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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

FILHA DA ANARQUIA...

★★★★★★★★★☆
Título: Rita
Ano: 2014-2017
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Mille Dinesen, Lise Baastrup, Ellen Hillingsø, Carsten Bjørnlund
País: Dinamarca
Duração: 50 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Uma professora dedicada não consegue ser tão dedicada assim na sua vida particular. O que ela ensina nem sempre é o que ela faz, e já passou da hora de ela aprender muitas coisas.

O QUE TENHO A DIZER...
"Sua mãe é uma das pessoas mais anarquistas que existe", é o que o ex-marido de Rita diz a seu filho em um dos episódios da primeira temporada. E sem dúvida esta é a maneira mais clara e objetiva de definir a protagonista dessa série dinamarquesa, criada, escrita e produzida por Christian Torpe, que poderia ter ficado conhecido por esses cantos se sua adaptação para a TV de O Nevoeiro (2017) tivesse sido boa, o que não foi em nenhum aspecto. O que é até espantoso, porque o material que ele criou e desenvolveu aqui é de uma sensibilidade e relevância que raramente encontramos. O sucesso da série chegou a render a mini-série Hjørdis, spinoff sobre a personagem de mesmo nome que acabou ganhando imenso destaque, além das tentativas de duas adaptações estrangeiras, uma holandesa e uma francesa, tamanha a popularidade alcançada.

Para Rita (Mille Dinesen), regras e limites não são bem seus melhores amigos, principalmente se partirem da psicoterapeuta escolar. Suas transgressões tem propósitos, desde os mais justos e coerentes, até os mais inflamados e egoístas, numa rebeldia natural que dificulta a proximidade com adultos, mas que cria fortes laços de afeição com os mais jovens. E por isso que, mesmo a contragosto de muita gente, há aproximadamente 13 anos ela é considerada a melhor e mais respeitada professora da escola Islevgard, em Copenhagen. Mas ao mesmo tempo que por um lado ela deixa o caos por onde passa, por outro conquista o respeito e a admiração de muitos, os quais a enxergam como um grande agente transformador, um modelo de coragem e perseverança por justamente não ter receios de enfrentar desafios e obstáculos. Pessoas que pensam exatamente assim porque um dia já foram auxiliadas pela porção generosa e altruísta de sua personalidade, mesmo que sua ajuda não tenha sido solicitada, colocando-a em situações comprometedoras e incomodando mais gente do que deveria.

E Rita é assim mesmo, uma bonecona que fuma, bebe e não tem filtro (interessante que ela não fala palavrões), mas que possui uma descência humana e um senso de responsabilidade social que muitos outros não tem, se importanto muito mais com problemas alheios do que os seus próprios, não medindo esforços para se intrometer em um assunto quando percebe que a dignidade de alguém está sendo ferida de alguma forma. Ela não chega a ser tão autodestrutiva como a delegada Grace Hanadarko (Holly Hunter), do falecido Saving Grace (2007-2010), mas as similaridades são muitas. O que difere as duas é que Rita não é egoísta, mesmo tendo tido uma infância e uma adolescência rodeada por pessoas que não sabiam manter os valores de suas palavras. E da mesma forma como a vida foi sua melhor escola, é usando esse material que ela se impõe em suas aulas e fora delas.

A complexidade da personagem não é uma novidade. Enquanto Rita tem sua alma "anarquista", ela também impõe regras sem perceber, principalmente aos outros, no velho ditado do "faça o que digo, mas não faça o que faço", porque o maior medo dela, principalmente com seus filhos, é de se tornarem outras versões dela mesma. O próprio fato de sua maior regra de vida ser "não ter regra alguma" já faz dela uma contradição por excelência. Criar dimensões opostas de personalidade é a ferramenta mais eficiente para uma gama de infinitas situações e possibilidades, onde o personagem só terá seu momento de redenção ou resolução quando aquele que o escreve e o desenvolve decidir impor mais um lado que o outro. E a grande angústia da existência de Rita é o constante embate dela com ela mesma: sua ânsia de ser diferente, mas um excesso de cordas e amarras que interrompe o caminho a isso. Há um momento em que ela questiona Ricco, seu filho mais velho, sobre as influências que ele tem sofrido de sua mulher. Ele responde dizendo que ele quer ter essas influências porque ele quer ser diferente, e Rita simplesmente aceita, porque percebe que, no fundo, é o que ela também gostaria. Portanto, ou ela muda, ou suas dificuldades continuarão sendo as mesmas. É este o conflito central de tudo, e o conflito que ela vive há 44 anos.

É gratificante quando assistimos um filme ou uma série de televisão onde personagens sejam motivadores ao mesmo tempo que enxergamos neles nossos próprios defeitos e virtudes. Não apenas nos motivamos com as atitudes modificadoras de Rita, como também nos simpatizamos com seus erros, falhas, equívocos e acertos. Choramos, rimos, nos surpreendemos e nos revoltamos, porque a interpretação de Mille Dinesen é tão consistente e marcante como qualquer outro personagem que adoramos odiar, como Dexter, Dr. House, ou Saul Goodman. Também nos identificamos com outros personagens, como a vulnerabilidade, insegurança e fidelidade de Hjørdis (Lise Baastrup), a sensibilidade de Rasmus (Carsten Bjørnlund), ou as frustrações profissionais e pessoais de Helle (Ellen Hillingsø). O seriado oferece com esses personagens (assim como outros que surgem no decorrer dos episódios) uma experiência de não apenas conhecê-los, como também participar de um desenvolvimento progressivo e empoderador ao longo das quatro temporadas. Mérito do roteiro, de personagens extremamente bem escritos e de interpretações humanas.

Situar a história em um ambiente escolar soa muito metafórico, como boa parte do que Torpe desenvolveu faz. A noção que carregamos do período escolar ser uma das melhores fases de aprendizados e descobertas é bem explorada, mas de uma maneira tão abrangente e realista ao ponto de nunca terem a intenção de nos convencer disso. Pelo contrário, nos mostra exatamente que não é bem assim que todo mundo pensa, porque as impressões são completamente diferentes para quem sofre. E por isso as dificuldades retratadas não são feitas de maneira idealizada e dicotômica, como professores sempre batalhando contra a ignorância. Pelo contrário, todos tem defeitos. Nem todo o corpo docente é ilustre, assim como nem todo aluno é ignorante. Nem todo diretor é competente, e nem todo mundo tem boas intenções. Os entraves e obstáculos existem tanto para quem ensina, como para quem aprende.

Os esforços incondicionais de professores em querer ser uma referência importante já foi enredo em clássicos como Ao Mestre Com Carinho (1967), ou Sociedade dos Poetas Mortos (1989), este que nada mais é do que uma releitura do primeiro. E também de produtos genéricos e mais modernos, como Mentes Perigosas (1995) e O Sorriso de Monalisa (2003), igualmente releituras, adaptados para suas respectivas épocas. Todos com temáticas onde professores lutam contra a ignorância da juventude ou da sociedade para mostrar que a educação é o melhor futuro da dignidade. Com Rita isso não seria diferente, mas o cativante de sua história é o que a faz ser tão certa na sua vida profissional, mas tão errada na sua vida pessoal.

O roteiro é cheio de diálogos inteligentes e de certa forma reflexivos em situações que se articulam o tempo todo em cima de ironias. Seja a criança do comportamento adulto e do adulto de comportamento infantil, ou do tipo de adulto que uma criança gostaria de ser, a responsabilidade daquilo que passamos aos nossos descendentes é unicamente nossa, e nossas maiores falhas partem de dois principais princípios: do espelhamento de comportamento, de crianças que imitam comportamentos adultos a partir do momento que admiram um modelo, à transferência de responsabilidades, dos pais que fazem seus filhos serem aquilo que eles próprios não conseguiram ser. Duas situações discutidas com exaustão ao longo da série. Além disso, o drama também é construído em cima de sofrimentos sociais e familiares do cotidiano, não sendo à toa que assuntos como assédio moral (bullying), distância familiar, infidelidade e insegurança sejam bastante recorrentes. E embora possa soar repetitivo, se torna muito assertivo ao serem mostrados das mais variadas formas, justamente com o intuito esclarecedor e informativo. E a função de Rita nisso tudo é quebrar paradigmas, ou ao menos tentar. Como ela mesma diz, sua obrigação é salvar os filhos de seus próprios pais, já que são os adultos quem estragam as crianças. Mas como ela consegue nos convencer de que está certa quando ela mesma é o resultado de uma cascata de erros? Pelo simples fato de ter plena consciência de cada um dos erros que comete e não se envergonhar de expô-los em momento algum.

Rita é uma comédia dramática que não usa o humor para aliviar o drama, mas para complementá-lo, e mostrar os lados agridoces e amargos de sua vida sem qualquer rodeio. Os episódios são construídos em cima de temas, como uma aula a ser desenvolvida, e tudo acontecerá em torno daquele assunto do dia, seja de maneira literal ou metafórica. Pode parecer um pouco forçado, mas funciona no propósito de construir uma discussão produtiva, com prováveis morais a serem compreendidas pelo espectador. E embora a vida da protagonista seja uma coletânea de traumas e erros muitas vezes até involuntários, existe um otimismo confortante por trás disso tudo que parte justamente de sua total ausência de medo de tentar, além dos episódios nunca se extenderem nos dramas, sempre interrompendo no momento que a gente pensa que poderia ter um pouquinho mais, mas se assim fosse, perderia completamente sua essência, que é ser duro, seco e emocionalmente limitado como sua personagem.

É um dos melhores seriados na Netflix e que ninguém fala a respeito. Complicado quando percebemos que o público definitivamente está condicionado apenas àquilo que os algorítmos e hashtags propõem, e como também dificilmente não consumimos produções de outras nacionalidades não porque as outras línguas soam estranhas, mas porque não ser em inglês soa estranho. É claro que o fato de ser em uma língua totalmente diferente significa ter uma perda de conteúdo muito grande com diálogos informais que não fazem sentido se traduzidos literalmente, ou piadas que não teriam qualquer coerência nas legendas, mas de qualquer forma, absorver um conteúdo diferente daquilo que estamos habituados engrandece nossa capacidade de observação.

Com mudanças bruscas nos acontecimentos e na estrutura narrativa para preencher buracos e responder dúvidas das temporadas anteriores, a quarta temporada encerra os quatro anos de existência do seriado. É a mais fraca e óbvia de todas, mas esclarecedora o suficiente para complementar muito daquilo que já imaginávamos, mas não tínhamos certeza. Torpe oferece uma conclusão justa e coerente, uma resolução satisfatória com toda a jornada da personagem que finalmente aprende com as surras que a vida lhe deu, e literalmente com a surra física e moral que leva de Hjørdis em um dos momentos mais emocionantes da temporada (e talvez esperada por muita gente).

