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terça-feira, 6 de março de 2018

O OUTRO LADO DA HISTÓRIA...

★★★★★★★★☆☆
Título: Eu, Tonya (I, Tonya)
Ano: 2017
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Craig Gillespie
Elenco: Margot Robbie, Allison Janney, Sebastian Stan
País: Estados Unidos
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A história da patinadora Tonya Harding, sua ascensão entre as maiores patinadoras do mundo e o polêmico incidente envolvendo sua rival Nancy Kerrigan.

O QUE TENHO A DIZER...
Eu tinha 13 anos quando Nancy Kerrigan foi atacada.

O vídeo em que aparece chorando desesperadamente de dor depois do ataque, perguntando por quê fizeram aquilo, exatamente como o filme recriou, foi produto do sensacionalismo. Um momento chocante que marcou a memória de muita gente e cumpriu sua função tendenciosa de sensibilizar nações, reproduzida incansavelmente em todas as emissoras do mundo, em tudo quanto foi tipo de programa por semanas a fio todo momento que o nome de Kerrigan era citado, como que a nos lembrar constantemente como ela foi violentada e como merecia nossa infinita compaixão.

Não que não merecesse, mas foi essa persistente idéia que fortaleceu cada vez mais todo o antagonismo de Tonya na história.

As suspeitas de seu envolvimento no ataque já começaram a existir bem antes da final olímpica porque as investigações avançadas já ligavam o caso a seu ex-marido, levando muita gente, incluindo o próprio Comitê Olímpico, a questionar a participação da patinadora na competição.

Acredita-se que a grande imprensa e os meios de comunicação conseguiram influenciar no adiamento do julgamento de Tonya para depois das Olimpíadas para que a mídia, como um todo, se favorecesse com isso mais do que já estava.

O escândalo do ataque se transformou em uma grande história tipicamente americana, na qual Nancy Kerrigan se tornou a grande vítima e Tonya a maquiavélica vilã. A especulação e difamação dos jornais e tablóides foi tão grande que o último capítulo desta grande novela tinha obrigatoriamente que ter como cenário a grande final olímpica, seguida do julgamento. Na falta de Big Brother na época, era assim como a imprensa manipulava casos públicos como esse, transformando fatos em novelas reais, ganhando em troca aumento de audiência e ofertas de anunciantes.

A demonização de Tonya não entra com muita ênfase na narrativa, muito embora seja citada em um momento, quando a protagonista explica que quiseram fazer de Kerrigan a imagem da patinadora perfeita, a princesa do gelo.

E foi realmente assim.

A rivalidade que criaram entre ela e Kerrigan foi desumana, começando pela diferença social entre uma e outra, depois de educação e postura, do vestuário ao tipo de maquiagem. O peso de uma espantosa responsabilidade, criando uma cruel repercussão pública cujas protagonistas eram apenas duas garotas de 23 anos.

Tonya nunca foi delicada e sutil em suas apresentações. Ela era grosseirona e pesada, mas realizava os movimentos com perfeição técnica, inclusive no famoso Triple Axel, um movimento que, na época, apenas duas patinadoras conseguiam fazer, sendo Tonya uma delas, tamanha complexidade.

Esse tipo de rivalidade é algo que historicamente sabemos que a mídia recria de tempos em tempos entre duas personalidades para poder vender notícias, principalmente entre mulheres, inferiorizando-as e jogando-as umas contra as outras, manipulando o cenário como o seriado Feudo (Feud, 2017) mostrou muito bem na verídica história de Bette Davis e Joan Crawford.

O caso entre as patinadoras não foi diferente. Foi uma situação tão fora de proporção e psicologicamente devastadora que nos intervalos da escola eu via garotas tirando par ou ímpar para decidir qual Barbie seria a Nancy (a princesa) e qual seria Tonya (a bruxa). Era algo que na época parecia engraçado e normal, mas lembrando hoje percebo como foi assustador, principalmente depois de assistir ao filme.

