Translate

segunda-feira, 3 de abril de 2017

24 POR 1/2 DÚZIA...

★★★★★★☆
Título: Fragmentado (Split)
Ano: 2017
Gênero: Suspense, Fantasia
Classificação: 14 anos
Direção: M. Night Shyamalan
Elenco: Anya Taylor-Joy, James McCavoy, Betty Buckley, Haley Lu Richarson, Jessica Sula
País: Estados Unidos
Duração: 127 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Três garotas são raptadas por um homem que sofre de dissociação de personalidade. Diagnosticado com 23 alter-egos, dois deles tentam fazer o 24º deles emergir, o mais poderoso e dominante de todos, enquanto as três tentam escapar do cativeiro antes que seja tarde demais.

O QUE TENHO A DIZER...
Depois de O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999), M. Night Shyamalan nunca mais conseguiu repetir o mesmo sucesso de crítica. Apesar de tudo, o público continuou a seguí-lo e engordar a bilheteria de seus filmes. Aos poucos, até aqueles que um dia se diziam fãs, começaram a perder o interesse nos filmes autorais do diretor, que sempre tinham uma grande premissa e um interessante enredo, mas que no fim pecavam no desenvolvimento e em conclusões tolas. Todos eles tentando, no fundo, repetir o mesmo elemento surpresa que, em 1999, funcionou tão bem.

Shyamalan nunca escondeu sua vontade de ser conhecido como um diretor autoral, com uma assinatura própria, e essa obsessão lhe custou um tanto caro no decorrer da carreira. Claro que um ou outro filme chamou a atenção, como Corpo Fechado (Unbreakable, 2000) e Sinais (Signs, 2002), mas, no geral, ele amargou uma antologia de fracassos, filme após filme.

Foi com o inesperado sucesso de A Visita (The Visit, 2015), o primeiro filme independente e produzido por ele mesmo, que, depois de 16 anos, o diretor viu uma luz no fim do túnel. O filme foi, no geral, elogiado pelo seu clima sombrio, generosas doses de terror e violência, com um tom cômico que funcionou muito bem. Pela primeira vez em muito tempo, o longa foi bem recebido pela crítica e pelo público. Parecia que ele havia retomado à sua forma, ou repensado que, para um bom filme, não era necessário tantas reviravoltas inúteis. Shyamalan justificou, atribuindo o fracasso de seus filmes anteriores ao controle dos estúdios, e que pelo fato de A Visita ser um produto independente, ele mesmo pode tomar suas próprias decisões durante todo o processo.

Fragmentado parecia ser um resultado disso, e pelo título original, poderia-se até supor que fosse uma referência indireta a Corpo Fechado, no qual o título original, Unbrakeable, soa como um antônimo. Corpo Fechado é um de seus filmes mais comentados depois de O Sexto Sentido, uma produção que, de certa forma, foi o grande precursor daquilo que viria a ser o que os filmes de super-heróis e a exploração do universo dos quadrinhos se tornaram.

Trabalhando em cima de um personagem com múltiplas personalidades, o filme carrega um "quê" de Identidade (Identity, 2003), de James Mangold (que recentemente dirigiu o dramático Logan), mas de uma forma um pouco mais inchada na fantasia, característica de seu estilo. Sem titubear, o filme começa com um interessante tom slasher movie, com uma abertura similar àquela que Wes Craven e Kevin Williamson criaram tão bem na série Pânico

A história é progressiva e lenta, e não há como negar que Shyamalan consegue criar um ambiente atemorizante e apreensivo com pouco em suas jogadas de câmera, lentas aproximações, e constante domínio do cenário que os personagens estão inseridos. Isso é uma de suas qualidades, que sempre estiveram presentes em todos seus filmes, e aqui ele consegue criar um terror psicológico tal qual feito em seu filme anterior.

Aos poucos tudo vai ganhando forma. O personagem vivido por James McCavoy vai ganhando densidade conforme suas outras personalidades se revelam, enquanto a protagonista, vivida pela excelente Anya Taylor-Joy (de A Bruxa, 2015), volta a surpreender aqui.

Mas nem tudo são flores.

O roteiro tenta, por vezes, ser sério demais, embutindo flash backs para contar uma história de abuso da protagonista e garantir a ela um passado perturbador, o que se torna uma infeliz tentativa de montar uma moral final de que, por mais que o vilão aparente ser hediondo, tanto ela, quanto ele, são resultados de traumas similares. Mas enquanto ela cola seus fragmentos, o antagonista deixa emergir personalidades que possam emponderá-lo, esconder suas fraquezas e defendê-lo de diferentes situações em 23 personalidades que James McCavoy consegue dar conta de meia dúzia delas, já que as demais só são citadas.

De uma forma ou de outra, a história pregressa de Casey acrescenta nada na história, servindo muito mais como um elemento disperso do que algo realmente consistente. Seria consistente se fosse um filme apenas sobre ela, pois é um tema pesado e que merecia maiores cuidados, mas Shyamalan o utiliza apenas para voltar naquele seu clássico elemento de que tudo na vida há um significado e que este significado terá uma grande importância na vida em algum momento, um elemento que ele utilizou bastante para concluir seus filmes anteriores, mas que aqui ele constrói de maneira diferente para tentar fugir do óbvio.

Mesmo assim, tudo parecia bastante organizado, até a 24ª personalidade aflorar, aquela mais forte e dominante, o verdadeiro mal embutido no ser humano, em uma metáfora ao comportamento animal e primitivo que consegue pegar tudo que havia sido bem construído até então e cair no simples absurdo fantasioso de sempre do diretor. Não havia necessidade de caracterizar o personagem da forma como foi feito, e se Shyamalan tivesse mantido a mesma atmosfera mais humana e realista de Corpo Fechado, em que os personagens são a personificação do maniqueísmo, o resultado teria sido mais coerente e satisfatório do que vê-lo andando por paredes, gritando e ofegando para nada.

Não é de todo um filme ruim, mas é Shyamalan novamente pecando no excesso, construíndo tudo muito bem para terminar no exagero. E aquele final surpreendente que é esperado, resulta em algo frustrante, como uma bexiga furada. O fim da história não satisfaz, mas o fim do filme sim, e talvez tenha sido o que garantiu o seu sucesso. Parece contraditório, mas comentar sobre ele é estragar o único elemento surpresa dos quase 120 minutos. Será compreensível para quem entender as referências diretas que o diretor fez dele mesmo, criando um universo próprio e que o público sempre esperou. Uma história paralela a outra que já assistimos anos atrás.

segunda-feira, 20 de março de 2017

O MERGULHO VAZIO DA ÁGUIA...

★★★★★☆
Título: Assassin's Creed
Ano: 2016
Gênero: Ação
Classificação: 12 anos
Direção: Justin Kurzel
Elenco: Michael Fassbender, Marion Cotillard, Jeremy Irons
País: Reino Unido, Estados Unidos, França, China, Tailândia, Canadá
Duração: 115 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Na busca por um lendário artefato, um ex-presidiário é recrutado por uma grande empresa privada para uma experiência onde ele viverá as memórias de seu antepassado, regressando 400 anos atrás, e levar a cientista responsável por este projeto ao paradeiro deste poderoso ítem sagrado que pode por fim a uma guerra secular.

O QUE TENHO A DIZER...
Assassin's Creed é um dos maiores fenômenos dos vídeo games da história, e a franquia mais rentável da última década em um total de nove jogos, sem contar aqueles lançados em plataformas paralelas para complementar o universo.

Até que demorou bastante para que sua adaptação aos cinemas chegasse, já que a série teve início em 2007, e até hoje já vendeu quase 100 milhões de cópias em todo o mundo. Se tornou um daqueles fenômenos onde parece não haver espaço para crítica, e se alguém se atrever a isso pode correr o risco de ser apedreijado por um fã.

Se tem algo inégável é que a série de jogos trouxe elementos extremamente importantes para a cultura popular atual nas duas últimas gerações de consoles. Suas histórias, consistentes em sua maioria, sempre foram cercadas por referências históricas, literárias e mitólogicas (reais ou fictícias) de uma forma nunca feita antes. Os produtores dos jogos conseguiram algo um tanto inédito: fazer com que os jogos não fossem apenas um entretenimento banal, mas uma interessante fonte de interesse pela História.

Seja pelo período da Terceira Cruzada (por onde a série começa) até a Era Vitoriana (onde se situa o último jogo), seja interagindo com figuras de Da Vinci a Winston Churchill, ou percorrendo por cenários cuja ambientação recria (às vezes com fidedignidade) a arquitetura e cultura de cada época e localização, jogar Assassin's Creed sempre foi, acima de tudo, aquilo que o próprio enredo do jogo propõe: uma regressão ao passado, uma experiência única de reviver períodos. Cada um dos episódios deixa os jogadores embasbacados com tantas informações, imergindo-os em uma fantasia histórica que igualmente resgata o interesse pela informação e leitura, já que toda a série possui uma vasta coleção de arquivos a serem lidos e que complementam não apenas o universo criado, mas toda essa experiência imersiva

Só que, ao mesmo tempo, nunca foi segredo para ninguém a repetitividade dos jogos. A sua jogabilidade sofreu alterações consideráveis no decorrer dos anos para incrementar o interesse e abranger a sensação de novidade, mas no fundo o problema de cada jogo foi sempre se estagnar em um determinado ponto. Não há nada que mais tenha incomodado do que o enredo que vaga entre o presente e o passado, em uma história bastante furada de uma organização privada que descobriu uma forma de fazer pessoas reviverem a vida de seus antepassados através de uma regressão feita por uma memória de DNA, algo que nunca conseguiram fazer funcionar com efetividade, ou explicar direito como tudo funciona, mas que também nunca importou de fato.

