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domingo, 12 de fevereiro de 2017

SIMPLES, DELICADO E COMPORTADO...

★★★★★★★☆
Título: Moonlight
Ano: 2016
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Barry Jenkins
Elenco: Mahershala Ali, Janelle Monae, Naomi Harris, Trevante Hodes, Andre Holland
País: Estados Unidos
Duração: 110 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma história sobre auto-descobertas, contando a história de um jovem negro, de sua infância até a vida adulta, ao mesmo tempo que se esforça para encontrar seu lugar no mundo em meio à hostilidade das condições sociais e urbanas na qual vive.

O QUE TENHO A DIZER...
Moonlight é o segundo filme de Barry Jenkins como diretor e roteirista, baseado em um projeto teatral de Tarell Alvin McCraney, escrito em 2003. Entitulada In The Moonlight Black Boys Look Blue (Sob a Luz do Luar Garotos Negros Ficam Azuis), a peça só foi sair do papel uma década depois para servir de base para o roteiro do filme. E em 2013, durante o Festival de Telluride, Jenkins apresentou o roteiro aos executivos da Plan B, produtora de Brad Pitt, a qual aceitou de imediato financiar o projeto.

Não é para menos. O longa tem todos as características e aspectos de outros filmes que a Plan B tem priorizado nos últimos anos, principalmente a roteiros com temáticas raciais e mais autobiográficos, resultando no razoável sucesso de público do filme, de sua popularização e reconhecimento mundial, tal qual os títulos anteriores, como 12 Anos de Escravidão (2013) e Selma (2014).

Mas como um todo, Moonlight nada mais é que um filme simples, delicado nos diversos temas que aborda e extremamente comportado.

A história é centrada no personagem Chiron, e percorrerá as três primeiras grandes fases de sua vida: sua infância, adolescência e a vida adulta jovem. Essa divisão um tanto didática é para facilitar a compreensão de transformação que o personagem sofre ao longo dos anos através de traumas e experiências vividas, estas nem sempre prazerosas. Não chega a ter a profundidade de Boyhood (2014) quando se trata de uma crônica sobre o período da infância até a maturidade, mas consegue ser sucinto. 

Da falta da estrutura familiar por conta de sua mãe viciada em crack até o assédio diariamente sofrido na escola, bem como sua dúvida a respeito de sua sexualidade, a infância de Chiron lhe proporcionou poucos momentos alegres e memoráveis. Graças a ajuda constantemente oferecida por Juan (Mahershala Ali) e sua mulher Teresa (Janelle Monae), e outros raros momentos de diversão e confidência por seu único amigo, Kevin, são esses os responsáveis por dar a ele o escapismo necessário para os eventos de sua vida não parecerem tão brutos.

Tímido, frágil e introspectivo, sua adolescência não foi muito diferente, fazendo com que ele se enfiasse cada vez mais dentro de uma concha para se defender do ambiente hostil em que vivia, ao ponto de confessar a seu amigo que há noites em que ele chora tanto que tem a sensação de ficar seco por dentro, tamanho o sofrimento e a falta de perspectiva. A convivência intimidadora com seus assediadores toma proporções cada vez maiores e mais violentas, ao ponto de Kevin também se tornar uma vítima dessa covardia quando se vê obrigado a bater em Chiron em um momento transformador, aquele em que o protagonista finalmente será tomado por uma onda de fúria engatilhada por anos de repressão e sofrimento. O ambiente como meio modificador do ser.

Por mais que a vida do protagonista seja marcada por episódios difíceis e muito complexos para serem esmiuçados de uma vez, o roteiro pisa em ovos para não ser apelativo, evitando transformar a vida do protagonista em sensacionalismo barato. O sofrimento do personagem é muito mais sentido pelo seu aspecto protuso e retraído, de seu comportamento calado e solitário, do que pelos acontecimentos de fato. O roteiro oferece apenas o necessário para compreendermos os acontecimentos, e tenta distanciar o espectador desses elementos que causam sofrimento justamente para os sentimentos não se sobreporem ao objeto principal, que é Chiron. Isso é observado pelas cenas dramáticas, que nunca se extendem demais nas propostas. Essa abordagem tangente nos aproxima mais do protagonista, nos sensibilizando com suas tristezas e frustrações, criando uma empatia natural por um ponto de vista mais pessoal e humano, longe de ser melodramático. É como se quisesse dizer: ok, a vida de Chiron não é fácil e já sabemos, ele tem forças para continuar e é isso que será mostrado.

