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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

MAIS ANOS 80 E STEPHEN KING...

★★★★★★★★☆
Título: It
Ano: 2017
Gênero: Horror, Suspense, Fantasia, Aventura
Classificação: 16 anos
Direção: Andy Muschietti
Elenco: Bill Skarsgård, Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Jack Dylan Grazer, Nicholas Hamilton
País: Estados Unidos, Canadá
Duração: 135 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um grupo de crianças se unem para tentar impedir um monstro disfarçado de palhaço de machucar e raptar outras crianças.

O QUE TENHO A DIZER...
A primeira adaptação de It foi feita para a televisão em 1990, quatro anos após o lançamento do livro homônimo de Stephen King. Foi uma minissérie de dois episódios, divididos tal como o livro. Levando a alcunha de Uma Obra Prima do Medo no Brasil, as pessoas se arrepiavam apenas em ver a caixa do VHS duplo nas prateleiras das locadoras. É considerado um clássico do horror, assim como é o livro. Pode soar prepotente intitulá-lo como uma obra prima, mas se analisarmos Pennywise e a sua função na história, o significado não parece tão distante, já que ele existe e se alimenta dos mais profundos medos, e só construindo todo esse cenário com magnitude que ele conseguirá isso. Logo, "uma obra prima do medo" não seria, necessariamente, sobre a obra em si, mas sobre o personagem e a sua função na história.

É claro que a versão de 1990 hoje em dia pouco assusta, e causa mais risos do que medo por conta, principalmente, da evolução narrativa que ocorreu no cinema ao longo dos anos e a mudança drástica daquilo que hoje consideramos terror, onde o gênero aos poucos foi se tornando mais explícito e chocante, deixando de lado a técnica. A sutileza foi substituída pelo banho de sangue, e os efeitos práticos pelos digitais. Hoje em dia filmes de terror agora só lidam com exorcismos exagerados, contos sobrenaturais cheios de efeitos especiais, ou o abuso do gore para ser chocante de maneira fácil. O terror imediatista, assim como tudo tem sido na última década.

O público se desacostumou com o terror de vanguarda, aquilo de causar arrepio na espinha, de deixar a gente tenso na poltrona apenas com o uso adequado da câmera, do som, e da expectativa. Por isso que muitas vezes, nessa nova versão, por mais que o diretor e o roteiro tente apelar para o terror mais visual e sangrento, muita gente saiu do cinema com a sensação de ser muito mais um filme de aventura do que algo assustador. De fato, ele é um pouco dos dois, e foi intencional, mas não deixa de ser um filme horripilante, ou creepy, como diriam os norteamericanos.

O livro, uma bela bitola de mais de mil páginas, é cheias dos mais ricos detalhes que apenas King consegue fazer, e corajoso aquele que conseguir devorá-lo. Primeiro pela sua extensão narrativa, e segundo porque realmente é assustador assim como os demais grandes clássicos do autor, como Carrie, O Iluminado, Cemitério Maldito e Christine, apenas como exemplos.

O grande fator interessante é que esta nova adaptação mantém um pouco das duas atmosferas: a clássica, com preferência aos efeitos práticos, da maquiagem e a preservação da técnica; a atual e moderna, com os efeitos digitais que funcionam na maior parte das vezes, da narrativa e edição mais condensadas e dinâmicas. As interpretações também são, de longe, muito melhores que a versão de 1990, principalmente por parte do elenco infantil, muito mais convincente e espontânea agora do que antes, até porque o diretor fez questão de dar liberdade aos atores de improvisarem. Sobre Pennywise, o de hoje é tão assustador quanto o de antes, e Bill Skarsgård imprimiu uma personalidade tão única a ele quanto Tim Curry. Curry deu ao personagem uma personalidade mais cômica, cheio de perversidade em suas piadas mórbidas e no tom caricato focado no humor físico, enquanto Skarsgård o deixou mais sombrio, expressivo e psicológico, com uma bagagem mais obscura e perturbada. O alívio cômico ainda existe, usado com seriedade para deixar a narrativa mais atraente, e não mais palatável. Tal qual o Coringa, não importa o ator que o interprete, Pennywise oferece material suficiente para ser criado e desenvolvido das mais diferentes formas sem perder sua característica principal, que é desafiar suas presas antes de atacá-las, ebulir o sangue para ele ser mais saboroso, como os vampiros fazem. O instinto selvagem e primitivo do animal caçador farejar o medo e se beneficiar disso.

Assim como Pennywise, que reaparece a cada 27 anos, a indústria do entretenimento também faz ressurgir gêneros, estilos e épocas de tempos em tempos. Seja no cinema, na moda ou na música, a saturação de uma tendência nos obriga a resgatar clássicos. Uma reciclagem necessária para oferecer referências às novas gerações, assim como aquilo que um dia foi feito é referência para nós hoje.

