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terça-feira, 21 de novembro de 2017

PRECISAMOS FALAR SOBRE GRACE...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Alias Grace
Ano: 2017
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Marry Harron
Elenco: Sarah Gadon, Edward Holcroft, Zachary Levy, Paul Gross, Anna Paquin, Rebecca Liddiard, David Cronemberg
País: Canadá
Duração: 60 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Baseado na história real de Grace Marks, uma serviçal que é condenada a prisão perpétua por duplo homicídio.

O QUE TENHO A DIZER...
Em 1843, Thomas Kinnear e sua governanta, Nancy Montgomery, foram brutalmente assassinados na região do Alto Canadá, hoje sul da província de Ontário. Grace Marks e James McDermott, serviçais de Kinnear, foram acusados do crime. McDermott foi condenado à forca, e Grace acabou sendo sentenciada à prisão perpétua por, na época, ter apenas 16 anos, e porque a sua participação no crime tinha pontos inconclusivos.

A sentença foi controversa, pois por um lado a investigação concluiu que McDermott foi o principal responsável pelo crime por conta da brutalidade e da força necessária para tal, mas sua confissão afirmava que Grace não apenas participou, como também foi a mandante. Durante os 30 anos encarcerada, Grace afirmou não se lembrar de absolutamente qualquer coisa relacionada ao crime, e sua amnésia pós-traumática ergueu diversos questionamentos sobre o fato. Para piorar as dúvidas já existentes, o advogado de defesa dos réus orientou-os à uma confissão elaborada perante o juri. A confissão tinha apenas o intuito de aliviar a pena, já que a sentença havia sido determinada antes mesmo do julgamento. Logo, a confissão elaborada serviu, por fim, apenas para criar maior confusão sobre o que realmente aconteceu ou não, o que o seriado também consegue estruturar muito bem.

Por conta do excelente comportamento e conduta de Grace, além da relevância de ter sido presa tão jovem e passado boa parte da sua vida encarcerada, mesmo com um julgamento inconclusivo, com 46 anos de idade ela foi perdoada pelo Governador. Com a liberdade ela se mudou para Nova York. Após isso, nunca mais se teve registros sobre seu paradeiro, sequer data oficial de morte, e sua história, ao mesmo tempo que é uma dúvida, também se tornou lenda. Portanto, o final do seriado é fictício, e apenas uma forma da autora concluir a história de maneira que todas as discussões relevadas durante os episódios tomassem uma forma definitiva, deixando explícito que, para a personagem conquistar pequenas coisas que sempre deu valor, teve de aceitar continuar sendo subserviente.

O livro homônimo de Margaret Atwood, no qual o seriado é baseado, foi publicado em 1996, e utilizava como base a biografia de Grace Marks a partir das publicações de Susanna Moodie, de 1970. Segundo Atwood, o trabalho de Moodie foi uma grande inspiração, mas com o tempo percebeu, através de pesquisas, que muito do descrito sobre o assassinato não era verídico, o que a fez mudar sua opinião sobre a culpabilidade de Grace Marks, e então a idéia sobre o romance que trajeta entre o verídico e o fictício, criou forma.

A mini-série de 6 episódios (e será somente isso) tem prioridade na mesma narrativa em primeira pessoa da protagonista, cuja história se desenvolve através de diálogos com um personagem que não existiu na vida real, justamente para alguns fatos se manterem próximo dos acontecimentos verídicos, mas ao mesmo tempo dar liberdade para diversas outras interpretações.

O personagem fictício em questão é Dr. Simon Jordan (Edward Holcroft), um psiquiatra jovem, engajado em estudos sobre doenças mentais numa época em que a psiquiatria começava a dar maior atenção ao empirismo. Nas primeiras sessões, Dr. Simon tenta resgatar a memória de Grace através de sugestões sobre coisas e sensações que pudessem remeter ao momento do homicídio, mas a paciente não corresponde da maneira como ele espera. É quando ele solicita que ela conte toda sua história desde sua infância até o momento mais recente, acreditando que, dessa forma, a memória perdida possa aos poucos ser recuperada. E dia após dia, durante as tardes na sala de costura da casa do Governador, é onde as sessões ocorrerão em meios a flash-backs sobre as memórias da protagonista conforme sua narração progride.