Jenkis evita chegar a extremos nos temas que aborda, principalmente quando fala sobre a sexualidade do personagem, algo que, ao contrário do que vem sido comentado, não é o tema central do filme, mas uma das diversas condições paralelas importantes para a maturidade dele, sendo discutida em apenas dois importantes momentos durante todo o filme.

Por um lado esse tipo de abordagem mais superficial sobre tudo deixa claro que não é necessário apertar o torniquete para forçar uma boa narrativa linear, mas ao mesmo tempo mostra a falta de um comprometimento maior em aspectos que poderiam ter dado maior profundidade dramática ao personagem e que evitaria um filme politicamente correto, o que ele se obriga a ser.

Sim, Jenkins não quer ser chocante porque é como se ele solicitasse a aprovação do público, e sua direção é efetiva justamente porque está com as rédeas curtas o tempo todo. Não é comum filmes raciais também abordarem sexualidade justamente por parecer ser muito a ser digerido. Aliás, com excessão da comédia Cara Gente Branca (Dear White People, 2014), não me lembro de um filme abordar isso de maneira mais séria como em Brokeback Mountain (2005), por exemplo. Não com protagonistas negros.

O preconceito ao negro já é grande no cinema e fora dele, mas o preconceito ao negro homossexual é maior ainda, principalmente entre eles mesmos. Por alguns momentos é fácil confundir que a orientação sexual do personagem seja uma consequência social, ao invés de uma dúvida inerente carregada consigo desde sua infância, e isso é consequência do roteiro tratar tudo na tal superficialidade confortável.

Não é um filme corajoso, porque em nenhum momento ele é provocativo, mas é respeitável por tratar de diversas problemáticas que permeiam comunidades, sejam negras ou carentes, não apenas nos Estados Unidos, mas em diversos países onde ainda existe sociedades segregadas por raça ou diferenças de classe. E mesmo na superficialidade, mantendo a história em um platô confortável e pouco polêmico, a narrativa consegue construir um drama sensível de tranformações e descobertas, intensificados por uma cenografia soturna que intensifica essa melancolia arrastada pelo protagonista como uma corrente.

As atuações conseguem ser naturais e convincentes, superando expectativas até mesmo de novatos, como é o caso de Trevante Rhodes, em sua estréia no cinema. Mas, particularmente, questiono as indicações que recebeu nas categorias de Ator e Atriz Coadjuvantes. Mahershala Ali sempre foi um grande e competente ator, agora superexposto depois de viver o vilão Cornell no seriado Luke Cage, mas a curta participação no longa e sua atuação até bastante simples sobre um personagem bastante comum não justificam qualquer favoritismo. O mesmo sobre Naomi Harris, esta que faz um excepcional trabalho, mas pouco explorado na tela por conta da direçao comedista, imagino que seus melhores momentos tenham sido aqueles que ficaram fora da edição final. Sem contar que alguns personagens entram e saem de cena sem sabermos muito deles, como é o caso do casal Juan e Teresa, já que foram referências essenciais na vida do protagonista, o que é uma pena.

O excesso de 8 indicações ao Oscar talvez tenha sido mais pela surpresa sobre o tema do filme (que costuma agradar a banca de críticos) e pela Academia não ter encontrado outros favoritos no seu atual falso engajamento de tentar quebrar as barreiras raciais que historicamente a acompanha.

Um belo feito, de qualquer forma, mas ainda demonstra que o cinema tem de parar de só abrir janelas, mas escancarar portas e derrubar muros aos negros no cenário artístico para que as escolhas sejam feitas não por falta de opção, mas por excesso dela.

CONCLUSÃO...
Embora algo comedido e que não demonstre ter a mesma coragem que seu protagonista, ainda sim é uma bela história contada, mesmo que de maneira um tanto superficial, sobre a trajetória de um personagem verdadeiro, um exemplo de diversos Chirons espalhados pelo mundo, ignorados e pouco compreendidos, e que fazem suas próprias descobertas a grandes tropeços rumo a maturidade.

sábado, 21 de novembro de 2015

BACK TO BASICS...

