Translate

sexta-feira, 13 de maio de 2016

PURAMENTE AÇÃO...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Hardcore Henry
Ano: 2015
Gênero: Ação
Classificação: 16 anos
Direção: Ilya Naishuller
Elenco: Sharlto Copley, Haley Bennett, Danila Kozlovsky, Tim Roth
País: Rússia, Estados Unidos
Duração: 96 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um homem desmemoriado acorda de um coma e em afonia, e deverá combater um criminoso com poderes caso pretenta se manter vivo e resgatar sua mulher sequestrada.

O QUE TENHO A DIZER...
Eu, como fã de video games que também sou, sempre me perguntei porque nunca fizeram um filme em primeira pessoa como os jogos Doom ou Quake, de estilo first person shoot (FPS), ou seja, a visão do jogador é a do próprio personagem. Mas nos video games o termo "shoot" se refere a "tiro", ou seja, jogos de tiro em primeira pessoa, enquanto no cinema o "shoot" tem o significado de "filmagem". Filmes em primeira pessoa viraram uma febre depois de A Bruxa de Blair (1999), mas sempre usaram o mesmo esquema da câmera na mão, um tipo de filmagem mais subjetivo e que acabava dando liberdade para narrativas paralelas.

Nunca fomos, de fato, os olhos do protagonista, ao ponto de acompanharmos unicamente sua trajetória, sem desvios de atenção ou narrativas paralelas invasivas.

Um sopro disso, desse estilo, um protótipo talvez, aconteceu na adaptação cinematográfica de Doom (2005), que a princípio havia sido promovido como um filme em FPS, mas dentre diversas decepções, a maior tenha sido uma única sequência em primeira pessoa que dura apenas 5 minutos. Anos depois, no reboot de O Espetacular Homem-Aranha (2012), o trailer também empolga ao nos colocar na visão do aranha, mas na prática essa sequência também durou apenas segundos, decepcionante de igual forma. Frustração para aqueles que esperavam uma experiência diferente, como a que Cameron Diaz insandecidamente busca em Quero Ser John Malkovich (1999), e a vontade de experimentar a vida pelos olhos de outra pessoa.

Essa produção russa-americana, dirigida pelo estreante Ilya Naishuller, impressiona desde o começo pois Hardcore Henry é um filme que segue à risca elementos narrativos de jogos de ação em primeira pessoa para sustentação técnica aos elementos visuais, pois na essência é uma ficção científica explosiva e inovadora em um estilo narrativo que parecia não ter onde mais inovar. Chega a ser tão interessante que me atrevo até a dizer que esse "quê" de novidade e ousadia seja equivalente ao que foi Matrix (1999) no passado, ou Corra, Lola, Corra (1998).

Henry (Andrei Dementiev) acorda de um coma dentro de um tanque em um laboratório. Ele está sem um braço, uma perna, sofre de amnésia e sua fala está comprometida. A cientista Estelle (Haley Bennett) explica que tudo foi consequência de um acidente que eles desconhecem, e enquanto reconstrói as partes que faltam com próteses cibernéticas, revela que os dois são casados. O laboratório sofre um ataque comandado por Akan (Danila Zozlovsky), um homem com poderes telecinéticos que precisa de Henry para dar sequência a um de seus planos. O casal consegue escapar, mas logo em seguida Estelle é capturada e Henry é salvo de mercenários por Jimmy (Sharlto Copley), um misterioso que virá a ser seu principal contato por toda a história.

Vale dizer que a história é, de fato, sem pé nem cabeça, e tudo é apenas um pretexto para Henry estar em constante fuga, bater e arrebentar. Sim, Henry é uma versão ciborgue de Jason Bourne, mas o interessante aqui é que, do início ao fim, e sem cortes aparentes (salvo algumas situações), a ação é eletrizante.

Não é um tipo de filme para quem sofre de labirintite, já é bom avisar, porque se em filmagens com câmera na mão a reclamação constante é a imagem que balança e incomoda, aqui isso é elevado a enésima potência, pois a tela é literalmente os olhos do protagonista, e vemos a enlouquecida vida de Henry através dela. E ele corre, pula, cai, rola, gira, apanha, tromba e desmaia. É fácil perder a referência no meio de tanta imagem turbulenta, mas quando tudo é visível e mais estável, a grande angular das GoPro utilizadas fazem um belo e impressionante trabalho, digno de esportistas radicais por aí.

A efetividade do filme está na condução das situações. Henry pode ser um personagem que nunca vemos (há apenas uma breve cena que parte do seu rosto aparece), e pode também ser um personagem que nunca fala. Mas nem por isso deixa de ser expressivo ao seu modo, no seu jeito de se comportar e, às vezes, gesticular. Na verdade, quem nos fará supor suas emoções são os coadjuvantes e a maneira como eles agem e reagem ao protagonista, em especial Jimmy, cuja participação é muito mais importante do que aparenta. É ele quem trará diálogo e alívio na ação non-stop, pois Sharlto Copley é carismático e naturalmente engraçado em todas as facetas que aparece, algo que a princípio parecerá confuso, mas posteriormente será uma referência bastante interessante a Avatar (2009), de James Cameron. Além de todos esses elementos que dão consistência ao filme, não podemos esquecer que quem de fato é Henry é o próprio espectador, naquilo mais próximo da sensação de uma realidade virtual que o cinema - em sua forma tradicional - já conseguiu chegar.

A violência é explícita, quebrada em alguns momentos por um humor inesperado, truculento, como em um momento em que há uma óbvia referência - e talvez até uma sátira - ao "mundo de Marlboro", uma cena tão boba e cliché, mas colocada tão bem, que é exatamente por isso que funciona. Também há situações às vezes bizarras o suficiente para tirar algumas gargalhadas, como quando Henry faz um mercenário de refém segurando-o pelo nariz. Tudo isso, junto à trilha sonora que varia entre eletrônicos e clássicos como Queen, será o tom no qual toda narrativa é conduzida de forma enérgica, empolgante, que satisfaz mesmo sem a necessidade de compreender alguma coisa. Como se não bastasse o bom e pontual uso do humor, o diretor também não se esquece de dar um momento dramático bem breve, mas bastante oportuno, ao som de Peter Wolf Crier, em uma daquelas sequências em que a música expressa sentimentos ambíguos do protagonista, e assim sentimos com ele.

Conforme a história avança, mais ágil, determinado e forte Henry se torna. Um de seus objetivos principais é se manter vivo, porque no lugar de seu coração existe um tipo de bateria que precisa ser trocado de tempo em tempo, e dependendo do tipo, oferece a ele novas habilidades. Então, juntamente com o celular, por onde Jimmy envia a Henry outros objetivos, ou Akan, o grande vilão final, tudo obviamente se mostra elementos resgatados de jogos e que Naishuller leva com muita efetividade para a trama de seu longa. Não é preciso identificar esses momentos, mas volto a dizer que, para quem é fã de jogos, irá achar tudo muito mais interessante.

Tecnicamente muito bem feito e realista, não dá pra saber em que situações é dublê, boneco ou computação gráfica. A trilha de sangue que Henry deixa pelo caminho através das mais mirabolantes formas como ele se defende e elimina seus inimigos, embora por vezes extremamente violento, impressiona no bom sentido e faz de tudo um espetáculo, tamanho realismo.

Pode ser que a história seja tão mal explicada para dar abertura a continuações, mas melhor teria sido se o roteiro tivesse reservado um momento mais sóbrio simplesmente para esclarecer um pouco mais a trama em si, ou aprofundar um pouco mais os propósitos dos personagens na história, porque desde o princípio só sabemos que Henry tem que fugir e matar, bem no esquema "corre senão atiro".

De qualquer forma, é uma daquelas produções não hollywoodianas que entretém da mesma forma e faz coisas que o próprio cinema de Hollywood não ousa fazer. Mesmo dentro do apelo comercial, não deixa de ser experimental. Poderia ter tido um desastroso resultado, mas no fim é um memorável filme que proporciona um tesão pela ação que há muito eu não sentia, e talvez a mesma sensação tenha outras pessoas que o assistirem.

CONCLUSÃO...
A história sem pé nem cabeça não é motivo para não assistir um filme de ação sem sentido tão bem feito. O que impressiona na produção é exatamente esse espetáculo visual e a dinâmica eletrizante com alívios cômicos nos momentos certos e a experiência de fazer o próprio espectador se sentir como um protagonista. Uma pena que o filme não recebeu um apoio comercial que precisava, pois a novidade que ele trás na forma narrativa o fará ser uma referência interessante no gênero.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

PIOR QUE O PRIMEIRO...

★★☆☆☆☆☆☆☆☆
Título: O Caçador e a Rainha do Gelo (The Huntsman: Winter's War)
Ano: 2016
Gênero: Fantasia, Aventura, Ação
Classificação: Livre
Direção: Cedric Nicolas-Troyan
Elenco: Chris Hemsworth, Jessica Chastain, Emily Blunt, Charlize Theron
País: Estados Unidos
Duração: 114 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
O Caçador agora deve cociliar seu amor com uma batalha que deverá travar contra Freya e sua irmã mais velha, Ravenna.

O QUE TENHO A DIZER...
O primeiro filme não tinha intenções de ter continuação, mas rumores começaram a surgir quando a bilheteria ultrapassou o sucesso que se esperava. A produção demorou mais do que deveria para iniciar devido ao polêmico envolvimento do diretor casado, Rupert Sanders, com a atriz principal, a insossa e sempre boquiaberta Kristen Stewart, que na época namorava Robert Pattinson. O incidente "amoroso" sujou e denegriu a popularidade dos dois, o que fez o estúdio decidir pela suas demissões.