O pior de tudo é que naquela época todo mundo comprou o que a mídia vendeu. Por conta disso, é um grande erro atribuir a Nancy Kerrigan o papel de única vítima da história, como ela mesma sempre afirmou, porque Tonya também foi por todos os lados, desde a violência doméstica que sofria da mãe e do ex-marido, até o assédio moral e psicológico por toda a mídia e imprensa. E o resto do mundo foi responsável por isso também a partir do momento que alguém escolheu um lado, tal como faziam as meninas com suas Barbies, pois foi exatamente isso que a indústria do entretenimento e o Comitê Olímpico quiseram, tanto que a apresentação final é, até hoje, uma das transmissões mais assistidas da história da CBS.

Logo no início, o filme deixa claro que é baseado em entrevistas reais feitas com Tonya Harding e Jeff Gilolly, livre de ironias e extremamente contraditório. Essa explicação, que por si só já é irônica e dá início ao tom cômico da narrativa, não é aleatória. Segundo a própria atriz Margot Robbie, todo mundo tem a sua opinião a respeito do que aconteceu, mas o que o filme tenta fazer é dar a oportunidade que Tonya nunca teve: de contar a sua versão, e não aquela que todo o espetáculo criou e vendeu como verdade.

Além do roteirista Steven Rogers construir uma narrativa que favoreça o ponto de vista de Tonya, ele também abusa do humor e da quebra da quarta parede. Isso ajuda na inclusão de parênteses que amarram melhor os fatos, aliviam o peso dramático, e fazem a cumplicidade entre a personagem e o espectador acontecer de forma mais rápida e forte. Há até inserções locutivas que inteligentemente são usadas como mais um elemento de narração, um pouco mais didático, mas ao mesmo tempo um tanto lúdico. Essa junção de diferentes elementos faz a jornada dramática da protagonista ser muito mais convincente e profundamente emocionante. Rogers também evita ao máximo incluir Kerrigan no desenvolvimento, e a personagem entra muda e sai calada em momentos muito pontuais e específicos, somente onde é necessário. Ele não faz isso porque queira favorecer a imagem de Tonya, mas por respeito, evitando distorções da realidade ou o maniqueísmo que imputaram nos fatos.

Quando Margot Robbie foi escalada para o papel, a primeira coisa que pensei na época foi: "ok, mais uma atriz que precisa de uma biografia para ganhar um Oscar". E me enganei duas vezes. Uma porque ela não ganhou o Oscar, embora merecesse caso 2018 não tivesse sido tão bem concorrido, e duas porque, assim como em Esquadrão Suicida (2017), Margot simplesmente domina cada centímetro de espaço em cena, sendo até arrepiante em algumas delas, como nos momentos antes da sequência da apresentação final, em que não existe nada mais no cenário além dela e a câmera, uma construção cênica frequente no filme e que Gillespie não tenta fazer disso momentos melodramáticos gratuitos, mas porque a interpretação da atriz realmente merecia ser destacada da mesma forma como Allison Janney foi, esta que atua numa força avassaladora, merecidamente dominando a temporada de premiações desse ano.

Sobrou espaço até para fazer uma autorreferência bastante engraçada à sua personagem Harlequina, de Esquadrão, pela qual ficou famosa.

E com um treinamento exaustivo, Margot realizou boa parte das cenas de patinação que são mescladas com as cenas com dublê de forma imperceptível graças à edição. Não é à toa que o filme também concorreu nesta categoria, porque é esse um dos fatores mais mágicos de todo o visual e que o faz manter o ritmo, junto à fotografia digna de nota e um figurino que reproduz com quase perfeição a década de 90.