★★★★★★
Título: 007 Contra Spectre (Spectre)
Ano: 2015
Gênero: Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Sam Mendes
Elenco: Daniel Craig, Christoph Waltz, Ralph Fiennes, Naomi Harris, Lea Seydoux, Monica Belucci
País: Reino Unido, Estados Unidos
Duração: 148 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma organização terrorista espalhada pelo mundo faz 007 ter que confrontar seu maior desafio: o passado.

O QUE TENHO A DIZER...
A era de Daniel Craig deu uma renovada na série 007 além do profundo suspiro de novidade pra quem é fã (ou também pra quem não era). Ninguém imaginava em 2005/06 que Craig daria conta do recado como o agente britânico. Pelo contrário, imaginavam que ele não duraria mais que um filme, ou dois. Depois que Casino Royale (2006) foi lançado, até os "fãs xiitas" que criticaram a escolha do ator abaixaram as orelhas e aceitaram que, indiscutivelmente, a escolha havia sido certeira.

Craig não é bonito ou charmoso como Roger Moore ou Sean Connery, mas é expressivo, além do porte físico enganoso que, quando mascarado no smoking, aparenta ser um mirrado agente, e fora dele mostra que o porte atlético não é algo meramente estético, mas porque é um ágil combatente corpo a corpo, um perseguidor voraz, uma máquina humana bruta a favor de sua majestade.

Foi diferente de tudo aquilo que os 007's anteriores foram porque Bond não é mais mais um cara cheio de aparatos tecnológicos, mas um cara que consegue encarar a morte de frente e ainda surrá-la com suas próprias mãos. Foi como dar a Bond uma injeção de Jason Bourne, mas sem descaracterizá-lo.

Funcionou.

Depois de Casino a expectativa por Quantum Of Solace (2008) foi estrondosa, o que atrapalhou muito o desempenho do filme e também a compreensão do público de que ele era uma continuação direta de Casino, algo que nunca aconteceu na franquia que sempre tratou de suas continuações como filmes individuais.

Para a maioria das pessoas, Quantum falhou feio nas sequências de ação e na falta de um vilão realmente marcante. A proposta principal era dar maior ênfase às consequências psicológicas e ao abismo obscuro no qual o agente mergulhou depois da morte de Vesper Lynd. Esse foi um dos grandes méritos do filme e o mais ignorado pelo grande público, o que acabou assassinando a idéia da era Craig ser originalmente uma trilogia.

Por conta disso, a dúvida sobre o ator permanecer no papel voltou a pairar e os rumos da série ficaram incertos outra vez. Os produtores afirmaram categoricamente que Craig seria mantido, mas que a franquia voltaria a tomar novos rumos e a ter o formato de antes, ou seja, os filmes futuros não teriam mais qualquer conexão com os anteriores. E assim foi feito em Skyfall (2012), um dos mais elogiados e bem sucedidos filmes não apenas da nova safra, mas de toda a franquia. E embora ele seja recheado de referências, não há qualquer citação sobre Casino ou Quantum.

O diretor Sam Mendes, juntamente com os roteiristas, conseguiram levar o filme para outro nível e gênero. Repaginaram a série, ignoraram fatos anteriores e deram outra vez um ar de reboot na franquia. Deixou de ser simplesmente um filme de ação para se tornar um thriller psicológico denso e crescente que Quantum não conseguiu ser. Apresentando um personagem mais velhoe cansado, Bond se sentiu forçado a deixar a truculência de lado para abraçar o lado mais tático, menos impulsivo e tempestivo dos dois filmes anteriores. As limitações físicas que agora ele apresentava o obrigaram a deixar de ser um agente solitário e a confiar em uma equipe tal qual o que aconteceu com Ethan Hunt em Protocolo Fantasma (2011) ou com Batman, na série Cavaleiro das Trevas. Lançado no mesmo ano em que a franquia completaria 50 anos, Skyfall é um delírio de referências e já um clássico na série.

Óbvio que a expectativa por Spectre seria tão grande quanto foi por Quantum, tanto que Mendes foi novamente contratado como diretor, os roteiristas foram mantidos, Craig resolveu também apostar na co-produção e Sam Smith foi chamado para compor a música tema.