Assim como nos jogos, o filme parte da idéia de uma secular guerra entre a Ordem dos Templários e a Ordem dos Assassinos. Existe um artefato, conhecido como Maçã, que possui o DNA original da humanidade e o código do livre arbítrio. Os Templários tentam conquistar o artefato para gerar a paz entre os homens, porém regidos pelas regras religiosas criadas por eles, enquanto os Assassinos tentam manter o artefato longe das mãos dos Templários para que a humanidade busque a paz através do livre arbítrio. O enredo já seria interessante assim, e poderia ter partido diretamente daí, sem a necessidade de tudo ter um início no presente, com o uso de uma tecnologia pra lá de absurda apenas para inserir a história em um contexto atual.

Essa abordagem entre presente e passado foi abandonada pelos jogos em um determinado ponto, e quando o filme estava em pré-produção, sob grande sigilo, a única coisa revelada pelo diretor foi de que a história teria uma abordagem diferente dos jogos, com um personagem novo. Muita expectativa foi criada, principalmente na de que essa bobagem hi-tech pudesse ser abolida já que se auto desgastou na franquia de jogos.

A verdade é que o filme é um produto bastante fiel, cheios de referências e elementos clássicos da série para o deleite dos fãs, mas que igualmente levou para as telas os mesmos defeitos, como a repetitividade de ações e a confusão natural que o enredo cria vagando entre as narrativas atuais e antepassadas. O pulo de narrativas, assim como nos jogos, faz o filme nunca desenvolver uma boa história em nenhum dos tempos abordados, quebrando o clima de imersão e da ação que ele tenta construir, e que nunca chega a um grande êxtase esperado, já que sempre que ele tende a chegar lá, tudo é interrompido pela narrativa presente.

O filme também falha feio ao ignorar a tal importância e interesse pelas referências que os jogos criam. Em nenhum momento o período histórico é mostrado com profundidade ou relevância além de uma ou outra referência visual, se tornando um produto vago e banal, que não se utiliza da História como uma grande ferramenta narrativa e um elemento vivo e consistente como é na série de games, ao invés disso, é recheado de momentos clichés de ação ao ponto de entediar o espectador, principalmente aquele que nada sabe sobre os jogos.

Ok, as cenas de ação e perseguição são muito bem coreografadas, repetindo o mesmo balé deslumbrante que são nos jogos, mas para quem esperava tanto por isso, são momentos tão curtos e rápidos que acabam não satisfazendo como deveriam.

Também é um pouco confusa a escolha do alemão Michael Fassbender no papel de um protagonista meio americano, meio mexicano, que revive um ancestral espanhol do século XV. Claro que isso não diminui sua competência como ator, mas reduz ainda mais a consistência do filme como um todo. Sem falar da personagem de Marion Cotillard, retilínea e uniforme do começo ao fim, sem qualquer arco dramático ou um grande conflito que justifique um profundo altruísmo digno de conto de fadas.

Enfim, o filme é apenas um produto para expandir a franquia para outras mídias, mas como dito, ao contrário dos jogos, o resultado aqui é banal, vago e fútil. O roteiro desperdiça por completo a oportunidade de fazer do filme uma experiência diferente e, pudera, original. Algo feito apenas para relembrar os fãs dos jogos de como tudo começou e nada mais, tanto que a bilheteria mundial de mais de US$230 milhões não classifica o filme como um enorme sucesso, mas justifica que 99% de seu público é o mesmo daqueles que acompanham os jogos há uma década. Se o filme já tivesse partido diretamente de um princípio histórico, talvez tivesse sido consistente como poderia e como os jogos conseguem ser, por mais repetitivos que pareçam como uma unidade.

terça-feira, 14 de março de 2017

CHEGOU A HORA...

★★★★★★★★★☆
Título: Logan
Ano: 2017
Gênero: Drama, Ação
Classificação: 16 anos
Direção: James Mangold
Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen
País: Estados Unidos
Duração: 137 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Em 2029 o mundo não é o mesmo, nem Logan. Com a extinção de mutantes e o fim dos X-Men, ele agora se encontra debilitado, cuidando de um Xavier igualmente doente e que não consegue mais constrolar seus poderes. Quando é incumbido de escoltar uma garota até o Canadá, Logan terá de reecontrar em si o lado humano que um dia Xavier despertou, mas que o violento mundo o fez esquecer.

O QUE TENHO A DIZER...
Logan ter como título, pela terceira vez consecutiva, o nome do próprio personagem, é um tanto esquisito e estranho porque soa mais como uma terceira tentativa do que uma sequência, pois a impressão que se tem é que o personagem está sendo reapresentado a um público descrente. E não é por menos.

Quando X-Men Origens: Wolverine (2009) foi lançado, a intenção era ser muito mais do que um spin-off dos X-Men, mas o início de uma nova franquia. E em meio a tantas deturpações e descaracterizações, a decepção foi unânime, fazendo a Fox entrar em estado de alerta, iniciando um processo de salvação de emergência de um dos personagens mais caros dentre os quais ela detém os direitos de uso da Marvel.

Os roteiristas foram trocados, o diretor James Mangold foi contratado, e Wolverine recebeu tratamentos de um reboot, sendo praticamente promovido como tal, com a finalidade de fazer o público esquecer que o primeiro filme algum dia existiu. E seguindo a tendência deixada pela Trilogia Batman, de Christopher Nolan, o roteiro deu ao segundo filme um tom mais obscuro e introspectivo, um dos grandes erros dentre vários, porque Wolverine não é um personagem sombrio, mas um herói atormentado e perseguido pela violência. O resultado não foi satisfatório, e Wolverine (2013) igualmente falhou na tentativa de salvar a franquia de um fiasco, e a idéia do personagem ter um filme marcante e digno de sua existência parecia cada vez mais distante.

Independente disso, o filme havia agradado o ator e o diretor. Segundo eles, foi uma grande conquista o que conseguiram fazer no segundo filme, deixando implícito nesta afirmativa que dificuldades existiram para driblarem o constante controle criativo por parte do estúdio, algo evidente no primeiro filme, e que continuou evidente no segundo. De qualquer forma, arrecadou mundialmente mais de US$410 milhões, e no mesmo ano, conversas sobre um terceiro filme começaram a surgir.

Nesse meio tempo, Ryan Reynolds estava numa difícil negociação de levar para as telas o filme solo de Deadpool, e depois de tantos obstáculos, conseguiu fazer o projeto finalmente sair do papel ao tomar as rédeas da produção e injetar uma boa quantia de seu próprio dinheiro para cobrir o orçamento. O lançamento de Deadpool, no início de 2016, desbravou horizontes aos filmes de super heróis por uma razão óbvia: por conta da violência explícita, a classificação etária de 16 anos não impediu o filme de ser um estrondoso sucesso de bilheteria, crítica e público, algo que a Fox nunca imaginou que pudesse acontecer.

Visando abranger um maior público, o controle etário pelos estúdios sempre foi muito rigoroso. Havia uma errônea idéia de que filmes de super heróis não poderiam ter classificação alta pois limitaria a participação infantojuvenil, os maiores consumidores de histórias em quadrinhos e a faixa etária mais rentável das bilheterias. Só que Deadpool provou exatamente o contrário, mostrou que havia um público mais adulto ávido por filmes de heróis com conteúdo mais sério e explícito porque determinados personagens exigem isso, como sempre foi o caso de Wolverine.

Por essa razão, o sucesso de Deadpool foi essencial para definirem o tom final de Logan, que segue uma narrativa mais consistente e adulta sem preocupação com faixas etárias. E finalmente essa terceira tentativa deu certo. Deu tão certo que não apenas é o único filme relevante do herói, como também o melhor e mais bem dirigido filme de Mangold até hoje. Um produto refinado, feito com vontade e inspiração. 

Nota-se logo nos primeiros minutos que o controle criativo agora estava nas mãos dos roteiristas e do diretor muito mais do que do estúdio, pois Logan é exatamente aquilo que o primeiro filme de Wolverine deveria ter sido. Melhor dizendo, Logan seria o fim de uma fantástica trilogia se os dois primeiros filmes tivessem sido executados nos mesmos moldes. Aqui, o tom distópico, rústico e violento, não faz a história se esconder por trás do herói, como foram os filmes anteriores, mas se engrandecer com ele. Uma pena que isso só foi acontecer tarde demais, quando Hugh Jackman finalmente aposentou as garras, neste que é o seu último e único bom filme solo de um personagem que, por 16 anos, ele vestiu de corpo e alma.

No filme, que se passa no ano de 2029, os mutantes finalmente entraram em extinção, como sempre foi a vontade política abordada nos filmes anteriores dos mutantes. Os X-Men não existem mais, e Logan (Hugh Jackman) agora trabalha como motorista de uma limosine de aluguel sob outra identidade para preservar sua segurança e enterrar um mundo no qual ele não faz mais parte. Ele está doente, já que seus ossos de adamantium se tornaram tóxicos ao seu sistema imunológico que agora está debilitado, e seu fator de cura não tem mais a mesma efetividade de quando era jovem. Ou seja, Logan envelheceu e morre aos poucos. Ao mesmo tempo, ele também cuida de um igualmente doente e nonagenário Charles Xavier (Patrick Stewart), que sofre de Alzheimer e de uma leve demência que o impede de ter o controle de seus poderes, transformando-o em uma bomba prestes a explodir. Em meio a tudo isso, Logan se vê envolvido em uma situação difícil, no qual é incumbido por uma enfermeira mexicana a escoltar uma criança, chamada Laura (Dafne Keen), até a fronteira com o Canadá.

