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quinta-feira, 16 de junho de 2016

COMENTANDO A SITUAÇÃO: CINEMA vs. JOGOS

Essa semana o IMDb resolveu dar um certo destaque a filmes adaptados de jogos de video-game, fazendo uma lista com os 10 melhores avaliados pelos usuários. Claro, depois do sucesso mundial de Warcraft, um dos jogos de RPG mais bem sucedidos da história, há outras adaptações vindo por aí, como a de Assassin's Creed, uma das séries mais rentáveis desse universo.

Muito se sabe que a imaginação dos roteiristas de jogos voa solta, seguindo uma linha lógica para não parecer banal, muito mais coerente e linear do que vemos na maioria de filmes por aí. Por muito, jogadores pensam: "por que esse jogo não vira filme"? E quando vira, perguntam: "por que é tão ruim"?

Assim como X-Men abriu novas portas aos quadrinhos nos cinemas em 2000, cada nova adaptação de jogo é vista como uma nova esperança, aquela desejada borracha para passar no passado da década de 90 e de desastres, como Mario Bros. (1993), Double Dragon (1994), Street Fighter (1994) ou Mortal Kombat (1995), adaptações que mais causam constrangimento do que qualquer coisa. Foi assim que pensaram quando Tomb Raider (2001) foi lançado, depois com Resident Evil (2002), com Silent Hill (2006), Hitman (2007) e Prince Of Persia (2010), apenas como exemplos. Todos fracassados, e aquela tão desejada borracha foi roída porque era colorida e cheirosa.

O problema é que se o filme é sucesso de público, não é de crítica; se é de crítica, não é de público. É o que aconteceu com a série Resident Evil, tida pelos fãs mais rebeldes como um total massacre ao legado dos jogos, já que o diretor e roteirista Paul W. S. Anderson fez com a série o que Bryan Singer fez com X-Men: adaptou a história e seus personagens à sua maneira, ignorando completamente a cronologia e a própria história do material original. A diferença entre Anderson e Singer é que, Singer, apesar dos pesares, é um bom diretor.

Resident Evil, que vai para o sexto filme da série ainda este ano, é a mais rentável que se tem notícia, mas isso não significa que é boa. A razão disso acontecer, mesmo com tantas críticas negativas, ainda é um mistério. Um mistério que não explica, por exemplo, porque adaptações de Silent Hill (2006 e 2012), talvez uma das mais fiéis que o cinema já ousou fazer sobre algum jogo, foi tão mal das pernas e duramente criticada. A crítica, hoje bem sabe, foram de pessoas que sequer jogaram qualquer um dos títulos, desconhecendo completamente que toda a ambientação, a atmosfera fantasmagórica e obscura dos jogos foram reproduzidas com bastante fidelidade no cinema, tanto que a censura de ambos filmes foi alta, o que dificultou bastante o desempenho nas bilheterias. O trabalho desenvolvido nos dois filmes chega a ser bem impressionante, talvez até mais no segundo, que soube usar muitas das referências de Clive Barker esquecidas e empoeiradas pelo tempo em sua icônica série Hellraiser, e que tudo tinham a ver com os trevosos personagens da sombria cidade de Silent Hill. Embora as opiniões sobre o segundo filme sejam bastante controversas, visualmente ele faz um trabalho que raramente é visto em filmes de horror, e apenas isso já me faz considerá-lo acima da média, tanto como uma adaptação, como um filme psicologicamente perturbador.

Final Fantasy (2001) foi outra adaptação bastante subestimada e criticada. Na verdade, não foi bem um filme, tampouco uma adaptação. Na verdade, a idéia de Hironobu Sakaguchi, criador da série, foi de expandir a franquia de jogos para o cinema. Cada jogo da série tem uma história única, e o mesmo foi imaginado para o cinema. O problema é que os fãs esperaram participações especiais de personagens icônicos ou alguma relação direta com qualquer título mais relembrados da série, como o sétimo jogo. Com esses pré-conceitos e expectativas, o filme foi uma decepção para essas pessoas, e para os críticos que igualmente nunca experimentaram jogar um título sequer, consideraram o filme chato, entediante, sem pé nem cabeça. O que poucos sabem é que o filme é uma importante continuidade daquilo que o universo de Final Fantasy significa nos games, sem falar que, assim como os jogos foram muito importantes para grandes inovações tecnologicas no segmento, o mesmo aconteceu com o filme, que revolucionou a computação gráfica e a forma como passou a ser usada.

Há também o problema daqueles jogos que não conseguíamos imaginar que poderiam ter um resultado tão ruim no cinema, como Tomb Raider, um jogo tipicamente de ação e que poderia render sequências eletrizantes no cinema. A história dos jogos é simples, e já estava prontíssima para ser adaptada, era só jogar na tela. Não havia muitas diferenças entre Lara Croft e Indiana Jones, a não ser Lara ser do sexo feminino e uma ginasta capaz de saltos e malabarismos que Indiana nunca conseguiria fazer sem ajuda de seu chicote. Portanto, readaptar uma fórmula já pronta era fácil. Mas parece que quanto mais simples parecia tudo, mais estragam. O primeiro filme, dirigido por Simon West, foi uma coisa infame. Determinado desde o princípio a valorizar muito mais as curvas, caras e bocas de Angelina Jolie do que a ação, o resultado foi vergonhoso. Pior ainda na continuação dirigida por Joel Schumacher, diretor que, no passado, já nos proporcionou delírios com Velocidade Máxima (1994) e Twister (1996), referências da ação explosiva, mas errou a mão feio, tanto que a franquia no cinema parou no segundo filme.

É muito triste quando gamers veem seus jogos preferidos darem frutos tão podres como o que o cinema proporciona. Essa dor é sentida porque são jogos nos quais pessoas dedicaram horas, que gradualmente mergulharam na história e na "vida" de personagens por tanto tempo. É como se cada um desses jogadores fosse o próprio personagem, assumindo um papel dominante na história. Existe essa personificação, ou esse espelhamento, depois de tantas horas afundado em um mundo que não é representado da mesma forma quando filmado. É impossível não imaginar épicos como God Of War ou Mass Effect inundar os cinemas com efeitos especiais deslumbrantes e cenas de ação intensas de tirar o fôlego, ou deixar de imaginar um jogo tão cinematográfico e delicado quanto The Last Of Us ser fielmente adaptado nos cinemas apenas para aproxima-lo mais ainda da realidade e imortalizar pelas lentes de uma câmera personagens tão cativantes, complexos e ao mesmo tempo compreensíveis na sua relação.

Salvo algumas excessões, em que o esdrúxulo e o cafona fizeram de Mortal Kombat ou Dead Or Alive sucessos, e o absurdo de Street Fighter o transformar tardiamente em um cult da ação trash, a proposta desses filmes nunca foi ser mais sério do que Power Rangers, ao contrário dos outros títulos deliberadamente desrespeitados.

Todo jogador tem um jogo preferido e que adoraria vê-lo adaptado, mas a cultura cinematográfica de destruir excelentes materiais ajuda para que esses mesmos jogadores façam campanhas contra isso. A nota média dos 10 filmes selecionados pelo IMDb é de 6.5, isso porque foram selecionados "os melhores avaliados". Então imaginem os piores avaliados, em que patamar se encontram. E vale-se dizer que, com excessão de Warcraft, nenhum dos demais desse top 10 é digno de nota ou qualquer respeito. Hitchman, talvez... mas ainda sim, faltou muito para que o protagonista do filme chegasse próximo ao que é o protagonista dos jogos de fato.

Então, como melhorar essa relação? Seria possível fazer excelentes adaptações?

Sim. Em primeiro lugar porque Hollywood tem de descobrir que quando se adapta um jogo para o cinema, estamos falando de uma história e de personagens que já existem em um universo paralelo (o dos jogos) e que eles devem ser respeitados em sua essência. Segundo lugar, os roteiristas e criadores dos jogos originais devem ser consultados, ninguém mais do que eles para saber direcionar o desenvolvimento que personagens e o próprio enredo devem ter. Terceiro lugar, diretores e roteiristas dos filmes devem ser imersos nesses materiais antes de adaptá-los para saber qual é a sensação de um gamer ao interagir com aquele mundo virtual e a jornada que esse mundo oferece. São coisas que evidentemente nenhum diretor ou roteirista de cinema fizeram até hoje, com excessão, talvez, de Duncan Jones, o diretor de Warcraft. Quarto ponto é que o cinema tem que parar com essa horrorosa mania de dar um choque de moral e bons costumes a protagonistas ou histórias para o bem da empatia. Existem muitos jogos onde os esses elementos não são simpáticos, não são legais, são rudes, grosseiros, amorais, nojentos ou grotescos. Isso tem que ser mantido, faz parte da personalidade designada a eles. Essa penosa mania de sempre quererem melhorar traços de personalidade ou exagerarem nas sequências de auto-redenção para forçar uma empatia com o público não apenas é desgastante como fere em completo o resultado final. Isso é um dos erros mais graves do cinema atual. O espectador tem que aprender a ver um filme sobre a ótica do protagonista, seja pelo bem, ou pelo mal, e cabe ao diretor saber conduzí-lo a isso.

O fato é que o cinema desperdiça o material oferecido por centenas de jogos. Para uma arte que atualmente sofre de inovação e ousadia, nada seria mais interessante do que abraçar um mundo para dentro do outro. Os jogos já se transformaram em experiências cinematográficas fantásticas, como os já citados The Last Of Us e God Of War, Alan Wake, a trilogia de Ezio Auditore da Firenze, em Assassin's Creed, dentre outros. Só que o cinema insiste em ignorar jogos como uma interessante fonte de experiência imersiva como são capazes de ser, como já aconteceu com Matrix (1999), ou como acontece no mais recente Hardcore Henry, um filme sem qualquer contexto ou história, mas é impressionante, empolgante, dinâmico e de deixar qualquer espectador fascinado unicamente por ter sequências que integralmente transferem para as telas a experiência de um jogo em primeira pessoa, e tudo feito de forma brilhante e focada do diretor.

