Translate

Mostrando postagens com marcador Gal Gadot. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gal Gadot. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

DEU LIGA...

★★★★★★★☆
Título: Liga da Justiça (Justice League)
Ano: 2017
Gênero: Ação, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Zack Snyder, Joss Whedon
Elenco: Ben Affleck, Gal Gadot, Jason Momoa, Ezra Miller, Ray Fisher, Henry Cavill, Amy Adams, Diane Lane
País: Estados Unidos, Reino Unido, Canadá
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Inspirado pela altruísta morte de Superman, Batman busca ajuda de Mulher Maravilha para recrutar outros aliados poderosos e assim terem forças o suficiente para combater uma grande ameaça que está por vir.

O QUE TENHO A DIZER...
Em 2000, quando Brian Singer lançou o primeiro X-Men, cinéfilos visionários já sabiam que um novo gênero havia sido criado, e que os quadrinhos revolucionariam para sempre o futuro estagnado do cinema de ação. Hollywood tem se aproveitado disso incansavelmente, tanto que tem sido o gênero mais rentável desde então. Só as produções da Marvel já tiveram uma bilheteria que facilmente extrapola os US$20 bilhões quando se faz uma conta bem por cima, sequer sendo necessário analisar os dados contábeis no Box Office Mojo.

Quase 20 anos depois, muita pedra rolou, e enquanto a comissão de frente da Marvel foi abrindo alas, criando tendências e fórmulas, a Warner/DC mofava num mundo paralelo, acreditando que a coexistência ente os quadrinhos e o cinema seria algo passageiro. Por essa razão, preferiu permanecer na zona de conforto explorando apenas aquilo que sempre lhe deu lucro: o mundo obscuro de Batman. Os anos foram passando, a Marvel se divertia horrores e ria à toa, e o gênero, ao invés de decair, apenas se fortalecia. Houve uma tentativa aqui e alí da DC com o nostálgico Superman - O Retorno (2006), com o desastroso Lanterna Verde (2011) e o dispensável Homem de Aço (2013), e do nada, resolveu acordar para a vida e pegar este último como o ponto de partida daquilo que ela veio a chamar de Universo Expandido.

A pressa é a inimiga da perfeição, já dizia o ditado. O que demorou 20 anos para a Marvel aperfeiçoar, a Warner/DC resolveu fazer em 3. E o pior, sem qualquer pré-requisito. Ao invés de se aproveitar das experiências da rival, ela quis se provar única, pegando um ou outro elemento irrelevante da "concorrência" e transformando todo o resto para dizer que havia uma assinatura particular.

Funcionou? Não.

Os filmes estão aí para provar. Se Homem de Aço já começou todo errado, Batman vs. Superman foi um equívoco e Esquadrão Suicida foi tudo aquilo que Esquadrão Suicida não deveria ter sido, sobrou a Mulher Maravilha a salvação. O filme de Patty Jenkins conseguiu ser o momento de grande redenção da DC, conquistada com merecimento. E até o momento, não foi Batman, nem Superman, quem salvou o Universo Expandido da DC, mas a heroína grega criada por William Moulton Marston.

É compreensível que exista uma rincha entre os fãs da Marvel e os da DC. O mercado sempre precisou disso desde quando a rivalidade começou lá nos quadrinhos, nas décadas de 60, 70 e posteriores. Sabemos também que, enquanto os fãs se matam, os dois grandes selos jantam e brindam juntos, gargalhando de uma situação que o próprio mercado cria espontaneamente, caso contrário as empresas nunca teriam feito os famosos crossovers, como as mini-séries em quadrinhos DC vs. Marvel e Amálgama, ambas da década de 90.

Mas no cinema a coisa tomou proporções mais sérias, e a polaridade se tornou quase política. Por um lado temos os fãs da Warner/DC que não aceitam o constante sucesso da Disney/Marvel, argumentando pelos quatro cantos que a crítica mundial foi comprada (???) para falar mal a qualquer custo sobre os filmes da Warner/DC e deliberadamente denegrir sua imagem. Por outro lado temos os fãs da Marvel, que tiram sarro do fracasso alheio e contribuem para a anti-propaganda.

A verdade é que os dois lados estão errados. Há espaço para todos, mas não há espaço para aquilo que é evidentemente mal feito e mal planejado. Os filmes da Marvel podem ter entrado numa fórmula já cansada, ter excesso de piadas infantis e um irritante bom humor como os últimos filmes tem sido, mas a ação, o entretenimento e as conexões com todo seu universo funcionam. A Warner/DC ainda engatinha, e a cada passo para frente, um novo filme a faz dar dois para trás porque não há uma estrutura sólida, uma base concreta suficiente como a Marvel demorou anos para lapidar. Do Homem de Aço para o dia, a DC resolveu finalmente criar um universo cinematográfico com 15 anos de atraso que poderia dar certo, já que nos games e na TV esse universo já existe, é sólido, e funciona. Não está funcionando não porque chegou atrasada, mas porque existe uma ânsia obrigatória de sucesso e um foco ambicioso em cifras que a está fazendo atropelar processos, trocando os pés pelas mãos.

