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quinta-feira, 26 de junho de 2014

POR QUE ELA MERECE VOLTAR?

★★★★★★★★★
Título: The Comeback
Ano: 2005
Gênero: Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Michael Patrick King
Elenco: Lisa Kudrow, Damian Young, Malin Akerman, Robert Bagnell, Lance Barber, Laura Silverman, Bayne Gibby
País: Estados Unidos
Duração: 25 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Valerie Cherish quer a todo custo reconquistar o sucesso depois de uma carreira morta há 15 anos.

O QUE TENHO A DIZER...
The Comeback foi um seriado criado, escrito e produzido por Michael Patrick King e Lisa Kudrow. Michael foi diretor, roteirista e produtor de Sex And The City, e Lisa foi estrela de Friends. O seriado foi lançado no canal HBO um ano após o término desses dois enormes sucessos, além de o primeiro e único na história da HBO a ser cancelado logo na primeira temporada. A explicação dada foi os baixos índices de audiência, já que a emissora havia tido três grandes sucessos consecutivos (Six Feet Under, Sex And The City e Os Sopranos). A princípio recebeu opiniões mistas, mas depois que o seriado finalmente engatou e voltou a chamar atenção ao concorrer a três Emmys, os críticos e o público resolveram dar uma segunda chance e analisar o seriado com mais calma. Foi então que, em 2012, a Entertainment Weekly o listou entre os 10 melhores seriados dos últimos dez anos, além de colocá-lo na posição 75 na lista de novos clássicos, o que novamente chamou atenção do novo público e praticamente virou uma campanha bastante atrasada para seu retorno.

Por conta da curiosidade tardia do público, The Comeback foi um dos raros casos em que o sucesso posterior foi maior do que durante sua exibição original, tanto em venda de DVDs como nas exibições "on demand" da HBO. Após a divulgação da Entertainment Weekly, ainda em 2012, a Writers Guild Foundation convidou Lisa Kudrow e Michael Patrick para darem uma coletiva de mais de duas horas a escritores e estudantes para falarem sobre o seriado e todo o processo criativo no desenvolvimento dos roteiros, uma entrevista bastante esclarecedora sobre como tudo começou, como o seu cancelamento pegou todos de surpresa e como todos ainda lamentam seu cancelamento (é possível assistir essa coletiva em duas partes: PARTE 1 e PARTE 2). Mas em Abril de 2014 a HBO novamente pegou todos de surpresa ao finalmente concordar com seu erro e aceitar a campanha ao anunciar o retorno do seriado para mais uma única e curta temporada de apenas seis episódios, que agora se passará 10 anos depois dos episódios originais. Segundo o canal, o seriado poderá ou não ser renovado conforme a repercursão do retorno.

O enredo central da primeira temporada foi mostrar a tragetória e tentativa da atriz Valerie Cherish em voltar aos holofotes depois de uma carreira morta há 15 anos. Agora a emissora de seu primeiro e único sucesso, sem gandes idéias, a escolheu para estrelar o reality The Comeback ao mesmo tempo em que ela também é coadjuvante de uma nova sitcom da mesma emissora chamada Room & Bored, na qual ela foi escalada apenas para servir como ponte para o lançamento de seu show. Embora 15 anos tenha se passado, Valerie não sente isso. Ela ainda acredita ser famosa e reconhecida pelo seu primeiro e único sucesso, e que a exploração de sua imagem é para dar crédito a emissora, quando na verdade a emissora quer apenas dar continuidade a produções baratas, descartáveis e de rápido retorno. Esse egocentrismo e falta de percepção da realidade é o que vai complicar todo o processo de Valerie, transformando seu trabalho naquilo que será chamado pelo produtor de "show do ódio", já que será uma guerra entre ela, os produtores e, principalmente, os roteiristas da sitcom, ganhadores de um Emmy que não conseguem aceitar o fato de estarem perdendo espaço no mercado por causa de reality shows.

Ao contrário do que muita gente pensou na época, The Comeback não foi uma tentativa de Kudrow catapultar sua carreira solo como tentaram a todo custo seus outros colegas de Friends, e muito menos seria uma sátira sobre ela mesma, como muitos julgaram a partir de seu título e do seu inicial fracasso. Kudrow já tinha a personagem em mente cuja idéia surgiu depois de assistir alguns episódios humilhantes da segunda temporada de Amazing Race, em que os participantes vomitavam e choravam em frente a câmera em rede nacional, além da inspiração também ter surgido de programas como The Osbournes e do surreal The Ana Nicole Smith Show, o qual ela afirma não entender como conseguiu assisti-lo. Foi então que, em um almoço com Michael Patrick, ela comentou sobre sua idéia. Muito embora ela não tivesse interesses em retornar para uma sitcom tão cedo e Michael também não estava procurando algo novo para trabalhar depois dos exaustivos anos de Sex And The City, ele se empolgou com a idéia, e ela se empolgou tanto com a empolgação dele, que o almoço, que era pra ser apenas um encontro sem pretensões, se transformou em uma reunião de negócios, e quatro horas depois a idéia de quase todo o seriado estava pronta. Segundo Lisa, houve uma química tão imediata de idéias que ela não consegue imaginar outra pessoa para ter trabalhado com ela neste projeto além dele.

Lisa e Michael desenvolveram os personagens e as histórias, mas foi Michael quem escreveu o piloto em apenas três semanas. Segundo afirmação dada por eles mesmos, embora as filmagens aparentem ser improvisadas, tudo estava em roteiro, desde mínimas ações, como um tropeço, até as maiores, como os diálogos. Lisa afirmou que os diálogos de Valerie eram improvisados apenas durante o desenvolvimento dos roteiros, mas nunca durante as filmagens. Ela se encontrava com Michael, encarnava a personagem e simplesmente despejava os diálogos e situações enquanto ele redigia. Michael disse que esse era sempre um dos momentos mais difíceis porque ele queria captar a maior quantidade de informações possíveis, mas seus dedos não conseguiam acompanhar a velocidade de criação espontânea que ela tem. Depois que os diálogos improvisados de Valerie estavam redigidos, eles eram encaixados e trabalhados em suas devidas situações.

Quando levaram a idéia aos chefões da HBO, boa parte de toda a primeira temporada já estava pronta. Ele afirmou na coletiva dada a Writers Guild Foundation que, a princípio, ninguém havia entendido a idéia do seriado, e que ele usou suas influências adquiridas com o sucesso de Sex And The City para convencê-los de que a idéia valeria a pena, e que muito do que estava no roteiro poderia não fazer sentido, mas faria depois que Lisa Kudrow representasse. O piloto foi apresentado e a emissora aprovou a produção de mais 12 episódios e o seriado teve estréia no dia 05 de Junho de 2005.

O formato parecia não chamar muito a atenção das pessoas, já que era um "mockumentary", termo dado a documentários forjados e de apelo cômico, o que levou o show a ser erroneamente comparado ao fracassado seriado desse estilo, Fat Actress, de Kirsty Alley. Para que assistir um reality falso quando havia outras dezenas de verdade? Era o que se passava na cabeça das pessoas. Mas ele não era sobre um reality show e tampouco a tentativa de imitar um, mas uma sátira sobre a decadência do show business e da indústria do entretenimento através de uma atriz fracassada disposta a tudo para retomar uma carreira, exatamente como todas as demais pessoas desesperadas por sucesso e que se submetiam a essas humilhações públicas estavam dispostas.

Uma das coisas interessantes de Valerie é que ela bloqueou completamente o fato de sua carreira ter fracassado, tanto que tudo que é citado dentro do período de 15 anos que ela estava inerte, ela não se lembra. É realmente como se ela tivesse ficado em coma profundo. Como acontece no episódio 10, em que ela comenta com seu cabeleireiro sua vontade de recontratar um antigo conhecido, e seu cabeleireiro a relembra de que ele morreu em 1994. Isso é apenas um exemplo dos divesos lapsos de memória da personagem.

Todas as situções que Valerie vivencia também é obviamente a mais brilhante e brutal sátira sobre os rumos que a televisão e seus bastidores estavam tomando (e tomaram). Os programas de realidade documentada já estavam no mercado há alguns anos, mas ainda não tinham atingido seu limite destruidor. Acredita-se até hoje que eles estão em decadência, mas eles nunca acabam. Por isso que é uma opinião praticamente unânime da crítica que uma das razões de The Comeback ter sido compreendido tardiamente foi porque ele estava a frente de seu tempo, porque muito do que ele mostrou foi o que os reality shows e a televisão mundial se transformou nos anos seguintes, pois antes eram pessoas desconhecidas sendo exploradas pelas câmeras, mas atualmente qualquer pessoa é alvo, principalmente subcelebridades ou artistas inertes que se sujeitam a explorar suas próprias vidas da maneira mais ultrajante possível para tentar transformar o sensacionalismo e a banalidade em uma oportunidade ilusória de reconquistar a fama, quando na verdade é completamente o oposto, porque a efemeridade de tudo é tão devastadora que o ponto final será novamente a decadência, mas agora com a pessoa desprovida de qualquer reputação, privacidade ou moralidade própria. Ou seja, restará um nada, como bem citaram Lisa e Michael na coletiva.

Portanto, não há como negar que o que vemos é praticamente um documentário sobre uma personagem fictícia dentro de uma realidade, pois é a experiência e a reprodução mais verossímil que poderíamos ter sobre o tema. Segundo Lisa Kudrow, nada poderia ser mais degradante na carreira de alguém estrelar um programa que clama seu retorno no próprio título porque é a confirmação de que ela já havia ido embora há muito tempo. Mas o egocentrismo, o excesso de auto afirmação, e a estagnação de Valerie no tempo a impedem completamente de enxergar a realidade atual a sua volta ou de simplesmente se satisfazer com o que lhe é oferecido. Tudo para ela nunca é bastante o suficiente. Ela nunca será uma grande estrela, mas por mais alto que ela chegue, seu objetivo estará sempre acima daquilo, e isso não é ambição, é simplesmente sua constante busca pela cura da intensa frustração de nunca ter sido, nem ao menos sequer, uma líder de torcida na adolescência.