Só o longo plano sequência (sem cortes) que abre o filme durante um festival popular na Cidade do México já imprime bastante o estilo meticuloso de Mendes lidar com as surpresas, numa coreografia que me lembrou bastante o começo de Olhos de Serpente (Snake Eyes, 1998), de Brian De Palma, ou A Marca da Maldade (Touch Of Evil, 1958), de Orson Welles. Mas vale dizer que é a única sequência realmente ousada do diretor em todo o filme, diferente do anterior, que havia dezenas. 

Depois vem a sequência de explosões que levam Bond a cair direto em cima de um sofá, ou os absurdos acrobáticos com o helicoptero, cenas que deixam claro que Bond está novamente diferente, que o alívio cômico britâncio e sisudo, além das cenas absurdas e aceitáveis dentro do universo, tentam resgatar o delírio dos filmes mais clássicos da franquia e que sempre foram marcas registradas, mas que andavam um tanto adormecidas.

Mas é na abertura músical que a surpresa realmente acontece quando os filmes anteriores são citados em imagens como a de Vesper, dos vilões e de M.

Sim, os produtores enganaram todos muito bem, e o 24º filme não apenas é uma continuação direta de Skyfall como também a chave da era Craig e até mesmo de toda a série, como a encerrar um enorme ciclo que parecia sem fim. O resultado é que Spectre costura todos os recentes filmes, transformando-os em uma tetralogia muito bem esquematiza, dando sentido a eles e também aos quase 30 anos de James Bond no cinema. O argumento para tudo isso foi simples (claro que não irei dizer), nada muito mirabolante ou complexo, mas que funcionou no universo do espião.

Se Bond realmente existisse, poderíamos dizer que este é o seu filme mais pessoal, pois o silêncio sobre seus anos antes do Serviço Secreto finalmente é quebrado. A história demora para engatar e tudo novamente começa com Bond sendo repreendido por M devido a suas atitudes autônomas dentro do Serviço, fato de recorrência cliché, assim como também é cliché sabermos desde o começo que ele está certo. Sim, já estamos cansados dessa mesma praça e deste mesmo banco, tanto que até Bond desiste de argumentar. Mas agora o buraco é muito mais embaixo, um esquema terrorista mundial praticamente impossível de ser dissolvido, e só depois de uma hora um tanto monótona de filme é que tudo começa a tomar forma e ritmo.

Em Casino, Bond foi reapresentado como um brucutu que suava a camiseta e resolvia tudo na base da porrada, agora Bond é reapresentado em sua versão clássica, aquela em que, seja aterrisando de paraquedas no meio da rua, ou pulando de um prédio prestes a ser demolido, ele estará sempre com seu smoking impecável. E é exatamente o que acontece aqui. O personagem e o filme retomam todas as raízes clássicas. Os vilões caricatos com suas maneiras peculiares de eliminar suas vítimas, o Aston Martin equipado, o relógio multiuso para as situações extremas e o abandono da camiseta suja pela camisa engomada. Sim, o nosso Bond cresceu, e essa progressão do personagem de Casino até Spectre foi muito sutil e interessante. E é aí que o filme funciona muito bem.

Spectre está longe de superar Skyfall, podendo deixar aqueles que não esperavam uma continuação direta um pouco confusos. Para aqueles que se empolgaram com o formato bate-e-arrebenta de Bond, poderá sentir uma pontada de decepção com o retorno de Bond ao seu formato clássico, engomado e galanteador. Com um inimigo tão gigante quanto Spectre, tudo é resolvido muito simploriamente, e de complicado só fica a vida de Bond mais uma vez. As cenas de ação são bastante limitadas, dando espaço para um suspense que nunca atinge a mesma atmosfera apreensiva e naturalmente assustadora do filme anterior, o que diminui o impacto do vilão vivido por Christoph Waltz.

A cena em que Waltz aparece pela primeira vez, sob a sombra, numa crueldade de poucas palavras, consegue impactar, mas seu desenvolvimento perde a força, caindo numa caricatura quase Austin Powers. Principalmente na sequencia de tortura, em que o vilão começa a divagar sobre o procedimento até revelar sua verdadeira identidade. Tudo muito superficial, sem densidade além de um passado traumático. O engraçado é que esse tom caricato não é erro de Waltz, mas do roteiro que enfraquece porque Bond tem que lidar com tantas coisas que nem os quatro roteiristas conseguiram definir o foco.