Um ou outro fã extremista pode querer justificar de mil maneiras que Batman vs. Superman e Esquadrão Suicida foram propositalmente subestimados. Não importa o que se diga, é fato que são dois filmes que fazem qualquer coisa, menos agregar a idéia de que são parte de um mesmo ecossistema.

Liga da Justiça tinha tudo para dar errado. Absolutamente tudo. A começar por manter Zack Snyder na direção. Ele não havia entregado um bom trabalho nas duas tentativas anteriores com Homem de Aço e Batman vs. Superman, e mantê-lo era burrice desde o princípio.

Ruim com Snyder, pior ficaria sem ele, e assim foi quando o diretor se afastou do filme no fim da produção depois do suicídio de sua filha, em Março deste ano. É fato que imprevistos durante uma produção tem a tendência de desandar como claras em neve. A sorte foi que Joss Whedon havia recentemente fechado contrato com a Warner para dirigir Batgirl, e como sua disponibilidade pelo estúdio estava acessível, ele aceitou o convite/desafio de dar continuidade ao trabalho de Snyder. Ele não leva créditos como diretor, mas leva como roteirista.

Whedon pegou o filme quase pronto, mas isso não o impediu de mudar certas coisas, convocando novamente os atores para filmagens extras, mesmo com Gal Gadot grávida, e Henry Cavill com um bigode que não podia ser raspado por exigências contratuais de outro longa que estava filmando. Tanto a barriga de Gal quanto o bigode de Cavill foram removidos digitalmente nas cenas incluídas tardiamente. A barriga não foi um problema, mas a boca digitalmente reconstruída de Cavill gerou piadas e polêmicas ao ponto de argumentarem que teria saído mais barato pagar a multa contratual do que fazer um trabalho caro e porco como o que foi feito.

Mas a verdade é que os pitacos de Whedon foram importantíssimos para o resultado final. As cenas de ação se mostram mais fluidas e menos megalomaníacas, e as filmagens extras trouxeram leveza e humanidade aos personagens, elementos que sempre faltaram no outro diretor. Mesmo com boa parte do trabalho já feito por Snyder, as mãos de Whedon fizeram mágica na pós-produção, evitando ao máximo a saturação e o carregamento de filtros, além de uma edição que faz milagres e um resultado acima da média para quem esperava o pior.

Whedon também foi o responsável por trazer de volta o compositor Danny Elfman ao mundo DC, compositor responsável pela icônica trilha sonora de Batman (1989) e Batman: O Retorno (1992), ambos de Tim Burton. Não é à toa que uma deliciosa sensação nostálgica toma conta quando notas dessa clássica trilha sonora ecoa na sala do cinema enquanto Batman (Ben Affleck) se aventura pelas ruas de Gotham. Sem dúvida foi uma referência direta e muito importante de que o legado de Tim Burton precisava ser mantido, mesmo que distante. Uma pena que o filme acabou não dando espaço para o brilhantismo de Elfman enaltecer a atmosfera heróica como deveria, sua participação bastante comedida acaba por dar muito mais espaço a efeitos sonoros que tentam tirar a atenção de grandes defeitos do filme.

Sim, Liga da Justiça não consegue se abster de defeitos, o que não deveria ter acontecido para um projeto que existe desde a década de 90. Começando pelo excesso de cenas em computação gráfica até mesmo quando desnecessário. O grande vilão da trama, o Lobo da Estepe, não precisava ser um personagem digital. A dublagem de Ciaran Hinds é cavernosa e expressiva o suficiente para dar medo apenas em ouvir o seu suspiro, mas o personagem perde o impacto com expressões faciais bastante artificiais e uma falta de sincronia tão ruim que chega a parecer até piada. Outra coisa é que, embora Mulher Maravilha (Gal Gadot) tenha uma entrada triunfal logo no ínicio do longa junto a sua já característica trilha sonora, mantendo a mesma brutalidade acrobática em táticas ofensivas e defensivas que tanto chamaram atenção no seu filme solo, seria perspicaz que, depois do sucesso dele, muita da atenção fosse voltada mais a ela do que nos demais. Só que é possível notar que o roteiro tentar ofuscá-la a todo custo, não para manter um equilíbrio igualitário entre os heróis, mas para tentar enfiar "guela abaixo" no espectador uma predileção a Batman e Superman que não existe mais. Isso contraria a preferência natural do público e do próprio desenvolvimento da história, já que quanto mais as ameaças aumentam, mais inútil Batman fica, e quando Superman entra em cena é porque o filme precisa acabar, ignorando completamente que os poderes de Mulher Maravilha são os mais equivalentes aos de Superman que o universo DC tem, mas que o filme insiste em colocá-la em situações sempre bastante vulneráveis para, como dito, impedir que ela roube a cena. O que é impossível, diga-se de passagem, porque ela as rouba mesmo assim tanto quanto fez em Batman vs. Superman, e o interesse pelo seu segundo filme solo só aumentou depois disso.