Não que eles fossem importantes, porque sabe-se que grande parte do sucesso do primeiro filme não foi pela direção pretenciosa de Sanders, que falhou feio ao tentar seguir a mesma cartilha épica de O Senhor dos Anéis. Também não foi por Stuart, que mesmo no auge da carreira naquele momento por conta da saga Crepúsculo, era incapaz de carregar um filme nas costas. E mesmo tendo Thor como o outro protagonista... digo, Chris Hemsworth, quem realmente salvou o filme do tédio e do fracasso foi Charlize Theron.

Esse segundo filme faz as vezes de uma pré continuação quando volta alguns anos antes do filme original para contar a história da irmã mais nova da bruxa má, Freya (Emily Blunt), que era doce e cândida até perder seu filho, libertando seus poderes de gelo com o trauma, numa metáfora ao "coração gelado" e à falta de sentimento que, mais cliché, impossível. Também conta a origem do Caçador (Chris Hemsworth), que agora é chamado por Eric, e como ele perdeu sua mulher, Sara (Jessica Chastain).

Próximo ao meio do filme a história dá um salto de sete anos, dando sequência à história original. Por motivos óbvios, Branca de Neve e seu reino são apenas mencionados. Ela é uma rainha querida, mas aos poucos enlouquecia por conta dos poderes do Espelho Mágico. Por causa disso ela ordena que o objeto encantado seja levado para um lugar seguro e muito distante, mas ele é roubado no meio do caminho e Eric, O Caçador, volta em cena para descobrir o paradeiro. Esse interlúdio é tão rápido que muita gente até se esquece, porém um tanto proposital para que praticamente nos esqueçamos do primeiro longa tão rápido quanto foi lembrado.

É no Espelho que Ravenna vive adormecida em um limbo, nem morta, nem viva, e ela é libertada quando sua irmã inadvertidamente pronuncia as palavras mágicas. Mas isso só vai acontecer quase ao final, quando o espectador já está cansado de tanto que os protagonistas andaram por toda a floresta encantada para travarem apenas uma balha infantil com uns Goblins com sangue de petróleo e que adoram ouro. Aliás de Goblin nada tem porque mais parecem grandes bodes raivosos.

Talvez para evitar o acontecido do primeiro filme, tanto Charlize Theron, quanto Emily Blunt, tem participações bastante comedidas para que não corra o risco de nenhuma delas roubar o grande destaque que deveria ser o casal protagonista. O caso de Charlize é mais sério, ao todo sua participação não deve durar 20 minutos, uma decepção para quem acreditou no trailer e foi ao cinema pensando que o filme seria apenas uma oportunidade de trazê-la de volta, mas ao contrário disso, usaram-na apenas como um pretexto para trazer uma história fraca de volta. Sim, porque o um casal é sem graça e em nenhum momento extravasa aquele imenso amor interrompido pela maldade da forma como deveria para expressar a simbologia e importância de tão tenro sentimento.

Não é novidade dizer que o filme se perde, primeiro porque Emily Blunt está em um de seus piores papéis. Limitada por figurinos pesados e visivelmente desconfortáveis em uma personagem que cultiva o ódio o tempo todo, mas de nenhuma forma é mostrada como uma pessoa má, mas confusa, que o espectador não consegue entender muito bem a razão de sair conquistando tudo que é território. Por uma hora ela tenta convencer de que é a mais poderosa das rainhas do Norte, até Ravenna aparecer e mostrar quem é a verdadeira dona da maldade.

Mas dura tão pouco e é tão exaustivo o mesmo discurso megalomaníaco sobre o poder versus amor, versus o ódio e versus Branca de Neve, que aquilo de Ravenna que era de interessante, e que foi a salvação do primeiro filme, perde totalmente o encanto e sentido dessa vez. Não que ela não continue roubando a cena, mas deixa de ser algo esperado, virando apenas um manequim de ousado figurino. O que acho sempre muito desgastante é o cinema obrigar personagens obscuros à redenção, como Ravenna pedir desculpas a sua irmã, ou Freya, depois de passar o filme todo como uma opressora do amor, mandando correio deselegante para todo mundo, no fim também se redimir para conquistar a empatia do espectador no último suspiro. Claro que a redenção é importante, no caso de Freya faria total sentido caso tivesse acontecido antes, e não depois de duas horas.

A história tenta ser aceitável porque consegue inventar um sentido para uma continuação caça-níquel, embora confusa e furada porque se esquece completamente do final do filme anterior e da relação do Caçador com Branca de Neve. Não é convincente. Sem falar do mal aproveitamento do tempo, deixando tudo longo demais para pouco daquilo que gostaríamos de ter visto: um filme de ação e fantasia, recheado de malabarismos, efeitos especiais, ou uma batalha épica entre Freya e Ravenna, caso Freya tivesse tomado consciência de sua maldade mais cedo. O que vemos é uma rainha chata, gelo de plástico, fadas, bichinhos coloridos na floresta, o Caçador tentando ser engraçado, cenários pobres, reviravoltas que mais parece indecisão de roteirista e diálogos ruins, ruins e ruins o tempo todo.

É um desperdício de talento, tempo e dinheiro. E por ser um filme com um elenco predominantemente feminino sem ser um filme para o gênero feminino, também é um desperdício de oportunidade. Me fico a perguntar porque os grandes nomes presentes se propuseram a fazer algo tão descartável e desinteressante como esse, onde ninguém é aproveitado como deveria e a produção falha por nem ao menos ter um visual deslumbrante como - de certa forma - foi o primeiro filme, e assim despistar de tantos desarranjos nesta tenebrosa estréia do diretor Cedric Nicolas-Troyan. Talvez se tivessem economizado no orçamento de US$115 milhões contratando um elenco mais barato, poderiam ter feito algo mais caprichado. O resultado foi um fiasco de bilheteria que assassinou a possibilidade de qualquer outra continuação. Ainda bem!

CONCLUSÃO...
O primeiro filme, que já não era bom, consegue ser melhor que o segundo, mesmo que o segundo não conte mais com Kristen Stewart.

CONFUSÃO ALÉM DA CONTA...

★★★☆☆☆☆☆☆☆
Título: Special Correspondents
Ano: 2016
Gênero: Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Ricky Gervais
Elenco: Ricky Gervais, Eric Bana, Vera Farmiga, Kevin Pollak, America Ferrera, Raul Castillo, Kelly Macdonald
País: Estados Unidos
Duração: 100 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um jornalista de rádio e um técnico de som colocam a nação em polvorosa ao serem sequestrados durante uma cobertura jornalistica em uma área de conflito na América do Sul, o que ninguém sabe é que nada disso é verdade, apenas eles.

O QUE TENHO A DIZER...
Muitas vezes um filme tem uma proposta interessante, mas se desenvolve de maneira bastante torta. É o que acontece nesse segundo longa metragem dirigido pelo comediante britânico Ricky Gervais, conhecido pela versão européia de The Office, que foi co-criado por ele e posteriormente ganhou uma versão norteamericana, por sinal muito melhor.

Gervais gosta de lidar com situações constrangedoras naquilo chamado de "cringe humor", que é aquele tal estilo que coloca personagens em situações de fazer o espectador literalmente se encolher (cringe) na poltrona de vergonha alheia. É um estilo que voltou com muita força nos últimos 10 anos, sendo o caminho do humor que a grande maioria das produções do Netflix tem seguido.

Isso é um grande problema porque o humor constrangedor tem que ter um propósito claro, caso contrário se torna banal. Um grande exemplo disso é outra produção original da Netflix chamado The Caracters, que mesmo com 8 episódios e inúmeras esquetes em cada um, não consegue ser equivalente em momentos realmente interessantes daquilo que eles prometem ser "a nova promessa de humor" no entretenimento. E tudo isso por causa do mau uso, ou banalização, desse tipo de comédia.

É por isso que dessa vez Gervais não consegue ter o mesmo êxito do seriado que o consagrou porque aqui as sequências de constrangimento que seu personagem passa (e demais também) é redundante e viciosa.

O filme na verdade é um remake de uma produção homônima francesa de 2009, a qual tenho que dizer que desconheço. Conta a história de Frank Bonneville (Eric Bana), um prepotente jornalista metido a celebridade que trabalha em uma rádio local, famoso não por suas notícias, mas por seu carisma e seu talento de fazer virar verdade histórias sensacionalistas que ele mesmo inventa. Ele é pego de surpresa por Geoffrey (Kevin Pollak), seu editor chefe, quando é escolhido para cobrir um perigoso conflito em Quito, no Equador. É então que entra Ian Finch (Gervais), um técnico de som que acompanhará Frank para garantir a qualidade de transmissão da cobertura jornalística. Embora Ian seja um excelente profissional, sua personalidade autodepreciativa e seu sentimento de inferioridade o transformam em um grande incompetente para lidar com seu próprio cotidiano, tanto que ele mesmo diz preferir jogar video game porque a vida nos jogos é mais interessante que a dele. Soma-se a isso um casamento falido com uma mulher que não o suporta. Eleonor (Vera Farmiga), é uma oportunista que se casou porque acreditou que ele seria alguém importante. Como nunca conseguiu ser, ela agora não vê a hora de dar um pé no marido que, dentre inúmeros hobbies, coleciona miniaturas da Marvel.