Não haveria segredo em adaptar jogos caso o cinema não ignorasse os materiais originais. E aproveitar material original não é caracterizar um ator com figurino e maquiagem e joga-lo em um chroma key, mas transformar aquela história contada em passos lentos em um video-game em uma narrativa cinematográfica que tenha sentido. A cada novo ano tem-se a sensação de que alguma nova adaptação possa ser a luz do fim desse túnel, para só depois percebermos que o fim desse túnel ainda está muito longe. Warcraft pode ser uma das raríssimas coisas realmente boas que tenha saído dessa cansável safra de tentativas, mas ainda não representa a mudança do segmento e do pensamento coletivo de cineastas e suas visões sobre o que seria uma adaptação de sucesso.

sábado, 4 de junho de 2016

O APOCALIPSE DOS HERÓIS...

★★★★☆
Título: X-Men - Apocalipse
Ano: 2016
Gênero: Super Herói, Ação
Classificação: 12 anos
Direção: Bryan Singer
Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Oscar Isaac, Rose Byrne, Nicholas Hoult, Olivia Munn
País: Estados Unidos
Duração: 144 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Os heróis agora se unem para combater um inimigo ancestral que ressurge com o objetivo de aniquilar a raça humana, dominar os mutantes e destruir os mais fracos.

O QUE TENHO A DIZER...
Em um Egito antigo, com uma tecnologia aparentemente alienígena, nos é apresentado En Saban Nur (A Luz da Manhã, em arábico), mais conhecido como Apocalipse, um dos maiores supervilões dos X-Men e um importante personagem responsável por diversas mudanças dentro do Universo tanto dos heróis, quanto da Marvel, ao longo das décadas. Imortal e invencível, é um personagem curiosamente criado por uma mulher em 1986, Louise Simonson, e uma inteligente sacada da empresa porque ele é a metáfora do ciclo e da renovação, sendo sempre essa a intenção de suas ressurgências e reaparições de época em época. A criação do personagem se deu por uma necessidade, já que foi percebido que algo deveria estar acima de qualquer coisa e que justificasse, inclusive, até mesmo a razão de outros vilões existirem. 

É por isso que Apocalipse é narrado nos quadrinhos como o primeiro da espécie mutante (The First One), sendo ele o início da transição do homo sapiens ao homo superior em uma época em que a humanidade não estava preparada para isso, e nunca esteve. Para o vilão, que respira e transpira a crença da sobrevivência dos mais fortes, todos aqueles considerados fracos devem ser destruídos, não importa quem seja. Seu comportamento impiedoso é evidentemente o lado mais extremista, cruel e determinante daquilo que outros vilões pensam, e ao invés de convergir para o lado mais simples do maniqueísmo segregando ou extinguindo humanos, a intenção e existência dele é forçar a constante evolução selecionando os mais fortes através da guerra, obrigando todos a viverem em um constante caos para a sua própria renovação e preservação.

Por conta de seus poderes e tirania, Saban Nur dominava o Egito no ano de 3600aC, mas foi traído por seus súditos, que soterraram-no em sua própria tumba, enquanto seus Quatro Cavaleiros se sacrificaram para que ele pudesse ser preservado vivo. E é assim que o sexto filme começa, em uma narrativa rápida, escura e confusa o bastante pra deixar muita gente sem saber de fato o que aconteceu ou porquê. O que interessa é que Apocalipse agora está a salvo nos escombros de uma pirâmide soterrada no Cairo há mais de 5 mil anos, esperando um motivo para ser desperto.

Logo em seguida, entre rompantes da trilha sonora e uma breve ilustração que resume historicamente importantes acontecimentos durante os séculos, os créditos iniciais aparecem no típico estilo Bryan Singer de começar seus espetáculos.

É emocionante, principalmente para quem acompanha a trajetória dos heróis no cinema desde 2000. Mas ao mesmo tempo traz uma certa dúvida: será que Singer irá fazer jus à imagem e importância de um personagem tão grandioso e importante nesse universo quanto é Apocalipse?

Este novo capítulo é uma continuação direta do anterior, embora não haja qualquer referência. É o quarto de Singer na direção, e seria respeitável porque foi com os X-Men que ele se tornou o precursor do sucesso da nova leva de filmes de super heróis, e também de toda a renovação da Marvel nos cinemas e nos quadrinhos. Seu único grande erro foi o excesso de liberdade ao adaptá-los, fugindo completamente de certas origens e bagunçando importantes cronologias ao recontar histórias e recriar personagens à sua própria vontade.

Foi em cima dessa crítica comum que Dias de Um Futuro Esquecido (Days Of Future Past, 2014) foi feito, tentando corrigir erros passados e justificar prováveis erros futuros. Embora o filme anterior também tenha alguns buracos e confusões cronológicas dentro da própria franquia, no geral, o objetivo foi alcançado: o de sair dos becos sem saída nos quais a série havia se enfiado. Foi a oportunidade única e bem pensada de Singer para uma renovação geral e, assim, colocar tudo nos eixos novamente e em coerência com os quadrinhos, algo que ele nunca teve. Por isso, nenhuma outra sequência parecia calhar tão bem quanto Apocalipse, exatamente por conta do vilão em si ser o símbolo da mudança, o fim de um ciclo para a contemplação e firmação de outro. Parecia ser um excelente argumento para terminar mais uma trilogia e dar abertura para outra.

Mas não foi assim.

Não se pode esquecer que Primeira Classe (First Class, 2011) surgiu com o o intuito de dar um reboot na franquia que havia acabado na primeira trilogia, e Dias foi como um reboot desse reboot, como que a zerar o universo cinemático dos heróis.

Então, quando Apocalipse foi anunciado, a impressão de ser a segunda parte de uma saga de mudanças fundamentais soava coesa e madura, mas que emplodiram como a pirâmide de Saban Nur quando Singer não resistiu a si mesmo e a sua prepotência. Do filme anterior ele e seu roteirista, Simon Kimberg, nada mantiveram, nem mesmo um tema de fundo que justificasse essa continuação, por isso aparenta ser um reboot do reboot do reboot, como se a intenção agora fosse fazer de X-Men filmes com histórias individuais, sem contexto lógico, apenas para garantir à Fox o uso e exploração dos direitos e da marca, lucrando com a exaltação de fãs que apenas querem ver seus heróis preferidos nas telas, mesmo que eles estejam completamente fora de contexto, como é o caso de Jubileu, ou a própria Psylocke.

Os fãs que se irritaram com Singer ao longo dos anos e aceitaram seu indireto "pedido de desculpas" em Dias, terão outra vez os mesmos motivos para se irritarem.

É inacreditável a habilidade do diretor em desvirtuar histórias já concebidas e consagradas nos quadrinhos para deturpar personagens e suas funções. Nem mesmo o cuidado visual é o mesmo dos filmes anteriores. Se em Primeira Classe um dos pontos mais elogiados no filme de Matthew Vaughn foi a reprodução do final dos anos 60, nesta história, que se passa no início dos anos 80, as relações com a época são pífias. O anacronismo em vestuário, comportamento e tecnologia chegam a ser absurdos, na proposital intenção de deixar tudo o mais acessível possível, adequando o filme e uma época a um público mais jovem e desinformado, e não o contrário. Períodos históricos e suas respectivas épocas sempre tiveram importâncias fundamentais na Marvel, e com X-Men não seria diferente, mas Singer se esqueceu disso por completo, e nesse filme ele usa muita areia, concreto e deserto para disfarçar defeitos e  não obrigar a equipe técnica a se aprofundar em detalhes.

Nunca gostei da forma como Singer caracterizou os personagens ou narrou eventos, e o mesmo pensa muito daqueles que conhecem os materiais originais. Mas ainda sim havia algo a ser admirado, como sua habilidade de conseguir lidar com um grande elenco, de trazer humanidade e naturalidade para o fantástico, além de manter a essência aceitável e complacente das relações metafóricas da sociedade com os mutantes, que nada mais são do que uma metáfora aos diversos grupos sociais discriminados. Seus dois primeiros filmes foram produções que souberam construir uma história, mesmo que própria, sem deixar de entreter ou fugir deliberadamente do contexto no qual estavam inseridos nos quadrinhos. Ou seja, fato e fantasia, tudo aquilo que X-Men sempre soube fazer bem nas bancas e que no cinema, até então, tinha sido bem representado.

Quando Apocalipse desperta de seu sono milenar, ele afirma já ter sido chamado de várias coisas por diferentes eras, pois foi ele quem deu a centelha da vida e espalhou o fogo das civilizações. É nesse momento que você tem certeza que ele seria capaz de erguer uma montanha com um dedo e esmagar Magneto com um suspiro. Ele é alguém para se temer ou borrar as calças apenas de pensar, e é exatamente isso que ele faz quando empareda um homem com o olhar, ou faz o chão engolir dezenas de pessoas apenas com seu desdém. É dele o poder de dar vida ao pó, e ao pó fazer retornar quando bem quiser. Mas tanto poder assim eleva as possibilidades de tudo não parecer tão bom quanto deveria. Não havia necessidade de mostrar tanta onipotência em um filme só. Para que tanto poder se sua derrota é previsível desde o início? Para que insistir em batalhas quando o filme deu tantos poderes a um vilão que poderia desintegrar qualquer um com o estalar dos dedos, mas não o faz? Não houve em momento algum um crescente de acontecimentos desastrosos que levasse a um confronto justificável. Nos quadrinhos, todo esse vasto poder de Apocalipse é aperfeiçoado durante suas hibernações e despertares, portanto, definitivamente, não fazia sentido ele ter tanto poder concentrado para uma primeira aparição.