Um misto de sensações e emoções viciante e que nos mostra pontos de vista sobre a vida de forma bastante única, fugindo da estética norteamericana de se construir uma narrativa, sendo cativante unicamente por ser simples e respeitoso, sem apelações ou sensacionalismos. Se a quarta temporada foi realmente a última, sua conclusão foi sincera e otimista o suficiente como ela nunca escondeu ser, mas também nunca se obrigou a ser. E para aquele que se deixar conquistar por Rita, o velho e conhecido sentimento de vazio, de estar órfão de um seriado e de uma personagem tão inspiradora como ela é, será inevitável.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

SÓ VALVERDE PRA SALVAR...

★★★★☆☆☆☆☆☆
Título: Amor.com
Ano: 2017
Gênero: Comédia, Romance
Classificação: 12 anos
Direção: Anita Barbosa
Elenco: Isis Valverde, Gil Coelho, Joaquim Lopez, Carol Pontes, João Cortês, César Cardadeiro, Alexandra Richter
País: Brasil
Duração: 90min.

SOBRE O QUE É O FILME?
As idas e vindas da relação de dois produtores de conteúdo: ela sobre moda e beleza, e ele sobre jogos eletrônicos.

O QUE TENHO A DIZER...
Amor.com é um comédia romântica bem fraca, uma daquelas com os direitos comprados pela Netflix para preencher a cota de produções nacionais exibidas no serviço, já que passou praticamente despercebida pelo cinema, por razões óbvias.

O filme de estréia da diretora Anita Barbosa parece uma daquelas produções da Globo Filmes que foram engavetadas porque o produto final conseguiu estar aquém daquilo de pior que a empresa já costuma produzir no gênero, e como parece de praxe ir pra mesa da Netflix tudo que um dia já esteve no lixo de algum lugar, não é à toa que essa produção terceirizada agora leva o carimbo do serviço.

Com predominância de atores "globais" e com aquela velha mania de enfiar participações especiais de gente que nada tem a ver com nada na idéia de que um nome famoso atraí mais público do que talento, o perfil de comédia de situações barata está lá o tempo todo. Desde a imagem lavada e do perfeccionismo amador dos cenários, até o elenco coadjuvante e de apoio bastante ensaiado, nada contribui para tirar a sensação de um produto feito especificamente para a televisão, uma característica que diminuiu bastante na última década. Com o avanço tecnológico e a exigência do público pela qualidade, cada vez mais aquele abismo existente com o cinema diminuiu, ao ponto da diferença entre um e outro ficar apenas em pormenores técnicos. Então, quando um filme como esse tem uma qualidade tão inferior ao ponto de explicitamente parecer um produto de televisão nos dias de hoje, é porque a produção é muito barata mesmo, em todos os sentidos, chegando ao quase desleixo.

A história é atual, e pega o momento em que a mídia encontrou um novo nicho de subcelebridades, aqueles os quais ela titula como "influenciadores digitais", um nome genérico para tirar de cada um deles a alcunha de "youtubers", mesmo sendo daí que eles tenham surgido em sua grande maioria. Vloggers, bloggers, podcasters... os tipos mais comuns deles. Hoje em dia tem sido muito frequente o número de casais que se formam a partir de canais digitais, assim como tem sido a tendência de muitos canais também introduzirem seus cônjuges em suas vídeo-postagens para explorar a imagem do casal perfeito e, assim, ampliarem sua área de contato com o público.

A idéia do filme parte daí, tendo como par romântico uma produtora de conteúdo que fala sobre moda e beleza, e um que fala sobre jogos eletrônicos, os dois maiores segmentos em constante crescimento nos canais digitais, grupos que tem movimentado milhões anualmente.

Katrina (Isis Valverde) é uma garota bonita, bem vestida, simpática, educada e que leva seu trabalho a sério porque abraçou a responsabilidade que sua influência tem em milhões de pessoas que a seguem. Comedida em absolutamente tudo e completamente preocupada com sua imagem, monitorando 24h as postagens e os comentários que fazem sobre ela, a personagem é até bem construída nesse aspecto, pois conseguimos entender de maneira bastante simples todas as razões que a motivam a se comportar da maneira como se comporta, muito além da aparência fútil e materialista que ela possa demonstrar por viver em um mundo tão supérfluo. Por outro lado temos Fernando (Gil Coelho), que é completamente o oposto de seu interesse romântico, e de igual forma, o personagem raramente sai de sua unidimensionalidade. O que Katrina tem demais, Fernando tem de menos, e por incrível que pareça, mesmo sendo muito mais formal, ela ainda tem menos preconceitos do que ele.

Ao mesmo tempo que os personagens tentam reproduzir o comportamento genérico de pessoas que fazem o mesmo que eles na vida real, eles também não deixam de ser sátiras por conta do exagero comportamental e do excesso da caricatura daquilo que cada um representa, porque o apelo cômico fácil tem que existir, como o padrão da comédia nacional exige. Tudo um condensado de situações banais, uma Zorra Total na vida de dois jovens influentes da geração digital.

O que faz o casal protagonista ser cativante é que os atores conseguem dar mais profundidade a eles do que o próprio roteiro, mesmo quando Gui Coelho exagera nos comportamentos e caretas. Na verdade, a impressão que se tem é que muito do que eles fazem dá mais certo por improvisos do que por um texto que sequer existe, sensação muito mais presente nas cenas de Isis Valverde, que tem como uma das mais brilhantes qualidades nunca parecer que leva um texto ao pé da letra, seja na televisão ou no cinema, o que sempre faz transparecer um nível de realidade e comprometimento muito maior da sua interpretação por conta de uma qualidade simples: carisma.

Valverde é, sem dúvida, um dos grandes talentos atuais. Para quem assistiu seus trabalhos em mini-séries como O Canto da Sereia e Amores Roubados, ou até em novelas como Avenida Brasil e A Força do Querer, sabe que a garota é versátil e consegue vagar entre o drama e a comédia de maneira quase brilhantes, trazendo uma humanidade tão cativante aos personagens ao ponto de parecerem verdadeiros, como no momento em que recebe a notícia de que uma provável foto nua esteja sendo compartilhada por aí. É uma situação que não teria a menor obrigação de exigir de qualquer ator uma interpretação digna de nota numa produção como essa, mas ela o faz mesmo assim, e entre olhos que naturalmente expressam o pânico em lágrimas que brotam de desespero, ela ainda consegue manter o ritmo cômico sem deixar a peteca cair. Cena simples como diversas outras, mas que funcionam unicamente por autonomia dela, já que até direção a gente percebe que o filme não tem por menos que alguém possa saber o que um diretor faz.

É ela quem consegue ofuscar todos os mais diversos defeitos do longa, e de uma personagem que parecia linear demais, da metade do filme em diante ela consegue transformar toda a porcaria em sua volta com muito charme e técnica. Aliás, nem digo técnica, pois nem a vejo interpretando em cima disso, mas com naturalidade nata, ao ponto de até mesmo o previsível monólogo final não parecer artificial como uma moral pronta, mas um relato doído, magoado por um mundo de aparências e malícias que não sabe mais diferenciar a ficção do fato, ou o virtual do real. 

Em alguns momentos existe a tentativa de discutir de maneira até interessante alguns aspectos relacionados aos grandes problemas que a era digital trouxe consigo, como a perda da privacidade, a ultra-exposição e a vulnerabilidade das pessoas através das dificuldades que o casal passa a enfrentar conforme a relação progride, ao ponto do estopim parecer até banal, que será uma foto absolutamente inocente publicada numa rede social, mas que reflete de maneira bastante sucinta como a sociedade se tornou banal de igual forma.

A idéia não é de toda ruim, mas sua execução foi simples demais para algo simples demais, um susto quando descobrimos que o roteiro foi escrito por três pessoas. Por isso a tal sensação de desleixo, de algo planejado às pressas, como um condensado de um folhetim que nunca vingou, se ancorando em um público imediatista, que já perdeu há tempos a noção de qualidade daquilo que assiste justamente por estar agora mergulhado apenas naquilo que o YouTube pode oferecer. Um filme muito mais interessado em mostrar as dezenas de vloggers que fazem pequenas pontas na história do que em contar tudo de maneira mais fluida e comprometida. Talvez se tivesse sido desenvolvida em um outro formato, como uma mini-série ou uma série limitada, essa sensação de um mero pão-de-ló não fosse tão presente, e aí sim essa estrutura narrativa de situações e causalidades faria mais sentido, e Valverde daria conta da mesma forma como conseguiu não fazer deste filme um total desastre.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A VIDA DEPOIS DE QUEER AS FOLK...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Looking: The Movie
Ano: 2016
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Andrew Haigh
Elenco: Jonathan Groff, Frankie J. Alvarez, Murray Bartlett, Lauren Weedman, Russel Tovey
País: Estados Unidos
Duração: 85 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A conclusão da série da HBO que conta a história de três amigos gays em busca de seus sonhos e realizações.

O QUE TENHO A DIZER...
A maioria dos seriados ou filmes com temáticas homossexuais comumente são abusivos nos clichés. Claro que a série da HBO não seria diferente, mas o que a salvou foi não ser apelativa em nenhum momento como foi a exagerada ostentação da adaptação norteamericana de Os Assumidos (Queer As Folk, 2000).

Queer mostrava uma realidade distorcida e estereotipada das piores formas possíveis, em que todos os homens gays deveriam ser lindos, influentes e só se relacionarem com gente linda, terem corpos sarados, usarem roupas de marca com os melhores perfumes e frequentar baladas gigantescas dia e noite sem parar, com muita droga e sexo explícito se possível. Não que isso não acontecesse na vida real, mas a fantasia que o seriado criou se tornou algo questionável quando se inflou de tal forma na imaginação coletiva ao ponto de influenciar muito daquilo que a cultura gay se tornou no começo deste século em diante. Hoje em dia tudo pode soar muito natural e comum, mas no começo de 2000 o que víamos eram pessoas querendo ser os personagens, num comportamento que foi se reproduzindo assexuadamente e absorvido por osmose ao longo dos anos sem as pessoas sequer perceberem que elas se transformaram naqueles personagens. Claro que havia um ou outro personagem mais centrado e comportadinho, mas quando o seriado começou a soar fútil por demais, passou a abordar temas mais chocantes para trazer uma certa seriedade até patética, como o abuso de drogas, homofobia e o HIV. Mas nada disso importava, o que o público queria mesmo era conhecer um Brian num cavalo branco pra uma boa sacanagem e ter uma Babylon só sua.