Se a Liga for analisada como ela de fato se propõe, ter colocado um personagem como Lobo da Estepe como o primeiro grande vilão da franquia soa um pouco inadequado. A Liga na verdade foi montada para que as habilidades de cada respectivo herói fosse utilizada para missões específicas frente às inúmeras ameaças e diferentes vilões que foram brotando no universo DC, algo que não é o foco aqui, além de uma grande reunião de pessoas poderosas que batalham aleatoriamente com o que aparecer na frente. A escolha de um primeiro vilão, ou de uma primeira grande ameaça, deveria ter sido melhor feita para que houvesse uma progressão convincente daqui pra frente. Não foi dado um sentimento de continuidade, como acontece em Os Vingadores, e se no segundo filme aparecer um outro vilão que tem como objetivo novamente destruir o mundo, apenas teremos mais do mesmo e a sensação de deja vu que todo filme da Marvel tem dado ultimamente.

Mas como um todo, o filme traz uma excelente sensação de novidade tal como o primeiro filme d'Os Vingadores, e mesmo com tantos defeitos, muita coisa funciona. Finalmente parece que, mesmo a tropeços, Warner/DC está conseguindo encontrar seu rumo no cinema, principalmente no equilíbrio entre a ação e os momentos de alívio cômico que não beiram a infantilidade fora de hora dos títulos da Marvel, e muito menos a imbecilidade quase ultrajante de Esquadrão Suicida. O humor aqui é equivalente ao longa de Mulher Maravilha, sutil e pontual, sem exageros. Os momentos de humor ocorrem naturalmente e de maneira equilibrada, como na inusitada sequência em que Aquaman (Jason Momoa) começa a fazer declarações floridas e piegas, uma pegadinha que funcionou muito por fazer algo que há muito os alívios cômicos não fazem nos filmes: pegar o espectador de surpresa. E momentos assim há bastante. Além de tudo, por incrível que pareça, os diálogos paralelos tem mais consistência do que parecem, e merecem atenção.

The Flash (Ezra Miller) é um dos outros exemplos daquilo que funciona, pois ele poderia ter caído no banalismo caricato, mas Miller consegue segurar as pontas, expressando muito bem o deslumbre juvenil do personagem, de suas descobertas, e de fazer parte de algo grandioso e útil, e mesmo que seu comportamento chegue a ter leves semelhanças ao jovem Mercúrio, de X-Men: Primeira Classe (2011), as situações lhe caem tão bem que deixa de ser um estorvo para se tornar carismático. O mesmo sobre Aquaman. Completamente diferente da versão clássica dos quadrinhos, Jason Momoa trouxe uma carranca bem vinda ao personagem, uma fúria sem limites ou medo na hora de enfrentar o que deve ser enfrentado. O humor brucutu dele também está lá, implícito, contrabalanceando o egocentrismo de Batman (Ben Affleck), que também teve seu lado mais obscuro pendurado nos cabides e mais ironia em seus sorrisinhos de canto de boca.

Mas infelizmente para tudo há seu preço, e mesmo que Liga da Justiça cumpra bem seu papel, o fato é que ele deveria ter sido o primeiro grande filme inaugural do Universo Expandido da DC, e não o quinto. Depois de tantos acidentes de percurso e persistência do público fiel à espera de algo realmente bom por parte da Warner/DC, Liga chega um pouco tarde, num momento que seu público já estava descrente e cansado de esperar, e o reflexo disso é visto em sua péssima estréia nos Estados Unidos, não chegando sequer a US$95 milhões. Um desastre quando comparado com os anteriores, tanto deles mesmos, quanto da Marvel. E frente a isso, o futuro da DC no cinema, novamente, outra vez, será uma incógnita.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

ATÉ QUE ENFIM...

★★★★★★★★☆
Título: Mulher Maravilha (Wonder Woman)
Ano: 2017
Gênero: Ação, Super Herói
Classificação: 12 anos
Direção: Patty Jenkins
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Connie Nielsen, Robin Wright, Danny Huston, Elena Anaya
País: Estados Unidos, China
Duração: 141 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Diana (Gal Gadot), a princesa das amazonas, filha de Hippolyta (Connie Nielsen), foi treinada como uma guerreira por sua tia Antiope (Robin Wright). Ao descobrir os conflitos da Primeira Guerra Mundial, trazidos pelo espião Steve (Chris Pine), cujo avião caiu nas proximidades da ilha onde ela e demais amazonas vivem em reclusão ofertada por Zeus, ela decide deixar sua terra para servir aos humanos na busca pela paz e justiça, ao mesmo tempo que a jornada a fará descobrir seus poderes e conflitos.

O QUE TENHO A DIZER...
Foi quando o filme começou que percebi há quantos e quantos anos espero por ele da mesma forma como esperei pelo primeiro filme dos X-Men. E quando pensamos que Mulher Maravilha é o primeiro filme de uma heroína dos quadrinhos como protagonista em doze anos, é possível notar que ainda existe uma dificuldade de aceitação pública a respeito disso e, principalmente, da indústria.

Há doze anos o que mais tem surgido nos cinemas são filmes de super-heróis. Heroínas ou vilãs aparecem, mas sempre coadjuvantes, como no caso das personagens de X-Men, Vingadores e até mesmo Esquadrão Suicida. Elektra, de 2005, foi a última a ser protagonista de seu próprio filme, e se também considerarmos adaptações de desenhos animados, também tivemos Aeon Flux, lançado naquele mesmo ano.