Porém, a caminho do aeroporto, deprimido porque sua mulher o abandonou, Ian joga fora, por engano, o envelope contendo as passagens de avião e o dinheiro necessário para a temporada em Quito. Por conta disso, Frank tem medo de ser demitido, e Ian tem a brilhante idéia de forjar a cobertura em Quito. Eles se instalam no andar de cima do restaurante do outro lado da rua onde trabalham, e que sempre frequentam, cujos donos é um casal de mexicanos. Então todas as tramas e conflitos começam, incluindo um sequestro inventado e o perigo de um terrorista político que igualmente não existe, situações que desenvolvem um quiprocó mundial que envolve até a presidência dos Estados Unidos.

A princípio o enredo é interessante, mas tudo já começa errado logo nos primeiros minutos, quando Frank é bajulado enquanto desfila pelas ruas da cidade com imponência e determinação. É errado porque é forçado nos momentos, cliché porque não há diálogos, mas frases de efeito, e previsível porque todos os personagens são esterotipados. Desde o princípio o espectador sabe que Frank é o espertalhão que se dará mal, e Ian é o mané que se dará bem; que Frank é o cara com a melhor idéia, mas Ian é o que saberá executar; que Frank é o bonitão que traça a gostosona, e Ian é o esquisito que leva o chifre do próprio colega.

Na essência, mesmo caricatos, são personagens interessantes, principalmente Frank, graças à competência de Bana, que consegue usar um charme canastrão para proteger as inseguranças e frustrações de seu personagem. Por outro lado, Ian é o antagonista que exterioriza aquilo que o protagonista esconde, e por isso que os dois tem mais em comum do que eles sequer imaginam, por isso também que eles se atritam, mas dependendem um do outro. O problema é que Gervais não se encaixa, parecendo uma caricatura que saiu de qualquer outro filme, menos do seu próprio, e a química de ambos se torna decepcionante e incompatível. Os constantes constrangimentos pelo qual Ian se faz passar parece não ter fim, diminuindo o nível de empatia ao ponto da intolerância. O mesmo acontece com o casal vivido por America Ferrera e Raul Castillo, a burrice exagerada chega ao ponto do inaceitável e o excesso de ingenuidade que eles carregam é até ofensivo. Vera Farmiga também não tem valor algum na história, reprisando um tipo vulgar e vazio que só causa tristeza em situações cômicas que naufragam como Bateau Mouche, como no momento que se torna uma "celebridade do sequestro".

Ou seja, nada parece ter propósito ou lugar na história, nem mesmo o carisma de Kelly Macdonald salva alguma coisa. Gervais pode ter tentado brincar com essas situações da mídia e o sensacionalismo no meio do grande espetáculo, mas o resultado é uma sátira inerte, que não constrói e nem destrói, uma vítima dela mesma - assim como seus próprios persongens - ao seguir o caminho do humor óbvio para nos espremer até um caldinho de risada escorrer.

Isso sem falar em grandes erros, como Ian ser um técnico para garantir a qualidade das transmissões, mas Frank fazer todos seus depoimentos jornalisticos por telefone. Quito também não é uma aldeia, e muito menos fica entre florestas ou desertos, sem contar que não adianta destruir chip de celular se o registro da última ligação pode ser rastreado da mesma forma. Enfim... nem mesmo para ser convincente na ficção consegue, e se há alguma piada no filme... são esses absurdos.

Não dá pra entender porque a Netflix tem produzido tanta coisa ruim ultimamente, indo completamente contra a proposta que teve quando começou a produzir seu próprio conteúdo. Talvez para preencher a buraco de sua videoteca entre o lançamento de uma produção consagrada e outra. É louvável que o serviço opte por ir contra a maré de Hollywood ao dar maior liberdade criativa e independência às suas produções, como foi o consagrado Beasts Of No Nation (2016), ou o documentário What Happened, Miss Simone? (2016), que concorreu ao Oscar de Melhor Documentário. Mas não foi o que seguiu com A Espada do Destino (2016), desastrosa continuação de O Tigre e o Dragão, e agora com esse duvidoso longa de Gervais. A impressão que se tem é que tudo aquilo que não passou pelo crivo de grandes estúdios tem caído nas mesas da empresa. Isso não é ruim, mas optar por aquilo que é descartado não deve ser sinônimo de má qualidade. Hollywood mesmo solta anualmente a chamada "lista negra", lista com roteiros elogiados mas que nunca chegaram à luz da produção. Eles deveriam se atentar nessa lista mais do que no volume de propostas nas mesas ao se tratar de longas metragens, caso queiram se relevantes no cenário, oferecer oportunidades e manter o nível de qualidade.

CONCLUSÃO...
Idéia boa, porém mau executada, como muito acontece. Gervais não é um nome que se esperava para dirigir e escrever esse longa, muito menos atuar. O que se vê é apenas um festival de personagens sem propósito, que se esforçam nas câmeras com frases de efeito, mas que passam longe do humor que se espera.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

ATERRORIZANTE SEM SER ASSUSTADOR...

★★★★★★★★☆☆
Título: A Bruxa (The Witch)
Ano: 2016
Gênero: Terror, Suspense
Classificação: 16 anos
Direção: Robert Eggers
Elenco: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw
País: Estados Unidos, Reino Unido, Canada, Brasil
Duração: 92 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma família passa a ser perturbada por eventos sobrenaturais causados por uma bruxa que vive nas florestas das redondezas.

O QUE TENHO A DIZER...
Em 1630, na Nova Inglaterra, William (Ralph Ineson) é julgado por desonrar as leis da comunidade puritana que vivia, contestando o falso uso da fé de seus líderes por interesses políticos. Condenado, ele e sua família são expulsos e se exilam em um pequeno território próximo a floresta, e embora as dificuldades de subsistência estivessem difíceis, tudo parecia bem e contornável até que o recém nascido da família desaparece inexplicavelmente sob os cuidados de sua irmã mais velha, Thomasin (Anya Taylor-Joy).

Seguido por um violino desafinado e ensurdecedor que transforma a floresta dos arredores em um grande protagonista amaldiçoado (também parte da crença que nebula o imaginário coletivo), posteriormente vemos uma cena perturbadora envolvendo o sacrifício da criança pela bruxa que o raptou. É então que o filme entra direto no tema sem pedir licença.

Dessa forma começa a estréia de Robert Eggers, um norteamericano fascinado desde criança por bruxas e suas histórias, que acreditou que, para se sentir realizado com um filme sobre isso, ele mesmo teria que fazê-lo, e fazê-lo bem.

E de fato conseguiu. É um filme de horror que não compra o espectador pelo susto, mas pelas ambivalências religiosas e sociais que o roteiro desenvolve quando a ambiguidade dos personagens se conflitam. Ambiguidade esta causada pela própria fé.

Quando a família é expulsa da comunidade, a vergonha se transforma em vulnerabilidade. Atravessar os portões para o lado de fora foi como marcá-los e condená-los à maldição eterna dentro do escopo religioso, afinal, contrariar uma comunidade religiosa é perigoso, e nada mais doloroso do que punir com a excomunhão, ou exílio.

Mas, mesmo o filme tendo um desenvolvimento que leve a crer de forma simplista que tudo seja uma grande punição divina em resultado à traição religiosa, na verdade os acontecimentos mostram que nem mesmo a soberana fé dos personagens conseguem impedí-los de tomarem decisões equivocadas que influenciarão diretamente na perpetuação de erros ou de falsos julgamentos, e que o mal de fato não vem do céu ou do inferno, mas de decisões próprias e alheias.

A história desempenha um papel tão interessante sobre isso que até o portavoz do Templo Satânico se pronunciou sobre ela, dizendo que "o filme sinaliza uma revolta contra os vestígios tiranos de fanáticas superstições", das quais muitas delas foram criadas pelos próprios protestantes que condenaram, torturaram e executaram aqueles acusados de bruxaria, e que de forma similar e igualmente tirana foi feita pelos Católicos durante a Inquisição por séculos antes.

(A ponto de esclarecimento, o Templo Satânico é uma influente organização novaiorquina ateísta e humanista. Ao contrário do que seu nome aparenta, seu ativismo político prega o igualitarismo, a justiça social e o separatismo entre igreja e Estado, comumente usando sátiras religiosas para argumentar suas críticas)

É um longa baseado historicamente, e enquanto esses mitos se constróem, a extrema devoção e o fanatismo religioso estragula a família protagonista, explorando os limites do controle e chegando aos extremos do incontrolável, onde eles mesmos se sabotam em detrimento da fé, e se algo de errado acontece é porque a fé e os esforços ainda não são suficientes.

O diretor usa e abusa de referências, seja em contos como João e Maria ou Chapeuzinho Vermelho; nos ícones mais conhecidos da cultura popular como lobos, maçãs, cabanas e florestas; ou na imagem cristã das diferentes formas do mal, como o bode, o corvo e a lebre. Ele também não se esquece do patriarcado e da representação da força da figura paterna nessa estrutura familiar e que William falha em vários aspectos justamente por ter concentrada em suas mãos todos os poderes de decisões.

Segundo o próprio diretor e roteirista, "a bruxa é uma figura que incorporou os medos dos homens e suas fantasias sobre elas, sejam boas ou ruins, além dos medos das mulheres sobre ambivalência materna em uma sociedade dominada pelo sexo masculino". Portanto, o filme também tem uma mensagem feminista em seu contexto. Isso não o torna feminista, mas considera o empoderamento da mulher e suas expressões culturais através dessas alegorias, onde o fim da personagem principal poderá significar tanto sua libertação de um mundo social e religiosamente doutrinado, quanto, para os mais fatalistas, sua saída de um pratiarcado para outro.