9 anos depois do fim de Queer As Folk, Looking navegou completamente para o lado oposto disso tudo. Criado por Michael Lannan a partir de um curta metragem que ele mesmo havia feito em 2011, o tema central foi a busca de três amigos gays pelos seus mais diferentes sonhos e realizações na cidade de San Francisco. Como dito, embora os clichés existam, as atuações são convincentes, assim como as situações e os interesses. Não somos obrigados a acreditar no que está acontecendo, nós simplesmente acreditamos porque o tom é coerente com aquilo que os personagens estão vivendo naquele momento e lugar. Claro que eles são estereotipados, como o nerd ingênuo e solteiro, o artista liberal, o narcisista, a amiga hetero expansiva e o latino romântico. O que traz profundidade a cada um deles é que a busca de cada um por aquilo que acreditam é sincera e faz parte do cotidiano universal de uma cultura movida a regras e quesitos.

A realidade também é muito mais tangível. Dos atores com belezas mais comuns até as baladas alternativas que os personagens frequentam sem medo algum de se misturarem na diversidade de tribos. Ninguém é rico, ninguém frequenta restaurante caro ou se veste como catálogo de revista. Até mesmo as músicas são completamente o oposto da cultura house e club que se criou com Queer As Folk. Aqui o som é sofisticado e bem escolhido, que migra entre os diferentes estilos da melhor forma possível e em sintonia com a história.

A relação entre os personagens e a química entre os atores foi o grande atrativo de uma série que nunca teve tramas muitos profundas ou extensivamente dramáticas, e nunca se dispôs a idéias megalomaníacas. Era simplesmente o retrato da vida comum de um produtor de jogos eletrônicos, de um artista plástico e de um chef de cozinha, episódios curtos e leves com temas simples e emocionalmente honestos ao ponto dos episódios mais parecerem o documentário do dia a dia de três amigos do que um drama de situações. Abordagens mais realistas e humanas, como é da filosofia das produções originais da HBO (com excessão das fantásticas, como True Blood, Westworld, ou Game Of Thrones).

Cancelado depois de duas temporadas devido a queda de audiência, foi com uma petição online criada pelos fãs da série que a HBO aprovou a produção de um episódio especial em formato de longa metragem para dar um final conclusivo à série. A primeira temporada chamou a atenção justamente por não focar em uma única trama e abordar diferentes assuntos de maneira generalizada. Mas a segunda temporada caminhou um pouco para o óbvio quando se apropriou do cliché romântico ao dar atenção exagerada no conturbado triângulo amoroso criado em torno de Patrick Murray, o protagonista interpretado por Jonathan Groff antes de ficar famoso com Mindhunter, o hit da Netflix de 2017.

Claro que é possível notar as influências de Sex And The City no material de Lannan, principalmente nessa tentativa de transformar Patrick em uma versão masculina, insegura e auto-vitimizada de Carrie Bradshaw, o qual não importa com quem esteja, onde esteja e o que esteja fazendo, acabará sempre sendo o centro da atenção e de um problema. Isso não ofuscou os outros personagens, mas tirou deles melhores desenvolvimentos e conclusões.

É aí onde o longa igualmente peca. A história tem continuidade aproximadamente um ano após Patrick ter rompido com Kevin (Russel Tovey) e voltado a morar em Denver, assunto do último episódio da segunda temporada. Patrick agora retorna a San Francisco para o casamento de Augustin (Frankie J. Alvarez), reencontrando seus outros amigos e, obviamente, seus ex-namorados. Mas aquilo que era para ser uma celebração da superação de perdas e da maturidade, como o começo do longa promete, aos poucos começa a dar espaço para o mais do mesmo, com conflitinhos românticos, dúvidas sentimentais e a velha premissa de que apenas somos felizes e completos se estivermos acompanhados de um grande amor. Tanto que Dom (Murray Bartlett) é terrivelmente criticado quando afirma estar bem sozinho.

Novamente, tudo muito parecido com o triângulo Carrie-Aidan-Big e a tudo aquilo que fez de Carrie a rainha do drama e do exagero, reproduzido em igual proporção em Patrick. De Dom e Augustin, pouco ficamos sabendo de suas vidas além de diálogos muito rápidos e situações muito sucintas que esclarecem que o restaurante de Dom está dando certo e Augustin agora é um homem mais decidido e menos conturbado, tanto que vai casar. E só. O restante são apenas questionamentos banais do protagonista, discursos indulgentes tirados de livros de auto-ajuda e algumas tentativas frustradas de conciliação. Há muita volatilidade e distimia para um único personagem em apenas 85 minutos sobre uma visita de apenas 2 dias. Patrick é um personagem perdido por excelência, que sempre inventa desculpas a si mesmo para não encarar a sua própria realidade, que pula de um ex para outro, escolhendo aquele que lhe ofereça a melhor proposta, às vezes apelando no sentimentalismo para impedir os outros de seguirem suas vidas e assim beneficiá-lo com isso, como ele faz com Richie (Raul Castillo), quando este revela que pretende se mudar de San Francisco e Patrick apela dizendo que voltará a San Francisco, como a obriga-lo a ficar. Uma atitude bastante previsível para quem acompanhou a série e já conhece esse lado um tanto manipulador do personagem sempre que está sozinho. Que Patrick era egoísta, já sabíamos, mas o longa, como um encerramento da história, perdeu a oportunidade de criar uma redenção ao personagem sobre este que foi sempre seu grande defeito.

A existência da série foi válida. Uma pena que não teve a popularidade que poderia ter tido justamente por ter estreado numa época um pouco errada, na qual a cultura gay se firmava no auge da sua ostentação e da liberdade sexual. O imediatismo das relações criadas por aplicativos levou as pessoas a uma certa alienação social, e de repente um seriado surgir nesse meio tempo querendo abordar assuntos e discussões cotidianas que tentam fugir da banalidade acabou soando desinteressante e um pouco fora de época, ao invés de ser visto como uma dura realidade a ser relevada.

Infelizmente o filme não conseguiu dar continuidade ao bom desenvolvimento que as duas primeiras - e únicas - temporadas tiveram, nem como um último episódio. Ele encerra a história, mas não satisfaz como poderia. O que o salva do pior é que, surpreendentemente, a direção é de Andrew Haigh, o mesmo do intenso 45 Anos (45 Years, 2015), e em Looking ele consegue igualmente o mesmo feito: atingir a emoção do espectador em cheio ao captar os mais sutis momentos dos personagens. O comprometimento dos atores por seus papéis também é digno de nota outra vez, tão forte que o sentimento é genuíno e real, e a respeito disso, não há o que se falar mal, todos fizeram tudo muito bem e de uma maneira tão cativante que até deixa saudade do seriado.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

MULHERES FAZEM A FORÇA...

★★★★★★★★★☆
Título: Big Little Lies
Ano: 2017
Gênero: Drama, Suspense, Mistério
Classificação: 16 anos
Direção: Jean-Marc Vallée
Elenco: Nicole Kidman, Reese Witherspoon, Shailene Woodley, Alexander Skarsgård, Adam Scott, Zoë Kravitz, James Tupper
País: Estados Unidos
Duração: 60 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
As histórias de três mulheres, de suas respectivas famílias, e da relação existente entre elas, são expostas após um controverso assassinato.

O QUE TENHO A DIZER...
Houve uma época em que David E. Kelley era o J.J. Abrams dos anos 90/00, sendo conhecido principalmente por suas séries com bases jurídicas, já que ele mesmo foi advogado, largando a carreira para construir a de produtor de TV. Criou sucessos premiados como Ally McBeall (1997-2002), The Practice (1997-2004) e Boston Legal (2004-2008), também tiveram os aclamados Chicago Hope (1994-2000), Boston Public (2000-2004) e alguns outros. Mas advogados e séries era o seu negócio e sua característica como criador e produtor. Naquela época parecia que Kelley não tinha freios, e acumulou em sua carreira um total de 11 Emmys, sendo o último recebido por Big Little Lies, sua última criação até o momento, baseada no livro homônimo de Liane Moriarty, com roteiro adaptado integralmente por ele.

Mesmo tendo uma outra série em destaque no Amazon Prime, com Goliath (2016-), Big Little Lies é o grande retorno de Kelley depois de alguns anos um tanto apagado. A popularidade e o sucesso da mini-série não só trouxe de volta um dos maiores produtores aos holofotes, mas também o tirou completamente da zona de conforto daquilo que se condicionou a fazer e produzir ao longo de duas décadas.

Ter um roteiro bem escrito, cheio de elementos dispersantes (mas sem ser confuso), uma direção efetiva e que consegue lidar com o elenco peso-pesado, além de uma história intrigante e que reflete de maneiras, ora subliminares, ora diretas, muito daquilo que é a nossa sociedade moderna, não são os únicos elementos que deram créditos, superexposição e superestimação à série. A guerra pelos direitos do livro entre Netflix e HBO botou lenha nessa fogueira, e a partir do momento que HBO ganhou a licitação, um grande selo de qualidade foi carimbado, principalmente em tempos de Game Of Thrones, um dos maiores sucessos do canal pago até então. Além disso, o elenco formado excepcionalmente por estrelas de diferentes grandezas como Nicole Kidman, Reese Witherspoon, Laura Dern, Shailene Woodley e Alexander Skarsgård, fortaleceu mais ainda a imagem de que Hollywood tem buscado cada vez mais a televisão para se expandir, e que o encaretamento do cinema tem feito astros e estrelas encontrarem aporto e desafio em produções que fujam do status quo das salas de projeção.

Além disso, Big Little Lies é uma das poucas produções com debates claramente feministas e empoderadores que atraiu não apenas a atenção do público feminino em massa, como também do masculino, o mais resistente a temas como esse, já que, além de um drama, também é uma série de suspense e mistério.

Cada uma das personagens principais abordará basicamente um tema específico, como a maternidade ultraprotetora de Madeleine (Reese Whiterpoon), a violência e submissão doméstica de Celeste (Nicole Kidman), os traumas e as dificuldades da maternidade solitária de Jane (Shailene Woodley), o sucesso e a referência empresarial de Renata (Laura Dern) e, mais coadjuvante, porém nem menos importante, a liberalidade de Boonie (Zoë Kravitz). Todas elas com diferentes narrativas, construções e desenvolvimentos, ao mesmo tempo que dividem outras poucas qualidades em comum, como a independência financeira, idéias mais progressistas e menos arbitrárias do que a sociedade em que vivem na pacata, bem sucedida, porém conservadora e hipócrita cidade de Monterey, na Califórnia.

