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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O XEQUE MATE DE CRONEMBERG...

★★★★★★★★☆☆
Título: eXistenZ
Ano: 1999
Gênero: Ação, Suspense, Comédia
Classificação: 16 anos
Direção: David Cronemberg
Elenco: Jennifer Jason Leigh, Jude Law, Willen Dafoe, Iam Holm, Sarah Polley
País: Canadá, Inglaterra
Duração: 97 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma importante projetista de jogos de realidade virtual organica passa a ser perseguida por um grupo de fundamentalistas contrários à biotecnologia utilizada e a deformação da realidade. Durante sua fuga, a única cópia de seu mais recente jogo, chamado eXistenZ, pode ter sido danificado. Para descobrir isso, ela deverá se conectar a ele e jogá-lo para descobrir se algum dano em sua programação tenha ocorrido.

O QUE TENHO A DIZER...
Ao longo de sua carreira, David Cronemberg deixou evidente sua fixação sobre a relação dos homens com a tecnologia numa proporção equivalente ao próprio avanço dela mesma. Isso se tornou praticamente uma obsessão por conta da frequência com que ela é tratada em seus filmes, seja diretamente, como acontece aqui, ou em Videodrome (1983), ou em A Mosca (The Fly, 1986), como também até em outros títulos onde o tema foi abordado indiretamente, como no seu mais recente Cosmopolis (2012).

Portanto, a tecnologia como um assunto corriqueiro e cotidiano não é apenas uma regra como parte de seu estilo, como uma preocupação pandêmica. Raramente, entre um filme com uma abordagem diferenciada ou outra, como Marcas da Violência (A History Of Violence, 2005) ou Senhores do Crime (Eastern Promises, 2007), acaba não havendo espaço para isso, mas não significa que ele tenha esquecido.

eXistenZ surgiu numa época muito propícia e de transição para o novo milênio. Realmente um período onde eram debates mundiais questões sobre a tecnologia, os computadores, a internet, o "boom do milênio", a transformação dos jogos eletrônicos em grandes centros de entretenimento, as realidades virtuais e até que ponto o homem estaria disposto a transformar a tecnologia em uma extensão do seu prazer. Acreditava-se na época que a realidade virtual estava mais próxima do que imaginavam, e algo que também assombrava muita gente por ser um mundo completamente desconhecido. Um tema sempre discutido no cinema, seja em Tron (1982), O Passageiro do Futuro (The Lawnmower Man, 1992), Matrix (1999), O 13º Andar (The 13th Floor, 1999), dentre diversos outros que não me lembro agora.

Das discussões recorrentes nos filmes do diretor canadense, ele sempre pautou de forma um tanto religiosa que o futuro dos homens será buscar novas formas de prazer, ou novas formas de intensificá-lo. Foi o que ele cruelmente fez com Crash (1996), talvez o seu filme mais controverso por ir tão fundo no tema de forma patológica e autodestrutiva.

Cronemberg conseguiu levar para a tela o lado mais insano e perverso do ser humano sobre o prazer sexual, sempre mantendo uma coerência assustadora com a realidade, de forma que os personagens nunca impõem suas vontades aos outros como a doutrinar os inocentes, são eles mesmos quem escolhem se aprofundar neste labirinto fisiológico tão instintivo e primitivo. Seus filmes são complexos, muitas vezes difíceis de serem assistidos, que facilmente tendem a despertar a repulsa, mas ainda sim objetos de discussão coerentes com a contemporaneidade.

eXistenZ é parte disso, e figura entre os clássicos do diretor. Mais visceral e atordoador do que seu colega pop Matrix, lançado no mesmo ano, Cronemberg joga para o público a responsabilidade de uma realidade aumentada e sem limites. A busca de diferentes prazeres através de alternativas responsáveis por fazer os homens perderem o seu próprio controle tal qual uma droga intoxicante qualquer. Não é à toa que no filme todos os equipamentos possuem texturas orgânicas familiares, mas nada convencionais, que se assemelham a protuberâncias ou orifícios humanos. Há também o medo de alguns personagens pela chamada "penetração cirúrgica", já que cientificamente um dos medos natos do homem é a corrupção de seu próprio corpo, ou seja, a invasão de corpos ou objetos estranhos, como um caco de vidro, uma ferpa, uma agulha ou um falo. O estupro propriamente dito. Isso é proposital para que Cronemberg deixasse evidente até que nível o ser humano está disposto a atingir para adquirir novos estímulos além das formas tradicionais de buscar o prazer, que com o tempo perderam a graça (segundo o que ele, talvez, implicitamente propõe).

O diretor não chega a discutir o prazer em suas formas perversas como o masoquismo, a laceração e submissão da forma como fez em Crash, ao contrário disso, ele sugere que o prazer carnal não existirá mais no futuro. No lugar disso, iremos atrás de outras experiências que possam nos satisfazer constantemente de outras formas, como as possibilidades de criar e destruir, mandar e desmandar, ter o controle e o poder de absolutamente tudo. E o único lugar onde podemos ter tanta autonomia é apenas no mundo virtual, considerado pelo diretor um espaço democrático, pois dá oportunidade a todos de serem e experimentarem o que quiserem, algo que se mostrou verdadeiro com o âmbito que a internet tomou no cotidiano das pessoas.

Ao longo do filme os personagens já não sabem mais se o que acontece é parte do jogo ou da realidade, essa situação não apenas é imersiva como confusa por conta da irresponsabilidade de ultrapassar os limites que eles mesmos desconhecem e a possibilidade de serem tão onipotentes. Por isso, de certa forma, o filme também lida com a religiosidade e o poder no questionamento do ser humano ser ou não capaz de se aproximar de seu próprio criador. É por essa razão que um dos objetivos principais do jogo eXistenZ dentro da história do filme é a "morte ao demônio", que se refere ao projetista desenvolvedor daquela realidade virtual. Ou seja, morte ao humano que se passa por deus. Tanto que a referência a isso está no próprio título do filme, onde "isten" significa "deus" em hungaro.

O que é mais interessante de toda a produção é que, mesmo sendo de 1999 e falando de um futuro tecnologico ainda bastante distante, não há aquela sensação de produção datada. Toda a direção de arte é bastante neutra, e Cronemberg foi inteligente o bastante ao falar do futuro e da tecnologia utilizando a nossa própria realidade para isso. É como se ele também quisesse nos mostrar que o nível de fidedignidade com a nossa realidade será tão grande ao ponto de ser impossível distinguir onde está a linha que separa os dois mundos. Além disso, ele também utiliza suas esquisitas angulações de câmera para dar um certo tom de deboche, uma sátira surreal da nossa realidade, como sonhos desconexos, responsáveis também por destacar devaneios que o mundo virtual possa apresentar, como erros, ou "bugs" do sistema, algo similar ao gato preto em Matrix.

Há também um humor negro muito presente dentro deste contexto satírico no intuito de enfatizar absurdos que realmente não fazem parte de nosso cotidiano, como o nojento e ao mesmo tempo engraçado momento em que o personagem de Jude Law monta uma arma orgânica com restos encontrados em um ensopado e a carrega com os dentes de uma prótese que ele tira de sua própria boca e diz: "eu não uso ponte, meus dentes são perfeitos". São esses elementos que diferenciam as realidades sobrepostas e situam o espectador dentro dos diferentes mundos (além do próprio cabelo da personagem principal, que é liso quando no mundo real e frisado nos mundos virtuais, mas isso você pode fingir que não leu).

Se o diretor é ou não um jogador de verdade, não dá pra saber, mas ele soube encaixar elementos muito característicos de jogos que obrigam a interação do jogador com personagens não jogáveis. Um dos momentos mais evidentes disso é quando é citado o looping de ação de um dos personagens "não jogáveis" da história, que entra numa sequência de ação repetida até que o personagem principal dê o comando exato para que o sistema compreenda que uma ação foi realizada e seja dada uma ordem para a próxima etapa. O diretor é tão meticuloso nos detalhes que o filme também é um prato cheio para qualquer gamer nerd de plantão. E acreditem, na época em que o filme foi feito, eram pouquíssimos os jogos de mundo aberto como é proposto no filme, e os que existiam ainda eram muito limitados. Muitos jogos hoje chegaram bem próximos ao sistema proposto no filme de um mundo aberto, interativo e com objetivos a serem alcançados, aumentando a interatividade de ações entre jogadores e o mundo virtual ao ponto de perdermos a completa noção de tempo e espaço, tamanha a imersão. Ou seja, sem querer, Cronemberg conseguiu levar para a tela boa parte daquilo que os jogos se transformaram hoje. Claro que para chegar ao nível de realidade do filme, há muito futuro pela frente ainda, mas a essência interativa dele já existe de certa forma.

Vale muito ser assistido mais de uma vez para que a atenção seja dada a pequenos detalhes antes ignorados. Dezesseis anos depois ainda entramos na atmosfera do filme como entramos nos jogos de hoje, mas Cronemberg vai além e nos leva a uma paranóia crescente desenvolvidas com efetividade até os créditos finais numa realidade sufocante. Só não sabemos qual realidade é essa, e esse é o grande cheque mate de Cronemberg sobre nossas percepções. Será que um dia chegaremos a este ponto?

CONCLUSÃO...
Embora esquisito, surreal e confuso como sempre, eXistenZ é o Cronemberg autoral e brilhante, completamente contrário à convencionalidade. Ousado e um tanto visionário, ele questiona os limites da criação, a religiosidade e o vício pelo poder, a droga prazerosa mais fatal que o ser humano descobriu.

domingo, 18 de janeiro de 2015

FERIDA QUE DÓI E NÃO SE SENTE...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Dois Lados do Amor (The Disappearance Of Eleanor Rigby)
Ano: 2014
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Ned Benson
Elenco: Jessica Chastain, James McAvoy, William Hurt, Isabelle Hupert, Viola Davis
País: Estados Unidos
Duração: 123

SOBRE O QUE É O FILME?
A história de um casal que tenta retomar a vida e o amor que um dia tiveram juntando os pedaços de um passado que pode ter ido embora há muito tempo.