Aliviar o peso dramático e intensificar o humor foi uma maneira interessante de também amenizar a responsabilidade de um assunto que foi explorado à exaustão e desgastou muita gente envolvida. Mas isso infelizmente acabou sacrificando detalhes da história que teriam justificado melhor esse ponto de vista mais indulgente, como a já dita ausência da manipulação midiática que existiu e que polarizou a opinião popular; ou da dissecação pública da vida de Tonya que levou a devastação da sua imagem, onde qualquer coisa era motivo para uma capa de jornal ou tablóide.

A relação dela com seu pai também foi pouquíssimo explorada. Se mostrou tão forte e importante no começo do longa, mas depois foi completamente esquecida, da mesma forma que esqueceram do fato de que Al Harding estava na arquibancada da apresentação olímpica apoiando sua filha, um detalhe fundamental desperdiçado na história que mostra que ela não passou por tudo sozinha, como o filme dá a entender.

Hoje a mídia reconhece a maneira brutal como lidaram com o assunto na época. A sentença do julgamento com a consequente perda permanente do direito de Tonya participar de competições ou se beneficiar profissionalmente da patinação de qualquer maneira que fosse, bem como ter sido banida de diversos reconhecimentos competitivos e olímpicos, como se nunca tivesse existido, ainda é motivo de estudo e controvérsia.

Ao longo dos anos Tonya incansavelmente relatou, inclusive em sua própria biografia, que ela nunca soube do ataque, embora tenha chegado a ouvir conversas entre Jeff, seu ex-marido, e Shawn, o lunático que trabalhou como seu guarda-costas, que jamais a levaram a entender que era sobre algum provável plano porque eram assuntos corriqueiros sobre rotina de treinos e competições. Até porque as investigações nunca conseguiram encontrar provas que realmente ligassem Tonya como a mandante do crime, como os acusados alegaram.

Gillespie conseguiu pegar um fato polêmico e controverso e fazer disso um filme biográfico respeitável que certamente foge de padrões narrativos típicos de filmes do gênero e que fizeram total diferença aqui como material de entretenimento, que além de divertir também emociona, como também oferece a oportunidade do espectador interessado conhecer o outro lado da história, que entre aquilo que pode ser verdade, mentira ou exagero narrativo, deve ser respeitado da mesma forma (ou até mais) que os 24 anos de história que favoreceram apenas o lado de Kerrigan.

domingo, 22 de janeiro de 2017

TER CIPÓ GRANDE NÃO GARANTE...

★★★★★☆
Título: A Lenda de Tarzan (The Legend Of Tarzan)
Ano: 2016
Gênero: Ação, Aventura, Fantasia
Classificação: 12 anos
Direção: David Yates
Elenco: Alexander Skarsgard, Margot Robbie, Christoph Waltz, Samuel L. Jackson, Djimon Hounsou
País: Reino Unido, Canadá, Estados Unidos
Duração: 110 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Tarzan, agora civilizado, volta à selva do Congo com Jane para cumprirem um convite do Rei, mas o convite era uma emboscada.

O QUE TENHO A DIZER...
O diretor David Yates se destacou com os quatro últimos filmes de Harry Potter, e depois do sucesso de Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beasts And Where To Find Them, 2016), ele foi anunciado como responsável pelo exagerado número de quatro continuações que este título terá. Um exagero hollywoodiano como também é este novo filme de Tarzan.

O filme não é um reboot e nem uma continuação, mas uma mescla dos dois. A história começa com Tarzan já civilizado e influente na sociedade, morando em Londres sob sua identidade verdadeira, John Clayton. Interpretado pelo ex-True Blood, Alexander Skarsgard, o passado de Sir Clayton se tornou uma lenda, e ele é como uma celebridade por onde passa, principalmente entre as crianças. Há até livros ilustrados com histórias fantásticas sobre Tarzan, mas Sir Clayton quer se distanciar desse passado, até que um convite do Rei Leopold para voltar ao Congo tenta arrastá-lo de volta.