Chega um determinado momento que compreendemos as preocupações e as vontades da protagonista, mas ela é como um caminhão sem freio em uma ladeira, que não para enquanto não se choca com alguma coisa. Há um momento muito interessante no quarto episódio em que ela discute com o produtor uma piada escrita pelos roteiristas do programa e que ela acredita não funcionar por ter um humor preconceituoso que pode denegrir sua imagem. O produtor simplesmente diz pra ela parar de se preocupar com isso, pois ele também sabe que a piada não funciona, e os roteiristas precisam saber disso pela platéia. Mas ela não para. Quando a piada não funciona com a platéia e ela novamente os questiona sobre isso, o nível de intolerância deles com Valerie já está tão alto que eles dão a ela uma fala pior e muito mais constrangedora, um "cala a boca Valerie" que ela poderia ter evitado, mas sua ansiedade e excessos a impedem de enxergar qualquer limite.

Valerie é a causa e a consequencia de seus próprios problemas e constrangimentos. Alguns escritores acreditam que protagonistas não podem ser vítimas perpétuas deles mesmos, pois serem eles mesmos a causa e a consequencia de seus problemas torna algo conflitante para quem o observa, resultando em um bloqueio de sensibilidade que anula a conexão emocional e distancia o espectador do personagem. E o espectador, ao invés de se simpatizar com os conflitos do protagonista, vai se simpatizar com a antipatia que os antagonistas tem por ele. O personagem não se torna um vilão, mas também não é um herói, vindo a ser simplesmente uma figura desconfortável, vazia e constrangedora tal qual é Valerie Cherish.

Mas nesse seriado essa personalidade tão fragmentada funciona dentro de uma coerência tão perfeita que essa noção de realidade das situações que ela vivencia aumentam microscopicamente para o espectador. Tudo finalmente se equilibra entre o personagem e o espectador quando Valerie passa a ser atacada gratuitamente e de forma ofensiva por antagonistas que reagem em excesso aos excessos dela, em um assédio constante e amoral. E então entendemos porque ela é como é, pois Valerie é, acima de tudo, ingênua demais para perceber a crueldade alheia. Ela é egocêntrica e até mesmo oportunista para suas causas próprias e autoafirmações sociais, mas passível e com um grande senso de responsabilidade e consideração que são minados o tempo todo por ela mesma devido a este conflito que ela vive entre ser o que deve ser e aquilo que acha que deve ser. A sátira de um típico produto de entretenimento. Ela não é uma pessoa ruim, e sua humanidade muitas vezes nos pega de surpresa além do que esperamos, como acontece também no episódio 10, quando ela resolve dar um de seus convites para a roteirista gorda e depressiva, ou no último episódio, quando ela impede sua empregada de organizar a mesa de jantar pois ela está lá como convidada. São em momentos como esse que as máscaras de Valerie caem e enxergamos ela como uma pessoa de verdade e, finalmente, uma vítima na qual conseguimos nos conectar.

Essa reviravolta da personagem (ou "turning point", como é o termo correto) acontece a partir do episódio 8, quando ela finalmente deixa mais explícito essas camadas mais humanas e menos plásticas, e mesmo Valerie nunca deixando de ser uma vítima perpétua de si mesma, e mesmo o espectador nunca deixando de se constranger com suas atitudes, passamos a nos sensibilizar com toda a hostilidade existente em sua volta e a compreender sua existência tão caótica, torcendo por seu sucesso, mesmo tendo a certeza absoluta de toda sua futilidade e do seu iminente fracasso.

Lisa Kudrow desempenha um papel tão fantástico que, embora a personagem seja muitas vezes caricata como a comédia e as situações exigem, são os momentos de sutileza em que ela mais brilha com pequenos gestos e olhares que fazem efervecer tudo que ela contém a todo instante. Valerie é uma personagem cômica por excelência, mas Lisa utiliza a comédia naquele real propósito de aliviar as cargas dramática e nos preparar para absorver sua penosa realidade. Os méritos da atriz não estão apenas em sua atuação, mas também como uma artista criativa que conseguiu captar todas essas nuances da realidade do entretenimento e reproduzi-los em cada um dos personagens, sendo Valerie o centro de toda essa ostentada bagunça. Bato sempre na tecla em afirmar que ela não é apenas uma comediante, como demonstrou em Friends, mas uma impressionante humorista que cria personagens originais como Valerie ou Fiona Wallice, de seu seriado posterior Web Therapy, outra genial idéia. Não há dúvidas também de que Valerie se transformou em uma referência, tanto que em 2011, com o seriado Enlightened, também da HBO, a personalidade desastrosa da personagem Amy Jellicoe e sua também perpétua vitimização de si mesma em um incansável efeito dominó constragedor, chegou a ser comparada com a de Valerie.

Se os seis novos episódios serão suficientes para o cômico drama de Valerie Cherish, isso não podemos saber. A única certeza é que, mesmo tardio, esse reconhecimento é mais que necessário, é uma obrigação àqueles que veem a comédia como algo sério e muito mais do que piadas prontas para risadas automáticas e vazias.

CONCLUSÃO...
Não há dúvidas de que ele é um dos melhores seriados dos últimos 10 ou 20 anos, uma experiência de comédia satírica bastante diferente do que era produzido na época e ainda assim atual, mesmo que 9 anos tenham se passado.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

MAIS PRA EFEITO TARTARUGA DO QUE BORBOLETA...

★★★★
Nota:
Título: Questão de Tempo (About Time)
Ano: 2013
Gênero: Comédia, Romance
Classificação: 14 anos
Direção: Richard Curtis
Elenco: Rachel McAdams, Domhnall Gleeson, Bill Nighy
País: Reino Unido
Duração: 123 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um jovem descobre sua habilidade para viajar no tempo.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme tem roteiro e também é dirigido por Richard Curtis, o mesmo roteirista de pérolas da comédia romântica como Um Lugar Chamado Notting Hill (Notting Hill, 1999) e Quatro Casamentos e Um Funeral (Four Weddings And A Funeral, 1994), além dele também ser, juntamente com o ator Rowan Atkinson, o criador e roteirista dos episódios e dos filmes do Mr. Bean. É também por curiosidade o segundo filme de Rachel McAdams com viagem no tempo, o primeiro foi Te Amarei Para Sempre (The Time Traveler's Wife, 2009), muito melhor por sinal.

A história gira em torno de Tim, um rapaz tímido que não consegue ter muita atitude, principalmente quando isso está relacionado a mulheres. Ele descobre por seu pai que faz parte de uma família onde os homens possuem o dom de viajar no tempo, e cujo "poder" tende a se manifestar aos 21 anos. O pai de Tim conta esta inacreditável surpresa e ele recebe como uma piada, mas logo em seguida faz um teste e... kabum! Lá está ele no último momento que lembra se arrepender por não ter tomado uma atitude decente. Ele fica maravilhado com a descoberta e dali pra frente nada mais poderia dar errado em sua vida, já que ele teria a oportunidade de consertar toda vez que isso acontecer. E é isso o que ele vai fazer para conquistar Mary, uma jovem que ele conheceu em uma noite, mas que pela necessidade de uma viagem ao passado e outro e sua inexperiência no assunto, ele perde a oportunidade de encontrá-la novamente no mesmo lugar.

E o filme é basicamente isso, idas e vindas ao passado do personagem principal para evitar situações, consertar outras e ajudar amigos ou familiares que precisam. O problema aparece quando ele descobre sozinho que nem sempre é possível o resultado esperado, e o efeito borboleta desastroso é inevitável caso ele volte ao tempo antes de algumas situações chaves (como, por exemplo, o dia da concepção de sua primeira filha), não havendo possibilidades de conserto.

Teria tudo pra ser uma comédia romântica bonitinha e com pitadas sinceras de drama familiar. Você tem a simpatia do ator Domhnall Gleeson, que não é bonito e nem feio, mas sua esquisitice consegue ter um charme particular; tem a graciosidade de Rachel McCadams, mas que é bem coadjuvante no pior filme de sua carreira; e tem Bill Nighy com muita vontade de fazer o filme dar certo. Histórias com viagem no tempo são complicadas, e qualquer derrapada pode se transformar em um terrível acidente. A história se divide basicamente duas partes, a primeira que gira em torno da tentativa do personagem conquistar seu amor, e a segunda sobre as descobertas do personagem e suas tentativas de evitar que a sua família sofra com decisões erradas tomadas em algum passado. E é aí onde tudo desanda.

Tudo perde o foco quando passa a ter muitas explicações sobre as consequencias de se mexer com o passado, o que teria dado certo caso não fossem feitas tão em cima da hora ao espectador porque soa como uma tentativa de consertar buracos do roteiro. Há também erros de continuidade bem explícitos entre suas idas e vindas e que nem as mais lentas das pessoas deixarão de notar, como por exemplo, ele entrar em seu guarda roupa para viajar no tempo, e ao fazer isso ele ainda estar dentro do guarda roupa e não dentro do momento ou da situação. Então onde ele estaria para as demais pessoas naquele determinado momento e situação? Ele simplesmente teria sumido de perto delas do tipo "desculpe, evaporei mas já voltei"? Chega a ser bizarro. Tem também uma descartável e desnecessária sequencia que ele tenta levar sua irmã ao passado junto com ele, o que não convence mesmo dentro da fantasia, e no fim das contas não acrescenta absolutamente nada no desenvolvimento.

Tem algumas cenas engraçadas aqui e alí, todos os personagens são gente boa e o roteiro dá até oportunidade para uma moral bonita sobre o carpe diem (aproveitar o momento), sobre a vida ser passageira, sobre a construção da família e toda essa consciência que temos que ter para lidar com as situações inevitáveis nas quais estamos todos vulneráveis. Mas esses questionamentos mais sentimentais, sinceros e verdadeiros do filme só acontecem na virada final dos últimos 30 minutos, em lágrimas que poderiam ter escorrido mais cedo se não tivessem enrolado com tanta besteira ou outras situações dramáticas banais, muito mais pra efeito tartaruga do que borboleta nas longas duas horas.

CONCLUSÃO...
Enfim, embora falei até muito sobre o filme, a verdade é quem valia ter falado tanto. Filme dispensável, para ser visto em alguma madrugada sem sono quando for exibido por algum canal aberto.

sábado, 14 de junho de 2014

MENOS PODERIA SER MAIS...