O QUE TENHO A DIZER...
O Desaparecimento de Eleanor Rigby seria o nome do filme se traduzido literalmente em português, o que teria sido um título muito melhor do que o atual dado por aquelas pessoas que a gente não sabe quem são. Um título tendencioso, que remete a uma comédia romântica fajuta qualquer, quando este não é o propósito do filme, e está muito longe de qualquer coisa parecida.

O desaparecimento de Eleanor que se fala é apenas um sentido figurado, já que a personagem está presente o tempo todo. A ausência é de sua essência, daquilo que a deixava viva e autêntica, pois hoje Eleanor nada mais é do que uma carcaça ambulante, apática, que sofre de uma culpa que não se sabe de onde vem e de um vazio que não há conteúdo que o preencha.

Dirigido e escrito por Ned Benson, é também sua estréia com longas metragens. A princípio o filme foi lançado em duas partes, a parte Ele, contada pela perspectiva de Conor (James McAvoy), e a parte Ela, contada pela perspectiva de Eleanor (Jessica Chastain). As duas partes foram lançadas no Festival de Cannes e posteriormente o diretor fez uma terceira edição entitulada Eles, que é a edição final distribuida em maior circuito pela Weinstein Company.

Dois Lados do Amor mostra de forma muito realista e sensível os rumos inesperados de um casamento após um trágico episódio e das sinceras dores de se seguir em frente depois disso. Este acontecimento será o grande responsável por abalar todas as fundações da relação de ambos ao ponto de não haver solução para estancar a sangria desenfreada.

Benson até tenta criar um clima de mistério no ar que por alguns momentos nos leva a acreditar que a culpa pode ser tanto de um quanto de outro, dependendo do grau de empatia do espectador com cada personagem, mas em nenhum momento ele força essas situações e muito menos demora a revelar o que de fato aconteceu, ele apenas evita falar sobre isso, pois é isso que os personagens fazem o tempo todo: evitar lidar com a realidade.

É quando a história se torna muito mais densa, pois é muito triste notar conforme ela se desenvolve que nenhum dos dois possui de fato uma culpa sobre a situação que se encontram. Eles até tentam, com muita sinceridade, encontrar alguma solução, um meio termo em consideração ao amor e carinho genuínos que possuem um pelo outro, mas há um gosto amargo no ar sobre algo que não se vê, mas se sente mesmo assim. A atmosfera pesa, o ar fica denso e a presença um do outro é cada vez mais incômoda, como uma vergonha, numa situação insustentável a cada nova tentativa de reaproximação e uma necessidade de se ouvir desculpas de quem não tem desculpas para dar. Esse desenvolvimento lento e doloroso feito pelo diretor/roteirista funciona como a deixar a ferida exposta ao tempo, e por mais que ele tente nos mostrar que ainda possa haver esperanças, no fundo sabemos que não há alternativas. Embora os clichés sejam usados, a construção de tudo é tão honesta, emotiva e instrospectiva que não há outra impressão sobre o filme como um triste olhar sobre um jovem casal que poderia ter dado muito certo caso não fosse o acaso de seus próprios destinos.

Impressionante como a atriz Jessica Chastain tem escolhido filmes com muita acertividade, preferindo papéis mais densos e em produções menores do que ir para o caminho mais óbvio da fama, tanto que ela desistiu de O Homem de Ferro 3 para fazer este filme, que exige dela muito mais sutileza do que seus papéis anteriores porque a dor de Eleanor vem de dentro, de um lugar que nem mesmo o coração dela sabe onde está. Um alguém que a todo momento tenta se fixar em algum lugar na tentativa de recomeçar outra vez, mas não consegue fazê-lo de forma alguma.

CONCLUSÃO...
Uma pena que esse filme vai passar despercebido no grande circuito, pois as atuações são bastante impressionantes e por parte de todo elenco, além de ser uma história sutil, delicada e verdadeira sobre a relação de um casal que se perdeu, de um amor que ainda existe, mas cuja presença esvaneceu e deixou entre eles apenas um vácuo inexplicável.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

ÚLTIMAS APOSTAS PARA O OSCAR 2015!

Este ano, obviamente, haverá favoritismos, mas também houveram algumas surpresas tanto agradáveis quanto desagradáveis. Para quem ainda não viu a lista de indicados, acesse AQUI.

MELHOR FILME
Todos os oito filmes que a Academia considera "os melhores do ano" estão lá, ainda havendo inclusão de Sniper Americano (American Sniper, 2014), de Clint Eastwood. Filme que passou despercebido e que foi lembrado apenas pelo BAFTA e (agora) o Oscar. Está mais lá porque a Academia realmente puxa muito saco de Eastwood. Mas o pário está duro entre Boyhood, Birdman e O Grande Hotel Budapeste. Minha preferência fica entre os dois últimos. Pode ser que Boyhood leve como melhor filme, e deixe os demais filmes levarem nas outras categorias. Mas pela primeira vez em muitos anos estou muito indeciso.

MELHOR DIRETOR
A situação também está difícil nessa categoria. Mas se a princípio eu achava o trabalho realizado por Richard Linklater em Boyhood algo digno de nota, depois de assistir Birdman o prêmio deveria ir direto para Alejandro Iñárritu por Birdman. O que ele fez neste filme é algo tão brilhante quanto o que seu amigo conterrâneo Cuarón fez em Gravidade (2013). Complexo e desafiador, segundo ele diversos diretores disseram para ele não fazer o filme como se fosse uma tomada só. Ao invés de desistir da idéia, o cabeça dura foi, fez mesmo assim, e entregou um dos filmes mais interessantes do ano.

MELHOR ATOR
Hollywood já está de olho em Benedict Cumberbatch há muito tempo, mas o prêmio irá para Michael Keaton. É merecido, e a indústria adora fazer Cinderela Story com atores que ora fizeram sucesso, ora amargaram o fracasso como Robert Downey Jr. e Mickey Rourke. Está bem evidente que esse será o ano de Keaton, e o trabalho que ele desenvolve em Birdman é de fato muito complexo e que ele desempenha muito bem.

MELHOR ATOR COADJUVANTE
J.K. Simmons quando ganhou o Globo de Ouro na mesma categoria foi aplaudido em pé. É o que fazem quando atores que já passaram dos 60 recebem seu primeiro grande reconhecimento depois de décadas de uma carreira bem traçada, porém nunca reconhecida dessa forma.

MELHOR ATRIZ
Esse ano tudo indica que Julianne Moore finalmente levará o prêmio pra casa depois de outras 3 indicações. Não sou muito fã de Jennifer Aniston e nunca achei seus desempenhos memoráveis, nem mesmo quando estrelava Friends, talvez por falta de uma boa oportunidade, o que ela finalmente teve com Cake. Ela recebeu indicação ao Globo de Ouro, mas perdeu. Poderia ter recebido novamente aqui, mas ficou de fora porque felizmente colocaram Marion Cotillard no lugar, atriz que foi esquecida no Globo de Ouro. Uma surpresa agradabilíssima e merecida porque seu desempenho em Dois Dias, Uma Noite é simplesmente formidável e de longe a melhor das indicadas. O trabalho de Julianne, por melhor que seja, não deixa de ter aquele ar previsível, o de Marion é completamente o oposto. O "favoritismo" de Rosamund Pike é mais pelo sucesso comercial de Garota Exemplar. O trabalho dela é bem feito, mas a Academia não vai premiá-la agora.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Embora Patricia tenha levado o Globo de Ouro na categoria Comédia, não acredito que ela leve o Oscar. A surpresa mesmo foi ter Laura Dern entre as indicadas, merecido também. Keira Knightley eu não consigo entender como ainda pode concorrer, atriz fraca, que não agrega nada. Meryl Streep... Tá, todo mundo já sabe que ela é boa, genial, etc... mas já está ficando chato indicá-la todo ano. Minha preferência é Emma Stone. Ela é jovem, talentosa e seu trabalho em Birdman é tão complexo quanto o de Michael Keaton, cheia de nuances entre o humor negro e o drama.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Acredito que disputa ficará entre Birdman e O Grande Hotel Budapeste. Sou muito fã dos dois e por mim Wes Anderson poderia ter levado todos os prêmios caso Birdman não fosse tão bom.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Paul Thomas Anderson concorre por Vicio Inerente por concorrer, talvez porque ninguém tenha tido coragem de dizer que é uma droga e fez cara de paisagem dizendo que o filme é excelente sem ter entendido nada. O Jogo da Imitação, A Teoria de Tudo e Whiplash são os favoritos. Acredito que O Jogo leve, mas particularmente torço para Whiplash.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A VIRTUDE DA IGNORÂNCIA...

★★★★★★★★★☆
Título: Birdman - A Inexperada Virtude da Ignorância
Ano: 2014
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 16 anos
Direção: Alejandro Gonzáles Iñárritu
Elenco: Michael Keaton, Emma Stone, Edward Norton, Naomi Watts, Zack Galifianakis
País: Estados Unidos
Duração: 119 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um ator decadente que ficou famoso por interpretar um icônico super herói no passado, e agora deve lutar contra seu próprio ego e problemas familiares conforme produz sua nova peça teatral na Broadway.

O QUE TENHO A DIZER...
Que Alfonso Cuaron e Alejandro Iñarritu são amigos de longa data, isso todo mundo já sabe. Se não sabia aqui vai uma ótima oportunidade pra saber. Junto a dupla podemos colocar Guilermo Del Toro no grupo e a entourage mexicana está pronta.

Em 2013 Cuaron supreendeu com Gravidade (Gravity), dando ao filme elementos experimentais e ao mesmo tempo comerciais que atingiram a perfeição técnica e elogios pelo mundo todo. Cuaron elevou o nível de experiência das ficções científicas de tal forma que ele pode ser considerado um grande clássico moderno do gênero e da história do cinema, tal qual foi 2001 (1968). Suas cenas coreografadas como um balé espacial em planos sequências de até 15 minutos foram grandes passos à frente daquilo que até então conheciamos como uma odisséia espacial. E precisou ser um diretor mexicano para fazer isso na meca do cinema chamada Hollywood.