O tom é um dos mais violentos de todas as adaptações de quadrinhos nos últimos anos, e aparenta ser muito mais chocante justamente por inserir um grande elenco infantil no meio de tudo isso, e Mangold impacta por todos os lados sem medo.

O último filme em que vi uma personagem infantil em uma história bastante violenta foi Hanna (2011), e a mesma ousadia acontece aqui. Por mais chocante que possa parecer, e muito mais violento que possa se mostrar por conta disso, existe um obrigatório senso de sobrevivência a eles que justifica as atitudes tanto de Logan, quanto de Laura. A relação que se desenvolve entre os dois, de proximidade, mas sem grandes contatos; de comunicação, mas sem muitos diálogos, é um dos grandes ápices do roteiro. É exatamente aquele elemento que transferiru a essência do personagem dos quadrinhos ao filme e que sempre faltou nas adaptações anteriores. Essa situação de co-dependência, que gradualmente cresce entre os dois, é bastante similiar à relação entre Joel e Ellie no jogo The Last Of Us (2013), que para quem não conhece, vale a pena saber que é emocionante em igual medida e tom.

Logan, sem dúvida, inaugura uma nova safra de adaptações. Um filme que mistura drama com ação em doses pontuais, de uma forma bastante inovadora em um estilo que já está saturado de clichés e piadas manjadas, que chega em um momento oportuno para um público que já está um tanto cansado de uma fórmula que se estagnou na última década. Ver o herói em sua zona de familiar desconforto é reconfortante, pois é como finalmente inserir um animal em seu habitat natural. O personagem não traz qualquer resquício daquele tom jocoso do primeiro filme, e abandonou por completo a sombriedade do segundo. Logan voltou a ser aquele homem movido pelo seu instinto arisco e violento apresentado por Brian Singer no primeiro filme dos X-Men, mas sem nunca se tornar o produto daqueles que o fizeram, pois a humanidade dentro dele sempre foi maior, apesar dos pesares.

Não dá para evitar a tristeza de ver dois grandes heróis dos quadrinhos envelhecer aos nossos olhos, e durante todo o filme existe uma latente melancolia que pesa nessa impressão todas as vezes em que Jackman e Stewart dividem as cenas, como no momento em que Logan carrega Xavier para a cama, fingindo ser o filho zeloso a proteger o debilitado pai. O simbolismo existente nessa cena é simples, mas profundo e impactante, pois metaforicamente, para o público e para os olhos de Laura, captados com precisão por Mangold, representam o fim de uma geração e o início de outra. A hora de finalmente dizer adeus não apenas a esses personagens, mas aos atores que os carregaram tão bem durante toda essa trajetória, deixando um legado que já se sente nostálgico.

Logo, apesar de toda a sanguinária violência - e que volto a dizer, em total coerência com a natureza do personagem - existe uma sutileza nos momentos dramáticos que fazem do filme um produto digno de seu protagonista, tardiamente suprindo uma longa espera. A tragédia embutida nos três personagens alivia a tensão da ação e eleva um genuíno sentimento de perda e redenção, um arco dramático sentido no silêncio do cinema de pessoas emocionalmente satisfeitas. Uma grande homenagem a um personagem que, depois de grandes tropeços no caminho, agora encerra seu ciclo em um filme memorável e que finalmente faz jus ao nome que carrega.

segunda-feira, 13 de março de 2017

DOCE E AMARGO...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Um Limite Entre Nós (Fences)
Ano: 2016
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Denzel Washington
Elenco: Denzel Washington, Viola Davis, Stephen Henderson, Jovan Adepo, Russell Hornsby
País: Estados Unidos
Duração: 139 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um pai tenta manter sua família nos anos 50 enquanto toma decisões que impactarão no futuro e ainda lida com problemas de decisões tomadas no passado.

O QUE TENHO A DIZER...
Denzel Washington dirige e atua neste filme que é uma adaptação da peça homônima de August Wilson, o qual também escreveu o roteiro e veio a falecer pouco tempo depois de completá-lo, em 2005.

Mesmo que alguém o assista sem ter a informação de ser baseado em uma peça, a sensação de adaptação é bastante nítida pela forma como Washington desenvolve a história sem muitas variações de cenário, em um roteiro embasado unicamente em diálogos e poucas ações. A cena inicial já deixa clara essa proposta de ser como uma peça filmada, uma parte considerável de um cotidiano comum e repetitivo, como o protagonista por muitas vezes esclarece. Os 15 minutos iniciais resumem muito aquilo que o filme será, onde o protagonista engaja em um monólogo até cansativo e irritante, permanente até mesmo quando o cenário muda, mas elucidador no sentido das variáveis discussões e dificuldades sociais e familiares vivenciadas desde a infância.

Por mais que Washigton tente driblar os longos diálogos tanto na direção, quanto em sua atuação, a necessidade de um intervalo, ou uma quebra da situação é sentida quando esse excesso toma conta. Esses momentos podem parecer grandes defeitos, mas quando analisados com mais profundidade, são importantes em todo o contexto porque o roteiro não quer desperdiçar tempo, e também quer sempre dar uma progressiva oportunidade de mostrar como o protagonista sofre de um pedantismo incurável, oras depreciativo, oras de exagerado egoísmo e auto-suficiência.

De qualquer forma, é admirável a maneira que o filme, como um todo, é conduzido sem causar aquela sensação monótona que costuma ser em títulos que tentam não apenas se manterem fiéis a uma peça, mas também em sua estrutura narrativa original. A construção é presente e intimista, que se torna cada vez mais distante e desconfortável na medida que a verdadeira personalidade e natureza de cada um se aflora em seus determinados conflitos.

Troy (Denzel Washington) é um lixeiro indignado que se apresenta no filme como um velho contador de histórias, preenchendo suas poucas horas de folga bebendo com seu único amigo e parceiro de trabalho, e contando episódios de sua vida de sacrifícios e desgostos como anedotas particulares. Embora seus relatos sejam embutidos de certo humor e fantasia, ele assim o faz para conseguir superar mágoas e rancores que nunca se vão. É dessa forma como ele também destila sua ríspidez, seu machismo e sua conservadora educação patriarcal em cima das pessoas que ele mais ama, as únicas que fizeram sua vida ter sentido e função nos últimos 18 anos.

Aos poucos, nos sentimos envolvidos na família de Troy, curiosos sobre eles como se fôssemos vizinhos, interessados em suas vidas e segredos. Ele é um personagem que não esconde sua complexidade resultante de uma longa vida de frustrações sociais, familiares e profissionais, e isso é o que dá abertura para o roteiro abordar diversos temas que fizeram parte do cotidiano de sua vida, mas também fazem parte do cotidiano da sociedade como um todo até os dias de hoje.

A história se passa nos anos 50, mas quando o protagonista entra em cena é como se voltássemos ao fim do século XIX e revivêssemos sua adolescência talhada de sonhos e vontades, ao mesmo tempo como tudo ainda soa bastante familiar e atual. E no decorrer da história, aquele personagem que se apresentou amigável e irreverente, gradualmente se transforma em uma pessoa profundamente angustiada e egoísta, que não sabe mais a diferença entre pessoas e posses, sentimentos e obrigações. Seu egoísmo não é deliberado, mas resultado de sacrifícios e difíceis decisões, de oportunidades que não surgiram como escolha, mas como única opção, abraçadas e agarradas com todas as forças, e que para ele não podem ser dadas ou abdicadas a outros a não ser que sejam conquistadas da mesma forma. Então, apesar de toda essa antipatia que ele possa causar, ainda sim conseguimos nos sensibilizar pela maneira bastante simplista como ele define ou compara as coisas em sua vida, tudo baseado em uma vivência de poucas - porém relevantes - experiências.

Sim, há embutida fortes discussões raciais, principalmente porque boa parte da vida do protagonista ainda se passa em uma era de recente pós escravismo, onde a segregação racial nos Estados Unidos atingia níveis de quase guerra civil. Tanto que o filme começa com ele questionando a razão dos negros sempre serem contratados para realizar o trabalho pesado, como catar o lixo, mas nunca para trabalhos mais neutros, como dirigir caminhões; ou também na maneira rigorosa como ele cria seus filhos na cultura de que o negro não tem tempo para sonhos ou oportunidades sobre coisas ou assuntos "que são de brancos".

Por mais desprezível e antipática que é a maneira como a personalidade de Troy emerge ao longo do filme, se torna função de Rose (Viola Davis) nos mostrar o contrário. Viola não é apenas uma coadjuvante no filme, como sua indicação ao Oscar rotulou, ao contrário disso, sua personagem é tão principal quanto o protagonista - se não for até mais importante que a dele - pois será ela a responsável por nos dar o alento que Troy não consegue, sendo o exemplo da tolerância, o redimindo das coisas que ele é incapaz de se redimir aos olhos do espectador. Uma antagonista por excelência, enquanto Troy nos oferece as questões, Rose as responde de diversas e sensatas maneiras.

Sensatas, com certeza. Da mesma forma que não há um momento de redenção de Troy (a não ser de forma indireta na reta final), a personagem de Viola em nenhum momento se inferioriza ou se autovitimiza. Até mesmo no seu ápice dramático, quando revela ter depositado em seu marido 18 anos de sua vida, mas o fez por uma igual necessidade, tanto pessoal, quanto para a manutenção das bases familiares.