Atwood tem sido um nome bastante comentado ultimamente por conta da aclamada série The Handmaid's Tale, disponível pelo serviço de streaming Amazon Prime, série igualmente baseada no livro homônimo da autora de 1985. Embora os dois livros e as duas séries tenham temas bem distintos, a alma central de ambas é basicamente a mesma: utilizar um acontecimento específico como gatilho para explorar de maneira abrangente diversas questões sócio-culturais, políticas, espirituais e religiosas.

O roteiro aqui, assinado pela própria Atwood em parceria com Sarah Polley (criadora e produtora da série), tenta manter as mesmas características do gênero gótico no qual o livro se propõe. Essas características incluem a expressão das doenças sociais da época, explicitando a corrupção moral e a hipocrisia aristocrática, adicionando a isso elementos sobrenaturais e a possibilidade de comunicação espiritual com os mortos, o que foi, de fato, uma catarse de interesse científico durante a era vitoriana (por isso que o episódio da sessão de hipnose é assistida por um pequeno grupo formado por religiosos, intelectuais e estudiosos).

O foco do roteiro se mantém fiel ao do livro, que não é questionar a culpabilidade de Grace no duplo homicídio, mas de utilizar a personagem como uma forte ferramenta de expressão e estudo de comportamento. Tanto é assim que a história pisa em ovos para não ser tendenciosa para nenhum dos lados, seja para sua culpa, seja para sua inocência. Mas independente disso, o que vale é a perfeita costura dos fatos com observações sociais que ainda continuam mais atuais do que nunca.

A narrativa da protagonista, que tem início desde sua imigração da Irlanda para os Estados Unidos aos 12 anos, não esconde em nenhum momento as dificuldades que teve com sua família ao saírem de seu país natal em busca do Novo Mundo. Sua história é uma incrível sucessão de desastres e infortúnios. Das desgraças da pobreza às dificuldades sofridas por ela e suas irmãs por conta de um pai alcoólatra e abusivo, sendo obrigada a deixar aquilo que restou de sua família para trabalhar como serviçal em regimes de trabalho semi-escravo, sem qualquer perspectiva de independência ou mobilidade, como qualquer outra pessoa no mesmo patamar social que o dela.

As roteiristas conseguem retratar uma época onde as mulheres eram obrigadas a serem subservientes aos homens, em uma sociedade machista que as impediam de decisões além do espaço doméstico. Ao proletário, a subserviência incondicional aos detentores do dinheiro e do poder.

A ingenuidade de Grace a leva a acreditar que todos os sofrimentos, perdas e desastres de sua vida sejam coisas comuns e naturais por essas terem sido a realidade que sempre viveu, e essa consciência fica explícita na maneira indiferente como ela relata sua trágica história como fatos corriqueiros, partindo do princípio fatalista e conformista de que as coisas assim são porque devem ser e nada há de ser feito para ser mudado, um ponto de vista triste e melancólico para quem observa, mas que foi (e ainda é) a realidade de uma grande maioria. Mesmo assim, as observações simplistas e tácitas da personagem sobre a vida cotidiana e submissa, e de sua função irrelevante e passageira na sociedade, ao mesmo tempo que soam poéticas, narram a crueldade social de maneira cirúrgica e arrebatadora.

Aos poucos a história de diversos acontecimentos trágicos nos revela que ela nada mais é que um produto determinado pelo meio em que vive, mas que de certa forma evolui tal como as mariposas de Darwin, obrigando-a criar escapes psicológicos para conseguir sobreviver às adversidades sociais em que está inserida, oprimindo suas vulnerabilidades e desencadeando mecanismos de defesa inconscientes. Daí o significado do título, pois "alias", numa tradução livre, significa "codinome", já que ela desenvolve personas ao longo de sua vida para conseguir superar os obstáculos e dificuldades, o que é explicado após a já citada sessão de hipnose, sequência que poderá ser facilmente confundida como um elemento sobrenatural na série quando, na verdade, é o mecanismo de defesa da personagem que se manifesta. Um momento em que toda a atenção deve ser dada, pois é ele que irá esclarecer absolutamente muitas das dúvidas semeadas ao longo dos episódios, sem tirar do espectador o seu próprio julgamento.