O roteiro tem sua parte linear, mas constantemente interrompida por flashbacks confusos de um passado mais distante, que aos poucos vão fazendo sentido conforme os episódios avançam. E também flashbacks mais recentes e coesos de certos fatos momentâneos ocultados para aumentar o nível de surpresa de suas revelações. Longe de ser uma novidade, essa narrativa desconstruída é o elemento que mais tem sido usado na televisão nos últimos 10 anos para elevar o suspense e a apreensão, conquistando facilmente a atenção do espectador, fazendo-o cair como um pato no gancho que o segura para o próximo capítulo. Não é um elemento ruim, mas para quem já o conhece de outros seriados como Damages, Bloodline ou até no mais recente The Sinner, não verá nisso algo realmente atraente, pelo contrário, nem damos muito atenção porque já se tornou previsível para os familiarizados.

De qualquer forma, são as abordagens sociais inseridas no contexto que trazem um certo charme repulsivo nas situações. A maioria  sobre as heranças históricas do comportamento feminino e a adequação delas na sociedade moderna, e da relação individual e coletiva das mulheres em comunidade. Temas complexos que envolvem todo um ecossistema, e não são simplesmente questões de gênero, do tipo: "mulheres são fofoqueiras porque é parte de sua natureza"; ou "mulheres não perdoam porque é parte da personalidade delas"; ou "elas são do jeito que são por questões hormonais". Respostas simplistas para uma sociedade machista que historicamente condicionou cada uma delas a estereótipos que encontramos a todo momento, e a coletivamente se comportarem como se comportam.

É a partir do momento que cada uma dessas personagens desafia o meio em que vive e entra em conflito com suas próprias crenças e raízes sociais que a transformação começa a ocorrer entre elas e na relação que as personagens passam a desenvolver entre si. Mulheres que, a princípio, começam a transferir suas pessoais frustrações a seus filhos e famílias, ao invés de resolverem os problemas fundamentais que causam esses dilemas. Não resolvem não por inalibilidade, mas por medo do julgamento social, da exploração indevida da imagem imaculada de mulheres perfeitas cobrada pela sociedade e fora do ambiente doméstico.

Sim, quando analisamos a fundo, Big Little Lies é uma versão mais séria e centrada de Desperate Housewives, e Monterey não é nada diferente da fictícia Wisteria Lane. Dos depoimentos maldosos até o comportamento mais cínico e desprezível de pessoas que apenas conhecem as protagonistas superficialmente, tudo é, de fato, fundamentado em fofocas, como cantigas de escárnio ou maldizer. E conforme mais as conhecemos, mais enjoados ficamos com observações tão falaciosas dos outros sobre elas.

Mesmo em toda a plasticidade apresentada, existe uma naturalidade palpável na forma como a série é conduzida. Os méritos disso ocorrem por duas razões principais, a primeira pela série ser produzida em grande parte por mulheres, incluindo Kidman e Witherspoon. A segunda é a direção de Jean-Marc Vallée, o mesmo de Livre (2014) e Clube de Compras Dallas (2013), que não apenas deu liberdade de criação ao elenco, como também de movimento, abolindo uso de iluminação artificial para que não houvesse obstáculos entre o cenário e os atores, e para que a sensação de realismo fosse maior. E funciona.

Kidman, por mais que ainda tente manter a aparência mais perfeita possível, não tem vergonha de se expor em cenas que acabam sendo as mais fortes e chocantes. Felizmente as intervenções cosméticas se amenizaram e ela agora tem expressões faciais novamente. O mesmo sobre Witherspoon, que por trás da imagem fútil e mesquinha, se mostra uma das personagens mais fortes e intrigantes. E aos poucos é assim que as relações são construídas entre elas, pessoas que criaram vínculos com outras que possuem o mesmo sentimento de não se enquadrarem no padrão exigido, por mais que tentem se adequar a ele, descobrindo que existe muito mais na realidade do que a vã filosofia dos outros.

É uma série que, a princípio, não se sabe muito bem sobre o que é, sobre o que irá falar ou qual é seu objetivo. Não chega a ser dramática ao ponto de arrancar lágrimas e soluços, mas trata de temas complexos e bastante deprimentes. Os alívios cômicos estão lá, espalhados pelos episódios, bem como o suspense e o mistério desde o primeiro capítulo, que começa como em O Rebu (2014), com um crime ocorrido durante uma festa promovida para a alta sociedade, do qual não saberemos quem foi a vítima e muito menos quem foi o assassino, até o último momento do último capítulo. Inclusive, esse foi um dos grandes êxitos, já que a mídia em geral parece ter assinado um contrato de confidencialidade, revelando nada além do mínimo necessário para não estragar prováveis surpresas, embora muita coisa se torne bastante previsível depois de um certo ponto, e confesso que, no quarto capítulo eu já deduzi toda a resolução da história, com uns 95% de acerto.

Uma série boa e muito bem construída, com alguns errinhos de continuidade aqui e ali, mas nada criminoso. Mas com tantos elementos reutilizados de narrativas de outras produções, Big Little Lies funciona pela bela química resultante de tantas idéias particulares e um esforço coletivo para que o projeto desse certo de maneira visível e quase palpável. Pode figurar entre as melhores produções do ano sim, mas o lobby em cima dele tem ofuscado outras séries que merecem as maiores premiações do ano, mais do que aqui, como: Feud, The Sinner (por sinal, muito mais intrigante) e Fargo.

MAIS ANOS 80 E STEPHEN KING...

★★★★★★★★☆☆
Título: It
Ano: 2017
Gênero: Horror, Suspense, Fantasia, Aventura
Classificação: 16 anos
Direção: Andy Muschietti
Elenco: Bill Skarsgård, Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Jack Dylan Grazer, Nicholas Hamilton
País: Estados Unidos, Canadá
Duração: 135 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um grupo de crianças se unem para tentar impedir um monstro disfarçado de palhaço de machucar e raptar outras crianças.

O QUE TENHO A DIZER...
A primeira adaptação de It foi feita para a televisão em 1990, quatro anos após o lançamento do livro homônimo de Stephen King. Foi uma minissérie de dois episódios, divididos tal como o livro. Levando a alcunha de Uma Obra Prima do Medo no Brasil, as pessoas se arrepiavam apenas em ver a caixa do VHS duplo nas prateleiras das locadoras. É considerado um clássico do horror, assim como é o livro. Pode soar prepotente intitulá-lo como uma obra prima, mas se analisarmos Pennywise e a sua função na história, o significado não parece tão distante, já que ele existe e se alimenta dos mais profundos medos, e só construindo todo esse cenário com magnitude que ele conseguirá isso. Logo, "uma obra prima do medo" não seria, necessariamente, sobre a obra em si, mas sobre o personagem e a sua função na história.

É claro que a versão de 1990 hoje em dia pouco assusta, e causa mais risos do que medo por conta, principalmente, da evolução narrativa que ocorreu no cinema ao longo dos anos e a mudança drástica daquilo que hoje consideramos terror, onde o gênero aos poucos foi se tornando mais explícito e chocante, deixando de lado a técnica. A sutileza foi substituída pelo banho de sangue, e os efeitos práticos pelos digitais. Hoje em dia filmes de terror agora só lidam com exorcismos exagerados, contos sobrenaturais cheios de efeitos especiais, ou o abuso do gore para ser chocante de maneira fácil. O terror imediatista, assim como tudo tem sido na última década.

O público se desacostumou com o terror de vanguarda, aquilo de causar arrepio na espinha, de deixar a gente tenso na poltrona apenas com o uso adequado da câmera, do som, e da expectativa. Por isso que muitas vezes, nessa nova versão, por mais que o diretor e o roteiro tente apelar para o terror mais visual e sangrento, muita gente saiu do cinema com a sensação de ser muito mais um filme de aventura do que algo assustador. De fato, ele é um pouco dos dois, e foi intencional, mas não deixa de ser um filme horripilante, ou creepy, como diriam os norteamericanos.

O livro, uma bela bitola de mais de mil páginas, é cheias dos mais ricos detalhes que apenas King consegue fazer, e corajoso aquele que conseguir devorá-lo. Primeiro pela sua extensão narrativa, e segundo porque realmente é assustador assim como os demais grandes clássicos do autor, como Carrie, O Iluminado, Cemitério Maldito e Christine, apenas como exemplos.

O grande fator interessante é que esta nova adaptação mantém um pouco das duas atmosferas: a clássica, com preferência aos efeitos práticos, da maquiagem e a preservação da técnica; a atual e moderna, com os efeitos digitais que funcionam na maior parte das vezes, da narrativa e edição mais condensadas e dinâmicas. As interpretações também são, de longe, muito melhores que a versão de 1990, principalmente por parte do elenco infantil, muito mais convincente e espontânea agora do que antes, até porque o diretor fez questão de dar liberdade aos atores de improvisarem. Sobre Pennywise, o de hoje é tão assustador quanto o de antes, e Bill Skarsgård imprimiu uma personalidade tão única a ele quanto Tim Curry. Curry deu ao personagem uma personalidade mais cômica, cheio de perversidade em suas piadas mórbidas e no tom caricato focado no humor físico, enquanto Skarsgård o deixou mais sombrio, expressivo e psicológico, com uma bagagem mais obscura e perturbada. O alívio cômico ainda existe, usado com seriedade para deixar a narrativa mais atraente, e não mais palatável. Tal qual o Coringa, não importa o ator que o interprete, Pennywise oferece material suficiente para ser criado e desenvolvido das mais diferentes formas sem perder sua característica principal, que é desafiar suas presas antes de atacá-las, ebulir o sangue para ele ser mais saboroso, como os vampiros fazem. O instinto selvagem e primitivo do animal caçador farejar o medo e se beneficiar disso.

Assim como Pennywise, que reaparece a cada 27 anos, a indústria do entretenimento também faz ressurgir gêneros, estilos e épocas de tempos em tempos. Seja no cinema, na moda ou na música, a saturação de uma tendência nos obriga a resgatar clássicos. Uma reciclagem necessária para oferecer referências às novas gerações, assim como aquilo que um dia foi feito é referência para nós hoje.

Não é à toa que os anos 80 voltou a ser uma tendência, e estamos sendo bombardeados por essa época por todos os lados, principalmente na música, no cinema e na televisão. Vide Stranger Things (2016-), um dos maiores fenômenos da Netflix, inteiramente baseado na época e que, inclusive, presta grandiosas homenagens ao próprio Stephen King e demais outros nomes responsáveis por importantes referências daquela década, como Spielberg e George Lucas. Tanto é assim que a história original se passa nos anos 60, mas esta readaptação agora se passa em 1987, não apenas para se enganchar na história, mas também no ressurgimento 80tista. E falando em King, é outro que também de tempos em tempos retorna às tendências, e depois de alguns anos em total hibernação, seu nome voltou a ser de grande interesse dos estúdios, principalmente agora, depois de uma leva de boas adaptações de suas obras que tivemos ao longo de todo esse ano, e principalmente do inesperado sucesso desta adaptação, que faturou quase US$700 milhões pelo mundo, se tornando o filme de horror mais bem sucedido da História do Cinema até o momento.