Ok. Agora é a vez de Iñarritu, que pegou a proposta inicial de Cuaron e elevou à 10ª potência, dirigindo, escrevendo e produzindo aquilo que vemos em uma tomada só. Bom, ao menos é a impressão que ele passa, já que foi incrivelmente bem editado e um desafio herculeo aos atores que em algumas ocasiões tiveram que não apenas decorar mais de 15 páginas de texto como marcações precisas dos cenários. Segundo Iñarritu, seria como Phillippe Petit andando em uma corda bamba entre as Torres Gêmeas, se algo desse errado, tudo estaria perdido.

De fato, a experiência angustiante e aflitiva que o filme passa são méritos desse estilo de filmagem que Iñarritu de certa forma desenvolveu ao longo de sua carreira e que hoje em dia caem muito bem na tendência que o cinema demonstrou bastante em 2014 em dar atenção a produções que focam o lado mais intimista e realista dos personagens com câmeras na mão, ausência de maquiagem e locações reais ao invés de estúdios. Enfim, tudo aquilo que o cinema independente e europeu já traçou há quase 20 anos atrás, mas apenas agora o público mais popular está aceitando.

O roteiro, também de Iñarritu, é digno de prêmios. De fato a complexidade que se vê na tela só seria possível se muito bem detalhada a cada ponto final e a cada nova linha. Não há espaço para erros, muito embora o ambiente claustrofóbico dos corredores do teatro St. James, e tantas idas e vindas dos personagens por esses caminhos tortuosos e apertados acabam por algumas vezes excedendo a paciência de quem assiste, mas isso também faz parte da angústia do personagem que desenvolveu uma paranóia depois de tantos fracassos. As incertezas de sua nova peça teatral, na qual ele mesmo dirige e também atua, estão levando-o a loucura, fazendo-o confundir realidade e fantasia, tendo disturbios delirantes um tanto esquizofrênicos com Birdman, o herói que o deixou famoso nos anos 90 em uma trilogia de ação. O personagem agora se transformou no seu alter-ego, já que Riggan Thomson passa a agir e tomar decisões de acordo com o que Birdman faria.

Peraí. O personagem é um ator que foi famoso nos anos 90 por interpretar um super herói e agora tenta ressurgir depois do fracasso... isso me lembra Michael Keaton depois de Batman. Sim. Uma ironia (com certa paródia) talvez à própria vida do ator, e que lhe caiu como uma luva.

A moral principal do filme, e também um dos diversos significados do subtítulo poético, é exatamente como a futilidade e superficialidade reinam sobre todos nós e a nossa incansável busca pela aprovação alheia e o sucesso de alguma forma, nem que seja demonstrado por apenas um indivíduo. Todos os personagens são insatisfeitos e todos os personagens buscam aprovações, levando-os a atitudes vazias e impensadas.

É um filme visceral, uma comédia dramática negra que nos leva cruelmente para o caminho mais fácil da ignorância e que, por vezes, pode soar uma virtude, pois estar consciente e na tentativa de controlar tudo o tempo todo muitas vezes pode ser a sua própria auto-destruição. Não que ser ignorante seja nossa natureza, mas é isso que nos fazem ser o tempo todo não nos dando o direito dela ser apenas uma opção, nos dando produtos vazios e descartáveis para consumirmos a todo instante. Não é à toa que em um determinado momento vemos várias pessoas vestidas de super heróis brigando umas com as outras, ou quando Birdman diz que as pessoas gostam de explosões e sangue. Ou, principalmente, na já clássica cena de Michael Keaton correndo pelas ruas apenas de cueca, o momento que ele é mais notado de todo o filme, justamente por parecer um otário para aqueles que não sabem o motivo (apenas nós, espectadores, sabemos).

O filme não podia vir em melhor hora, colocando Michael Keaton novamente em um lugar que ele havia esquecido onde era. Vem muito a calhar depois de sua consagração no Globo de Ouro e depois da observação pontual de Gerge Clooney de que o sucesso só dura enquanto se está no tapete vermelho. Muito certeiro também depois do retorno do seriado The Comeback e da personagem Valerie Cherish na sua desesperada maratona ao sucesso.

Do sucesso ao fracasso e do fracasso ao sucesso em apenas um instante. É nessas horas que a virtude da ignorância é inexperada, e muito que bem desejada. Somos livres para fazermos o que gostamos e aquilo que desejamos fazer, independe das aprovações, porque elas são só aprovações, não significam nada no fim do dia.

CONCLUSÃO...
E mais um mexicano consegue fazer uma nova revolução técnica de filmagem. Sim, roteiro complexo e difícil para filmagens muito mais complexas e difíceis que resultaram em uma das experiências cinematográficas mais realistas de 2014 nessa onda que tem tomado força no cinema Hollywoodiano. O filme foi muito bem recebido pela crítica e já ganhou vários prêmios, entre eles o Globo de Ouro de Melhor Ator e Roteiro. Um grande concorrente ao Oscar, e um prêmio de direção a Iñarritu não cairia nada mal.

O TRABALHO NEM SEMPRE DIGNIFICA...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Clockwatchers
Ano: 1997
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Jill Sprecher
Elenco: Toni Collette, Lisa Kudrow, Parker Posey, Alanna Ubach
País: Reino Unido, Estados Unidos
Duração: 96 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma garota consegue um emprego temporário em um escritório, mas não consegue se adaptar tão fácil por ser bastante introspectiva e tímida. Porém, é com a ajuda de uma colega que ela aprenderá como tirar bom proveitos por não ser notada, e ao mesmo tempo viver os piores dias de sua vida quando uma série de furtos começam a acontecer dentro do escritório.

O QUE TENHO A DIZER...
Foi o primeiro filme a ser dirigido e escrito por Jill Sprecher, que posteriormente foi se dar bem como produtora do seriado Amor Imenso (Big Love, 2006-2011). O filme é pouquíssimo conhecido por ser em um gênero meio comédia e meio drama, com um tema e desenvolvimento bem contra a maré do que era produzido na época, onde o público estava apenas interessado em besteirols, filmes de ação sem pé nem cabeça, slasher movies e Titanic (1997). O elenco forte conta com Toni Collette como a protagonista Iris. Embora a atriz já havia sido reconhecida mundialmente por O Casamento de Muriel (Muriel's Wedding, 1994), ainda construia sua fama nos Estados Unidos. Tem também Lisa Kudrow, que já estava famosa na televisão por Friends, mas existia na época um grande preoconceito entre atores de TV trabalharem no cinema e vice-versa, algo que não existe mais hoje por conta da qualidade das produções televisivas. A mais conhecida delas é mesmo Parker Posey, que hoje em dia pode não ser muito lembrada, mas era uma atriz cult dos anos 90 e rapidamente se tornou muito influente.

Ao contrário do que o cartaz pode parecer, o filme está muito longe de ser um chick flick, como são chamados os filmes de temática unicamente feminina. Longe disso, o filme mostra de forma bruta e cruel o sistema de trabalho, além do tratamento desumano das grandes corporações com seus empregados. Não é à toa que o filme é mal lembrado, ou lembrado de forma alguma, pois o tema é inesperado em uma época que mulheres ou eram mártirs ou eram protagonistas de comédias românticas.

Não há muito a ser analisado profundamente porque Sprecher deixa tudo muito claro e evidente, mas de forma alguma cliché ou previsível. A roteirista apenas explica através das personagens, em momentos bastante oportunos e bem encaixados na história, o porque tudo aconteceu e a razão pessoal de cada um deles ter agido como agiu. Sprecher também traz muita evidência ao mostrar de forma bastante fiel o dia a dia de pessoas que se sujeitam a subempregos e como o tratamento distante, reciclável e desinteressado que recebem de seus superiores não apenas é responsável pela deterioração pessoal e de relações construídas, como ainda também é, espantosamente, bastante atual.

Desde o tratamento que as protagonistas recebem de seus chefes e o assédio moral que sofrem deles por serem os alvos mais fáceis na hora de se culpar sem apontarem os dedos, até no momento final, onde Iris resolve transformar tudo isso em um grande benefício, são situações que apenas para quem já trabalhou, em qualquer lugar que seja, consegue perceber as semelhanças universais que o filme apresenta.

É uma comédia, mas não dá pra deixar de sentir a angústia presente nele. O elenco realmente é o grande forte, mesmo que por algumas vezes Toni aparente repetir a fórmula de Muriel, mas tudo funciona mesmo assim.

CONCLUSÃO...
Não é algo que encantaria muita gente, mas para quem gosta de uma história relevante que representa uma situação ainda bastante atual construída sem pressa, Clockwatchers é um excelente pequeno filme. Embora possa ser uma comédia, há uma tristeza presente dentro dele por mostrar que o trabalho nem sempre dignifica uma pessoa.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

OS PREMIADOS DO GLOBO DE OURO 2015...

O Globo de Ouro neste domingo foi bastante imprevisível. Haviam favoritos, sim, mas em uma rara vez eram todos de tão excelente qualidade que, em muitas categorias, escolher apenas um era uma escolha de Sofia. Diferente dos anos anteriores (e que eu me lembro) não houve uma puxação de saco, até porque os atores e filmes que concorreram eram muito equivalentes. Não dava pra dizer, por exemplo, que consagraram Jennifer Lawrence porque ela é a nova face dos EUA, como foi em 2013; nem que 12 anos de Escravidão foi escolhido Melhor Filme porque seria uma decisão feia caso não tivesse. Não houve situações desse tipo. Foi tudo muito bem equilibrado.