★★★★★★★
Título: Em Segredo (In Secret)
Ano: 2013
Gênero: Drama, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Charlie Stratton
Elenco: Elizabeth Olsen, Jessica Lange, Tom Felton, Oscar Isaac
País: Estados Unidos
Duração: 107 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Therese é casada com seu primo, filho de sua tia, irmã de seu pai. Ela vive infeliz amorosa e sexualmente até conhecer Laurent, amigo de infância de seu marido.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é dirigido e escrito por Charlie Stratton, sendo esta sua estréia em longas metragens, e baseado no livro Thérèse Raquin (1897), de Émile Zola. A obra foi repudiada pela crítica da época devido a seus elementos naturalistas, estilo que radicaliza ainda mais o realismo, abordando temas verdadeiros e recorrentes - porém ocultos - na sociedade, como o sexo, a loucura, o concubinato, e demais outros em que os personagens fossem dominados por instintos e desejos naturais de forma erotizada, agressiva e até mesmo violenta.

Portanto, a história tanto do livro quanto do filme vai se desenvolver em torno da personagem princial, chamada Thereze (Elizabeth Olsen), que foi deixada por seu pai, ainda menina, aos cuidados de sua tia paterna (Jessica Lange). Seu pai a deixou com uma determinada quantia de dinheiro destinada apenas a ela caso necessário. Ela cresceu cuidando de seu primo doente, Camille (Tom Felton), e auxiliando sua tia nos deveres domésticos até atingir a maioridade e aceitar o fato de que seu pai nunca mais voltaria. Sua tia então decide casá-la com seu primo, para que o dote deixado pelo pai de Thereze possa ser usurpado por eles. Eles se mudam para Paris, e seu casamento entediante e infeliz a afunda cada vez mais em uma grande frustração amorosa e sexual até conhecer Laurant (Oscar Isaac), amigo de infância de Camille. Obviamente ambos se tornam amantes e as coisas tendem a complicar quando decidem por fim à vida de Camille para darem continuidade ao romance proibido.

Embora a tentativa seja válida, o filme ainda sofre de grandes problemas comuns de adaptações literarias, principalmente quando estas são de clássicos como esse. Mas ao contrário do que se pode imaginar, nesse filme os problemas não são nem pela falta, mas pelo excesso. Mesmo que a narrativa tente muitas vezes ser bem construída e o desenvolvimento de toda a trama até convincente, se não soubessemos que se trata de uma adaptação de uma obra naturalista de Zola dificilmente nos atentaríamos às características do estilo, e isso acontece principalmente pela falta de uma abordagem com mais nuances e delicadezas por parte do diretor.

A literatura naturalista exige que as ações sejam cruas e diretas, mas essa reprodução exata em uma adaptação cinematográfica chega a ser até abusiva e incoerente já que uma mínima ação se torna grande demais na lente de uma câmera, inumeras vezes maior do que uma sucinta frase em um livro. O diretor segue à risca o estilo na adaptação, mas sua falta de sutileza na construção das cenas oferece um resultado mais forçado do que verdadeiramente real, como o estilo pede. Isso faz com que, de uma adaptação de um clássico sobre uma época específica, o filme se torne contemporâneo como qualquer outro, chegando a causar um impacto menos verdadeiro até mesmo quando comparado a filmes como Infidelidade (Unfaithful, 2002), ou a adaptação da obra de Graham Greene, Fim de Caso (The End Of The Affair, 1999), filmes contemporâneos, mas que abusam da sutileza mais clássica para desenvolver um clima realista e que convença de fato o espectador sobre aquilo que é narrado.

Os diálogos são curtos e diretos, e os personagens definitivamente são produtos do meio em que vivem. Todos são evidentemente figuras que se enquadram dentro do microcosmo social exigido pelo estilo, mas as relações de interesse apenas são explícitas entre Therese, sua tia e Laurant. Observamos a tentativa de sobrevivência dos mais fortes e a opressão dos mais fracos, mas uma das cenas mais interessantes é quando todo o fervor sexual entre os personagens é interrompido por Madame Raquin que pergunta se o barulho que ela ouve é novamente o gato tossindo as bolas de pelo, que, propositalmente ou não por parte do diretor e roteirista, é a referência direta àquilo conhecido como animalização dos personagens, pois são eles agindo na sua forma mais primitiva e instintiva, outra importantíssima característica do estilo.

No livro, o interesse de Laurant por Thereze a princípio é apenas por ele não ter dinheiro para pagar prostitutas (o que não fica claro no filme) e a idéia de matar Camille partiu da própria Therese, e não de Laurant. Mas essas sutis mudanças não pesam muito na trama pois foram bem balanceadas e o grau de vitimização da personagem se mantém o mesmo.

Portanto, mesmo o diretor ter pecado na falta de sutileza, impedindo o espectador de ser convencido da realidade de toda a situação (que é um dos elementos principais do estilo naturalista), consegue ser uma adaptação enxuta e atenta a demais outros detalhes que demonstram os grandes interesses do diretor e roteirista em tentar transpor para a tela um estilo que, mesmo clássico, não envelhece ao tempo, mas também não cabe ter uma linguagem moderna demais.

Não dá pra deixar de notar o talento crescente de Elizabeth Olsen (irmã das sem-talento gêmeas Mary-Kate e Ashley Olsen), que ganhou destaque com o independente Martha, Marcy, May, Marlene (2011) e aos poucos demonstra ser uma das mais importantes de sua geração.

CONCLUSÃO...
Um filme tenso, mas que mesmo baseado em uma obra naturalista e com muitas das características, está longe de ser considerado um filme desse estilo, muito disso por falta da sutileza do diretor e na sua falta de habilidade em manipular essas características, deixando o filme muito mais moderno do que uma adaptação de uma época específica de um clássico, a velha história de que, neste caso, menos poderia seria mais.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

DIFÍCIL...

★★★★★★
Título: The Double
Ano: 2013
Gênero: Suspense, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Richard Ayoade
Elenco: Jesse Eisenberg, Mia Wasikowska, Wallace Shawn
País: Reino Unido
Duração: 2013

SOBRE O QUE É O FILME?
A vida de um comum trabalhador vira do avesso quando ele encontra uma pessoa exatamente idêntica a ele, porém com uma personalidade totalmente contrária e tudo aquilo que ele gostaria de ser.

O QUE TENHO A DIZER...
The Double (ainda sem título em português) é o segundo filme dirigido pelo jovem britânico Richard Ayoade, que anteriormente dirigiu o excelente Submarino (Submarine, 2010) e que curiosamente tem como um dos produtores o ator Michael Cane. Mas ao contrário de seu primeiro longa de narrativa linear inteligente e do humor negro classudo de fácil absorção, aqui ele foge da narrativa clássica, muito embora a estética esteja muito presente e referências a diretores como Terry Gillian e David Lynch estão sendo inevitáveis tanto por aqueles que adoraram quanto pelos que odiaram.

Por uma razão desconhecida, o filme tem recebido críticas positivas em sua maioria. Foi originalmente lançado em Setembro de 2013 no Festival de Toronto, e terá lançamento em mercado norteamericano este ano. Tem sido promovido com um suspense com teores de humor negro, mas esse humor negro difícilmente vai ser notado ou apreciado pela maioria.

Conta a história de Simon, um rapaz tímido, condescendente e genuinamente bondoso, que trabalha em uma empresa há sete anos, mas seus esforços nunca foram notados, muito menos sua presença. Como se nada disso bastasse na sua vida, há uma inexplicável capacidade natural de tudo dar errado a sua volta, e sua vida vira de ponta cabeça quando James é contratado para trabalhar no mesmo setor. James é um sósia idêntico de Simon, mas ninguém nota isso, pois para todos Simon nem ao menos existe, nem mesmo aos sensores do elevador. Simon fica fascinado com a eloquencia, autoconfiança e desenvoltura de James, pois enxerga no colega tudo aquilo que ele não tem coragem de ser. Isso leva a ambos desenvolverem uma relação de amizade que se transforma em guerra quando Simon percebe que James está tomando um lugar que ele nunca teve.

O filme é baseado no livro homônimo de Fyodor Dostoyevsky, que obviamente conta uma história similar conhecida por utilizar o mito do doppelganger, uma palavra de origem alemã que significa muito mais do que apenas "sósia" ou "dublê" na língua portuguesa, mas uma pessoa exatamente igual a outra, como um clone, mas sem qualquer origem genética. Na mitologia essa figura pode ser vista como uma pessoa fisica e espiritualmente idêntica como também um alter ego, ou seja, com uma personalidade distinta, geralmente aquela almejada pela pessoa, mas nunca conquistada de maneira consciente. Em algumas outras culturas ele é visto como uma versão demoníaca de si mesmo.

Embora essa adaptação seja uma projeto ousado do diretor, fica difícil analisá-la de forma contundente pelo fato da obra de Dostoyevsky não ser amplamente conhecida, embora bastante referenciada e controversa, já que é possível encontrar diferentes linhas de pensamento sobre ela. Alguns acreditam que o personagem do livro sofre de esquizofrenia, outros acreditam que seja um alter ego do personagem principal que está em busca de sua verdadeira identidade que é ou não oprimida pela burocracia sufocante em que vive.

A partir dessas características e controversias sobre a obra literária toda a situação em volta do personagem principal no filme é construída, bem como a ascenção de James sobre os méritos de Simon, ao ponto de Simon chegar a sua quase autodestruição e inexistência. Não há como deixar de notar James como um alter ego do personagem, assim como foi Tyler Durden em Clube da Luta (Fight Club, 1999). Em muitas outras sequencias também ficamos na dúvida se tudo o que acontece é consequencia de um surto esquizofrênico do personagem que não aguenta mais toda a opressão a sua volta, ou também aquilo que pode ser chamado pela psiquiatria de heautoscopia, também uma alucinação, em que a pessoa enxerga a mesma imagem de si como um espelho, porém de forma distorcida ou não. O que acontece com James também pode ser simplesmente uma mistura de tudo isso, o que é muito mais provável, já que o diretor e roteirista não consegue dar uma definição muito clara para qual linha de pensamento ele quer levar seus personagens.

