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sábado, 18 de fevereiro de 2017

POR TRÁS DE TODO JOHN, HÁ UMA JACKIE...

★★★★★★★★☆☆
Título: Jackie
Ano: 2016
Gênero: Drama, Biografia
Classificação: 14 anos
Direção: Pablo Larraín
Elenco: Natalie Portman, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, Billy Crudup
País: Chile, França, Estados Unidos
Duração: 100 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A morte de JFK sobre o ponto de vista de Jacqueline Kennedy nos quatro dias que sucederam a morte de seu marido.

O QUE TENHO A DIZER...
Após alguns segundos do início do filme, Jacqueline Kennedy (Natalie Portman) aguarda a chegada de um jornalista, interpretado por Billy Crudup. Este personagem é o único que não leva um nome, mas sabe-se que é uma referência direta a Theodore H. White, o único e premiado jornalista ao qual ela aceitou conceder entrevista uma semana após a morte de John Kennedy, em um encontro que durou mais de oito horas e resultou na publicação de apenas duas páginas da revista Life.

A história do filme focará nos quatro dias que sucederam a morte de JFK, desde o fatídico momento em que leva o primeiro dos dois tiros que o matou, até o espetaculoso funeral de proporções só vistas décadas depois, com a morte de Diana. Tudo isso recriado nos mínimos detalhes, tal qual conhecemos através dos arquivos audiovisuais da época que se solidificaram na memória histórica, os quais também são utilizados no filme, misturados de maneira imperceptível em meio às cenas reconstituídas, num competente trabalho realizado pelo diretor chileno Pablo Larrín.

Entre o início do fim da era de Camelot e o seu fim propriamente dito, o filme tentará recriar, de maneiras ora fictícias, porém relevantes, o ponto de vista de Jacqueline Kennedy sobre toda a situação. Muito já se falou ou se mostrou a respeito de John Kennedy e sua morte, como Oliver Stone fez em JFK (1991), mas nenhum filme ou mini-série pareceu se preocupar além do superficial sobre o que teria acontecido a Jacqueline durante aqueles dias, ou como é que ela conseguiu administrar tantas responsabilidades de uma única vez em um espaço de tempo quase inexistente para lidar com a própria dor de uma situação tão traumatizante pela qual passou.

Usando um Chanel pink e um chapéu pillbox, a icônica imagem de Jacqueline suja de sangue é de uma dramaticidade chocante até os dias de hoje. Mas é de conhecimento público que foi uma decisão dela manter-se com a mesma roupa para que as pessoas pudessem ver o que "eles" haviam feito, posteriormente até arrependendo-se de ter lavado seu rosto e suas mãos sujas de sangue, já que poderia ter sido mais enfática nessa mensagem. Mas mais do que isso, no momento em que Natalie Portman se despe frente às câmeras, a cena passa uma sensação metafórica simples, mas de total coerência e que, talvez, ninguém nunca tenha levado em consideração antes: sobre o peso que aquelas roupas deveriam ter no fim daquele dia. A cena se torna uma lembrança viceral do que Jacqueline teve de suportar.

Jackie fez questão de lidar pessoalmente com as decisões sobre o funeral, resolvendo fazê-lo aos moldes do de Abraham Lincoln para que o legado de Kennedy fosse igualmente registrado na História como uma era interrompida. Sem ter onde morar assim que deixasse a Casa Branca, ou emprego para cuidar de seus dois filhos, seu futuro era indefinido. Enquanto isso, presenciava durante o vôo de Dallas a Washington o futuro do vice Lyndon Johnson, que em uma completa insensibilidade política foi nomeado Presidente algumas horas depois da tragédia. Jackie recusou-se a fazer parte do juramento de posse ocorrido dentro do avião, um momento igualmente registrado no filme, e que ergue a questão de uma provável relação conflituosa entre eles e que até hoje é publicamente desmentida.

A imagem que temos da ex-Primeira Dama norteamericana é martirizadora, a da clássica viúva de preto com seus dois filhos recém órfãos de pai, um em cada lado, tal qual ela publicamente se obrigou a mostrar numa imagem difícil de ser esquecida no momento que sai para acompanhar o caixão rumo ao Capitólio. Mas será que aquela imagem era realmente aquilo que parecia ser, ou era aquilo que queríamos ver? E é dessa forma como o roteiro de Noah Oppenheim constrói a história sobre a História, colocando a dúvida em todos os momentos chaves daqueles quatro dias, tentando desmistificar registros visuais sólidos captados pela incansável imprensa, e dar um motivo muito mais pessoal e complexo do que parecia.