Trazer Mulher Maravilha para as telas tem sido uma conversa de mais de duas décadas, onde nomes para a protagonista surgiram desde Sandra Bullock até Angelina Jolie. Os anos se passaram, essas atrizes envelheceram, e quem acabou com o papel foi uma israelense desconhecida e ex-soldado, chamada Gal Gadot. Sim, para quem não sabe, Gal se alistou como combatente aos 20 anos, servindo o exército israelense por dois, posteriormente seguindo carreira de modelo (foi Miss Israel) e finalmente atriz. Um histórico bastante diferente e que coincidiu em alguns pontos com o da própria personagem de maneira quase astrológica.

Que o Universo Expandido da DC (assim chamado seus atuais filmes) tem sido complicado, com mais baixos que altos, isso não há dúvida. Fãs podem dizer que seja um "complô" da crítica para desmoralizar os filmes da DC e favorecer os da Marvel, um absurdo que não se justifica. Quem entende do assunto sabe que as coisas não são assim, e que a pressa e a falta de planejamento, por chegarem bastante atrasados numa proposta de expansão similar ao da Marvel, fez o estúdio trocar os pés pelas mãos. Roteiros mal trabalhados e más escolhas na direção tem sido problemas evidentes, fazendo os críticos esperarem desde de sempre por um filme do selo que realmente faça por merecer e que fuja das perenes adaptações de Batman. Pois a verdade é que, embora Batman seja uma marca forte, estamos um tanto exaustos de ver apenas este personagem ser adaptado enquanto a companhia igualmente detém uma vasta carta de personagens memoráveis e adaptáveis.

Quando Batman vs. Superman chegou aos cinemas, era possível sentir mais um desapontamento pesar no cinema em um silêncio desconfortável de quem realmente não estava sequer se divertindo. Mas me lembro que, quando Mulher Maravilha apareceu trajada de fato, defendendo Batman de um ataque do vilão Doomsday em uma entrada triunfal, foi o único momento em que as pessoas no cinema até se inclinaram na poltrona para prestarem mais atenção, tamanha a reação de surpresa e empolgação. Pena que sua aparição durou apenas 15 minutos, mas foi o suficiente para não vermos a hora dela voltar o mais rápido possível em um filme próprio, até porque a expectativa dela salvar o Universo DC no cinema apenas aumentou depois de Esquadrão Suicida (2016) não ter sido exatamente aquilo que se esperava.

Sem dúvida Gal é para Mulher Maravilha aquilo que Hugh Jackman foi para Wolverine, o australiano desconhecido que todo mundo duvidou que seria capaz de carregar o peso do personagem, e no fim das contas deixou essas mesmas pessoas órfãs com sua aposentadoria do papel. De igual tamanho, Gal também foi imensamente criticada quando escolhida para usar a tiara da heroína em Batman vs. Superman. De críticas sexistas a respeito da sua falta de volúpia, ao puro preconceito de ser uma desconhecida qualquer, essas mesmas pessoas agora não conseguem imaginar outra melhor personificação da personagem.

Não é à toa que, mais que depressa, o filme entrou em produção, e quase um ano depois chega aos cinemas em tempo recorde.

Depois do projeto ter passado pelas mãos de diversos diretores desde 1996, a partir de 2013 houve uma forte campanha para que um possível filme solo da heroína fosse dirigido por uma mulher, principalmente depois de um expressivo movimento de igualdade de gêneros que vem ocorrendo em Hollywood nos últimos anos, no qual atrizes e diretoras se uniram revindicando maior participação no cenário, seja na direção, seja no protagonismo de filmes. Dirigido por Patty Jenkins, a direção foi oferecida a algumas outras mulheres antes dela, incluindo a própria Angelina Jolie. Recusado por todas, em sua maioria por divergências criativas, sobrou a Jenkins a missão.

Na História do Cinema, são raras as diretoras que tiveram oportunidade de trabalhar em produções de grande orçamento, ou que tivessem experiência com o extenso uso de efeitos especiais. Para se ter uma idéia, a última (e talvez única) a ter trabalhado em um filme de grande orçamento e com uso exacerbado de CGI, foi Mimi Leder, responsável por Impacto Profundo, de 1998, diretora também cogitada para o filme. Devido a isso, a lista de opções era escassa, e a escolha de Jenkins talvez tenha sido mais por conta de uma falta de opção do que por experiência neste gênero de filme, algo que ela não tinha.

Não que isso afete negativamente o filme, ao contrário disso, essa oportunidade é válida e necessária, e talvez isso abra portas no futuro para a inclusão de outras diretoras neste gênero da indústria.

Jenkins faz um trabalho decente e que abole o sexismo comumente visto, como acontece exageradamente com Harley Quinn em Esquadrão. A direção é comedida e sem demasiadas ousadias até mesmo quando abusa das cenas de ação perfeitamente coreografadas, como nas belíssimas sequências da batalha entre amazonas e o exército alemão na costa da fictícia ilha de Themyscira. Um balé visual deslumbrante que se repete várias vezes nas incursões solo de Diana durante sua ambiciosa busca pela justiça ao longo do filme, cenas de batalhas precisas e brutas, onde é possível sentir na poltrona do cinema a resistência das balas no escudo, justamente porque a intenção da heroína é paralisar por definitivo os conflitos, e não de perpetuá-los.