Logo, será um erro para aqueles que assistirem acreditando ser uma obra de sustos contínuos como a Bruxa de Blair (The Blair Witch, 1999) ou algo mais tradicional, mesmo se por alguns momentos o enredo levar a alguma similaridade pelo mito em comum.

Eggers, como diretor, consegue ser acertivo do início ao fim, sendo muito mais sugestivo do que explícito (mesmo o explícito existindo), criando um ambiente assustador que merge com perfeição as fantasias e metáforas, tirando do elenco o melhor de si, sem excessões (impressionantes as peformances dos atores mirins, que não ficam atrás de Linda Blair em O Exorcista), e a fotografia fria e acinzentada intensifica essa atmosfera estranha e incômoda.

Como roteirista, consegue ser linear e atencioso. Coerente. Não há um momento que a história se perca ou tente dar mais atenção a um ou outro fato pra intensificar arco dramático, tudo tem seu propósito para aparecer e acontecer. Ele na verdade nem se esforça para nos fazer tem empatia pelos personagens, e é isso que beneficia o tom realista, pois eles são falhos às suas fraquezas.

Frente a tudo isso, conforme o filme se aproxima do final, alguns acontecimentos podem parecer um pouco fora do tom, mas se considerarmos que ele desenvolveu tudo baseado entre a dúvida do que é fantasia e realidade, do exercício da fé até a sua perda, e que as decisões mais extremas que tomamos são sempre aquelas que contrariam essa tal fé, então é igualmente coerente. Sim, a Bruxa existe, mas até que ponto tudo é consequência dela, ou até que ponto tudo é parte do delírio coletivo resultante dos trauma que a família se expôs?

Não há dúvidas de que A Bruxa é um diferenciado exercício narrativo em Hollywood e no gênero. Eggers contar uma história de maneira clássica, ao mesmo tempo que vai contra a maré das receitas habituais do horror de susto fácil. Assim como os contos clássicos em si faziam, trazendo embutido morais com amplas e diferentes interpretações, o filme se destaca no grandioso feito de fazer o mesmo. Não é à toa que seu subtítulo original traz providencialmente a palavra "conto popular", pois não apenas pode ser consumido por qualquer um, como qualquer um terá abertura para interpretar à sua forma.

OBS: O filme também foi produzido por dois brasileiros, Rodrigo Teixeira e Lourenço Sant'Anna.

CONCLUSÃO...
Para aqueles que captarem toda essa morfologia (ou parte dela), o filme será muito mais do que algo aterrorizante e que foge da simplicidade do susto pelo susto. Independente por excelência, vem com uma proposta bastante diferenciada no gênero e que o transforma em algo consistente, sem deixar de cumprir o que promete. 

sexta-feira, 8 de abril de 2016

CONTINUAÇÃO SEM SER SEQUÊNCIA...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Rua Cloverfield, 10 (10 Cloverfield Lane)
Ano: 2016
Gênero: Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Dan Trachtenberg
Elenco: John Goodman, Mary Elizabeth Winstead, John Gallagher Jr.
País: Estados Unidos
Duração: 103 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Ao deixar sua casa e seu marido para trás, uma mulher sofre um acidente de carro e acorda em um abrigo subterrâneo enquanto o mundo enfrenta uma ameaça desconhecida.

O QUE TENHO A DIZER...
Em 2008, J.J. Abrams estava em ascensão na sua carreira de diretor de cinema e sua produtora, a Bad Robot, já muito bem estabelecida, trabalhava de vento em popa. E então ele produziu Cloverfield, que embarcou na moda das filmagens em primeira pessoa e deixou muita gente curiosa porque o marketing do filme pouco revelava algo. O filme foi um sucesso, embora pouca gente se lembre dele hoje.

Por conta do sucesso, desde seu lançamento, muito se falou de uma continuação. Abrams chegou a afirmar na época em que o filme ainda estava em cartaz que até já havia idéia para um próximo filme, mas que precisava ser maturada, pois a vontade era fazer alguma sequência que abordasse outros personagens dentro daqueles acontecimentos.

E agora, oito anos depois, é quando notamos que aquela idéia inicial realmente se maturou e se transformou nesse filme que de fato não é uma sequência, mas um fato paralelo que acontece dentro do mesmo universo e dos mesmos acontecimento do primeiro filme.

Não se pode ignorar que seja uma idéia interessante fugir da forma tradicional como a qual o cinema produz suas franquias, mas que poucos ousam fazer. Abrams agora está entre eles, e tal qual o primeiro filme, essa pseudo-continuação também foi entregue a um novato, o estreante Dan Trachtenberg, o qual, diga-se de passagem, consegue manter um nível de suspense que só vamos sentir quando o filme acaba e o corpo relaxa, de tão gradativa e pouco perceptível que é feita essa construção.

A história começa com Michelle (Mary Elizabeth Winstead) indo embora de casa e deixando seu marido para trás, mas no meio do caminho sofre um acidente de carro e acorda em um abrigo subterrâneo construído por Howard (John Goodman), que afirma que o mundo lá fora sofreu ataques biológicos que deixaram o ar tóxico.

Falar muito sobre a história é estragar o pouco que ela tem. Um pouco que funciona exatamente por ser simples, mas bem desenvolvida, e não fará a mínima diferença ter ou não assistido ao primeiro filme. Quer dizer... faz uma pequena diferença, tão mínima que pode ser ignorada.

Abrams tem uma mania de manter seus projetos sigilosos, e divulgá-los seguindo sempre esse mesmo esquema. Foi assim com o marketing de Cloverfield, e nesse filme não seria diferente porque todo o seu êxito é por conta disso.

Tanto o trailer, quanto as resenhas que surgiram depois, pouco revelaram da história, dos acontecimentos, ou dos personagens. É interessante que as pessoas realmente o assistam sabendo muito pouco, pois a experiência dele é justamente não saber do que se trata e o que sucede. Mesmo porque o roteiro não apenas constrói diversas dúvidas como também deixa muitas pontas soltas para que o próprio espectador interprete à sua forma e conforme sua experiência.

É garantido alguns tensos momentos, excepcionalmente pelas atuações. Goodman realmente é o casco de todo o filme, e Winstead também não fica para trás. Há um terceiro personagem pouco aproveitado que poderia facilmente ter sido riscado do roteiro. Mas no geral o desenvolvimento é da forma como se espera em um filme do gênero, e não deixa de ser previsível mesmo com tanto mistério. O bom é que os acontecimentos são bem divididos em um tempo de duração bastante aceitável, e mesmo que o final seja um pouco insosso, o grande trunfo é justamente não ser cansativo, mantendo tudo dentro de um ritmo ágil, sem tempo para ser disperso.

Foge do comum e mostra que continuações podem ter estruturas narrativas distintas, baixo orçamento e um pequeno espaço com bons atores. Claro, uma história que funcione, um bom diretor e um produtor que saiba como fazer espetáculo com pequenas coisas. E Abrams já provou várias vezes que sabe fazer isso da mesma forma como Spielberg, seu grande ídolo, já fez no passado.

CONCLUSÃO...
Mesmo sendo uma continuação, não é uma continuação. Ou é? Ou seja quase isso? O que é? Não se sabe. E é bom assim não saber, pois o filme brinca com dúvidas. Independente do que ele seja ou não seja, se goste ou não goste, Rua Cloverfield é uma idéia maturada e bem executada, que segue a linha da idéia original que o produtor Abrams tinha para possíveis continuações. Um fato paralelo dentro do primeiro filme, e por uma perspectiva bastante diferente.

segunda-feira, 28 de março de 2016

A PRESSA É O INIMIGO...

★★★★★☆☆☆☆☆
Título: Batman vs Superman - A Origem da Justiça (Batman vs Superman)
Ano: 2016
Gênero: Super Herói, Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Zack Snyder
Elenco: Henry Cavill, Ben Affleck, Jesse Eisenberg, Amy Adams, Gal Gadot, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Diane Lane
País: Estados Unidos
Duração: 151 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Batman e Superman duvidam das reais intenções heróicas um do outro, surgindo uma inimizade alimentada por um plano de Lex Luthor para que um conflito iminente entre eles aconteça.

O QUE TENHO A DIZER...
A Warner, detentora dos direitos da DC Comics, pode até ter sido um tanto que pioneira nas adaptações de quadrinhos, principalmente quando Tim Burton foi responsável por Batman, entre 1989 e 1991. Digam o que quiserem, sejam fãs ou não de suas adaptações, Burton mostrou que havia possibilidade de adaptar esses universos de outras formas sem descaracterizá-los. Tanto que aquilo que ele criou foi - e ainda é - referência. Basta assistir a trilogia de Christopher Nolan para ter a certeza absoluta disso. Os elementos básicos do ponto de vista criativo de Burton ainda estão lá, confirmados pelo próprio Nolan que afirmou na época que não tinha intenções de esquecer do legado deixado pelo diretor.

O grande problema é que a Warner nunca soube lidar com seus heróis no cinema, e coube à Marvel desbravar esse território com muita esperteza e coerência. A empresa não apenas está há 16 anos adaptando seus próprios heróis com sucesso como criou um novo gênero. Tal qual o estilo Faroeste se tornou um gênero ao longo das décadas, assim se tornaram os filmes de Super-Herois graças à Marvel. E quando essa reprodução assexuada de gêneros acontece, é sinal de que vieram para ficar em definitivo.