A semelhança de Natalie Portman, e o sucesso de sua caracterização, não se dá somente pela maquiagem e cabelo, mas pela construção física detalhada na qual se submeteu. A maneira de andar e gesticular chegam a ser inquestionáveis quando comparados com a verdadeira Kennedy. Mas o mais impressionante foi conseguir mimetizar o tom e a forma vocal de Jackie, algo que, segundo o produtor Darren Aronofsky, o qual a dirigiu em Cisne Negro (2010), era crucial para a veracidade do filme. Portman descreveu a personalidade vocal de Jacqueline como tendo uma dialética muito própria e de perfeita dicção, num sotaque particular entre o novaiorquino e britânico, além da pronunciação sussurante, sua característica mais marcante. Com a ajuda de um treinador, a atriz estudou exaustivamente a maneira de Jacqueline falar, até atingir uma similaridade próxima e convincente, sem soar forçada ou simplesmente imitada.

E consegue.

Há momentos em que a fala da atriz/personagem se torna um pouco mais estridente ou caricata, algo que, a princípio, pode soar exagerado, ou que a atriz tenha saído "um pouco do tom", principalmente nos momentos em que recriam trechos do documentário feito por Jacqueline na Casa Branca. Mas isso acontece devido a uma sensata observação da própria atriz, que notou durante suas pesquisas que Jacqueline possuia duas personas: a pública e a privada. Quando pública, ela tendia a entonar mais sua voz para soar mais "girlish", ou seja, mais alegre, charmosa, simpática, e um tanto superficial como deveria soar uma "mulher perfeita". Já na sua vida privada sua voz era contida e mais grave.

Essas duas personas de Jacqueline foram cruciais para que conseguisse separar sua vida privada daquilo que era acessível ao povo. Seu comportamento público era feito para a mídia, e isso era um atributo não apenas dela, mas também de John, e ambos se comportavam da maneira como as pessoas gostariam de vê-los: ela, como um exemplo de mulher a ser seguido, e ele, como um perfeito homem público.

A Jacqueline pública estava exposta e aberta para qualquer tipo de abordagem, a figura decorativa criada pela Casa Branca e pela expectativa dos olhos do povo. Sobre essa persona podiam falar o que quisessem, pois a Jacqueline privada, a mulher de John e mãe de dois filhos, esta ninguém conhecia. Foi uma maneira inteligente de fazer com que críticas, maldizeres e boatos, não a atingisse. Nada de fora afetava diretamente sua vida privada porque isso era responsabilidade da sua persona pública, deixada para fora a partir do momento que fechava as portas. E para auxilia-la em tudo isso, contratou sua amiga de infância, Nancy Tuckerman (interpretada no filme por Greta Gerwig), como acessora pública, um cargo que não existia na época para uma Primeira Dama.

Jacqueline foi atribuida ao cenário político como uma alegoria, um meio de desviar as atenções da frágil situação política que o país enfrentava tanto externamente (com a Guerra Fria), quanto internamente (com o crescimento dos movimentos sociais). Mas ao mesmo tempo tinha uma real intenção de reacender uma esperança nacionalista perdida, através de uma abordagem diferenciada, mais cultural e menos política. Ela sustentou essa imagem, como dito, para o bem do povo e para o bem da imagem de John Kennedy quando o descontentamento da opinião pública começou a crescer. Investiu grande parte do tesouro nacional em uma fundamental restauração da Casa Branca, promovendo a idéia de que, além de uma casa presidencial, era também uma casa do povo e de sua memória, como que abraçar os cidadãos sob as asas de uma grande mãe. Há até um momento no filme em que Jackie diz não entender porque John gastava milhões em uma campanha, mas considerava desperdício gastar com uma obra de arte, como a querer dizer que é impossível desvincular a imagem de um patrimônio. Quanto mais valorizado um, mais será o outro.

Para evitar os boatos de que Jacqueline esbajava o tesouro nacional para motivos pessoais, Nancy incentivou a idéia de promover uma grande visita à Casa Branca, utilizando a televisão como meio de atingir a população e mostrar ao povo que o dinheiro estava sendo investido para manter a memória e a cultura norte-americana. O trabalho resultou no especial da CBS entitulado A Tour Of The White House With Mrs. John F. Kennedy, um documentário apresentado no horário nobre em Fevereiro de 1962, e que Lorrain utiliza em diversos momentos entre cenas reais e reconstituídas.

Todos esses pequenos episódios são mostrados no filme e, mesmo que de forma breve, conseguem ser consistentes, pois preenchem buracos de tal forma a esclarecer que Jacqueline era muito mais do que a imagem explorada de boneca condecorada. Uma produção caprichada, bastante condensada em seus 100 minutos, evitando cair em assuntos que demandassem muitas explicações, por isso um ponto de vista muito objetivo como um relato, não sendo à toa que o ponto de partida é a entrevista que Jacqueline concede. E os pontos fictícios da história, ao invés de serem momentos de futilidade criativa - desses que costumam transformar filmes biográficos em cansativos melodramas para adular uma figura pública - se embasam em questionamentos contraditórios que justamente fazem o oposto: a transformam em uma pessoa mais humana, longe da perfeição que fascina o imaginário comum, muito mais conservadora, perfeccionista e controladora do que se imaginava.

