sobre a relação de um casal que se perdeu, de um amor que ainda existe, mas cuja presença esvaneceu e deixou entre eles apenas um vácuo inexplicável.

sábado, 11 de agosto de 2012

LÁ VEM ELE COM SEU PANDEIRO...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Tão Forte e Tão Perto (Extremely Loud & Incredibly Close)
Ano: 2011
Gênero: Drama
Classificação: 12 anos
Direção: Stephen Daldry
Elenco: Thomas Horn, Tom Hanks, Sandra Bullock, Max Von Sydow, Viola Davis,
País: Estados Unidos
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um garoto de nove anos que sofre de um transtorno autista e com fortes inclinações políticas e sociais, encontra uma chave que pertencia ao seu pai, uma das vítimas dos atentados de 11 de Setembro de 2001. Acreditando que esta chave pode ter um sentido maior, ele desesperadamente sai em busca da fechadura que ela possa abrir e, talvez, manter a memória e a presença de seu pai.

O QUE TENHO A DIZER...
Este filme é uma adaptação do livro homônimo do escritor Jonathan Safran Foer, escritor que com apenas 35 anos já tem dois títulos de grande sucesso. Seu outro livro, Uma Vida Iluminada (Everything Is Illuminated), também ganhou uma excelente adaptação em 2005 e que infelizmente passou despercebido pelos cinemas (é fácil encontrá-lo em home video), filme que foi escrito, dirigido e produzido pelo ator Liev Schreiber, que se identificou com a história e a tragetória do personagem principal (que é até bastante similiar com a do personagem de Tão Forte e Tão Perto, mas em uma situação e em um conflito bastante diferente).

Dirigo por Stephen Daldry, mais conhecido por dramas como o delicado Billy Elliot (2000), por ter dado o papel que premiou Nicole Kidman por As Horas (The Hours, 2002), e por ter feito o mesmo com Kate Winslet por O Leitor (The Reader, 2008). Daldry chegou a concorrer na categoria de Melhor Direção por todos esses mesmos filmes, o que o faz encabeçar a lista não de melhores diretores atuais, mas dos respeitáveis, pois seus filmes costumam ser conduzidos com uma sutileza que poucos diretores conseguem em um gênero que é muito fácil pesar a mão e transformar em um dramalhão comum. Óbvio que, assim como Tão Perto e Tão Forte, todos seus filmes possuem seqüencias que chegam a ser apelativas às lágrimas, principalmente porque ele gosta de escolher mártirs, focalizando suas dores, ou isolando-os no cenário para transpor o sentimento de sofrimento e incompreensão. Tudo sempre muito regado a uma trilha sonora simples, com notas chorosas de piano e/ou violino. Apesar de tudo são cenas que funcionam no propósito e poderiam ser um desastre em mãos mais pesadas.

Demorei muito tempo para assistir o filme por puro preconceito mesmo, pois sendo uma adaptação de um livro que foi muito bem aceito pelo público, principalmente o norte-americano, o filme teve recepção muito mista tanto pela crítica especializada quanto pela leiga. Eu não li o livro, então não poderia traçar um paralelo bom entre ambos, mas por diversos materiais que li, cheguei à conclusão de que o grande defeito que encontrei no filme também é a grande insatisfação da maioria dos que leram o livro. Os críticos (especializados e leigos), em sua maioria alegam que, embora o filme tenha sequências bastante emocionantes, é difícil se sentir completamente conectado a elas, como se ouvesse um obstáculo o tempo todo.

O grande obstáculo entre a mensagem e o sentimento é, sem dúvida, o ator Thomas Horn, que interpreta o personagem principal de 9 anos e que sofre de um transtorno autista conhecido como Síndrome de Asperger. Por isso a dificuldade de socialização e comunicação, que são descritos logo no começo do filme, do comportamento ora atencioso e carinhoso, ora nervoso e agressivo, e da obsessão por tarefas metódicas e repetitivas até sua conclusão e o auto-flagelamento quando ele não consegue atingir seus objetivos da forma esperada.