O que a Marvel fez foi algo realmente inédito. Criou um universo infinito e que se auto renova tal como seu universo nos quadrinhos. Mais do que isso, inventou uma fórmula, que vem sido repetida com sucesso há aproximadamente uma década, já mostrando sinais de cansaço, mas que ainda funciona.

Apenas os filmes baseados nos heróis da Marvel já arrecadaram no mundo, em uma conta bem rápida, em torno de US$15 bilhões ao longo desses 16 anos. O que é mais que a soma de vários títulos de diversos estúdios por aí no mesmo período.

A intenção de levar A Liga da Justiça para o cinema sempre existiu e os fãs sempre clamaram por isso, mas o milhonário orçamento (que entre 2000 e 2010 beirava os US$350 milhões), assustava e inviava o projeto. Foi com a ousadia da Marvel na reunião de heróis em Os Vingadores (The Avengers, 2012) que a Warner finalmente sacou que isso era possível, e então retomaram a idéia para abocanhar sua parte em um mercado tão lucrativo.

O diferencial da Marvel é que ela, por quase uma década, amaciou o mercado em doses homeopáticas até Os Vingadores se tornar uma trilogia em quatro partes (é isso mesmo), coisa que a Warner não fez em nenhum momento. E como que a correr contra o tempo e compensar a falta de estratégia, resolveu fazer de A Origem da Justiça o ponto de partida de sua empreitada, tentando (reforço: tentando) seguir os mesmos passos e, quiçá, reinventar a fórmula da rival.

Embora Batman sempre seja um sucesso até mesmo quando seja ruim (como as tristes adaptações de Joel Schumacher nos anos 90), o mesmo não se diz mais sobre Superman, um herói alienígena simples que vive a favor da humanidade, sem grandes complexidades, iconizado, solidificado e enferrujado no tempo. Por isso que a adaptação de Bryan Singer não foi mais do que um boo-hoo nostálgico, enquanto o reboot desnecessário de Zack Snyder foi uma tentativa fracassada de obscurecer e dramatizar o herói em um festival de exageros que cometeu o erro mais clássico de todos, e que Burton, lá atrás, já ensinava não fazer: descaracterizar o personagem.

Aliás, é um tanto esquisita a escolha de Zack Snyder para continuar a franquia, já que O Homem de Aço (Man Of Steel, 2013) não recebeu críticas muito positivas, tal qual os filmes anteriores do diretor. Talvez tenha sido a pressa do estúdio em desenvolver esse universo da DC no cinema, ou a falta de disponibilidade de algum diretor mais competente já que, apesar de todos os defeitos de Snyder, seus filmes são visualmente marcantes, como foi 300 (2006) - talvez seu único trabalho digno de nota.

E esse é o grande problema do diretor, pois ele consegue engrandecer personagens em imagens, usando filtros, angulações de câmera, enquadramentos e efeitos que os enaltecem em fotografias bastante cartoonizadas, como quadrinhos pintados por Alex Ross, mas ao mesmo tempo os personagens sofrem nos desenvolvimentos exagerados para coisas muito simples, resultando tudo numa densidade tão profunda quanto um pires.

Isso tudo é notório naquele que foi seu mais ambicioso projeto até hoje, o filme Sucker Punch (2011), visualmente deslumbrante, mas vazio, um exemplar daquilo que se deve e ao mesmo tempo não se deve fazer no cinema fantasioso.

E o tom de A Origem da Justiça é o mesmo. Snyder engrandece os heróis através desse surrealismo das imagens, transformando em titãs os dois personagens principais, além de fazer a participação de Mulher Maravilha (Gal Gadot) ser distanciada de qualquer cafonice de outrora, fazendo valer a interminável espera por sua aparição nos cinemas. Mas isso tudo dura muito pouco e decepciona no resultado final.

A história é uma continuação direta de Homem de Aço, tanto que na sequência inicial revemos a destruição de Metropolis durante a batalha de Superman (Henry Cavill) com o General Zod através do ponto de vista de Bruce Wayne (Ben Affleck), e só vai entender dessa forma quem assistiu ao filme anterior. Para quem não assistiu, a cena será como algo aleatório e sem sentido. A partir daí alguns meses se passam, e Wayne tenta responsabilizar Superman pelo grande massacre civil ocorrido naquele evento. Ao mesmo tempo, Superman considera Batman um mercenário perigoso pela forma tirana com que lida com as coisas, e através de sua identidade de Clark Kent, tanta expô-lo dessa forma usando o Planeta Diário para isso. Enquanto isso, Lex Luthor (Jesse Eisenberg) precisa tirar Superman de seu caminho, aquecendo essa rivalidade ao maquinar um plano "diabólico" para que Batman se volte contra Superman, e vice-versa.

O enredo é até interessante, e se teve algo realmente bom em toda a história foi o ponto de partida de tudo porque os roteiristas utilizaram as críticas que O Homem de Aço recebeu para favorecer a trama. Na época os críticos pelo mundo levantaram a questão de que, já que Superman é um herói e sua missão é salvar vidas, foi bastante incoerente o filme fazê-lo destruir mais da metade da cidade e matar mais gente do que salvar. Foi um grande erro na história e na personalidade do herói simplesmente para favorecer a ação barata e o espetáculo de efeitos visuais que transformou o filme em um disaster movie por excelência. Então, ponto positivo para o roteiro que usou a própria realidade como referência e transformou essas críticas em parte dos questionamentos de Wayne sobre a conduta de Superman.

Só que, se por um lado o começo parecia interessante e promissor, o desenvolvimento de tudo se mostra desastroso. Há uma incoerência de situações e cronologia que não convencem, a começar pela visível diferença de idade entre os personagens. Luthor é mais jovem que Superman, e Batman é mais velho que todos. A impressão que se tem é que tiraram Luthor do seriado Smallville (2001-2011) e o velho Batman de sua versão da série em quadrinhos O Reino do Amanhã (Kingdom Come, 1996), no qual está 20 anos mais velho e sem credibilidade.

Eisenberg dá uma caricatura a Luthor que mais irrita do que impressiona, fazendo do personagem um repeteco empobrecido do Coringa, longe, mas muito longe da diversão que era a versão canastrona de Gene Hackman, ou até mesmo na versão mais sisuda de Kevin Spacey. E falando em distância, o que dizer sobre Cavill? Tão longe da candura de Christopher Reeve, ou tão longe da doçura de Brandon Routh. A personalidade agora introspectiva e cascuda é coerente com algumas fases negras do herói nos quadrinhos e na sua crescente perda de esperança nos humanos, mas no cinema aparenta descaracterizado porque em nenhum momento houve uma construção que levasse a esse ponto com consistência.

Triste também é Lois Lane (Amy Adams), que assim como no filme anterior, entra e sai correndo de cena sem motivos. E por mais que Martha Kent (Diane Lane) tenha uma certa importância na conclusão da história, ela na verdade só aparece para literalmente nos lembrar a todo instante que é mãe do herói e nada mais. Duas atrizes desperdiçadas, que poderiam ter sido poupadas tanto quanto Jeremy Irons no mais insosso Alfred que existe, ou Holly Hunter como a Senadora Finch, que poderia ter sido um excelente acréscimo em toda a franquia como o único grande ponto mediador entre humanos e meta-humanos.

Por incrível que pareça, Ben Affleck é o único que consegue atuar no meio de tudo, o que prova que seus cabelos brancos valeram para algo em uma carreira de ator que mostrou-se melhor na direção. Anos luz distante da interpretação constrangedora de Demolidor (Daredevil, 2003), aquilo que parecia um equívoco supreendentemente não atrapalha. As cenas de batalha de seu personagem são as épicas batalhas de Batman por excelência, cheia de malabarismos, arsenais tecnológicos e porrada. Muita porrada bruta e seca de um Batman velho e impaciente, que deixou a tática de lado para encarar tudo de frente. Se o filme fosse apenas dele - o que quase é - teria sido muito mais empolgante.

E são em sequências como essa que vale a pena assisti-lo, mas tem que ter muita paciência. Snyder arrasta a história desnecessariamente em um filme que consegue ser mais longo que Os Vingadores em sequências de dar bocejo em gente grande. A diferença é que Os Vingadores tem todo um background que fortalece sua história, o que não acontece aqui. Ao contrário, o excesso de informação, de tramas e subtramas é justamente para, como dito acima, compensar o que não se fez até hoje.

Então, o filme parte do errôneo princípio de que nada antes dele aconteceu e que nenhum dos personagens já tiveram suas histórias contadas inúmeras vezes antes. Fica difícil nos convencermos de que eles não conseguem compreender seus métodos de justiça e que ignoram completamente seus atos heróicos pregressos. O roteiro poderia ter sido mais sucinto e usado Lex Luthor de uma forma mais inteligente para gerar uma conspiração mais convincente, menos forçada e artificial como é. Mas ao invés disso trata o espectador até com certa ignorância, pois a maneira como os heróis se tornam inimigos é feita de forma tão banal como se Gothan City e Metropolis fossem dois mundos completamente diferentes e distantes, e que nenhum deles nunca tivesse ouvido falar um do outro ou de suas intenções. Se a rivalidade tivesse surgido por uma coisa mais simples ou cliché como inveja pela popularidade ou pela importância de algum deles, acredite... teria sido muito mais interessante.