Pelo terceiro ano consecutivo as apresentadoras foram Tina Fey e Amy Poehler. Disseram que este será o último ano que apresentam. Elas disseram o mesmo na primeira vez. Mas tomara que dessa vez seja verdade, as piadas esse ano foram ácidas, desnecessárias e constrangedoras, naquela mania sempre recorrente que já comentei no Blog de como Hollywood aceita virar piada de mal gosto dela mesma. Hollywood é uma piada, sempre foi, mas em meio a tudo isso há atores que acreditam no seu trabalho e o levam a sério. Eu ficaria muito revoltado se participasse de uma celebração onde minha área de atuação acabasse sendo alvo de piada o tempo todo. Qual o propósito de ser um evento, então? Houve até momento para associarem Bela Adormecida com Bill Cosby, em referência às acusações de abuso sexual do ator. Entre espantos e algumas risadas amarelas, ficou tudo bem, quando não estava tudo bem. Não cabe a elas esse tipo de postura ou crítica, a lei já está fazendo o que deve ser feito. Ser ator e querer prestar serviços social em meio a piadas também tem limites. Também não cabia a elas criticarem a atitude da Coréia do Norte quando, dentre os males causados, também revelaram fatos importantes não apenas sobre a Sony, mas da atitute das grandes corporações em geral, muito mais sérios e que atingiam todos lá presentes de forma muito mais contundente. O discurso de George Clooney foi pontual sobre isso porque ele foi uma das vítimas dos e-mails vazados. Clooney criticou quem deveria ter sido criticado sem precisar citar nomes, mas envergonhando mais ainda aqueles que precisavam ser envergonhados sem precisar abaixar o nível, como fizeram Fey e Poehler.

O apoio à liberdade de expressão, principalmente sobre o atentado na França, foi aceitável e o assunto mais recorrente da noite, e o discurso do Presidente da Impresna Estrangeira de Hollywood, Theo Kingman, foi bom, com excessão na hora em que disse que a liberdade de expressão não deve existir apenas nos Estados Unidos, mas também espelhar no restante do mundo. Foi uma frase americanista e centralizadora demais para um presidente da imprensa estrangeira em um momento tão delicado. Dispensável também foi Jared Leto também dizer "I Am Charlie", em referência ao movimento viral sobre o atentado. Foi desnecessário também quando Clooney finalizou seu discurso com o mesmo apoio, embora seu contexto tenha sido outro. Entre pessoas que aplaudiram e outras que não, ficou claro que é bastante controverso apoiar esta causa. Uma coisa é desaprovar os atentados, que naturalmente são inaceitáveis, mas outra coisa é indiretamente endossar que o que a revista criticava e da forma como ela fazia era correto. Eu desaprovo qualquer ato terrorista, mas não sou Charlie.

Nas categorias de Séries, Mini-Séries e Filmes para a televisão, não posso deixar de expressar minha indignação pela imprensa estrangeira ter ignorado por completo o retorno do seriado The Comeback, que não recebeu nem ao menos uma indicação sequer. Ele teve uma audiência baixíssima nos seus 8 episódios, mas a interpretação de Lisa Kudrow, bem como o roteiro escrito em parceria com Michael Patrick King (que também faz uma excelente direção), foram fantásticas e as melhores da temporada dentre todos os seriados. The Comeback pode não ter muitos fãs, mas sua qualidade é inegável. Para ver a lista completa, CLIQUE AQUI:

MELHOR FILME
-Drama: Boyhood
-Musical/Comédia: O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel)

Nota: Merecidíssimos. Richard Linklater, da tão cultuada trilogia Antes (do Amanhecer, do Por do Sol e da Meia Noite), poderia ter ganhado há muito tempo antes. Boyhood é merecido não pela complexidade de sua realização como também por ter sido tão bem feito. Claro que defeitos existem, ainda mais sobre uma produção filmada por 13 semanas divididAs em 13 anos, mas no geral o resultado é aquilo que apenas um diretor ousado poderia ter feito, e Linklater é um desses. O mesmo a ser dito sobre Wes Anderson, que ganhou pelo Grande Hotel em um momento que ele, assim como muita gente, tinha certeza que perdereria mais uma vez, mesmo sabendo que ele mais que merecia. Venhamos e convenhamos, por mais brilhante e original que ele seja, ele sempre foi esnobado por Hollywood por ser considerado "esquisito". Quando Tina Fey e Amy Poehler disseram que ele havia chegado ao evento "de bicicleta cheia de peças de equipamentos", ficou bem evidente o preconceito e evidente também que ele não gostou. O reconhecimento veio tarde, o diretor já poderia ter ganho lá em 2013 por Moonrise Kingdom (2012).

MELHOR ATOR

-Drama: Eddie Redmayne
-Comédia/Musical: Michael Keaton

Nota: Desconheço os trabalhos de Eddie Redmayne até o momento, mas dizem que sua atuação, embora boa, não seja tão exemplar como a de Benedict Cumberbatch em O Jogo da Imitação, que é um ator que deveria ter levado o prêmio simplesmente porque ele é muito bom, algo bem ao nível de Daniel Day Lewis. Michael Keaton ter ganho era uma volta por cima necessária em um filme que pode ser levado com certa ironia a própria carreira do ator. Keaton amargou fracassos após fracassos, virou ator de filmes de B a Z, foi esquecido, injustiçado e espezinhado por Hollywood desde quando abandonou a capa do Batman, e assim como houve os retornos triunfais de Mikey Rourke e Robert Downey Jr., agora é a vez de Hollywood entregar a faixa de Cinderela Story para Michael Keaton. Merecido também, mas não podemos esquecer que se Hollywood quiser desprezá-lo de novo, isso será fácil.

MELHOR ATRIZ
-Drama: Juliane Moore
-Musical/Comédia: Amy Adams

Nota: Embora Juliane Moore tenha escorregado em alguns quiabos nos últimos anos em alguns filmes bem meia boca, ela é uma das poucas de sua geração que podem ser equivalentes a Meryl Streep. Além de Para Sempre Alice, ela esteve em Mapa Para as Estrelas, de David Chronemberg, no qual também concorreu como melhor atriz coadjuvante. Não é um filme muito memorável, mas sua atuação foi magnífica. E Amy Adams vence pelo segundo ano consecutivo, é como se agora ela estivesse tirando o atraso das vezes que concorreu anteriormente e perdeu.

MELHOR ATOR COADJUVANTE
J.K. Simons

Nota: Era o predileto, não apenas pelo trabalho como também pelo conjunto de obra. Os perdedores tinham obrigação de aceitar.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Patricia Arquete

Nota: Assim como o prêmio de Melhor Ator Drama, não acho que foi muito justo. Patricia tem uma atuação que sempre me aparenta desleixo, como se ela estivesse ali por estar. Em Boyhood não foi diferente. Ela começa muito bem, mas no decorrer do filme é evidente que ela parece estar de saco cheio. Não foi um papel diferente de nenhum q ela interpretou anteriormente, principalmente na televisão. Mas enfim... é outra que um dia foi famosa e no outro foi esquecida. Mas não acredito que la chegue ao Oscar.

MELHOR DIRETOR
Richard Linklater

Nota: Já disse acima que foi mais que merecido. Sem mais.

MELHOR ROTEIRO
Birdman

Nota: O filme de Michael Keaton (é assim que muita gente chamará) merecia. Ainda inédito no Brasil, tem recebido elogios impares sobre o roteiro, dizendo ser moderno, difícil... enfim. Não duvido... Inãrrítu, o diretor, sempre foi meio difícil.

domingo, 21 de dezembro de 2014

12 ANOS DE LIBERDADE...

★★★★★★★★★☆
Título: Boyhood
Ano: 2014
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Richard Linklater
Elenco: Ethan Hawke, Patricia Arquette, Ellar Coltrane, Lorelei Linklater
País: Estados Unidos
Duração: 165 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A trajetória de 12 anos na vida de Mason e sua família, um garoto de 7 anos que terá de lidar com obstáculos, escolhas e peregrinar uma longa caminhada até seus 18 anos.

O QUE TENHO A DIZER...
2014 talvez seja o ano de Richard Linklater que, aos 54 anos, ganhou o documentário 21 Years: Richard Linklater (2014), lançado no final de Outubro, no qual os diretores Michael Dunaway e Tara Wood conseguiram reunir a maioria dos atores que trabalharam com o diretor para fazer uma retrospectiva sobre a forma como ele definiu a cultura pop norte-americana com relevância nos últimos 21 anos. O lançamento do documentário praticamente coincidiu com o lançamento do filme, que teve estréia no começo de Novembro, o trabalho mais ousado do diretor e, porque não, um dos mais ousados do cinema, já que foram 11 anos consecutivos de filmagens em uma produção que durou, ao todo, 12 anos, em um total de apenas 44 dias de filmagem.

Em 2002 o diretor colocou em prática a idéia que há muito tempo tinha em contar o desenvolvimento de um garoto em meio a suas relações familiares, tudo dentro de um espaço de tempo que iniciasse no seu primeiro ano escolar até seu primeiro dia de faculdade, pontuando as delícias e as complexidades de uma importante fase de aprendizados e adaptações responsáveis pela construção da percepção e do caráter do ser humano.

O diretor precisava de atores que se comprometessem a realizar as filmagens anualmente para que o registro do tempo como agente modificador fosse verossímil, e eles se comprometeram mesmo não havendo um contrato que os prendessem ao projeto, já que uma lei nos Estados Unidos proíbe contratos de trabalho que durem mais de sete anos. O roteiro também nunca foi completamente escrito, segundo Linklater, havia um enredo a ser seguido, e o final do filme também já era definido, mas a história foi desenvolvida ano após ano baseando-se sempre nas filmagens anteriores e nas mudanças que ele notava nos atores no momento específico em que se reuniam, pois queria respeitar essas naturais progressões e limitações do tempo. Muitas vezes o roteiro era finalizado na noite anterior do reinício de filmagens e era mantido aberto para o ano seguinte. As sequências anuais foram todas filmadas como um curta metragem de 15 minutos, e posteriormente editados como um longa.

Assim como nos filmes Antes do Amanhecer (Before Sunrise, 1995), Antes do Por do Sol (Before Sunset, 2004) e Antes da Meia Noite (Before Midnight, 2013), os atores principais também participaram ativamente do processo criativo, principalmente Ethan Hawke e Patricia Arquete, que construiram seus personagens baseando-se, respectivamente, em seu pai e sua mãe, o que de certa forma traz outra dimensão ao filme, fazendo-o também ser uma coletânea de pequenas experiências pessoais e referências biográficas além das do próprio Linklater tanto sobre sua vida pessoal, como de seus trabalhos anteriores.

O maior medo do diretor era de seu projeto não sair como o planejado, tanto que ele solicitou a Ethan Hawke, amigo e colaborador de longa data, a finalizar o projeto caso morresse. Para Ethan, ter feito um mesmo filme por 12 anos e depois ver no resultado final as mudanças e traformações físicas ocorrida no decorrer dos anos, foi como assistir uma sequência de fotos em timelapse sobre o ser humano.