O filme perde um pouco da sua sutileza a partir de sua metade, quando uma inesperada e até chocante reviravolta acontece, não evitando clichés dramáticos e exagerados, extraindo de Viola Davis todas as lágrimas possíveis para obrigar o espectador a se identificar com suas dores e angústias. Bette Davis dizia que Joan Crawford era boa em gritar demais, e sempre faço uma alusão a isso todas as vezes que vejo Viola em cenas dramáticas, pois ela não apenas é boa em chorar, mas também em chorar demais. Não deixam de ser momentos de genuíno sofrimento, mas por vezes apelativos para apenas uma câmera. Não é um drama tenro e familiar como parece, pelo contrário, é um lado bastante entristecedor e obscuro de uma relação construída apenas em necessidades e obrigações ditadas por um período social, mantida a restritas liberdades nas suas mais variadas formas.

É um soco no estômago para quem o assiste, e se aproxima bastante de Moonlight, seu concorrente direto no Oscar 2017, por igualmente abordar diversos temas dentro de uma única narrativa, seguindo a mesma premissa de que somos o resultado daquilo que vivemos. Mesmo não tendo uma construção tão bela quanto o filme de Barry Jenkins, Washington consegue fazer de seu terceiro filme um excelente material questionador sobre aquilo que nos define em sua mais sagrada essência.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

UM ANO DE GAFES, ERROS E TOTAL INÉRCIA...

E então o Oscar esse ano não foi lá de muitas surpresas, além de gafes. Infelizmente não acompanhei a premiação ao vivo, talvez a primeira vez que isso acontece em... sei lá quantos anos. Não posso comentar sobre como foi a apresentação, além da terrível confusão de Warren Baty na premiação de Melhor Filme, algo que ninguém entendeu bulhufas alguma do que aconteceu. Dentre tantos equívocos dessa edição, isso tudo só confirma o desleixo dos organizadores e da própria banca de jurados. Como todo ano acontece, os premiados tem gerado certa controversa.

Para contrariar dois anos de "Oscar branco", este foi o Oscar "mais negro" de todos (no ponto de vista histórico da premiação), terminando com 4 premiados nas categorias principais: Viola Davis como Atriz Coadjuvante; Mahershala Ali como Ator Coadjuvante; Berry Jenkins e Tarell McCraney em Roteiro Adaptado. A ovacionação em cima de Viola Davis tem sido exagerada, e sem querer ela se tornou uma representante da igualdade racial no cinema que definitivamente não condiz com a realidade. Premiar Viola e Mahershala soa mais como um prêmio de consolação a uma raça absurdamente excluída tanto no cinema quanto nas premiações, e uma maneira de maquiar esse separatismo evidente da Academia. Muitos comentários pipocaram nas redes sociais agradecendo Viola por representar tão bem a raça. Essa é a reação que tem imputado a ela, e sem direito de escolha, um posto de porta bandeira de um movimento inclusivo no qual a Academia tem se aproveitado. Muitas pessoas se esquecem que, no passado, outros atores negros também já estiveram no mesmo lugar que ela e revindicaram direitos igualitários tanto quanto ela tem feito, mas que sempre foram ignorados. Até que ponto isso é uma situação genuína, e até que ponto é uma situação forjada, é difícil pontuar, mas é fácil notar um pouco de cada em diversas situações. Viola ter ganho não me comove. Sua vitória era previsível principalmente depois da comoção em torno de sua terceira indicação, e como sempre frisei, soa como uma propaganda enganosa. A igualdade racial não irá começar e nem terminar com sua estatueta, mas com maior diversificação e destaque a atores de uma raça que não a tem. E para a Academia, premiar Viola hoje a redime de erros de décadas, e garante que nos próximos anos o Oscar possa voltar a ser branco.

O mesmo se aplica ao filme Moonlight. A começar que este ano a Academia se manteve em uma zona adequada de conforto com títulos pouco polêmicos, nenhum blockbuster, e nenhum filme realmente grandioso ou que tivesse aspectos bastante inovadores, como foi no ano passado com O Regresso, ou no ano retrasado com Birdman e Boyhood. Nenhum dos títulos a Melhor Filme tinha um grande motivo, ou uma grande razão para estar lá. Todos filmes medianos, poucos mais acima da média do que outros, e alguns superestimados pelo hype em volta deles, como foi o caso de La La Land e o próprio Moonlight. La La Land era o favorito até um backlash ocorrer. Em outras palavras: primeiro ocorreu sua superestimação pela sua popularidade, e depois sua subestimação por conta dessa superexposição. A impressão que se teve é que mudaram o envelope do vencedor de última hora, como se a Academia estivesse com um certo medo da repercussão negativa que teria caso o filme de Berry Jenkins não levasse alguma das estatuetas principais. Apesar de ser um belo e bem executado filme, não deixa de ser simples e comportado, algo fácil de ser compreendido, da maneira como o público norteamericano gosta e prefere, aprovando Jenkins como uma nova promessa no cenário cinematográfico. Nada que justificasse, sequer, uma indicação a Melhor Filme. Mas é aquilo... no meio de uma lista tão mediana como foi esse ano, Moonlight até se destaca, mas se ele não merecer o título de Melhor Filme, nenhum outro também deveria.

Como sempre costuma acontecer quando há dois títulos em grande concorrência, os prêmios são "divididos", diferente do que acontecia até meados de 90. Se tornou algo comum na Academia dividir os prêmios entre os melhores filmes sem ter um favorito que abocanhe tudo. Aqueles filmes de menor evidência ganham os prêmios menos comentados, enquanto os de maior evidência os prêmios principais. Por isso a estatueta de Melhor Direção foi para Damien Chazelle, de La La Land. E nesta categoria ocorre o mesmo problema na categoria Melhor Filme, já que os diretores aqui também são os mesmos dos títulos medianos. Chazelle fez um belo trabalho, cuidadoso na visão mais clássica que ele queria resgatar/homenagear, mas sem parecer antigo. Não foi um filme complexo, mas trabalhoso, e sua premiação é até válida e nenhum pouco surpreendente.

Agora, nas categorias de Melhor Ator/Atriz, a piada realmente foi forte. O erro já começou deixando de fora Amy Adams para dar lugar à 20ª indicação de Meryl Streep. Amy, a princípio, apareceu na lista de indicados em uma equivocada publicação da Academia, mas que algumas horas depois foi corrigida com uma nota de desculpas. Uma gafe já esquecida, que mostra que a atriz era a favorita em algum momento, mas por algum lobby ou conchavo, foi deixada de fora. Em um ano que foi excepcionalmente dela ao ser protagonista de dois excelentes títulos, como A Chegada e Animais Noturnos (este que foi um dos filmes mais esnobados do ano), o erro em deixa-la fora da lista foi tão grave ao ponto de ser imperdoável. Fora isso, a francesa Isabelle Hupert era a mais cotada para o prêmio, afinal, sua interpretação no filme Elle é arrebatadora. Mas a Academia segue sua tradição em ignorar atores/atrizes estrangeiros. Não importa a qualidade, a intenção nos últimos 20 anos tem sido em dar preferência a novos talentos do que a veteranos internacionalmente reconhecidos, como é o caso de Isabelle. Por isso Emma Stone levou o prêmio. Merecia? Não. Emma Stone é uma graça de atriz, e talentosa ainda por cima, mas seu papel em La La Land não justifica seu prêmio. Emma poderia ter levado quando concorreu em 2015 por seu papel em Birdman, mas, ao invés disso, deram preferência à insossa interpretação de Patricia Arquette em Boyhood. Como sempre, aquilo que a Academia bagunça com os pés em um ano, ela destrói com as mãos em outro.

Não foi um ano memorável além de seus erros, gafes e esnobações. Não foi um ano emocionante e nem surpreendente. Dizem que o Oscar reflete o momento político em que o Estados Unidos vive, e em uma época de tantas polêmicas, aumento de segregação, discriminação e xenofobia, o que o Oscar mais quis nesse ano foi evitar polêmicas e discussões densas. Optou por títulos nem lá, nem cá em suas listas. Se manteve em cima do muro, segura de si de que ninguém notaria sua inércia em meio a todo o caos em que ela está embolada no meio.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

LONGO SOFRIMENTO. MUITO LONGO...

★★★★★★☆☆
Título: Manchester À Beira-Mar (Manchester By The Sea)
Ano: 2016
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Kenneth Lonergan
Elenco: Casey Affleck, Michelle Williams, Kyle Chandler
País: Estados Unidos
Duração: 137 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Após a morte do irmão, um testamento é deixado incumbindo que o filho de 17 anos fique aos cuidados de um tio que há muito tempo deixou de se preocupar com responsabilidades.

O QUE TENHO A DIZER...
Manchester À Beira-Mar é uma história trágica por excelência, e que tenta mostrar a beleza embutida nas mudanças através disso. Quando você acha que a vida de Lee Chandler (Casey Affleck) não poderia ficar pior, eis q vem o roteiro e lhe dá uma rasteira. Talvez por isso a narrativa seja desconstruída, para amenizar o impacto e não causar aquela sensação progressiva e constante de eventos tortuosos que aconteceria se fosse linear. Não que isso diminua de fato alguma coisa, mas já começar o filme sabendo que o protagonista, apesar de tudo, conseguiu passar por cima das tragédias, já é um conforto ao espectador, mesmo quando evidente que as feridas não tenham fechado. E o resto, a maneira como Lee irá se reconectar com sua vida e com as pessoas a sua volta que também foram diretamente atingidas pelos acontecimentos, é o que o filme propõe.