A grande graça de um vilão como ele é sua inteligência e manipulação. Sua convicção de que aquilo que ele faz tem um propósito eficaz é tão grande que muitas vezes, tenha sido nos quadrinhos ou na série animada, ele conseguia fazer o espectador questionar se ele realmente tinha razão. Isso não acontece no filme. Tudo é muito banal, grosseiro e sem inteligência. É difícil aceitar que Ororo Munroe, a Tempestade, tenha visto ele decaptar pessoas em sua frente e mesmo assim convidá-lo para entrar em sua casa, ou que Psylocke tenha se unido a ele quando, nos quadrinhos, ela sistematicamente lutou contra ele como uma X-Men. Enquanto isso, Mística, uma das mais importantes vilãs, é transformada na principal heroína da história para garantir a Jennifer Lawrence a imagem de queridinha, quando deveria ser a grande oportunidade que Singer tinha nas mãos para mudá-la de lado e fazer crescer a vilania que vimos da personagem nos três primeiros filmes.

O desenvolvimento da história não convence. A forma como ele recruta seus cavaleiros; a falta de um melhor argumento para ele "dominar o mundo"; o comprometimento amador dos heróis em salvar a humanidade; até os interlúdios - como a ridícula aparição de Wolverine, apenas para novamente agradar aos fãs e dizer que ele está lá, bagunçando mais ainda a cronologia - é tudo muito incoerente e mais uma vez desrespeitoso ao legado dos heróis e daquilo que o próprio diretor já fez. Digo isso porque, no objetivo de derrotar ou exilar Apocalipse, sempre foi necessário nos quadrinhos um exército de heróis e vilões que tréguam suas rivalidades para isso, tamanho o medo que ele desperta a todos. Mas nesse filme, não. Aqui, se tiver meia dúzia comprometido pra isso, é muito, e para Singer foi suficiente. Basta lembrar do esforço hercúleo de todos para neutralizar Jean Grey em Confronto Final (The Last Stand, 2006) e comparar com a chacota de Mercúrio surrando o vilão para entenderem o que digo.

Singer parece esgotado de idéias, ou com uma visão borrada por estar mergulhado no mesmo projeto há tantos anos, numa coisa similar a um escritor que, de tanto ler o mesmo texto, não enxerga mais erros de ortografia. O novo longa nada mais é do que um punhado de coisas que não fazem sentido apenas para dizer aos fãs que lá as coisas estão, dando a falsa ilusão de qualidade por corresponder expectativas, mas não por oferecer uma narrativa coerente, consistente. Muita gente argumenta que filmes de heróis são entretenimento e que não é cinema sério, mas a questão não é essa. A questão é levar a sério e respeitar o material pelo qual ele é baseado, só isso daria crédito suficiente.

O filme parecia bem em seu caminho até o momento em que o vilão, para evitar interferências externas, aciona todos os mísseis nucleares do mundo. Naquele instante, pensei, "isso é Apocalipse". Pensei isso porque imaginei que alguns dos mísseis retornariam para atacar algumas nações e todo o conflito ter início, pois é a natureza desse vilão atacar inimigos com suas próprias armas, criando guerras, buscando a destruição em massa para a reconstrução fortalecida. Naquele instante do filme, parecia que Singer havia compreendido todo o potencial da história, mas quando todos os mísseis desarmados ficaram a deriva no espaço, o que parecia certo ficou muito errado.

Tudo é muito óbvio e fácil. Os motivos para o vilão de repente acordar e sair destruindo tudo são rasos. Sim, ele quer dominar o planeta, disso todos sabemos. Mas não há uma razão aprofundada que o motive para isso, que tente convencer e abraçar o espectador para dentro da história e suas convicções. Quem conhece o vilão dos quadrinhos já conhece sua personalidade e sua maneira de agir, mas quem está nos cinemas não, e para essas pessoas, Apocalipse é apenas um cara mau que deve ser aniquilado. E para os fãs, vê-lo nas telas foi apenas uma realização porque, apesar de tudo, Oscar Isaac fez um bom trabalho mesmo com tão pouco. Então, é por essas e outras que muitos dos críticos taxaram este como o pior filme da série, enquanto muitos fãs que apenas queriam ver o vilão nas telas ficaram indgnados com tanta negatividade e tem feito campanhas para que as pessoas ignorem essas críticas.

Não é possível ignorar. No geral houve uma construção muito mal feita dos personagens, bem como suas relações no roteiro. Já havíamos perdoado o fato dos filmes nunca terem mencionado que Vampira é filha adotiva de Mística, mas não se pode perdoar que Noturno e Mística lutem lado a lado como dois adolescentes quando, originalmente, ela é sua mãe biológica. É muita negligência em um filme só frente a tantas outras de Singer esquecidas com o tempo.

Tá, mas e se ignorássemos os quadrinhos, e se eu tivesse que comentar apenas sobre o filme em si, ele seria bom do mesmo jeito? Não. Por mais de duas horas o roteiro leva tudo a lugar algum, há até momento para Singer novamente apelar para o holocausto e nos infortúnios de Magneto no intuito de trazer falsa densidade. É só na última meia hora que o grande confronto ocorre, onde todas as cenas de suposta ação aparecem, aquelas todas que estão no trailer. Mesmo assim essas cenas nem tão boas são porque os efeitos especiais, bem como a movimentação dos atores durante sequências circenses, são tão artificiais que é difícil até mesmo compará-los com o primeiro filme da série, que custou menos da metade e ainda são visualmente melhores.

Desperdiçaram muita coisa para dar atenção às cenas em câmera lenta de Mercúrio. Enquanto em Dias a cena do herói foi um dos momentos ápices por ter pego espectadores de surpresa, foi engraçada principalmente por ser breve e sutil. Dessa vez turbinaram o repeteco, na idéia de que exagerar na reprise o deixaria melhor. E isso não é verdade. Dessa vez, ao som de Eurythmics, a sequência de Mercúrio não teve o mesmo impacto e não funcionou da mesma forma, sequer foi melhor. Ficou longe de causar a mesma hilária surpresa da primeira vez, e o exagero na tiração de sarro apenas desperdiçou tempo e dinheiro. Para realizar essa sequência, sacrificaram os outros heróis e o próprio enredo. Magneto sequer entra em combate, apenas aparece ora aqui, ora alí, erguendo objetos e mais uma vez (MAIS UMA VEZ) destruindo pontes. Mística é poupada de seus poderes frente a câmera sempre que possível, até mesmo da maquiagem. Se em 2000, Rebecca Romjin impressionou com uma maquiagem e caracterização convincentes, nesse filme, Lawrence, A Estrela, é poupada de horas e horas de cadeira, jato de tinta e próteses, tanto que sua maquiagem ao longo dos últimos três filmes apenas piorou, virando algo tão grotesco quanto amador, que seria reprovado em qualquer reality show do tema. É por esse motivo que o número de vezes que Lawrence aparece caracterizada-de-fato consegue ser menor que no filme anterior, ao ponto de ser tão insignificante quanto sua participação na história.

Talvez seja o filme mais sofrível da série, pois empobreceu essências para valorizar tudo que é descartável. Apocalipse é um personagem grandioso, um super vilão por excelência, mas sua ode pela destruição tem uma ordem de complexidade, e assim como a Saga da Fênix, abordada no terceiro filme da série, e novamente abordada aqui como se Fênix fosse parte dos poderes de Jean e não uma entidade, são histórias que não cabem em um único filme porque demandam desenvolvimento gradual e maturação. Não é à toa que nos quadrinhos essas fases não são episódios, mas sagas (ou eras), porque não é apenas sobre a vilania, mas também sobre as consequências disso no mundo que estão inseridos.

O resultado de tudo é a receptividade amena que o filme teve nos cinemas. No primeiro final de semana já arrecadou mais de US$280 milhões no mundo. Já se pagou, mas está longe de atingir o mesmo sucesso de público dos anteriores, e a tendência é cair nas próximas semanas. E pela crítica, até mesmo O Confronto Final nem parece mais ser tão ruim ou desrespeitoso quanto esse, pelo contrário, hoje vejo que Brett Ratner tentou, na medida do seu possível, ter sido mais fiel que Singer jamais foi, e que Jean Grey, possuída pela Fênix, causou muito mais medo nas sequências iniciais e finais do que Apocalipse jamais conseguiu nesse filme.

CONCLUSÃO...
Os personagens que já conhecemos se tornaram vazios, jogados aleatoriamente com relações sem qualquer propósito para bagunçar mais ainda o que já estava bagunçado, como a intromissão de Striker, que não acrescenta nada na história além de garantir a já citada e desnecessária participação de Wolverine. É um filme que sequer consegue ser empolgante, e assim como A Origem da Justiça (Dawn Of Justice, 2016), sofre no seu desenvolvimento, arrastando o espectador em qualquer coisa para um fim trivial.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

PURAMENTE AÇÃO...

★★★★★★★☆
Título: Hardcore Henry
Ano: 2015
Gênero: Ação
Classificação: 16 anos
Direção: Ilya Naishuller
Elenco: Sharlto Copley, Haley Bennett, Danila Kozlovsky, Tim Roth
País: Rússia, Estados Unidos
Duração: 96 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um homem desmemoriado acorda de um coma e em afonia, e deverá combater um criminoso com poderes caso pretenta se manter vivo e resgatar sua mulher sequestrada.

O QUE TENHO A DIZER...
Eu, como fã de video games que também sou, sempre me perguntei porque nunca fizeram um filme em primeira pessoa como os jogos Doom ou Quake, de estilo first person shoot (FPS), ou seja, a visão do jogador é a do próprio personagem. Mas nos video games o termo "shoot" se refere a "tiro", ou seja, jogos de tiro em primeira pessoa, enquanto no cinema o "shoot" tem o significado de "filmagem". Filmes em primeira pessoa viraram uma febre depois de A Bruxa de Blair (1999), mas sempre usaram o mesmo esquema da câmera na mão, um tipo de filmagem mais subjetivo e que acabava dando liberdade para narrativas paralelas.

Nunca fomos, de fato, os olhos do protagonista, ao ponto de acompanharmos unicamente sua trajetória, sem desvios de atenção ou narrativas paralelas invasivas.