Se torna óbvio que o maior ponto de toda a trama é escancarar a opressão e a submissão feminina na sociedade, e que tudo o que estamos vendo nos dias atuais nada mais é do que o resultado histórico disso. E Grace Marks, sendo ou não uma metáfora, é igualmente uma consequência.

Se é angustiante ver Grace ser abusada pelo próprio pai e depois escurraçada de casa por não ter sido conivente com o incesto, isso irá parecer até pouca coisa perto de outros momentos bastante chocantes, como quando sua melhor amiga decide realizar um aborto com medo de ser despejada da casa na qual trabalha e evitar viver da prostituição para sustentar um filho indesejado. De igual forma a condição pela qual Nancy Montgomery (Anna Paquin) se submete, obrigada a se manter em uma relação abusiva para não ter o mesmo fim, descontando em Grace suas frustrações e delírios resultantes de dúvidas e incertezas, num terrorismo psicológico cultivado pelo próprio patrão para que sua vulnerabilidade esteja constantemente exposta e ele possa abusar disso sempre que lhe for conveniente. E se existem vilões na história, eles são os próprios homens, independente de sua classe social, pois a ignorância é democrática.

Apesar de toda essa brutalidade, por outro lado existe uma delicadeza, ou uma sobriedade, na forma como tudo é conduzido, justamente para amenizar situações tão indigestas, contrabalanceando momentos que poderiam facilmente se sobrepor à história de fato e saírem do contexto se tivessem seguido para um caminho mais explícito e sensacionalista.

Mérito de uma equipe formada em sua grande maioria por mulheres que compõem os principais núcleos, seja no roteiro, na direção, produção e elenco, fazendo o produto final ter um olhar feminino bastante honesto de mulheres falando sobre mulheres, e não homens falando sobre aquilo que acham ou acreditam ser sobre mulheres.

Para quem já conhece os trabalhos da canadense Sarah Polley, seja como atriz, roteirista ou diretora, sabe que seu engajamento político e feminista é bastante presente naquilo que faz, mas sem ser extremista ou doutrinante, ela apenas explora personagens femininas com o intuito de mostrar lados e situações que, tanto a sociedade, como a indústria do entretenimento, insistem em esconder ou deturpar. E ao juntar forças com Atwood, em uma produção que, segundo a própria Polley, demorou 20 anos para se concretizar, Alias Grace surpreende pelo desenvolvimento lento e detalhado de um drama psicológico que escancara a responsabilidade da sociedade sobre a maneira que ela mesma enxerga e compreende os gêneros, e que o empoderamento feminino e a constante busca pela igualdade que tanto tem ganho força nos últimos anos não é uma necessidade de auto-afirmação ou de promoção sexista, como muitos daqueles que não compreendem a necessidade dessas mudanças costumam contra-argumentar, mas uma dura batalha necessária contra uma herança cultural secular opressora e abusiva, ainda existente porque a História nos mostra que taxar um sexo de frágil, e criar uma cultura conivente a isso, sempre foi benéfico para aqueles que se sustentam disso, e sempre será enquanto essa deturpada consciência existir.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O XEQUE MATE DE CRONEMBERG...

★★★★★★★★☆☆
Título: eXistenZ
Ano: 1999
Gênero: Ação, Suspense, Comédia
Classificação: 16 anos
Direção: David Cronemberg
Elenco: Jennifer Jason Leigh, Jude Law, Willen Dafoe, Iam Holm, Sarah Polley
País: Canadá, Inglaterra
Duração: 97 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma importante projetista de jogos de realidade virtual organica passa a ser perseguida por um grupo de fundamentalistas contrários à biotecnologia utilizada e a deformação da realidade. Durante sua fuga, a única cópia de seu mais recente jogo, chamado eXistenZ, pode ter sido danificado. Para descobrir isso, ela deverá se conectar a ele e jogá-lo para descobrir se algum dano em sua programação tenha ocorrido.