O filme desmonstra os transtornos do personagem muito bem, mas pouco explica sobre isso (porque obviamente não é o tema central da história). Para quem não conhece a doença ou pouco deu atenção nos raros momentos em que ela foi citada no filme, acabarão encontrando em Oskar um personagem chato, mimado e irritante, mas por demérito do próprio ator. Ele não consegue atingir um ponto de transição convincente entre o comportamento infantil e os repentes do transtorno que o personagem sofre, simplesmente tentando imitar uma atuação adulta conforme o roteiro indicava. Isso é justificável pelo fato de Thomas ser um ator novato e o filme ter sido seu primeiro trabalho em atuação. Portanto, sua interpretação é crua e baseada naquilo que ele acreditava ser uma atuação e não no que ele acreditava que o personagem estivesse passando e sentindo, oferecendo uma presença petulante e inconveniente em várias situações, chamando mais a atenção de quem assiste pelo tom arrogante que ele impõe do que pela tragetória de adaptação e superação de traumas que o personagem está passando. Para piorar, o personagem anda o filme todo com um pandeiro barulhento e irritante, que ajuda mais ainda na antipatia pelo ator, que poderia ter usado o instrumento apenas em situações simbólicas e não durante as duas horas de filme.

De qualquer forma, o filme tenta ser sutil na abordagem dos atentados de 11/09 para não usar os fatos de forma abusiva e apelativa, já que ainda é um assunto delicado para muitos norte-americanos e sempre impactante para muitas pessoas. Os curtos momentos em que há a relação direta dos personagens com o fato são suficientes para ter apenas um traço do sentimento de impotência, desespero e fragilidade das pessoas que vivenciaram isso. A condição traumática de Oskar e de sua mãe, e a relação difícil que ambos desenvolveram após o incidente, são apenas um exemplo da confusão e reação psicológica que inflingiu milhares de famílias.

As demais atuações são brilhantes. Sandra Bullock se mantém em um nível seguro e comedido, e sua presença é sempre forte o bastante com pouco. Para quem não assistiu seu filme anterior pelo qual ela ganhou o Oscar de Melhor Atriz, Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009), ou até mesmo seus outros poucos papéis dramáticos como em Confidencial (Infamous, 2006) ou Crash (2004), pode ficar um pouco surpreso caso esteja acostumado com as comédias românticas pelas quais ela ficou estereotipada, mas quem já assistiu sabe que sua atuação dramática é sutil, e nesse filme, mesmo se escondendo em uma cabeleira mal cuidada ou com as mãos no medo da personagem expressar suas fraquezas, confesso que o filme encontra o tom exato que buscou o tempo todo apenas próximo ao fim, quando sua personagem entra efetivamente na história e conta a sua perspectiva sobre o que estava acontecendo. Max Von Sydow, que faz um velho mudo e rabugento, tem presença bastante coadjuvante e todas suas cenas juntas não somam 20 minutos, mas ele é genial e com certeza subutilizado em uma adaptação em que ele poderia ter tido uma participação maior. Mas nem por isso isso o diminui e suas poucas cenas são gratificantes e emocionantes, naquele balanço entre a sutileza, o drama e a sinceridade típicos de experientes atores como ele. O mesmo pode ser dito sobre Viola Davis, que em apenas 10 minutos de cena eleva o filme de maneira que o ator principal nunca consegue. E o show do filme são mesmo os coadjuvantes e suas histórias paralelas, algumas poucas surpresas e o desfecho que parece decepcionante no propósito egoísta do personagem, mas que agrada com a excelente moral.

CONCLUSÃO...
É um filme que mostra uma jornada que poderia ter sido muito mais gratificante se o personagem principal tivesse sido interpretado de forma mais delicada e complacente. Mas quem não prestar atenção nisso vai conseguir ver uma história emocionante, simples e com muitos significados numa perspectiva dentro de um tema delicado como é os atentados de 11/09 em Nova York. A maioria dos comentários por aí de pessoas que leram o livro dizem que a experiência literária é melhor, mas como disse antes, os atores coadjuvantes e suas pequenas participações elevam o nível de um filme que por muitas vezes é difícil de encontrar uma conexão por conta da falta de simpatia não do personagem principal, mas da forma como ele é interpretado.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

UM DOS MELHORES TÍTULOS DE 2011...