O cliché romântico também volta com força total, além da sedução espontânea e esquecível com a personagem de Monica Belucci, que embora tenha sido uma sequência sutil e expressiva por mérito dos atores, é aleatória e fora de propósito. Depois temos Madeleine declarando seu amor por James depois de uma única tempestiva noite de amor. Tudo muito forçado, difícil de aceitar. De todas as bond girls que a série já apresentou, Madeleine pode até ser cativante nessa personalidade pseudo-frágil, duvidosa e rasa, mas a resolução da relação de ambos não foi convincente mais do que um caso do acaso. Não há uma química, uma parceria realmente impactante. Até na era Pierce Brosnam as personagens vividas por Michele Yeoh e Halle Berry, foram muito melhores e parceiras. Dessa vez parece desesperada, tanto pelo ponto de vista do personagem que sempre sofreu de solidão e agora precisa casar antes de ficar velho de vez, quanto pelo ponto de vista dos roteiristas que precisavam cativar o público com um ápice romântico na trama, um final feliz manjado e previsível para fazer jus aos clássicos e entregar para o personagem a única opção que sobrou.

De novo, não é um filme ruim, mas um filme feito às pressas, novamente pressionado pelas expectativas e pelo cronograma apertado. Ao mesmo tempo não deixa de ser, como disse um comentário que li, uma "carta de amor para toda a série", com cenas que não chegam a ser surpreendentes além da abertura sem cortes, pois todas são na verdade variantes e variáveis de filmes anteriores, apenas atualizadas, repaginadas e melhor produzidas. Não houve o mesmo cuidado e sutileza que em Skyfall porque a vontade de agora resgatar o antigo Bond é tão forte que Mendes voltou para a década de 70, realizando um filme de ação comum e repleto de absurdos que sempre fizeram parte do universo, mas que também jogaram fora, sem qualquer consideração, toda a aproximação do realismo construído por Martin Campel e Marc Forster em Casino e Quantum, respectivamente, e que funcionou tão bem.

CONCLUSÃO...
O título também reflete o que o filme é, um espectro do sucesso de Skyfall. Um filme que, sem dúvida, costura muito bem todos os últimos quatro filmes em uma tetralogia que não era esperada, ao mesmo tempo que justifica os quase 30 anos de Bond, fechando um ciclo e dando abertura para outro. Se este foi realmente o último filme de Daniel Craig, ele foi encerrado muito bem, mesmo que com falhas e superficialidade. Mas o resgate de Mendes ao mais clássico dos clássicos de Bond realmente jogaram fora todo o esforço de dar ao espião maior credibilidade com a aproximação mais realista que Casino e Quantum construíram. Apesar de tudo, dentro desses últimos quatro filmes, essa progressão de Bond da truculência ao refinamento, e esse retorno às origens (back to basics) foi bem feita e respeitosa, mas nada ousada. Apenas segura demais.

domingo, 6 de janeiro de 2013

JAMES BOND TAMBÉM ENVELHECE...

★★★★★★★★★
Título: 007: Operação Skyfall (Skyfall)
Ano: 2012
Gênero: Ação, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Sam Mendes
Elenco: Daniel Craig, Javier Bardem, Judi Dench, Ralph Fiennes, Naomi Harris, Berenice Marlohe, Albert Finney
País: Reino Unido, Estados Unidos
Duração: 124 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
James Bond morreu e um importante arquivo listando o nome de todos os agentes secretos da MI6 está livre em algum lugar. A MI6 agora é o alvo, assim como M, e os agentes estão sendo mortos um a um até que alguém apareça para impedir.

O QUE TENHO A DIZER...
Este é o 23º filme da franquia, sendo o terceiro estrelando Daniel Craig no papel do agente secreto. 2012 foi também ano de aniversário, ano em que o personagem de Ian Fleming completa 50 anos de existência, e este filme não poderia ser melhor para comemorar isso.

Após o lançamento de Um Novo Dia Para Morrer (Die Another Day, 2002), os produtores Barbara Broccoli e Michael G. Wilson, donos da EON Productions, detentora dos direitos autorais e da marca, estavam descontentes com os rumos que as adaptações estavam tomando e com as constantes críticas negativas. Isso resultou numa mudança brusca envolvendo a quebra de contrato com o ator Pierce Brosnan (ele estava contratado para quatro filmes, mas realizou apenas três) e uma total reformulação de todo o mundo envolvendo James Bond.