Não é um filme fácil e há muito tempo não assistia uma narrativa complexa assim desde Possuídos (Bug, 2006), com divagações psicoanalíticas e sociais puxadas para esse teor surreal e discutível. Como disse, é um projeto ousado do diretor Ayoade e foge completamente da beleza e delicadeza narrativa de seu filme anterior, e muito embora ele se bem suceda na construção do personagem e em mostrar que ele é alguém muito frágil para suportar sua própria significância, ou de mostrar sua incrível capacidade de tolerar tudo, menos ele mesmo, porque a existência de James cria o dilema dele aceitar tudo em silêncio ou finalmente resolver mudar e se adaptar, a qualidade final do roteiro fica questionável quando não encontramos nenhum ponto realmente esclarecedor sobre quem ou o que tudo isso realmente significa. É um alter ego? É uma figura resultante de uma esquizofrenia? É um extraterrestre? É alguma outra coisa qualquer? É tudo isso ou nada disso?

Claro que não há como negar suas qualidades, como as já ditas sobre o desenvolvimento dos personagens, a fotografia e os enquadramentos incríveis que remetem uma década de 60 que ao mesmo tempo não se encaixa nessa época, como um mundo paralelo frio e inquieto. A trilha sonora sem dúvida é o grande destaque não apenas ao utilizar um repertório asiático antigo, mas também por fazer sons ambientes também virarem melodias inusitadas em uma similaridade ao de Bjork no filme Dançando no Escuro (Dancer In The Dark, 2000), criando o clima denso e até sombrio por muitas vezes. A atuação de Jesse Eisenberg é propositalmente coreografada e contida como Simon e explosiva como James e essa versatilidade do ator realmente dá outra dimensão nos momentos em que ele contracena com ele mesmo.

Existem tantas questões que surgem quando o filme acaba que desistimos dessa masturbação mental para simplesmente não cair na possibilidade de entrar em um mar sem respostas, e no fim das contas tudo aparenta ser apenas mais um daqueles filmes bem construídos, que rodam e rodam pra deixar o espectador tonto e com vergonha de dizer que entendeu e não saber explicar, ou ficar com vergonha de dizer que nada entendeu e ser taxado de ignorante por quem faz pose de intelectual. Tudo pode fazer muito sentido na cabeça do diretor, mas acho até desrespeitoso abranger tantas possibilidades sem haver uma conclusão coerente, como que jogar a batata quente na mão do espectador. Independente disso, as críticas e as ironias estão lá, e essas são relevantes e consideráveis acima de qualquer coisa.

CONCLUSÃO...
Bem feito, construído e atuado, com uma trilha sonora bastante inusitada e impactante, um filme que talvez consiga até surpreender em vários aspectos, mas vai deixar muita gente com uma interrogação na testa por não dar uma clareza ou um ponto determinante para encontrar um denomidador comum. Mas independente disso, as críticas sobre o ser e não ser estão lá.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

SINGER CONSEGUE SAIR PELA TANGENTE...

★★★★★★★
Título: X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido (X-Men: Days Of Future Past)
Ano: 2014
Gênero: Ação
Classificação: 12 anos
Direção: Bryan Singer
Elenco: James McAvoy, Hugh Jackman, Jennifer Lawrence, Michael Fassbender, Ian McKellen, Patrick Stuart, Ellen Page
País: Estados Unidos
Duração: 131 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Wolverine é enviado de volta para a década de 70 para impedir um assassinato que será responsável por dizimar todos os mutantes no futuro.

O QUE TENHO A DIZER...
Há 51 anos atrás a primeira edição de X-Men foi lançada, super heróis mutantes criados por Stan Lee e Jack Kirby pela Marvel Comics. O sucesso desses heróis é visto até os dias de hoje, valendo sempre dizer que eles, juntamente com o diretor Bryan Singer, foram responsáveis e pioneiros por mostrarem no início de 2000 que havia possibilidades do cinema de ação trabalhar com os quadrinhos de maneira relevante tanto como entretenimento como um produto comercial que não fosse inteiramente descartável. Tanto que 90% dos filmes de ação do verão norteamericano nos últimos anos tem sido apenas de super heróis, sejam eles da Marvel ou da DC.

Os X-Men nos quadrinhos se destacaram por vários motivos, mas um deles era de suas histórias se adaptarem com as épocas e fatos que viviam e até mesmo incoroporá-las em suas tramas, o que também deu certo e funcionou no cinema. Mas com o passar dos anos as histórias publicadas perderam fôlego e ficaram confusas, os personagens começaram a entrar em um loop infinito de erros, discordâncias e anacronismos ao ponto de todo o Universo Marvel ter sofrido imensas transformações principalmente nos anos 90 até culminar com a Era do Apocalipse, um evento que zerou novamente todo o universo, e isso sempre vai acontecer quando tudo bagunçar, como aconteceu no ano passado em que parte da Marvel foi novamente resetada com a chegada do Marvel Now (Nova Marvel, no Brasil).

Com o lançamento do primeiro filme dos X-Men em 2000, Bryan Singer teve boas intenções, porém seu excesso de autoestima e afirmação fez o diretor se precipitar ao pegar a história dos mutantes e recontá-la à sua maneira. Singer se manteve fiel a alguns personagens chaves, mas reinventou a história particular muitos deles a seu bel prazer, o que gerou uma confusão entre aquilo que fãs já conheciam e novos fãs estavam conhecendo, tanto que a Marvel teve que sambar para recontar suas histórias publicadas e diminuir essa grande incoerência do que se viu nas telas com o que existia nos quadrinhos até então.

De uma maneira geral, os dois primeiros filmes de Singer funcionaram nas telas e são as referências em qualidade até hoje, mas o terceiro filme, dirigido por Brett Ratner, deixou a desejar e foi quase um suicídio da franquia. Em 2011, houve uma tentativa de fazer um reboot da série, e Matthew Vaughn foi escalado para dirigir o quarto filme, entitulado Primeira Classe, que seria uma pré-sequencia da trilogia original ao contar como Charles Xavier fundou sua escola de jovens super dotados na década de 60, e como a curiosa relação entre ele e seu amigo Erik Lensherr/Magneto culminou em discordâncias ideológicas e se transformou em uma das mais clássicas e conhecidas rivalidade dos quadrinhos.

E aquilo que era pra ser o reinício de uma franquia e esquecer tudo que foi feito anteriormente, se transformou numa discussão entre a massa de fãs que se perguntava: como dar continuidade a essa história e alinhá-la à história da trilogia original?

Depois de ter abandonado a franquia para uma fracassada tentativa de reviver o ícone da DC em Superman Returns (2006), ninguém seria melhor que Bryan Singer para retornar à direção 10 anos depois justamente para realizar esta ponte entre os filmes e (tentar) consertar todos os erros cometidos no passado, inclusive por ele mesmo.

E funcionou?

Por incrível que pareça, sim.

A habilidade de Singer em administrar um grande número de personagens e de tramas paralelas é inegável e novamente visto aqui. Mas dessa vez Singer não apenas teve de lidar com as tramas paralelas do próprio filme como também com os buracos dos anteriores. Muitos dos erros são consertados de maneira discreta, e embora as referências aos filmes anteriores existam o tempo todo (incluindo também os dois péssimos spinoffs de Wolverine), muitas delas são feitas de maneira indireta justamente para não deixar o novo espectador confuso ou perdido e há até momentos para brincar com algumas situações inusitadas, como mostrar em uma sequencia de onde vem o trauma de Wolverine em viajar de avião.

Claro que isso não significa que seja necessário assistir os filmes anteriores para entender este, muito embora deva ser uma obrigação. Mas essa obrigação é para observar como Singer realmente conseguiu transformar tudo, entre erros e acertos, em um produto condensado, aceitável e grandioso dentro de todos esse complexo mundo confuso que ficou os dos X-Men. Parece que Singer finalmente deixou sua arrogante individualidade de lado e resolveu dar ouvido a base de fãs, pois entre méritos e deméritos, construções e desconstruções, este é o filme mais relevante dos X-Men como uma verdadeira adaptação.

A história se passa dez anos depois do Primeira Classe e 50 anos antes da dizimação dos mutantes na Terra. Esse período é baseado em um episódio dos quadrinhos que leva o mesmo nome e que também já foi adaptado na primeira série animada. Tudo começa com uma boa sequencia de ação no futuro, que teoricamente se passaria nos nossos dias atuais, só que completamente diferente do nosso presente, sendo muito mais tecnológico e apocalíptico. Depois perde o ritmo com piadinhas manjadas e uma crise depressiva de Xavier-jovem que não convence muito até mesmo pela facilidade com que ele é convencido a ajudar o Xavier-velho. Há outros momentos já vistos antes, como novamente Magneto isolado em uma prisão de segurança máxima, ou Wolverine novamente sendo neutralizado por Magneto, a relação de amor e ódio entre Xavier e Magneto, e a sempre clássica dúvida entre tentar viver em harmonia com os humanos ou não. Não há uma cena de batalha realmente impressionante ou de tirar o fôlego como nos filmes anteriores, mas nas poucas que existem, como nas batalhas com os Sentinelas, podemos sentir aquele gostinho muito bom de vê-los trabalhando em equipe, o verdadeiro grande atrativo dos X-Men.

Os personagens mais conhecidos estão presentes, e claro que a história novamente vai se concentrar nos personagens mais populares e nos atores que possuem mais relevancia popular e comercial, como Wolverine (Hugh Jackman, reprisando o papel pela sétima vez), Mística (Jennifer Lawrence, atualmente a atriz mais bem paga do cinema) e Magneto (Michael Fassbender, o alemão de ouro de Hollywood). Alguns que fizeram apenas algumas pontas nos anteriores voltaram com alguma participação maior, como Colossus (que outra vez entra mudo e sai calado), Kitty Pride (Ellen Page novamente fazendo aquela sempre cara de que não está nenhum pouco a fim de fazer o filme) e Bob Drake/Homem Gelo (sempre querendo fazer mais, mas Singer sempre oferecendo de menos). Novos mutantes agora aparecem como Quicksilver (que nos quadrinhos é filho de Magneto), Sunspot (não confundi-lo com o Homem Tocha de Quarteto Fantástico), Blink e Bishop, esses três últimos apenas para incrementar as cenas de ação, já que não possuem qualquer relevância em toda a trama.