Não é à toa que os anos 80 voltou a ser uma tendência, e estamos sendo bombardeados por essa época por todos os lados, principalmente na música, no cinema e na televisão. Vide Stranger Things (2016-), um dos maiores fenômenos da Netflix, inteiramente baseado na época e que, inclusive, presta grandiosas homenagens ao próprio Stephen King e demais outros nomes responsáveis por importantes referências daquela década, como Spielberg e George Lucas. Tanto é assim que a história original se passa nos anos 60, mas esta readaptação agora se passa em 1987, não apenas para se enganchar na história, mas também no ressurgimento 80tista. E falando em King, é outro que também de tempos em tempos retorna às tendências, e depois de alguns anos em total hibernação, seu nome voltou a ser de grande interesse dos estúdios, principalmente agora, depois de uma leva de boas adaptações de suas obras que tivemos ao longo de todo esse ano, e principalmente do inesperado sucesso desta adaptação, que faturou quase US$700 milhões pelo mundo, se tornando o filme de horror mais bem sucedido da História do Cinema até o momento.

Não se pode ignorar que resgatar uma tendência movimenta o mercado, e tudo aquilo que é relacionado àquela tendência resgatada será igualmente consumido em massa, até ocorrer a saturação e as pessoas enjoarem.

A nova adaptação não foge dessa regra. Segundo o próprio diretor, Andy Muschietti, sua versão nada mais é do que um misto de Goonies (1985) com o horror. Oras, nada diferente da premissa de Stranger Things, que obviamente se baseou nas mesmas referências, fez sucesso com isso, e resgatou uma tendência. Originalmente eram os Irmãos Duffer (criadores, produtores, roteiristas e diretores de Stranger Things) quem tinham a intenção de dirigir o remake de It, mas só não o fizeram porque não tinham popularidade, e estavam focados na estréia da série. De qualquer forma, It vem tão embarcado nessa onda que o sentimento de estar assistindo a série da Netflix é a mesma, tanto que até Finn Wolfhard, que interpreta Mike na série mencionada, também está no elenco aqui. Claro que seu papel é bem diferente, e Richie nada tem a ver com Mike. Mas voltamos na teoria das referências, e quanto mais for possível alguém fazer referências sobre o que está em tendência, mais consumido aquilo será.

Lançado propositalmente 27 anos após a primeira adaptação, o filme não é uma propaganda enganosa. Ele realmente possui mais méritos do que o contrário, principalmente no misto de horror, aventura juvenil e comédia que são feitos tão bem. Não é um filme assustador e de se levar sustos o tempo todo, mas é aterrorizante e tenso na forma como o diretor constrói as cenas mais com técnicas visuais do que sonoras, criando sequências um tanto perturbadoras e aflitivas. O maior potencializador disso é, sem dúvida, Bill Skarsgård. Mesmo com tanta maquiagem, é possível perceber o talento do ator na caricatura mostruosa que ele criou de Pennywise à sua forma. A maquiagem serve mesmo mais para sequer imaginarmos que esse ator tem apenas 27 anos também.

Quando falamos das obras de King, nunca podemos esquecer das influências da realidade em suas fantasias. Aqui é a violência social e a corrupção infantil que toma grande forma, e como as pessoas são facilmente dominadas por aqueles que infligem o medo, de tal forma a marcar a memória, traumatizar a infância e influenciar a vida adulta. O que Muschietti tenta mostrar em muitas cenas é que o grande vilão da história nem é Pennywise de fato, mas as pessoas com quem convivemos no dia a dia, todos os dias do ano, sem 27 anos de hibernação. Da maternidade ultra-protetora e possessiva, do abuso doméstico, do assédio moral, da vulnerabilidade infantil. Pennywise é apenas o produto das doenças sociais que nós mesmos criamos, cultivamos e mantemos por gerações.

Por isso que o vilão não tem uma origem definida. Assim como Fred Krueger em seus primeiros filmes, as figuras mais assustadoras do cinema são aquelas que desconhecemos a origem, pois foram concebidas para serem a personificação do mal. O mal não precisa ser explicado ou definido, ele existe por si só, e todas as vezes que a maldade foi justificada, como o cinema costuma fazer em suas franquias, o medo genuíno deixa de existir. Ainda sobre Krueger, enquanto ele se alimenta do medo das pessoas por pesadelos, Pennywise existe pelo medo real, das aflições e fobias que nos atinge e nos enfraquece perante ele. Não é à toa que outro personagem na história tem tanto destaque. O adolescente Henry Bowers (Nicholas Hamilton) é a versão humana de Pennywise, aquele que igualmente amedronta, persegue, tortura, caça e fere, usando o terrorismo para dominar e camuflar sua covardia.

O roteiro, escrito primeiramente por Chase Palmer e Cary Fukunaga, acabou sofrendo algumas alterações por Gary Dauberman quando Fukanaga abandonou a direção, deixando o projeto por diferenças criativas com o estúdio. Enquanto Fukanaga pretendia explorar o medo através do suspense, mais do que com imagens óbvias, Muschietti preferiu o contrário quando o substituiu na direção, dando preferência às virtudes de Pennywise, que é sua habilidade de materializar o medo dos personagens. A concepção de Fukanaga, de ser mais sutil e subliminar, era interessante, e embora a de Muschietti seja mais óbvia e convencional, acabou funcionando de igual forma pelo simples fato de ter se mantido fiel ao livro e a narrativa de King em sua maior parte.