Almejando um caráter mais humano e realista do personagem e um filme de ação mais tático e menos tecnológico, a série sofreu um reboot completo. O até então pouco conhecido ator Daniel Craig foi contratado, e para inaugurar essa nova geração de filmes resolveram pegar uma das primeiras adaptações como ponto de partida, e assim Casino Royale (2006) ressurgiu. A idéia de reformular a série deu tanto certo que o filme foi um estrondoso sucesso de crítica e público e Daniel Craig, que a princípio não parecia uma boa escolha por não ter nenhum traço de galã romântico como seus antecessores tinham, automaticamente se tornou um dos favoritos justamente por dar essa imagem mais sisuda e psicologicamente complexa do personagem, trocando os aparatos tecnológicos e armas pela força bruta, aparentando ser um espião menos experiente e mais vulnerável, que deixou de lado o smoking para suar a camisa. Não somente isso, Casino Royale também foi responsável por mostrar como James Bond se tornou o que é após a perda de Vesper Lynd, seu primeiro grande amor depois da insuperável morte de sua segunda e última esposa, Tereza Tracy. Vesper morre durante uma viagem a Veneza, por conta da organização Quantum, o que no filme também acaba sendo uma referência direta ao passado original de Bond, já que Tracy fora assassinada durante a lua de mel numa emboscada.

Empolgados com o sucesso, Quantum Of Solace (2008) foi lançado dois anos depois, sendo uma sequencia direta de Casino Royale, o que nunca aconteceu nos filmes de Bond, além de também não ser baseado em nenhuma das obras de Ian Fleming, mostrando um lado mais perturbado e sedento por vingança do personagem, se tornando um assassino frio e corruptível, tanto que ele perde sua licença para matar. O público não aceitou muito bem, pois não soube compreender e ligar um filme ao outro e todo o processo natural pelo qual James Bond passou para adotar uma postura mais sombria. Mesmo sendo bem sucedido, não fez tanto sucesso como o anterior e as críticas foram mistas, e mais uma vez os produtores resolveram repensar nos rumos que o espião teria nos filmes seguintes. Isso colocou novamente em dúvida se Daniel Craig seria substituído ou não, mas posteriormente isso mostrou ser apenas boato da mídia e em 2010 a pré-produção de Skyfall teve início. O lançamento então foi agendado para 2012 para coincidir com o 50º aniversário do personagem.

Os produtores afirmaram categoricamente que, embora ele tenha diversas referências de filmes anteriores para homenagear o meio século de vida de Bond, Skyfall é uma história independente e não é uma sequência das histórias desenvolvidas em Casino Royale e Quantum Of Solace. Eles afirmaram também que os filmes de Bond não serão mais sequenciais como na tentativa desenvolvida nos dois filmes anteriores, embora a possibilidade de Skyfall ser a primeira parte de uma trilogia não esteja descartada.

A história dessa vez envolve diretamente os erros humanos dentro da MI6, quando um hard drive da organização é roubado contendo uma lista com o nome e perfil de todos os agentes secretos infiltrados em organizações terroristas, colocando não apenas a vida de todos em risco, mas de todo o serviço secreto britânico naquilo considerado como o maior vazamento de segurança nacional já ocorrido. Durante a busca pela lista, a companheira de campo de Bond, Eve (e que posteriormente vem a ser uma grande surpresa), por pressões de M, erra o alvo e acerta Bond com um tiro letal. Com o tiro, o agente cai em um rio e desaparece, sendo tido como morto. Junto a isso, M sofre pressões políticas para se aposentar forçadamente, e os atentados contra a MI6 e seus agentes começa. Percebendo que todos se tornaram alvos, Bond ressurge para caçar e interromper uma sequencia de eventos desastrosos.

É claro que indiretamente podemos dizer que Skyfall é novamente um "novo reinício", e esse novo reboot de certa forma acaba coincidindo alguns fatos com demais outras franquias que passaram por isso, como o ocorrido em Batman, quando o Cavaleiro das Trevas ressurge após um longo período desaparecido, fora de forma e destreinado, ou Missão Impossível, quando Ethan Hunt agora trabalha com uma grande e nova equipe, além de ter que lidar com os problemas da idade.