Essa mania de concentrar as histórias sempre nos personagens ou nos atores mais populares é, talvez, o grande defeito de todo o filme, porque X-Men não é Wolverine, e essa noção de "trabalho em equipe", que sempre foi um dos fundamentos principais de Xavier, se perde. Diferente de Os Vingadores (The Avengers, 2012), em que o Homem de Ferro se tornou o personagem mais popular por conta de sua franquia e mesmo assim o filme soube dar momentos especiais para todos os demais personagens. Mas isso nunca acontece de maneira satisfatória nesse filme.

Apesar de Singer tentar consertar algumas coisas e encaixar a história com os quadrinhos de uma forma que ele nunca havia feito, ele ainda insiste na mesma tecla de deturpar as histórias dos personagens e criar as suas próprias, como o fato de Bishop (que nos quadrinhos é o verdadeiro viajante do tempo) ser o personagem que menos tem a ver com tudo isso no filme, e agora Kitty Pride ter esse novo poder de transportar a consciência dos mutantes para o passado, quando isso deveria ser uma missão de Xavier, Jean Grey, Emma Frost ou até mesmo uma simples máquina no tempo, como aquelas criadas pelo personagem Forge nos quadrinhos. Essas são, talvez, as maiores heresias cometida por ele, e imperdoáveis no ponto de vista de quem conhece a função de cada um nessa história. Essas gafes colossais realmente deixam os fãs um tanto decepcionados, mas para aqueles que pouco conhecem a fundo a história dos mutantes, nada disso é percebido, nem mesmo serão percebidos os erros de continuidade e questões chaves que não deveriam ter sido ignoradas, como o website SCREENRANT publicou.

Na parte do design de produção e figurino, é notável a queda de qualidade do filme anterior para esse. Se em Primeira Classe a década de 60 foi reproduzida com uma qualidade de encher os olhos e, inclusive, elogiada pela crítica em sua maioria, neste filme a década de 70 nem se parece com ela, principalmente depois do deleite visual de Trapaça (American Hustle, 2013). No filme há até um notebook com tela LCD. Além desse ato falho e absurdamente anacrônico, é engraçado observar a atuação dos figurantes, que de tão mal dirigidos ou dirigidos com pressa, fica evitente a mecânica e a coreografia de organização. Enfim, erros pequenos para quem enxerga pouco, mas bem graves para uma produção de US$200 milhões.

Como um todo, não há como negar que Singer conseguiu, a duras penas, aprender que com os X-Men não se brinca e sair pela tangente de maneira fina. A Marvel estava muito preocupada com o que fazer sobre a terceira franquia mais lucrativa da empresa e um dos principais ícones de sua marca. A sequencia final, por si só, define a razão do filme existir e já vale a pena todos os seus 131 minutos, como também é um final nostálgico, trágico e emocionante, que conseguiu transportar pra tela muito desse misto de angústia e esperança que os quadrinhos e a primeira série animada conseguiram fazer, além de, inclusive, dar gás para novos filmes no futuro (uma nova sequencia já foi anunciada para 2016).

Sorte teve Singer em conseguir encontrar linhas comuns entre todos os individuais filmes e, ironicamente, tal qual como o filme, seus erros do passado justificam os resultados desse novo episódio.

CONCLUSÃO...
Novamente é Singer fazendo tudo da sua forma, mas sua habilidade de conseguir lidar com diversos personagens e tramas paralelas fazem desse filme um grande divisor nesta pentalogia. Claro que vai agradar mais os fãs dos filmes do que dos quadrinhos, mas nem por isso vai deixar de emocionar os mais exigentes ao ver seus heróis preferidos personificados na tela, mas também vai despertar o ódio por muitos erros de continuação existirem e questões fundamentais da trilogia original terem sido ignoradas.

domingo, 18 de maio de 2014

O EXTRAORDINÁRIO MUNDO DE JEUNET...

★★★★★★★★★☆
Título: Uma Viagem Extraordinária (The Young And Prodigious T.S. Spivet)
Ano: 2013
Gênero: Aventura, Fantasia
Classificação: 10 anos
Direção: Jean-Pierre Jeunet
Elenco: Kyle Catlett, Helena Bonham Carter, Callum Keith Rennie, Niamh Wilson, Judy Davis, Dominique Pinon
País: França, Canadá
Duração: 105 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre T.S. Spivet, que resolve fazer uma viagem do oeste para o leste dos Estados Unidos para receber um prêmio científico. O que eles não sabiam é que a pessoa a receber o prêmio tem 10 anos de idade.

O QUE TENHO A DIZER...
T.S. Spivet é dirigido pelo magnífico diretor francês Jean-Pierre Jeunet, do qual sou suspeito para escrever, já que sou grande fã. Felizmente tive oportunidade de assistir todos seus filmes e, consequentemente, acompanhar essa brilhante carreira de poucas obras, mas relevantes e de uma riqueza narrativa e visual raros no cinema atual.

Claro que pouca gente conhece Jeunet se você perguntar pelo seu nome, mas todo mundo vai dizer que sabe quem é quando você disser que ele é o diretor de O Fabuloso Destino de Amelie Poulain (Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain, 2001), seu primeiro filme mais famoso e mundialmente conhecido. Ao mesmo tempo, provavelmente, ninguém vai conhecer nada mais além disso, o que é uma grande... grande pena. Por isso, vale mesmo fazer uma breve apresentação do diretor antes de falar do filme, até porque todo novo filme de Jeunet merece um grande comentário.

Jeunet começou a carreira com longas em parceria com seu amigo, Marc Caro. O primeiro filme, Delicatessen (1999), chamou atenção pela sua atmosfera pós-apocalíptica bizarra, mas ao mesmo tempo leve e curiosa pela narrativa diferenciada, o humor pra lá de obscuro e principalmente pela facilidade que o diretor tem em criar empatias entre o público, suas histórias e seus personagens, mesmo quando estes são estranhos, esquisitos, com atores feios ou de uma beleza exótica que fuja completamente de qualquer conveniência. Esta parceria com Marc Caro foi se repetir com o segundo filme, Ladrão de Sonhos (La Cité Des Enfants Perdus, 1995), talvez um dos filmes mais visualmente deslumbrantes do diretor, mais colorido que Delicatessen, um pouco menos sombrio, mas muito mais fantasioso e emocionante. O sucesso do filme rendeu um jogo de video game igualmente belo e fiel à história do filme.

Dois anos depois a parceria entre Jeunet e Caro ficou abalada quando Jeunet aceitou dirigir Alien - A Ressurreição (Alien: Ressurection, 1997) e Caro não viu interesse algum na produção, embora ele tenha auxiliado o amigo por diversas vezes. Mesmo assim o filme não apenas é considerado o pior da franquia como é praticamente um arrependimento do próprio diretor, que sofreu duras críticas pela sua sólida base de fãs. Houve intensas dificuldades na produção, o estúdio mandava e desmandava, fazia e desfazia mil coisas enquanto, ao mesmo tempo, havia um intenso problema de comunicação entre o diretor (que não fala inglês) com o roteiro, os atores e toda a equipe. Tanto foi assim que, propositalmente ou não, ele ficou aproximadamente quatro anos longe das câmeras. Foi quando ele finalmente pegou o mundo de surpresa com Amelie Poulain e a volta de todo seu fabuloso mundo surreal, fantasioso, mas agora mais doce, em um tom mais alegre e cômico que anteriormente, talvez por novamente haver a falta do peso das mãos de Marc Caro.

Como dito, Amelie foi seu filme de maior sucesso, e depois dele Jeunet encontrou em Audrey Tautou sua musa, e a parceria com a atriz se repetiu com o belíssimo e delicado Eterno Amor (Un Long Dimanche de Fiançailles, 2004), seu segundo filme mais famoso e conhecido. Novamente Jeunet recebeu críticas de sua base de fãs, dizendo que ele agora havia se rendido ao cinema comercial por repetir a mesma fórmula de Amelie.

Jeunet sumiu do cinema novamente, mas dessa vez porque ficou preso na produção de As Aventuras De Pi (Life Of Pi, 2012) por dois anos. Segundo o diretor, o filme já estava pronto: o roteiro já havia sido escrito, as locações de filmagem já haviam sido pesquisadas e inclusive o storyboard já havia sido feito. Mas pelos constantes adiamentos do estúdio, Jeunet se demitiu da produção e escreveu a história de Micmacs - Um Plano Complicado (Micmacs à Tire-Larigot), que foi lançado apenas em 2009. O filme não passou nem perto do mesmo sucesso e reconhecimento dos dois anteriores, o que é triste, já que é igualmente fantástico em todos os sentidos em um filme onde todos os personagens foram baseados em personagens de desenhos animados, o que acentuou mais ainda a marca do diretor. Nesse meio tempo, em 2008, Elizabeth Ezra lançou suas análises sobre o diretor contemporâneo para a coleção Contemporary Film Directors, contendo comentários dele mesmo sobre suas obras e inspirações.

Um novo hiato de quatro anos aconteceu até T.S. Spivet chamar sua atenção. O filme é baseado no livro The Selected Works Of T.S. Spivet (2008), do norteamericano Reif Larsen. É o segundo filme em lingua inglesa do diretor, só que ao contrário do que aconteceu em Alien, vemos aqui que não houve problemas de comunicação, nem de roteiro (que foi escrito por ele mesmo em parceria com Guillaume Laurant), e o resultado é um filme redondo, com começo, meio e fim, que segue sem tropeços ou buracos.

O filme conta a história de Tecumseh Sparrow Spivet, um garoto prodígio de dez anos de idade (no livro ele tem doze anos) que mora em uma isolada fazenda no extremo Oeste dos Estados Unidos, que vê em tudo uma oportunidade de estudar as razões físicas de existirem no seu sentido mais científico. Aos quatro anos de idade, ele criou seu primeiro experimento, e aos dez ele conseguiu montar a roda perpétua, um gerador de energia que tem autonomia para funcionar por 400 anos sem consumir qualquer outra energia, que seria responsável por mudar toda a ciência. Por conta disso ele é chamado para receber um importante prêmio da instituição científica Smithsonian, no leste dos Estados Unidos, que daria o direito ao vencedor a um grande discurso em Washington. Dentro de uma precoce crise existencial por conta da perda de seu irmão gêmeo e demais conflitos familiares que ele julga serem por sua culpa, o personagem resolve fugir sozinho, pegando um trem que cortará todo o hemisfério norteamericano para chegar a seu destino.