Convencido por George Williams (Samuel L. Jackson), que quer aproveitar a ocasião para confirmar boatos de que o desbravador do Rei, Leon Rom (Christoph Waltz), tem usado trabalho escravo, Sir Clayton aceita voltar à sua antiga terra natal, e junto, entre birrinhas, bateção de pé e bico derrubado, Jane (Margot Robbie) consegue convencer Sir Clayton de ir junto.

Ao chegarem na tribo onde Jane viveu com seu pai, quando este dava aulas de inglês aos nativos, não demora muito para serem atacados pela equipe de Leon, e muito menos para descobrir que eles cairam em uma cilada. Leon quer capturar Tarzan para entrega-lo a Mbonga (Djimon Hounsou), chefe de uma tribo, em troca de diamantes que essa tribo protege.

Basicamente a história é essa e, entre um momento e outro, flashbacks acontecerão para justificar o passado de Tarzan. Desde como ele ficou órfão, até como conheceu Jane.

Realmente não há como não se emocionar em vários momentos, sejam nos flashbacks sobre a vida nativa do herói ou no presente da história em meio a paisagens e cenários deslumbrantes, num excesso de verde tão vívido que chega a nos engolir para dentro da tela. Há um excesso de capricho tão grande nesta produção que visualmente se torna impecável. Dos efeitos especiais, até nas dezenas de figurantes que aparecem, belíssimos em sua maioria. O resultado de tudo são fotografias de tirar o fôlego.

Mas no resto a situação é manjada, e conforme a história progride, mais cliché ela fica. Tarzan é um herói da selva, mas ele é tratado no filme como um super herói invencível. E na proposta que o filme a princípio parecia ter, de levar as situações de maneira um tanto mais realista, de repente tudo começa a ser encenado no meio de uma sequência de absurdos. Como no momento em que ele e sua turma mergulham em um mar de árvores, e atrás vai o quase idoso George, que mal aguentava correr. Logo em seguida eles se jogam em cipós para alcançar um trem. Só que o bizarro dessa situação um tanto Homem-Aranha de ser é que os cipós parecem não ter fim. Tudo bem que se está no Congo, mas nem lá os cipós são tão grandes assim, né?

E a partir daí aquele festival de absurdos que Hollywood adora vira o centro das atenções, chegando no ápice da ridícula batalha entre Tarzan e seu irmão gorila. Mesmo Skarsgard ter se preparado para o filme em dieta e uma rotina de treino que ele afirmou terem sido torturantes para chegar no nível atlético do personagem, é inaceitável acreditar que Tarzan não teria sido arrebentado ao meio na primeira porrada nas costas de um gorila três vezes maior que ele. Ao menos Tarzan sai como perdedor, mesmo que sem um osso quebrado, só com um arranhãozinho aqui e alí. E no dia seguinte ele tá ótimo para enfrentar Leon.

O austríaco Christoph Waltz se revelou ao mundo quando interpretou o vilão Hans Landa em Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds, 2009), de Tarantino. De lá pra cá a lista de vilões só cresceu, e Leon Rom é mais um para sua coleção. Embora Waltz seja um ator impecável, parece que estamos um pouco cansados de seus vilões e artefatos únicos que ele adere em cada um para dar características únicas que facilmente os diferencie um dos outros. Aqui ele usa um cordão mortal feito com seda de aranha, numa habilidade tão grande que parece Shun com suas correntes, em Cavaleiros do Zodíaco. O nível de perversidade do vilão também não é novidade, embora, como dito, Waltz consiga caracterizá-los numa habilidade tão única que eles não conseguem ser iguais, mesmo que com personalidades similares.

Mas é aquilo... colocá-lo no papel de vilão está na mesma zona de conforto na qual o filme fica o tempo inteiro, assim como ter Samuel L. Jackson para dar os alívios cômicos um tanto pastelões, Jane ser a mulher destemida e determinada e Tarzan um incrível galã romântico.