O QUE TENHO A DIZER...
Ao longo de sua carreira, David Cronemberg deixou evidente sua fixação sobre a relação dos homens com a tecnologia numa proporção equivalente ao próprio avanço dela mesma. Isso se tornou praticamente uma obsessão por conta da frequência com que ela é tratada em seus filmes, seja diretamente, como acontece aqui, ou em Videodrome (1983), ou em A Mosca (The Fly, 1986), como também até em outros títulos onde o tema foi abordado indiretamente, como no seu mais recente Cosmopolis (2012).

Portanto, a tecnologia como um assunto corriqueiro e cotidiano não é apenas uma regra como parte de seu estilo, como uma preocupação pandêmica. Raramente, entre um filme com uma abordagem diferenciada ou outra, como Marcas da Violência (A History Of Violence, 2005) ou Senhores do Crime (Eastern Promises, 2007), acaba não havendo espaço para isso, mas não significa que ele tenha esquecido.

eXistenZ surgiu numa época muito propícia e de transição para o novo milênio. Realmente um período onde eram debates mundiais questões sobre a tecnologia, os computadores, a internet, o "boom do milênio", a transformação dos jogos eletrônicos em grandes centros de entretenimento, as realidades virtuais e até que ponto o homem estaria disposto a transformar a tecnologia em uma extensão do seu prazer. Acreditava-se na época que a realidade virtual estava mais próxima do que imaginavam, e algo que também assombrava muita gente por ser um mundo completamente desconhecido. Um tema sempre discutido no cinema, seja em Tron (1982), O Passageiro do Futuro (The Lawnmower Man, 1992), Matrix (1999), O 13º Andar (The 13th Floor, 1999), dentre diversos outros que não me lembro agora.

Das discussões recorrentes nos filmes do diretor canadense, ele sempre pautou de forma um tanto religiosa que o futuro dos homens será buscar novas formas de prazer, ou novas formas de intensificá-lo. Foi o que ele cruelmente fez com Crash (1996), talvez o seu filme mais controverso por ir tão fundo no tema de forma patológica e autodestrutiva.

Cronemberg conseguiu levar para a tela o lado mais insano e perverso do ser humano sobre o prazer sexual, sempre mantendo uma coerência assustadora com a realidade, de forma que os personagens nunca impõem suas vontades aos outros como a doutrinar os inocentes, são eles mesmos quem escolhem se aprofundar neste labirinto fisiológico tão instintivo e primitivo. Seus filmes são complexos, muitas vezes difíceis de serem assistidos, que facilmente tendem a despertar a repulsa, mas ainda sim objetos de discussão coerentes com a contemporaneidade.

eXistenZ é parte disso, e figura entre os clássicos do diretor. Mais visceral e atordoador do que seu colega pop Matrix, lançado no mesmo ano, Cronemberg joga para o público a responsabilidade de uma realidade aumentada e sem limites. A busca de diferentes prazeres através de alternativas responsáveis por fazer os homens perderem o seu próprio controle tal qual uma droga intoxicante qualquer. Não é à toa que no filme todos os equipamentos possuem texturas orgânicas familiares, mas nada convencionais, que se assemelham a protuberâncias ou orifícios humanos. Há também o medo de alguns personagens pela chamada "penetração cirúrgica", já que cientificamente um dos medos natos do homem é a corrupção de seu próprio corpo, ou seja, a invasão de corpos ou objetos estranhos, como um caco de vidro, uma ferpa, uma agulha ou um falo. O estupro propriamente dito. Isso é proposital para que Cronemberg deixasse evidente até que nível o ser humano está disposto a atingir para adquirir novos estímulos além das formas tradicionais de buscar o prazer, que com o tempo perderam a graça (segundo o que ele, talvez, implicitamente propõe).

O diretor não chega a discutir o prazer em suas formas perversas como o masoquismo, a laceração e submissão da forma como fez em Crash, ao contrário disso, ele sugere que o prazer carnal não existirá mais no futuro. No lugar disso, iremos atrás de outras experiências que possam nos satisfazer constantemente de outras formas, como as possibilidades de criar e destruir, mandar e desmandar, ter o controle e o poder de absolutamente tudo. E o único lugar onde podemos ter tanta autonomia é apenas no mundo virtual, considerado pelo diretor um espaço democrático, pois dá oportunidade a todos de serem e experimentarem o que quiserem, algo que se mostrou verdadeiro com o âmbito que a internet tomou no cotidiano das pessoas.