Por fim tudo deu certo. Linklater não morreu e o comprometimento de todo o elenco foi o mesmo até o fim, com excessão de sua filha, Lorelei Linklater, que depois dos primeiros anos de filmagem perdeu o interesse e solicitou a seu pai que a personagem fosse morta. O diretor acreditou que seria uma reviravolta muito dramática para a proposta do filme, e conseguiu convencê-la e novamente entusiasmá-la a continuar. A produção também foi fiel e difícil, já que todo ano era necessário salvar alguns milhares de dólares para a conclusão de mais uma etapa de filmagem.

Definitivamente os esforços são notáveis, e o resultado de tudo é um filme que, embora longo em duração, em sua essência seja curto demais para resumir 12 anos. Mas a inegável habilidade de Linklater de lidar com assuntos verdadeiros e de forma realista, além da projeção bastante sólida do resultado final almejado, consegue fazer o filme se manter linear e bastante coerente, mesmo filmado e escrito em retalhos que visivelmente mostram as trasformações físicas e comportamentais de todos trazidas pelo tempo.

É impossível não associar o filme ao seriado Anos Incríveis (The Wonder Years, 1988), criado por Neal Marlens e Carol Black, que acompanhou a trajetória da infância até a adolescência do personagem Kevin Arnold e sua família frente ao período de grandes mudanças que os Estados Unidos passava nos anos 60. O projeto de Linklater é tão consistente quanto, e o restultado de ambos também é praticamente o mesmo. A grande diferença é que Linklater até define a história no tempo, e alguns dos fatores externos, tanto políticos quanto sociais, chegam até a ser citados, como a desaprovação ao governo de George W. Bush e a forte crença na época de que Barack Obama representava uma grande mudança positiva no país. Mas tudo isso é abordado apenas no intuito de dar profundidade aos ideiais progressista tanto do pai quanto da mãe e como esse pensamento é repassado a seus filhos como heranças construtivas ao invés de fazer desses temas referências de grande impacto em suas vidas. Por fim, o resultado de tudo se baseia unica e exclusivamente frente as escolhas pessoais de cada e que automaticamente refletem uns nos outros como um efeito dominó.

O que se vê como um todo é exatamente tudo aquilo que Linklater já abordou desde o clássico adolescente que o revelou, Jovens, Loucos e Rebeldes (Dazed And Confused, 1993), no qual mostra sem filtros as descobertas sexuais e lisérgicas da adolescência, até Antes da Meia-Noite (Before Midnight, 2013), o último episódio da cultuada trilogia romântica filmada com um espaço de 9 anos entre uma continuação e outra (e ainda há espaço para futuras continuações), na qual abordou de forma muito orgânica e expressiva o nascimento de uma relação que sobrevive, amadurece e envelhece com o tempo (o momento em que Mason caminha nas ruas conversando com uma colega em uma tomada contínua talvez seja uma referência direta à espontaneidade abordada nessa trilogia).

Portanto, acima de tudo, o filme também é um documento consistente de todo o estilo do diretor, que tem como marca registrada a abordagem do cotidiano na sua forma mais pura e pelo ponto de vista obsevador mais objetivo possível, e que o tempo é sempre o personagem principal e catalisador de toda sua visão artística.

Esse perído de doze anos que o espectador literalmente vivencia com o personagem Mason (Ellar Coltrane) consegue definir, tal qual as letras ou as notas de uma música definem uma melodia e suas sensações, como os fatos do cotidiano da vida familiar e as relações construídas com outras pessoas por onde passa, bem como as experiências ora empolgantes, ora frustrantes, foram importantes agentes transformadores que gradualmente o maturaram como uma pessoa excêntrica, sensível, introspectiva e ávida por desbravar mundos que desconhece. Uma forma muito sucinta de também definir que somos a conseqüência das experiências vividas, e que antes de julgarmos as atitudes ou o comportamento de outros, devemos conhecer sua história.

Também mostra que, dentro das constituições familiares modernas, embora a separação dos pais de Mason tenham psicologicamente impactado o personagem, isso não foi em momento algum pretexto para decisões erradas, atitudes explosivas ou uma juventude transviada justamente por conta do apoio e da sólida educação ofertada por eles de forma incondicional, tenha sido quaisquer as dificuldades que cada um deles passou. Dessa forma o diretor aborda que cada um de nós tem o seu próprio tempo para suas próprias descobertas e que para nada é necessário a pressa, apenas a paciência, compreensão e respeito.

A realidade construída por Linklater traz momentos poéticos e muito simbólicos para cada fase vivida pelo personagem, como no momento em que completa 15 anos e ganha de presente uma coletânea dos Beattles, uma Bíblia, um terno e uma espingarda, presentes com fortes significados simbólicos e únicos. Ou seja, diferentes níveis de cultura, crença e responsabilidades que, unidas em uma única cena, se chocam e resumem com pontualidade a complexidade e o caos latente da idade. Por outros momentos vemos o personagem em situações que levam o espectador a uma jornada mais nostálgica que nos relembra de nossa própria infância, e por outras vezes melancólica por nossa infância (talvez) não ter sido tão livre e espontânea como a de Mason, e que poderíamos realmente ter feito mais do que fizemos, e de que não é a vida que passa rápido demais sem percebermos, mas as lembranças que somem com o tempo e que encurtam nossa percepção sobre ele.

É o projeto da vida do diretor sobre um pedaço da vida resumido de forma precisa e emocionante, que firmam sua importância no cenário indie contemporâneo principalmente na realização de mais uma obra que fielmente retrata as precoces complexidades da vida e as escolhas que nos definem. Mesmo havendo aquele tom de que não é necessário levar nada a sério porque a infância e adolescência são fases para se cometer erros, como popularmente se ouve, é então que notamos a importância e a necessidade dessas fases serem respeitadas, compreendidas e limitadas não de forma proibitiva, mas direcionadas para o bem da maturidade, principalmente em uma época onde tudo está muito rápido e cada vez mais o ser humano as encurtam cada vez mais, atropelando tempos e espaços.

Uma pena que, dentro da proposta de longa duração de filmagem, alguns núcleos se perderam ou se concluíram mais rápido do que esperado, como a família do segundo casamento da mãe do personagem. Teria sido muito interessante se os irmãos adotivos de Mason e Samantha tivessem reaparecido apenas para concluir a relação construtiva e madura que tiveram, ou se tivessem sido citados novamente em alguma ocasião apenas para não deixar o arco dramático aberto e a sensação de que tudo foi passageiro e irrelevante. Ou uma razão mais fundamentada do terceiro casamento da mãe de Mason novamente não ter dado certo. Fica no ar se a relação foi uma repetição dos erros das relações anteriores ou quem foi o responsável pelo quê no conflito que se desenvolve.

Como sempre acontece com a maioria dos filmes independentes e experimentais - como esse de certa forma é - o desenvolvimento é lento, e muito para compreendê-lo demanda atenção aos detalhes. Não é todo público que tem paciência para isso ou disposição para captar os propósitos, mas ficarão bastante inspirados aqueles que se disporem a isso.

De qualquer forma, Boyhood tem sido muito bem aceito pela crítica e já está listado nos principais prêmios da temporada, automaticamente sendo um dos favoritos ao Oscar. Como sempre digo, não que isso hoje em dia signifique alguma grande coisa, mas ainda é um reconhecimento válido, um marketing positivo para uma obra como essa, principalmente em premiações que costumam favorecer apenas os filmes de grande circuito ou aqueles que conseguem entrar no grande circuito. E repetindo, talvez este seja o ano do diretor. Merecido, tanto pela obra em si, como pelo conjunto de trabalhos marcantes e memoráveis. Mais que tudo, coeso e fiel ao seu estilo, um diretor que conseguiu transformar o tempo em um objeto artístico concreto.

CONCLUSÃO...
Linklater é o diretor que mais conseguiu transformar o tempo em um personagem vivo, seja o tempo como um momento único, seja o tempo como uma sequência de situações que caracterizam seus personagens e suas escolhas. Mais um trabalho memorável e que atinge pontualmente cada um, independente da maneira, além de um projeto ousado e que resultou em um belíssimo resumo de uma importante fase da vida. Como dito por Hawke, como um timelapse do ser humano.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

DEIXANDO AS HELENAS PARA TRÁS...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Gata Velha Ainda Mia
Ano: 2014
Gênero: Drama, Suspense
Classificação: 16 anos
Direção: Rafael Primot
Elenco: Regina Duarte, Barba Paz, Gilda Nomacce
País: Brasil
Duração: 89 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Gloria Polk é uma escritora feminista que resolve publicar um novo livro depois de um hiato de mais de uma década e que aceita conceder uma entrevista a Carol, uma jovem jornalista e grande admiradora de suas obras.

O QUE TENHO A DIZER...
Com quase 50 anos de carreira na televisão, foram poucas as vezes que Regina Duarte ousou, não porque não quis, mas porque assim foi feito. Contratada da Rede Globo desde sempre, foi entitulada "namoradinha do Brasil" na década de 70, uma alcunha que carrega até hoje, da qual nunca conseguiu se desvincular. Já afirmou considerar uma honra e não se importar, mas depois de tanto tempo, ainda considerá-la como tal não apenas é anacrônico como incoerente. A emissora sempre fez questão de explorar sua imagem dessa forma, oferecendo papéis semelhantes seguidos de outros semelhantes que a estereotiparam tal qual como as Helenas de Manoel Carlos, que só ela foi responsável por três.

Mesmo assim não podemos ignorar papéis memoráveis escritos por grandes autores ao longo de sua carreira, como Malu (Malu Mulher, 1979); Viúva Porcina (Roque Santeiro, 1985); Raquel (Vale Tudo, 1988) e Maria do Carmo (Rainha da Sucata, 1990).