Não se pode ignorar que resgatar uma tendência movimenta o mercado, e tudo aquilo que é relacionado àquela tendência resgatada será igualmente consumido em massa, até ocorrer a saturação e as pessoas enjoarem.

A nova adaptação não foge dessa regra. Segundo o próprio diretor, Andy Muschietti, sua versão nada mais é do que um misto de Goonies (1985) com o horror. Oras, nada diferente da premissa de Stranger Things, que obviamente se baseou nas mesmas referências, fez sucesso com isso, e resgatou uma tendência. Originalmente eram os Irmãos Duffer (criadores, produtores, roteiristas e diretores de Stranger Things) quem tinham a intenção de dirigir o remake de It, mas só não o fizeram porque não tinham popularidade, e estavam focados na estréia da série. De qualquer forma, It vem tão embarcado nessa onda que o sentimento de estar assistindo a série da Netflix é a mesma, tanto que até Finn Wolfhard, que interpreta Mike na série mencionada, também está no elenco aqui. Claro que seu papel é bem diferente, e Richie nada tem a ver com Mike. Mas voltamos na teoria das referências, e quanto mais for possível alguém fazer referências sobre o que está em tendência, mais consumido aquilo será.

Lançado propositalmente 27 anos após a primeira adaptação, o filme não é uma propaganda enganosa. Ele realmente possui mais méritos do que o contrário, principalmente no misto de horror, aventura juvenil e comédia que são feitos tão bem. Não é um filme assustador e de se levar sustos o tempo todo, mas é aterrorizante e tenso na forma como o diretor constrói as cenas mais com técnicas visuais do que sonoras, criando sequências um tanto perturbadoras e aflitivas. O maior potencializador disso é, sem dúvida, Bill Skarsgård. Mesmo com tanta maquiagem, é possível perceber o talento do ator na caricatura mostruosa que ele criou de Pennywise à sua forma. A maquiagem serve mesmo mais para sequer imaginarmos que esse ator tem apenas 27 anos também.

Quando falamos das obras de King, nunca podemos esquecer das influências da realidade em suas fantasias. Aqui é a violência social e a corrupção infantil que toma grande forma, e como as pessoas são facilmente dominadas por aqueles que infligem o medo, de tal forma a marcar a memória, traumatizar a infância e influenciar a vida adulta. O que Muschietti tenta mostrar em muitas cenas é que o grande vilão da história nem é Pennywise de fato, mas as pessoas com quem convivemos no dia a dia, todos os dias do ano, sem 27 anos de hibernação. Da maternidade ultra-protetora e possessiva, do abuso doméstico, do assédio moral, da vulnerabilidade infantil. Pennywise é apenas o produto das doenças sociais que nós mesmos criamos, cultivamos e mantemos por gerações.

Por isso que o vilão não tem uma origem definida. Assim como Fred Krueger em seus primeiros filmes, as figuras mais assustadoras do cinema são aquelas que desconhecemos a origem, pois foram concebidas para serem a personificação do mal. O mal não precisa ser explicado ou definido, ele existe por si só, e todas as vezes que a maldade foi justificada, como o cinema costuma fazer em suas franquias, o medo genuíno deixa de existir. Ainda sobre Krueger, enquanto ele se alimenta do medo das pessoas por pesadelos, Pennywise existe pelo medo real, das aflições e fobias que nos atinge e nos enfraquece perante ele. Não é à toa que outro personagem na história tem tanto destaque. O adolescente Henry Bowers (Nicholas Hamilton) é a versão humana de Pennywise, aquele que igualmente amedronta, persegue, tortura, caça e fere, usando o terrorismo para dominar e camuflar sua covardia.

O roteiro, escrito primeiramente por Chase Palmer e Cary Fukunaga, acabou sofrendo algumas alterações por Gary Dauberman quando Fukanaga abandonou a direção, deixando o projeto por diferenças criativas com o estúdio. Enquanto Fukanaga pretendia explorar o medo através do suspense, mais do que com imagens óbvias, Muschietti preferiu o contrário quando o substituiu na direção, dando preferência às virtudes de Pennywise, que é sua habilidade de materializar o medo dos personagens. A concepção de Fukanaga, de ser mais sutil e subliminar, era interessante, e embora a de Muschietti seja mais óbvia e convencional, acabou funcionando de igual forma pelo simples fato de ter se mantido fiel ao livro e a narrativa de King em sua maior parte.

Portanto, dizer que é uma das melhores adaptações de King até hoje, é correto. Está longe de ser aquele filme de horror que tanto se esperou, mas as boas doses de variação entre os gêneros foi algo bem vindo em uma época em que o cinema tem sido muito pretensioso nas idéias, mas péssimos nas execuções. A segunda parte da história já teve sua produção confirmada, e seu lançamento é previsto para o fim de 2018. Esperaremos para conferir se, como um todo, as duas partes farão jus a todo o universo fantasioso e horripilante de King como se deve.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

NOVELÃO DE PRIMEIRA...

★★★★★★★★☆☆
Título: Outlander
Ano: 2014-
Gênero: Drama, Ação, Época
Classificação: 16 anos
Direção: Vários
Elenco: Caitriona Balf, Sam Heughan, Duncan Lacroix, Tobias Menzies, Graham McTavish
País: Estados Unidos, Inglaterra
Duração: 60 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Por motivos desconhecidos, uma mulher volta 200 anos no tempo, sendo obrigada a esquecer da vida que um dia teve e se adequar aos costumes de uma sociedade antiga, ao mesmo tempo que se deixa conquistar por um novo grande amor.

O QUE TENHO A DIZER...
Claire (Caitriona Balf) é uma mulher inglesa comum que sobreviveu aos horrores da Segunda Guerra Mundial, na qual atuou como enfermeira para seu país e seus aliados. Em uma visita a Iverness durante sua lua de mel, em 1945, por razões inexplicáveis, ela é transportada ao passado, voltando 200 anos para a segunda metade do século XVIII, deixando para trás seu marido, o historiador e professor Frank Randall (Tobias Menzies).

É a partir daí que toda a história tem início nessa série baseada na saga de oito livros da escritora estadunidense Diana Gabaldon (que também atua como consultora da produção), publicados entre 1991 a 2014, e cujo nono livro, já anunciado, ainda não tem previsão de lançamento.

A adaptação televisiva, uma co-produçao entre Estados Unidos e Inglaterra, é um grande sucesso do canal Starz, que estreou em 2014 e já foi renovada para sua quarta temporada, a ser lançada em 2018. E não é à toa que no Brasil ela tenha se popularizado bastante, pois mesmo sendo uma série, sua estrutura é bastante similar àquilo que nossa cultura está acostumada a ver nas telenovelas, ou soap operas. A diferença não esta apenas no requinte da produção, com cenários e fotografia deslumbrantes, figurinos de época belíssimos e atuações convincentes, mas também na qualidade narrativa, que mesmo tendo como núcleo central os clichés românticos do gênero, conquista exatamente por dar foco a um casal protagonista cativante, cuja exótica relação nunca se torna cansativa, além de subtramas consistentes que abusam de fatos históricos para embasar sua ficção.

Misturar ficção com a História não é novidade, mas Outlander faz isso de maneira bem interessante, abordando a diversidade cultural europeia do século XVIII com eloquência, seja no interior da Escócia ou entre os condados ingleses, do período hegemônico Francês e a engraçada liberdade sexual aristocrática que tomava conta dessa época à Boston da década de 60 e a influência de Jacqueline Onassis na moda, é impossível não se sentir imerso cada vez mais na narrativa conforme os episódios avançam.

Claire, por ser uma mulher independente e determinada, o que já era algo notável e pouco aceito ainda na década de 40, é recebida com espanto e repúdio pela sociedade escocesa machista do século XVIII, onde as mulheres eram apenas donas de casa subservientes, colocadas sempre atrás de seus esposos. Os rígidos códigos de honra existentes impediam-nas de decisões e participação efetiva na sociedade, e o aparecimento de Claire oferece um choque cultural imediato, tanto para os personagens, quanto para o espectador. Seja em meio a xenofobia que dificulta a relação cultural, ou na diferença de pensamentos e comportamento, a heroína já começa a traçar sua própria história de maneira categórica e impositiva, atraindo a atenção justamente por fugir do estereótipo de mocinha frágil e condescendente. Ela sequer finge ser assim, mesmo estando em um território hostil e sem lei, cuja insubordinação feminina era punida severamente. Aos poucos ela vence barreiras e pula obstáculos, inspirando outras a fazerem o mesmo, e dessa maneira desbravadora conquista o respeito de inimigos e aliados por conta de uma personalidade que não deixa ser abalada pelo tempo ou época.

A protagonista é um elemento transformador desde o início de sua narrativa no primeiro episódio, bem como em suas atitudes e postura. O roteiro, elogiado por seguir fielmente as obras originais (cada temporada tem cronologicamente sido baseada em um livro), se engrandece demais ao estar repleto de outras personagens femininas fortes e que a todo instante mostram como as mulheres tiveram papéis extremamente importantes na História, mesmo não sendo creditadas por muitas vezes serem obrigadas a atuarem de maneira coadjuvante e até anônima, como por várias vezes é exigido à própria protagonista. A todo instante ocorrem situações e diálogos que contrariam o pensamento machista ou misógino existentes até os dias de hoje, como em um momento entre James e Jenny, sua irmã, onde ele afirma que abriria a mão de sua própria vida para não ver a honra dela ser violada por um estranho. Ela em seguida retruca, dizendo que não é pelo fato dele ser homem que o mérito da decisão seja apenas dele, e que a necessidade também poderia levá-la a optar por ceder sua honra para mantê-lo vivo. Ou seja, independente do sexo, o direito de escolha é igual a todos.