Ao longo do filme os personagens já não sabem mais se o que acontece é parte do jogo ou da realidade, essa situação não apenas é imersiva como confusa por conta da irresponsabilidade de ultrapassar os limites que eles mesmos desconhecem e a possibilidade de serem tão onipotentes. Por isso, de certa forma, o filme também lida com a religiosidade e o poder no questionamento do ser humano ser ou não capaz de se aproximar de seu próprio criador. É por essa razão que um dos objetivos principais do jogo eXistenZ dentro da história do filme é a "morte ao demônio", que se refere ao projetista desenvolvedor daquela realidade virtual. Ou seja, morte ao humano que se passa por deus. Tanto que a referência a isso está no próprio título do filme, onde "isten" significa "deus" em hungaro.

O que é mais interessante de toda a produção é que, mesmo sendo de 1999 e falando de um futuro tecnologico ainda bastante distante, não há aquela sensação de produção datada. Toda a direção de arte é bastante neutra, e Cronemberg foi inteligente o bastante ao falar do futuro e da tecnologia utilizando a nossa própria realidade para isso. É como se ele também quisesse nos mostrar que o nível de fidedignidade com a nossa realidade será tão grande ao ponto de ser impossível distinguir onde está a linha que separa os dois mundos. Além disso, ele também utiliza suas esquisitas angulações de câmera para dar um certo tom de deboche, uma sátira surreal da nossa realidade, como sonhos desconexos, responsáveis também por destacar devaneios que o mundo virtual possa apresentar, como erros, ou "bugs" do sistema, algo similar ao gato preto em Matrix.

Há também um humor negro muito presente dentro deste contexto satírico no intuito de enfatizar absurdos que realmente não fazem parte de nosso cotidiano, como o nojento e ao mesmo tempo engraçado momento em que o personagem de Jude Law monta uma arma orgânica com restos encontrados em um ensopado e a carrega com os dentes de uma prótese que ele tira de sua própria boca e diz: "eu não uso ponte, meus dentes são perfeitos". São esses elementos que diferenciam as realidades sobrepostas e situam o espectador dentro dos diferentes mundos (além do próprio cabelo da personagem principal, que é liso quando no mundo real e frisado nos mundos virtuais, mas isso você pode fingir que não leu).

Se o diretor é ou não um jogador de verdade, não dá pra saber, mas ele soube encaixar elementos muito característicos de jogos que obrigam a interação do jogador com personagens não jogáveis. Um dos momentos mais evidentes disso é quando é citado o looping de ação de um dos personagens "não jogáveis" da história, que entra numa sequência de ação repetida até que o personagem principal dê o comando exato para que o sistema compreenda que uma ação foi realizada e seja dada uma ordem para a próxima etapa. O diretor é tão meticuloso nos detalhes que o filme também é um prato cheio para qualquer gamer nerd de plantão. E acreditem, na época em que o filme foi feito, eram pouquíssimos os jogos de mundo aberto como é proposto no filme, e os que existiam ainda eram muito limitados. Muitos jogos hoje chegaram bem próximos ao sistema proposto no filme de um mundo aberto, interativo e com objetivos a serem alcançados, aumentando a interatividade de ações entre jogadores e o mundo virtual ao ponto de perdermos a completa noção de tempo e espaço, tamanha a imersão. Ou seja, sem querer, Cronemberg conseguiu levar para a tela boa parte daquilo que os jogos se transformaram hoje. Claro que para chegar ao nível de realidade do filme, há muito futuro pela frente ainda, mas a essência interativa dele já existe de certa forma.

Vale muito ser assistido mais de uma vez para que a atenção seja dada a pequenos detalhes antes ignorados. Dezesseis anos depois ainda entramos na atmosfera do filme como entramos nos jogos de hoje, mas Cronemberg vai além e nos leva a uma paranóia crescente desenvolvidas com efetividade até os créditos finais numa realidade sufocante. Só não sabemos qual realidade é essa, e esse é o grande cheque mate de Cronemberg sobre nossas percepções. Será que um dia chegaremos a este ponto?