Se ela era uma pessoa realmente preocupada com o legado de seu marido e de uma pátria, ou se seu comportamento era movido por intenções puramente narcisitas, são igualmente dúvidas que o longa constrói do início ao fim, mas que, independente de qual tenha sido a real importância de Jacqueline Kennedy, a conclusão é que ela conseguiu realizar os dois feitos em igual medida.

Mas não é um filme biográfico comum, já que ele não se aprofunda em fatos ou em sua história pessoal antes do assassinato de JFK. Como bem dito por um crítico, ele parece mais um spin-off sobre qualquer filme que fale da tragédia do que uma biografia propriamente dita. Isso não o reduz, pelo contrário, fortifica a imagem de Jacqueline muito mais do que teria feito caso houvesse uma narrativa comum como qualquer outra cinebiografia. Até porque, como a personagem diz no próprio filme ao entrevistador, todo mundo está interessado em saber como foi o barulho da bala ao atravessar o crânio de John Kennedy. E lá está ela para contar.

CONCLUSÃO...
O ponto de vista é claro: houve uma grande importancia de Jacqueline Kennedy no cenário político norteamericano, e para uma mulher que era tida pela opinião pública como uma pessoa frágil e um tanto superficial, ela demonstrou ter dentro de si uma força inquestionável de determinação responsável não apenas por superar uma tragédia, mas também fazer dela uma memória histórica viva, dando um sentido a uma época de incertezas.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

O HUMOR NEGRO (SEM HUMOR) DE SOLONDZ...

★★★★★★★
Título: Wiener-Dog
Ano: 2016
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Todd Solondz
Elenco: Tracy Letts, Julie Delpy, Greta Gerwig, Kieran Culkin, Danny DeVito, Ellen Burstyn
País: Estados Unidos
Duração: 88 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um cachorro é o personagem principal de quatro histórias sobre quatro personagens.

O QUE TENHO A DIZER...
Para quem acompanha a carreira de Solondz desde seu primeiro filme, já conhece o estilo do diretor de trás pra frente. Embora ele aborde sempre os mesmos temas, esses são tão complexos que seus filmes nunca se repetem da mesma forma. Bastante fora do circuito comum, esse norteamericano faz parte do pequenino grupo de diretores autorais e independentes que nadam contra a maré hollywoodiana.

É um pequeno gênio do cinema alternativo, cuja narrativa sempre tende a ser mais artística, introspectiva, que lida com os mais diversos temores humanos e suas complexidades. E como não há nada espetaculoso, acaba sendo ignorado. Como já escrevi em uma outra análise, Solondz brinca com o humor negro todo o tempo para aliviar o peso dos complexos temas dramáticos, dando o balanço exato e necessário para que verdadeiras discussões sobre a vida - muitas vezes pesadas - se transformem em algo comum como um café da manhã.

O diretor nunca teve uma grande evolução ao longo de seus filmes, no sentido de explorar outros espaços e situações. Ele sempre se manteve fiel às discussões humanas, na relação entre eles e como os conflitos se desencadeiam em efeitos borboleta. Ou seja, pequenos atos que dão origem a grandes ou trágicas conclusões.

Pois é. A impressão que se tem quando se fala dele é que seus filmes sejam tão densos ao ponto do insuportável. Mas não. Há uma delicadeza nata, uma naturalidade que muitas vezes nos impede de ver além do óbvio pela forma simplista como ele condensa tudo. Suas histórias e personagens demandam atenção e cuidado, pois realmente são criados e lapidados com muito detalhe. Quando algum de seus filmes acaba, a sensação que se tem a princípio é de uma breve catatonia, e então o tapa na cara é sentido com certo retardo.

Em Wiener-Dog isso não seria diferente, principalmente depois de dois grandes filmes que foram Dark Horse (2011) e A Vida Durante A Guerra (Life During Wartime, 2009). Nessa antologia o personagem principal é um cão Basset (ou Dashshund), que irá vagar por quatro histórias muito distintas. Com excessão das duas primeiras, as duas últimas não parecem ter uma conexão direta, e de fato não sabemos se o cachorro é o mesmo, que passou de dono em dono, ou se são cachorros distintos. Talvez esse seja o ponto negativo de uma narrativa que teria sido muito mais impactante e coesa se a conexão fosse mais óbvia como é nas duas primeiras partes, justamente por conta da conclusão que o filme tem, o qual foi responsável por algumas vaias recebidas no festival de Sundance.

O cachorro nada mais é na história do que um substituto daquilo que os personagens tem ausência, seja amor, companheirismo, ou de um simples adorno de mesa, e como são moldados por seus donos para conceder essas satisfações. A amargura, a displicência, a infelicidade e, acima de tudo, a solidão, são as discussões corriqueiras de Solondz e nessas histórias, havendo até tempo para um final feliz na única delas que foge da tragédia das demais, que por um breve momento nos faz sorrir e acreditar que o mundo nos reserva coisas inesperadas em meio a tanta negatividade e agressividade do ambiente que vivemos.