E é seguindo este pensamento que os episódios estão repletos de embates verbais como esse e sobre diversos outros temas conservadores, sejam eles sociais, culturais, políticos, espirituais ou religiosos, engrandecendo a experiência que o seriado oferece e colocando-o em um patamar acima da média. O humor também é bastante presente de diversas formas, principalmente na maneira rústica como a cultura escocesa e retratada, que chega, às vezes, até soar como sátira, porém convincente de igual forma pelo principal fato dos personagens escoceses serem interpretados por atores escoceses. Então o sotaque que ouvimos não é exagero de interpretação, mas genuíno, que respeita a linguagem coloquial da época. Tanto que uma das dúvidas dos produtores antes do seriado ser produzido era se o inglês seria a língua dominante, e foi então que chegaram à conclusão que até poderia ser, mas as línguas nativas, principalmente o galês, seriam usadas constantemente para causar a sensação ao espectador de realmente se sentirem forasteiros da história e terem a mesma dificuldade de compreensão que a protagonista muitas vezes tem.

Mas é claro que o drama é sempre o prato principal, e é isso que caracteriza o tal ar folhetinesco, já que muitas situações se repetem demais ao longo das temporadas cheias de idas e vindas para o mesmo ponto de partida, como o herói sempre ter de salvar a heroína e vice-versa, ou o constante embate maniqueísta do bem contra o mal. Não importa onde eles estejam ou para onde vão, as tramas serão sempre parecidas entre si. Mas embora pareçam repetitivas, são propostas de maneiras tão distintas e mirabolantes que, mesmo tendo finais previsíveis, nos empolgamos sempre como se fosse novidade, pois o que tira a sensação repetitiva é a multidimensionalidade dos personagens e as mudanças constantes de cenários e locações.

Cada um dos protagonistas e coadjuvantes tem suas respectivas tendências heroicas ou vilânicas, mas o karma construído tem profundidade, e não importa ser mocinho ou bandido, todos cometem erros, acertos e possuem momentos de redenção na hora certa. Aliás, isso é algo muito interessante, já que o roteiro nunca adia ou reprime os sentimentos de seus personagens, correspondendo exatamente com a atitude que o espectador espera. Quando pensamos que um personagem deveria agradecer outro por um ato nobre, isso acontece; quando pensamos que a protagonista deveria abraçar o mais turrão dos combatentes para expressar sua gratidão, isso acontece; até mesmo quando simplesmente queremos que o casal principal se beije, se abrace e role no chão como se não houvesse amanhã, isso acontece. Diferente de elementos unicamente previsíveis, essas ocasiões são méritos da honestidade do roteiro que está sempre em constante sincronia com as emoções de quem assiste, oferecendo exatamente aquilo que se espera nos momentos certos, sendo por isso muitas vezes difícil de conter emoções genuínas, por mais banais que sejam.

A relação entre Claire Randall e James/Jamie Fraser é um dos elementos mais atraentes da história. É literalmente o caldeirão que encontrou sua tampa, construindo a partir daí aquela velha premissa do grande épico romântico atemporal. A prepotência de James é amenizada pelo temperamento dominante de Claire e a teimosia de ambos encontra equilíbrio quando se chocam. Dessa forma desenvolvem uma relação de respeito e cumplicidade tão fortes que o senso de um viver em complemento ao outro é crescente, se fortalecendo cada vez mais frente a tantas adversidades, sendo um dos casais românticos mais bem desenvolvidos na televisão nos últimos anos, pois ao mesmo tempo que abusam dos clichés, a química existente é surpreendente e honesta suficiente para conquistar o respeito e a admiração sem cansaço.

Os vilões das diversas subtramas pipocam em cena com grandiosidade e em momentos inesperados, muitas vezes em coincidências bem forçadas, mas que fazem parte da característica do seriado como um folhetim clássico. Seja na sádica sociopatia de Black Jack Randall ou do caricato humor maquiavélico do oportunista Duque de Sandringham, é o tom às vezes até exagerado de seus arcos dramáticos que fazem deles personagens assustadoramente memoráveis, em performances que muito se assemelham aos vilões Coronel Hans Landa (Christoph Waltz), de Bastardos Inglórios (2009); ou Charlie Rakes (Guy Pearce), de Os Infratores (2012); ou até mesmo Silva (Javier Bardem), de Skyfall (2012). Todos personagens de requintada perversidade que, como dito, mesmo tendo finais previsíveis, conseguem tirar do espectador o mais genuíno asco. Claro que a violência aqui não chega aos níveis de Game Of Thrones, mas há o suficiente para dar aquele incremento espetaculoso, enjoando, revoltando, ou até mesmo satisfazendo nossa sede de vingança. Existem situações tão cruéis, como as cenas de chicoteamento ou de estupros, que são bastante indigestas, e outras que não são mostradas, mas deixa implícito na imaginação do espectador a brutalidade, trazendo aquele gosto amargo da injustiça, como as referências à inquisição e a terrível caça às bruxas promovida pelas religiões cristãs.

Outlander, a princípio, pode parecer uma série bastante feminina e abusar do formato novelesco. Tem uma temática feminista forte para desenvolver discussões sociais, mas nem por isso deixa de ter aquilo que o público masculino também gosta de ver. Não perdem a oportunidade de agradar o público alvo com as várias cenas de nudez masculina, mas ainda há excesso de peitos de fora ao longo das temporadas, principalmente da protagonista, coisas que servem apenas como elementos eróticos dispersantes, mas nunca são ofensivos. É um seriado adulto, que pode demorar um pouco para cativar, mas depois que se embarca em todo esse misto de fantasia e época, se torna tão viciante quanto qualquer boa telenovela brasileira, uma sensação que fica muito maior na terceira temporada, repleta de situações dramáticas açucaradas e muito romance perfeito.

A terceira temporada pode não ter o mesmo brilho que as duas primeiras tiveram, mesmo quando a segunda temporada simplesmente inventou uma desculpa qualquer e abandonou o cenário francês de um minuto para o outro, uma das fases mais belas e surpreendentes do seriado. A impressão que se tem é que ou os custos estavam elevados demais, ou o roteiro se perdeu, até porque vários personagens entraram mudos e saíram calados, sem grandes desenvolvimentos. Além de que, é realmente clássico o roteiro se embramar em subtramas irrelevantes para ofuscar buracos ou erros de continuidade, e fazer o espectador facilmente se esquecer da ausência de certas conclusões ou defeitos, como gerações passarem e os protagonistas não envelhecerem, tal como a "Síndrome de Glória Perez", dos protagonistas de suas novelas nunca se modificarem com as longas passagens de tempo, como em O Clone (2001-2002). Mas no geral, nada que prejudique a linearidade da história.

De qualquer forma vale a pena. É um drama de época escapista e interessante, extremamente bem produzido e escrito. Como dito, os roteiristas respeitam não apenas o material original, como os sentimentos e as emoções dos espectadores, sendo isso que o faz ser cativante da forma como é.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

DA GÊNESIS AO APOCALIPSE...

★★★★★★★★☆☆
Título: Mãe! (Mother!)
Ano: 2017
Gênero: Suspense, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Darren Aronofsky
Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Kristen Wiig
País: Estados Unidos
Duração: 121min.

SOBRE O QUE É O FILME?
O relacionamento de um casal é posto à prova quando um grupo de estranhos os visitam, atrapalhando a vida tranquila que tinham.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando Deus criou a Terra, ele deu a Natureza o poder do ciclo perpétuo da vida, e deste ciclo a criação de outras vidas. Mas não era o bastante, e à sua imagem e semelhança, colocou na Terra um homem, chamado Adão para ter alguém que pudesse amá-lo e adorá-lo. Para tirar a solidão de seu filho, dele foi retirada uma costela, e dela Eva foi feita. Ambos podiam usufruir de tudo aquilo que a Natureza poderia oferecer, só não podiam cometer o pecado original. O pecado original retirou de seus filhos a atenção e devoção, e dele nasceram Caim e Abel. A inveja levou o mais novo a matar o irmão mais velho, e assim os pecados foram perpetuados por seus descendentes, geração após geração, que juntos aos sete pecados capitais e a quebra dos 10 mandamentos, gerariam o caos, a guerra e à destruição. Deus não é perfeito, pois sua imagem e semelhança cometeu erros, mas em suas mãos existe o poder para destruir e reconstruir de novo, e para isso ele precisa apenas da materia prima mais pura da Mãe de todas as mães, aquilo que ela sempre ofereceu, mas ele nunca aceitou por ter ficado cego pelas belezas que criou.

E dessa mesma forma, mas contado de uma maneira muito mais peculiar, é que a história do casal interpretado por Javier Bardem e Jennifer Lawrence começa em sua bela casa de campo, afastados de qualquer civilização.

Sim, a base de todo o filme é o resumo dos livros Genesis e Apocalipse, da criação e da destruição. Dizer isso não é um spoiller, mas um favor para a melhor compreensão do filme e dos impactos que ele gera ao longo de suas duas horas. Mas falar sobre a história propriamente dita e suas mais obvias referências, é fazer sentido até aí, porque depois disso o filme é ribanceira abaixo para uma enxurrada de associações, metáforas e alegorias de outras metáforas e alegorias, já que não só da Bíblia que tudo se baseia. Como dito, o filme apenas utiliza o livro religioso como as principais bases da história, mas é possível identificar outras, como a da casa viva, que se torna o reflexo de quem vive nela. E assim como em A Guerra dos Roses (The War Of The Roses, 1989), no qual o cenário se desfalece conforme a relação entre o casal protagonista chega ao ápice da auto-destruição, o mesmo é de ser esperado no filme de Darren Aronofsky, mas com muito mais informações e parenteses até isso acontecer.

Não era de se esperar algo diferente do diretor, o qual também assina o roteiro e a produção, tal qual fez com seus filmes anteriores, e igualmente perturbadores, Requiem Para Um Sonho (2000) e Cisne Negro (2010), além dos questionamentos religiosos e espirituais que ele faz em Noé (2014), algo que ele volta a explorar aqui, mas de maneira muito mais crua e chocante.

Dessa vez o diretor viaja fundo nas entranhas da humanidade, nas suas crenças e descrenças, da sua forma mais simbólica até a mais folclórica. Se em Requiem ele divagou sobre os prazeres pessoais e até que ponto os diferentes personagens estavam dispostos a ir pelos seus sonhos e vontades, e em Cisne ele pegou praticamente a mesma premissa, mas condensou o processo obsessivo na protagonista, aqui ele também volta a dialogar sobre vontades, obsessões e ambições, mas de uma forma tão abrangente e espalhada que é difícil não pensar em mil coisas ao mesmo tempo.

De uma esposa dedicada até a incontrolável ira de uma mãe, da misoginia ao abuso e a violência física. O filme de Arenosfky é perturbador no seu inexplicável trajeto final. Um misto de sensações que extrai e nos joga na cara as piores naturezas humanas. Por situações muito rápidas, Arenofsky tenta até ser didático ao seu espectador com as referências que usa, como quando o personagem de Ed Harris está no banheiro e Lawrence enxerga uma ferida em sua costela, ou quando a própria Lawrence diz próximo ao fim do filme que precisa organizar a bagunça deixada pelo Apocalipse. Apenas dois exemplos de vários espalhados por toda a trajetória do casal.