Não há muito o que se dizer sobre este filme simples, que ao mesmo tempo que repele, conquista pela sua honestidade. O desenvolvimento a passos lentos que variam entre o presente e o passado por meio de flashbacks aleatórios, como uma memória fragmentada, revelam aos poucos, como camadas de cebola, a razão para o protagonista ter se tornado uma pessoa apática e um tanto inerte da realidade com o tempo, anestesiado pelos constantes e brutais golpes de uma vida cotidiana comum que, de uma hora para outra, vira de cabeça para baixo como um barco em meio a uma tempestade inesperada.

O processo de auto-indulgencia é vagaroso, igualmente penoso ao espectador em um processo de mais de 130 minutos. Um filme um tanto longo e arrastado demais para seu peso dramático, mas que na sua reta final acaba sendo compensador por ficar mais leve e concluir os conflitos de maneira bastante sóbria e sensata, sem lições de moral ou atitudes heróicas. Ao invés disso, o protagonista se mantém firme, fazendo todos compreenderem seu ponto de vista sem grandes justificativas, como realmente deveria ser.

Mesmo que demorado para deixar mais evidente sua proposta, o diretor/roteirista, Kenneth Lonergan, o desenvolve com cuidado, trazendo de suas experiências anteriores, como na comédia Máfia No Divã (Analyze This, 1999) e sua continuação, um sarcástico humor entre um momento e outro para aliviar algumas tensões. E funciona, até mesmo quando achamos que esteja um tanto fora de tom, quando no momento em que Lee está no hospital e recebe a notícia do falecimento do irmão pelo amigo George (C.J. Wilson), o personagem responsável pelos poucos momentos um tanto pastelões na história.

Casey Affleck repete aqui um tipo de personagem que combina com sua persona, mas aprofundado em dores e traumas, num sofrimento contido que não cessa, raramente exposto àqueles que o observam e dependem dele, martirizado na dúvida entre voltar a fugir da realidade ou encará-la de frente, como lhe é propositalmente imputado pelo testamento de seu falecido irmão.

Ao contrário do que se espera ou do que o cartaz pode demonstrar, não é um romance, e Michelle Williams, mesmo que em uma personagem relevante, faz uma participação extremamente pequena. É um drama regular que se passa na pequena cidade litorânea Manchester-by-the-sea (daí o título), e que apesar de seu peso, consegue evitar muitos dos clichês melodramáticos que facilmente poderiam ser usados e abusados, salvo um momento e outro, como na cena em que Lee tenta cometer suicídio. Como um todo, Lonergan faz do filme uma visão interessante sobre a vida e sua continuidade apesar do sofrimento, e a retomada de responsabilidades deixadas para trás, embora não consiga fazer desse tema - um tanto batido - algo realmente grandioso e impactante o suficiente para se diferenciar de todos os similares que existem por aí.

CONCLUSÃO...
Apenas um monte de drama para uma conclusão simples e sincera, que foge da conclusão idealizada que muita gente irá esperar. Assim como os demais filmes que estiveram presentes na temporada de premiações, Manchester não traz nada de inovador, grandioso ou emocionalmente impactante para justificar seu favoritismo. Nada para se lamentar caso seja perdido ou deixado de lado.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

POR TRÁS DE TODO JOHN, HÁ UMA JACKIE...

★★★★★★★★☆☆
Título: Jackie
Ano: 2016
Gênero: Drama, Biografia
Classificação: 14 anos
Direção: Pablo Larraín
Elenco: Natalie Portman, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, Billy Crudup
País: Chile, França, Estados Unidos
Duração: 100 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A morte de JFK sobre o ponto de vista de Jacqueline Kennedy nos quatro dias que sucederam a morte de seu marido.

O QUE TENHO A DIZER...
Após alguns segundos do início do filme, Jacqueline Kennedy (Natalie Portman) aguarda a chegada de um jornalista, interpretado por Billy Crudup. Este personagem é o único que não leva um nome, mas sabe-se que é uma referência direta a Theodore H. White, o único e premiado jornalista ao qual ela aceitou conceder entrevista uma semana após a morte de John Kennedy, em um encontro que durou mais de oito horas e resultou na publicação de apenas duas páginas da revista Life.

A história do filme focará nos quatro dias que sucederam a morte de JFK, desde o fatídico momento em que leva o primeiro dos dois tiros que o matou, até o espetaculoso funeral de proporções só vistas décadas depois, com a morte de Diana. Tudo isso recriado nos mínimos detalhes, tal qual conhecemos através dos arquivos audiovisuais da época que se solidificaram na memória histórica, os quais também são utilizados no filme, misturados de maneira imperceptível em meio às cenas reconstituídas, num competente trabalho realizado pelo diretor chileno Pablo Larrín.

Entre o início do fim da era de Camelot e o seu fim propriamente dito, o filme tentará recriar, de maneiras ora fictícias, porém relevantes, o ponto de vista de Jacqueline Kennedy sobre toda a situação. Muito já se falou ou se mostrou a respeito de John Kennedy e sua morte, como Oliver Stone fez em JFK (1991), mas nenhum filme ou mini-série pareceu se preocupar além do superficial sobre o que teria acontecido a Jacqueline durante aqueles dias, ou como é que ela conseguiu administrar tantas responsabilidades de uma única vez em um espaço de tempo quase inexistente para lidar com a própria dor de uma situação tão traumatizante pela qual passou.

Usando um Chanel pink e um chapéu pillbox, a icônica imagem de Jacqueline suja de sangue é de uma dramaticidade chocante até os dias de hoje. Mas é de conhecimento público que foi uma decisão dela manter-se com a mesma roupa para que as pessoas pudessem ver o que "eles" haviam feito, posteriormente até arrependendo-se de ter lavado seu rosto e suas mãos sujas de sangue, já que poderia ter sido mais enfática nessa mensagem. Mas mais do que isso, no momento em que Natalie Portman se despe frente às câmeras, a cena passa uma sensação metafórica simples, mas de total coerência e que, talvez, ninguém nunca tenha levado em consideração antes: sobre o peso que aquelas roupas deveriam ter no fim daquele dia. A cena se torna uma lembrança viceral do que Jacqueline teve de suportar.

Jackie fez questão de lidar pessoalmente com as decisões sobre o funeral, resolvendo fazê-lo aos moldes do de Abraham Lincoln para que o legado de Kennedy fosse igualmente registrado na História como uma era interrompida. Sem ter onde morar assim que deixasse a Casa Branca, ou emprego para cuidar de seus dois filhos, seu futuro era indefinido. Enquanto isso, presenciava durante o vôo de Dallas a Washington o futuro do vice Lyndon Johnson, que em uma completa insensibilidade política foi nomeado Presidente algumas horas depois da tragédia. Jackie recusou-se a fazer parte do juramento de posse ocorrido dentro do avião, um momento igualmente registrado no filme, e que ergue a questão de uma provável relação conflituosa entre eles e que até hoje é publicamente desmentida.

A imagem que temos da ex-Primeira Dama norteamericana é martirizadora, a da clássica viúva de preto com seus dois filhos recém órfãos de pai, um em cada lado, tal qual ela publicamente se obrigou a mostrar numa imagem difícil de ser esquecida no momento que sai para acompanhar o caixão rumo ao Capitólio. Mas será que aquela imagem era realmente aquilo que parecia ser, ou era aquilo que queríamos ver? E é dessa forma como o roteiro de Noah Oppenheim constrói a história sobre a História, colocando a dúvida em todos os momentos chaves daqueles quatro dias, tentando desmistificar registros visuais sólidos captados pela incansável imprensa, e dar um motivo muito mais pessoal e complexo do que parecia.

A semelhança de Natalie Portman, e o sucesso de sua caracterização, não se dá somente pela maquiagem e cabelo, mas pela construção física detalhada na qual se submeteu. A maneira de andar e gesticular chegam a ser inquestionáveis quando comparados com a verdadeira Kennedy. Mas o mais impressionante foi conseguir mimetizar o tom e a forma vocal de Jackie, algo que, segundo o produtor Darren Aronofsky, o qual a dirigiu em Cisne Negro (2010), era crucial para a veracidade do filme. Portman descreveu a personalidade vocal de Jacqueline como tendo uma dialética muito própria e de perfeita dicção, num sotaque particular entre o novaiorquino e britânico, além da pronunciação sussurante, sua característica mais marcante. Com a ajuda de um treinador, a atriz estudou exaustivamente a maneira de Jacqueline falar, até atingir uma similaridade próxima e convincente, sem soar forçada ou simplesmente imitada.

E consegue.

Há momentos em que a fala da atriz/personagem se torna um pouco mais estridente ou caricata, algo que, a princípio, pode soar exagerado, ou que a atriz tenha saído "um pouco do tom", principalmente nos momentos em que recriam trechos do documentário feito por Jacqueline na Casa Branca. Mas isso acontece devido a uma sensata observação da própria atriz, que notou durante suas pesquisas que Jacqueline possuia duas personas: a pública e a privada. Quando pública, ela tendia a entonar mais sua voz para soar mais "girlish", ou seja, mais alegre, charmosa, simpática, e um tanto superficial como deveria soar uma "mulher perfeita". Já na sua vida privada sua voz era contida e mais grave.

Essas duas personas de Jacqueline foram cruciais para que conseguisse separar sua vida privada daquilo que era acessível ao povo. Seu comportamento público era feito para a mídia, e isso era um atributo não apenas dela, mas também de John, e ambos se comportavam da maneira como as pessoas gostariam de vê-los: ela, como um exemplo de mulher a ser seguido, e ele, como um perfeito homem público.