É um filme tipicamente familiar e dentro de fórmulas manjadas para agradar desde os fãs de Transformers até a vovozinha que um dia já ficou louca com o Tarzan de Christopher Lambert na década de 80. Mas nada satisfatório para aqueles que esperavam um avanço melhor na abordagem da história, uma versão que nem precisava ser mais adulta, mas que se mantesse fiel a um nível de realidade mais próximo.

Como tudo hoje em dia tem sido "super-heroizado", algo mais humano e menos fantástico, principalmente de um herói que originalmente é mais humano e menos fantástico, teria sido bem vindo.

CONCLUSÃO...
No resultado, Tarzan consegue ser um filme até divertido, com poucos momentos empolgantes e sensível em pequenas doses, mas em nenhum momento evita aquela sensação previsível que todas as adaptações do herói igualmente tiveram antes. É muito mais visualmente deslumbrante do que um entretenimento eletrizante.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

ESTUPIDEZ SEM LIMITE...

Título: Esquadrão Suicida (Suicide Squad)
Ano: 2016
Gênero: Ação, Super Herói, Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: David Ayer
Elenco: Margot Robbie, Will Smith, Viola Davis, Jared Leto, Cara Delavigne
País: Estados Unidos
Duração: 125 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um grupo formado pelos maiores criminosos e psicóticos do país são recrutados secretamente para tentar impedir um desastre de proporções mundiais. 

O QUE TENHO A DIZER...
A Marvel criou no cinema uma fórmula que deu certo. E dentro de um planejamento de 10 anos, divididos em três fases, concretizou seu Universo Cinemático. Nada do que ela fez dentro desse período foi decidido da noite para o dia. Foi um planejamento de longa data, moldado e adaptado conforme o interesse do público e dos fãs, até encontrar seu tom. Tudo muito sutil, mas feito com cuidado e uma filosofia única em foco: lucrar respeitando o próprio legado.

Demorou para a DC/Warner resolver fazer o mesmo no cinema, já que nos video-games e na televisão, por exemplo, essa universo já existe e é sólido, como os jogos Injustice e DC Universe, e com seriados como Arrow, The Flash e Supergirl. A diferença é que a DC se atrasou demais no processo de expansão desse universo para o cinema, e por isso tem colocado os pés na frente das mãos. 

Mesmo Homem de Aço (Man Of Steel, 2013), de Zack Snyder, ter sido um fracasso de crítica, a Warner se aproveitou do razoável sucesso de público para tão logo divulgar sua continuação direta, e de última hora fazê-la o grito de largada do seu universo cinemático próprio. Os erros de Homem de Aço poderiam ter sido usados como experiências do que não devia ter sido feito em Batman vs. Superman, como manter Zack Snyder na direção, por exemplo. Mas ele não apenas foi mantido e cometeu os mesmos equívocos, como também irá dirigir A Liga da Justiça, o maior investimento do estúdio e a principal razão de existência de todo esse universo que ela tenta criar a tropeços e solavancos. Por isso que tem valido a máxima "errar uma vez é humano, contratar Zack Snyder de novo foi burrice, e mantê-lo será suicídio".

O prematuro Universo da DC no cinema tem sido marcado por decisões sem foco, levando essa investida da Warner a um caminho sem rumo, eira ou beira, restando a Esquadrão Suicida e ao aguardadíssimo filme solo de Mulher-Maravilha, a tentativa de capturar um novo fôlego e reacender o interesse de um público que já está desinteressado, mesmo que ainda preencha as salas de cinema por pura curiosidade e minguadas expectativas.

Nada seria mais interessante do que uma história em que grandes criminosos sejam recrutados para missões que heróis deveriam ser poupados. O nome da equipe não seria mais apropriado, e a DC a mais coerente a ter uma equipe assim, já que o selo é marcado por vilões cujas personalidades psicóticas tendem a ser muito mais interessantes do que a de seus heróis.