Sua ganância pela paz leva a personagem a gradualmente descobrir a extensão de seus poderes, sua verdadeira origem, a natureza humana e, principalmente, o peso de sua justiça naquilo que sempre vem a ser o grande dilema de todo herói: matar ou não matar. Uma dúvida que tem sido o enredo principal do Universo DC nos jogos eletrônicos, algo que no filme não é desenvolvido com a mesma ênfase, embora seja possível sentir na heroína uma ponta desse conflito sobre uma decisão que contraria seus princípios morais.

A história consegue oferecer tudo isso, mas o roteiro não desenvolve essas nuances de forma muito clara e concisa, ou que cause realmente uma sensação consistente de amadurecimento de Diana ao longo da primeira grande missão a qual se propõe, e esses defeitos são resultados óbvios da pressa na produção, algo que felizmente não se tornou um grande desastre. Tem que estar muito atento para perceber, já que essas densidades dramáticas acabam tropeçando em pormenores, momentos onde é possível sentir que, embora seja um filme dirigido por uma mulher, o controle dos homens do estúdio ainda é grande. Há uma forte insistência de querer trazer à tona a tal "fragilidade feminina", o sentimentalismo exagerado e um romance impossível com direito a uma cena inspirada em Casablanca (1942), quando Steve diz a Diana antes de embarcar: "Eu posso salvar o dia, enquanto você pode salvar o mundo", tão piegas quanto Bette Davis a Paul Henreid em A Estranha Passageira (1942), na clássica frase de encerramento: "Para que precisamos da lua se temos as estrelas?"

Momentos açucarados que, da mesma forma que poderiam ter ficado de fora, também trazem um certo charme a um filme de ação que, embora pareça andar sobre rodas de madeira e não tenha o mesmo ritmo acelerado e megalomaníaco das atuais produções, não chega a ter o tom pesado e artificial de Homem de Aço ou Batman vs. Superman para os brutos, mas também não tem aquele humor pastel da Marvel para os infantes e adolescentes. Uma certa delicadeza condensada para atrair a atenção daquele público feminino mais acostumado a ir ao cinema para assistir filmes familiares e comédias românticas, e não para um filme de ação também feito para elas. Uma forma de abraçar aos poucos um público que por décadas foi condicionado a gêneros restritos.

E funcionou. Nunca havia visto tantas mulheres em um sessão de ação como vi. Ao mesmo tempo que nunca vi tantas mulheres se divertirem com os bem dosados momentos de humor que por vezes brincam e criticam estereótipos e regras sociais, ou entusiamo nas cenas de puro bate e arrebenta ao som da estridente guitarra da trilha sonoroa que por vezes remete a uma releitura de Immigrant Song, de Led Zeppelin.

O humor aqui é sutil, principalmente quando usa saudavelmente essa rivalidade de gêneros, como no momento em que Diana flagra Steve (Chris Pine) pelado e o questiona sobre o estranho objeto que ele tem. Steve explica ser um relógio, um objeto que o ajuda a acordar, comer e fazer outras coisas, e então Diana pergunta: "Você deixa essa coisinha pequena dizer o que deve fazer?". Acho que apenas eu gargalhei nesse momento, pois a analogia é óbvia, mas tão subliminar que só com o rápido olhar envergonhado de Chris Pine para deixar isso evidente.

Mesmo tendo uma protagonista feminina e um elenco que a princípio é predominantemente feminino (mas que depois se torna predominantemente masculino), Mulher Maravilha não é uma ode ao feminismo como muito se imaginou antes de sua estréia. Ele tem, sim, sua relevância na questão, já que mulheres também podem ser protagonistas de filmes de ação, fãs de filmes de ação e capazes de se desvincularem da imagem do "sexo frágil" e da pregação de que homens sejam necessários para tarefas árduas. Mas ele não ergue bandeiras, muito menos tem discursos moralistas. Tudo está implícito no pacote, e desfruta-se disso quem quiser. Até porque não podemos esquecer que falamos de um filme estritamente comercial, onde o público alvo é um só: o mais abrangente possível.

Definitivamente o filme não faz feio até quando se esquece de dar maior atenção a personagens interessantes, como Dra. Maru (Elena Anaya, que volta a usar uma máscara parecida com a que usou em A Pele Que Habito), personagem que entra e sai do filme sem uma história ou um desenvolvimento plausível para sua existência, enquanto esta foi usada no trailer como elemento indispensável no enredo. Frustrante para quem esperava uma resolução mais grandiosa para ela.

Como todo primeiro filme de um super-herói, é basicamente sobre sua origem, mas com uma narrativa diferenciada, onde a personagem se descobre conforme os eventos acontecem, e não de maneira separada como no costumeiro jeito Super-Homem-de-ser. Um filme que diverte como imagina-se, que consegue ser engraçado de maneira discreta, romântico, sentimental e pregador da paz mundial para não perder a tendência a que ele se predispõe, mas que acima de tudo abre novos horizontes de possibilidades no gênero.