CONCLUSÃO...
Embora esquisito, surreal e confuso como sempre, eXistenZ é o Cronemberg autoral e brilhante, completamente contrário à convencionalidade. Ousado e um tanto visionário, ele questiona os limites da criação, a religiosidade e o vício pelo poder, a droga prazerosa mais fatal que o ser humano descobriu.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

TODO RELACIONAMENTO É IGUAL...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Entre O Amor E A Paixão (Take This Waltz)
Ano: 2011
Gênero: Comédia, Romance, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Sarah Polley
Elenco: Michelle Williams, Seth Rogen, Luke Kirby, Sarah Silverman
País: Canadá, Espanha, Japão
Duração: 116 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre uma mulher conturbada entre satisfazer suas vontades dentro de um casamento estagnado e até feliz, mas que sobrevive apenas pelo companheirismo e amizade. Tudo muda quando ela conhece e se apaixona pelo seu vizinho, mas por respeito ao seu marido e ao casamento de 5 anos, ela opta por limitar e adiar essa relação até as últimas conseqüencias.

O QUE TENHO A DIZER...
É o segundo filme dirigido, escrito e produzido pela também atriz canadense Sarah Polley. Seu filme anterior, Longe Dela (Away From Her, 2006), foi uma história delicada e extremamente esclarecedora a respeito de um homem que todo dia tenta manter viva as lembranças de sua mulher com Alzheimer e se encontra na difícil situação de reconquistá-la novamente quando a doença avança ao ponto dela não reconhecer mais quem é ele. O filme merecidamente recebeu duas indicações ao Oscar, de Melhor Roteiro Adaptado para Sarah Polley, e Melhor Atriz para Julie Christie. De lá pra cá Sarah trabalhou mais como atriz em filmes pequenos e seriados de televisão. Sarah é um tipo de artista que prefere esses tipos de trabalhos mais modestos e parece não se importar muito com fama e sucesso, talvez essa seja a razão dela ser tão respeitada e ter conquistado uma grande legião de fãs.

Entre O Amor e a Paixão é uma comédia romântica e dramática bastante sincera e honesta que discute com leveza as dificuldades da rotina de um casamento, além das transformações e consequências que essa relação sofre ao longo do tempo. Sarah coloca o sexo como a situação limítrofe dessa discussão e a perda da atração física e sexual que é substituída pelo companheirismo e amizade ao longo do tempo, onde pouco a pouco a relação intensa, de extrema intimidade e conexão, passa a ser ocupada por uma conveniência do dia a dia, como um costume e dependência.

Assim como seu filme anterior, a narrativa novamente é linear e lenta, nos dando uma noção bastante real de passagem de tempo e da condição rotineira dos personagens Margot (Michelle Williams) e Lou (Seth Rogen). Tudo muda quando Daniel (Luke Kirby) a conhece em um avião e ambos ficam encantados com a habilidade de satisfazer um ao outro com tão pouco. A vida de Margot estava tão comum que ela nunca percebeu que Daniel, por coincidência, também é seu novo vizinho que mora do outro lado da rua.

Os encontros entre ela e o vizinho, que a princípio ocorrem por coincidências da rotina de ambos, passa a ser algo proposital e regular. Sem querer os dois se veem apaixonados um pelo outro, numa relação amorosa baseada apenas em desejos e expectativas criadas pelas conversas, passeios e contatos sexuais imaginários, já que, para Margot, a traição só existiria a partir do momento que esse limite fosse ultrapassado. Até então, para ela, a situação platônica de ambos era apenas uma coisa nova em sua vida e que lhe desse novos estímulos em seu casamento. Para Daniel o sofrimento é maior, pois ele respeita a vontade de Margot, e a impossibilidade de tê-la da maneira como ele quer e imagina o deixa cada vez mais frustrado e deprimido.

Margot não consegue tirar o seu casamento da zona de conforto que se estagnou e quer desesperadamente novas sensações que reacendam a empolgação de uma paixão que nela se apagou há muito tempo. Em uma situação extrema e desesperada ela finalmente vê em Daniel a oportunidade de se satisfazer por completo com novas experiências amorosas e sexuais, cheia de amizade e companheirismo, e tudo aquilo q ela não tem mais com seu marido, mas não consegue se entregar por estar presa a uma conveniência chamada casamento, o que a bloqueia e a deixa em um meio termo que a apavora. Daniel, cansado da obsessão de querer algo que nunca poderá ter, faz uma escolha necessária para que ele consiga tocar sua vida pra frente. Margot se desespera com a perda de Daniel e Lou descobre os desejos ocultos de sua mulher e compreende tudo aquilo como uma verdadeira traição e o fim da relação é inevitável para os dois.