A Jacqueline pública estava exposta e aberta para qualquer tipo de abordagem, a figura decorativa criada pela Casa Branca e pela expectativa dos olhos do povo. Sobre essa persona podiam falar o que quisessem, pois a Jacqueline privada, a mulher de John e mãe de dois filhos, esta ninguém conhecia. Foi uma maneira inteligente de fazer com que críticas, maldizeres e boatos, não a atingisse. Nada de fora afetava diretamente sua vida privada porque isso era responsabilidade da sua persona pública, deixada para fora a partir do momento que fechava as portas. E para auxilia-la em tudo isso, contratou sua amiga de infância, Nancy Tuckerman (interpretada no filme por Greta Gerwig), como acessora pública, um cargo que não existia na época para uma Primeira Dama.

Jacqueline foi atribuida ao cenário político como uma alegoria, um meio de desviar as atenções da frágil situação política que o país enfrentava tanto externamente (com a Guerra Fria), quanto internamente (com o crescimento dos movimentos sociais). Mas ao mesmo tempo tinha uma real intenção de reacender uma esperança nacionalista perdida, através de uma abordagem diferenciada, mais cultural e menos política. Ela sustentou essa imagem, como dito, para o bem do povo e para o bem da imagem de John Kennedy quando o descontentamento da opinião pública começou a crescer. Investiu grande parte do tesouro nacional em uma fundamental restauração da Casa Branca, promovendo a idéia de que, além de uma casa presidencial, era também uma casa do povo e de sua memória, como que abraçar os cidadãos sob as asas de uma grande mãe. Há até um momento no filme em que Jackie diz não entender porque John gastava milhões em uma campanha, mas considerava desperdício gastar com uma obra de arte, como a querer dizer que é impossível desvincular a imagem de um patrimônio. Quanto mais valorizado um, mais será o outro.

Para evitar os boatos de que Jacqueline esbajava o tesouro nacional para motivos pessoais, Nancy incentivou a idéia de promover uma grande visita à Casa Branca, utilizando a televisão como meio de atingir a população e mostrar ao povo que o dinheiro estava sendo investido para manter a memória e a cultura norte-americana. O trabalho resultou no especial da CBS entitulado A Tour Of The White House With Mrs. John F. Kennedy, um documentário apresentado no horário nobre em Fevereiro de 1962, e que Lorrain utiliza em diversos momentos entre cenas reais e reconstituídas.

Todos esses pequenos episódios são mostrados no filme e, mesmo que de forma breve, conseguem ser consistentes, pois preenchem buracos de tal forma a esclarecer que Jacqueline era muito mais do que a imagem explorada de boneca condecorada. Uma produção caprichada, bastante condensada em seus 100 minutos, evitando cair em assuntos que demandassem muitas explicações, por isso um ponto de vista muito objetivo como um relato, não sendo à toa que o ponto de partida é a entrevista que Jacqueline concede. E os pontos fictícios da história, ao invés de serem momentos de futilidade criativa - desses que costumam transformar filmes biográficos em cansativos melodramas para adular uma figura pública - se embasam em questionamentos contraditórios que justamente fazem o oposto: a transformam em uma pessoa mais humana, longe da perfeição que fascina o imaginário comum, muito mais conservadora, perfeccionista e controladora do que se imaginava.

Se ela era uma pessoa realmente preocupada com o legado de seu marido e de uma pátria, ou se seu comportamento era movido por intenções puramente narcisitas, são igualmente dúvidas que o longa constrói do início ao fim, mas que, independente de qual tenha sido a real importância de Jacqueline Kennedy, a conclusão é que ela conseguiu realizar os dois feitos em igual medida.

Mas não é um filme biográfico comum, já que ele não se aprofunda em fatos ou em sua história pessoal antes do assassinato de JFK. Como bem dito por um crítico, ele parece mais um spin-off sobre qualquer filme que fale da tragédia do que uma biografia propriamente dita. Isso não o reduz, pelo contrário, fortifica a imagem de Jacqueline muito mais do que teria feito caso houvesse uma narrativa comum como qualquer outra cinebiografia. Até porque, como a personagem diz no próprio filme ao entrevistador, todo mundo está interessado em saber como foi o barulho da bala ao atravessar o crânio de John Kennedy. E lá está ela para contar.

CONCLUSÃO...
O ponto de vista é claro: houve uma grande importancia de Jacqueline Kennedy no cenário político norteamericano, e para uma mulher que era tida pela opinião pública como uma pessoa frágil e um tanto superficial, ela demonstrou ter dentro de si uma força inquestionável de determinação responsável não apenas por superar uma tragédia, mas também fazer dela uma memória histórica viva, dando um sentido a uma época de incertezas.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

SIMPLES, DELICADO E COMPORTADO...

★★★★★★★☆
Título: Moonlight
Ano: 2016
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Barry Jenkins
Elenco: Mahershala Ali, Janelle Monae, Naomi Harris, Trevante Hodes, Andre Holland
País: Estados Unidos
Duração: 110 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma história sobre auto-descobertas, contando a história de um jovem negro, de sua infância até a vida adulta, ao mesmo tempo que se esforça para encontrar seu lugar no mundo em meio à hostilidade das condições sociais e urbanas na qual vive.

O QUE TENHO A DIZER...
Moonlight é o segundo filme de Barry Jenkins como diretor e roteirista, baseado em um projeto teatral de Tarell Alvin McCraney, escrito em 2003. Entitulada In The Moonlight Black Boys Look Blue (Sob a Luz do Luar Garotos Negros Ficam Azuis), a peça só foi sair do papel uma década depois para servir de base para o roteiro do filme. E em 2013, durante o Festival de Telluride, Jenkins apresentou o roteiro aos executivos da Plan B, produtora de Brad Pitt, a qual aceitou de imediato financiar o projeto.

Não é para menos. O longa tem todos as características e aspectos de outros filmes que a Plan B tem priorizado nos últimos anos, principalmente a roteiros com temáticas raciais e mais autobiográficos, resultando no razoável sucesso de público do filme, de sua popularização e reconhecimento mundial, tal qual os títulos anteriores, como 12 Anos de Escravidão (2013) e Selma (2014).

Mas como um todo, Moonlight nada mais é que um filme simples, delicado nos diversos temas que aborda e extremamente comportado.

A história é centrada no personagem Chiron, e percorrerá as três primeiras grandes fases de sua vida: sua infância, adolescência e a vida adulta jovem. Essa divisão um tanto didática é para facilitar a compreensão de transformação que o personagem sofre ao longo dos anos através de traumas e experiências vividas, estas nem sempre prazerosas. Não chega a ter a profundidade de Boyhood (2014) quando se trata de uma crônica sobre o período da infância até a maturidade, mas consegue ser sucinto. 

Da falta da estrutura familiar por conta de sua mãe viciada em crack até o assédio diariamente sofrido na escola, bem como sua dúvida a respeito de sua sexualidade, a infância de Chiron lhe proporcionou poucos momentos alegres e memoráveis. Graças a ajuda constantemente oferecida por Juan (Mahershala Ali) e sua mulher Teresa (Janelle Monae), e outros raros momentos de diversão e confidência por seu único amigo, Kevin, são esses os responsáveis por dar a ele o escapismo necessário para os eventos de sua vida não parecerem tão brutos.

Tímido, frágil e introspectivo, sua adolescência não foi muito diferente, fazendo com que ele se enfiasse cada vez mais dentro de uma concha para se defender do ambiente hostil em que vivia, ao ponto de confessar a seu amigo que há noites em que ele chora tanto que tem a sensação de ficar seco por dentro, tamanho o sofrimento e a falta de perspectiva. A convivência intimidadora com seus assediadores toma proporções cada vez maiores e mais violentas, ao ponto de Kevin também se tornar uma vítima dessa covardia quando se vê obrigado a bater em Chiron em um momento transformador, aquele em que o protagonista finalmente será tomado por uma onda de fúria engatilhada por anos de repressão e sofrimento. O ambiente como meio modificador do ser.

Por mais que a vida do protagonista seja marcada por episódios difíceis e muito complexos para serem esmiuçados de uma vez, o roteiro pisa em ovos para não ser apelativo, evitando transformar a vida do protagonista em sensacionalismo barato. O sofrimento do personagem é muito mais sentido pelo seu aspecto protuso e retraído, de seu comportamento calado e solitário, do que pelos acontecimentos de fato. O roteiro oferece apenas o necessário para compreendermos os acontecimentos, e tenta distanciar o espectador desses elementos que causam sofrimento justamente para os sentimentos não se sobreporem ao objeto principal, que é Chiron. Isso é observado pelas cenas dramáticas, que nunca se extendem demais nas propostas. Essa abordagem tangente nos aproxima mais do protagonista, nos sensibilizando com suas tristezas e frustrações, criando uma empatia natural por um ponto de vista mais pessoal e humano, longe de ser melodramático. É como se quisesse dizer: ok, a vida de Chiron não é fácil e já sabemos, ele tem forças para continuar e é isso que será mostrado.

Jenkis evita chegar a extremos nos temas que aborda, principalmente quando fala sobre a sexualidade do personagem, algo que, ao contrário do que vem sido comentado, não é o tema central do filme, mas uma das diversas condições paralelas importantes para a maturidade dele, sendo discutida em apenas dois importantes momentos durante todo o filme.

Por um lado esse tipo de abordagem mais superficial sobre tudo deixa claro que não é necessário apertar o torniquete para forçar uma boa narrativa linear, mas ao mesmo tempo mostra a falta de um comprometimento maior em aspectos que poderiam ter dado maior profundidade dramática ao personagem e que evitaria um filme politicamente correto, o que ele se obriga a ser.