E, sim, nem Batman e nem Superman, mas Mulher Maravilha quem se tornou a maior evidência da Liga da Justiça nos cinemas.

segunda-feira, 28 de março de 2016

A PRESSA É O INIMIGO...

★★★★★
Título: Batman vs Superman - A Origem da Justiça (Batman vs Superman)
Ano: 2016
Gênero: Super Herói, Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Zack Snyder
Elenco: Henry Cavill, Ben Affleck, Jesse Eisenberg, Amy Adams, Gal Gadot, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Diane Lane
País: Estados Unidos
Duração: 151 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Batman e Superman duvidam das reais intenções heróicas um do outro, surgindo uma inimizade alimentada por um plano de Lex Luthor para que um conflito iminente entre eles aconteça.

O QUE TENHO A DIZER...
A Warner, detentora dos direitos da DC Comics, pode até ter sido um tanto que pioneira nas adaptações de quadrinhos, principalmente quando Tim Burton foi responsável por Batman, entre 1989 e 1991. Digam o que quiserem, sejam fãs ou não de suas adaptações, Burton mostrou que havia possibilidade de adaptar esses universos de outras formas sem descaracterizá-los. Tanto que aquilo que ele criou foi - e ainda é - referência. Basta assistir a trilogia de Christopher Nolan para ter a certeza absoluta disso. Os elementos básicos do ponto de vista criativo de Burton ainda estão lá, confirmados pelo próprio Nolan que afirmou na época que não tinha intenções de esquecer do legado deixado pelo diretor.

O grande problema é que a Warner nunca soube lidar com seus heróis no cinema, e coube à Marvel desbravar esse território com muita esperteza e coerência. A empresa não apenas está há 16 anos adaptando seus próprios heróis com sucesso como criou um novo gênero. Tal qual o estilo Faroeste se tornou um gênero ao longo das décadas, assim se tornaram os filmes de Super-Herois graças à Marvel. E quando essa reprodução assexuada de gêneros acontece, é sinal de que vieram para ficar em definitivo.

O que a Marvel fez foi algo realmente inédito. Criou um universo infinito e que se auto renova tal como seu universo nos quadrinhos. Mais do que isso, inventou uma fórmula, que vem sido repetida com sucesso há aproximadamente uma década, já mostrando sinais de cansaço, mas que ainda funciona.

Apenas os filmes baseados nos heróis da Marvel já arrecadaram no mundo, em uma conta bem rápida, em torno de US$15 bilhões ao longo desses 16 anos. O que é mais que a soma de vários títulos de diversos estúdios por aí no mesmo período.

A intenção de levar A Liga da Justiça para o cinema sempre existiu e os fãs sempre clamaram por isso, mas o milhonário orçamento (que entre 2000 e 2010 beirava os US$350 milhões), assustava e inviava o projeto. Foi com a ousadia da Marvel na reunião de heróis em Os Vingadores (The Avengers, 2012) que a Warner finalmente sacou que isso era possível, e então retomaram a idéia para abocanhar sua parte em um mercado tão lucrativo.

O diferencial da Marvel é que ela, por quase uma década, amaciou o mercado em doses homeopáticas até Os Vingadores se tornar uma trilogia em quatro partes (é isso mesmo), coisa que a Warner não fez em nenhum momento. E como que a correr contra o tempo e compensar a falta de estratégia, resolveu fazer de A Origem da Justiça o ponto de partida de sua empreitada, tentando (reforço: tentando) seguir os mesmos passos e, quiçá, reinventar a fórmula da rival.

Embora Batman sempre seja um sucesso até mesmo quando seja ruim (como as tristes adaptações de Joel Schumacher nos anos 90), o mesmo não se diz mais sobre Superman, um herói alienígena simples que vive a favor da humanidade, sem grandes complexidades, iconizado, solidificado e enferrujado no tempo. Por isso que a adaptação de Bryan Singer não foi mais do que um boo-hoo nostálgico, enquanto o reboot desnecessário de Zack Snyder foi uma tentativa fracassada de obscurecer e dramatizar o herói em um festival de exageros que cometeu o erro mais clássico de todos, e que Burton, lá atrás, já ensinava não fazer: descaracterizar o personagem.

Aliás, é um tanto esquisita a escolha de Zack Snyder para continuar a franquia, já que O Homem de Aço (Man Of Steel, 2013) não recebeu críticas muito positivas, tal qual os filmes anteriores do diretor. Talvez tenha sido a pressa do estúdio em desenvolver esse universo da DC no cinema, ou a falta de disponibilidade de algum diretor mais competente já que, apesar de todos os defeitos de Snyder, seus filmes são visualmente marcantes, como foi 300 (2006) - talvez seu único trabalho digno de nota.

E esse é o grande problema do diretor, pois ele consegue engrandecer personagens em imagens, usando filtros, angulações de câmera, enquadramentos e efeitos que os enaltecem em fotografias bastante cartoonizadas, como quadrinhos pintados por Alex Ross, mas ao mesmo tempo os personagens sofrem nos desenvolvimentos exagerados para coisas muito simples, resultando tudo numa densidade tão profunda quanto um pires.