Um sopro disso, desse estilo, um protótipo talvez, aconteceu na adaptação cinematográfica de Doom (2005), que a princípio havia sido promovido como um filme em FPS, mas dentre diversas decepções, a maior tenha sido uma única sequência em primeira pessoa que dura apenas 5 minutos. Anos depois, no reboot de O Espetacular Homem-Aranha (2012), o trailer também empolga ao nos colocar na visão do aranha, mas na prática essa sequência também durou apenas segundos, decepcionante de igual forma. Frustração para aqueles que esperavam uma experiência diferente, como a que Cameron Diaz insandecidamente busca em Quero Ser John Malkovich (1999), e a vontade de experimentar a vida pelos olhos de outra pessoa.

Essa produção russa-americana, dirigida pelo estreante Ilya Naishuller, impressiona desde o começo pois Hardcore Henry é um filme que segue à risca elementos narrativos de jogos de ação em primeira pessoa para sustentação técnica aos elementos visuais, pois na essência é uma ficção científica explosiva e inovadora em um estilo narrativo que parecia não ter onde mais inovar. Chega a ser tão interessante que me atrevo até a dizer que esse "quê" de novidade e ousadia seja equivalente ao que foi Matrix (1999) no passado, ou Corra, Lola, Corra (1998).

Henry (Andrei Dementiev) acorda de um coma dentro de um tanque em um laboratório. Ele está sem um braço, uma perna, sofre de amnésia e sua fala está comprometida. A cientista Estelle (Haley Bennett) explica que tudo foi consequência de um acidente que eles desconhecem, e enquanto reconstrói as partes que faltam com próteses cibernéticas, revela que os dois são casados. O laboratório sofre um ataque comandado por Akan (Danila Zozlovsky), um homem com poderes telecinéticos que precisa de Henry para dar sequência a um de seus planos. O casal consegue escapar, mas logo em seguida Estelle é capturada e Henry é salvo de mercenários por Jimmy (Sharlto Copley), um misterioso que virá a ser seu principal contato por toda a história.

Vale dizer que a história é, de fato, sem pé nem cabeça, e tudo é apenas um pretexto para Henry estar em constante fuga, bater e arrebentar. Sim, Henry é uma versão ciborgue de Jason Bourne, mas o interessante aqui é que, do início ao fim, e sem cortes aparentes (salvo algumas situações), a ação é eletrizante.

Não é um tipo de filme para quem sofre de labirintite, já é bom avisar, porque se em filmagens com câmera na mão a reclamação constante é a imagem que balança e incomoda, aqui isso é elevado a enésima potência, pois a tela é literalmente os olhos do protagonista, e vemos a enlouquecida vida de Henry através dela. E ele corre, pula, cai, rola, gira, apanha, tromba e desmaia. É fácil perder a referência no meio de tanta imagem turbulenta, mas quando tudo é visível e mais estável, a grande angular das GoPro utilizadas fazem um belo e impressionante trabalho, digno de esportistas radicais por aí.

A efetividade do filme está na condução das situações. Henry pode ser um personagem que nunca vemos (há apenas uma breve cena que parte do seu rosto aparece), e pode também ser um personagem que nunca fala. Mas nem por isso deixa de ser expressivo ao seu modo, no seu jeito de se comportar e, às vezes, gesticular. Na verdade, quem nos fará supor suas emoções são os coadjuvantes e a maneira como eles agem e reagem ao protagonista, em especial Jimmy, cuja participação é muito mais importante do que aparenta. É ele quem trará diálogo e alívio na ação non-stop, pois Sharlto Copley é carismático e naturalmente engraçado em todas as facetas que aparece, algo que a princípio parecerá confuso, mas posteriormente será uma referência bastante interessante a Avatar (2009), de James Cameron. Além de todos esses elementos que dão consistência ao filme, não podemos esquecer que quem de fato é Henry é o próprio espectador, naquilo mais próximo da sensação de uma realidade virtual que o cinema - em sua forma tradicional - já conseguiu chegar.

A violência é explícita, quebrada em alguns momentos por um humor inesperado, truculento, como em um momento em que há uma óbvia referência - e talvez até uma sátira - ao "mundo de Marlboro", uma cena tão boba e cliché, mas colocada tão bem, que é exatamente por isso que funciona. Também há situações às vezes bizarras o suficiente para tirar algumas gargalhadas, como quando Henry faz um mercenário de refém segurando-o pelo nariz. Tudo isso, junto à trilha sonora que varia entre eletrônicos e clássicos como Queen, será o tom no qual toda narrativa é conduzida de forma enérgica, empolgante, que satisfaz mesmo sem a necessidade de compreender alguma coisa. Como se não bastasse o bom e pontual uso do humor, o diretor também não se esquece de dar um momento dramático bem breve, mas bastante oportuno, ao som de Peter Wolf Crier, em uma daquelas sequências em que a música expressa sentimentos ambíguos do protagonista, e assim sentimos com ele.

Conforme a história avança, mais ágil, determinado e forte Henry se torna. Um de seus objetivos principais é se manter vivo, porque no lugar de seu coração existe um tipo de bateria que precisa ser trocado de tempo em tempo, e dependendo do tipo, oferece a ele novas habilidades. Então, juntamente com o celular, por onde Jimmy envia a Henry outros objetivos, ou Akan, o grande vilão final, tudo obviamente se mostra elementos resgatados de jogos e que Naishuller leva com muita efetividade para a trama de seu longa. Não é preciso identificar esses momentos, mas volto a dizer que, para quem é fã de jogos, irá achar tudo muito mais interessante.

Tecnicamente muito bem feito e realista, não dá pra saber em que situações é dublê, boneco ou computação gráfica. A trilha de sangue que Henry deixa pelo caminho através das mais mirabolantes formas como ele se defende e elimina seus inimigos, embora por vezes extremamente violento, impressiona no bom sentido e faz de tudo um espetáculo, tamanho realismo.

Pode ser que a história seja tão mal explicada para dar abertura a continuações, mas melhor teria sido se o roteiro tivesse reservado um momento mais sóbrio simplesmente para esclarecer um pouco mais a trama em si, ou aprofundar um pouco mais os propósitos dos personagens na história, porque desde o princípio só sabemos que Henry tem que fugir e matar, bem no esquema "corre senão atiro".

De qualquer forma, é uma daquelas produções não hollywoodianas que entretém da mesma forma e faz coisas que o próprio cinema de Hollywood não ousa fazer. Mesmo dentro do apelo comercial, não deixa de ser experimental. Poderia ter tido um desastroso resultado, mas no fim é um memorável filme que proporciona um tesão pela ação que há muito eu não sentia, e talvez a mesma sensação tenha outras pessoas que o assistirem.

CONCLUSÃO...
A história sem pé nem cabeça não é motivo para não assistir um filme de ação sem sentido tão bem feito. O que impressiona na produção é exatamente esse espetáculo visual e a dinâmica eletrizante com alívios cômicos nos momentos certos e a experiência de fazer o próprio espectador se sentir como um protagonista. Uma pena que o filme não recebeu um apoio comercial que precisava, pois a novidade que ele trás na forma narrativa o fará ser uma referência interessante no gênero.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

PIOR QUE O PRIMEIRO...

★★☆
Título: O Caçador e a Rainha do Gelo (The Huntsman: Winter's War)
Ano: 2016
Gênero: Fantasia, Aventura, Ação
Classificação: Livre
Direção: Cedric Nicolas-Troyan
Elenco: Chris Hemsworth, Jessica Chastain, Emily Blunt, Charlize Theron
País: Estados Unidos
Duração: 114 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
O Caçador agora deve cociliar seu amor com uma batalha que deverá travar contra Freya e sua irmã mais velha, Ravenna.

O QUE TENHO A DIZER...
O primeiro filme não tinha intenções de ter continuação, mas rumores começaram a surgir quando a bilheteria ultrapassou o sucesso que se esperava. A produção demorou mais do que deveria para iniciar devido ao polêmico envolvimento do diretor casado, Rupert Sanders, com a atriz principal, a insossa e sempre boquiaberta Kristen Stewart, que na época namorava Robert Pattinson. O incidente "amoroso" sujou e denegriu a popularidade dos dois, o que fez o estúdio decidir pela suas demissões.

Não que eles fossem importantes, porque sabe-se que grande parte do sucesso do primeiro filme não foi pela direção pretenciosa de Sanders, que falhou feio ao tentar seguir a mesma cartilha épica de O Senhor dos Anéis. Também não foi por Stuart, que mesmo no auge da carreira naquele momento por conta da saga Crepúsculo, era incapaz de carregar um filme nas costas. E mesmo tendo Thor como o outro protagonista... digo, Chris Hemsworth, quem realmente salvou o filme do tédio e do fracasso foi Charlize Theron.

Esse segundo filme faz as vezes de uma pré continuação quando volta alguns anos antes do filme original para contar a história da irmã mais nova da bruxa má, Freya (Emily Blunt), que era doce e cândida até perder seu filho, libertando seus poderes de gelo com o trauma, numa metáfora ao "coração gelado" e à falta de sentimento que, mais cliché, impossível. Também conta a origem do Caçador (Chris Hemsworth), que agora é chamado por Eric, e como ele perdeu sua mulher, Sara (Jessica Chastain).

Próximo ao meio do filme a história dá um salto de sete anos, dando sequência à história original. Por motivos óbvios, Branca de Neve e seu reino são apenas mencionados. Ela é uma rainha querida, mas aos poucos enlouquecia por conta dos poderes do Espelho Mágico. Por causa disso ela ordena que o objeto encantado seja levado para um lugar seguro e muito distante, mas ele é roubado no meio do caminho e Eric, O Caçador, volta em cena para descobrir o paradeiro. Esse interlúdio é tão rápido que muita gente até se esquece, porém um tanto proposital para que praticamente nos esqueçamos do primeiro longa tão rápido quanto foi lembrado.