Mas mais banal ainda é a hora errada em que certas verdades são reveladas justamente por quem fez segredo sobre elas durante toda a trama capenga, estragando em definitivo o grande efeito surpresa do tão esperado duelo. É frustrante e simplório como magicamente a intriga se resolve depois de Batman passar mais de uma hora sangrando os olhos para destruir um arqui-inimigo que, na verdade, nem ele sabe de verdade porque é. E então, pra compensar esse grande e horroroso desfecho, o vilão Doomsday (que mais parece um troll burro do Senhor dos Anéis) surge em sequências de computação gráfica bem ruins, onde insistem na idéia de que para um monstro ser assustador ele tem que gritar e soltar o bafo fedorento contra a câmera. Tudo muito no escuro para tentar disfarçar defeitos indisfarçáveis, entre um e outro momento dramático profundamente dispensáveis. Aliás, Snyder não se cansa do escuro e dos filtros borrados, coisas que ficam muito piores no 3D.

O roteiro foi estranhamente escrito por Chris Terrio e David Goyer. Estranhamente porque Terrio foi o responsável pelo roteiro de Argo (2012), por sinal dirigido por Affleck, um filme simples com um desenvolvimento empolgante e comedido, elogiado exatamente por isso. E Goyer foi responsável pela trilogia O Cavaleiro das Trevas, de Nolan, elogiados justamente pela trama bem costurada e desenvolvida sem rebosteios. Então é espantoso ver dois roteiristas talentosos e com qualidades tão interessantes oferecerem algo tão desorientado e redigido às pressas, o que prova novamente que o diretor simplesmente deu qualquer atenção a isso.

Não é à toa que a crítica não tem sido favorável, da mesma forma como ele não foi o estrondoso sucesso que se esperava em seu final de semana de estréia. Claro que foi uma estréia boa (US$170 milhões), mas não ultrapassou a de Os Vingadores (US$207 milhões). Portanto acredita-se que o interesse pelo filme caia como uma pedra no oceano nas próximas semanas, e que chegar a US$1 bilhão se torne uma missão custosa, já que é essa a cifra que garantirá as próximas continuações.

O que algumas pessoas me perguntaram, e foi o que perguntei quando pessoas que eu conheço assistiram antes de mim, é se vale a pena e é legal. Vale a pena e é legal, não por todo o produto em si, mas pela materialização da idéia. Ver os três heróis juntos, agigantados na megalomania visual de Snyder, mesmo que por um breve momento, parece valer o preço do ingresso. Mas a história, não se pode negar, por mais que os fãs argumentem nos fóruns por aí, é banal e até ridícula.

Como um todo, vai agradar os fãs mais desesperados e aqueles que pouco se importam com o resto além da ação - e que também há pouco, diga-se de passagem - embora é possível ver que muitos deles sairam desapontados do cinema. A grande preocupação é se a próxima sequência, já entitulada como A Liga da Justiça, cairá nos mesmos problemas, já que insistirão do tenebroso erro de manter Snyder na direção, diretor que provou por A + B que, fora o seu próprio ego, não tem talento suficiente para sustentar outras coisas grandiosas.

CONCLUSÃO...
Aparentemente não é um tipo de filme para ser inteligente, mas o que diferencia as histórias da DC da Marvel é justamente o fato das histórias da DC serem mais densas e adultas, com tramas mais elaboradas, sem muitos alívios cômicos e que fogem do habitual sem deixar de entreter como se deve. Baseando-se nos roteiristas, poderia ter tido o desenvolvimento simples de Argo, com uma trama melhor elaborada como foi O Cavaleiro das Trevas, mas ao invés desse desenvolvimento simples, focado e efetivo, é um filme disperso, cheio de reviravoltas desnecessárias para dar a falsa impressão de grandiosidade que ele de fato não tem. E se existe um verdadeiro inimigo em tudo isso, ele se chama "pressa", algo que a Marvel não teve e, por isso, se manterá no pódio por mais alguns bons anos.

sexta-feira, 11 de março de 2016

DEMOROU...

★★★★★★★☆☆☆
Título: A Visita (The Visit)
Ano: 2015
Gênero: Suspense, Terror, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: M. Night Shyamalan
Elenco: Olivia DeJonge, Ed Oxenbold, Deanna Dunagan, Peter McRobbie, Kathryn Hann
País: Estados Unidos
Duração: 94 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um casal de irmãos decide documentar a visita de uma semana que fazem aos avós que nunca conheceram.

O QUE TENHO A DIZER...
O indiano M. Night Shyamalan teve uma ascensão muito rápida e brusca com O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999), talvez o filme que tenha realmente resgatado o terror do ostracismo que viveu nos anos 90. O sucesso do filme o catapultou, da noite para o dia, para a lista dos 10 principais diretores da época, posição que conseguiu manter, entre tropeços, até seu terceiro longa, Sinais (Signs, 2002). A partir de então, seus sete filmes seguintes desceram uma ladeira sem freio no desgosto. A única coisa que o manteve ativo na indústria foi o fato de suas produções ainda serem lucrativas por conta da curiosidade do público. Com os anos, Shyamalan se tornou um nome esquecido no tempo, ficando na memória aqueles poucos filmes de início de carreira, e na fila, aqueles poucos gatos pingados de fãs xiitas esperançosos de que, algum dia, ele voltasse à sua forma.

Desde o princípio, ele nunca escondeu sua vontade de ser um grande nome no cinema, aquele onde as pessoas conseguissem identificá-lo simplesmente assistindo seus filmes. Chegou até a citar como exemplo de objetivo, seu grande ídolo, Spielberg. É por isso que também cultiva a imagem de "diretor autoral", por também escrever histórias originais para todos os filmes que dirige, com excessão de O Último Mestre do Ar (The Last Airbender, 2010) e Depois da Terra (After Earth, 2013), adaptações dizimadas pela crítica sem dó nem piedade.

De certa forma ele conseguiu ser esse grande nome, mais pela má fama do que o contrário, porque aquilo que era pra ser um grande diferencial de sucesso, na verdade pouco significou em sua carreira. Shyamalan nunca conseguiu oferecer o mesmo impacto do seu primeiro grande sucesso, o qual sempre buscou e viveu sob a sombra, muito menos conseguiu se provar um grande roteirista. Suas produções passaram a virar piadas de críticos pelo mundo afora, que consideraram seus "finais inesperados" um padrão desconfortável porque apostavam na falta de lógica para causar surpresa fácil, se tornando experiências mais frustrantes do que surpreendentes apenas para manterem sua assinatura autoral enquanto subestimava a inteligência das pessoas.

Ele reconheceu a brusca queda de qualidade de seus filmes, e atribuiu a culpa aos estúdios, alegando que trabalhar para eles exigia abrir mão da liberdade artística.

Por isso que, na tentativa de conseguir novamente esse controle, A Visita é um filme independente e o mais barato de sua carreira.

Funcionou?

Em partes.

É claro que ele segue o mesmo estilo narrativo de todos seus filmes anteriores, a diferença é o formato documentado, desgastado ao longo da última década, mas que funciona mesmo assim por ser imediatista, já que na maior parte do tempo somos os "olhos" dos protagonistas, e é isso que facilita os sustos e justifica certa previsibilidade. Claro que há aqueles momentos que deixar a câmera ligada ou até mesmo carregá-la em todo e qualquer lugar não faz sentido, ou nos já manjados momentos de "confessionário" como acontece em todo filme com esse formato. Então, mesmo usando um estilo que ofereça mais liberdade, é impossível ignorar essas artificialidades.

Não é uma história confusa, tudo é até bastante simples e que funciona em grande parte por isso e pelo bom uso dos elementos surpresa até mesmo quando clichés. Mas o mais interessante é que, embora o roteiro de Shyamalan ainda pereça dos mesmos defeitos de sempre, como a falta de coerência de alguns fatos, ou o excesso de informações disconexas que pouco fazem sentido na história, há um humor ambíguo que intensifica a atmosfera inquieta e perturbadora que ele constrói.

Da mesma forma como fez interessante uso do ícone do herói e do vilão em Corpo Fechado (Unbreakable, 2000), aqui ele faz uso de simbologias sociais, como a de que crianças são meigas e idosos inofensivos, ou vice-versa. E quando as coisas se mostram não ser bem assim, e a bizarrice do casal de idosos junto à curiosidade ainda infantil do casal de irmãos entram em conflito, é esse contraste interessante que faz aflorar o humor negro junto ao horror clássico e mais técnico.

O diretor afirmou ter feito três versões do filme: uma cômica, uma assustadora, e outra que ficasse no meio termo. A versão final optou pela terceira opção. Óbvio que nada seria tão efetivo se não fossem os atores, principalmente a avó (Deanna Dunagan), uma figura que é esquisita logo de cara, e Tyler (Ed Oxenbould), a personificação da Formiga Atômica e do humor cartoonizado, pois os dois são os extremos dos dois estilos que se fundem muito bem e que igualmente funcionam muito bem sozinhos.

Há momentos em que muita coisa não faz sentido, que o espectador mais atento irá perceber e que não dá pra citar sem estragar as surpresas, mas são defeitos que, ao contrário de seus últimos filmes, conseguem ser perdoáveis e irrelevantes.

Mais uma vez ele aposta na reviravolta final da trama, só que deixa o absurdo de lado e opta pela simplicidade funcional como há muito, muito tempo não fazia, talvez desde Corpo Fechado. A conclusão um tanto repentina pode acabar frustrando, como geralmente seus filmes fazem, mas não dá pra negar que o fim entre num terreno de brutalidade psicológica que ele nunca havia pisado antes.