A primeira história já começa na crueldade Solondz de ser, sobre um casal rico e infeliz, que superou a doença terminal do filho único. O pai (Tracy Letts) explica ao filho o motivo de deixar o cachorro preso, e assim domesticá-lo para que ele passe a agir como um humano, mesmo que ele, em sua natureza, ainda tenha que ser levado para fora para fazer suas necessidades. É o contraditório e o antinatural. Acontece que a inocência do garoto o impede de compreender certas distinções, levando algumas das explicações na total literalidade infantil ao ponto de quase matar o animal ao dar a ele um pequeno pedaço de uma barra de cereais. A falta de tato dos pais se intensifica nas vezes em que a mãe (Julie Delpy) tenta intervir no relacionamento do seu filho com o cão. A forma como ela assim faz pode parecer até absurda e engraçada na atmosfera tragicômica criada, mas é a essência da crueldade propriamente dita, uma afronta à imatura intelectualidade do garoto. A domesticalização humana. 

O cachorro, por fim, vai parar nas mãos de Dawn Wiener (Greta Gerwig), a devastadora personagem do seu segundo longa, a qual era constantemente assediada na escola, apelidada de Salsichona (o "wiener-dog" do título, ou "cachorro salsicha"), e que agora, já adulta, trabalha como auxiliar veterinária. Irônico como apenas Solondz poderia ser.

Na visão do diretor, agora adulta, é como se a personagem tivesse personificado todo o trauma infantil e se transformado naquilo que as pessoas fizeram-na acreditar ser por toda a vida. Não é à toa que, ao ver o cachorro prestes a ser sacrificado, o seu lado ingênuo, o mesmo de quando era criança, despertam. Ela foge da clínica com o animal, se identifica com a solidão dele, e o batiza de Sujinho (ou algo assim), por conta da aparência que ele tinha quando chegou em suas mãos. É Dawn reproduzindo no animal o que fizeram com ela na infância, tal qual ela fazia com sua irmã mais nova em seu próprio longa. Somos nós reproduzindo a crueldade alheia naqueles que consideramos mais fracos.

Duas semanas depois ela reencontra Brandon (Kieran Culkin), um antigo colega de escola que a molestou e por quem acabou apaixonada, já que aquilo foi para ela a primeira experiência sexual que teve. Ao reencontrá-la ele a chama pelo apelido nada carinhoso de infância, mas ela já está tão condicionada ao tratamento que não mais se importa com isso. Ela virou aquilo.

A principio ele a trata com o mesmo desprezo de antes, enquanto ela outra vez se humilha para tentar ganhar sua atenção. É Solondz sendo provocativo outra vez, como querendo dizer que os anos passam, as pessoas se esquecem do passado, mas a essência continua a mesma, como aquela máxima que diz "quem bate esquece, quem apanha nunca esquece". A dureza do diretor, junto ao seu tom de humor trazem aquele sabor um tanto amargo quando Brandon, brincando com o animal, diz que os cachorros o adoram. Dawn nem se atenta ao fato de que ela era apaixonada por um rapaz que a tratava como um cachorro e que a xingava de cachorro. Ele também nem se atenta ao fato de que ela corria atrás dele como tal. Uma atitude passivo agressiva inconsciente dele, mas nós, espectadores, aqueles que já conhecem o passado de Dawn em Bem-Vindo À Casa de Bonecas (Welcome To Dollhouse, 1995), entenderá a referência e engolirá a seco.

Detalhar sobre essa história em específico é uma obrigação, pois Dawn é a única personagem que tem uma continuidade neste filme, e da qual temos conhecimento de sua bagagem atormentada, de uma infância desajustada e indesejada, de um filme cruel e ao mesmo tempo humano que foi esquecido com o tempo. Deve ser por isso que Solondz resgatou essa personagem que é a referência principal desse longa, talvez para finalmente libertá-la da eternidade trágica que o cinema lhe concedeu, e 20 anos depois concluir uma série de infortúnios de maneira muito honesta, mesmo que breve, seja para ela ou para os espectadores que a conhecem. Uma conclusão sincera e delicada em sua forma, mostrando que depois da tempestade vem a calmaria. Uma história curta, mas cheia de referências diretas e indiretas para aqueles que assistiram seu filme. Uma pena Heather Mattarazzo ter recusado reviver a personagem, mas Greta Gerwig consegue impersonar, mesmo que à sua forma, a essência cativante de Dawn.

A terceira e quarta história se assemelham pela solidão que os personagens se encontram, mesmo que por diferentes motivos. Temos um professor da faculdade de cinema, que é um roteirista fracassado no qual seus alunos o desprezam pela sua sua peculiar falta de talento e didática. É uma breve participação de Danny DeVito, mas tão consistente e marcante que a vida de seu personagem se torna dolorosa além da tela. E enquanto ele brilha com sua expressividade dramática, Ellen Burstin brilha intensamente na última história por justamente fazer o contrário, estar contida do início ao fim, enclausurada numa amargura que a vida lhe colocou.