A maneira como a diretora e roteirista mostra a diferente situação de Margot com cada um deles talvez seja o ponto mais alto do roteiro, pois ela questiona o tempo todo o que é de fato a infidelidade. É o contato ou a presença? O sexo ou o pensamento? A realização ou a vontade? Portanto esse conflito real é discutido o tempo todo através das atitudes da personagem principal, e o roteiro pontua com bastante exatidão esse paradoxo da sexualidade e do sentimento, da emoção e da racionalidade. Para Sarah Polley a infidelidade se caracteriza muito mais pelo sentimento do que por uma simples satisfação sexual e isso fica evidente quando Lou finalmente descobre o desejo alimentado por sua mulher, os sonhos, as vontades e o pensamento constante de Margot em Daniel, significando uma situação muito mais frustrante para ele do que se tivesse sido uma mera realização sexual, o contrário do que Margot pensava.

É um filme que poderia ser denso se não tivesse alguns fatores que aliviassem isso, como os núcleos cômicos, o figurino e fotografia que exageram nas estampas, nas cores quentes e alegres, e na leveza com que a temática é conduzida. Michelle Williams tem se especializado em personagens que sofrem de depressões amorosas crônicas desde o seriado Dawson's Creek, e para quem também já está familiarizado com esses tipos em seus filmes anteriores, como em O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, 2005) e Namorados Para Sempre (Blue Valentine, 2010), não vai encontrar nesse filme uma interpretação muito diferente. Existe aqui uma tentativa da personagem ser um pouco mais cômica, mas a atriz não consegue variar muito bem entre esses dois estilos conforme o roteiro exige, o que muitas vezes passa a ligeira impressão de uma mera reprise dos papéis anteriores que ela já interpretou, já que aquele semblante depressivo, inchado e corado de quem vai cair no choro a qualquer momento é o mesmo. Michelle é uma atriz carismática, mas está longe de conseguir ser engraçada, mas nada disso diminui sua competência, só aparenta estar deslocada. Seth Rogen, que é muito mais um comediante do que um ator dramático (e muitas vezes irritante em alguns papéis por exagerar no pastelão) consegue dar variações muito melhores e mais eficientes do que ela dentro do contexto do filme.

Algumas sequencias banais e desnecessárias, como o exagero de cenas de nudez, de intimidade das personagens e algumas de sexo, acabam não tendo muito valor além da tentativa da diretora de soar realista e rotineira de uma forma que não se encaixa. As cenas chocam sem motivo, e também assustam porque aparece em momentos inesperados. Por ser mais um filme de desenvolvimento lento, muita gente pode não gostar ou não entender, mas por outro lado deveria estar na lista de filmes obrigatórios para casais que não sabem por onde começar uma discussão sobre o tema que ele propõe, e também para os casais seguros que já sabem que o amor, o companheirismo e a amizade são muito mais importantes do que qualquer nova aventura que não leva a lugar algum além da satisfação de vontades e prazeres que acabam com o tempo. O fato é que a acomodação e a rotina são inevitáveis, e todo relacionamento tende a esfriar com o tempo e se manter num platô seguro. A sequencia final do filme mostra exatamente isso, e por sinal é uma das sequências mais belas, poéticas e certeiras do filme, que mostra como o amor é bonito, mas confuso.

CONCLUSÃO...
Um filme tipicamente feminino, que lida muito mais com as emoções do que os prazeres imediatos, questionando muito o significado da infidelidade. Ele se perde um pouco com algumas sequencias desnecessárias, e o desenvolvimento lento pode deixar a desejar para alguns, mas a importância do tema se encaixa para qualquer pessoa que goste de filmes que se embasam em discussões simples e contraditórias. De qualquer forma, querendo ou não é um filme fácil de se identificar porque são situações que se repetem com todos porque todo relacionamento é igual, a diferença está na maneira como as pessoas conduzem.
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