Portanto, dizer que é uma das melhores adaptações de King até hoje, é correto. Está longe de ser aquele filme de horror que tanto se esperou, mas as boas doses de variação entre os gêneros foi algo bem vindo em uma época em que o cinema tem sido muito pretensioso nas idéias, mas péssimos nas execuções. A segunda parte da história já teve sua produção confirmada, e seu lançamento é previsto para o fim de 2018. Esperaremos para conferir se, como um todo, as duas partes farão jus a todo o universo fantasioso e horripilante de King como se deve.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

STEPHEN KING OUTRA VEZ...

★★★★★★★★☆
Título: 1922
Ano: 2017
Gênero: Horror, Suspense, Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Zak Hilditch
Elenco: Thomas Jane, Molly Parker, Dylan Shmid, Neal McDonough
País: Estados Unidos
Duração: 102 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um fazendeiro arquiteta um plano macabro de assassinar sua mulher, convencendo o próprio filho a fazer parte disso.

O QUE TENHO A DIZER...
Que 2017 é o ano das atuais gerações (re)descobrirem Stephen King, isso já está mais do que claro. E depois da Netflix produzir a (péssima) série O Nevoeiro (The Mist, 2017), mas em contraponto também produzir o interessante Jogo Perigoso (Gerald's Game, 2017), o público foi pego de surpresa com essa nova e fresquinha adaptação, que também leva o selo do serviço.

Stephen King rende bons filmes quando bem adaptado, mas o difícil é encontrar quem o faça com categoria, pois suas obras são cheias de nuances, referências e metáforas embrenhadas em toda sua cabeça fantástica e macabra. Eclético e variado, por mais que alguns temas sejam recorrentes em suas obras, se distanciam umas das outras pelas diferentes abordagens, pela narrativa, pelas referências e analogias distintas. Enfim, é um autor que possui qualidades até mesmo nos menores contos, ou nos livros menos conhecidos.

1922 chega para provar que suas melhores adaptações são aquelas sem pretensões de impressionar ou serem grandes blockbusters. Baseado em uma história publicada na coletânea Escuridão Total Sem Estrelas (Full Dark, No Stars, 2010), a adaptação é uma produção pequena e contida, dirigida, escrita e produzida pelo desconhecido australiano Zak Hilditch, um filme considerado pelo pelo próprio autor uma das melhores adaptações de suas obras em 2017.

Não é por menos. A produção é recheada de qualidades que faltam em muitos de seus outros títulos já adaptados, extraindo da história todos os elementos e características do autor de uma forma bastante homogênea, linear e densa, diferente, por exemplo, de Jogo Perigoso, que tropeça várias vezes, mas sem cair.

Aqui a história gira em torno de Wilfred (Thomas Jane) e Arlette (Molly Parker), e da dificuldade de ambos em levar adiante uma relação infeliz e indesejada, já que cada um deles possuem objetivos e vontades diferentes, mas continuaram juntos apenas para criarem e educarem o único filho, a verdadeira razão de terem se casado.

Enquanto Arlette quer vender os 100 acres herdados de seu falecido pai e abandonar a vida rural que tanto detesta, Wilfred deseja agregar a herança de sua mulher à fazenda que já possuem, e assim terem um território generoso e produtivo que garantirá o futuro de seu filho e de futuros netos. Arlette recusa a proposta e ameaça seu marido com o divórcio e também em levar seu filho com ela para a cidade caso ele persista na idéia de permanecer na fazenda. Desesperado, Wil quer tanto manter a fazenda como seu filho por perto, o qual também não tem vontades de se mudar para a cidade principalmente porque está apaixonado por sua vizinha. Sem encontrar alternativas, Wil começa a voltar seu filho contra sua própria mãe, e assim cultivar nele o ódio necessário para que ele o ajude em um cruel e diabólico plano de assassiná-la.

A década de 20 nos Estados Unidos foi marcada por um extenso crescimento industrial que avançava com bastante força e rapidez para o oeste e sul do país, ainda consequências da Guerra Civil (Secessão) e da Primeira Guerra Mundial, marcando a ascensão americana como grande potência não apenas bélica, mas política e econômica até a Grande Depressão devastar o país em 29 e perdurar pela década de 30. Na parte central, no interior do estado de Nebraska, onde a história se passa, a chegada de fazendeiros corporativistas e de indústrias alimentícias marcava o fim da vida pacata e autosuficiente dos fazendeiros e da vida rural simples e comum, mostrando a todos que o futuro finalmente havia chegado e, junto com ele, o progressismo comercial e suas consequências.

A princípio, e de maneira bastante superficial, pode parecer que o enredo se trate apenas de um jogo macabro de interesses e oportunismos, porém é aí que a mente brilhante de King começa a tomar forma, porque podemos enxergar nos personagens o conflito que o avanço tecnológico e industrial trouxe para aquela época. Não é à toa que Arlette quer abandonar a vida rural para ir atrás de um futuro promissor, no sonho de ter sua própria boutique, numa época que a moda começava a abandonar sua rigidez e a modestamente mostrar uma personalidade mais ousada e consumista (como no momento em que são citadas as calças jeans, por serem mais confortáveis às mulheres em "longas viagens"), enquanto Wil pretende a todo custo manter sua tradição enraizada no mesmo lugar, longe de coisas que possam corromper seu bucolismo (como no momento que sente ter inveja de seu vizinho pelas coisas que possui). E o filho, no meio de tudo, ligado a meros valores ingênuos que serão interrompidos com a cruel realidade em algum momento, tão rápido e fácil quanto dar a partida em um carro.