★★★★★★★★☆☆
Título: Histórias Cruzadas (The Help)
Ano: 2011
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: Tate Taylor
Elenco: Emma Stone, Viola Davis, Octavia Spencer, Bryce Dallas Howard, Jessica Chastain
País: Estados Unidos, Índia, Emirados Árabes Unidos
Duração: 146 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre uma novata escritora branca que resolve escrever um livro contado a vida das empregadas domésticas negras e seus pontos de vista sobre o racismo que sofrem dentro das famílias que trabalham, e o tratamento que recebem daqueles que um dia eram crianças e que elas ajudaram a cuidar e dar a educação.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é baseado no best seller homônimo de Kathryn Stockett e dirigido pelo novato Tate Taylor, sendo este seu segundo trabalho como diretor de longa metragem, por isso a sensação de que o filme funciona mais pelas experientes atrizes que dominam todas as cenas do que pela direção.

A história toma carona na grande revolução social que ocorreu no estado do Mississipi na década de 60 a respeito da segregação racial existente e muito rígida no estado naquela época, onde os negros eram obrigados a ter uma vida social diferente e separada dos brancos, com igrejas, escolas próprias e lugares públicos diferenciados, além de diversas outras regras que eram impostas como leis, com direito a punição a quem descumprisse. Havia regras, por exemplo, que impediam os negros de conversarem com os brancos em lugares públicos, e os negros eram punidos legalmente caso isso acontecesse, como um crime, mesmo que a atitude tivesse partido dos brancos. O Movimento dos Direitos Civis neste estado durou aproximadamente 10 anos e a segregação só teve "fim" com decisão da Suprema Corte em 1969. "Fim" entre aspas porque, embora fosse proibido a distinção de raças em locais públicos, obviamente o racismo ainda continuou forte.

É um daqueles raros filmes sobre mulheres e forte conteúdo social que é prazeroso e gostoso de assistir, quando não deveria ser assim. Como dito, todos os créditos vão para o grandioso elenco que sabia exatamente o que fazer, dando o tom exato que cada personagem precisava de uma forma tão brilhante e expressiva que a presença do diretor parece ter sido dispensada.

Viola Davis (Aibileen Clark) mais uma vez surpreende com uma atuação simples e sutil que transcende uma carga dramática forte apenas com a presença, sobre uma mulher com um coração fragilizado e machucado pelos tempos difíceis, pelo preconceito e ignorância. O mesmo pode ser dito a Octavia Spencer (Mnny Jackson), o que faz das duas personagens principais uma parceria tão intensa e perfeita quanto Thelma & Louise. Bryce Dallas Howard, embora fazendo um papel que tem sua cara, esta bem diferente de seus trabalhos anteriores, tendo sido uma perfeita escolha para o papel da arrogante e racista Hilly Holbrook, que às vezes é carismática e compreensiva, e às vezes é a pior pessoa e mais ignorante que você poderia conhecer, sua atuação é um misto de pequenas e exageradas boas doses, fazendo rir, mas muitas vezes desejando o pior. Jessica Chastain é certamente a personagem mais carismática e engraçada, mas ser engraçada não significa que sua personagem só está lá para alivar o drama, mas mostrar o outro lado dele. Emma Stone é uma boa e jovem atriz, mas sua atuação é um tanto moderna para o filme, não se enquadrando na história e em todo o contexto daquela época. Talvez sua performance tenta tido esse propósito, já que a personagem é jovem e à frente de seu tempo, mas de qualquer forma parece deslocada em um filme que se preocupou demais com importantes detalhes.

É um filme um tanto longo e cansativo (Chris Columbus é um dos produtores, então isso já era experado), oferece cenas hilárias seguidas de outras de dar nó na garganta. A história poderia ter sido mais elaborada e não tratada com o teor simplório como foi, mas a sua importância de mostrar uma outra parte da história norte-americana existe e é real, esclarecendo muitas coisas sobre a cultura não apenas norte-americana, mas ocidental no geral. Os problemas raciais que ocorreram no estado do Mississipi é apenas um fragmento quando comparado com outros lugares e nações, sendo o filme um sinal de emergência para algo que ainda é extremamente atual quando analisamos o progresso social pelo mundo e concluímos que muito do que é mostrado continua acontecendo nos dias de hoje, mesmo que disfarçadamente.

CONCLUSÃO...
Não é um uma comédia romântica comum e muito menos um filme de garotas, como alguns podem pensar. Ele não tenta em nenhum momento fazer quem assiste se sentir enganado com um mágico final feliz. É um filme sincero e frágil tanto quanto suas personagens que são uma importante parte da história não apenas dos Estados Unidos, mas dos direitos humanos mundial.
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