Aqui a história já entra na proposta do universo, com início a partir dos eventos de Batman vs. Superman, no qual Amanda Waller (Viola Davis) discursa sobre a vulnerabilidade de todos após a suposta morte de Superman. Com a ajuda de Batman e de meta-humanos, como The Flash, conseguiu capturar alguns dos maiores criminosos do país, pois pretende recrutá-los para um programa secreto de segurança do Governo, no qual ela é responsável.

Linear e apresentando brevemente a história de cada um dos recrutados, a introdução é um pouco longa e cansativa, e após isso um tanto repetitiva, já que por várias vezes temos que passar pelo ponto de vista de cada personagem sobre alguma determinada coisa no decorrer da trama. De qualquer forma, o filme acaba e continuamos sabendo nada muito relevante a respeito de ninguém. Ou seja, superficial, pois caso não fosse, estaria na memória.

Mas a impressão maior que se tem com Esquadrão é uma coisa meio óbvia: a de ter sido feita às pressas, assim como aconteceu com Lanterna Verde (Green Lantern, 2011). Sabe-se também que, depois das pesadas críticas negativas que Batman vs. Superman recebeu, o estúdio pressionou para que o filme fosse editado de forma a amenizar o tom violento e não sofrer com a classificação etária. Não é à toa que dezenas de cenas foram deletadas, e muito do palavriado jocoso que poderia ser usado para o bem do contexto dos personagens foi igualmente censurado pelo estúdio. É nessas horas que admiramos Deadpool (2016), sua violência explícita, a boca aberta do anti-herói e suas piadas sujas, outra lição que a Warner deveria ter aprendido, dessa vez, com a Marvel.

O didatismo simplista do roteiro chega a níveis abusivos porque a grande falha, como sempre, é amenizar a carga dramática e a personalidade violenta ou insana dos personagens, deixando tudo politicamente correto. No começo até tentam dar alguma densidade, só que sempre que alguma cena tenta ultrapassar o limite, ela é cortada abruptamente. O maníqueísmo simplista de Hollywood (bem como de boa parte da mídia de entretenimento) parte do princípio de que os espectadores não podem se identificar com vilões ou anti-heróis. Pelo ponto de vista religioso, isso induziria ao mal, já que o mal é relativo ao inferno, e o bem ao paraíso. Por isso que nenhum vilão é bem sucedido. Ou ele morre pelas mãos de um herói e vai para o inferno, ou tem que se redimir de suas atitudes diabólicas para subir aos céus. Essa é a justificativa para existir os momentos clichés de redenção dos vilões ou bandidos, pois assim os espectadores não se sentem culpados por se identificarem com eles, ou simplesmente os acharem mais interessantes do que os heróis ou mocinhos. Por isso que mostram Deadshot (Will Smith) pensar em sua filha constantemente, ou Diablo (Jay Hernandez) ser uma pessoa constantemente arrependida e Arlequina (Margot Robbie) sofrendo de amor como uma donzela virgem e solitária no alto de uma torre. Clichés da redenção para dar motivos fáceis aos espectadores de que o lado humano dos vilões é mais forte.

Esquadrão Suicida surgiu nos quadrinhos para justamente ir contra esse pensamento de que apenas heróis seriam capazes de realizar atitudes heroicas. Foi uma oportunidade que a DC encontrou de fazer com que seus vilões pudessem ser admirados como os heróis, mas sem nunca esquecermos de que eles não são pessoas de boa índole. Por isso, são obrigados a prestarem esses serviços, sofrendo constantemente ameaças e chantagens da impiedosa Amanda Waller. Essa justificativa é o que deixa evidente que, não importa o que façam, eles nunca serão bonzinhos.