Sim, Jenkins não quer ser chocante porque é como se ele solicitasse a aprovação do público, e sua direção é efetiva justamente porque está com as rédeas curtas o tempo todo. Não é comum filmes raciais também abordarem sexualidade justamente por parecer ser muito a ser digerido. Aliás, com excessão da comédia Cara Gente Branca (Dear White People, 2014), não me lembro de um filme abordar isso de maneira mais séria como em Brokeback Mountain (2005), por exemplo. Não com protagonistas negros.

O preconceito ao negro já é grande no cinema e fora dele, mas o preconceito ao negro homossexual é maior ainda, principalmente entre eles mesmos. Por alguns momentos é fácil confundir que a orientação sexual do personagem seja uma consequência social, ao invés de uma dúvida inerente carregada consigo desde sua infância, e isso é consequência do roteiro tratar tudo na tal superficialidade confortável.

Não é um filme corajoso, porque em nenhum momento ele é provocativo, mas é respeitável por tratar de diversas problemáticas que permeiam comunidades, sejam negras ou carentes, não apenas nos Estados Unidos, mas em diversos países onde ainda existe sociedades segregadas por raça ou diferenças de classe. E mesmo na superficialidade, mantendo a história em um platô confortável e pouco polêmico, a narrativa consegue construir um drama sensível de tranformações e descobertas, intensificados por uma cenografia soturna que intensifica essa melancolia arrastada pelo protagonista como uma corrente.

As atuações conseguem ser naturais e convincentes, superando expectativas até mesmo de novatos, como é o caso de Trevante Rhodes, em sua estréia no cinema. Mas, particularmente, questiono as indicações que recebeu nas categorias de Ator e Atriz Coadjuvantes. Mahershala Ali sempre foi um grande e competente ator, agora superexposto depois de viver o vilão Cornell no seriado Luke Cage, mas a curta participação no longa e sua atuação até bastante simples sobre um personagem bastante comum não justificam qualquer favoritismo. O mesmo sobre Naomi Harris, esta que faz um excepcional trabalho, mas pouco explorado na tela por conta da direçao comedista, imagino que seus melhores momentos tenham sido aqueles que ficaram fora da edição final. Sem contar que alguns personagens entram e saem de cena sem sabermos muito deles, como é o caso do casal Juan e Teresa, já que foram referências essenciais na vida do protagonista, o que é uma pena.

O excesso de 8 indicações ao Oscar talvez tenha sido mais pela surpresa sobre o tema do filme (que costuma agradar a banca de críticos) e pela Academia não ter encontrado outros favoritos no seu atual falso engajamento de tentar quebrar as barreiras raciais que historicamente a acompanha.

Um belo feito, de qualquer forma, mas ainda demonstra que o cinema tem de parar de só abrir janelas, mas escancarar portas e derrubar muros aos negros no cenário artístico para que as escolhas sejam feitas não por falta de opção, mas por excesso dela.

CONCLUSÃO...
Embora algo comedido e que não demonstre ter a mesma coragem que seu protagonista, ainda sim é uma bela história contada, mesmo que de maneira um tanto superficial, sobre a trajetória de um personagem verdadeiro, um exemplo de diversos Chirons espalhados pelo mundo, ignorados e pouco compreendidos, e que fazem suas próprias descobertas a grandes tropeços rumo a maturidade.

POR FORA, BELA VIOLA...

★★★★☆
Título: Passageiros (Passengers)
Ano: 2016
Gênero: Comédia, Romance, Ação, Ficção Científica
Classificação: 12 anos
Direção: Morten Tyldum
Elenco: Chris Pratt, Jennifer Lawrence, Michael Sheen, Lawrence Fishburne
País: Estados Unidos
Duração: 116 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Em uma nave espacial que viaja para uma colônia há 120 anos de distância, um dos passageiros acorda 90 anos antes devido ao mal funcionamento de sua capsula de hibernação.

O QUE TENHO A DIZER...
Assim que Passageiros começa, é fácil associá-lo a idéias de outras fições espaciais recentes como Lunar (Moon, 2009), Gravidade (Gravity, 2013) e Perdido em Marte (The Martian, 2015). Três filmes em que protagonistas solitários devem sobreviver a diversas dificuldades, seja à deriva no espaço ou em um planeta inóspito.

Mas imagine pegar a idéia desses filmes e, ao invés de um protagonista solitário, colocar um par romântico no espaço, interpretados pelos dois mais belos, mais populares, mais caros e mais bajulados atores da atualidade numa historieta de amor inusitada, uma novela espacial que aparente ser diferente, mas no fundo é apenas mais do mesmo com um visual futurista, e cheio de efeitos especiais para tirar o filme do rótulo de "comédia romântica comum".

É isso que é o novo filme do diretor Morten Tyldum (de O Jogo da Imitação), apenas um produto reciclado de outros produtos, mas cheio de "isso" e "aquilo outro" para deixar a história mais atraente, dinâmica e exageradamente vendável. E até que consegue em certo ponto, já que o nível de absurdos é tão grande que, com excessão de filmes eróticos espaciais, não me lembro de existir algo parecido assim.

O enredo é uma nave espacial com 5 mil passageiros em hibernação com destino a um novo planeta habitável, em uma viagem que durará mais de 100 anos. Por um erro do sistema, uma das cápsulas de hibernação acorda o engenheiro Jim (Chris Pratt) "apenas" 90 anos antes. A situação é desesperadora por si só, mas com o passar dos dias o protagonista se acostuma com a idéia e se ocupa com tudo aquilo que a nave pode oferecer para o tipo de passagem que ele pagou, e que, no caso, é obviamente uma passagem econômica. Jim não tem acesso a tudo, sua cabine não é uma das melhores e ele nem pode comer uma refeição decente, mas ele se vira como pode e se diverte na medida do possível para passar o tempo oscioso que durará uma vida.

Enquanto os outros filmes exploram o lado mais dramático disso tudo, Passageiros tenta fazer o contrário, pelo menos a princípio, e Chris Pratt tem charme o suficiente para dar conta desse recado mais cômico enquanto esta situação dura.

Só que um ano se passa, e a situação fica diferente e agustiante. A solidão e o confinamento de Jim começam a afetá-lo psiquica e emocionalmente. Sofrendo de depressão e ansiedade, o desespero o faz ter uma idéia um tanto criminosa e egoísta: sabotar a cápsula de Aurora (Jennifer Lawrence) para que ela possa lhe fazer companhia, passageira pela qual se apaixonou ao vê-la em sua cápsula bela como a Bela Adormecida, e cuja tentação foi maior ainda quando investigou arquivos pessoais dela e leu livros que ela havia escrito enquanto morava na Terra. É... tipo um stalker.

Até então o roteiro se apresentava razoável na sua proposta, mesmo que um tanto arrastado e cobrindo um tempo longo demais nas peripécias de Jim enquanto sozinho na gigantesca nave. Depois que Aurora acorda, a segunda parte do filme tem início, e por mais que fosse uma variável de um mesmo tema, ainda sim a situação de ambos causava uma boa impressão de "novidade".

A situação romântica já é prescrita no filme, bem como é previsto que Aurora irá descobrir em algum momento que Jim sabotou sua capsula. Esse conflito é a grande expectativa que o filme deveria ter construído, pois seria o grande e interessante revés na trama caso as coisas não perdessem o foco em eventos aleatórios que começam a acontecer, colocando em risco não apenas a vida do casal, mas também a dos tripulantes e passageiros em hibernação.

É nessa terceira parte que o que havia de cativante no roteiro se torna desperdiçado, dando lugar a sequências de ação, explosões e cenas espaciais externas desnecessárias para servir de argumento fajuto de reaproximação dos dois, e também para acelerar o ritmo, compensando a inabilidade do roteiro de desenvolver a história do casal de maneira mais natural e convincente, ou sustentar seus conflitos de maneira consistente. E claro, para também ser motivo de se tornarem os heróis espaciais dessa jornada romântica. Uma bobagem dispensável.

A história se perde em gêneros e intenções, pois fica mais preocupada em ser um grande sucesso do que algo simples e apreciável. Claro, a intenção não é ser complexo como 2001, e também não há nada de errado em ser algo mais acessível, superficial e estereotipado como costumam ser as comédias românticas ou dramas conjugais. Mas os exageros não se encaixam, como, por exemplo, o filme ter tido cópias em 3D para visualmente encarecer a proposta sem qualquer necessidade. Outra coisa é que, até agora, não consegui entender a participação de Lawrence Fishburne, uma aparição repentina apenas para dar a pobre desculpa de que um homem desesperado tenta arrastar outros no seu desespero, pobremente endossando a atitude de Jim. A aparição de Fishburne dura muito pouco para nada acrescentar, quando seu personagem poderia ter sido a solução para todos os problemas, e assim a produção poderia ter economizado nos efeitos especiais e a história teria tido um final muito mais feliz e satisfatório do que pássaros e galinhas no cenário.

Sim, o design de produção e a fotografia do filme chamam atenção, conseguindo até uma indicação ao Oscar, mas são grandiosos demais para um filme com apenas dois personagens efetivos e subaproveitados, mais uma prova de compensação de um roteiro fraco e indefinido. Sem contar os grandes absurdos que fogem de qualquer lógica física ou biológica, mas que nem vale a pena comentar porque não caberiam nessa postagem, e faria o filme extrapolar qualquer senso do que seja uma ficção.