Assim como todos seus filmes anteriores (com excessão de Alien), T.S. Spivet possui uma linguagem visual forte e que abusa no uso das cores primárias e de designs assimétricos ou de incomum simetria, já que os elementos do cenário e objetos de interação entre o personagem e o meio são mais do que um mero design de produção, mas partes vivas da narrativa, da visão ingênua e da imaginação infantil e particular que Spivet tem sobre o mundo. A angulação das câmeras em planos superiores e inferiores para intensificar a fragilidade ou a hostilidade dos personagens, além da excentricidade de cada um deles também é uma das marcas registradas do diretor, como caricaturas que saem de desenhos animados, que possuem uma simpatia e humor inerentes, responsáveis pela empatia instantânea com o espectador. Há também a forma narrativa em surpreender ou causar um leve suspense apenas omitindo informações chaves, e por isso nunca sabemos (até momentos antes do fim), a verdadeira razão de Spivet se sentir responsável por tantas coisas, ou nunca sabermos quais personagens se tornarão amigos ou vilões em sua trajetória, como no momento em que ele pega carona com o esquisito caminhoneiro, um momento genuíno de Jeunet de nos mostrar como podemos subjulgar alguém apenas pelas suas aparências ou atitudes. Há também referências sobre seus filmes anteriores o tempo todo, como a jornada do personagem principal pela busca ou compreensão de algo, a referência sobre ausências familiares, ou até mesmo sobre a vilania de alguns, como a caricatura da personagem G.H. Jibsen (Judy Davis), que se assemelha muito às irmãs malévolas de Ladrão de Sonhos, vividas pelas atrizes Odile Mallet e Geneviève Brunet, mas aqui de uma forma muito mais cômica e leve. Enfim, é um típico filme de Jean-Pierre Jeunet, que mesmo com todos os mesmos traços de seus filmes anteriores, não deixa de ser deslumbrante e um prazer indescritível, além de também ser emotivo na sua forma simples e ingênua de lidar com os conflitos dos personagens, numa delicadeza rara de se ver no cinema.

Tem sido comparado a A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011), de Martin Scorcese, por também contar em 3D a jornada de um personagem infantil. Mas a comparação, acima de tudo, é por sofrer da mesma crise de identidade em não saber para qual público ele foi feito ou a qual público ele deve ser direcionado. Diferente de Hugo, que pretendeu recontar a história do cinema francês e ter deixado tanto crianças e adultos mais deslumbrados com as imagens e bastante cansados pela longa duração (126 min.), em Spivet esse problema não acontece, pois Jeunet não se utiliza de uma história muito complexa para criar a bela narrativa contada sem cansaços. Os adultos compreenderão e sentirão melhor as nuances dramáticas, enquanto o público infantil ficará deslumbrado com as peripécias do garoto e todo o visual do mundo particular de Spivet. Independente de algumas similaridades com Hugo, é importante saber que o filme de Scorcese foi uma homenagem ao cinema francês, e uma das referências do diretor americano, além de George Meliés por sua excelência, foi Jean-Pierre Jeunet, que sempre foi fiel ao legado de Meliés.

Não há como negar que a maneira adulta como Jeunet conta uma história por um ponto de vista infantil ou ingênuo é marcante e consegue atingir os diferentes públicos sem dificuldade. Reif Larsen, autor do livro, afirmou em uma entrevista que a inspiração de escrever a história veio sobre sua curiosidade sobre o estereótipo do cawboy do Oeste norteamericano, e porque essa imagem é tão forte até os dias de hoje, além de ter se transformado em uma referência mundial do caráter durão, irredutível e pouco adaptável. Durante as pesquisas sobre o Oeste, o escritor acreditou ser interessante mostrar uma história por um ponto de vista infantil, onde a criança fosse completamente diferente das heranças culturais daquela região, mas que ao mesmo tempo mantivesse em suas raízes características que o fizesse sobreviver grandes dificuldades mesmo sendo tão pequeno, o que no fim faria da sua determinação um caráter e aquilo que o caracterizaria definitivamente um "cowboy", mesmo não estando de chapéu e espora sobre um cavalo. O livro recebeu críticas positivas, e sua maior atenção foi voltada ao layout repleto de gravuras e ilustrações que complementam a narrativa. Por isso não é de se espantar que a obra tenha chamado a atenção do diretor, já que também é sua característica utilizar jogo de imagens para ilustrar de forma mais didática e dinâmica a história contada.

Todo o elenco é americano ou britânico, com excessão do conterrâneo Dominique Pinon, amigo pessoal e que já é regra marcar presença em todos os filmes do diretor. É também a estréia do ator mirim Kyle Catlett no cinema (ele será o protagonista da refilmagem de Poltergeist em 2015) e só deixa a desejar em alguns poucos momentos dramáticos, mas que em nada atrapalha o desenvolvimento, e chega mesmo a surpreender em vários outros. As únicas engasgadas de Jeunet talvez tenha sido colocar alguns flashbacks em lugares indevidos, ou de não ter sido mais firme em momentos dramáticos solo do garoto. A conclusão um tanto rápida talvez quebre um pouco toda a maravilhosa experiência, mas a satisfação como um todo, no fim das contas, não sai prejudicada.

Toda essa imaginação do diretor foi transposta para a tela pela primeira vez com câmeras digitais 3D. Assim como Scorcese fez em Hugo, Jeunet também teve o cuidado e a delicadeza de montar cena a cena de todo o filme dentro da melhor qualidade para que o 3D pudesse oferecer toda a experiência possível de dimensões espaciais e profundidade. E assim Jeunet nos imerge em seus filmes, em um mundo fantasioso e belíssimo, que vaga entre o cinema clássico e o moderno sem fugir das raízes do cinema francês, nos dando oportunidade para sonhar novamente, como imaginava George Meliés.

Embora seja um filme de um diretor francês, ele é americano, para um público americano, mas por um ponto de vista francês, talvez um agradecimento de Jeunet à homenagem que Scorcese fez aos franceses com Hugo. Mesmo assim ele ainda não foi lançado nos Estados Unidos. A Weinstein Company pretende lança-lo no fim do ano, boa época para promover filmes mais artísticos e sérios para serem considerados na temporada de premiações, o que é merecido a Jeunet.

CONCLUSÃO...
Novamente é Jeunet trazendo para as américas seu maravilhoso método fantástico francês de fazer cinema e nos imergir em imagens deslumbrantes e personagens carismáticos. Como uma maravilhosa sobremesa para os olhos, T.S. Spivet pode não ser seu melhor filme, mas ainda está longe de ser ruim, além de ser visualmente grandioso em cores, texturas e nuances dramáticas em igual medida.

terça-feira, 6 de maio de 2014

OS 26 MELHORES FILMES DE 2013 (ATÉ AGORA)...

Aqui vai a lista daqueles que considero os melhores de 2013 dentre os que consegui assistir e/ou ler a respeito. Tem muito, mas não tanto quanto teve em 2012. Volto a ressaltar que é uma lista um tanto pessoal, não há uma ordem específica e a numeração é só pra facilitar o serviço. Muitos ficaram de lado ou porque ainda não assisti e pouco li a respeito, ou porque desconheço, mas no geral foi um ano em que senti que os filmes fora de circuito comercial sofreram bastante para se promoverem e criarem vida própria pela rede, como geralmente acontece. Um ano cheio de bobagens boas, por sinal.

01. PHILOMENA
Stephen Frears conseguiu pegar a dura história real de Philomena Lee e dar leveza a ela, além de também tratar de um tema difícil sem tomar partidos. Mas o material que ele oferece é suficiente para o próprio espectador tirar suas próprias conclusões sobre temas como religião, a força do perdão e a fé, além da grandiosidade da alma desta mulher, muito bem representada por Judi Dench que foge de personas mais sérias e britânicas e apresenta uma senhora doce, ingênua e carismática. Tudo isso faz de Philomena um dos melhores e mais memoráveis de 2013.

02. 12 ANOS DE ESCRAVIDÃO
Depois de Django Livre (Django Unchained, 2012), era necessário que o cinema de Hollywood falasse novamente do mesmo tema, mas dessa vez sem a fantasia e a ironia particular de Tarantino. O resultado disso foi a adaptação de Steve McQueen de uma obra verídica escrita no século XIX por Solomon Northup, o protagonista da história, e que perdeu-se com o tempo por razões desconhecidas. O resultado disso é um filme que, embora tenha uma carga dramática esperada e que explore o tema de maneira previsível, consegue retomar a discussão do tráfico humano, do trabalho escravo e exploratório que ainda existe e, por incrível que pareça, ainda são temas atuais. Além disso, a crueldade sofrida pelos protagonistas vividos pelos atores Chiwetel Ejiofor e Lupita Nyong'O é tão impactante que conseguimos sentir a dor e o cheiro do sofrimento e da crueldade do próprio homem com ele mesmo.

03. HER
Spike Jonze acertou em cheio no seu primeiro roteiro solo. Sua direção impecável, a fotografia fria e distante mostram a possibilidade e a probabilidade de um futuro próximo onde a individualidade e a ausência da relação e interação entre as pessoas será uma das maiores características da humanidade, ao ponto de acreditarmos em um sistema operacional criado e desenvolvido especialmente para suprir as necessidades de afeto e compreensão. Sem criticar as escolhas dos personagens, Jonze cria uma história de amor diferente, ingênua, idílica e, acima de tudo, convincente, pois o sentimento é real.

04. JOGOS VORAZES: EM CHAMAS
Nada mal para uma franquia baseada numa pobre trilogia de livros de Suzanne Collins. O primeiro filme conseguiu preencher a falta de narrativa e perspectiva dos livros, mas perdeu muito tempo em redundâncias e em efeitos especiais exagerados mais para chamar atenção do que incrementar a atmosfera do mundo distópico. Este segundo filme ainda tropeça em não se aprofundar nos esboços das problemáticas mais sociais e políticas mostradas. Mesmo dando mais atenção às cenas de ação e aos dramas da heroína Katniss Everdeen, tudo foi colocado corretamente, e no final das contas o desenvolvimento do filme agrada mais do que o esperado. Poderia ter sido um filme de ação muito mais relevante se o seu conteúdo mais maduro tivesse sido melhor explorado, mas já que o foco é o público jovem, até que o produto oferecido é muito acima da média.