O interessante de Shyamalan é que realmente ele é melhor diretor que roteirista, conseguindo construir atmosferas apreensivas e conduzir o espectador para os temores do desconhecido que poucos outros conseguem, e ainda por cima dar um tom espiritual em tudo. O problema é que esse desenvolvimento vai tão longe e atinge um ápice com tanta força que a conclusão não consegue superar ou manter o mesmo nível, se tornando simplória demais, fadada a um final banal. Não que isso aconteça aqui, mas é o que vemos em seus filmes no geral.

Felizmente o resultado não é tão frustrante, e A Visita é um misto bem interessante de humor e terror, enquanto o primeiro é mais sutil e o segundo se fortalece mais a cada nova sequência. Independente da previsibilidade, ele cumpre os sustos que promete e vai deixar muita gente que andava desgostada, satisfeita.

CONCLUSÃO...
Se é o retorno de Shyamalan à sua forma, ou a retomada do controle criativo daquilo que ele produz, ainda é cedo dizer, mas não há dúvidas de que é o primeiro filme que realmente pode ser chamado de interessante depois de longos anos. Um pedido de desculpas àqueles que esperaram por tanto tempo algo, no mínimo, divertido.

quinta-feira, 3 de março de 2016

SESSÃO DA TARDE OU DE DOMINGO...

★★★★★☆☆☆☆☆
Título: Já Estou Com Saudades (Miss You Already)
Ano: 2015
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: Catherine Hardwicke
Elenco: Toni Collette, Drew Barrymore
País: Reino Unido
Duração: 112 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A longa amizade de duas amigas é testada quando uma delas descobre estar com câncer.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando se fala em duas amigas, na qual uma delas fica doente, é impossível não se lembrar da comédia dramática de Garry Marshal, Amigas Para Sempre (Beaches, 1988), talvez o exemplo máximo do dramalhão norteamericano feito para o público feminino.

Mas o que fez dele um clássico do lenço molhado foi a parceria perfeita de Bette Midler e Barbara Hershey, além de uma história que não apenas é comovente como também havia subtramas cômicas que davam consistência ao filme, como os altos e baixos da carreira artística da personagem CC Bloom (Midler) até sua ascensão à fama, que por consequência renderam números musicais memoráveis no filme e uma trilha sonora digna de nota, tudo feito maravilhosamente por Bette Midler.

Difícil achar um filme que seja tão cliché e, ao mesmo tempo, que tenha dado tão certo quanto o filme de Garry Marshal. Nem mesmo Chris Columbus, um dos mestres do cinema comercial dos anos 90, conseguiu fazer de Lado a Lado (Stepmom, 1998) algo tão interessante quanto, nem mesmo com Julia Roberts e Susan Sarandon encabeçando o elenco.

Portanto, é difícil esperar que um filme com basicamente o mesmo tema dê muito certo nas mãos de Catherine Hardwicke que, convenhamos, não é tão boa diretora assim para conseguir lidar com um tema tão batido de maneira que atraia o interesse do espectador como se fosse novidade.

Mesmo tendo excelentes intenções no cenário cinematográfico e de empoderamento das mulheres ao se dedicar a filmes que tenham temáticas, elenco e equipe mais femininas, além de todos os roteiros de seus longas terem sido escritos por mulheres (ou em parceria com elas), é impossível em casos como esse de evitar cair no cliché até leviano.

Foram poucas as vezes que Hardwicke realmente ousou e deu certo, como fez no filme Aos 13 (Thirteen, 2003), em Os Reis de Dogtown (Lords Of Dogtown, 2005) ou até mesmo no seu mais recente curta metragem, Till It Happens To You (2015). Tanto é assim que o esforço para levar a trama por caminhos alternativos é bastante evidente, mas a roteirista Morwenna Banks apenas roda e roda para acabar caindo no mesmo lugar.

O trabalho que Toni Collette e Drew Barrymore desenvolvem é bastante interessante e até convincente porque as duas oferecem situações dramáticas e cômicas da mesma forma e em diferentes ocasiões, equilibrando e até mantendo o filme dentro de um platô seguro que não caia nem na piada pronta, e nem no choro fácil, até mesmo quando Collette resolve fazer a clássica cena de raspar os cabelos em frente a câmera.

Mas elas carregam o filme nas costas, tanto que é possível até sentir um certo cansaço de ambas para que tudo dê certo e funcione. A direção deixa a desejar, e sua opção pela câmera constantemente na mão e excesso de planos fechados, sempre focalizando mais o rosto das atrizes do que toda a cena e sua composição, são muito enjoativos. É como se ela pressionasse o espectador para notarem como elas estão sendo hilárias ou como elas estão sendo dramáticas. Não é assim que se constrói emoções e sentimentos.

Banks desenvolve uma trama extremamente difícil para as mulheres, que é o câncer de mama e as transformações durante o processo que interferem brutalmente no psicológico e na feminilidade da mulher, como a perda dos cabelos, a mutilação cirúrgica, o medo da rejeição e preconceito. E apesar de tantos erros essas situações até são construídas de maneira respeitosa e delicada, o que é bom e até um alívio.

As tramas paralelas também se desenvolvem sem tantos exageros, mas como todos os problemas que surgem são em decorrência da doença de Milly (Toni Collette) e suas consequências, esse efeito dominó no filme não é muito bem organizado, ficando pouco convincente e aleatório, como quando Jess (Drew Barrymore) afirma que Milly tem agido como alguém que usa a doença como desculpa para seus erros e problemas, quando o que ela mais fez durante a maior parte do filme foi totalmente o contrário. E aí fica bastante óbvio que, para criar um conflito momentâneo necessário para uma reviravolta estrutural na história, o roteiro tenta nos convencer de algo que ele não havia desenvolvido com clareza até então.

A relação de ambas só vai ficar realmente complicada no fim, quando a possibilidade de Milly se recuperar diminui cada vez mais. Como todo bom drama, é nesse ponto em que as atrizes dão tudo de si e fica impossível segurar as lágrimas e se sensibilizar de fato com toda a situação.

Mas como um todo, apesar de ser um tema pesado, essa tentativa de Hardwicke e Banks em tentar optar por caminhos alternativos aliviaram bastante o peso do drama inútil, e o bom humor predomina nos principais momentos. A pena de tudo é ser uma zona complicada demais para se explorar, porque já foi explorada com exaustão por outros diretores, sendo pouquíssimos os que se bem sucederam.

CONCLUSÃO...
Em resumo é mais um filme sessão da tarde ou de domingo, e que mesmo sendo bastante feminino, não é apenas para mulheres. Catherine Hardwicke e a roteirista Morwenna Banks até tentam sair da receita comum de se fazer um drama, mas é inevitável uma hora ou outra.

quarta-feira, 2 de março de 2016

NOSSOS 30 ANOS...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Mistress America
Ano: 2015
Gênero: Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: Noah Baumbach
Elenco: Greta Gerwig, Lola Kirk
País: Estados Unidos, Brasil
Duração: 84 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A vida de Tracy era sem graça e desmotivante, até conhecer sua irmã postiça, Brooke.

O QUE TENHO A DIZER...
Se é fixação de Greta Gerwig em estar perdida no que ser ou fazer nos redores dos 30 anos em Nova York, então parece até justo considerá-la uma excelente aspirante a uma versão feminina, mais contemporânea e despretenciosa de Woody Allen. O que é uma excelente coisa visto que o cinema atualmente carece dessa autoria mais introspectiva, utilizando o cotidiano como uma análise pessoal de escolhas e vontades, e como ele interfere em tudo isso.

Em Frances Ha (2012), filme também dirigido por Baumbach e estrelado por Gerwig (e escrito pelos dois), a protagonista estava prestes a completar 30 anos e se encontrava na difícil situação de se encaixar em algum lugar. O que salvava Frances de crises existenciais era seu inabalável otimismo, que mesmo sem ter onde morar ou dinheiro para comer, conseguia enxergar nas pequenas coisas um motivo para seguir em frente. De qualquer forma, dentro de Frances havia uma frustração, uma agonia por ainda não ter conseguido chegar lá, naquele lugar que ela não sabia exatamente qual era.

Aqui a narrativa é pelo ponto de vista de Tracy (Lola Kirke), uma jovem que acabou de completar 20 anos e que está tendo dificuldades de se adaptar na rotina acadêmica da faculdade por sofrer de procrastinação e pela maneira um tanto inútil com que as matérias são conduzidas. Ela se sente desencaixada do mundo, pois as pessoas a sua volta não pensam como ela e não agem de maneira bastante inteligente como ela espera. Seu hobbie é escrever histórias, e sua aspiração é ser um dia uma grande e reconhecida escritora de sucesso, interessante e rodeada de pessoas importantes em um belo apartamento. Sua atual frustração é não conseguir fazer parte do seleto clube literário da faculdade, o único lugar no qual tem real interesse e acredita que será o ponto de partida de seu promissor futuro. Enquanto não consegue ser aceita pelo grupo, divide seu tempo trocando e comentando textos com seu único amigo e confidente, Tony (Matthew Shear).