A resistência de Wil em migrar para a cidade é de igual intensidade a Arlette em permanecer com ele, algo que, quando visto por essa metáfora, se reflete na brutal cena de seu assassinato, na dificuldade de Wil em matá-la e na resistência dela em morrer, como a querer mostrar que o futuro pode ser postergado, mas é inevitável, e o lado mais forte sempre vence. Tanto que Wil é constantemente obrigado a ceder a necessidades mais cosmopolitas, aos poucos deixando suas origens e cortando (literalmente) suas raízes e ferramentas de trabalho, chegando a um triste fim, preso em um quarto de hotel, refém de suas próprias escolhas.

O diretor e roteirista tem êxito a transpor para a tela essas delicadas referências responsáveis por dar razões subliminares aos conflitos sem parecerem que foram simplesmente jogados na história sem qualquer razão. E a partir dessas sólidas fundações, o horror, o sofrimento psicológico e a punição passam a ser construídos. E Tomas Jane, numa caricatura um tanto similar a de Duke Mantee, imortalizado por Humphrey Bogart no clássico A Floresta Petrificada (1936), embarca numa jornada quase cíclica de consequências e culpas, e como o peso de um homicídio gradativamente retorce a consciência e consome a alma de quem o comete.

Ao contrário de nos depararmos com um protagonista tendo atitudes heróicas, como aconteceu com o próprio Jane na adaptação de Frank Darabont de O Nevoeiro (2007), aqui presenciamos totalmente o inverso: o nascimento de um genuíno vilão concebido pela sua própria ambição, do qual somos incapazes de encontrar qualquer simpatia até mesmo nos momentos de honesto e tardio arrependimento, e dessa forma, toda a atmosfera sombria se desenvolve como delírios de Edgard Alan Poe, autor também bastante referenciado, já que o conto de King também é visto por muitos como uma releitura de O Coração Revelador (The Tell-Tale Heart, 1843), por possuir os mesmos elementos góticos.

Hilditch conduz tão bem a narrativa e seus pormenores que a sensação de assistir a adaptação de um conto é nítida. Não pelo seu tempo ou aparente simplicidade, mas pela forma condensada como é construído, focado em um pequeno número de personagens, em espaços sucintos, sem obviedades desnecessárias ou qualquer outro elemento que desvie a atenção do espectador. E embora a fotografia seja belíssima até mesmo nos momentos mais indigestos, a saturação da imagem não favorece a sensação de época que o longa poderia ter tido. E por alguns momentos o filme se estende demais em situações que poderiam ter sido mais curtas, e assim ter dado oportunidade para os personagens nos darem maiores motivos para entendermos melhor suas intenções.

De qualquer forma, como um todo, é sem dúvida uma das melhores adaptações de King até hoje, que obviamente poderá não agradar aqueles que preferem os filmes baseados em suas histórias de terror mais físicas e óbvias. Não causa medo e nem sustos baratos, mas há material de sobra para ser apreciado como um genuíno conto macabro que progride de maneira bastante correta em sua proposta, além de bastante ousado numa época em que os filmes mais comerciais tem abusado de clichés levianamente para se manterem confortáveis e igualmente sem surpresas.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

COMPETENTE, MAS NÃO MARCANTE...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Jogo Perigoso (Gerald's Game)
Ano: 2017
Gênero: Suspense, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Mike Flanagan
Elenco: Carla Gugino, Bruce Greenwood, Henry Thomas
País: Estados Unidos
Duração: 103 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Aqueles dias que pareciam ser os momentos ideais para romantismo e realização de fantasias sexuais se transforma em um grande pesadelo de confrontos e sobrevivência.

O QUE TENHO A DIZER...
Realmente Stephen King é como jeans: pode passar despercebido, mas de tempos em tempos volta à moda.

Depois das adaptações de A Torre Negra (The Black Tower, 2017), o remake de It (2017) e da (péssima) adaptação de O Nevoeiro (The Mist, 2017) como uma série para o Netflix, o serviço agora carimba seu selo outra vez em Jogo Perigoso, adaptação do livro homônimo do autor, publicado originalmente em 1992.

E como falei na análise sobre a série O Nevoeiro, King é um autor que faz uso de metáforas sociais e/ou políticas para construir suas obras de horror e fantasia. Aqui não seria diferente, e a obra original constrói sua história em cima de algumas das perversões mais comuns e recorrentes no sexo masculino, como o incesto, a pedofilia e a cultura do estupro, desde o sadismo do fetiche à sua realização (ou a tentativa dele). Etapas que consequentemente levam à concretização da violência e também o feminicídio. Violências que, além de físicas, são psicológicas e perturbadoras às suas vítimas.