E seguindo essa narrativa slice-of-life, os pedaços da vida desses personagens tem, em sua linha guia, uma cronologia óbvia ao longo das quatro curtas histórias: da infância, ao fim da vida; da perda da inocência, até a redenção sobre as consequências que isso traz, ao mesmo tempo que tudo isso mostra ser um ciclo do qual as gerações não estarão imunes. Solondz se referencia o tempo todo, como analisar sua própria trajetória. É um filme com teores existencialistas, como são todos seus filmes, mas que nunca perde o foco da realidade, nos fazendo encontrar os pontos positivos nos momentos mais negativos, e assim aprendermos algo com eles.

CONCLUSÃO...
Como dito, para aqueles que conhecem o trabalho de Solondz, Wiener-Dog é mais um ponto de vista excruciante da diversidade humana e dos problemas que nos atormentam. Não é tão brilhante quanto seus filmes anteriores, mas ainda consegue ter seu impacto, e por que não, sua beleza.

quarta-feira, 2 de março de 2016

NOSSOS 30 ANOS...

★★★★★★★☆
Título: Mistress America
Ano: 2015
Gênero: Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: Noah Baumbach
Elenco: Greta Gerwig, Lola Kirk
País: Estados Unidos, Brasil
Duração: 84 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A vida de Tracy era sem graça e desmotivante, até conhecer sua irmã postiça, Brooke.

O QUE TENHO A DIZER...
Se é fixação de Greta Gerwig em estar perdida no que ser ou fazer nos redores dos 30 anos em Nova York, então parece até justo considerá-la uma excelente aspirante a uma versão feminina, mais contemporânea e despretenciosa de Woody Allen. O que é uma excelente coisa visto que o cinema atualmente carece dessa autoria mais introspectiva, utilizando o cotidiano como uma análise pessoal de escolhas e vontades, e como ele interfere em tudo isso.

Em Frances Ha (2012), filme também dirigido por Baumbach e estrelado por Gerwig (e escrito pelos dois), a protagonista estava prestes a completar 30 anos e se encontrava na difícil situação de se encaixar em algum lugar. O que salvava Frances de crises existenciais era seu inabalável otimismo, que mesmo sem ter onde morar ou dinheiro para comer, conseguia enxergar nas pequenas coisas um motivo para seguir em frente. De qualquer forma, dentro de Frances havia uma frustração, uma agonia por ainda não ter conseguido chegar lá, naquele lugar que ela não sabia exatamente qual era.

Aqui a narrativa é pelo ponto de vista de Tracy (Lola Kirke), uma jovem que acabou de completar 20 anos e que está tendo dificuldades de se adaptar na rotina acadêmica da faculdade por sofrer de procrastinação e pela maneira um tanto inútil com que as matérias são conduzidas. Ela se sente desencaixada do mundo, pois as pessoas a sua volta não pensam como ela e não agem de maneira bastante inteligente como ela espera. Seu hobbie é escrever histórias, e sua aspiração é ser um dia uma grande e reconhecida escritora de sucesso, interessante e rodeada de pessoas importantes em um belo apartamento. Sua atual frustração é não conseguir fazer parte do seleto clube literário da faculdade, o único lugar no qual tem real interesse e acredita que será o ponto de partida de seu promissor futuro. Enquanto não consegue ser aceita pelo grupo, divide seu tempo trocando e comentando textos com seu único amigo e confidente, Tony (Matthew Shear).

Se ignorássemos a sinopse, seria até fácil imaginar que a atriz Lola Kirk representasse uma versão adolescente da protagonista e que a qualquer momento Gerwig entraria em cena em outro espaço e tempo como uma versão mais madura e atual, já que o início do filme causa essa impressão, além de Kirk ter uma semelhança física e comportamental com Gerwig muito grande. Mas na verdade Gerwig é Brooke, a irmã postiça que Tracy terá assim que seus respectivos pais se casarem. Elas não se conheciam, e quando isso acontece a identificação de ambas é imediata, quase simbiótica. O estilo de vida de Brooke, junto com sua personalidade extrovertida, livre e cativante a faz ser uma personagem marcante de uma fantasia que Tracy alimenta para si, aquilo que ela gostaria de ser, mas não imagina um futuro que a faça ser. E a partir de um comentário fantasioso de sua nova irmã, junto com todas as saudáveis impressões construídas, tudo a incentiva escrever sobre isso, e então a Mistress America do título (ou Dona America) surge, em conotação ao seu grande poder e importância.