Em 2011 foi uma agradável surpresa ver Regina atuar de forma mais livre em O Astro, e talvez também tenha sido o choque de realidade que lhe faltava de que não existe idade para bons papéis, mas faltam bons autores no mercado. Por isso, vale falar um pouco sobre sua personagem, Clo Hayala, uma mulher histérica, traída por todos os lados, que sofria de distimias emocionais e a constante incompreensão por ter sido sempre subestimada e subjulgada pelos homens. Não era uma vilã, mas seus diálogos eram sempre precisos e ferinos, que tinham propósitos claros dentro de suas intenções. Aos poucos Clô ganhou mais destaque na trama, e terminou roubando a cena de todo mundo, e a novela das 23h na verdade se transformou em um show particular da atriz que há muito não se via, talvez, desde Roque Santeiro.

Para quem acompanhou os 64 capítulos, não há uma cena em que ela apareça, por mais curta que seja, que sua performance não seja memorável, digna de nota pelo humor drástico e caricato embutidos, e nem por isso bastante dramáticos em outras situações. A articulação verbal é aquela que conhecemos da atriz, mas as ênfases emocionais e gestuais eram precisas e teatrais, em um exagero que a personagem pedia e que caiu muito bem, muitas vezes levando a uma deliciosa nostalgia daquilo que chegou a fazer com Porcina na década de 80. O prazer particular e a dedicação em poder ousar em cima de uma personagem que ia na contra mão de muitas das anteriores que representou era evidente, e vê-la aos 64 anos interpretando alguém tão instável, cheia de diversas camadas dramáticas, não apenas mostrou uma faceta da atriz que não conhecíamos, como também deixou um gosto de quero mais tanto para o público surpreso, quanto para ela mesma.

Em suas últimas entrevistas, Regina agora admite que o excesso de papéis semelhantes em sua carreira tenha sido responsável por acostumar seu público a um tipo específico e dificultar seu acesso a outros personagens mais ousados na televisão. Ela afirma que isso nunca foi um problema, mas na atual fase de sua carreira, assim como outras atrizes de sua geração e com um currículo tão vasto como o dela, faz mais sentido do que nunca buscar projetos diferenciados que a faça se sentir mais livre e independente, sem pesos de audiência ou de sucesso de público, pois o que vale agora é sua realização pessoal. E é o que ela vem fazendo em projetos teatrais ou cinematográficos como esse.

E é assim que Gata Velha Ainda Mia se bem sucede.

Dirigido, escrito e produzido por Rafael Primot, o filme é um suspense psicológico e dramático que se passa dentro do apartamento de Gloria Polk, uma escritora feminista, famosa nos anos 70 e 80, que resolve publicar um novo livro depois de um hiato de mais de uma década. Por isso, concede uma entrevista a uma jovem jornalista, interpretada por Barbara Paz. Como todos os arcos dramáticos se desenvolvem apenas entre as duas personagens, falar mais sobre o enredo é revelar algumas surpresas que podem não ser muito originais, mas Regina consegue evoluir tão bem ao lidar com tantas texturas emocionais que Gloria Polk se torna uma figura exótica nos seus próprios termos, carregada de um humor ácido e depreciativo, nem por isso deixando de ser trágica.

É nesse filme que vemos Regina Duarte na sua forma mais crua e incomparável com qualquer um de seus trabalhos anteriores. Construída em cima de um figurino propositalmente datado e de apenas uma prótese dentária discreta para intensificar a cólera contra as mudanças comportamentais e de ideais que o tempo leva e traz, a atriz está completamente ausente de maquiagem, como que despida, o que tem sido a grande tendência das abordagens mais realistas do cinema atual. O trabalho desenvolvido por Primot sem dúvida conseguiu tirar da atriz o melhor desempenho de sua carreira, e isso não é exagero.

Embora a presença de cena e sua linguagem ainda se mantenha bastante formal, Regina consegue mesmo assim ser natural, espontânea e objetiva, ao mesmo tempo que se mostra mais atualizada e menos tradicionalista, longe dos vícios teledramatúrgicos que se confortaram ao longo dos anos. Talvez na vontade de também vê-la extravasar suas ânsias artísticas que se acumularam com o tempo, o diretor em momento algum subestima as capacidades da atriz, extraindo dela momentos bastante vicerais que poderão ser chocantes para aqueles que estão acostumados com a imagem sempre serena e comedida dos folhetins televisivos que ela trabalhou.

Barbara Paz não decepciona, mas sai ofuscada. Seu rosto de traços protusos e sua postura física naturalmente forte se chocam diretamente com a personagem de Regina Duarte, que já é forte o bastante para dominar as cenas sozinha, não havendo contrastes convincentes entre a personagem Carol e o cenário, ou entre Carol e Gloria. Chega a ser difícil aceitá-la como uma antagonista de fato, já que a química entre as duas atrizes e a interação de suas personagens, ao invés de se complementarem (como é sugerido pelo roteiro) soam forçadas, e a relação conflituosa de admiração e desdém se arrasta empurrada na base da insistência. Não são deméritos de Barbara como atriz, mas como dito, não há elementos contrastantes como acontece, por exemplo, entre as personagens de Judi Dench e Cate Blanchett no filme Notas Sobre Um Escândalo (Notes On A Scandal, 2006), já que a relação entre elas é bastante similar com a relação proposta no filme de Primot. Portanto há a impressão de que faltaram testes de elenco, e que o papel foi entregue a Bárbara mais por confiança e parceria pela amizade de longa data de ambos do que por algo previamente planejado e visionado com esmero, como aconteceu na escolha de Regina para o papel principal.

A trama se desenvolve gradualmente e fatos são revelados em momentos bem específicos para elevar a atmosfera tensa, trazendo à tona conflitos entre o que é realidade e o que é ficção, e entre a escritora e a jornalista, que a princípio o espectador não prevê. Mas infelizmente, na segunda metade, essa evolução perde um pouco o fôlego, e a imprevisibilidade construída no início da lugar para alguns deja vus àqueles que estão familiarizados com filmes estrangeiros do gênero. Tudo se conclui de uma forma até inesperada, mas faltou uma articulação mais fina dos fatos para realmente surpreender como deveria, porque todos os elementos estavam lá, prontos para aquela conclusão.

A ousadia de Primot em ter dado um papel que finalmente e novamente rendeu a Regina Duarte liberdade para criar, desenvolver e fugir dos estereótipos nos quais a televisão a aprisionou, bem como desenvolver com baixo orçamento um filme diferenciado, dentro de um gênero que raramente se vê no Brasil, já são méritos válidos. Infelizmente é um filme para baixo circuito, mas memorável pela grandiosa presença de cena que Regina Duarte proporciona, enfática nos diálogos muito bem escritos e uma parceria com um cineasta promissor que deu muito certo.

CONCLUSÃO...
Resumir dizendo que Regina Duarte simplesmente impressiona e entrega uma de suas melhores atuações até o momento (se não for a melhor), não é um exagero, mas um convite para ver com os próprios olhos e concluir o mesmo.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

MARVEL NO ESPAÇO...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Guardiões da Galáxia (Guardians Of The Galaxy)
Ano: 2014
Gênero: Ação
Classificação: 12 anos
Direção: James Gunn
Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Lee Pace, Michael Rooker, Djimon Hounsou, Glenn Close, John C. Reilly, Benicio Del Toro, Bradley Cooper, Vin Diesel
País: Estados Unidos
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um grupo de criminosos espaciais devem trabalhar juntos para impedir um fanático vilão de destruir o universo.

O QUE TENHO A DIZER...
Se teve uma coisa que a Marvel aprendeu com alguns erros foi descobrir a fórmula correta para adaptar seus heróis e agradar todos os tipos de público, desde os fãs mais exigentes até aqueles que entram no cinema apenas pra comer pipoca e matar o tempo vago, seja criança ou não. A empresa, que já era uma gigante dos quadrinhos, transformou seu estúdio e produtora em um dos bens mais valiosos da indústria atualmente. Não é por menos. Seus filmes mais importantes, em um período de 15 anos, já arrecadaram uma soma que beira os 10 bilhões de dólares, uma marca que outros grandes estúdios não conseguiram alcançar nos últimos 20 anos, além de também deterem o terceiro lugar entre os mais rentáveis da história com Os Vingadores (The Avengers, 2012), um recorde que poderá ser superado com a(s) continuação(ões) seguinte(s).

O que aconteceu com Guardiões da Galáxia foi um fato curioso. Embora o buzz criado desde seu anúncio até o lançamento tenha sido muito grande e a estréia satisfatória por conta do massivo marketing típico com o recorde de mais de 4 mil salas de exibição, na segunda e terceira semanas ele caiu de posição, o que fez parecer que sua arrecadação não iria muito longe além de pagar seu orçamento de US$170 milhões. Porém as críticas favoráveis e o boca-a-boca foram mais fortes, e essa reunião inusitada de heróis disconexos atraiu a simpatia do público que injetou a nitroglicerina que faltava para o título retomar o primeiro lugar nas bilheterias que se manteve por quatro semanas. Um acontecimento raro. O filme surpreendentemente cresceu por si só e agora não apenas é considerado uma das melhores produções da Marvel como também uma das melhores adaptações já feitas, arrecadando quase US$800 milhões pelo mundo, um sucesso merecido que fez o diretor e roteirista James Gunn agradecer publicamente nas redes sociais o apoio e as críticas positivas recebidas, diretor muito pouco conhecido, que possuia nenhum título muito relevante até então.

Esse fato curioso já é seu mérito, e vale ser assistido por isso e também para entender como heróis não muito difundidos na cultura pop mundial conseguiram se engrandecer de tal forma a conquistar uma média de mais de 60 milhões de pessoas (fora aquelas que os conhecerão por home video). Conhecidos para quem devora quadrinhos, mas para os demais era como se fosse uma grande novidade.

A Marvel resolveu investir neste grupo para trazer ao seu universo uma saga espacial, talvez para reacender uma chama apagada desde os anos 90 e que foi reacesa com muito custo com a retomada da fraca primeira trilogia de Star Wars e o reboot de Star Trek, que era até o momento o dominante no gênero. Por conta disso não é à toa que há muitas similaridades entre Peter Quill e Hans Solo, Rocket e Groot com a dupla R2D2 e C3PO (ou até mesmo do próprio Groot com o peludo Chewbacca), e toda a ambientação ser muito característica da filosofia pluralista do universo Star Trek. 