É no Espelho que Ravenna vive adormecida em um limbo, nem morta, nem viva, e ela é libertada quando sua irmã inadvertidamente pronuncia as palavras mágicas. Mas isso só vai acontecer quase ao final, quando o espectador já está cansado de tanto que os protagonistas andaram por toda a floresta encantada para travarem apenas uma balha infantil com uns Goblins com sangue de petróleo e que adoram ouro. Aliás de Goblin nada tem porque mais parecem grandes bodes raivosos.

Talvez para evitar o acontecido do primeiro filme, tanto Charlize Theron, quanto Emily Blunt, tem participações bastante comedidas para que não corra o risco de nenhuma delas roubar o grande destaque que deveria ser o casal protagonista. O caso de Charlize é mais sério, ao todo sua participação não deve durar 20 minutos, uma decepção para quem acreditou no trailer e foi ao cinema pensando que o filme seria apenas uma oportunidade de trazê-la de volta, mas ao contrário disso, usaram-na apenas como um pretexto para trazer uma história fraca de volta. Sim, porque o um casal é sem graça e em nenhum momento extravasa aquele imenso amor interrompido pela maldade da forma como deveria para expressar a simbologia e importância de tão tenro sentimento.

Não é novidade dizer que o filme se perde, primeiro porque Emily Blunt está em um de seus piores papéis. Limitada por figurinos pesados e visivelmente desconfortáveis em uma personagem que cultiva o ódio o tempo todo, mas de nenhuma forma é mostrada como uma pessoa má, mas confusa, que o espectador não consegue entender muito bem a razão de sair conquistando tudo que é território. Por uma hora ela tenta convencer de que é a mais poderosa das rainhas do Norte, até Ravenna aparecer e mostrar quem é a verdadeira dona da maldade.

Mas dura tão pouco e é tão exaustivo o mesmo discurso megalomaníaco sobre o poder versus amor, versus o ódio e versus Branca de Neve, que aquilo de Ravenna que era de interessante, e que foi a salvação do primeiro filme, perde totalmente o encanto e sentido dessa vez. Não que ela não continue roubando a cena, mas deixa de ser algo esperado, virando apenas um manequim de ousado figurino. O que acho sempre muito desgastante é o cinema obrigar personagens obscuros à redenção, como Ravenna pedir desculpas a sua irmã, ou Freya, depois de passar o filme todo como uma opressora do amor, mandando correio deselegante para todo mundo, no fim também se redimir para conquistar a empatia do espectador no último suspiro. Claro que a redenção é importante, no caso de Freya faria total sentido caso tivesse acontecido antes, e não depois de duas horas.

A história tenta ser aceitável porque consegue inventar um sentido para uma continuação caça-níquel, embora confusa e furada porque se esquece completamente do final do filme anterior e da relação do Caçador com Branca de Neve. Não é convincente. Sem falar do mal aproveitamento do tempo, deixando tudo longo demais para pouco daquilo que gostaríamos de ter visto: um filme de ação e fantasia, recheado de malabarismos, efeitos especiais, ou uma batalha épica entre Freya e Ravenna, caso Freya tivesse tomado consciência de sua maldade mais cedo. O que vemos é uma rainha chata, gelo de plástico, fadas, bichinhos coloridos na floresta, o Caçador tentando ser engraçado, cenários pobres, reviravoltas que mais parece indecisão de roteirista e diálogos ruins, ruins e ruins o tempo todo.

É um desperdício de talento, tempo e dinheiro. E por ser um filme com um elenco predominantemente feminino sem ser um filme para o gênero feminino, também é um desperdício de oportunidade. Me fico a perguntar porque os grandes nomes presentes se propuseram a fazer algo tão descartável e desinteressante como esse, onde ninguém é aproveitado como deveria e a produção falha por nem ao menos ter um visual deslumbrante como - de certa forma - foi o primeiro filme, e assim despistar de tantos desarranjos nesta tenebrosa estréia do diretor Cedric Nicolas-Troyan. Talvez se tivessem economizado no orçamento de US$115 milhões contratando um elenco mais barato, poderiam ter feito algo mais caprichado. O resultado foi um fiasco de bilheteria que assassinou a possibilidade de qualquer outra continuação. Ainda bem!

CONCLUSÃO...
O primeiro filme, que já não era bom, consegue ser melhor que o segundo, mesmo que o segundo não conte mais com Kristen Stewart.

CONFUSÃO ALÉM DA CONTA...

★★★☆☆☆☆☆☆☆
Título: Special Correspondents
Ano: 2016
Gênero: Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Ricky Gervais
Elenco: Ricky Gervais, Eric Bana, Vera Farmiga, Kevin Pollak, America Ferrera, Raul Castillo, Kelly Macdonald
País: Estados Unidos
Duração: 100 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um jornalista de rádio e um técnico de som colocam a nação em polvorosa ao serem sequestrados durante uma cobertura jornalistica em uma área de conflito na América do Sul, o que ninguém sabe é que nada disso é verdade, apenas eles.

O QUE TENHO A DIZER...
Muitas vezes um filme tem uma proposta interessante, mas se desenvolve de maneira bastante torta. É o que acontece nesse segundo longa metragem dirigido pelo comediante britânico Ricky Gervais, conhecido pela versão européia de The Office, que foi co-criado por ele e posteriormente ganhou uma versão norteamericana, por sinal muito melhor.

Gervais gosta de lidar com situações constrangedoras naquilo chamado de "cringe humor", que é aquele tal estilo que coloca personagens em situações de fazer o espectador literalmente se encolher (cringe) na poltrona de vergonha alheia. É um estilo que voltou com muita força nos últimos 10 anos, sendo o caminho do humor que a grande maioria das produções do Netflix tem seguido.

Isso é um grande problema porque o humor constrangedor tem que ter um propósito claro, caso contrário se torna banal. Um grande exemplo disso é outra produção original da Netflix chamado The Caracters, que mesmo com 8 episódios e inúmeras esquetes em cada um, não consegue ser equivalente em momentos realmente interessantes daquilo que eles prometem ser "a nova promessa de humor" no entretenimento. E tudo isso por causa do mau uso, ou banalização, desse tipo de comédia.

É por isso que dessa vez Gervais não consegue ter o mesmo êxito do seriado que o consagrou porque aqui as sequências de constrangimento que seu personagem passa (e demais também) é redundante e viciosa.

O filme na verdade é um remake de uma produção homônima francesa de 2009, a qual tenho que dizer que desconheço. Conta a história de Frank Bonneville (Eric Bana), um prepotente jornalista metido a celebridade que trabalha em uma rádio local, famoso não por suas notícias, mas por seu carisma e seu talento de fazer virar verdade histórias sensacionalistas que ele mesmo inventa. Ele é pego de surpresa por Geoffrey (Kevin Pollak), seu editor chefe, quando é escolhido para cobrir um perigoso conflito em Quito, no Equador. É então que entra Ian Finch (Gervais), um técnico de som que acompanhará Frank para garantir a qualidade de transmissão da cobertura jornalística. Embora Ian seja um excelente profissional, sua personalidade autodepreciativa e seu sentimento de inferioridade o transformam em um grande incompetente para lidar com seu próprio cotidiano, tanto que ele mesmo diz preferir jogar video game porque a vida nos jogos é mais interessante que a dele. Soma-se a isso um casamento falido com uma mulher que não o suporta. Eleonor (Vera Farmiga), é uma oportunista que se casou porque acreditou que ele seria alguém importante. Como nunca conseguiu ser, ela agora não vê a hora de dar um pé no marido que, dentre inúmeros hobbies, coleciona miniaturas da Marvel.

Porém, a caminho do aeroporto, deprimido porque sua mulher o abandonou, Ian joga fora, por engano, o envelope contendo as passagens de avião e o dinheiro necessário para a temporada em Quito. Por conta disso, Frank tem medo de ser demitido, e Ian tem a brilhante idéia de forjar a cobertura em Quito. Eles se instalam no andar de cima do restaurante do outro lado da rua onde trabalham, e que sempre frequentam, cujos donos é um casal de mexicanos. Então todas as tramas e conflitos começam, incluindo um sequestro inventado e o perigo de um terrorista político que igualmente não existe, situações que desenvolvem um quiprocó mundial que envolve até a presidência dos Estados Unidos.

A princípio o enredo é interessante, mas tudo já começa errado logo nos primeiros minutos, quando Frank é bajulado enquanto desfila pelas ruas da cidade com imponência e determinação. É errado porque é forçado nos momentos, cliché porque não há diálogos, mas frases de efeito, e previsível porque todos os personagens são esterotipados. Desde o princípio o espectador sabe que Frank é o espertalhão que se dará mal, e Ian é o mané que se dará bem; que Frank é o cara com a melhor idéia, mas Ian é o que saberá executar; que Frank é o bonitão que traça a gostosona, e Ian é o esquisito que leva o chifre do próprio colega.

Na essência, mesmo caricatos, são personagens interessantes, principalmente Frank, graças à competência de Bana, que consegue usar um charme canastrão para proteger as inseguranças e frustrações de seu personagem. Por outro lado, Ian é o antagonista que exterioriza aquilo que o protagonista esconde, e por isso que os dois tem mais em comum do que eles sequer imaginam, por isso também que eles se atritam, mas dependendem um do outro. O problema é que Gervais não se encaixa, parecendo uma caricatura que saiu de qualquer outro filme, menos do seu próprio, e a química de ambos se torna decepcionante e incompatível. Os constantes constrangimentos pelo qual Ian se faz passar parece não ter fim, diminuindo o nível de empatia ao ponto da intolerância. O mesmo acontece com o casal vivido por America Ferrera e Raul Castillo, a burrice exagerada chega ao ponto do inaceitável e o excesso de ingenuidade que eles carregam é até ofensivo. Vera Farmiga também não tem valor algum na história, reprisando um tipo vulgar e vazio que só causa tristeza em situações cômicas que naufragam como Bateau Mouche, como no momento que se torna uma "celebridade do sequestro".