Toda essa determinação e autoconfiança de Brooke nada mais são do que autodefesas para sua frustração e insatisfação em estar nos seus 30 anos mas sem ter conquistado algo sólido. Como ela mesma caracteriza, uma fase em que a cada ano que se passa as vontades aumentam e se tornam maiores porque as possibilidades se tornam cada vez menores. E tudo na vida da personagem agora se baseia apenas nisso. E por não ser um drama, o que faz toda essa desconfortante situação não se tornar um peso que puxe o filme para baixo é, justamente, o otimismo.

Sim, é como se Brooke desse sequência à vida de Frances na parceria anterior de Noah Baumbach e Greta Gerwig, onde Frances representa o começo de uma vida adulta insegura e indeterminada, e Brooke seja a segunda fase desse processo, em que o foco existe, mas as possibilidades ainda sejam limitadas. Ao mesmo tempo Tracy é um meio termo entre duas personagens tão cotidianas, talvez a caracterização da motivação que as fazem seguir em frente, independente das dificuldades.

É mais um filme interessante dos dois, que dá oportunidade para Gerwig novamente explorar esses conflitos e contradições da vida adulta jovem no seu tom bem humorado, peculiar e despretencioso. Uma visão um tanto "aestética" da realidade, ou seja, com certo tom de improviso, que não segue padrões estéticos convencionas, tal como uma música de Clarisse Falcão, em que tudo a princípio parece não ter ordem nem sentido, mas no fim tem compasso e coerência. E mesmo Gerwig saindo do protagonismo e dando maior espaço para Lola Kirk brilhar, é impossível não dar atenção ao seu carisma, sendo ele quem toma conta de toda a história no fim das contas.

E para Noah Baumbach, que dirige e também divide o roteiro com Gerwig, toda essa visão tragicômica das coisas é um prato cheio para sua perspicácia que igualmente evita o comum sem deixar de lado a vitalidade clássica das coisas, seja na segurança com que conduz as cenas, seja no caos organizado que consegue criar principalmente quando a história engata em alguma situação absurda que promete, como a visita de Brooke a uma antiga colega. É quando percebemos que o roteiro é muito mais sólido do que simplesmente um slice of life (representação de um pedaço da vida ou do cotidiano), mas um condensado contundente de que muitas das nossas vontades e aspirações afloram com o sucesso de outros, e sem querer essa cobiça se transforma em nossas piores frustrações numa cadeia que não tem idade para começar e nem para terminar.

O filme é leve e sem pretenções alguma, assim como foi Frances Ha, e nem por isso deixa de fazer seu espectador pensar sobre a vida ou se identificar com esses filmes e personagens. E tudo isso de forma muito simples e acessível, sem necessidade alguma de tomadas longas com discursos existenciais complexos e alienantes, pelo contrário, tudo dentro de um humor simples, inspirador e motivante.

CONCLUSÃO...
A parceria entre Baumbach e Gerwig é como Tracy e Brooke, e Mistress é mais um filme dos dois que dá certo e que de novo nos leva a fases complicadas da vida, mas que os dois conseguem sintetizar tudo com delicadeza e simplicidade.

domingo, 15 de dezembro de 2013

LOLA VERSUS... FRANCES!

★★★★★★★
Título: Frances Ha
Ano: 2012
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Noah Baumbach
Elenco: Greta Gerwig, Mickey Sumner, Michael Zegen, Charlotte d'Amboise
País: Estados Unidos
Duração: 86 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Frances é uma aspirante a dançarina que não tem talento, que mora em Nova York mas na verdade não possui um apartamento, e que segue numa trajetória de crescimento pessoal sem deixar para trás seus sonhos e vontades.

O QUE TENHO A DIZER...
Frances Ha é dirigido por Noah Baumach, o qual também escreveu o roteiro em parceria com a própria atriz principal, Greta Gerwig.

Greta ainda é uma atriz desconhecida, mas que vem chamando muita atenção do circuito independente nos últimos anos justamente por, assim como outra atriz de sua geração, Brit Marling, não ser somente uma atriz, mas também produtora, roteirista e até já ter investido na direção.

Conta a história de Frances, uma mulher apaixonada por dança (mas que não sabe dançar), de 27 anos, e que mora em um apartamento em Nova York com sua melhor amiga de infância, Sophie. Como unha e carne, as duas são inseparáveis, tanto que Sophie se considera a versão morena de Frances, e é dessa forma que Frances fala de sua amiga aos outros. Para os demais, as duas são um casal lésbico que não faz sexo, e para elas esse rótulo pouco importa, porque elas se amam como irmãs e dormem juntas na mesma cama como um casal enquanto discutem sobre outros homens e seus fracassos amorosos. Um dia Sophie surpreende Frances ao dar a notícia que irá se mudar para outro apartamento para morar com outra garota. Essa notícia balança toda a base e estrutura confortável da vida da personagem, e a partir daí tudo desaba aos poucos, pedaço por pedaço.