Só que isso é algo que não vemos acontecer de fato nessa adaptação, e o resultado é um filme inerte, que falha em todos os aspectos possíveis, pisando em ovos para não ser chocante ou infantil demais, caindo numa cafonice intragável que sobrevive na gambiarra dos péssimos efeitos especiais e da trilha sonora para cobrir os buracos emotivos de cenas apáticas. Nota-se que os efeitos especiais não interagem de maneira convincente com as cenas, sendo tão ruins quanto a maquiagem de Crocodilo. Resultados da pressa, já que todo o processo demorou um ano, desde a pré até a pós produção. Um período de tempo muito curto para uma adaptação como essa ter qualidade.

Não é um filme divertido, sequer empolgante ou engraçado, sem ritmo ou coerência. Em nenhum momento oferece a sensação de que o grupo é formado por aqueles que deveriam estar entre os maiores vilões e criminosos do Universo DC. Ao invés disso, nos passa a impressão de que escolheram aleatoriamente um bando de ladrões de galinha que não terão a mínima idéia do que fazer em um campo de guerra. Então imagine como será quando descobrirem que terão de impedir uma entidade diabólica de destruir o planeta: "vamos explodir uma bomba", pensam eles. Porque é óbvio, é a solução mais prática.

David Ayer, diretor e roteirista, foi responsável por filmes como Corações de Ferro (Fury, 2015) e Marcados Para Morrer (End Of Watch, 2012), o primeiro sobre a Segunda Guerra, e o segundo sobre a violência nas ruas. Dois filmes que receberam críticas positivias, levando a perceber como ele está igualmente deslocado nessa empreitada. Esses personagens poderiam ter sido muito melhor aproveitados em tramas das quais Ayer já estivesse familiarizado, em coisas mais palpáveis até, e condizente com os talentos de cada um, como uma ação política, uma guerra iminente, ou simplesmente sendo obrigados a confrontar outros vilões de igual nível criminoso. Fiquei pensando como poderia ter sido interessante impedirem uma conspiração do Coringa, por exemplo, e como isso teria abalado a relação entre ele e Arlequina e as consequências disso, o que é sempre uma bomba prestes a ser detonada.

Mas não, preferiram dar uma missão fantástica e sobrenatural, como se eles fossem Os Vingadores. Percebe-se aí a intenção barata de atrair o público pelo exagero e não pela qualidade e coerência, errando feio mais uma vez.

É um filme sofrível que causa bocejos em cadeia no cinema. A falta de reação do público constrangia como um grande vazio durante os diálogos sofríveis. Há um momento em que um dos personagens repreende Arlequina, dizendo que ela sempre cria discussões no meio das conversas. Mas que conversas? Que discussões? Não havia tido nenhuma até então, principalmente ela. E por que não discussões? São todos vilões! Enfim, não há diálogo sequer para criar vículos entre eles ou com o público. O que se tem, do início ao fim, são  frases de efeitos para a câmera, como piadas prontas ou bordões. Imediatas como memes de internet que aguardam gargalhadas, mas nunca conseguem.

Deprimente querer transformar um personagem tão cruel como Crocodilo em um piadista estúpido, ou quase arrancarem uma lágrima de Deadshot quando este recebe a notícia que Arlequina morreu (e isso não é um spoiler). Inclusive, não consegui entender até o momento a razão de Will Smith no elenco. Assim como vi alguém dizer, parecia que estava lá para poder pagar o aluguel do mês.

E no meio de tanto desperdício, nem mesmo a caracterização dos atores se salva. Jared Leto ficou longe de conseguir criar uma caricatura mais atual e memorável do Coringa, ele estava mais para um personagem teatral que solta grunhidos estranhos do que para alguém mentalmente perturbado como foram as versões de Jack Nicholson e Heath Ledger. Leto não precisava ser tão exagerado no meio de tanta informação visual, e o resultado foi um bolo de noiva: decoradíssimo por fora, mas sem qualquer sabor ou conteúdo. Até porque sua participação no filme é infame, para não dizer "sem qualquer motivo" além de atrair público e mostrar seu vínculo com Arlequina, esta que, por sinal, poderia ter sido melhor aproveitada.