Ou seja, nada parece ter propósito ou lugar na história, nem mesmo o carisma de Kelly Macdonald salva alguma coisa. Gervais pode ter tentado brincar com essas situações da mídia e o sensacionalismo no meio do grande espetáculo, mas o resultado é uma sátira inerte, que não constrói e nem destrói, uma vítima dela mesma - assim como seus próprios persongens - ao seguir o caminho do humor óbvio para nos espremer até um caldinho de risada escorrer.

Isso sem falar em grandes erros, como Ian ser um técnico para garantir a qualidade das transmissões, mas Frank fazer todos seus depoimentos jornalisticos por telefone. Quito também não é uma aldeia, e muito menos fica entre florestas ou desertos, sem contar que não adianta destruir chip de celular se o registro da última ligação pode ser rastreado da mesma forma. Enfim... nem mesmo para ser convincente na ficção consegue, e se há alguma piada no filme... são esses absurdos.

Não dá pra entender porque a Netflix tem produzido tanta coisa ruim ultimamente, indo completamente contra a proposta que teve quando começou a produzir seu próprio conteúdo. Talvez para preencher a buraco de sua videoteca entre o lançamento de uma produção consagrada e outra. É louvável que o serviço opte por ir contra a maré de Hollywood ao dar maior liberdade criativa e independência às suas produções, como foi o consagrado Beasts Of No Nation (2016), ou o documentário What Happened, Miss Simone? (2016), que concorreu ao Oscar de Melhor Documentário. Mas não foi o que seguiu com A Espada do Destino (2016), desastrosa continuação de O Tigre e o Dragão, e agora com esse duvidoso longa de Gervais. A impressão que se tem é que tudo aquilo que não passou pelo crivo de grandes estúdios tem caído nas mesas da empresa. Isso não é ruim, mas optar por aquilo que é descartado não deve ser sinônimo de má qualidade. Hollywood mesmo solta anualmente a chamada "lista negra", lista com roteiros elogiados mas que nunca chegaram à luz da produção. Eles deveriam se atentar nessa lista mais do que no volume de propostas nas mesas ao se tratar de longas metragens, caso queiram se relevantes no cenário, oferecer oportunidades e manter o nível de qualidade.

CONCLUSÃO...
Idéia boa, porém mau executada, como muito acontece. Gervais não é um nome que se esperava para dirigir e escrever esse longa, muito menos atuar. O que se vê é apenas um festival de personagens sem propósito, que se esforçam nas câmeras com frases de efeito, mas que passam longe do humor que se espera.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

ATERRORIZANTE SEM SER ASSUSTADOR...

★★★★★★★★
Título: A Bruxa (The Witch)
Ano: 2016
Gênero: Terror, Suspense
Classificação: 16 anos
Direção: Robert Eggers
Elenco: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw
País: Estados Unidos, Reino Unido, Canada, Brasil
Duração: 92 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma família passa a ser perturbada por eventos sobrenaturais causados por uma bruxa que vive nas florestas das redondezas.

O QUE TENHO A DIZER...
Em 1630, na Nova Inglaterra, William (Ralph Ineson) é julgado por desonrar as leis da comunidade puritana que vivia, contestando o falso uso da fé de seus líderes por interesses políticos. Condenado, ele e sua família são expulsos e se exilam em um pequeno território próximo a floresta, e embora as dificuldades de subsistência estivessem difíceis, tudo parecia bem e contornável até que o recém nascido da família desaparece inexplicavelmente sob os cuidados de sua irmã mais velha, Thomasin (Anya Taylor-Joy).

Seguido por um violino desafinado e ensurdecedor que transforma a floresta dos arredores em um grande protagonista amaldiçoado (também parte da crença que nebula o imaginário coletivo), posteriormente vemos uma cena perturbadora envolvendo o sacrifício da criança pela bruxa que o raptou. É então que o filme entra direto no tema sem pedir licença.

Dessa forma começa a estréia de Robert Eggers, um norteamericano fascinado desde criança por bruxas e suas histórias, que acreditou que, para se sentir realizado com um filme sobre isso, ele mesmo teria que fazê-lo, e fazê-lo bem.

E de fato conseguiu. É um filme de horror que não compra o espectador pelo susto, mas pelas ambivalências religiosas e sociais que o roteiro desenvolve quando a ambiguidade dos personagens se conflitam. Ambiguidade esta causada pela própria fé.

Quando a família é expulsa da comunidade, a vergonha se transforma em vulnerabilidade. Atravessar os portões para o lado de fora foi como marcá-los e condená-los à maldição eterna dentro do escopo religioso, afinal, contrariar uma comunidade religiosa é perigoso, e nada mais doloroso do que punir com a excomunhão, ou exílio.

Mas, mesmo o filme tendo um desenvolvimento que leve a crer de forma simplista que tudo seja uma grande punição divina em resultado à traição religiosa, na verdade os acontecimentos mostram que nem mesmo a soberana fé dos personagens conseguem impedí-los de tomarem decisões equivocadas que influenciarão diretamente na perpetuação de erros ou de falsos julgamentos, e que o mal de fato não vem do céu ou do inferno, mas de decisões próprias e alheias.

A história desempenha um papel tão interessante sobre isso que até o portavoz do Templo Satânico se pronunciou sobre ela, dizendo que "o filme sinaliza uma revolta contra os vestígios tiranos de fanáticas superstições", das quais muitas delas foram criadas pelos próprios protestantes que condenaram, torturaram e executaram aqueles acusados de bruxaria, e que de forma similar e igualmente tirana foi feita pelos Católicos durante a Inquisição por séculos antes.

(A ponto de esclarecimento, o Templo Satânico é uma influente organização novaiorquina ateísta e humanista. Ao contrário do que seu nome aparenta, seu ativismo político prega o igualitarismo, a justiça social e o separatismo entre igreja e Estado, comumente usando sátiras religiosas para argumentar suas críticas)

É um longa baseado historicamente, e enquanto esses mitos se constróem, a extrema devoção e o fanatismo religioso estragula a família protagonista, explorando os limites do controle e chegando aos extremos do incontrolável, onde eles mesmos se sabotam em detrimento da fé, e se algo de errado acontece é porque a fé e os esforços ainda não são suficientes.

O diretor usa e abusa de referências, seja em contos como João e Maria ou Chapeuzinho Vermelho; nos ícones mais conhecidos da cultura popular como lobos, maçãs, cabanas e florestas; ou na imagem cristã das diferentes formas do mal, como o bode, o corvo e a lebre. Ele também não se esquece do patriarcado e da representação da força da figura paterna nessa estrutura familiar e que William falha em vários aspectos justamente por ter concentrada em suas mãos todos os poderes de decisões.

Segundo o próprio diretor e roteirista, "a bruxa é uma figura que incorporou os medos dos homens e suas fantasias sobre elas, sejam boas ou ruins, além dos medos das mulheres sobre ambivalência materna em uma sociedade dominada pelo sexo masculino". Portanto, o filme também tem uma mensagem feminista em seu contexto. Isso não o torna feminista, mas considera o empoderamento da mulher e suas expressões culturais através dessas alegorias, onde o fim da personagem principal poderá significar tanto sua libertação de um mundo social e religiosamente doutrinado, quanto, para os mais fatalistas, sua saída de um pratiarcado para outro.

Logo, será um erro para aqueles que assistirem acreditando ser uma obra de sustos contínuos como a Bruxa de Blair (The Blair Witch, 1999) ou algo mais tradicional, mesmo se por alguns momentos o enredo levar a alguma similaridade pelo mito em comum.

Eggers, como diretor, consegue ser acertivo do início ao fim, sendo muito mais sugestivo do que explícito (mesmo o explícito existindo), criando um ambiente assustador que merge com perfeição as fantasias e metáforas, tirando do elenco o melhor de si, sem excessões (impressionantes as peformances dos atores mirins, que não ficam atrás de Linda Blair em O Exorcista), e a fotografia fria e acinzentada intensifica essa atmosfera estranha e incômoda.

Como roteirista, consegue ser linear e atencioso. Coerente. Não há um momento que a história se perca ou tente dar mais atenção a um ou outro fato pra intensificar arco dramático, tudo tem seu propósito para aparecer e acontecer. Ele na verdade nem se esforça para nos fazer tem empatia pelos personagens, e é isso que beneficia o tom realista, pois eles são falhos às suas fraquezas.

Frente a tudo isso, conforme o filme se aproxima do final, alguns acontecimentos podem parecer um pouco fora do tom, mas se considerarmos que ele desenvolveu tudo baseado entre a dúvida do que é fantasia e realidade, do exercício da fé até a sua perda, e que as decisões mais extremas que tomamos são sempre aquelas que contrariam essa tal fé, então é igualmente coerente. Sim, a Bruxa existe, mas até que ponto tudo é consequência dela, ou até que ponto tudo é parte do delírio coletivo resultante dos trauma que a família se expôs?

Não há dúvidas de que A Bruxa é um diferenciado exercício narrativo em Hollywood e no gênero. Eggers contar uma história de maneira clássica, ao mesmo tempo que vai contra a maré das receitas habituais do horror de susto fácil. Assim como os contos clássicos em si faziam, trazendo embutido morais com amplas e diferentes interpretações, o filme se destaca no grandioso feito de fazer o mesmo. Não é à toa que seu subtítulo original traz providencialmente a palavra "conto popular", pois não apenas pode ser consumido por qualquer um, como qualquer um terá abertura para interpretar à sua forma.

OBS: O filme também foi produzido por dois brasileiros, Rodrigo Teixeira e Lourenço Sant'Anna.

CONCLUSÃO...
Para aqueles que captarem toda essa morfologia (ou parte dela), o filme será muito mais do que algo aterrorizante e que foge da simplicidade do susto pelo susto. Independente por excelência, vem com uma proposta bastante diferenciada no gênero e que o transforma em algo consistente, sem deixar de cumprir o que promete. 

sexta-feira, 8 de abril de 2016

CONTINUAÇÃO SEM SER SEQUÊNCIA...