Para quem assistiu seu filme anterior, Lola Versus (2012), definitivamente vai encontrar algumas situações similares neste novo filme. De alguma forma eles até se completam, e Frances Ha parece até fazer algumas referências ao anterior, podendo ser visto indiretamente como uma continuação, ou até mesmo como a outra face da percepção de como lidar com frustrações comuns da vida e do cotidiano humano. Enquanto Lola Versus foi um drama cômico sobre uma personagem que humanamente sofre em retomar sua vida após o término de uma longa relação semanas antes do seu casamento, Frances Ha é uma comédia dramática que não apenas lida com relações, mas com diversas outras situações habituais comum a todos e que essencialmente se difere de Lola por conta da força de vontade da personagem em superar as duras mudanças de uma vida que ela considerava simples e perfeita, mas que agora virou apenas um sonho no qual ela está determinada a reconquistar, custe o que custar.

Lola Versus não foi muito bem interpretado pelo público e pela crítica, talvez por conta da veracidade até brutal que o filme tenta mostrar de forma cômica sobre as dores, frustrações e conflitos passados pela personagem até atingir a natural superação sobre uma situação e um capítulo amoroso específico em sua vida, o que é realista para quem já passou pelo mesmo que ela, mas que soa absurdo ou exagerado para quem ainda não o vivenciou. Mas com uma narrativa similar, Frances Ha foi melhor aceito e compreendido por abranger situações que definem uma fase de transição complicada da juventude irreponsável para a total juventude independente, além da determinação da personagem em encarar essas situações trágicas como obstáculos a serem superados, ao invés de sofrer tudo passivamente como aconteceu com a personagem do filme anterior. Ela é graduada, inteligente, legal, engraçada, amistosa, vem de uma família de classe média e possui apenas pessoas interessantes a sua volta. Ou seja, ela poderia ser e fazer o que quisesse, mas viver em um apartamento qualquer, ter uma vida simples e trabalhar em um subemprego de dançarina substituta são as escolhas que ela fez e pretente se manter, mesmo que ela quebre a cara com isso.

O filme é unicamente sobre Frances e, por isso, não há uma cena sequer em que ela não esteja presente, mostrando sua vida de forma intimista e nostálgica, e a identificação com certos momentos chega a ser forte e carismática o suficiente para não ser vista com estranheza pelo espectador, tanto que o filme foi intencionalmente feito em preto e branco porque o diretor queria limitar o foco e a atmosfera apenas na personagem e em sua trajetória, e não ser saudosista a uma época, até porque a contemporaneidade do filme não se encaixaria nisso.

A história pode ser linear, mas o roteiro realmente se bagunça em dar atenção mais para alguns momentos do que para outros, mas definitivamente isso não atrapalha a intenção e a idéia principal do filme - e sua moral - da busca da personagem pela independência, superação e determinação da conquista de sonhos, importantes para a maturação das idéias e do caráter, o que é muito bem mostrado.

O mérito disso é inteiramente tanto de Greta Gerwig quanto dos diálogos, em uma atuação apaixonante e sincera nas variações emocionais - às vezes sutis, às vezes exageradas - que em nenhum momento fogem da perspectiva e da personalidade despretenciosa, desordenada e impulsiva da personagem. Os diálogos não podiam ser mais inteligentes, variando entre o cinismo e a ignorância proposital, a ingenuidade e o excesso de malícia. Os momentos íntimos e sinceros do filme se tornam realmente íntimos e sinceros porque todo mundo já fez o que Frances fez, e se não fez, irá fazer. Só que a grande graça de todo filme é que, embora Frances tenha idéias inconsequentes, atitudes impensáveis e seja por algumas vezes inconveniente, ela mesmo assim continua sendo legal, e ao invés de sentirmos pena, nós torcemos por ela.

Frances começa o filme com sonhos e atitudes típicas do deslumbre da primeira experiência dessa juventude independente e da falta de necessidade de obrigações e satisfações, até mesmo se auto-referindo como alguém "inamorável" justamente por não querer se apegar a nada além de sua própria vida e experiências. Depois entra para os conflitos e o choque com a realidade: a constante falta de dinheiro; a dúvida profissional; a ironia da descoberta da falta do talento para o que mais ama; as atitudes inconsequentes; a dificuldade de readaptação social, de encontrar e se encaixar em diferentes grupos que mudaram no decorrer do aumento de experiências e responsabilidades. Ela chega até a ter atitudes inconvenientes por conta da imaturidade, ou na tentativa de demonstrar ser algo que não é para ser aceita numa sociedade que ela descobre prezar pela imagem e status, como no jantar em que participa, disparando diálogos constrangedores a todo tempo ao tentar ser o que não é, só cativando a atenção de todos quando, já bêbada e desarmada da falsa imagem, faz uma observação inusitada e até poética sobre a vida e as relações.