Margot Robbie tinha uma grande oportunidade de fazer com que a personagem fosse memorável, mas é desperdiçada não porque foi incompetente, mas porque o péssimo roteiro que não soube aproveitar seus potenciais. Quero dizer: ela é o grande destaque, mas isso só é possível porque os demais foram pessimamente desenvolvidos. O filme se preocupa muito mais com sua imagem sexista do que com aquilo que ela poderia oferecer de fato. Não é raro os momentos que aparecem os demais personagens masculinos perdendo o foco em suas curvas, e a câmera parece fazer o mesmo, perdida e sem saber onde ir toda vez que ela aparece. Excesso de planos fechados quando seria mais fácil vê-los aproveitarem melhor os cenários e terem espaço para o improviso e brincarem com suas caricaturas.

Arlequina é um tipo que leva desastres na brincadeira e brinca fazendo desastre. Em nenhum momento, por exemplo, vemos ela pulando e cantarolando enquanto esmaga cabeças com seu porrete e faz piada dos miolos que voam, já que seu nível de perversidade consegue ser maior que o de Coringa. A relação amorosa que criam entre os dois é tão púbere quanto aquelas que vemos em Malhação, enquanto nos quadrinhos é muito mais complexa, destrutiva e psicótica do que se imagina. Coringa faz dela gato e sapato. Arlequina, assim como o filme mostra, era uma psiquiatra que, de tão fascinada pela sua mente criminosa, apaixona-se por ele. De fato, ela elouquece de amor obsessivo enquanto Coringa se aproveita disso, manipulando-a como um brinquedo o tempo todo. Tanto que Arlequina é constantemente violentada por ele. Ela apanha, é humilhada, ameaçada e repudiada, mas continua junto, firme e forte, porque acredita que assim conseguirá receber a aprovação que tanto espera, ou que seja dessa forma como ele corresponde seu amor por ela.

Ao contrário dessa relação doentia, vemos um casal que escorre sacarina toda vez que aparece, dando azia até em Sonrisal quando demonstram suas loucuras de amor um pelo outro, rendendo várias cenas românticas com direito a música de fundo e tudo. Há uma cena sobre eles que só não foi mais ridícula porque tudo que podia ser feito para ela ser melodramática, foi feito. Aliás, amor aqui é justificativa para tudo. Todo mundo morre por amor, todo mundo mata por amor e todo mundo sofre de amor. E todo mundo é vilão por isso. Nada poderia ter sido mais simples e fácil, ou nada poderia ter sido tão pior do que Deadshot receber um abraço de felicidade. O que era pra ser engraçado, não foi. Foi imbecil.

Tudo é um erro fatal, que desperdiçou a possibilidade de ser o melhor filme de super heróis sem ser de heróis. Já que tinha intenções e foi promovido desde o princípio como algo despretencioso, ousado e diferente tal como foi Deadpool, na realidade conseguiu ser o pior de todos eles. Apelar para o humor barato e na amenização do tom fez aquilo que é o erro número um de adaptações: não ser fiel ao material original. David Ayer tinha mil caminhos a seguir para ser fiel sem sofrer o talhe da censura do estúdio. Sim, era possível o filme até manter um tom mais leve e humorado, mas não precisava ser estúpido e vazio. Ao invés disso, Ayer seguiu para um caminho mais fantástico para impressionar, dando para Esquadrão Suicida uma missão que caberia à Liga da Justiça.

CONCLUSÃO...
Aquele que poderia ter sido um dos melhores filmes do gênero, tanto quanto foi com Deadpool, consegue ser o pior de todos eles por justamente pegar personagens politicamente incorretos e darem a todos eles um gandre banho de moral. O resultado é um filme inerte e estúpido, que não consegue sequer fazer o mais simples: divertir.
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