Essa é a intenção do diretor desde o princípio, tanto que a polêmica criada em torno do filme surgiu justamente pelas pessoas não terem conseguido entender quais eram as alegorias, e aqueles que entenderam consideram o filme uma heresia, uma deturpação religiosa sem fim, dentre outros absurdos.

Mas Mãe! não é apenas de religião ou espiritualidade, mas a consequência de tudo isso e de toda a relação humana, sendo, acima de qualquer coisa, uma ode (ou um novo requiem) ao inconveniente: das heranças culturais machistas; da imposição social; da opressão sexual; da intrusão; do desrespeito; da desvalorização humana; das ilusões sociais; da impotência; da inferiorização; da cultura vazia; da idolatração; da deturpação de valores; do definhamento humano; da exploração; do abuso; da ignorância e incompreensão; do medo, do caos, do pânico e da discriminação; do colapso; da segregação; da re-ascensão conservadora; da intolerância; da violência gratuita e sem propósito; do surto coletivo; do comportamento de rebanho; da perda da fé, da identidade e da esperança, etc... etc...

Das doenças sociais que nos afetam, transformam nosso meio e nos fazem ser o que somos. A imagem e o resultado nu e cru do fim que nós mesmos construímos.

É como o poema transformador do personagem de Javier Bardem, responsável por abrir os olhos daqueles que o leem, assim como os cegos que voltaram a enxergar em Ensaio Sobre A Cegueira, de José Saramago. É a Caixa de Pandora da Mitologia Grega aberta, liberando todos os males e, junto, indo embora a única coisa que não poderia jamais ter saído.

É óbvio que a viagem de Aronofsky é muito mais lisérgica. Segundo ele, é um filme psicológico-delirante, construído para não ter uma lógica óbvia, e quanto mais se tenta encontrar respostas ou significados para ele, mais questionamentos ele cria, numa onda sem fim. É um daqueles típicos filmes que favorecem a masturbação mental, mas que de uma forma intrigante desenvolve questões humanas profundas e de problemas tão atuais e viscerais que chega a ser indigesto. 

Da criação ao apocalipse, da origem ao fim, e do fim ao recomeço. É assim que Mãe! é. Um filme que nem agrada e nem desagrada, e terá uma interpretação diferente para cada pessoa dentro de suas referências principais. Por isso eh um filme desconfortável, polêmico e controverso. Todo o exagero do ser está lá, e a reação exagerada do público quando ele foi lançado, como aconteceu com as vaias em Cannes, apenas faz toda a ficção delirante do longa ser um mero reflexo da nossa mais estúpida realidade.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

LOIRA ATÔMICA...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Atômica (Atomic Blonde)
Ano: 2017
Gênero: Ação
Classificação: 14 anos
Direção: David Leitch
Elenco: Charlize Theron, James McAvoy, John Goodman, Toby Jones
País: Alemanha, Suécia, Estados Unidos
Duração: 115 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Após o assassinato de um agente secreto, uma lista contendo nomes de agentes duplos da MI6 é exposta, colocando em risco a vida de todos, incluindo a da agente enviada especialmente para descobrir os motivos do crime.

O QUE TENHO A DIZER...
Atômica foi lançado e divulgado na premissa de trazer as mulheres novamente no primeiro plano da ação bate-e-arrebenta, com protagonistas que não são abaladas pelo sexismo ou pela esterotipação masculina, e que possam ter personagens tão fortes quanto eles, em cenários tão violentos quanto os deles.

Mas vale dizer que, apesar desse mérito, ele não é um carro chefe, sequer uma revolução. Nos últimos anos tivemos filmes de ação com protagonistas femininas muito fortes. Só Charlize Theron estreou dois antes desse: na adaptação da famosa série animada da MTV, Æon Flux (2005), e no estrondoso sucesso de crítica e público de Mad Max: Estrada da Fúria (2015), de longe um dos melhores do currículo da atriz por todo o significado de sua personagem no filme e a mudança de rumos que isso trouxe para a clássica franquia de George Miller.

Quando lembramos das mulheres no cenário de pancada, não podemos esquecer de Uma Thurman em Kill Bill (2003/2004), talvez a memória máxima do estilo no cinema desde século, que não apenas colocou Beatrix Kiddo com uma das protagonistas femininas mais fortes e empoderadas do gênero como também diversas outras antagonistas numa reunião exuberante que movimenta toda a história mais do que o próprio Bill (David Carradine), como: O-Ren Ishi (Lucy Liu); Vernita Green (Vivica A. Fox); Elle Driver (Daryl Hannah); Sofie Fatale (Julie Dreyfus) e Gogo Yubari (Chiaki Kuriyama).

Também menos interessante, mas nem por isso menos importante, a tentativa de Steven Soderbergh de revitalizar o estilo com Haywire (2011), trazendo Gina Carano, a famosa ex-lutadora de MMA, como protagonista, relembrando muito daquilo que Cynthia Rothrock fez nos filmes de pancadaria para a TV nas décadas de 80 a 90. Houve tentativas esdrúxulas, como Angelina Jolie numa cópia barata de Jason Bourne em Salt, Milla Jovovich na tenebrosa franquia Resident Evil, ou Jennifer Garner na abominável adaptação de Elektra (2005).

Não importa. Seja de Pam Grier a Michelle Yeoh, de Lucy Lawless a Rhona Mitra, de Carrie-Anne Moss a Kate Backinsale... as mulheres conseguem ser bem representadas no cinema estrogênio, já que o termo "testosterona" deixou de ser representação singular de força e empoderamento há muito tempo.

O grande problema é que a frequência com que isso acontece ainda é baixa, havendo uma relutância do público quando as intenções do cinema de ação dar mais espaço às mulheres ficam exageradamente expostas, ao invés de ser promovido sem essa intenção impositora, como aconteceram com os filmes de Tarantino ou Miller. E assim como ocorreu com As Caça Fantasmas (Ghostbusters, 2016), Atômica também sofreu da fúria conservadora quando utilizou esses princípios, não arrecadando nem US$100 milhões no mundo, nada mal para uma produção de US$30 milhões, mas nada que o considere um grande sucesso.

O que é uma grande pena, principalmente em um ano dominado pela Mulher Maravilha, pois é um interessante filme de espionagem de David Leitch, estréia do ex-dublê que agora se tornou diretor, trazendo Lorraine Broughton (Charlize Theron) como uma espiã da MI6 exposta por um traidor durante uma missão em Berlim.

Quer dizer... nem tão bem estréia assim, já que Leitch foi co-diretor de John Wick (2014), mas sem ser creditado.

Atômica é uma adaptação da novela gráfica The Coldest City (2012), de Anthony Johnston (autor) e Sam Hart (ilustrador), e assim como a obra original, o filme irá se desenvolver em meio aos acontecimentos que precederam o colapso do Comunismo na Alemanha com a Queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria. A história se mantém fiel ao material original, e por muitas vezes a fotografia de Jonathan Sela e os enquadramentos de Leitch utilizam das mesmas perspectivas dos desenhos que, embora sejam em preto e branco, são belissimamente adaptados ao colorido do filme. Cores sempre muito frias para causar a sensação de desconforto, isolamento e distância, com um ou outro choque, principalmente nos momentos mais densos da história, ou quando a protagonista parte diretamente para sua violência de sobrevivência.

Para quem é fã de James Bond e delirou com Skyfall (2012), lançado no mesmo ano da novela gráfica, irá encontrar muitas semelhanças entre as duas histórias, principalmente por ambos serem agentes secretos da MI6, e também porque a exposição de uma lista secreta de agentes duplos que passam a ser caçados um a um, sobrando à heroína tentar sobreviver e impedir o avanço da operação porque ela mesma está incluída nesta lista, também é um enredo similar ao de James Bond no filme mencionado. Também será impossível não relacionar os momentos de ação com as cenas antológicas da franquia Bourne, que incluem consistentes brigas corpo a corpo, o uso improvisado de objetos comuns como instrumentos de ataque e defesa, tiroteio comedido e uma perseguição de carro bastante interessante. A sensação da câmera na mão é presente o tempo todo, mas não tão delirante e labiríntica como os filmes de Paul Greengrass popularizaram. E ao invés da edição picotada, utilizada em demasia na Trilogia Bourne e que igualmente virou febre em todos os filmes de ação posteriores, aqui Leitch prefere abusar de planos sequência para que as coreografias de luta fossem amplamente registradas e mais convincentes, deixando de lado técnicas de edição para intensificar as técnicas de batalha. O que é sempre muito interessante em um cinema que tem deixado cada vez mais a atenção a mínimos detalhes de lado.

Mas enquanto o filme prefere impressionar em alguns pontos com a preferência de técnicas mais vibrantes e interessantes, ele peca no excesso de outros, como na trilha sonora recheada de clássicos 80tistas, usada de maneira tão intensa que chega a ser invasiva. Ou sempre mais alta que os diálogos ou sempre entrando em momentos desnecessários, a intenção é claramente de compensar as sequências mais monótonas de desenvolvimento da história, como na primeira metade do filme, e assim o espectador ter a falsa impressão de que tudo é empolgante do início ao fim. O que não é. Apenas na segunda metade que a ação vai tomar conta de tudo e o dinamismo da história acelera. Nem por isso o roteiro deixa de ir e vir várias vezes de e para lugar algum, tornando-se redundante para uma história que, inclusive, pode parecer confusa demais, naquela velha técnica narrativa de desconstruir fatos para causar a impressão de complexidade. E mesmo assim continuar previsível.

Charlize, deslumbrante como sempre, não precisa mais do que ela mesma em frente a câmera para chamar atenção até em filmes bem porcarias como Branca de Neve e o Caçador (2012) e sua sequência O Caçador e a Rainha de Gelo (2016), e mesmo numa personagem sem grandes variações emocionais, ela dá conta do recado, trazendo ao filme um refinamento que dificilmente qualquer outra atriz teria em seu lugar. Até porque o grande e único atrativo é ela e apenas ela, realizando movimentos numa coordenação que impressiona, imprimindo um estilo próprio assim como outras grandes estrelas de ação já fizeram em seus respectivos filmes. Irritante mesmo é James McAvoy, que se acomodou nos cacoetes com sua boca e acredita que fazer careta é atuar. Entorta a boca aqui, arreganha os dentes ali, morde ou bota a língua pra fora acolá... é tão irritante quanto a altura da trilha sonora. Inconveniente, propriamente dizendo.