Temas recorrentes nas obras de King, direta ou indiretamente, Jogo Perigoso era para ser uma história que acompanhasse o livro Eclipse Total (Dolores Claiborne, 1992), brilhantemente adaptado para o cinema em 1995, e que conta a história de Dolores, uma mulher que planeja o assassinato do marido violento e incestuoso justamente no dia do eclipse solar de 1963. E é o citado eclipse que conectaria a história de Dolores com a história de Jesse, duas mulheres em crise, cujas reviravoltas em suas vidas ocorrem exatamente no momento do espetáculo astronômico. Respectivamente, uma tendo seu momento de resolução e libertação, e a outra, seu momento de negação e aprisionamento. Porém, ambos acabaram sendo lançados separadamente, sobrando apenas o eclipse como uma referência de que as duas histórias ocorrem dentro de um mesmo universo e situação.

Jesse (Carla Gugino), a protagonista da história, é casada com um importante advogado. Ambos resolvem passar alguns dias sós em sua casa de veraneio para tentarem renovar um casamento estagnado e uma vida sexual fria, acomodada com o tempo. Porém, os momentos que eram para ser de perfeito romance e fantasias inofensivas, se torna um verdadeiro pesadelo quando Gerald (Bruce Greenwood) começa a expor um comportamento violento e oprimido, e enquanto Jesse tenta se defender, seu marido sofre um ataque cardíaco e morre. Algemada na cama e sem maneiras de pedir socorro, Jesse embarca em uma situação histérica, desencadeando alucinações conflitantes vindas de diferentes partes de sua personalidade, trazendo à tona traumas passados esquecidos e que justificam todas as dúvidas e questionamentos tanto por parte da personagem quanto por parte do espectador.

Dirigido por Mark Flanagan, diretor que tem construído uma interessante trajetória em filmes como Absentia (2011), O Espelho (Oculus, 2013) e Ouija (2016), aqui o enredo tem tudo aquilo que faz parte de seu estilo, principalmente no conflito entre a realidade e o sobrenatural. E assim como o excelente filme Quarto 1408, de 2007, livremente adaptado de um conto de King por Mikael Håfström, a história também se passa dentro de um quarto, em uma narrativa lenta, igualmente progressiva e que leva a protagonista a confrontar seus mais profundos medos, moral sempre presente nas obras do autor.

A vulnerabilidade de Jesse a obriga tomar decisões radicais que a empoderam como pessoa, como vítima, e como mulher. É então que as metáforas se personificam no filme: o marido tomando a forma da violência; a personalidade da protagonista se fragmentando em dúvidas e respostas; o cachorro que simbolicamente se alimenta vagarosamente das dores da personagem; uma figura misteriosa que representa todas as diversas perversidades oriundas da personalidade masculina dominante; as algemas que mantém Jesse aprisionada a um passado traumatizante; uma corporação que evita o fato se transformar em um escândalo midiático, como a querer novamente calar a personagem e transformar mais um episódio traumatizante de sua vida em algo pueril. Dentre outras...

Infelizmente, apesar de tantas nuances e situações de interpretações livres e mistas, o filme, como um todo, merece atenção, mas sofre por não ter um ritmo coerente, principalmente nos momentos de flashback em que revisitamos o passado de Jesse quando criança. Diferente da maneira extremamente bem construída de Eclipse Total (filme que também se utiliza de flashbacks para desenvolver o arco dramático), aqui a conexão entre o presente e o passado não são feitas da maneira fluida como foi no filme de Taylor Hackford. Os cortes bruscos e a repentina mudança de situações quebra as alucinações e devaneios da personagem junto com toda a atmosfera apreensiva que é muito bem construída em diversas sequências, ao ponto do espectador se encontrar ofegante em várias delas, mas nunca levado a um ápice narrativo de fato. A total ausência de trilha sonora também se torna um tanto incômoda, pois há vários momentos em que ela poderia agir como um excelente elemento para fortalecer os momentos que se enfraquecem sem precisar se sobrepor, e o ritmo oscilar de maneira positiva.

O roteiro também não entra em detalhes sobre a personalidade de Gerald, que no livro tende a ser dominante e agressivo na sua vida profissional, o que justificaria de maneira coerente suas fantasias. E, talvez, para facilitar a narrativa, as alucinações de Jesse e as vozes que ela ouve de uma personalidade que se fragmenta, gira em torno de outras figuras no livro além das diferentes versões dela mesma e de seu marido. Embora no filme haja apenas essas duas figuras, as mesmas acabam atuando como uma junção das demais que foram omitidas. E para aqueles que conhecem as principais obras de King, também é impossível não reparar nas referências diretas existentes a Cujo, Saco de Ossos, ou até Rose Madder.

Na construção, o que mais chama a atenção é o fato dos papéis sexistas se inverterem entre os atores, finalmente. Em um filme qualquer, Carla Gugino dificilmente estaria de camisola, mas sim de lingerie. Mas ao contrário, é Bruce Greenwood quem fica o filme todo de roupa íntima, ator que, aos 61 anos, acabou se tornando o verdadeiro DILF (procure no Google) de muitos comentários por aí. Interessante em uma indústria que tende a sexualizar apenas as mulheres, e algo bastante relevante em um filme cujo tema feminista esteja bastante presente. 