05. MUD
Embora lançado em 2012, só foi chegar aos cinemas e chamar a atenção da crítica em 2013. Esta pequena pérola independente estrelada por Matthew McConaughey não apenas mostra mais uma vez que este ator tem talento nato para representar personagens broncos e sentimentalmente perturbados como também é uma belíssima e honesta história sobre duas perspectivas diferentes e que se interceptam sobre o amor. Temos o ponto de vista ingênuo de um jovem e o ponto de vista traiçoeiro de um adulto. Um tanto longo na narrativa, mas que consegue tratar do assunto sem ser piegas ou cliché.

06. ÁLBUM DE FAMÍLIA
Este filme pouco comentado e também interpretado por muitos por uma visão muito mais simplista do que o roteiro propõe é talvez um dos mais relevantes sobre relações familiares e sobre uma familília tipicamente norteamericana já produzidos em Hollywood, e olha que Hollywood não é um dos melhores lugares quando o assunto são relações familiares, não como é com o cinema Europeu ou Asiático. O roteiro assinado por Tracy Letts, baseado em sua própria peça teatral, embarca na análise estrutural e psicológica de uma família que há quatro gerações repetem os mesmos erros. O simbolismo que cada personagem carrega em si, dentro da sua função familiar e dessa reprodução de atos e erros, é de uma sutileza e de uma brutalidade dramática que só serão mais sentidos por aqueles que já conhecem e estão familiarizado com o estilo psicoanalítico de Letts. Para o público mais comum, o filme será mais um drama familiar com Meryl Streep, para aqueles que realmente se interessarem em compreender essa complexa (porém até verídica) construção familiar, irão encontrar material mais que suficiente para uma tese de mestrado.

07. CLUBE DE COMPRA DALLAS
Este clube que realmente existiu na década de 80 durante o surto pandêmico de HIV nos Estados Unidos foi comandado por um homem que, até então, pouco se conhecia, mas que de um mero canastrão explorador, se transformou em uma das poucas pessoas realmente interessadas na busca de um tratamento realmente efetivo contra a doença, sendo, talvez, um dos primeiros responsáveis por desenvolver um protocolo eficiente de tratamento e que aumentou a expectativa e a qualidade de vida de milhares de pessoas. Além disso, também há Matthew McConaughey mostrando porque sua consagração por este filme foi merecida, bem como a de Jared Letto, em um filme barato, que sofreu grandes problemas de produção e que foi filmado com apenas uma câmera, mas que nem é notado por conta da eficiente e fantástica edição e a sólida visão do produto final do diretor.

08. TRAPAÇA
Não há como negar que este filme tinha o intuito de impactar a crítica como fez e ser TÃO-TÃO o que é. A sua perfeição é tão encomendada que seu propósito é evidente. Apesar disso, a sua trama é tão bem elaborada e construída, e os personagens são tão bem interpretados e desenvolvidos que quando os créditos finais aparecem a satisfação de ter assistido algo tão bom, mesmo que comercial, vem à tona. Jennifer Lawrence pode roubar a cena com alguns exageros e pela superestimação resultante de sua intensa popularidade, mas quem desenvolve o melhor papel é Amy Adams, em uma personagem tão cheia de conflitos, angústias e desprazeres que há momentos em que é nítido que ela mesma parece não conseguir lidar com tantas camadas. Atuação brilhante, além de uma química entre todo o elenco que chega a ser deslumbrante.

09. BLUE JASMINE
Woody Allen e Cate Blanchett não poderiam fazer feio. O humor sarcástico de Allen e a caricatura comportamental de Blanchett dão o tom exato sobre algo que soa até como uma metáfora, e impossível não relacioná-la com a decadência da sociedade norteamericana, bem como novamente é um filme em que o diretor pisa com maestria entre a comédia e a tragédia no seu mais clássico significado.

10. STAR TREK: ALÉM DA ESCURIDÃO
Uma transformação total na franquia para conquistar novos fãs e ao mesmo tempo cheio de referências aos fiéis seguidores da sagrada e consagrada série. É J.J. Abrams mostrando mais uma vez porque se transformou em um dos maiores, mais populares e poderosos diretores e produtores do cinema comercial atual, o novo Spielberg, como dizem alguns. Um filme de ação moderno e que em nenhum momento deixa de lado suas raízes.

11. FRANCES HA
Também de 2012, mas que foi chegar aos cinemas em 2013, pode ser visto como uma versão mais pessoal, bem humorada e positivista de Greta Gerwig sobre uma personagem similar já interpretada anteriormente por ela no filme Lola Contra O Mundo (Lola Versus, 2012). A essência desse filme se difere de Lola por conta da constante força de vontade da personagem em superar as duras mudanças de uma vida que ela considerava simples e perfeita, mas que agora virou apenas um sonho no qual ela está determinada a reconquistar, custe o que custar. Motivador em sua completa simplicidade, carregado de diálogos memoráveis e uma trilha sonora grandiosa tanto quanto as vontades da personagem.

12. GRAVIDADE
Se for válido dizer que Kubrick finalmente deixou um legado relevante ao cinema, este é Gravidade. A jornada espacial de Cuarón não apenas impressiona visualmente como também é simbólica e uma metáfora ao renascimento. A interpretação visceral de Sandra Bullock impressiona, e o filme não teria a mesma carga dramática se tudo que é visto na tela com naturalidade não fossem frutos do intenso trabalho da atriz e do diretor juntamente com toda a pesquisa técnica desenvolvida em sua produção. Uma história simples e que pouco agrega, mas um dos maiores espetáculos visuais e sonoros da ficção científica nos últimos 10 ou 20 anos.

13. AS BEM ARMADAS
Sandra Bullock prova que, mesmo aos 45 anos, é uma atriz poderosa e de um profissionalismo ímpar ao dividir todas as cenas com Melissa McCarthy e em nenhum momento querer se sobrepor como é o esperado de grandes estrelas em filmes como esse. Um filme bobo por excelência, mas engraçado pela química perfeita das duas protagonistas e do tempo de comédia de ambas.

14. ANTES DA MEIA NOITE
Terceiro capítulo de uma maravilhosa história de amor que o diretor e roteirista Richard Linklater iniciou em 1995 com Antes do Amanhecer (Before Sunrise) e seguido por Antes do Por do Sol (Before Sunset, 2004). Com uma diferença de 9 anos entre um filme e outro, as histórias também possuem o mesmo intervalo de tempo. Enquanto nos dois primeiros capítulos tudo girou em torno de encontros e desencontros, expectativas e frustrações, desejos e anseios, eis que, finalmente, os protagonistas decidiram viver um para o outro, mas agora, adultos e sem mais grandes sonhos que a juventude propunha, encontram-se numa relação já acostumada e estagnada pela rotina. Agora as discussões relevantes são sobre a vida e o casamento e o que será depois dele. A interação entre os dois protagonistas (e atores) sempre foi o grande atrativo desta série que conseguiu mudar a linguagem das comédias românticas e transformá-las em algo muito além do final feliz. Os fãs poderão perceber uma brusca mudança de narrativa, mas que acompanha com coerência todo o desenvolvimento e amadurecimento de ambos nesta longa história de amor que já dura 18 anos.

15. GUERRA MUNDIAL Z
Talvez um dos filmes com as mais absurdas sequencias e com o maior número de buracos no roteiro de 2013, mas nem por isso deixa de ser um dos melhores filme de ação em seu mais puro significado. Tenso do início ao fim, não há um momento sequer que o espectador possa respirar aliviado sem ser surpreendido por mais uma horda de zumbis destruidores. Afinal, é essa a verdadeira intenção de filmes de ação e horror de sobrevivência. Ou você corre, ou você morre.

16. O QUE RICHARD FEZ?
Também de 2012, mas foi ancorar por esses lados no início de 2013. O filme irlandes é delicado na abordagem sobre o paradoxo entre aquilo que julgamos certo e as coisas erradas que fazemos. Nada mais a dizer, simples e puro assim.

17. SEGREDOS DE SANGUE
Confuso e por vezes até bizarro, consegue ser corajoso e audacioso por tentar fugir de fórmulas hollywoodianas. Não é um tipo de filme que agrada todo público, porque é denso e bastante psicológico, mas a atmosfera por vezes até hitchcockiana que o diretor Chan-Wook Park constrói em cenários limpos e atores que se movimentam de forma ensaiada frente a câmera, não apenas é belo como admirável. De tão bem ensaiadas parecem naturais em seus mínimos detalhes, e a história é uma tensa jornada sobre a progressão de uma sociopatia psicótica. Chega a ter um tema até similar ao de Precisamos Falar Sobre O Kevin (We Need To Talk About Kevin, 2011).

18. MEU NAMORADO É UM ZUMBI
É um grande e excelente besteirol de 2013, principalmente pelo diretor ter pego um tema que já está batido e resolver tirar sarro de tudo isso da melhor maneira possível ao vitimizar os zumbis tal qual foi feito com os alienígenas em Distrito 9 (District 9, 2009). Porém, a diferença é que aqui é uma comédia até pastelão no excelente estilo de Todo Mundo Quase Morto (Shaun Of The Dead, 2004), além do diretor pegar carona para satirizar de maneira indireta outras produções adolescentes e de gosto duvidoso.

19. O LOBO DE WALLSTREET
Ainda não assisti a quinta colaboração entre Scorcese e DiCaprio por pura preguiça mesmo, mas a impressão que tenho sobre as críticas lidas é que essa interminável parceria já apresenta sinais de cansaço, muito embora o filme tenha sido elogiado mundialmente. Ao mesmo tempo o filme também foi bastante criticado por seu conteúdo moral ambíguo, sexual, vulgar e o excesso de drogas. Tudo o que Scorcese sempre utilizou em menores ou maiores graus em seus filmes, o que se torna uma discussão um tanto redundante principalmente quando parte da crítica especializada, como se Scorcese fosse um novato qualquer que nunca fez isso, mas que agora resolveu chocar. DiCaprio recebeu elogios ímpares sobre sua atuação, mas o filme longo demais tem expressado o tédio a muitos. As notas recebidas pelo filme já demonstram por si só que ele naturalmente já figura entre os melhroes.