E mesmo com esses defeitos que podem ter tido destaque justamente por ser um diretor estreante e mais preocupado com elementos visuais e sonoros, novamente não é um filme memorável, mas traz consigo idéias interessantes e cenas bem empolgantes e realistas. Não tem o excesso de ação como o trailer prometia, mas ainda sim empolga em sua segunda metade, acordando o espectador que bocejava nos primeiros 30 minutos.

Sem falar que é impagável uma das cenas finais de Charlize, quando pergunta o que ela deveria vestir para o chá com a Rainha. Cena simples e que mostra como a atriz tem um poder único e quase hipnotizante na tela, sendo esta a razão do filme funcionar e, de certa forma, oferecer o que propõe. Poderia ter acabado alí, mas infelizmente nem sempre os filmes são como esperamos.

domingo, 10 de dezembro de 2017

O LABORATÓRIO DO VOYEUR...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Voyeur
Ano: 2017
Gênero: Documentário
Classificação: 16 anos
Direção: Myles Kane, Josh Koury
Elenco: Gay Talese, Gerald Foos,
País: Estados Unidos
Duração: 96 min.

SOBRE O QUE É O DOCUMENTÁRIO?
Sobre um homem que adquiriu um motel apenas para observar seus hóspedes, algo que fez durante aproximadamente 30 anos sem qualquer pessoa sequer imaginar ou descobrir.

O QUE TENHO A DIZER...
Ser voyeur não é um mérito apenas de fetichistas sexuais. A denominação daquilo que outrora foi estritamente considerado uma desordem sexual, acabou tendo outras derivações ao longo dos tempos, sendo um dos desejos (ou práticas) mais intrínsecos e natos do ser humano que nem o próprio ser humano se dá conta. É engraçado que as pessoas comuns tendem a relacionar a prática diretamente com o sexo, porém ela não é necessariamente isso, mas uma realização de um prazer pessoal, uma satisfação pela observação do comportamento alheio, seja ele qual for. Você pode achar que não seja assim, justamente por essa analogia sexualizada ser tão forte. A verdade é que, no fundo, todo mundo é.

Seja observando as pessoas à sua volta em um ambiente, seja querendo saber o que esteja acontecendo por trás da silhueta em uma janela, seja querendo saber do que se trata o barulho do outro lado da parede ou no quarto vizinho do hotel, seja verificando constamente suas redes sociais nos perfis alheios de pessoas conhecidas ou anônimas, o voyerismo é simplesmente a saciação do desejo de querer saber o que outras pessoas façam. Comumente confundida com a simples curiosidade. Mas quem disse que ser curioso não é ser voyeur?

A prática era muito relacionada à observação anônima de uma situação privada, mas essa denominação também foi perdendo forças, já que ela também pode acontecer em situações onde o(s) indivíduo(s) observado(s) esteja(m) ciente(s) disso, pois assim como existem aqueles que gostam de observar, existem aqueles que gostam de se expor e serem observados, como é bastante explorado no filme De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999), de Kubrick.

A questão é que, a impressão que se tem é que a sociedade relacionou o voyeurismo unicamente ao sexo, à desordem e à perversão, justamente para tentar negar que seja uma prática comum, presente no nosso cotidiano das mais diversas formas, e assim vivemos na hipocrisia de atribuir o fato apenas àqueles que determinamos serem "perturbados" ou sexualmente pervertidos, e assim nos mantemos distantes da realidade.

Foi assim que Alfred Hitchcock abordou a prática em diversos de seus filmes, como Janela Indiscreta (Rear Window, 1954), talvez a maior referência do gênero no cinema comercial. O diretor propositalmente utilizou o voyeurismo não apenas para desenvolver a história, mas também como técnica para criar o crescente suspense e induzir o espectador ao interesse, transformando-o em um voyeur sem ele mesmo perceber, persuadindo-o a ter os mesmos interesses que o os personagens. O interessante desse filme é que o voyeurismo abordado é da forma mais abrangente possível e não restrita apenas a desejos sexuais, pois o personagem de James Stewart não realiza a prática para cultivar sua libido, mas para saciar o desejo pela curiosidade e o prazer/satisfação pessoal que isso lhe proporciona conforme desvenda os interesses e mistérios relacionados ao objeto observado com a progressão dos fatos. Ele passa a se interessar pelo cotidiano alheio por consequência do tédio que se encontra ao estar preso a uma cadeira de rodas, e aos poucos sua rotina de observador oculto igualmente influencia seus amigos que o visitam, atraindo o interesse dos mesmos pela vida do vizinho. O que o protagonista faz com os demais personagens é exatamente o que ele e o diretor fazem com seu espectador, e por isso o filme também é considerado um grande experimento de massa, pois todas as pessoas que o assistem acabam tendo os mesmos desejos e vontades do protagonista, que é um voyeur.

Dar toda essa introdução é importante para que o documentário assinado pela Netflix seja visto por outros olhos. Ele vai contar a história de Gerald Foos, um senhor de 78 anos que, por 30 anos, observou cada um dos hóspedes do motel em que foi proprietário. Foos é um cara comum, inteligente, reservado, eloquente, engraçado e um grande contador de histórias, coisas que não esperaríamos de alguém que pudesse ser mentalmente perturbado, obsessivo ou sexualmente perverso. Foos relata que a vontade de observar as pessoas em um ambiente controlado foi sua grande motivação para comprar a propriedade na década de 60. Segundo ele, o motel era perfeito para tudo aquilo que ele queria, sendo exatamente como ele imaginava. Para ele, observar a todos por cima era como brincar de deus, numa analogia até bastante segura e interessante, já que deus seria o maior voyeur que existe.

É claro que, dentro da cabeça de Foos, algo deve acontecer, não por ser voyeurista, mas por ter alimentado isso por tanto tempo da forma como fez. Seu acervo de inúmeras coleções, seu comportamento metódico, suas anotações detalhadas, o empenho e a dedicação na realização dos processos, até dão indícios maníacos e psicóticos, mas que em nenhum momento interferiram negativamente na sua vida ou na das outras pessoas, até mesmo as observadas, já que os registros de Foos eram apenas manuscritos, numa época que a tecnologia não era tangível como é hoje, além de nunca ter revelado identidades. Dizer que tudo o que ele fez faz parte de uma normalidade social, não é correto, mas também denominá-lo como uma pessoa perturbada também não é. Há um meio termo, algo que acontece entre um e outro, mas que não conseguimos identificar.

Gerald Foos sempre tratou o assunto como um grande experimento, tanto que ele se refere ao seu lado voyeurista em terceira pessoa, apenas como "O Voyeur". Existe uma ética que ele cumpre à risca, que o distancia daquilo, como a querer valorizar o olhar científico do que faz e impedir a influência pessoal sobre o que exerce, mesmo que ele tenha quebrado essas regras em algumas situações. Tanto que, por diversas vezes, ele criou ambientes adversos para observar o comportamento das pessoas, como o experimento que fez com a maleta de dinheiro, algo que, dentro de toda a situação controversa e polêmica, acabou sendo até genial. Mas errou quando o lado pessoal resolveu interferir diretamente em um momento que envolveu um hóspede traficante de drogas.

Sim, a história de Gerald é interessante, e ele sabia disso. Por essa razão, na década de 80, ele procurou Gay Talese, um renomado jornalista do The New York Post que havia acabado de publicar um de seus maiores best sellers, A Mulher do Próximo (1980), um grande marco do Novo Jornalismo, que além de ser investigativo, também é participativo, revelando o painel contemporâneo dos costumes sexuais que surgiram nos anos 60 e 70 nos Estados Unidos. Após ler o livro, Foos acreditava que Talese era o jornalista perfeito para o qual ele deveria contar sua história e publicá-la. E foi por uma carta que a relação entre eles teve início.

Toda essa relação entre Foos e Talese é bem desenvolvida e explorada no documentário, bem como os pormenores que acabaram levando a reviravoltas interessantes na história. Tudo baseado na omissão de informações por parte de Foos, como o exagero da auto-confiança narcisística e egocêntrica de Talese. Quando esses dois grandes defeitos se chocam, a bomba atômica é lançada numa sequência de desastres que afeta a todos de uma só vez.

Mas o documentário não passa disso. Ele raramente entra em pormenores sobre o que de fato é interessante ao espectador, que são as observações de Foos. A conclusão que ele tirou depois de anos como um voyeur ativo, ou os motivos de ter vendido a propriedade na década de 90, nada disso parece ser relevante. Foos não é tratado com humanidade, apenas como um objeto que observa objetos. A produção se atenta apenas em mostrar quem é o voyeur e quem é o jornalista, ambos em um duelo de quem é que fala mais a verdade, criando até momentos interessantes de dúvida, já que Foos é a fonte de informação dele mesmo. E como diz Talese em um momento: para um jornalista, uma única fonte de informação sempre é perigoso demais.

Pode ser que Foos aumente um ponto aqui e invente uma coisa alí porque toda a história é baseada apenas naquilo que ele mesmo documentou, mas não é possível acreditar que tudo seja uma ficção criada por ele mesmo, até mesmo porque o motel realmente existiu, Gay Talese o conheceu e confirmou a existência não apenas das estruturas e adaptações construídas pelo próprio Foos, como também os blocos de anotações detalhadas dos hóspedes e das observações feitas. O documentário ignora insistentemente que a mulher de Foos também é uma fonte, já que ela tinha conhecimento de tudo e participava ativamente do dia a dia do marido no motel e de sua rotina de observação.

É um documentário bem raso perto da profundidade do assunto que ele aborda. Não há relações tangíveis do voyeurismo com a nossa realidade para que a situação se torne mais próxima e compreensível, não há uma explicação clara do que é ser voyeur e o impacto que este comportamento gera na sociedade, elementos que seriam cruciais para a construção da base narrativa do documentário. Na verdade, a real intenção dele é de promover tardiamente o livro The Voyeur's Motel (2016), cujas razões ficarão bastante evidentes na reta final do documentário que a todo momento abstém-se de dar maiores detalhes sobre todos os fatos descritos por Talese para que o espectador sinta-se influenciado a ir atrás da fonte bibliográfica, tanto que por vários momentos é possível notar um corte brusco na edição em situações onde as informações começam a ficar mais interessantes e consistentes.

Claro que a produto final não deixa de mostrar até que ponto a obsessão de uma pessoa pode chegar, mesmo que isso não traga consequências negativas de nenhum tipo a nenhuma pessoa, como foi o caso de Gerald Foos. Mas se Foos realmente era um cientista amador ou não, não temos como julgar. E por mais maluca que a idéia possa parecer, não deixa de ser interessante e igualmente intrigante.
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