Para um livro que, ao mesmo tempo que é um dos preferidos dos fãs de King, na mesma proporção também é considerado um dos seus livros menos inspirados, o filme tem sido bastante elogiado por aqueles que conhecem a obra original, principalmente porque seus elementos chaves foram mantidos, bem como muitos diálogos. Um roteiro fiel à história, sem mudanças principalmente em sua conclusão, coisas que King sempre reprovou nas adaptações cinematográficas de suas obras. Uma conclusão que, diga-se de passagem, se transforma em uma explicação um pouco mais didática de toda a história para aqueles que provavelmente tiveram dificuldade de compreender suas referências e associações até então, algo que no livro pode vir a calhar depois de 400 páginas, mas que no filme acaba não evitando a sensação de excesso, muito embora a cena final tenha um simbolismo importante ao mostrar que os homens só se sentem poderosos e vitoriosos através da violência e do abuso, e sem isso, se tornam tão pequenos quanto próprio desprezo que esses tipos merecem.

Jogo Perigoso trata de assuntos bastante interessantes que, mesmo se tratando de uma adaptação de uma obra de 1992, por incrível que pareça, estão mais atuais do que nunca. Como um suspense com pitadas de horror, como bem é o estilo de King, consegue ter seus momentos de tensão e até outros bastante indigestos, mas não deixa de ser um filme para os fãs do livro. E para aqueles que não conhecem a obra original, provavelmente ficará difícil compartilharem da mesma opinião. Um filme competente, mas não marcante como poderia.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

SE PERDE COMO FUMAÇA...

★★★☆
Título: O Nevoeiro (The Mist)
Ano: 2017
Gênero: Ficção Científica, Suspense, Horror
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Morgan Spector, Alyssa Sutherland, Gus Birney, Danica Curcic, Okezie Morro, Luke Cosgrove, Frances Conroy
País: Estados Unidos
Duração: 42 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Um estranho nevoeiro atinge uma pequena cidade, e com ele, acontecimentos sobrenaturais começam a ocorrer.

O QUE TENHO A DIZER...
Existe uma dificuldade praticamente incompreensível de adaptar as obras de Stephen King para a TV ou cinema. Historicamente sabemos disso.

Raramente uma ou outra produção consegue surpreender, e levar para as telas uma experiência rica e gratificante de um dos maiores escritores norteamericanos da atualidade. Mas acredite... além de um feito raro, também demora.

King é conhecido como o "mestre do horror e da fantasia" porque ele conseguiu o feito de fazer esses gêneros se tornarem relevantes na literatura contemporânea. Mais do que desenvolver histórias tensas, às vezes macabras, violentas ou sobrenaturais, o autor é um grande crítico social e político, que se utiliza desses estilos para criar metáforas que se tornam atemporais com sua literatura.

Mas não apenas de horror e suspense. King também já escreveu dramas bastante densos, como a abordagem da violência doméstica em Eclipse Total (Dolores Claiborne, 1992) e Rose Madder (1995), bem como também já se aventurou em fantasias mais juvenis e leves com a mesma maestria, como em Olhos do Dragão (The Eyes Of The Dragon, 1987).

A riqueza descritiva do autor sempre foi sua marca registrada, por vezes até massante ou cansativa, pois se atenta a pormenores até pouco relevantes. Assim é porque ele quer ter certeza de que a idéia visual e a mensagem daquilo que ele imagina chegue ao leitor de maneira completa. E chega. Porque embora suas obras utilizem constantemente elementos sobrenaturais, no fundo ele está lindando é com sentimentos humanos e suas complexidades. Não é à toa que seus livros comumente ultrapassam 400 ou 500 páginas, daí para mais. Foi o que aconteceu quando terminou de escrever Saco de Ossos (Bag Of Bones, 1998), livro que encontrou um entrave para sua publicação pela sua quantidade de páginas divulgadas na época (mais de mil), mas que na sua versão final acabou sendo bem menos que isso.

Sem dúvida ele é um dos autores mais adaptados. Melhor dizendo, um dos autores cujas produções mais tentam adaptar. Nem mesmo ele, como roteirista, já conseguiu salvar filmes ou seriados do seu próprio desastre, como aconteceu com Sob A Redoma (Under The Dome, 2013-2015), seriado que teve alguns episódios escritos e produzidos por ele, mas morreu na terceira temporada por conta da saraivada de críticas negativas e a desastrosa queda de audiência.

De tempos em tempos King vira moda, e o hype em cima de seus trabalhos voltou ultimamente com a adaptação do recém lançado A Torre Negra (que está mal das pernas nos cinemas) e o remake de um de seus maiores clássicos (e bem adaptado no passado): IT.

Portanto, em uma produção visualmente e tecnicamente parecida com Sob A Redoma (mais nos defeitos que em qualidade), a tentativa de transformar O Nevoeiro em uma nova série parecia calhar.

A série é livremente baseada em um conto homônimo publicado em 1982 como parte de uma antologia de contos de horror do autor. O conto já foi adaptado ao cinema por Frank Darabont em 2007, o mesmo diretor que adaptou os sucessos Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, 1994) e A Espera de Um Milagre (The Green Mile, 1999), ambos de King. Embora O Nevoeiro não tenha tido sucesso comercial, é considerado uma das melhores adaptações do escritor, além de ter cativado o público (para o bem e para o mal) por conta de seu surpreendente e inesperado final que foi contra qualquer dogma Hollywoodiano de se concluir uma história.