20. TRUQUE DE MESTRE
Mais um grande besteirol que deu certo. A história do filme é um absurdo e é construída em cima do misticismo em torno da mágica e seus truques, mas se vamos ao cinema esperando fantasia, é claro que não poderíamos esperar seriedade em um tema como esse. O resultado de tudo é um filme que realmente abraça seu espectador, o faz esquecer dos absurdos e o leva por toda a fantasia sem questionar ou querer entender nada. O final não é muito surpreendente, mas há momentos memoráveis e até empolgantes.

21. O ESPETACULAR AGORA
Este filme de personagens adolescentes chega a não ter nada de adolescente. O tema é bastante maduro e abordado por um ponto de vista que não lembro ter visto no cinema tão recentemente. A complexidade do personagem principal e as várias camadas que o compõe vão se revelando aos poucos durante o filme, e de um rapaz antipático e inconsequente, ele se transforma em alguém incompreendido, confuso sobre ele mesmo e sobre as coisas que acontecem a sua volta. O desenvolvimento e a progressão de autoconhecimento que surge conforme o personagem se autodestrói é brilhante, e um dos personagens mais complexos e interessantes a serem adaptados em 2013. Como já disse, pode ser que o personagem no livro não seja tão complexo, mas a densidade e profundidade que os roteiristas deram a ele o fazem ser.

22. GLORIA
Embora seja um filme chileno e pequeno, Gloria é uma mulher de meia idade independente e que gosta de curtir os bons prazeres da vida sem dar a mínima para o que os outros possam pensar sobre ela e de suas atitudes. A personagem também não faz a mínima questão de criar uma empatia com seu espectador, mas independente disso, sua história já é motivante por si só e o espírito livre e desbravador de Gloria chega a ser contagiante e uma grande lição de vida principalmente às mulheres que acreditam que não há mais tempo para qualquer outra coisa.

23. UMA VIAGEM EXTRAORDINÁRIA
Não há como errar com Jean Pierre Jeunet em seu primeiro filme em inglês desde Alien: A Ressurreição (Alien: Ressurection, 1997). Sua essência está toda na tela ao contar a história de uma criança prodígio que parte em uma peregrinação para receber um grande prêmio por sua incrível contribuição à ciência. A forma lúdica como Jeunet costuma incrementar suas histórias com o excesso de cores, personagens esquisitos e carismáticos, e sua incrível mistura do cinema clássico com o moderno, impressionam sempre e fazem de seus filmes um grande prazer de serem assistidos, como comer uma maravilhosa sobremesa depois de um requintado jantar. Jeunet sempre manteve o estilo fantástico francês em seus filmes, seguindo o legado de George Meliés em sempre fazer de suas histórias uma oportunidade para sonhar novamente. Lindo!

24. NEBRASKA
Ainda não assisti a este novo road movie de Alexander Payne, mas foi um daqueles que tomaram a temporada de premiações de surpresa, o que acontece todo ano com algum título. O filme concorreu a 6 Oscars (embora tenha levado nenhum), foi parte da seleção de Cannes e levou a Palma de Ouro de Melhor Ator. A crítica especializada é praticamente unânime na positiva responsividade que o filme teve, informado como o retorno de Payne a uma linguagem mais pessoal e natural, sem contar que a atuação de Bruce Dern é, como dito por muitos, singular e fantástica.

25. O HOBBIT: A DESOLAÇÃO DE SMAUG
Tudo bem que a opinião sobre isso é quase unânime, de que Peter Jackson tenta, a todo custo, fazer um novo O Senhor dos Anéis em cima de um conto praticamente infantil e curto. O primeiro filme agradou os fãs, e o segundo, embora muito longo (como sempre), agradou mais, principalmente por haver uma maior conexão entre os personagens e o espectador. Admirável por Jackson fazer tanto com tão muito-pouco, só mesmo um grande fã de Tolkien pra fazer o que ele fez.

26. FROZEN
Ainda não assisti a essa animação que tenta ser um resgate da Disney aos velhos tempos, mesmo que ainda presa no 3D, e não na forma clássica e bonita, esquecida e perdida no tempo, que muita gente sente falta e ela ainda não percebeu. Mas se o filme arrecadou mais de US$1 bilhão no mundo, sendo a 4ª animação que mais arrecadou e o 6º filme mais assistido na história, significa que agradou muita criança por aí, mesmo tendo música chata para os adultos (como é a maioria das queixas que li por aí).

quarta-feira, 16 de abril de 2014

GLORIA CONTRA O MUNDO...

★★★★★★★★
Título: Gloria
Ano: 2013
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Sebastian Lelio
Elenco: Paulina Garcia, Sergio Hernandez
País: Chile, Espanha
Duração: 110 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre uma mulher idependente e solitária de meia idade e as dificuldades vividas com os relacionamentos e a vida na sua idade.

O QUE TENHO A DIZER...
Gloria é um filme chileno dirigido por Sebastian Lelio, o roteiro também é de sua autoria em parceria com Gonzalo Maza. Foi muito bem recebido pela crítica, vencendo alguns dos principais prêmios que inclui o Urso de Ouro em Berlim para a atriz Paulina Garcia, que interpreta a personagem principal. Também foi indicado a Melhor Filme Estrangeiro no Independent Spirit Awards e venceu esta mesma categoria no National Board Of Review, além de também ter sido o filme escolhido para representar o Chile no Oscar 2014, porém não foi indicado. Uma pena, pois é um filme bastante incomum na forma como mostra a realidade de uma mulher moderna e idependente na meia idade.

A história começa com Gloria, uma mulher de 58 anos, no meio de uma festa frequentada por pessoas de aproximadamente sua idade. Ela é desquitada, com dois filhos já adultos, mora sozinha, trabalha em uma empresa e tem uma vida independente, na qual ela gosta de passar seu tempo sozinha em festas para solteiros e bares para, certamente, tentar preencher o vazio da solidão natural oferecida pelos anos que avançam, mas essas noites boemias frequentemente a levam a repetidos desapontamentos e a constancia desse vazio que parece nunca ser preenchido. Tudo parece mudar quando conhece Rodolfo em uma das festas, um ex-fuzileiro naval, por quem ela se apaixona e tenta construir uma relação que é constantemente interrompida pela ex-mulher e suas duas filhas.

A verdade desse filme é que ele realmente é um ponto de vista verdadeiro e muito relevante sobre um tipo de personagem que é constantemente negligenciado por Hollywood, e só somos capazes de encontrar em filmes fora de circuito comercial, os chamados art house. Seu conteúdo bastante simbólico e não convencional faz parte desse nicho e é apreciado por aqueles que gostam de fugir de histórias comuns e fórmulas prontas de se fazer cinema. Claro que não há nada de muito diferente e excepcional, mas a honestidade com que a personagem e seus atuais desafios são mostrados chega a despi-la por completo frente ao espectador. Não é à toa que as cenas de sexo ou nudez da personagem existem sem nenhum pudor, pois essa independência e sentimento de liberdade sentido por ela é tão grande que não há mais espaço para vergonha ou recato, em um sentimento de quem não tem absolutamente nada a provar para ninguém.

A melancolia que ela carrega em si é compreensível quando a mesma busca de forma até incansável a companhia, independente de quem seja, para dançar, para lhe acompanhar em uma bebida, ou simplesmente para o sexo e a satisfação de seu prazer. Uma vida na qual seus principais objetivos já foram cumpridos, como criar seus dois filhos e soltá-los para o mundo e para a independência, seguida da separação de um marido ausente que provavelmente era mais um peso morto do que um parceiro, e agora, depois de tudo, o tempo existe finalmente para ela. Não vemos arrependimentos em Gloria, apenas a nostalgia pela liberdade da juventude que teve de ser abandonada por outras prioridades e que agora ela tenta compensar o tempo perdido. E como ela compensa!

Quando Rodolfo aparece em sua vida, há uma centelha de esperança de que alguém ainda foi feito para ela, pois ele leva uma vida de diversões e anseios similares, porém não possui a mesma liberdade e coragem, mantendo-o preso a correntes familiares que ele não consegue se libertar. Essa felicidade cai por terra quando Gloria percebe que, por mais que tente, este novo relacionamento sempre ficará estagnado, e Rodolfo nunca a aceitará como ela realmente quer, ao ponto dele sempre omitir às outras pessoas com quem ele está, principalmente à sua família, colocando-a e fazendo-a se sentir em uma situação semelhante a de uma amante, uma mulher oculta destinada a apenas satisfazer as vontades e os prazeres de alguém incapaz de encarar a realidade. E é assim que ele se demonstra, um homem covarde e impotente frente a vida.

A grandiosidade da personagem cresce no filme quando a necessidade da liberdade explode dentro dela em um grito até feminista, e por mais que seja uma decisão dura e difícil, ela sabe que não é obrigada a passar por isso. Nada mais emocionante que vê-la pronta para outra depois de dias de melancolia e depressão, seguidos da atitude tempestiva que ela tem na sequência em que está dentro do carro observando a casa de Rodolfo, um ritual necessário para continuar sua vida sem a necessidade de sofrer calada, tudo dentro uma metáfora de extrema relevância para enterrar de vez por todas uma situação que nada lhe agregaria. Duvido que ninguém ousou um dia imaginar-se fazendo o mesmo que ela, uma sequencia até engraçada dentro de seu surrealismo justificado que nem ela mesma consegue evitar posteriores gargalhadas. Gargalhadas libertadoras, por excelência.

O filme é dela e para ela, tanto que os demais personagens são secundários e pouco aprofundados, mas isso em nada atrapalha, já que Gloria não é uma personagem apaixonante ou sentimental e muito menos cativante, mas seu individualismo e independência são tão grandes que ela é inspiradora por ser assim, única e livre, sem vergonha alguma de ser o que é e fazer o que quiser. 

CONCLUSÃO...
Com uma abordagem até bem similar em algums momentos, o filme consegue até ser uma versão para a meia idade de Lola Contra O Mundo (Lola Versus, 2012), mas claro que de uma forma muito mais verdadeira e despida de qualquer vergonha. Gloria poderá não agradar muita gente, mas quem se interessar por ela e conseguir chegar ao final do filme ao menos irá compreender e concordar sobre a grandiosidade dessa personagem, um grande exemplo.
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