Isso tudo é notório naquele que foi seu mais ambicioso projeto até hoje, o filme Sucker Punch (2011), visualmente deslumbrante, mas vazio, um exemplar daquilo que se deve e ao mesmo tempo não se deve fazer no cinema fantasioso.

E o tom de A Origem da Justiça é o mesmo. Snyder engrandece os heróis através desse surrealismo das imagens, transformando em titãs os dois personagens principais, além de fazer a participação de Mulher Maravilha (Gal Gadot) ser distanciada de qualquer cafonice de outrora, fazendo valer a interminável espera por sua aparição nos cinemas. Mas isso tudo dura muito pouco e decepciona no resultado final.

A história é uma continuação direta de Homem de Aço, tanto que na sequência inicial revemos a destruição de Metropolis durante a batalha de Superman (Henry Cavill) com o General Zod através do ponto de vista de Bruce Wayne (Ben Affleck), e só vai entender dessa forma quem assistiu ao filme anterior. Para quem não assistiu, a cena será como algo aleatório e sem sentido. A partir daí alguns meses se passam, e Wayne tenta responsabilizar Superman pelo grande massacre civil ocorrido naquele evento. Ao mesmo tempo, Superman considera Batman um mercenário perigoso pela forma tirana com que lida com as coisas, e através de sua identidade de Clark Kent, tanta expô-lo dessa forma usando o Planeta Diário para isso. Enquanto isso, Lex Luthor (Jesse Eisenberg) precisa tirar Superman de seu caminho, aquecendo essa rivalidade ao maquinar um plano "diabólico" para que Batman se volte contra Superman, e vice-versa.

O enredo é até interessante, e se teve algo realmente bom em toda a história foi o ponto de partida de tudo porque os roteiristas utilizaram as críticas que O Homem de Aço recebeu para favorecer a trama. Na época os críticos pelo mundo levantaram a questão de que, já que Superman é um herói e sua missão é salvar vidas, foi bastante incoerente o filme fazê-lo destruir mais da metade da cidade e matar mais gente do que salvar. Foi um grande erro na história e na personalidade do herói simplesmente para favorecer a ação barata e o espetáculo de efeitos visuais que transformou o filme em um disaster movie por excelência. Então, ponto positivo para o roteiro que usou a própria realidade como referência e transformou essas críticas em parte dos questionamentos de Wayne sobre a conduta de Superman.

Só que, se por um lado o começo parecia interessante e promissor, o desenvolvimento de tudo se mostra desastroso. Há uma incoerência de situações e cronologia que não convencem, a começar pela visível diferença de idade entre os personagens. Luthor é mais jovem que Superman, e Batman é mais velho que todos. A impressão que se tem é que tiraram Luthor do seriado Smallville (2001-2011) e o velho Batman de sua versão da série em quadrinhos O Reino do Amanhã (Kingdom Come, 1996), no qual está 20 anos mais velho e sem credibilidade.

Eisenberg dá uma caricatura a Luthor que mais irrita do que impressiona, fazendo do personagem um repeteco empobrecido do Coringa, longe, mas muito longe da diversão que era a versão canastrona de Gene Hackman, ou até mesmo na versão mais sisuda de Kevin Spacey. E falando em distância, o que dizer sobre Cavill? Tão longe da candura de Christopher Reeve, ou tão longe da doçura de Brandon Routh. A personalidade agora introspectiva e cascuda é coerente com algumas fases negras do herói nos quadrinhos e na sua crescente perda de esperança nos humanos, mas no cinema aparenta descaracterizado porque em nenhum momento houve uma construção que levasse a esse ponto com consistência.

Triste também é Lois Lane (Amy Adams), que assim como no filme anterior, entra e sai correndo de cena sem motivos. E por mais que Martha Kent (Diane Lane) tenha uma certa importância na conclusão da história, ela na verdade só aparece para literalmente nos lembrar a todo instante que é mãe do herói e nada mais. Duas atrizes desperdiçadas, que poderiam ter sido poupadas tanto quanto Jeremy Irons no mais insosso Alfred que existe, ou Holly Hunter como a Senadora Finch, que poderia ter sido um excelente acréscimo em toda a franquia como o único grande ponto mediador entre humanos e meta-humanos.

Por incrível que pareça, Ben Affleck é o único que consegue atuar no meio de tudo, o que prova que seus cabelos brancos valeram para algo em uma carreira de ator que mostrou-se melhor na direção. Anos luz distante da interpretação constrangedora de Demolidor (Daredevil, 2003), aquilo que parecia um equívoco supreendentemente não atrapalha. As cenas de batalha de seu personagem são as épicas batalhas de Batman por excelência, cheia de malabarismos, arsenais tecnológicos e porrada. Muita porrada bruta e seca de um Batman velho e impaciente, que deixou a tática de lado para encarar tudo de frente. Se o filme fosse apenas dele - o que quase é - teria sido muito mais empolgante.