Enquanto em Sob A Redoma o autor trabalha na dificuldade dos personagens lidarem com o confinamento, extraindo de cada um deles o seu melhor e seu pior nesta situação, dessa vez é o nevoeiro do título que irá arrastar o caos por onde passar, trazendo consigo aquilo que irá fazer os personagens entrarem em conflitos com suas crenças, seus valores, suas diferenças, suas dificuldades de comunicação, e a reflexão daquilo que somos como indivíduos, como sociedade e como unidade familiar.

O filme de Darabont conseguiu abordar todas essas nuances de maneira coerente e brilhante, e transformar o nevoeiro da história tanto como a ferramenta de realização dos nossos desejos mais sórdidos e obscuros como também daquilo que mais queremos evitar. Mas a série não consegue ter a mesma delicadeza de abordagem. Aliás, não há abordagem alguma nesse aspecto.

Com um primeiro episódio bastante fraco, que tenta se construir em intermináveis clichés e determinar ao espectador por A+B quem são os mocinhos, os vilões e quais são as intrigas chochas, o roteiro raso não consegue desenvolver a surpresa e o terror dessa metáfora que o nevoeiro significa conforme se aproxima da pequena e pacata cidade de Bridgeville, no interior do Maine.

O defeito é sempre ser muito didático. E aqui há um extremismo ao didatismo em níveis hiperglicêmicos. Mesmo produzido pelos independentes irmãos Weinstein (da The Weinstein Company), e também levar o selo Netflix de "qualidade" carimbado acima do título, a impressão de se assistir uma nova serie da TV aberta para a massa desprovida de intelecto é a mesma. Não há ousadia, não há crueza nas situações como há no filme. Tudo é desperdiçado para o fácil e óbvio ao ponto de uma criança de seis anos conseguir compreender, mesmo que o seriado seja indicado para maiores de 14 anos.

"Temos que fazer", "temos que correr", "temos que fugir"... E temos que incansavelmente acreditar que a polícia vai salvar o mundo, mesmo oito episódios depois. É difícil considerar se diálogos como esses sejam excesso de ingenuidade ou de estupidez. Com roteiro simplório e previsível como uma linha de trem, as situações de tensão, medo e horror nunca decolam porque nunca há construções convincentes para isso. As coisas podiam ser menos óbvias, superficiais ou exageradas, mas Netflix parece que cada vez mais tem facilitado sua linguagem para evitar o máximo a dispersão de seu público, investindo pesado na fácil assimilação, daí a impressão da brusca queda de qualidade de suas últimas produções. Uma pobreza de idéia sem fim, onde todo mundo sempre entrava um episódio porque tem uma história pra contar, mas nenhuma história é interessante o bastante para sustentar seus minutos, dando a sensação de que nada vai a lugar algum.

Os atores também não ajudam. Assim como em Sob A Redoma, que tinha personagens adolescentes e adultos que mais irritavam do que causavam empatia, a situação se repete aqui com a filha do casal protagonista (vivida por Gus Birney), que se martiriza por conta de um abuso sexual mal desenvolvido, e uma mãe protetora (Alyssa Sutherland) que mais parece uma colega de classe emburrada do que uma chefe do lar. O desenvolvimento do pai (Morgan Spector) também está longe de ser o mesmo do construído por Thomas Jane no longa. E sempre que houver oportunidade, o seriado irá pecar ao focar mais em cenas chocantes de morte e dilaceramento ao invés do drama dos personagens e seus respectivos conflitos, os grandes e reais vilões de tudo.

Até mesmo o único peso pesado da série acabou sendo submetido a um personagem retilíneo, aquele para ser usado quando o roteiro não tiver mais argumentos para alguma reviravolta. Frances Conroy, conhecida por Six Feet Under e suas participações em American Horror Story, aqui interpreta uma senhora hippie que presencia o assassinato de seu marido. Sua esquisitice nunca chega ao transtorno pós traumático que deveria, ao contrário disso, beira ao retardo mental, anos luz distante do maquiavélico fanatismo e da inesgotável obsessão de Marcia Gay Harden no longa, já que ambas acabam tendo um desenvolvimento similar na história. Mas a péssima construção da personagem não é um privilégio apenas dela, há também o policial que se deprime porque perdeu sua arma, numa metáfora à perda do poder e do arbítrio de maneira tão emocionalmente ridícula que beira o constrangimento.

Nem divertido o seriado consegue ser. Talvez seja se for para apenas prestar atenção aos defeitos, como os de maquiagem, tão ruins que é possível notar a pincelada de tinta na pele.

Confesso que assisti os 10 episódios, um a um, entediado, só pra garantir que tudo aquilo que imaginei no primeiro episódio se concretizasse. Contava minutos para cada um deles acabar. Para não dizer que nada seja interessante, há um par de reviravolta na história em seus dois últimos episódios que irá justificar algumas coisinhas, mas a gente já está tão cansado de la-la-ris e la-la-rás, que ao invés de surpreender, causa bocejo e zero espanto. Uma pena.