CONCLUSÃO...
É o exemplo do erro clássico dos filmes de grande orçamento: pegar uma boa história e destruí-la sem qualquer fundamento para a pretensão do sucesso. Pena que nem para isso serviu, já que o filme foi um total fracasso, tanto de público, quanto de crítica. E mesmo assim Hollywood não aprende.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

DEIXE-SE LEVAR...

★★★★★★★★☆
Título: La La Land
Ano: 2016
Gênero: Comédia, Romance, Musical
Classificação: 12 anos
Direção: Damien Chazelle
Elenco: Ryan Gosling, Emma Stone, J.K. Simons, John Legend
País: Estados Unidos
Duração: 128 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um pianista se apaixona por uma aspirante a atriz, e ambos tentam conciliar o romance que cresce ao mesmo tempo que os sonhos individuais se engrandecem.

O QUE TENHO A DIZER...
Logo no começo do filme é óbvio e notório sua intenção de resgatar uma época ao aparecer a conhecida marca "Filmado em CinemaScope", tecnologia utilizada nas décadas de 50 e 60 para capturar imagens em widescreen, formato que hoje é acessível até mesmo na televisão. Época, inclusive, da grande era comercial dos musicais de Hollywood.

De Fred Astaire a Gene Kelly, de Bob Fosse a Rob Marshall, de Mary Poppins a Glee... Damien Chazelle não hesita em mostrar logo no início que o seu produto é o resultado de todo esse background. E que, de alguma forma, aquilo é a evolução natural dos musicais: o hoje definitivo daquilo que o gênero um dia iria se tornar.

Mesmo que a intenção seja resgatar/homenagear/referenciar uma época, essa época nunca é definida de fato, tanto no filme, quanto nas suas referências. Sim, há celulares e Toyota Prius, mas sempre algum objeto, uma roupa, uma música, ou uma situação estão dispostos a contradizer isso, como no momento da festa 80tista, em que há uma banda tocando synthpop, e logo na sequência os protagonistas estão em um mirante, como se tivessem voltado aos anos 50.

Essa mistura de tempos e épocas é observado na longa sequência sem cortes de sua abertura, com diferentes carros que, assim como mencionei antes, vagam em referências que atravessam décadas. E nos diferentes estilos, cores e formas, o cenário é uma ponte congestionada em Los Angeles, num misto de veículos que outrora marcaram um período, mas que estão no cenário agora para simbolicamente representar uma história que pretende ser atemporal. E então, de algumas batidas eletrônicas que saem de um SUV branco até desaparecerem completamente numa outra introdução musical, uma garota resolve sair do carro cantarolando e fazendo de tudo uma grande festa, arrastando com ela todas as pessoas entediadas em seus carros para celebrar a vida em mais um dia, em um surrealismo típico dos mais comerciais dos musicais.

Mas o diretor liga o ventilador na potência máxima para "gleematizar" o ambiente e atrair o público atual mais pelo gigante espetáculo do que pela sua consistência. Gente jovem, colorida, feliz e reunida, cantando e amassando capôs de carros, talvez como seus próprios pais um dia fizeram em Grease junto com Travolta e Newton John. A experiência é megalomaníaca, com centenas de figurantes numa coreografia que remete muito mais a um massivo flash mob do que algo mais fluido e natural que se esperaria numa fantasia musical. E de repente o baú de um caminhão é aberto, e lá está uma banda que toca para uma roda de pessoas improvisando no street dance. Da dança de salão à dança contemporânea e urbana, as coreografias também se diversificam.

Não há como ignorar que tudo se recusa a ser mantido em um padrão. A intenção de Chazelle é atirar para todos os lados, pois a premissa é a mesma em todos os quesitos: escolher exemplos extremos e trabalhar com tudo que existe entre um e outro. Isso acaba sendo um grande trunfo para a experiência nostálgica, mas ao mesmo tempo um grande defeito, pois não há identidade própria. Tudo tenta forçar uma mágica, porque nada nele é de fato genuíno, embora consiga ser uma experiência prazerosa mesmo assim.

E então os letreiros aparecem para mostrar o título do filme, situando o espectador de que ele está numa terra movida à música e sonhos, incluindo Mia (Emma Stone), a heroína da história. Uma aspirante a atriz que, ao contrário dos demais, se manteve dentro do carro decorando as falas para um teste, enquanto o músico Sebastian (Ryan Gosling), o perturbado herói, buzina freneticamente para que ela lhe dê passagem. E tão inusitado quanto os eventos musicais, é assim que a epopéia romântica dos dois tem início, ao mesmo tempo que cada um deles busca seu sonho particular em Hollywood: ela em ser famosa, ele em ter uma casa de Jazz.

Mesmo com um início bastante tumultuado e exagerado para impressionar, a verdade é que o filme . nada manterá disso tudo, sendo bastante diferente daquilo que vem sido promovido ou comentado. Longe de ser um Across The Universe (2007), ou um Mama Mia! (2008), onde cada frase é motivo para um grande video clip, se você não é do tipo que gosta de musicais, não se deixe enganar pelo preconceito, dê oportunidade para se deixar levar, descobrindo o seu charme e perceber que, na verdade, os números musicais se enfraquecem ao longo dos 128 minutos, pois não são os elementos principais, mas apenas artifícios fantasiosos para complementar a história e deixar a narrativa mais leve e simpática.

Há um momento no filme em que é dito que, se não há evolução de um gênero para que o público atual possa apreciá-lo, então o gênero morre. E Chazelle segue isso à risca, e por isso esse excesso de referências a clássicos, para mostrar ao público atual e imediatista de que esses gêneros não morreram, apenas se transformam com o tempo. Uma idéia que realmente se opõe aos mais tradicionalistas, e talvez seja por isso que o filme tenha gerado gostos e desgostos por aí. 

A repercussão do filme começou por parte dos críticos, quando o longa não tinha perspectiva alguma de sucesso. Eles entenderam essa grande homenagem e os esforços do diretor em realizá-lo aos moldes clássicos, com cenas musicais em plano sequência, coreografias que interagem com espaçosos cenários, e uma história simples e bonitinha que cativa o público. O ponto de vista mais contemporâneo funciona, tornando-se uma surpresa inesperada tal como foi com Moulin Rouge em 2001, e o ressurgimento do estilo musical que acontece de tempos em tempos desde então.

Mas acima de tudo, La La Land ainda contém muito daquele ranso que Hollywood adora ovacionar, referenciando ela mesma de maneira exuberante para se mostrar bonita no comércio um tanto decadente de idéias. É a reciclagem sustentável, o exercício narcisístico no qual ela sempre se propõe, e que o público compra e engole sem digerir.

A produção se beneficia do casal protagonista, já que os dois atores são hoje considerados as grandes estrelas de suas gerações. São talentosos de fato, e isso é válido. Seja Emma Stone que se esforça para sair de suas zonas de conforto, tal qual fez em Birdman (2014), seja Ryan Gosling, que sempre deu preferência a papéis desafiadores àqueles que pudessem aumentar seu caché. Aqui, em particular, Gosling fez questão de decorar as sequências em piano para tocar de verdade, sem dublês ou truques.

Nenhum dos dois atores são exuberantes e de rara beleza plástica. Nenhum dos dois canta bem, tanto que suas canções são sempre sussuradas, às vezes até difícil de entender, abolindo notas muito altas para evitar o desafino. Nenhum dos dois também são Fred Astaire e Ginger Rogers na dança. Mas existe o elemento natural que cativa. Não vemos na tela duas grandes estrelas escaladas para fingir um espetáculo de sucesso, mas duas pessoas comuns em plena sintonia, dando o melhor de si para tudo funcionar e fazer algo comum ser visto como um sucesso. Mia e Sebastian são dois personagens frágeis, humanos e verdadeiros. E se tem uma coisa bela em La La Land, são exatamente os momentos em que ele é simples.

O longa tem seus méritos, suas belezas e particularidades, e apesar de um começo pretencioso, consegue achar seu tom e seguir fiel na sua proposta romântica e sonhadora, mas muito dele funciona melhor quando não cantado, algo que felizmente é sua maior parte. Sem percebermos La La Land passa de um musical para uma comédia romântica tradicional, e desencadeia para um ato final dramático diferente, que irá contra a expectativa de muitos, mas ainda tem seu "quê" poético e a liberdade do espectador dar sua própria continuidade. As canções, quando surgem, em geral são fracas e descartáveis, no sentido de funcionarem apenas para aquele momento e nada mais. Não é algo que se mantém vivo, de sair do filme cantarolando trechos. O que fica na memória é, sem dúvida, a melodia que se torna a vida de ambos.

Assim como O Artista (The Artist, 2011) resgatou o cinema mudo aos dias atuais para ser uma grande homenagem e auto-referência de Hollywood, o novo filme de Damien Chazelle faz o mesmo com os musicais e as comédias românticas de situações dos anos 50. mas não consegue se bem suceder em alguma delas com efetividade, até porque não há nenhum desses estilos feito com efetividade. Mas de alguma forma tem seu encanto.

Como dito, não soa original, e comparado a outros concorrentes, La La Land talvez seja o mais água com açucar deles, mas é exatamente aquilo que Hollywood gosta, e exatamente aquilo que toca o público que o procura.

CONCLUSÃO...
O favoritismo do filme é grande e seu número recorde de indicações ao Oscar se justifica facilmente porque ele realmente tem qualidade em todas as 14 categorias, mas não signifca que seja o melhor em todas elas. É uma produção trabalhosa por excelência, um belo filme, cheio de momentos bastante satisfatórios muito mais por conta dos atores e da agradável fotografia. Nada mais que um bolo simples, mas bem feito, com apenas uma cereja no topo.
Add to Flipboard Magazine.