Ela atinge a maturidade e a fase adulta quando finalmente decide deixar o passado para trás, descobrindo aos tropeços que a vida é uma onda de constantes mudança adaptáveis, e que para isso ela não precisa deixar de ser o que é em essência, apenas manter o pensamento positivo. O ápice desse desenvolvimento confuso, porém fluido da personagem, é visto de forma breve e muito marcante nos últimos minutos do filme, na sua postura de mulher adulta, e até mesmo na forma como ela novamente se considera "inamorável", mas que agora carrega uma outra carga de responsabilidade na afirmação e que se resume no espetáculo final, ou quando Colleen, a dona da companhia de dança - e a grande responsável por abrir os olhos da personagem à realidade - diz que a apresentação foi interessante por representar o que Frances realmente é.

A leveza com que o filme trata essa positiva inércia vivida por Frances faz com que ele não apenas tenha diálogos memoráveis como várias cenas igualmente inesquecíveis, como no momento em que ela corre dançando pelas ruas de Manhattan. São cenas deliciosas como essa, além da trilha sonora 70/80tista que nos remetem aos filmes daquela época, que assistíamos e reassistíamos justamente para absorver as cenas marcantes e decorar os diálogos interessantes, o que nesse filme tem de monte.

CONCLUSÃO...
Greta novamente faz um trabalho doce, despretencioso, delicado, sutil e realista. A atriz conquistou sua primeira indicação ao Globo de Ouro no gênero Comédia/Musical pelo filme, e com certeza sua grande estréia em uma carreira que promete ser grandiosa no futuro. É um filme com as mesmas pretensões de seu filme anterior, Lola Versus, porém mais abrangente e, por isso, melhor assimilado e com maior vínculo de identificação.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

LOLA CONTRA O MUNDO...

★★★★★★★
Título: Lola Versus
Ano: 2012
Gênero: Comédia, Romance
Classificação: 14 anos
Direção: Daryl Wein
Elenco: Greta Gerwig, Zoe Lister Jones, Hamish Linklater, Bill Pulman, Debra Winger
País: Estados Unidos
Duração: 87 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Quantas vezes, ao terminar uma relação, achamos que será o fim do mundo? Pois parece que para Lola está sendo a primeira vez. Ela estava noiva do seu primeiro namorado, aquele que ela ainda conheceu no ensino médio. E agora, com 29 anos e três semanas antes do casamento, ele resolve desistir de tudo. É o motivo para o mundo estar contra ela.

O QUE TENHO A DIZER...
Lola (Greta Gerwig) passará por maus bocados entre momentos de euforia e outros de angústia durante todo o filme, sintomas típicos da distimia sofrida pelo fim de uma relação. Seus amigos, Alice (Zoe Lister Jones, que também assina o roteiro) e Henry (Hammish Linklater), farão de tudo para tentar apoiá-la e mostrar a situação por outras perspectivas, mas nessas horas nenhuma ajuda parece suficiente, e será passando por tudo isso que ela, enfim, encontrará sua redenção em algum momento.

Depois da sutileza de 500 Dias Com Ela (500 Days Of Summer, 2009), o público redescobriu o que é uma boa comédia romântica. Lola Versus não chega a ter um apelo tão caloroso ou um personagem que desperte tanta compaixão quanto no filme de Marc Webb, características que fizeram do filme um sucesso de crítica e público, mas segue o mesmo estilo profundo e humano do sofrimento na sua forma mais pura, e os erros e defeitos naturais que acompanham um grande amor e a superação da sua decepção. Todos nós também já tivemos os dias de Lola algum dia, e já ficamos contra tudo tanto quanto ela, e essa comédia romântica não podia ser mais sincera ao mostrar simploriamente esses sentimentos mistos que temos quando somos pegos de surpresa nessas situações. É fácil nos simpatizarmos com a personagem e sua inquietação, angústia, confusão e aquela dor que não se sente, mas sabemos que está lá, assim também como sabemos que ela irá se recuperar e tomar as melhores decisões.

É uma comédia romântica incomum e bastante fora do circuito, e por muitas vezes pode parecer desinspirada ou fora de ritmo, talvez por isso tem sido mau interpretada pelo público. A história é lenta e presenciamos o período de um ano na vida da personagem e o seu processo de recuperação, indas e vindas, recaídas e mágoas afogadas em álcool e sexo sem sentido na tentativa das dores serem esquecidas e a vida seguir normalmente. São situações bastante familiares para muitos porque são os clichés do cotidiano, e só quem já passou por isso para compreender o que se passa com Lola.

Ao contrário do que pode parecer, é um filme inspirador por várias vezes, com uma trilha sonora motivante e diálogos irreverentes. Os personagens são carismáticos e por vezes dão o tom certo da comédia sem parecerem forçados e, mesmo sem intenções, consegue ter sequências engraçadas. Não é um filme que fará a cabeça de muita gente, mas com certeza é uma reprodução bem feita da nossa tolice e perda de tempo, e de que a culpa de todas nossas condições é de ninguém além de nós mesmos.

CONCLUSÃO...
Inspirador e melhor apreciado por aqueles que já ficaram contra o mundo, justamente por saber exatamente como é que Lola está se sentindo no momento.

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