Um dos grandes fatores positivos da série é essa articulação de se transformar e se adaptar aos novos tempos e audiências, e essa característica mais realista dada ao personagem foi fundamental para isso. Desde o primeiro filme com Daniel Craig, o espião agora não é mais um galã invencível, ele é um homem de carne e osso que se machuca, sangra e sofre com o avançar da idade. Dessa vez Bond está destreinado, fora de forma (nem tanto assim) e sem resistência, que agora erra alvos e precisa de ajuda para cumprir missões. Bond se aproximou bastante de Ethan Hunt em Missão Impossível: Protocolo Fantasma (MI: Ghost Protocol, 2011), um herói que agora, mais velho, perdeu certas habilidades e comete erros. Essa proximidade entre esses dois personagens e aquilo que suas franquias se transformaram é exatamente o que os filmes de ação estavam precisando para quebrar um pouco os clichês e suas ordens, além de brincar um pouco com a realidade, assim como quando mostraram que Bruce Wayne sofre de artrose nos joelhos.

Por conta disso, essa questão idade X capacidade vem sendo recorrente nos últimos filmes, como uma forma de ironizar os diferentes tempos. Mas nesse filme isso se tornou mais enfático e é citado o tempo todo, seja de forma direta, ou indireta em piadinhas internas que confrontam o antigo com o novo, já que agora James Bond finalmente envelheceu e não tem mais as habilidades e reflexos de outrora, além de também estar tendo que lidar com as mudanças do mundo moderno e as substituições de sua equipe por outros mais novos, já que todos envelheceram junto com ele. Isso tudo é sentido desde a trilha sonora de Thomans Newman, que introduz o eletrônico em um trabalho que sempre foi mais clássico e tradicional, até nas próprias atuações de Daniel Craig e Judi Dench, que vira e mexe lancetam aquele olhar já cansado, de que o corpo não mais aguenta tanta demanda.

A direção de Sam Mendes também é algo à parte, e digamos que perfeccionista. Sem dúvida um acréscimo tão importante quanto o de Martin Campbell e Marc Forster nos dois filmes anteriores. Quem conhece os demais filmes do diretor já está familiarizado com a maneira sucinta como ele gosta de trabalhar. Os diálogos sem muitos cortes, a ausência de cenas e situações desnecessárias, sendo direto e focado dentro de tomadas longas e planos sempre amplos, nada muito fechado ou limitado, mas também nada muito ousado ou moderno demais, tudo dentro do meio termo esperado e que é fluido e coerente com todo o resto em duas horas de filme que passa sem ser notado.

Outro grande diferencial na série e também uma excelente novidade é que o filme não se desenvolve inteiramente em cenas de ação ou perseguições elaboradas como nos anteriores, dessa vez tudo parece ser mais simples, mas muito mais tenso, que cresce em um suspense um tanto inédito numa franquia baseada inteiramente na ação. Isso também é graças ao desenvolvimento bem construído de todas as tramas paralelas que se desenvolvem, além de obviamente incluir Javier Barden como o vilão. Ele faz Silva, um ex-agente 00 que alimenta profundos rancores de M e suas determinações que quase custaram sua vida.

O cinema voltou a produzir grandes vilões. Depois do Coronel Hans Landa, de Christopher Waltz em Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009), os vilões passaram a ter uma maior profundidade psicológica e perversa dividida em diversas camadas numa sexualidade discutível. Silva é um híbrido de gentileza e monstruosidade tal qual o personagem de Christopher Waltz, ou de Guy Pearce em Os Infratores (Lawless, 2012), mas mesmo sendo parecidos esses personagens se diferem pelos tons e maneirismos desenvolvidos com naturalidade pelos atores, sendo assustadores por serem convincentes. Não é à toa que Javier Barden está fortemente cogitado ao Oscar de Coadjuvante, pois o vilão que ele desenvolveu é tão assustador quanto o que ele criou em Onde Os Fracos Não Tem Vez (No Country For Old Man, 2007).

CONCLUSÃO...
Em termos de ação, ainda considero Casino Royale um grande filme, mas Skyfall se provou o melhor de toda a franquia por ser uma junção de excelentes fatores positivos e que crescem incansavelmente durante todo o filme. Definitivamente a nova safra de filmes do espião tem melhorado a cada novo episódio e embora seja um gênero de ação fictício, esses elementos mais realistas tem humanizado o personagem cada vez mais, o que tem deixado Bond não apenas mais carismático, mas algo mais próximo do verdadeiro.
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