Claro que a história vai ir e vir entre esses dois grandes clássicos e beber de suas fontes de maneira inesgotável, mas por incrível que pareça consegue soltar entre alguns momentos e outros uma certa originalidade por agregar a estas referências a atmosfera mais fantástica do mundo dos quadrinhos com vilões superpoderosos, artefatos ameaçadores e pessoas comuns que, para se redimirem de seus erros passados, se transformam em heróis.

O grupo não podia ser mais esquisito, e é formado pelo saqueador Peter Quill, um órfão roubado da Terra nos anos 80 e que levou consigo um walkman, a única memória de sua mãe, no qual ainda ouve insistentemente há 26 anos os mesmos clássicos pop gravados em um K7; a assassina Gamora, também órfã e adotada por Thanos, o soberano dos vilões; o criminoso Drax, que teve sua família assassinada e agora busca vingança; o guaxinim Rocket (muito bem dublado por Bradley Cooper), um caçador de recompensas que trabalha junto com seu amigo e parceiro Groot, um monstro planta e talvez único de sua espécie.

Pelo fato de todos terem em comum a perda de algo muito valioso de suas vidas e se identificarem com isso, na idéia da "união faz a força", eles se unem primeiramente para fugir de uma prisão de segurança máxima e acabam entrando de gaiato numa jornada espacial para evitar que um importante artefato capaz de destruir todo um universo caia nas mãos de Ronan, ou de Thanos.

Ao longo dos 120 minutos de filme os laços de amizade e a relação co-dependente que cada um cria sobre o outro vai parecer um pouco forçada e apressada demais, mas isso vai ser um mero detalhe frente ao grande épico espacial que é apresentado principalmente ao público infanto-juvenil. O planeta futurista, cheio de Lady Gagas, pessoas coloridas e tudo que se pode imaginar para se distanciarem o mais possível de qualquer referência terrestre infelizmente se perde no seu próprio exagero, principalmente pelo fato de grande parte do filme ser em computação gráfica, o que acaba enjoando com tanta imagem plástica e artificial, confusa em diversas sequências de ação ao ponto do espectador perder pontos de referência ou até mesmo o que de fato acontece.

A história é fraca e repetida, nada que qualquer outro filme de super heróis não tenha abordado antes, e o que ganha são mesmo os personagens e essa relação conflituosa como a de pessoas que falam diferentes línguas, mas se entendem de alguma forma. Nada muito ousado poderia ser esperado da Marvel, adquirida pela Disney em 2009 e que definitivamente limitou muito suas liberdades de criação para se adaptarem às filosofias infantis da marca do Mickey. Ao menos o que os diferencia de outros heróis é a natureza pouco correta de cada um e as piadas bem encaixadas que ainda não se sobrepõem aos clichés exagerados ou frases de impacto imediato, mas funcionam mesmo assim. Obviamente que o guaxinim e seu monstro amigo serão o núcleo cômico, como é a tendência de toda fábula que incrementa um filme que não é de animação. Previsível, mas que também não atrapalha por ser bem dosado. São outros detalhes que trazem graça a produção, como o hiper literal Dex, que grandalhão como é, tem pensamento profundos e frases bem elaboradas de vocabulário muito correto, ou até mesmo Peter Quill, o personagem central, cheio de piadas irônicas e metafóricas que levam os extraterrestres à loucura. Detalhes muito simples e funcionais para quebrar a seriedade de algumas sequências.

É a produtora dominando mais uma vez o cinema de ação fantástico, confortável numa fórmula que ainda funciona e tem seus atrativos, mas o susto tomado pela oscilação que o filme a princípio sofreu nas bilheterias antes de novamente alçar seu voo é um indício de que mais uma vez salvar o planeta ou o universo do mal não deve ser mais a única alternativa para se desenvolver uma história de heróis.

CONCLUSÃO...
É Marvel sendo Marvel e moldada pela Dis ney. Um filme basicamente de computação gráfica, que vale a pena pela relação disconexa de personagens com gritantes diferenças de personalidade e que desenvolvem uma relação interessante, mesmo que rápida demais e pouco convincente nas duas horas do novo épico espacial.

sábado, 8 de novembro de 2014

CINE TRASH...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Housebound
Ano: 2014
Gênero: Comédia, Horror, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Gerard Johnstone
Elenco: Morgana O'Reilly, Rima Te Wiata, Glen-Paul Waru, Ross Harper, Cameron Rhodes
País: Nova Zelândia
Duração: 107 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma adolescente rebelde deve voltar para a casa de sua mãe para cumprir uma pena domiciliar de 8 meses. Ao voltar percebe estranhos acontecimentos acontecerem igual aconteciam na sua infância.

O QUE TENHO A DIZER...
Assim como algumas cidades grandes ou pequenas desenvolvem características muito particulares por estarem longe das capitais e das fortes referências e influências que elas proporcionam, o cinema, mesmo sendo uma linguagem universal, também desenvolve características próprias quanto mais longe de Hollywood está.

É o que acontece com este filme neozeolandês de estréia de Gerard Johnstone tanto na direção quanto no roteiro. Sem dúvida um dos filmes mais esquisitos que assisti ultimamente que mistura comédia, suspense e terror numa lambança que progride e pisa entre um estilo e outro que, por incrível que pareça, inesperadamente funciona.

Como dito, o filme tem um pouco de tudo. Ele parodia situações clichés do suspense com algumas referências hitchockianas propositalmente empobrecidas para desenvolver uma atmosfera paranóica que aos poucos dá lugar para o terror fantasmagórico, com pitadas de slasher movies, até chegar ao mais explícito e debochado gore. Parece muito para um filme só e poderia ser um gênero trash qualquer caso não tivesse sido tão bem pensado e organizado pois, mesmo explorando sem medo algum de errar o terror e todos os seus subgêneros relacionados, o diretor consegue segurar a atenção do espectador até quando o roteiro não esconde mais suas intenções de assustar e causar impacto em uma história cujo personagem principal é a sátira dela mesma.

Johnston prova como se fosse um trabalho de conclusão de curso em cinema que, fazer rir, assustar, causar espanto, apreensão e nojo, não são tarefas difíceis quando as técnicas são usadas corretamente até mesmo nos momentos mais previsíveis, clássicos e manjados de cada um dos gêneros explorados, seguindo à risca o que Hitchcock já propunha de que o cinema é simplesmente um exercício de técnicas. O elenco consegue desenvolver um papel fundamental quando há sempre aquela impressão que qualquer um deles cairá na gargalhada a qualquer momento, algo que dentro de toda a proposta do filme soa coerente, desde que o público compreenda que esse desenvovimento burlesco é tão proposital quanto os personagens caricatos e as situações tipicamente absurdas tal qual grandes clássicos dos anos 80. A grande diferença aqui é que mesmo com todo esse agregado de absurdos, os personagens conseguem ser interessantes e intuitivos, fugindo daquela sensação de que tudo que acontece às suas voltas é por consequência da estupidez redundante deles mesmos, algo que sempre se sobressai nesses gêneros.

Apesar de essa atmosfera satírica absurda e exagerada que pula entre um gênero e outro como a brincar de amarelinha, o filme é uma agradável surpresa porque utiliza todas as fórmulas existentes para entreter melhor do que grandes produções que utilizam as mesmas fórmulas com uma seriedade tão estúpida quanto personagens típicos que felizmente não vemos aqui.

CONCLUSÃO...
Tem de tudo um pouco para quem gosta de qualquer um dos gêneros, mas agradará principalmente aqueles que adoram um bom, debochado e proposital trash.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

DE OLHO NO TWISTER...

★★★★★☆☆☆☆☆
Título: No Olho do Tornado (Into The Storm)
Ano: 2014
Gênero: Ação
Classificação: 12 anos
Direção: Steven Quale
Elenco: Sarah Wayne Callies, Matt Walsh, Richard Armitage, Max Deacon, Nathan Kress, Alycia Debnam Carey
País: Estados Unidos
Duração: 89 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um grupo de caçadores de tornados pretende documentar uma tempestade desde seu início. O que eles não esperavam é que teriam de enfrentar o maior tornado da história.

O QUE TENHO A DIZER...
Há 18 anos atrás o diretor Jan De Bont e os produtores de Jurassic Park traziam para o público Twister (1996), um filme de ação que se tornou um clássico do gênero ao reproduzir tão bem um fenômeno natural tão complexo, além de ter sido o primeiro filme a mostrá-lo como um grande personagem principal, recriado com efeitos especiais de ponta, um marco divisório no avanço tecnológico da computação gráfica tanto quanto os dinossauros de Spielberg. Lembrando que falo de quase duas décadas atrás, quando a tecnologia não havia atingido metade do que é hoje. Tanto é que o filme de De Bont custou aproximadamente US$100 milhões, enquanto este teve um orçamento de US$50 milhões, tamanho a facilidade que os estúdios tem hoje de criarem cenas em computação gráfica.

O trailer de No Olho do Tornado mostrava que a premissa seria um tanto diferente ao ser no já saturado esquema de filmagem documentada em primeira pessoa, o que mesmo assim parecia interessante. A história se desenvolve entre três grupos de pessoas que estão fazendo diferentes registros em vídeo e que acabam se encontrando por conta de todo o caos. Dentre eles estão os caçadores de tornado, que fazem um documentário sobre o fenômeno mesmo sem ter encontrado uma tempestade sequer nos últimos três meses, o que tem tirado a paciência dos investidores e do próprio diretor do filme.

O diretor Steven Quale, o mesmo de Premonição 5 (Final Destination 5, 2011), se utiliza de diferentes estilos de filmagem para compor a narrativa documentada, e esse acúmulo de informação vira uma bagunça que ele até consegue driblar bem, mas nada teria sido tão efetivo caso esse excesso fosse abandonado e tudo partisse de um observador indeterminado e onipresente. Isso teria mantido a mesma sensação imersiva que ele propõe e, principalmente, poupado a produção de erros comuns neste estilo, como o terrível e constante balançar de câmeras que ataca a labirintite de qualquer um, ou os cortes desnecessários de alguns planos, situações que deixaram de ser perdoáveis quando estes tipos de filmes perderam suas intenções experimentais.