E são em sequências como essa que vale a pena assisti-lo, mas tem que ter muita paciência. Snyder arrasta a história desnecessariamente em um filme que consegue ser mais longo que Os Vingadores em sequências de dar bocejo em gente grande. A diferença é que Os Vingadores tem todo um background que fortalece sua história, o que não acontece aqui. Ao contrário, o excesso de informação, de tramas e subtramas é justamente para, como dito acima, compensar o que não se fez até hoje.

Então, o filme parte do errôneo princípio de que nada antes dele aconteceu e que nenhum dos personagens já tiveram suas histórias contadas inúmeras vezes antes. Fica difícil nos convencermos de que eles não conseguem compreender seus métodos de justiça e que ignoram completamente seus atos heróicos pregressos. O roteiro poderia ter sido mais sucinto e usado Lex Luthor de uma forma mais inteligente para gerar uma conspiração mais convincente, menos forçada e artificial como é. Mas ao invés disso trata o espectador até com certa ignorância, pois a maneira como os heróis se tornam inimigos é feita de forma tão banal como se Gothan City e Metropolis fossem dois mundos completamente diferentes e distantes, e que nenhum deles nunca tivesse ouvido falar um do outro ou de suas intenções. Se a rivalidade tivesse surgido por uma coisa mais simples ou cliché como inveja pela popularidade ou pela importância de algum deles, acredite... teria sido muito mais interessante.

Mas mais banal ainda é a hora errada em que certas verdades são reveladas justamente por quem fez segredo sobre elas durante toda a trama capenga, estragando em definitivo o grande efeito surpresa do tão esperado duelo. É frustrante e simplório como magicamente a intriga se resolve depois de Batman passar mais de uma hora sangrando os olhos para destruir um arqui-inimigo que, na verdade, nem ele sabe de verdade porque é. E então, pra compensar esse grande e horroroso desfecho, o vilão Doomsday (que mais parece um troll burro do Senhor dos Anéis) surge em sequências de computação gráfica bem ruins, onde insistem na idéia de que para um monstro ser assustador ele tem que gritar e soltar o bafo fedorento contra a câmera. Tudo muito no escuro para tentar disfarçar defeitos indisfarçáveis, entre um e outro momento dramático profundamente dispensáveis. Aliás, Snyder não se cansa do escuro e dos filtros borrados, coisas que ficam muito piores no 3D.

O roteiro foi estranhamente escrito por Chris Terrio e David Goyer. Estranhamente porque Terrio foi o responsável pelo roteiro de Argo (2012), por sinal dirigido por Affleck, um filme simples com um desenvolvimento empolgante e comedido, elogiado exatamente por isso. E Goyer foi responsável pela trilogia O Cavaleiro das Trevas, de Nolan, elogiados justamente pela trama bem costurada e desenvolvida sem rebosteios. Então é espantoso ver dois roteiristas talentosos e com qualidades tão interessantes oferecerem algo tão desorientado e redigido às pressas, o que prova novamente que o diretor simplesmente deu qualquer atenção a isso.

Não é à toa que a crítica não tem sido favorável, da mesma forma como ele não foi o estrondoso sucesso que se esperava em seu final de semana de estréia. Claro que foi uma estréia boa (US$170 milhões), mas não ultrapassou a de Os Vingadores (US$207 milhões). Portanto acredita-se que o interesse pelo filme caia como uma pedra no oceano nas próximas semanas, e que chegar a US$1 bilhão se torne uma missão custosa, já que é essa a cifra que garantirá as próximas continuações.

O que algumas pessoas me perguntaram, e foi o que perguntei quando pessoas que eu conheço assistiram antes de mim, é se vale a pena e é legal. Vale a pena e é legal, não por todo o produto em si, mas pela materialização da idéia. Ver os três heróis juntos, agigantados na megalomania visual de Snyder, mesmo que por um breve momento, parece valer o preço do ingresso. Mas a história, não se pode negar, por mais que os fãs argumentem nos fóruns por aí, é banal e até ridícula.

Como um todo, vai agradar os fãs mais desesperados e aqueles que pouco se importam com o resto além da ação - e que também há pouco, diga-se de passagem - embora é possível ver que muitos deles sairam desapontados do cinema. A grande preocupação é se a próxima sequência, já entitulada como A Liga da Justiça, cairá nos mesmos problemas, já que insistirão do tenebroso erro de manter Snyder na direção, diretor que provou por A + B que, fora o seu próprio ego, não tem talento suficiente para sustentar outras coisas grandiosas.

CONCLUSÃO...
Aparentemente não é um tipo de filme para ser inteligente, mas o que diferencia as histórias da DC da Marvel é justamente o fato das histórias da DC serem mais densas e adultas, com tramas mais elaboradas, sem muitos alívios cômicos e que fogem do habitual sem deixar de entreter como se deve. Baseando-se nos roteiristas, poderia ter tido o desenvolvimento simples de Argo, com uma trama melhor elaborada como foi O Cavaleiro das Trevas, mas ao invés desse desenvolvimento simples, focado e efetivo, é um filme disperso, cheio de reviravoltas desnecessárias para dar a falsa impressão de grandiosidade que ele de fato não tem. E se existe um verdadeiro inimigo em tudo isso, ele se chama "pressa", algo que a Marvel não teve e, por isso, se manterá no pódio por mais alguns bons anos.
Add to Flipboard Magazine.