O nevoeiro de King nada mais seja do que o gatilho de todos os medos, temores e conflitos internos e externos de uma sociedade pacata e hipócrita, culturalmente condicionada a um platô confortável, incapaz de sobreviver a mudanças e situações avessas às que estão acostumados. Mas infelizmente toda essa profundidade é perdida num produto cuja única real e rasa metáfora seja se perder como fumaça.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

A SÍNDROME DE CARRIE ESTÁ DE VOLTA...

★★★★★★★★
Título: Poder Sem Limites (Chronicle)
Ano: 2012
Gênero: Ação, Suspense, Ficção
Classificação: 12 anos
Direção: Josh Trank
Elenco:Dane DeHaan, Alex Russell, Michael B. Jordan, Ashley Hinshaw, Michael Kelly
País:Estados Unidos, África do Sul
Duração: 84 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um grupo de jovens que, após serem expostos a uma forma de vida indefinida, desenvolvem poderes psíquicos.

O QUE TENHO A DIZER...
Filme de estréia do diretor Josh Trank, baseado em uma história escrita por ele e Max Landis. Segue a mesma premissa dos atuais filmes de baixo orçamento intencionados a lucrar, o que não é uma tarefa fácil, mas o cinema já provou que tem espaço para isso, basta ter uma boa idéia e uma câmera digital na mão. E assim o fez, custando "apenas" US$12 milhões e arrecadando mais de US$126 milhões mundialmente, o que já fez a Fox dar sinal verde para uma continuação.

A onda, iniciada com o inesperado sucesso de A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, 1999), demorou bastante para ser reproduzida em escala comercial, como a tetralogia Atividade Paranormal (Paranormal Activity, 2007/2010/2011/2012), REC (2007), Cloverfield (2008), Contatos de 4º Grau (The 4th Kind, 2009), Fenômenos Paranormais (Grave Encounters, 2011); O Túnel (The Tunnel, 2011), Apollo 18 (2011), dentre outros. Embora o estilo terror seja predominante, essa forma de narrativa acabou sendo explorada por outros gêneros, como, por exemplo, nos excelentes seriados The Office e The Comeback. São filmes de baixo orçamento e com péssima qualidade de imagem, mas que acabam sendo por vezes muito mais interessantes que os filmes tradicionais de grandes estúdios, pois para a idéia não parecer batida e uma mera reprodução do pai de todos (A Bruxa de Blair), é como se fosse uma obrigação ter sempre um tom de originalidade ao menos na história a ser contada.

A história pega carona no sucesso de adaptações de super-heróis de histórias em quadrinhos, mas nem pelas questões de baixa produção este filme pode ser considerado inferior, muito pelo contrário. Embora essa visão subjetiva da câmera seja por vezes cansativa e um tanto absurda a idéia de "salve a câmera custe o que custar", como é dito em Cloverfield, esse formato conseguiu dar um tom de realidade a uma fantasia que se desenvolve com naturalidade, prendendo a atenção e sendo até bastante convincente ao mostrar toda a tragetória do surgimento de um super herói, não parecendo tão plástico e artificial como são as adaptações de quadrinhos.

O que mais achei interessante de tudo é o desenvolvimento dos personagens, que é bastante rico, e os acontecimentos envolvendo cada um deles, além da falsa impressão do que cada um deles poderia fazer com o poder, como o personagem Steve (Michael B. Jordan), por exemplo, que é presidente do grêmio estudantil e sonha construir carreira política. A partir deste cliché imaginamos que ele poderia usar o novo dom para se promover e garantir seus objetivos, mas ele é o personagem mais sensato e que menos usa seus poderes. Ou o personagem Matt (Alex Russell), o mais bonitão da turma, que poderia se tornar exibicionista e arrogante, o que não acontece.

O único personagem cliché que acaba fazendo exatamente o que se espera é o personagem Andrew (Dane DeHaan), mas vejo o personagem mais como uma homenagem e uma referência à personagem Carrie, de Stepehen King. Aliás, foi uma bela e bem feita referência e não simplesmente uma cópia mal feita e preguiçosa. Mas até aí, só quem leu o livro ou assistiu ao filme de Brian De Palma, de 1976, para compreender o que estou querendo dizer.

Os efeitos visuais muitas vezes impressionam, mas ao mesmo tempo o excesso de chroma key é nítido, mas nada atrapalha, e fazia tempo que não assistia uma fantasia tão convincente. Vi na tela aquilo que sempre quis que acontecesse comigo quando era adolescente, vivia no mundo da fantasia e que sonhava ser alguém importante e poderoso, o que de certa forma fez do filme algo bastante nostálgico e emocionante, talvez tenha sido por isso que gostei tanto.

CONCLUSÃO...
Vai agradar em cheio aos fãs de histórias fantásticas envolvendo poderes e o processo auto conhecimento que segue a partir daí. Pra mim é atualmente o melhor filme do gênero, conseguindo ser muitas vezes melhor do que qualquer adaptação de super-herói feita até o momento quando analisamos pelo ponto de vista de desenvolvimento de história. Como disse antes, dá um tom realista a uma fantasia, mostrando de forma natural o processo e o surgimento de um super-herói de maneira muito mais realista, convincente e efetiva do que todos os outros filmes de grande orçamento já tentaram fazer.
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