Essa imersão com certeza traz uma sensação empolgante e mais assustadora em alguns momentos, como acontece na sequência inicial de apresentação. Mas infelizmente o filme perde essa sensação amadora de sobrevivência quando é jogado para o espectador situações clichés que estão longe de ser naturais, como os personagens posicionarem estrategicamente as câmeras e se engajarem em monólogos vazios, ou quererem salvar a câmera mais que suas próprias vidas, o que já são por excelência parte dos erros comuns que não se encaixam mais. O excesso de personagens e de situações previsíveis que deixam claramente deduzido quem vai morrer e quem vai ter atitudes heróicas, além da trilha sonora pobre e inconveniente para forçar situações dramáticas que funcionariam apenas em novelas mexicanas, também não ajudam. Sem contar diversos momentos de perigo iminente em que ao invés de correrem, todos ficam parados assistindo o espetáculo como se fosse algo inofensivo até o último instante, forjando um suspense inadequado. Definitivamente momentos mais absurdos do que impressionantes e que estragam os objetivos que o diretor tentou construir desde o princípio.

Obviamente os efeitos especiais agradam com tornados para todos os gostos, havendo momento até para um tornado de fogo, fenômeno raro e que no filme foi bem executado, ou um tornado de nível 6, que nem existe, mas que funciona. Nem Tempestade, dos X-Men, conseguiria controlar tanta fúria da natureza. São essencialmente esses elementos que conseguem surpreender em alguns momentos bem devidos, mas ainda ficou longe de causar a grandiosa impressão avassaladora que o filme de Jan De Bont fez no passado, filme que ainda hoje não perde em qualquer qualidade, inclusive nos efeitos, e que arrecadou quase US$500 milhões na época, diferente deste que não passou dos US$110 milhões.

Como um todo, essa nova produção nada mais tentou ser do que um reboot de Twister, tanto que a própria história, a progressão dos fenômenos e seus diferentes níveis de destruição seguem exatamente o mesmo desenvolvimento, só atualizaram o estilo narrativo, acrescentaram algumas coisas aqui e alí, e aumentaram o número de personagens esquecíveis. Ou seja, Twister é por excelência um clássico do cinema arrasa-quarteirão.

CONCLUSÃO...
Um filme que agradará aqueles que vagamente lembram de Twister e que vai mostrar exatamente aquilo que todo mundo quer ver. Não deixa de ter uma abordagem interessante, mas que desempolga quando o roteiro incrementa a história com situações desnecessárias, previsíveis e pouco convincentes. Depois dele, vale a pena rever o clássico de Jan De Bont para reviver a sensação que ele proporcionou há 18 anos atrás.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A VOLTA DO BRUCUTU...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Hercules
Ano: 2014
Gênero: Ação, Guerra
Classificação: 14 anos
Direção: Bratt Ratner
Elenco: Dwayne Johnson, John Hurt, Rufus Sewell, Ingrid Bolso Berdal, Aksel Hennie, Ian McShane, Reece Ritchie, Joseph Fiennes.
País: Estados Unidos
Duração: 98 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Depois de seus 12 trabalhos virarem lenda e se dissipado por toda a Grécia, Hércules agora é procurado pelo rei de Tracia e sua filha para ajudá-los a sair das garras de um grande tirano.

O QUE TENHO A DIZER...
Me lembro que nos anos 90 houve uma publicação sobre um filme de Schwarzenegger (ou Stallone?) depois de um tempo sumido e o nome da matéria era exatamente "A VOLTA DO BRUCUTU", e não pude encontrar melhor título do que esse para falar de Dwayne "ex-The Rock" Johnson no primeiro filme a levar apenas seu nome no cartaz definitivamente como um astro de um filme épico e não mais como um ex-lutador que virou ator por consequência.

Ainda está para ser feito um filme que utilize a Mitologia Grega como se deve. É inacreditável a capacidade que Hollywood tem de destruir grandiosas lendas e mitos a favor de seu próprio enaltecimento, como se tudo fosse um produto deles mesmos. Talvez os únicos que até hoje tenham captado bem essa fantasia, mesmo com todas as limitações técnicas da época, foram os clássicos Jasão e o Velo de Ouro (Jason and The Argonauts, 1963) e Fúria de Titãs (Clash Of The Titans, 1981), sendo este último vencedor de um remake sofrível em 2010 e de uma continuação mais sofrível ainda em 2012.

Não se pode negar que muito do dinheiro que os estúdios tem investido de maneira muito banal na Mitologia nos últimos anos tem a ver com os rumores que surgiram em 2007 de que a série de jogos God Of War, produzida pela Sony, seria adaptada ao cinema. Isso deu oportunidade para outros grandes estúdios criarem uma onda precipitada de interesses no tema que resultou em filmes fracos que cansaram o público ao ponto desta adaptação agora ser uma grande interrogação.

Hércules é mais um filme que surgiu nessa pós-safra, além de ter sido lançado seis meses depois de outro filme também sobre o semi-deus, mas estrelado pelo loiro Kellan Lutz. O primeiro filme foi tão mal recebido pela crítica e pelo público que o filme com Dwayne Johnson virou uma preocupação. De fato, muito do modesto desempenho nas bilheterias foi por conta tanto dos sucessivos fracassos de Hollywood, como também por ter sido precedido tão recentemente por outra péssima adaptação sobre o mesmo personagem.

Que o personagem é o mais popularmente conhecido e o mais adaptado no cinema e na televisão, isso não há dúvidas, o que dá sempre aquela sensação de que não iremos ver nada muito diferente. É baseado nesse senso comum que os roteiristas brincam logo no princípio, quando o contador de histórias, sobrinho do herói, narra de forma resumida e grandiosa algumas de suas principais vitórias para impressionar os inimigos. Tudo é feito da maneira como seria qualquer grande épico, fazendo jus principalmente à imagem truculenta do ator principal no meio de efeitos especiais caprichados, como o público sempre espera. Mas em seguida a narrativa engata um tom debochado que será o grande responsável por alguns interessantes diferenciais, como a tentativa de desmistificar figuras mitológicas como os centauros e o Cerbero e até mesmo humanizar a própria figura de Hercules, criando a dúvida se ele era apenas um homem muito forte ou realmente um semi-deus.

Neste filme Hércules agora é um mercenário oportunista que se beneficia da sua fama para disseminar o medo e vencer seus inimigos antes de combate-los, o que deixa suas recompensas cada vez mais altas no mercado. Ao contrário do que imaginam, ele não faz isso sozinho, tendo o auxílio de seus fiéis companheiros: um vidente, um atirador de facas, uma arqueira, um guerreiro suicida e o próprio contador de histórias. Este é o mais próximo de uma péssima conduta do herói que já ousaram chegar, uma abordagem diferenciada que foge um pouco da visão mais ocidental criada por Hollywood e se aproxima mais daquilo que a mitologia o descreve. 

O roteiro tenta recriar fórmulas de alguns títulos épicos do passado, mas que pereceram com o passar das décadas. Embora atores como Jason Stathan e Vin Diesel já ocupem o espaço deixado por Stallone, Mel Gibson, Kurt Russel ou Steven Seagal, Dwayne agora ocupa aquela vaga de ator bruta-montes que outrora foi de Schwarzenegger, que bate sem rodeios e esmaga ossos sem fazer qualquer esforço. Tentaram fazer isso com Jason Momoa, até deram a ele o papel de Conan no remake, mas mesmo sisudo tal qual o ator austríaco, é o ex campeão de luta-livre que agora traz embutido o mesmo carisma carrancudo que Hollywood finalmente pode ressucitar. Claro que o filme não consegue explorar muito bem essa imagem truculenta de bom coração do ator como já conseguiram em seus outros filmes, ou tal qual conseguiam fazer com os filmes de Schwarzie, mas a presença de Dwayne em si já deixa claro que, mesmo no meio de toda a violência explícita, sangue e cenas de batalha até muito bem coreografadas, tudo é um grande entretenimento e não deve ser levado a sério principalmente quando ele faz os inimigos voarem com um simples murro, virar um cavalo de guerra ao chão com as próprias mãos ou sair voando com duas rochas penduradas em seus braços.

Para quem conhece a série God Of War encontrará muitas semelhanças em vários aspectos, seja nas cenas de ação, seja em algumas tragédias que se revelam no decorrer da história e na forma como são mostradas. Mais uma produção que pega carona no boato de uma adpatação que nunca saiu do papel, como uma adaptação não autorizada. Até a animação dos créditos finais só não é idêntica a dos jogos por pequenas diferenças. Vale lembrar que quando os rumores da adaptação dos jogos surgiu, houve boatos de que Brett Ratner era cogitado para a direção e Dwayne Johnson para personificar o implacável personagem Kratos, entitulado o Chuck Norris da nova geração. Talvez tantas semelhanças dessa produção com os jogos tenham algo a ver com isso.

A direção de Brett Ratner é correta e segura, mas ele está longe de ser um grande diretor, derrapando quando tenta aliviar toda a sopa de sangue entre alguns momentos bobos e outros, como é de costume nos seus filmes. A história felizmente não cai em muitos clichês sentimentais, nem tenta criar interesses românticos ou outras situações que vitimizem demais o personagem, mas Hollywood ainda tem medo de ser mais ousada e insiste em criar atitudes altruístas e hiper-heróicas para deixar bem situado que ele é um herói por excelência, como que a dar contra-peso à imagem mais selvagem que deram a Hercules nesta adaptação, que foi muito bem vinda, mas não atinge o impacto que poderia. É a visão exagerada e norte-americana sobre um personagem mitológico que, assim como todos da cultura grega, também é dotado de grandes defeitos.

CONCLUSÃO...
Infelizmente alguns diferenciais o salvou de desastres, mas não o salva de não saber em que terreno pisa. Não sabe se quer ser engraçado, chocante ou realista. Não sabe se quer levar Hercules a sério ou se querem debocha-lo. Não sabem se querem atingir o público adulto ou o adolescente. Não sabe se é um filme de guerra ou de ação. De qualquer forma, dentre todas as produções com abordagens mitológicas nos últimos anos, este talvez seja o mais aproveitável. Grande destaque para o desenho de produção, as locações e cenários deslumbrantes.
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