Se ignorássemos a sinopse, seria até fácil imaginar que a atriz Lola Kirk representasse uma versão adolescente da protagonista e que a qualquer momento Gerwig entraria em cena em outro espaço e tempo como uma versão mais madura e atual, já que o início do filme causa essa impressão, além de Kirk ter uma semelhança física e comportamental com Gerwig muito grande. Mas na verdade Gerwig é Brooke, a irmã postiça que Tracy terá assim que seus respectivos pais se casarem. Elas não se conheciam, e quando isso acontece a identificação de ambas é imediata, quase simbiótica. O estilo de vida de Brooke, junto com sua personalidade extrovertida, livre e cativante a faz ser uma personagem marcante de uma fantasia que Tracy alimenta para si, aquilo que ela gostaria de ser, mas não imagina um futuro que a faça ser. E a partir de um comentário fantasioso de sua nova irmã, junto com todas as saudáveis impressões construídas, tudo a incentiva escrever sobre isso, e então a Mistress America do título (ou Dona America) surge, em conotação ao seu grande poder e importância.

Toda essa determinação e autoconfiança de Brooke nada mais são do que autodefesas para sua frustração e insatisfação em estar nos seus 30 anos mas sem ter conquistado algo sólido. Como ela mesma caracteriza, uma fase em que a cada ano que se passa as vontades aumentam e se tornam maiores porque as possibilidades se tornam cada vez menores. E tudo na vida da personagem agora se baseia apenas nisso. E por não ser um drama, o que faz toda essa desconfortante situação não se tornar um peso que puxe o filme para baixo é, justamente, o otimismo.

Sim, é como se Brooke desse sequência à vida de Frances na parceria anterior de Noah Baumbach e Greta Gerwig, onde Frances representa o começo de uma vida adulta insegura e indeterminada, e Brooke seja a segunda fase desse processo, em que o foco existe, mas as possibilidades ainda sejam limitadas. Ao mesmo tempo Tracy é um meio termo entre duas personagens tão cotidianas, talvez a caracterização da motivação que as fazem seguir em frente, independente das dificuldades.

É mais um filme interessante dos dois, que dá oportunidade para Gerwig novamente explorar esses conflitos e contradições da vida adulta jovem no seu tom bem humorado, peculiar e despretencioso. Uma visão um tanto "aestética" da realidade, ou seja, com certo tom de improviso, que não segue padrões estéticos convencionas, tal como uma música de Clarisse Falcão, em que tudo a princípio parece não ter ordem nem sentido, mas no fim tem compasso e coerência. E mesmo Gerwig saindo do protagonismo e dando maior espaço para Lola Kirk brilhar, é impossível não dar atenção ao seu carisma, sendo ele quem toma conta de toda a história no fim das contas.

E para Noah Baumbach, que dirige e também divide o roteiro com Gerwig, toda essa visão tragicômica das coisas é um prato cheio para sua perspicácia que igualmente evita o comum sem deixar de lado a vitalidade clássica das coisas, seja na segurança com que conduz as cenas, seja no caos organizado que consegue criar principalmente quando a história engata em alguma situação absurda que promete, como a visita de Brooke a uma antiga colega. É quando percebemos que o roteiro é muito mais sólido do que simplesmente um slice of life (representação de um pedaço da vida ou do cotidiano), mas um condensado contundente de que muitas das nossas vontades e aspirações afloram com o sucesso de outros, e sem querer essa cobiça se transforma em nossas piores frustrações numa cadeia que não tem idade para começar e nem para terminar.

O filme é leve e sem pretenções alguma, assim como foi Frances Ha, e nem por isso deixa de fazer seu espectador pensar sobre a vida ou se identificar com esses filmes e personagens. E tudo isso de forma muito simples e acessível, sem necessidade alguma de tomadas longas com discursos existenciais complexos e alienantes, pelo contrário, tudo dentro de um humor simples, inspirador e motivante.

CONCLUSÃO...
A parceria entre Baumbach e Gerwig é como Tracy e Brooke, e Mistress é mais um filme dos dois que dá certo e que de novo nos leva a fases complicadas da vida, mas que os dois conseguem sintetizar tudo com delicadeza e simplicidade.

terça-feira, 1 de março de 2016

MUDANÇAS E VALORES...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: O Verão do Skylab (Le Skylab)
Ano: 2011
Gênero: Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: Julie Delpy
Elenco: Julie Delpy, Eric Elmosnino, Emmanuelle Riva, Denis Menochet
País: França
Duração: 114 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Durante o verão de 1979, toda uma família francesa se reune para comemorar os 67 anos da matriarca, e aquilo que parecia uma reunião, se transformou em uma experiência marcante e transformadora.

O QUE TENHO A DIZER...
Julie Delpy é um daqueles multitalentos que raramente se vê. Ela dirige, escreve, atua, edita, compõe e canta. E é difícil citar apenas um que ela seja boa porque faz todos muito bem. Fazer parte da trilogia Antes do Amanhecer, Antes do Por do Sol e Antes da Meia Noite, não é o suficiente para resumir seu talento. Embora a abordagem aqui seja completamente diferente da comédia romântica 2 Dias Em Paris (2 Days In Paris, 2007), ou no drama histórico A Condessa (The Countess, 2009), Skylab não deixa de ser igualmente interessante.

Em uma viagem de trem com seu marido e filhos, Albertine (Karin Vilard) tenta reorganizar os passageiros do vagão para que sua família possa ficar unida. Sem sucesso, ela se senta separada dos demais, e por um momento se permite voltar ao passado. Suas memórias voltam ao verão de 1979, quando tinha apenas 11 anos e sua grandiosa família se reune às vésperas da primeira estação espacial, Skylab, reentrar na atmosfera por um acidente, ameaçando cair em algum território habitado.

Dessa vez Delpy mergulha em uma nostalgia resgatada de sua própria infância em um filme mais autobiográfico do que pareceu ser 2 Dias Em Paris, mas acima de tudo, nos traz de volta uma época que há muito foi esquecida, onde computadores, celulares e a internet não interferiam na natural decorrência de experiências e aventuras da idade. Uma época em que crianças brincavam livres nos quintais de suas casas, exploravam o mundo que as rodeavam e ouviam conversas adultas cujos significados pouco importavam. Adultos e crianças misturados, assuntos dos mais diversos com conotações sexuais e políticas que hoje soariam chocantes, mas eram tão naturais quanto fumar em ambientes fechados. E nem por isso a infância era perdida ou a inocência corrompida, nem mesmo em uma praia de nudismo. Cada um sabia sua idade, seu lugar, e seu respeito. Não havia excesso de malícia, e isso era o que bastava.

Em uma primeira parte a história não evolui muito além de embalar o espectador nessa viagem nostálgica um tanto Woody Allen de ser pelo ponto de vista da pequena e curiosa Albertine. É muito mais apreciada principalmente por quem nasceu entre os anos 70 e 90, pois irão se identificar mais facilmente com essa bagunça familiar costumeira e aquela sensação grandiosa da infância e pré adolescência de que tudo era possível e que apenas o céu era o limite.

Delpy desenvolve uma narrativa que faz toda uma época ter sentido, e constrói com imagens memórias e situações que se perderam com o tempo, como a da família como uma unidade inviolável mesmo entre escândalos da matriarca aniversariante na mesa de almoço enquanto uma discussão política acontece entre uma parte de esquerdistas feministas e outra de direitistas fascistas.

Mas em uma segunda parte, que coincidirá com a queda do Skylab, é quando Delpy emerge a densidade na história e a sensação de tudo estar passível de mudanças é exposto, desde o tio que voltou da guerra com profundos traumas psicológicos, ou até mesmo a própria Albertine que repentinamente atinge a puberdade, pegando todos de surpresa. Uma simbólica metáfora de que o tempo não para e que a modernidade tem feito a maturidade chegar mais precocemente do que se espera, e junto com ela a perda de certos valores morais que a própria Albertine adulta havia perdido. A diretora e roteirista usa a histeria coletiva da possível queda do Skylab como um excelente ponto de tragédia, seja para Albertine que se confronta pela primeira vez com a possibilidade de morrer, como será para os outros o fim de uma era de medo e dúvidas e o começo de um provável futuro promissor.

Com um visual memorável que relembra os principais detalhes da época, e uma bela fotografia que acentua mais ainda o poder familiar perdido e a importância da infância como um fator obrigatório de descobertas e mudanças, Skylab é delicado até mesmo nos momentos em que tenta ser denso, pois Delpy injeta comedidas doses de humor trágico para que esta comédia familiar não se transforme em um drama desnecessário. Afinal, a intenção é mostrar as aventuras e desventuras, os prazeres e desprazeres que transformam indivíduos tão únicos e diferentes em uma unidade tão forte sem uma razão óbvia.

Não é um filme de narrativa dinâmica ou hilária. Um pouco longo até sua conclusão por conta de excessos de cenas para construir essa atmosfera familiar com o espectador, mas que com o passar dos minutos se transforma em uma viagem interessante ao passado, contada de maneira bastante clássica e confortante mesmo assim. Porém, não entrega tudo aquilo que promete. Não é tão cativante quanto se espera, nem tão impressionante como parecia. Poderia ter estendido um pouco mais os conflitos políticos e as diferenças de ideais em um período de ascensão feminista e declínio de intenções comunistas, não pelo drama, mas pelos argumentos em si, pois os melhores diálogos do filme acontecem justamente quando esses temas são postos sobre a mesa.

CONCLUSÃO...
Uma bela e nostálgica viagem ao tempo que devolve valores há muito esquecidos. Se perde um pouco no tempo, se estendendo em situações que pouco levam a algo, e encurtando outras que fariam do roteiro algo não mais interessante, mas que traria um equilíbrio mais apreciável entre o humor cáustico de Delpy e a densidade que a história não construiu apropriadamente.
Add to Flipboard Magazine.