★★★★★★★
Título: Rua Cloverfield, 10 (10 Cloverfield Lane)
Ano: 2016
Gênero: Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Dan Trachtenberg
Elenco: John Goodman, Mary Elizabeth Winstead, John Gallagher Jr.
País: Estados Unidos
Duração: 103 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Ao deixar sua casa e seu marido para trás, uma mulher sofre um acidente de carro e acorda em um abrigo subterrâneo enquanto o mundo enfrenta uma ameaça desconhecida.

O QUE TENHO A DIZER...
Em 2008, J.J. Abrams estava em ascensão na sua carreira de diretor de cinema e sua produtora, a Bad Robot, já muito bem estabelecida, trabalhava de vento em popa. E então ele produziu Cloverfield, que embarcou na moda das filmagens em primeira pessoa e deixou muita gente curiosa porque o marketing do filme pouco revelava algo. O filme foi um sucesso, embora pouca gente se lembre dele hoje.

Por conta do sucesso, desde seu lançamento, muito se falou de uma continuação. Abrams chegou a afirmar na época em que o filme ainda estava em cartaz que até já havia idéia para um próximo filme, mas que precisava ser maturada, pois a vontade era fazer alguma sequência que abordasse outros personagens dentro daqueles acontecimentos.

E agora, oito anos depois, é quando notamos que aquela idéia inicial realmente se maturou e se transformou nesse filme que de fato não é uma sequência, mas um fato paralelo que acontece dentro do mesmo universo e dos mesmos acontecimento do primeiro filme.

Não se pode ignorar que seja uma idéia interessante fugir da forma tradicional como a qual o cinema produz suas franquias, mas que poucos ousam fazer. Abrams agora está entre eles, e tal qual o primeiro filme, essa pseudo-continuação também foi entregue a um novato, o estreante Dan Trachtenberg, o qual, diga-se de passagem, consegue manter um nível de suspense que só vamos sentir quando o filme acaba e o corpo relaxa, de tão gradativa e pouco perceptível que é feita essa construção.

A história começa com Michelle (Mary Elizabeth Winstead) indo embora de casa e deixando seu marido para trás, mas no meio do caminho sofre um acidente de carro e acorda em um abrigo subterrâneo construído por Howard (John Goodman), que afirma que o mundo lá fora sofreu ataques biológicos que deixaram o ar tóxico.

Falar muito sobre a história é estragar o pouco que ela tem. Um pouco que funciona exatamente por ser simples, mas bem desenvolvida, e não fará a mínima diferença ter ou não assistido ao primeiro filme. Quer dizer... faz uma pequena diferença, tão mínima que pode ser ignorada.

Abrams tem uma mania de manter seus projetos sigilosos, e divulgá-los seguindo sempre esse mesmo esquema. Foi assim com o marketing de Cloverfield, e nesse filme não seria diferente porque todo o seu êxito é por conta disso.

Tanto o trailer, quanto as resenhas que surgiram depois, pouco revelaram da história, dos acontecimentos, ou dos personagens. É interessante que as pessoas realmente o assistam sabendo muito pouco, pois a experiência dele é justamente não saber do que se trata e o que sucede. Mesmo porque o roteiro não apenas constrói diversas dúvidas como também deixa muitas pontas soltas para que o próprio espectador interprete à sua forma e conforme sua experiência.

É garantido alguns tensos momentos, excepcionalmente pelas atuações. Goodman realmente é o casco de todo o filme, e Winstead também não fica para trás. Há um terceiro personagem pouco aproveitado que poderia facilmente ter sido riscado do roteiro. Mas no geral o desenvolvimento é da forma como se espera em um filme do gênero, e não deixa de ser previsível mesmo com tanto mistério. O bom é que os acontecimentos são bem divididos em um tempo de duração bastante aceitável, e mesmo que o final seja um pouco insosso, o grande trunfo é justamente não ser cansativo, mantendo tudo dentro de um ritmo ágil, sem tempo para ser disperso.

Foge do comum e mostra que continuações podem ter estruturas narrativas distintas, baixo orçamento e um pequeno espaço com bons atores. Claro, uma história que funcione, um bom diretor e um produtor que saiba como fazer espetáculo com pequenas coisas. E Abrams já provou várias vezes que sabe fazer isso da mesma forma como Spielberg, seu grande ídolo, já fez no passado.

CONCLUSÃO...
Mesmo sendo uma continuação, não é uma continuação. Ou é? Ou seja quase isso? O que é? Não se sabe. E é bom assim não saber, pois o filme brinca com dúvidas. Independente do que ele seja ou não seja, se goste ou não goste, Rua Cloverfield é uma idéia maturada e bem executada, que segue a linha da idéia original que o produtor Abrams tinha para possíveis continuações. Um fato paralelo dentro do primeiro filme, e por uma perspectiva bastante diferente.

segunda-feira, 28 de março de 2016

A PRESSA É O INIMIGO...

★★★★★
Título: Batman vs Superman - A Origem da Justiça (Batman vs Superman)
Ano: 2016
Gênero: Super Herói, Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Zack Snyder
Elenco: Henry Cavill, Ben Affleck, Jesse Eisenberg, Amy Adams, Gal Gadot, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Diane Lane
País: Estados Unidos
Duração: 151 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Batman e Superman duvidam das reais intenções heróicas um do outro, surgindo uma inimizade alimentada por um plano de Lex Luthor para que um conflito iminente entre eles aconteça.

O QUE TENHO A DIZER...
A Warner, detentora dos direitos da DC Comics, pode até ter sido um tanto que pioneira nas adaptações de quadrinhos, principalmente quando Tim Burton foi responsável por Batman, entre 1989 e 1991. Digam o que quiserem, sejam fãs ou não de suas adaptações, Burton mostrou que havia possibilidade de adaptar esses universos de outras formas sem descaracterizá-los. Tanto que aquilo que ele criou foi - e ainda é - referência. Basta assistir a trilogia de Christopher Nolan para ter a certeza absoluta disso. Os elementos básicos do ponto de vista criativo de Burton ainda estão lá, confirmados pelo próprio Nolan que afirmou na época que não tinha intenções de esquecer do legado deixado pelo diretor.

O grande problema é que a Warner nunca soube lidar com seus heróis no cinema, e coube à Marvel desbravar esse território com muita esperteza e coerência. A empresa não apenas está há 16 anos adaptando seus próprios heróis com sucesso como criou um novo gênero. Tal qual o estilo Faroeste se tornou um gênero ao longo das décadas, assim se tornaram os filmes de Super-Herois graças à Marvel. E quando essa reprodução assexuada de gêneros acontece, é sinal de que vieram para ficar em definitivo.

O que a Marvel fez foi algo realmente inédito. Criou um universo infinito e que se auto renova tal como seu universo nos quadrinhos. Mais do que isso, inventou uma fórmula, que vem sido repetida com sucesso há aproximadamente uma década, já mostrando sinais de cansaço, mas que ainda funciona.

Apenas os filmes baseados nos heróis da Marvel já arrecadaram no mundo, em uma conta bem rápida, em torno de US$15 bilhões ao longo desses 16 anos. O que é mais que a soma de vários títulos de diversos estúdios por aí no mesmo período.

A intenção de levar A Liga da Justiça para o cinema sempre existiu e os fãs sempre clamaram por isso, mas o milhonário orçamento (que entre 2000 e 2010 beirava os US$350 milhões), assustava e inviava o projeto. Foi com a ousadia da Marvel na reunião de heróis em Os Vingadores (The Avengers, 2012) que a Warner finalmente sacou que isso era possível, e então retomaram a idéia para abocanhar sua parte em um mercado tão lucrativo.

O diferencial da Marvel é que ela, por quase uma década, amaciou o mercado em doses homeopáticas até Os Vingadores se tornar uma trilogia em quatro partes (é isso mesmo), coisa que a Warner não fez em nenhum momento. E como que a correr contra o tempo e compensar a falta de estratégia, resolveu fazer de A Origem da Justiça o ponto de partida de sua empreitada, tentando (reforço: tentando) seguir os mesmos passos e, quiçá, reinventar a fórmula da rival.

Embora Batman sempre seja um sucesso até mesmo quando seja ruim (como as tristes adaptações de Joel Schumacher nos anos 90), o mesmo não se diz mais sobre Superman, um herói alienígena simples que vive a favor da humanidade, sem grandes complexidades, iconizado, solidificado e enferrujado no tempo. Por isso que a adaptação de Bryan Singer não foi mais do que um boo-hoo nostálgico, enquanto o reboot desnecessário de Zack Snyder foi uma tentativa fracassada de obscurecer e dramatizar o herói em um festival de exageros que cometeu o erro mais clássico de todos, e que Burton, lá atrás, já ensinava não fazer: descaracterizar o personagem.

Aliás, é um tanto esquisita a escolha de Zack Snyder para continuar a franquia, já que O Homem de Aço (Man Of Steel, 2013) não recebeu críticas muito positivas, tal qual os filmes anteriores do diretor. Talvez tenha sido a pressa do estúdio em desenvolver esse universo da DC no cinema, ou a falta de disponibilidade de algum diretor mais competente já que, apesar de todos os defeitos de Snyder, seus filmes são visualmente marcantes, como foi 300 (2006) - talvez seu único trabalho digno de nota.

E esse é o grande problema do diretor, pois ele consegue engrandecer personagens em imagens, usando filtros, angulações de câmera, enquadramentos e efeitos que os enaltecem em fotografias bastante cartoonizadas, como quadrinhos pintados por Alex Ross, mas ao mesmo tempo os personagens sofrem nos desenvolvimentos exagerados para coisas muito simples, resultando tudo numa densidade tão profunda quanto um pires.

Isso tudo é notório naquele que foi seu mais ambicioso projeto até hoje, o filme Sucker Punch (2011), visualmente deslumbrante, mas vazio, um exemplar daquilo que se deve e ao mesmo tempo não se deve fazer no cinema fantasioso.

E o tom de A Origem da Justiça é o mesmo. Snyder engrandece os heróis através desse surrealismo das imagens, transformando em titãs os dois personagens principais, além de fazer a participação de Mulher Maravilha (Gal Gadot) ser distanciada de qualquer cafonice de outrora, fazendo valer a interminável espera por sua aparição nos cinemas. Mas isso tudo dura muito pouco e decepciona no resultado final.

A história é uma continuação direta de Homem de Aço, tanto que na sequência inicial revemos a destruição de Metropolis durante a batalha de Superman (Henry Cavill) com o General Zod através do ponto de vista de Bruce Wayne (Ben Affleck), e só vai entender dessa forma quem assistiu ao filme anterior. Para quem não assistiu, a cena será como algo aleatório e sem sentido. A partir daí alguns meses se passam, e Wayne tenta responsabilizar Superman pelo grande massacre civil ocorrido naquele evento. Ao mesmo tempo, Superman considera Batman um mercenário perigoso pela forma tirana com que lida com as coisas, e através de sua identidade de Clark Kent, tanta expô-lo dessa forma usando o Planeta Diário para isso. Enquanto isso, Lex Luthor (Jesse Eisenberg) precisa tirar Superman de seu caminho, aquecendo essa rivalidade ao maquinar um plano "diabólico" para que Batman se volte contra Superman, e vice-versa.

O enredo é até interessante, e se teve algo realmente bom em toda a história foi o ponto de partida de tudo porque os roteiristas utilizaram as críticas que O Homem de Aço recebeu para favorecer a trama. Na época os críticos pelo mundo levantaram a questão de que, já que Superman é um herói e sua missão é salvar vidas, foi bastante incoerente o filme fazê-lo destruir mais da metade da cidade e matar mais gente do que salvar. Foi um grande erro na história e na personalidade do herói simplesmente para favorecer a ação barata e o espetáculo de efeitos visuais que transformou o filme em um disaster movie por excelência. Então, ponto positivo para o roteiro que usou a própria realidade como referência e transformou essas críticas em parte dos questionamentos de Wayne sobre a conduta de Superman.

Só que, se por um lado o começo parecia interessante e promissor, o desenvolvimento de tudo se mostra desastroso. Há uma incoerência de situações e cronologia que não convencem, a começar pela visível diferença de idade entre os personagens. Luthor é mais jovem que Superman, e Batman é mais velho que todos. A impressão que se tem é que tiraram Luthor do seriado Smallville (2001-2011) e o velho Batman de sua versão da série em quadrinhos O Reino do Amanhã (Kingdom Come, 1996), no qual está 20 anos mais velho e sem credibilidade.

Eisenberg dá uma caricatura a Luthor que mais irrita do que impressiona, fazendo do personagem um repeteco empobrecido do Coringa, longe, mas muito longe da diversão que era a versão canastrona de Gene Hackman, ou até mesmo na versão mais sisuda de Kevin Spacey. E falando em distância, o que dizer sobre Cavill? Tão longe da candura de Christopher Reeve, ou tão longe da doçura de Brandon Routh. A personalidade agora introspectiva e cascuda é coerente com algumas fases negras do herói nos quadrinhos e na sua crescente perda de esperança nos humanos, mas no cinema aparenta descaracterizado porque em nenhum momento houve uma construção que levasse a esse ponto com consistência.

Triste também é Lois Lane (Amy Adams), que assim como no filme anterior, entra e sai correndo de cena sem motivos. E por mais que Martha Kent (Diane Lane) tenha uma certa importância na conclusão da história, ela na verdade só aparece para literalmente nos lembrar a todo instante que é mãe do herói e nada mais. Duas atrizes desperdiçadas, que poderiam ter sido poupadas tanto quanto Jeremy Irons no mais insosso Alfred que existe, ou Holly Hunter como a Senadora Finch, que poderia ter sido um excelente acréscimo em toda a franquia como o único grande ponto mediador entre humanos e meta-humanos.

Por incrível que pareça, Ben Affleck é o único que consegue atuar no meio de tudo, o que prova que seus cabelos brancos valeram para algo em uma carreira de ator que mostrou-se melhor na direção. Anos luz distante da interpretação constrangedora de Demolidor (Daredevil, 2003), aquilo que parecia um equívoco supreendentemente não atrapalha. As cenas de batalha de seu personagem são as épicas batalhas de Batman por excelência, cheia de malabarismos, arsenais tecnológicos e porrada. Muita porrada bruta e seca de um Batman velho e impaciente, que deixou a tática de lado para encarar tudo de frente. Se o filme fosse apenas dele - o que quase é - teria sido muito mais empolgante.

E são em sequências como essa que vale a pena assisti-lo, mas tem que ter muita paciência. Snyder arrasta a história desnecessariamente em um filme que consegue ser mais longo que Os Vingadores em sequências de dar bocejo em gente grande. A diferença é que Os Vingadores tem todo um background que fortalece sua história, o que não acontece aqui. Ao contrário, o excesso de informação, de tramas e subtramas é justamente para, como dito acima, compensar o que não se fez até hoje.

Então, o filme parte do errôneo princípio de que nada antes dele aconteceu e que nenhum dos personagens já tiveram suas histórias contadas inúmeras vezes antes. Fica difícil nos convencermos de que eles não conseguem compreender seus métodos de justiça e que ignoram completamente seus atos heróicos pregressos. O roteiro poderia ter sido mais sucinto e usado Lex Luthor de uma forma mais inteligente para gerar uma conspiração mais convincente, menos forçada e artificial como é. Mas ao invés disso trata o espectador até com certa ignorância, pois a maneira como os heróis se tornam inimigos é feita de forma tão banal como se Gothan City e Metropolis fossem dois mundos completamente diferentes e distantes, e que nenhum deles nunca tivesse ouvido falar um do outro ou de suas intenções. Se a rivalidade tivesse surgido por uma coisa mais simples ou cliché como inveja pela popularidade ou pela importância de algum deles, acredite... teria sido muito mais interessante.

Mas mais banal ainda é a hora errada em que certas verdades são reveladas justamente por quem fez segredo sobre elas durante toda a trama capenga, estragando em definitivo o grande efeito surpresa do tão esperado duelo. É frustrante e simplório como magicamente a intriga se resolve depois de Batman passar mais de uma hora sangrando os olhos para destruir um arqui-inimigo que, na verdade, nem ele sabe de verdade porque é. E então, pra compensar esse grande e horroroso desfecho, o vilão Doomsday (que mais parece um troll burro do Senhor dos Anéis) surge em sequências de computação gráfica bem ruins, onde insistem na idéia de que para um monstro ser assustador ele tem que gritar e soltar o bafo fedorento contra a câmera. Tudo muito no escuro para tentar disfarçar defeitos indisfarçáveis, entre um e outro momento dramático profundamente dispensáveis. Aliás, Snyder não se cansa do escuro e dos filtros borrados, coisas que ficam muito piores no 3D.

O roteiro foi estranhamente escrito por Chris Terrio e David Goyer. Estranhamente porque Terrio foi o responsável pelo roteiro de Argo (2012), por sinal dirigido por Affleck, um filme simples com um desenvolvimento empolgante e comedido, elogiado exatamente por isso. E Goyer foi responsável pela trilogia O Cavaleiro das Trevas, de Nolan, elogiados justamente pela trama bem costurada e desenvolvida sem rebosteios. Então é espantoso ver dois roteiristas talentosos e com qualidades tão interessantes oferecerem algo tão desorientado e redigido às pressas, o que prova novamente que o diretor simplesmente deu qualquer atenção a isso.

Não é à toa que a crítica não tem sido favorável, da mesma forma como ele não foi o estrondoso sucesso que se esperava em seu final de semana de estréia. Claro que foi uma estréia boa (US$170 milhões), mas não ultrapassou a de Os Vingadores (US$207 milhões). Portanto acredita-se que o interesse pelo filme caia como uma pedra no oceano nas próximas semanas, e que chegar a US$1 bilhão se torne uma missão custosa, já que é essa a cifra que garantirá as próximas continuações.

O que algumas pessoas me perguntaram, e foi o que perguntei quando pessoas que eu conheço assistiram antes de mim, é se vale a pena e é legal. Vale a pena e é legal, não por todo o produto em si, mas pela materialização da idéia. Ver os três heróis juntos, agigantados na megalomania visual de Snyder, mesmo que por um breve momento, parece valer o preço do ingresso. Mas a história, não se pode negar, por mais que os fãs argumentem nos fóruns por aí, é banal e até ridícula.

Como um todo, vai agradar os fãs mais desesperados e aqueles que pouco se importam com o resto além da ação - e que também há pouco, diga-se de passagem - embora é possível ver que muitos deles sairam desapontados do cinema. A grande preocupação é se a próxima sequência, já entitulada como A Liga da Justiça, cairá nos mesmos problemas, já que insistirão do tenebroso erro de manter Snyder na direção, diretor que provou por A + B que, fora o seu próprio ego, não tem talento suficiente para sustentar outras coisas grandiosas.

CONCLUSÃO...
Aparentemente não é um tipo de filme para ser inteligente, mas o que diferencia as histórias da DC da Marvel é justamente o fato das histórias da DC serem mais densas e adultas, com tramas mais elaboradas, sem muitos alívios cômicos e que fogem do habitual sem deixar de entreter como se deve. Baseando-se nos roteiristas, poderia ter tido o desenvolvimento simples de Argo, com uma trama melhor elaborada como foi O Cavaleiro das Trevas, mas ao invés desse desenvolvimento simples, focado e efetivo, é um filme disperso, cheio de reviravoltas desnecessárias para dar a falsa impressão de grandiosidade que ele de fato não tem. E se existe um verdadeiro inimigo em tudo isso, ele se chama "pressa", algo que a Marvel não teve e, por isso, se manterá no pódio por mais alguns bons anos.
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